– Então agora você me conhece?
– Um
pouquinho. Se não, diga-me, por que você está tremendo?
– Ah, vejo
que você adivinhou de primeira! – respondi, entusiasmado ao comprovar que a
jovem era inteligente, coisa que nunca atrapalha a beleza.
* * *
Pois a conclusão
foi que temos de começar de novo porque hoje me dei conta que absolutamente não
lhe conheço, que ontem me portei como uma mulherzinha e, naturalmente, a
culpa de tudo isso é do meu bom coração.
* * *
Lembre-se
que as escreve [minhas linhas impacientes] uma pobre garota sozinha, sem ninguém
que a ensine ou aconselhe, e que esta garota nunca conseguiu dominar seu
próprio coração.
* * *
Lembro-me
do jeito que ele me olhou no dia em que apareci no quarto dele com aquela
bagunça de roupas... Enfim, ele merece meu máximo respeito, e isso quase
equivale a dizer que não estamos no mesmo nível.
– Não, Nástenka,
não. Isso significa que você o ama mais do que qualquer pessoa no mundo, que você
o ama até mais do que a si mesma.
* * *
Se me
perdoar, sua memória guardará em minha alma a sublime exaltação de um
sentimento de eterna gratidão que jamais se desvanecerá... Guardarei esta
memória com carinho, serei fiel a ela [à memória] e não a trairei [a
memória], pois isso seria o mesmo que trair meu coração, que é extremamente
leal. Ontem, ele [o coração] se apressou em retornar às mãos de seu legítimo
dono.
Fonte: Fiódor Dostoiévski, Noches blancas, Galaxia Gutenberg, Barcelona, Espanha, 2025.
