31 de outubro de 2026

A primeira lei de Buridan: o movimento inercial


O físico e historiador francês Pierre Duhem resgatou a obra do filósofo francês Jean Buridan (1300-1358), que na Idade Média parece ter gozado de grande influência, embora atualmente poucos o conheçam. Ocorre que Buridan foi o verdadeiro formulador da “primeira lei de Newton”, o chamado “princípio da inércia”, segundo o qual um corpo em repouso tende a permanecer em repouso, e um corpo em movimento retilíneo uniforme tende a continuar em movimento, a menos que uma força externa atue sobre ele.

Este princípio, que hoje nos parece tão trivial, marca um autêntico giro cognitivo na visão cosmológica da humanidade. Aprendemos com Alexandre Koyré como Nicolau de Cusa, no final da Idade Média, já propunha a ideia de que a estrutura ontológica do mundo é semelhante em toda parte: a mudança e a corrupção ocorrem em qualquer lugar e a Terra, por não estar no centro do mundo, não é um lugar dotado de uma filosofia da natureza própria. De maneira muito enxuta, cabe relembrar que, séculos mais tarde, Giordano Bruno defendeu a tese da infinitude do mundo, e com isso o homem perde sua posição central no universo e, por fim, Newton faz uso da ideia de espaço absoluto e movimento absoluto e, em conjunto com as descobertas científicas de Kepler e Galilei, propõe a inércia como um princípio de sua filosofia da natureza (“física”).

No entanto, o argumento do filósofo e físico húngaro Stanley Jaki (1924-2009) é que todo esse desenvolvimento científico só pôde ser possível por causa da doutrina da criação, segundo a qual todos os seres, celestes e terrestres, estão radicalmente situados ao mesmo nível. Todos são criaturas. Essa visão se opõe frontalmente à visão cósmica grega de que havia uma diferença essencial entre as coisas materiais nos céus e na Terra. Foi a nova visão cristã da criação que tornou possível o método para estudar os corpos que se movem na Terra. Foi essa mentalidade, aliada à recusa de Buridan da ideia de Aristóteles da eternidade do movimento celeste como causa do movimento terrestre, que lhe permitiu expor o movimento inercial (a força moderna ele chamava de “ímpeto”) nestes termos:

Quando Deus criou o mundo, moveu cada uma das esferas celestes como quis, e ao movê-las imprimiu nelas o ímpeto que as movia, sem ter Ele que movê-las senão por via de influência geral pela qual concorre como coagente em todas as coisas que acontecem... E esses ímpetos que Ele imprimiu aos corpos celestes não diminuíram nem degeneraram depois, por não haver tendência nos corpos celestes a outros movimentos. Nem tampouco havia resistência que degenerasse ou reprimisse esse ímpeto.

Foi este movimento inercial de Buridan que, ao longo dos dois séculos subsequentes, formou o clima intelectual no qual desenvolveu-se a chamada física moderna. A ideia de um universo completamente ordenado, tão indispensável para a ciência, funda-se no Cristo cósmico, no Logos. O que era natural para Newton seria o cúmulo do ilógico para Platão e seu Demiurgo e para Aristóteles e suas estrelas fixas e regiões sublunar e supralunar. A existência de uma ordenação total das coisas é o que permitiu o pensamento filosófico de Tomás e a ciência moderna.

Fonte: Stanley Jaki, Cristo y la ciencia, Asociación Española Ciencia y Cultura, Madrid, Espanha, [2000] 2021.