Não é a primeira vez que nos debruçamos sobre a análise junguiana no contexto da psicologia profunda (ou, como prefere Echavarría, "psicologa oculta"), mas vale a pena desenvolvermos um pouco mais alguns aspectos de sua doutrina psicológica. Um traço
biográfico marcante de Carl Jung, que de certa maneira pauta sua vida e seu
desenvolvimento pessoal, é a convicção adquirida já em sua juventude de que o
homem tem duas personalidades separadas: a “número 1”, que é a personalidade pública
do dia a dia, e a “número 2”, que é a personalidade “mais velha”, apartada da
agitação do mundo e próxima da natureza, dos animais, dos sonhos e de Deus,
desprovida de caráter próprio, portadora de uma visão total da vida e capaz de
acessar a mente de Deus. Anos mais tarde, Jung rebatizaria a personalidade número
1 de ego e a número 2 de Si-mesmo (Self).
Desde a adolescência,
com base em experiências pessoais e leituras como Goethe, Mestre Eckhart, Schopenhauer
e Kant, o objetivo de vida de Jung passou a ser a busca pela gnose, isto
é, pelo conhecimento da realidade da psique mediante revelações diretas e
pessoais. Jung empreendeu uma série de estudos de médiuns, que lhe permitiram
concluir que os complexos incrustados no inconsciente pessoal se manifestam na
forma de transes, sonhos e alucinações e que, portanto, é ali, no inconsciente,
que está o “campo de batalha” para o desenvolvimento da personalidade (a famosa
individuação). O Si-mesmo, portanto, não busca apenas metas biológicas,
mas a realização espiritual mediante a arte, a religião e a vida interior como
um todo. O ego, por seu lado, é uma espécie de “executor” do Si-mesmo, e Jung
nunca distinguiu com precisão a diferença entre ego e consciência.
Em uma série
de transes, Jung conversou com duas figuras que, segundo sua interpretação,
representam os dois principais arquétipos: uma bela jovem chamada Salomé
(arquétipo do Eterno Feminino) e um velho de barba branca e asas de
martim-pescador chamado Filemon (arquétipo do Velho Sábio). Estas experiências
o fizeram alargar ainda mais seu horizonte de interesses, incluindo aí sincronicidade,
discos voadores, psicoterapia, alquimia, I Ching, religiões etc. A velhice,
ensinava Jung, é um período de progresso e refinamento, não de declínio.
Esses
arquétipos são as estruturas psíquicas fruto da herança arcaica da humanidade que,
segundo Jung, pautam o inconsciente coletivo. Aqui cabe uma observação importante:
os arquétipos são comuns à humanidade, mas o inconsciente coletivo é, apesar do
nome, individual. Em outras palavras, um indivíduo tem o inconsciente coletivo (para
o qual os arquétipos servem de estrutura e cujo núcleo de autoridade é o
Si-mesmo), o inconsciente pessoal (para o qual os complexos servem de
estrutura) a consciência (na qual o ego é o núcleo de autoridade). Vejamos um
diagrama que ilustra bem o modelo psíquico de Jung:

Os arquétipos,
vale reforçar, são importantíssimos no esquema psíquico de Jung. São eles
fundamentalmente que compõe a personalidade mais autêntica, como se fossem as
formas que organizam nosso ser mais íntimo e nosso padrão de comportamento.
Assim como nosso corpo não é “feito” do que comemos, assim também nossa psique não
é “feita” do que experienciamos. Há leis ou regras por trás, e, no caso específico
da psique, há arquétipos por trás. Lévi-Strauss e Noam Chomsky lançaram mão de conceitos
semelhantes ao dos arquétipos, embora sem referenciá-los diretamente a Jung. O
conceito de arquétipo é tão importante que Jung defende a ideia de que a sincronicidade,
ou seja, a coincidência aparentemente sem causa de fenômenos díspares se explicaria
pela ordem arquetípica.
Jung
distinguia, na vida psíquica, duas subpersonalidades que chamava de persona
e sombra. A persona é formada no transcurso da vida
social para que possamos ser aceitáveis. A sombra é um complexo
incrustado no inconsciente cujo núcleo, como não poderia deixar de ser, é um
arquétipo (os principais são o inimigo, o predador e o estranho mau). O Inimigo
é o mais importante, e designa a personificação da ameaça oposta e consciente,
o adversário contra o qual o ego mobiliza defesas de combate, projeção ou
rejeição ativa. As principais fontes desses complexos são a doutrinação cultural
e a repressão familiar. Procuramos manter nossa sombra fora do alcance dos
outros porque estamos submissos a ela, o que Jung chamava de complexo moral
(semelhante ao superego de Freud).
Em nossa relação
com o sexo oposto, também nosso comportamento é estruturado por arquétipos. Nos
homens o anima e nas mulheres o animus. O processo
de apaixonar-se se explica quando o indivíduo nota ou sente que o outro realiza
seu arquétipo. A força da paixão se explicaria, defende Jung, pelo caráter
autonômico do complexo.
Jung
desenvolveu, com base em traços psíquicos comuns, que se apoiam, novamente, em
arquétipos, seus famosos tipos psicológicos. Há quatro funções
psicológicas fixas (racionais: pensamento e sentimento; irracionais: sensação e
intuição), disponíveis para todos os seres humanos, que se apresentam em duas
posturas: introversão e extroversão. No total há, portanto, oito tipos
psicológicos. Não há tipos “puros”: em alguns indivíduos o tipo é mais estável,
enquanto em outros é praticamente impossível de determiná-lo. É importante que
o individuo procure conhecer seu tipo pois isso tem um caráter libertador, já
que lhe possibilita navegar de maneira mais certeira nas possibilidades da
vida.
Jung dava
grande importância aos sonhos. Segundo Stevens:
A teoria dos sonhos de Jung pode ser resumida sob quatro rubricas:
1. Os sonhos são eventos naturais e espontâneos, que decorrem independentemente da vontade ou intenção consciente;
2. Os sonhos são simultaneamente propositados e compensatórios, na medida em que servem para promover o equilíbrio e a individuação da personalidade;
3. Os símbolos dos sonhos são verdadeiros símbolos [entidades vivas], não signos, e possuem uma função transcendente;
4. O poder terapêutico dos sonhos é mais bem servido pelas técnicas de ampliação e imaginação ativa do que pela interpretação baseada na “associação livre”.
Note que os
símbolos têm função transcendental. E note também que a ideia não é
interpretar o sonho, mas amplificá-lo: descobrir o contexto do sonho na vida da
pessoa, o contexto cultural em que se insere e, por fim, enlaçá-lo com a vida
arquetípica da pessoa e da espécie humana.
Foi Jung
quem substitui o famoso divã freudiano, com o terapeuta em postura ausente e
diluída, pelo diálogo terapêutico socrático contemporâneo. Ademais, Jung também
reprovava a postura psiquiátrica, ainda em voga atualmente, de considerar a
doença psíquica quase como uma “entidade” à parte da pessoa. Pelo contrário,
Jung via a doença psíquica como um fenômeno intensamente individual.
Em termos muito gerais, Jung acreditava que a esquizofrenia (psicose) e a histeria (neurose) eram expressões extremas dos dois tipos de atitude fundamentais: a introversão extrema, que resulta num retraimento da libido em relação à realidade exterior e conduz a um mundo inteiramente privado de fantasia e de imaginação arquetípica, e a extroversão extrema, que afasta o indivíduo de um senso de integridade interior para o conduzir a uma preocupação exagerada com a própria influência no mundo das relações sociais. Por outras palavras, os esquizofrênicos vivem no inconsciente, enquanto os histéricos vivem na sua persona.
Para o
junguiano, a doença é uma comunicação simbólica vinda do inconsciente que
indica onde o paciente ficou estagnado nos seus esforços para atender às
exigências do programa arquetípico para a vida. Na terapia junguiana, o
trabalho com o inconsciente coloca o indivíduo face a face com a sombra, a anima
ou o animus, e outros componentes arquetípicos que são ativados, como
uma compensação homeostática natural, para um desenvolvimento anteriormente
estreito, neurótico ou unilateral.
Stevens
chama a atenção para dois aspectos biográficos que lhe deram má fama a Jung: a
bigamia e o antissemitismo.
Fonte: Anthony Stevens, Jung,
Oxford University Press, Oxford, Reino Unido, [1994] 2001.
