O progresso
Há dois tipos
de progresso. O primeiro tipo, o mais comum, é o progresso da construção de uma
casa, por exemplo. Uma casa meio construída não serve: é necessário que se atinja
um mínimo de avanço, digamos, 99%, para que a casa se torne habitável. É um
progresso que leva a um fim (a habitação dessa casa, por exemplo). O segundo tipo
é mais sutil, a exemplo do progresso educacional de uma criança. Uma criança
meio educada, sim, “serve”: não é necessário que atinja um mínimo de avanço
para que a criança seja considerada uma criança. É um progresso de algo que já é
um fim. Isso vale para um amor, uma amizade, um paciente etc. Portanto, uma
coisa é progredir para um fim, outra coisa é um fim progredir. Aqui é óbvia
a distinção entre substância e acidente.
Em especial
chama a atenção a questão do progresso tecnológico. Ele é oferecido às massas,
mesmo que sutilmente, como necessário à condição humana. É claro que se trata
de erro de raciocínio: a humanidade em si já é humanidade, não precisa de “progresso
tecnológico” para melhorar uma condição que já possui em sua integralidade. A
tecnologia, por mais exuberante e útil que seja, toca apenas acidentalmente a
existência humana, enquanto substancialmente mantém-se alheia. Ocorre que o
estado atual da cultura praticamente nos obriga a considerar o novo, o recente,
como melhor. Lewis acredita que essa distorção psicológico-cognitiva surgiu com
a ascensão das máquinas.
O mesmo
vale para a história, que, tal como a tecnologia, não tem sentido em si (ambas
fazem parte do devir, do mundo do movimento, do mundo do acidente, do acessório).
Isso não significa que não devamos nos esmerar, na vida prática, em termos uma
casa, equipamentos tecnológicos ou prestar atenção à dinâmica da história. Mas
isso significa, sim, que não devemos atribuir a nada disso a substancialidade
que não tem. Uma habitação é uma condição necessária para a vida? Sem dúvida,
assim como comida, bebida, sexo, sono. Mas melhorar sua vida não fará de você “mais”
ou “menos” ser humano.
Os seres
espirituais
Lewis faz
uso do termo numinoso, criado por Rudolf Otto, que seria um tipo
de sentimento absolutamente singular que não se reduz a conceitos racionais,
morais ou teológicos. É aquilo que constitui o “sagrado” antes de
qualquer elaboração intelectual. Lewis entende que esse pavor de algo
estranho é muito mais que um medo de algo perigoso. Não temos medo dos fantasmas
pelo que eles podem fazer, mas simplesmente temos medo deles.
Ser
ético é antiético
Ninguém quer
estar com gente que é limpa, honesta e gentil por dever. Gostamos de
estar com gente que gosta de ser limpa, honesta e gentil. A mínima suspeita
de que alguém está sendo gentil e amoroso por dever basta para envenenar a relação.
O moralismo é autodestrutivo. As obras não salvam ninguém. Lewis cita Tyndale
quando diz que o Evangelho veio para nos salvar da moralidade. Um dos objetivos
da religião deveria ser abolir a moralidade ensinando às pessoas como serem
boas, e não como cumprirem regras morais. A educação moral é ensinar a fazer
as coisas com gosto, e não a fazer as coisas por obrigação.
A vida
espiritual
Que a vida
espiritual transcenda a inteligência e a moralidade é óbvio. Mas isso não significa
que a vida espiritual deixe de englobar a inteligência e a moralidade ao transcendê-las.
Assim, por exemplo, como a poesia transcende a gramática sem excluí-la. (Ou
seja, a vida espiritual não é como a álgebra que, sim, exclui a gramática).
A
felicidade
Deixar de buscar
sua própria felicidade soa belo, mas é falso. Como ensinam os antigos, a
felicidade de um povo é a felicidade de seus integrantes. Deixar de buscar sua própria
felicidade parece belo porque é o altruísmo tentando se apresentar como antônimo
do egoísmo, quando não é. O antídoto do egoísmo é o amor, não o altruísmo.
A vida
pública
O bem comum
passa longe de temas como saneamento público e demais bens materiais. As
sociedades humanas se formam de acordo à natureza humana, e nem teria como ser
diferente. Os homens são sociais porque são racionais. Isso significa que
constituímos comunidade somente onde a palavra for o centro. É nessas
comunidades onde podemos deixar uma marca no próximo, quando podemos aprender
uns com os outros, quando encontramos refúgio uns nos outros. Ninguém vive no
Estado, assim como ninguém vive na família. As comunidades humanas se formam em
instituições intermediárias a essas duas, a saber, em grupos de amigos, instituições
educativas, clubes esportivos, movimentos espirituais, partidos políticos etc.
É neste
sentido que Aristóteles ensinava à Nicômaco em seu Livro VIII da Ética que a amizade (amor) é o que há de mais necessário à vida. Claro que
Aristóteles não se refere à subsistência humana (neste sentido há coisas muito
mais necessárias), mas à boa vida, à vida bem-sucedida. A pessoa pode passar
toda sua vida sem amigos, mas sua vida ao final será um fracasso. E será um
fracasso porque passou toda sua vida sem querer o bem do outro.
O ideal
cavalheiresco
“O ideal
cavalheiresco representa o único escape de um mundo dividido entre lobos que não
entendem nada e ovelhas que não sabem defender as coisas que tornam esta vida
desejável”. (C. S. Lewis)
O
cavalheiro não é um compromisso entre a ferocidade e a mansidão. O cavalheiro é
aquele que sabe pelo contexto quando deve ser sumamente feroz e quando deve ser
sumamente manso. O cavalheiro é aquele que tem seus pensamentos, sentimentos e comportamentos
sob controle, e não aquele cujos pensamentos, sentimentos e comportamentos o
controlam.
O
inferno
A pessoa
está psicologicamente no inferno quando se encontra totalmente fechada em seu próprio
eu, de modo que nem Deus nem ninguém pode entrar ou tirá-la de lá. Como disse
Lewis na voz de Aslan, o leão-protótipo de Cristo: “[Essas pessoas] não deixam
que as ajudemos pois escolheram a astúcia ao invés da fé. A prisão
existe somente em suas mentes e, no entanto, estão verdadeiramente fechadas
nelas”. Às vezes Lewis substitui astúcia por orgulho ou soberba.
A força do
orgulho é tão brutal, tão intensa, que ela é capaz de aplacar outros vícios em
prol de sua glória. Há certos vícios que superamos porque julgamos que “não somos
dignos deles” e, pela força do orgulho, os transformamos em algo pior. O
orgulho não é um vício meramente carnal, mas espiritual. A “usina de força” do
orgulho é negar nossa dependência de Deus e dos demais homens. O eu cresce a tal
ponto que impede que nos enriqueçamos com as outras pessoas. Afinal, sair de
nós mesmos é a principal tarefa da vida.
A saída do
orgulho é alargar o horizonte cultural. Não que a literatura, a filosofia e a
psicologia sejam, em si, garantia do que quer que seja, mas a pessoa melhor
cultivada vê aumentadas suas chances de reconhecer que a realidade é no mínimo
muito excêntrica, e que, longe do que supunha, pouca coisa está realmente resolvida.
A verdade última, ao invés de parecer algo remoto e fantástico, entra no
campo da estranheza e, dessa forma, abre-se um caminho possível para que a fé
possa trilhar. Uma genuína experiência literária pode ser uma saída para o
soberbo, o astuto, o “esperto”, o orgulhoso.
Fonte: Manfred Svensson, Más allá de la sensatez,
Editorial CLIE, Barcelona, Espanha, 2011.
