A massa
Gustave Le Bon
explica que a tal “massa psicológica” se forma mediante a destruição da
superestrutura psíquica de cada indivíduo, aparecendo assim a base
inconsciente comum a todos eles. É essa base inconsciente que, segundo Freud,
funciona como o elemento que “solda” os diversos indivíduos para formar a
massa. A massa então adquire três características: (1) os instintos lhe conferem
um sentimento de potência invencível, (2) os interesses pessoais cedem
facilmente ao contágio do interesse coletivo, e (3) os indivíduos se tornam
facilmente sugestionáveis, ou seja, impressionáveis, algo semelhante ao
indivíduo em estado de fascinação ante seu hipnotizador.
A alma da multidão
passa a ser comparável à alma de uma criança. Com a instância racional devidamente
anestesiada, a massa influenciável e crédula pensa por imagens e, por isso,
seus sentimentos são simples e exaltados. A massa não desconfia, não tem
dúvidas, para ela não há incertezas. A bondade é uma fraqueza, é algo
que à massa impressiona muito pouco. Como está conectada aos instintos, a massa
se apega a comportamentos conservadores e desenvolve um respeito fetichista às tradições.
Mas toda
massa precisa de um chefe, um líder. É o líder que, também ele imbuído de uma
intensa fé numa ideia, fará surgir na massa a mesma fé. Le Bon, e Freud com
ele, atribuem essa transmissão a um poder misterioso e irresistível chamado
de prestígio. O líder consegue incitar a emotividade dos indivíduos
que, por seu lado, reduzem a inteligência da massa a um mínimo denominador
comum.
Como a
psicanálise explica a formação da massa
Freud entende
que a sugestão é uma explicação correta, embora superficial, para a formação da
massa. O que explica a própria sugestão? Como é de praxe em seu pensamento, Freud
lança mão da libido como elemento explicativo da psicologia
coletiva e a aplica no âmbito da identificação.
Funciona
assim: a criança pequena manifesta interesse pelo pai, no sentido de querer ser
como ele e substituí-lo. Eis a identificação, isto é, a manifestação precoce
de um enlace afetivo. É, digamos, a pré-história do complexo de Édipo (o leitor
pode consultar mais detalhes aqui). Com o passar do tempo, alguns objetos substituem o enlace libidinoso original
por meio de uma introjeção no ego. Isso ocorre porque o novo objeto possui
traços comuns com o enlace libidinoso reprimido, embora não desenvolva com esse
objeto nenhuma relação libidinosa. É como se o instinto sexual “se revestisse”
desse objeto. Esses sentimentos, devidamente reprimidos, ressurgem na forma de
laços amorosos com os demais indivíduos da massa: todas as particularidades
conflitantes, as aversões mútuas, as diferenças, tudo é tolerado, todos passam
a ser iguais. Eis o efeito do novo enlace libidinoso.
É a identificação
recíproca entre os membros da massa que explica sua união.
Na
puberdade, o indivíduo desenvolve relações que vão dar vazão às suas “tendências
sexuais muito intensas”, mas, por outro lado, ficam latentes as tendências
sexuais para com a pessoa originalmente alvo da identificação. Por isso há um novo objeto que substituirá
tais tendências reprimidos e ganhará ares de respeitabilidade, de excelência,
de perfeição: o ego, devidamente moldado e diminuído à nova situação,
entrega-se ao objeto, que o “devora”. É o processo de idealização (na versão espanhola preserva-se melhor o caráter afetivo com a palavra enamoramiento). Em
suma: o objeto ocupa o lugar do ideal do ego. É algo muito
próximo ao processo de hipnose. É a idealização que explica a submissão da
massa ao líder. Esse ideal do ego é o equivalente a um carnaval, ao
período no qual o indivíduo pode abandonar suas restrições e entregar-se “de
corpo e alma”.
Fonte: Sigmund Freud, Psicología de las masas, Alianza Editorial, Madrid, Espanha, 2010.
