18 de julho de 2026

Noites brancas


– Então agora você me conhece?

– Um pouquinho. Se não, diga-me, por que você está tremendo?

– Ah, vejo que você adivinhou de primeira! – respondi, entusiasmado ao comprovar que a jovem era inteligente, coisa que nunca atrapalha a beleza.

* * *

Pois a conclusão foi que temos de começar de novo porque hoje me dei conta que absolutamente não lhe conheço, que ontem me portei como uma mulherzinha e, naturalmente, a culpa de tudo isso é do meu bom coração.

* * *

Lembre-se que as escreve [minhas linhas impacientes] uma pobre garota sozinha, sem ninguém que a ensine ou aconselhe, e que esta garota nunca conseguiu dominar seu próprio coração.

* * *

Lembro-me do jeito que ele me olhou no dia em que apareci no quarto dele com aquela bagunça de roupas... Enfim, ele merece meu máximo respeito, e isso quase equivale a dizer que não estamos no mesmo nível.

– Não, Nástenka, não. Isso significa que você o ama mais do que qualquer pessoa no mundo, que você o ama até mais do que a si mesma.

* * *

Se me perdoar, sua memória guardará em minha alma a sublime exaltação de um sentimento de eterna gratidão que jamais se desvanecerá... Guardarei esta memória com carinho, serei fiel a ela [à memória] e não a trairei [a memória], pois isso seria o mesmo que trair meu coração, que é extremamente leal. Ontem, ele [o coração] se apressou em retornar às mãos de seu legítimo dono.

Fonte: Fiódor Dostoiévski, Noches blancas, Galaxia Gutenberg, Barcelona, Espanha, 2025.