4 de outubro de 2022

A estupidez inteligente e outros insights estoicos


Em um ensaio entitulado "On Stupidity", Robert Musil distingue duas formas de estupidez (amathia), a chamada "honorável", já que decorre de uma simples incapacidade natural, e a chamada "inteligente", que seria muito mais sinistra e danosa.

A estupidez inteligente não é falta de inteligência, mas um fracasso da inteligência, ou seja, a inteligência se orgulha de certas realizações de que não tem direito. A estupudez inteligente não é uma doença mental, embora seja muito letal; uma doença perigosa que põe em perigo a própria vida. O perigo não esta na incapacidade para compreender, mas em negar-se a compreender, e nenhuma cura é possível por meio de argumentos racionais, por meio de acúmulo de dados e informações, ou por meio da experiêcia de sentimentos novos e diferentes. Em vez disso, a estupidez inteligente é uma doença espiritual e precisa de uma cura espiritual.

As pessoas que se caracterizam pela amathia não podem ser persuadidas simplesmente com argumentos racionais, pois compreendem o argumento, mas apresentam uma deficiêcia crucial em seu caráter, o qual, como demonstram os estoicos, se desenvolveu ao longo do tempo como uma combinação de instintos, influências ambientais (em especial a orientação da família) e a razão. Se algo vai mal nos primeiros estágios de desenvolvimento de uma pessoa, é difícil que a razão por si só consiga retificar a amathia resultante em um estágio mais avançado da vida.

Então, por que indignar-se com essas pessoas? Pelo contrário, por que não sentir pena delas, já que você quer sentir alguma coisa?

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Os psicólogos modernos, como Leon Festiger, descobriram um fenômeno pertinente conhecido como dissonância cognitiva. Em suma, a pessoa está consciente do conflito entre duas opiniões que acredita serem igualmente certas. Então, para reduzir a dissonância, se respalda em qualquer expicação que apresente o que acredita serem boas razões para chegar a uma opinião sensata. Quanto mais inteligete a pessoa, tanto melhor será a racionalização das fontes de suas disonâncias cognitivas.

Quanto a nós, recordar que as pessoas fazem coisas más por falta de sabedoria não é apenas uma recordação para que sejamos compassivoa com elas, mas também nos serve para que constantemente nos recordemos de como é importante que aumentemos nossa sabdoria.

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O objetivo do estoicismo não é suprimir ou ocultar as emoções, mas se trata de reconhecer nossas emoções, refletir sobre o que as provoca e redirecionà-las para nosso próprio bem.

A razão pricipal que me fez converter ao estoicismo é que esta filosofia é a que fala mais direta e convincentemente sobre a inevitabilidade da morte e como se preparar para ela, como morrer de maneira digna de tal forma que nos permita alcançar a tranquilidade mental e que sirva de consolo para os que ficam.

Para os estóicos, a vida é um projeto em desenvolvimento e a morte sua meta lógica e natural, não é nada especial em si mesma, não é nada de que devemos ter medo.

O estoicismo se origniou e desenvolveu em uma época de inestabilidade política; a vida das pessoas podia mudar radicalmente em um instante e a morte podia chegr a qualquer um a qualquer momento.

O estoicismo é a raiz filosófica de uma série de terapias psicológicas baseadas em estudos científicos, entre elas a logoterapia de Viktor Frankl e a terapia cognitivo-comportamental de Albert Ellis e Aaron Beck.

Embora o estoicismo tenha se definido desde o princípio como uma filosofia eminentemente prática, não seria uma "filosofia" se não se baseasse em algum tipo de marco teórico. Esse marco é a ideia de que para viver uma boa vida ("boa" no sentido de vida eudaimônica) se devem compreender duas coisas: a natureza do mundo (e, por extensão, nosso lugar nele) e a natureza do raciocínio humano (inclusive quando fracassa, o que é algo muito frequente).

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1. Examinar nossas impressões
Converta em uma prática o fato de dizer a cada impressão forte: "você é somente uma impressão, não a fonte da impressão". Isso está sob meu controle ou não? Se não é algo que você controle, então esteja preparado para reagir da seguinte forma: "isso não é da minha conta". A ideia não é que não devamos nos preocupar com as coisas que acontecem. Mas se realmente não há nada a fazer em relação a essa situação, então não deveríamos continuar nos "preocupando" com ela.

2. Lembre-se da fugacidade das coisas
Quando der um beijo na sua esposa ou filho, repita o seguinte: "estou beijando um mortal". Dessa maneira não ficará tão desconsolado quando lhes forem arrebatados. Trata-se de uma visão realmente profunda da condição humana, pois entre outras coisas nos aconselha a que cuidemos e apreciemos muito o que temos agora precisamente porque o destino pode tomá-las amanhã.

3. A cláusula da reserva
Sempre que planejar uma ação pratique mentalmente o que o plano implica.

4. Como posso usar a virtude aqui e agora?
Ao ser provocado pela visão de uma mulher atraente você descobrirá em seu interior o poder contrário do autocontrole. Ao enfrentar a dor você descobrira o poder da resistência. Quando lhe insultarem você descobrirá a paciência. Utilizemos portanto cada uma dessas ocasiões, desses desafios, como uma maneira de exercer a virtude, de nos convertermos em seres humanos melhores mediante sua aplicação constante.

5. Fazer uma pausa e respirar fundo
Lembre-se, não basta que lhe batam ou insultem para que você seja ferido, mas você tem de acreditar que vai ser ferido. Se alguém conseguir lhe provocar, observe que sua mente é cúmplice da provocação. Eis porque é essencial que não respondamos umpulsivamente às impressões que recaem sobre nós.

6. Alterizar
Quando morre a esposa ou filho de alguém todos dizem o mesmo: "Pois é, a morte faz parte da vida". Mas se for a morte de algum membro da nossa família então dizemos: "Que desgraça! Pobre de mim!" Seria melhor se lembrássemos como reagimos quando uma perda dessas acontece com alguém. Os acidentes, as feridas, as doenças e a morte são inevitáveis e, mesmo que seja compreensível que nos sintamos desconsolados ante tais eventos, podemos nos consolar sabendo que se trata da ordem normal das coisas. O universo não nos persegue, ou ao menos não persegue ninguém em particular.

7. Falar pouco e bem
Deixe que o silêncio seja seu objetivo na maioria das ocasiões. Diga somente o que for necssário e seja breve. Nas raras ocasiõe em que lhe pedirem para falar, fale, mas nunca sobre banalidades.

8. Escolha bem suas companhias
Evite fraternizar com não-filósofos. Mas se tiver que fazê-lo, tenha cuidado para não baixar a seu nível; porque, você sabe, se um companheiro estiver sujo, seus amgos não podem evitara que se sujem um pouco também a despeito do limpo que estavam em princípio.

9. Responder aos insultos com humor
Se souber que alguém está falando mal de ti, não tente defender-se dos rumores; em vez disso, diga: "sim, e ele não sabe nem a metade, pois poderia ter dito ainda mais". Responsa de maneira autodepreciativa. Assim nos sentiremos melhor e o difamador, envergonhado, ou pelo menos desarmado.

10. Não falar muito de nós mesmos
Nas suas conversas, não se alongue muito em suas conquistas ou aventuras. Só porque goste de contá-las não significa que os demais extraiam o mesmo prazer ao escutá-las.

11. Falar sem julgar
Se alguém toma banho com pressa, não diga que toma banho mal, mas que toma banho com pressa. Se alguém bebe muito vinho, não diga que bebe mal, mas muito. Enquanto não conhecer as razões pelas quais fazem essas coisas, como você pode concluir que suas ações são más? Fazendo assim você evitará perceber algo com clareza, mas que depois se expresse de maneira diferente.

12. Reflita sobre seu dia
Onde errei? O que fiz ou deixei de fazer? Revise suas ações e então, por seus atos infames, admoesta-se, pelos seus atos bons, alegre-se.

Fonte: Massimo Pigliucci, Como Ser un Estoico, Editorial Planeta, Barcelona, Espanha, 2018.

3 de outubro de 2022

Como lidar com doenças terminais


Se você está enlutado por causa de uma doença terminal, seja sua ou de um amigo, é importante que entenda a diferença entre o luto saudável e racional que resulta dessa perda pessoal e o luto irracional (auto-destrutivo). Este em geral resulta em depressão.

Ocorre que você exige que o mundo não seja tão injusto a ponto de abreviar sua vida. Ou que você insiste que o mundo absolutamente não deveria lhe tratar dessa maneira tão injusta que está lhe tratando. Ora, que masturbação mental maravilhosa! Ao choramingar e reclamar sobre sua morte iminente você estará travando uma batalha que jamais poderá vencer. Todos morremos. Poucos fatos são tão inescapáveis quanto esse. Preste atenção às suas exigências, escute a maneira como você catastrofiza a situação, cuide para que esteja apenas desalentado e desanimado sobre o estado infeliz em que se encontra em vez de estaar enlutado. Observe e veja se você está condenando a Deus, os médicos ou outras pessoas que você acha que são os culpados pela sua doença. Encontre aquilo que lhe faz horrorizar pela sua doença.

Sim, claro, se uma pessoa jovem se encontra em estado terminal, trata-se de uma situação triste e injusta, mas situações tristes e injustas às vezes têm de existir. Dizer que você deveria tê-la ajudado mais é quase o mesmo que dizer que você deveria ter sido uma pessoa diferente. Além disso, nunca se esqueça que você é sempre um ser falível, sempre imperfeito, sempre propenso a errar e às vezes a transgredir.

Sempre que você sentir raiva isso significa que você está condenando médicos, amigos ou outras pessoas por lhe terem decepcionado. Você insiste que eles deveriam ter agido de maneira diferente. Eles agiram de acordo com seus caráteres e temperamentos.

Às vezes ocorre de despejarmos a raiva na pessoa amada que está ali moribunda ou até mesmo já morta. Ora, ao agir assim você está exigido que ela não deveria ter decepcionado você com sua morte. Quanta arrogância!

Fonte: Albert Ellis e Michael Abrams, How to Cope with a Fatal Illness, Barricade Books, Nova York, EUA, 1994.

2 de outubro de 2022

Os seis amores


Antes de versarmos sobre os quatro (na verdade, seis) amores, é importante desde o início mencionar que Lewis identifica nos amores três elementos:

(a) Amor-doação: é o amor propriamente dito, em sua forma mais pura. É por exemplo o amor de Deus aos homens, um amor totalmente desinteressado, sem trocas, sem barganhas.

(b) Amor-necessidade: é o amor exercido sob o impulso de algum desejo subjacente. Há um interesse, uma intenção, por trás do ato de amor. É por exemplo o amor dos homens a Deus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos" (Novo Testamento) ou "abre bem a tua boca, e ta encherei" (Velho Testamento). O amor-necessidade se manifesta de duas maneiras:

* por semelhança: no exemplo do amor dos homens a Deus trata-se da racionalidade, da grandeza, da fecundidade humanas. Os amores humanos se exercem por semelhança. Eles imageam o amor divino, e por isso mesmo caso se tornem deuses em si se tornarão imediatamente em demônios.

* por aproximação: trata-se da união, da visão, da contemplação de Deus.

(c) Amor-apreciação: é o amor resultante da impressão de que objetos, situações, cenários, grupos, instituições etc. devam existir em si e por si, de que lhes temos uma dívida a saldar, de que lhes devemos homenagear mantendo-os vivos e ativos. O amor a uma obra de arte, por exemplo.

Esses três elementos não existem de maneira isolada. Eles se sucedem um ao outro. Por exemplo, um homem pode amar uma mulher a ponto de não conseguir viver sem ela (necessidade), a ponto de querer provê-la de alegria, conforto, proteção, riqueza (doação), e a ponto de admirá-la enquanto pessoa, de agradecer pelo simples fato de tal pessoa existir (apreciação).

1. Amor sub-humano

Às vezes nos referimos às coisas que nos dão prazer (às coisas que "gostamos") como se as amássemos. "Amo batata frita", por exemplo. É certamente um uso pouco exigente da linguagem. No entanto, em linhas gerais, podems identificar dois tipos de prazer: 

(a) prazer-necessidade: tomamos um copo d'água por necessidade, mesmo que sintamos prazer nesse ato. Uma vez atendida a necessidade (ou "desejo", se quiser), cessa o prazer.

(b) prazer-apreciação: passamos em frente a uma floricultura e sentimos o agradável perfume das flores. Isso nos dá prazer a despeito de não haver uma necessidade (ou "desejo") precedente. No entanto, aqui, além de não haver uma necessidade que "empurre" o prazer, há um senso de gratificação, de remuneração, que "puxa" o prazr e lhe concede uma espécie de direito de existir. Em suma, se há prazeres que existem por cruda necessidade, há prazeres que sentimos que lhes devemos o direito de existir.

Uma vez compreendido o prazer-apreciação (que evidentemente está relacionado ao amor-apreciação mencionado acima), Lewis se concentra nos dois principais amores sub-humanos:

(I) Amor à natureza: os amantes da natureza não estão procupados com os elementos individuais da natureza (flores, árvores, animais), mas é o "estado de espírito" ou "ânimo" que a natureza lhe proporciona. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do botânico profissional, que, pelo contrário, se ocupa dos elementos específicos e quantitativos da natureza.

(II) Amor à patria: esse amor se manifesta como amor ao entorno, ao bairro, aos velhos conhecidos, às paisagens familiares, ao passado da cidade/província/país, às estórias heróicas da formação do país. Assim como o convívio fmiliar é um passo para romper parte do egoísmo do idivíduo, o convívio nacional é um passo para romper parte do egoísmo familiar. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do historiador profissional, que enaltece os elementos negativos da formação e desenvlvimento do pais e nivela moralmente os fatos, o racista/ultranacionalista, que nega a dignidade de outros povos/países, e o cínico, que rejeita completamente o sentimento de patriotismo para com seu país movido por um senso ético distorcido, exagerado, como se as causas de seu país devessem ter o status de causas divinas.

2. Amor da afeição (storge)

A afeição (ou "empatia" como diríamos hoje em dia) é de longe o mais humilde, o mais furtivo e o mais difundido dos amores. É uma espécie de "amor democrático", no sentido de que é um amor cuja expressão não apenas se deseja, mas se espera, que seja encontrado em praticamente qualquer ambiente que se frequente. A afeição é aquele amor no qual há uma espécie de satisfação em estar junto. Simples assim. Praticamente qualquer pessoa pode ser objeto de afeição. Na verdade, nem mesmo é necessária uma afinidade prévia para seu exercicio, ou seja, não é necessário que as pessoas "se combinem" física ou psicologicamente para que a afeição entre elas desperte. Não há barreiras etárias, sexuais, educacionais, econômicas. Nem mesmo entre espécies, já que aqui se encontra também a afeição do homem por um animal e vice-versa. 

Há, no entanto, um traço que necessita estar presente na relação afetiva: o fato de que as partes têm de compartilhar certa familiaridade, certa intimidade. É curioso como aqui entram coleguismos e camaradagens entre pessoas as mais insuspeitas: pessoas que à distância jamais se combinariam se veem ligadas afetivamente de maneira quase cômica.

A afeição, assim como os demais amores, apresenta o elemento de amor-necessidade. É mais ou menos intuitivo que a amizade e o amor erótico exijam certo mérito, certo esforço, para serem mantidos. A afeição também, mas ocorre que sua presença é tão generalizada que por vezes as pessoas querem que esteja presente, como se fosse algo natural. Não é bem assim. Esperar que o afeto desperte é razoável, mas presumir que temos o direito de que desperte é estupidez. Se não há normalidade e tolerância entre as pessoas a relação se transformará em aversão exatamente com a mesma naturalidade e velocidade da afeição. Traços de incivilidade, de afirmações dogmáticas, de contradições, de ridicularizações, de referências insultuosas: a ideia de que o afeto tudo suporta, que a intimidade tudo permite, parece tão verdadeira, mas é falsa. Um erro crasso, fatal. 

Ocorre que a regra fundamental do convívio público -- todos somos iguais, ninguém tem prioridade ou superioridade sobre os demais -- é deixada de lado no ambiente privado. Mas é precisamente o contrário que deve acontecer. Embora as formalidades não existam no âmbito privado, isso não significa que a regra fundamental do convívio possa ser igualmente dispensada. As formalidades existem precisamente porque não existe um nível profundo, sutil e sensível de cortesia entre as partes. No ambiente privado, as boas maneiras devem ser ainda mais observadas exatamente porque os rituais da formalidade estão ausentes. Quem não é cortês em casa também não é cortês em público: a pessoa macaqueia a cortesia em público, mas não a exerce realmente.

Outro aspecto curioso da afeição é o ciúme que porventura surge quando uma das partes rompe a familiaridade. Dois amigos, por exemplo, podem ter seu laço de afeição rompido, ou perturbado, se um deles se interessa por algo novo, por um esporte, religião, hobby, plano, filosofia etc. novo. O outro, por ciúmes, tenderá a ridicularizar o novo interesse.

E quanto ao elemento amor-doação? Ele está presente na afeição? Aparentemente sim, mas não exatamente. Pensemos no amor maternal. Dar à luz, dar de mamar, dar atenção...tudo remete a doação. Mas observe que se a doação não for feita haverá consequências graves à mãe e ao bebê. O que há na verdade é uma necessidade de doação e, ao fim e ao cabo, uma necessidade de ser necessário. De qualquer forma, esse elemento do "precisar ser precisado" pode ser perfeitamente pervertido e transformar-se num demônio. É o caso da mãe que seguidamente cuida da família, que cozinha quado não é necessário, que limpa quando não é necessário, que cuida da saúde dos filhos quando não é necessário. E por que o faz? Porque o que está por trás do instinto de doação não é a doação em si, mas a necessidade de doar. A doação deve ocorrer até que se torne supérflua, até que deva ser abdicado. O mesmo pode ocorrer na relação professor-aluno, chefe-empregado, dono-cão. 

O elemento doação do afeto pode invalidar o objeto do amor. O afeto só produz felicidade em meio ao bom-senso, à racionalidade, à decência. A mãe que supercuida é a mãe que se compraz no sofrimento que sente a despeito do bem-estar alheio. A justiça deve regular o afeto sob pena de tornar-se um demônio.

3. Amor da amizade (philia)

Muitos confundem o companheirismo com a amizade. O companheirismo, a camaradagem, o convívio no sentido mais amplo da palavra, é fruto da afeição. O companheirismo, é verdade, é a matriz a partir da qual surge a amizade, mas cabe que não as confundamos. 

A amizade é o menos natural dos amores, ou seja, a raça humna, biologicamente falando, não a necessita para sobreviver. A amizade é um relacionamento estabelecido por livre escolha, no qual impera um ambiente racional, tranquilo, luminoso. É uma relação humana do mais alto grau de individualidade. Ela surge quando duas pessoas, em geral dois homens ou duas mulheres, descobrem que compartilham um insight, um interese, um gosto, uma visao, em comum. É o momento que dizem: "O quê?! Quer dizer que você também pensa assim? Eu achava que só eu pensava assim", ou "Você vê a mesma verdade que eu vejo? Você se importa com essa mesma verdade que vemos?" Neste instante se estabelece uma imensa solidão entre eles. É como se houvesse uma união intelectual que, ao mesmo tempo que é uma união, é uma exclusão dos demais.

Se o companheirismo tem a ver com fazer algo juntos, a amizade tem a ver com fazer algo imaterial, intangível, insubstancial, juntos. É como se estivessem percorrendo um caminho secreto. Pouco importa os detalhes da vida pessoal, se são casados, solteiros, onde trabalham, onde estudaram, quantos filhos têm ou não têm etc. O que importa é percorrer a estrada juntos. Esse efeito "bolha" da amizade pode despertar naqueles que não pertencem à bolha, ou naqueles que desconhecem o amor da amizade, um sentimento de inveja, ou seja, um desejo de que a bolha seja destruída.

O que acontece quando um homem e uma mulher se tornam amigos? É quase certo que a amizade evoluirá para um relacionamento amoroso. Isso pode ocorrer até mesmo em questão de minutos. Na verdade, se não houver nenhum fator físico, nenhuma repulsa moral, que impeça o surgimento do amor romântico, é praticamente inevitável que ocorra. E vice-versa: o amor romântco pode facilmente despertar a amizade entre o casal.

O elemento mais característico da amizade é o amor-apreciação. Da amizade surgem o respeito, a admiração, a confiança, e tais sentimentos, como dissemos acima, são a base para o desejo de que os objetos do amor, no caso o amigo, simplesmente permaneçam, simplesmente existam em si e por si. O amigo passa a deter uma espécie de "direito de existir".

Mas há perigos na amizade, há um risco de que ela se transforme num demônio. Ocorre que o elemento excludente da amizade é forçosamente negativo: se minha amizade está assentada sobre certa visão sobre uma questão filosófica, por exemplo, então seremos indiferentes a uma visão alternativa a essa questão. O perigo está em que essa indiferença no varejo se transforme em indiferença no atacado. Em outras palavras, o círculo de amizade pode se transformar numa espécie de "classe" cujo combustível é o senso de superioridade em relação a quem está do lado de fora. O problema está na migração, ou exacerbação, do senso de superioridade. Não são só nossas ideias, ou tipo artístico, ou visão de mundo, ou estilo musical, que são superiores. Nós somos superiores. A amizade não mais se assenta sobre um tema ou visão que a delimita, mas se assenta na própria exclusão em si, no próprio orgulho em pertencer a essa classe de pessoas superiores.

A amizade é um amor espiritual, quase angelical. O antídoto para esse demônio deverá ser também espiritual: a humildade. A amizade parece ter sido um ato de escolha. Não foi. Deus usa a amizade como instrumento para que admirem um no outro suas belezas.

4. Amor romântico (eros)

O amor romântico, também chamado de amor erótico, é o estado de estar apaixonado. O que normalmente ocorre é o amante começar a desenvolver certa preocupação com a amada, algo ainda leve, um tanto esporádico. Não se trata, no entanto, de uma preocupação com algum aspecto ou circunstância sobre a amada, mas uma preocupação com a pessoa em si, em sua totalidade. Neste estado, o que o amante quer, acima de tudo, é simplesmente pensar na amada.

Há um momento, no entanto, em que o amor romântico efetivamente irrompe e, como um invasor, trata de reorganizar todo a vida interior do amado de maneira a orientá-la à amada. O amante deseja a amada, a pessoa em si, não o prazer que eventualmente ela pode provê-lo. Observa-se claramente aqui que o amor romântico não porta o elemento do amor-necessidade, mas do amor-apreciação. O prazer sexual é apenas um subproduto da relação romântica, um efeito colateral, digamos. Na verdade, a abstinência sexual é mais fácil de ser cumprida no estado de estar apaixonado, sem que, no entanto, o desejo sexual em si seja diminuído.

Está claro que o amor romântico não almeja o prazer sexual, mas não esta tão claro que ele tampouco almeja a felicidade. Prova disso é que mesmo os amantes que entendem racionalmente que seu relacionamento será um fracasso, que seu casamento será infeliz, preferem estar juntos e infelizes do que separados e felizes.

O amor romântico se transforma em deus, e portanto num demônio, quando seu alcance extrapola os limits do bom-senso e da decência e adentra o território dos crimes passionais, suicídios, perseguições, assassinatos, desprezo aos próprios pais, filhos, traições, infidelidades a amigos etc. É o amor romântico exigindo sua existência a todo custo. É o amor romântico que se transformou numa cláusula pétrea, numa religião.

Outro aspecto demoníaco do amor romântico é imaginar que tem de durar para sempre enquanto o casal estiver junto. É claro que isso não vai acontcer: os egos do casal furtivamente voltarão a manifestar-se. E logo descobrirão que o mero sentimento não é suficiente para sustentar a relação, que deverão trabalhar de maeir diligente e intencionalmente para manter vivo parte daquilo que o amor romântico lhes havia mostrado.

5. Amor transcendente (agape)

Os amores naturais que elencamos até agora não são autosuficientes. Em geral diz-se que para exercitarmos os amores naturais devemos acrescentar algo de "bom-senso" neles. Pois este bom-senso nada mais é do que o amor transcendente da caridade (não tem necessariamente a ver com filantropia, com "fazer caridade"), o amor a Deus. Assim como Deus criou o Jardim e posicionou o homem entre Ele e esse Jardim, assim também Deus plantou os amores naturais no homem e posicionou o amor a Deus entre Si e esses amores naturais. De pouco ou nada servem se não estivrem moldados e de certa forma enquadrados dentro do amor transcendente a Deus.

Algumas pessoas, preocupadas com o devido exercício do amor a Deus, concluem que os amores naturais não apenas não contribuem como rivalizam com esse amor transcendente. Trata-se evidentemente de um exagero, de um zelo desmedido e farisaico. ou, na melhor das hipóteses, de um medo de correr o risco de amar travestido de cálculo racional. Basta uma simples e honesta reflexão sobre meus próprios sentimentos para concluir que a verdadeira rivalidade reside muito mais entre meu ego e o ego alheio, entre minha auto-imagem e meus semelhantes, entre meu orgulho e o próximo. Sim, claro, há também a rivalidade entre o ego humano e Deus. Mas, convenhamos, há muito mais que se corrigir antes que possamos nos dar ao luxo de debruçarmos sobre a oposição ego-Deus. Quem sou eu para invocar tal rivalidade quando sou incapaz de transmitir os amores mais humanos e naturais?

Por outro lado, há aqueles que preferem não amar seus semelhantes, seja desenvolvendo uma simples empatia (afeição), seja uma amizade ou amar uma mulher, porque não querem correr o risco de se sentirem frustrados ou de se frustrarem de novo. A ideia de substituir os amores humanos pelo amor a Deus é tola porque supõe que possamos entregar a Deus um coração íntegro, inteiro, conservado. Ora, exercitar o amr a Deus implica precisamente em entregar seu coração partido a Deus. Se no exercício dos amores humanos seu coração partiu, e ele vai partir, que seja. É exatamente isso que você deve entregar a Deus. Quando Jesus Cristo diz que devemos odiar pai e mãe etc., o contexto é odiá-los quando eles rivalizam ou bloqueiam o amor a Deus. A ideia não é "um ou outro", mas "um e outro".

Deus implantou nos homens, dizíamos, os amores naturais. Mas também implantou em nós dois dons, ou capacidades, que não são naturais, ou pelo menos não são explicáveis do ponto de vista puramente individual, egocêntrico. Dissemos que o amor de uma mãe pelo seu bebê contém o elemento amor-doação. Bem, mais ou menos. Além de ser necessário amá-lo para que não sofra e, pior, não morra, o bebê é em si mesmo um objeto amável, ou seja, porta em si certos traços que o tornam amável: doçura, inocência, purea, beleza etc. Ou seja, o amor-doação não é tão doação assim. Ocorre que há certas instâncias em que o exercício do amor parece ser puramente doação. É o caso, por exemplo, dos objetos que não são nada amáveis em si: leprosos, doentes, estúpidos, criminosos, inimigos, miseráveis etc. Segundo Lewis, esses dons, esses exercícios de amor, essas caridades, não são naturais, mas são fruto da energia divina. E mais: o amor dos homens a Deus tampouco é natural e também provém, paradoxalmente, das energias divinas. Somos levados por Deus a amá-Lo. Curioso.

Há ainda um elemento adicional no amor transcendente: Deus implantou nos homens a necessidade de nos amarmos mutuamente. E outras palavras, o próprio amor, em si e por si, é uma necessidade. Se não amamos, sofremos, seja um sofrimento pontual, seja um sofrimento crônico e difuso. E mais: os homens também precisam, têm necessidade, de amar a Deus. Não se trata portanto de mera doação, mas de uma necessidade também. Amamos nossos pais, esposas, amigos, não apenas porque são amáveis, mas porque o Amor está neles.

É no exercício dos amores naturais e transcendentes que, por semelhança, reconhecemos a Jesus Cristo. Quando nos encontrarmos com Ele face a face, com o Amor, seremos capazes de responder positivamente à Sua presença porque esse Amor já havíamos encontrado antes, embora de forma semelhante apenas. Ele nos será algo um tanto familiar, um convívio que já existia de certa forma. Observa a importância e a gravidade de amarmos ao próximo como a nós mesmos.

6. Amor divino (theosis)

Aqui não há semelhança, mas aproximação. Aqui não há necessidade nem doação, mas apreciação pura e simples. Aqui não há se exercita o amor, mas se é o Amor. Aqui não há dois, amante e Amado, mas dois-em-um. Eis o objetivo da vida humana e da vida angélica, eis o centro e sentido último de nossa existência. É a união com Deus.

Lewis praticamente nada versa sobre este amor. Se sente incapaz de fazê-lo. É compreensível.

Fonte: C.S. Lewis, The Four Loves, HarperCollins Publisher, San Francisco, EUA, 2017.

21 de setembro de 2022

A prática apostólica do hesicasmo



São Paulo viveu durante o período inicial do desenvolvimento do que mais tarde seria chamado de misticismo Merkabah ("Carruagem") no contexto do mundo judaico do Segundo Templo. [1] Esse elemento místico do Judaísmo do século I seria mais tarde podado da tradição judaica rabínica, sobrevivendo apenas no Cristianismo. A tradição Merkabah (ou Carruagem) se refere especificamente ao trono-carruagem de Yahweh na visão de Ezequiel (cf Ezequiel 1), que foi carregado por quatro criaturas que apresentavam face de boi, leão, águia e ser humano. Dado que o primeiro templo já havia sido destruído nos tempos em que o Livro de Ezequiel foi redatado, Ezequiel vê o trono divino nos céus dos quais Yahweh governa a criação em vez de ver o Deus de Israel entronado no templo com o altar como escabelo como havia visto Isaías. No período do Segundo Templo, no qual São Paulo vivia, quando Israel já não se encontrava exilado, essa visão se tornou o paradigma a partir do qual as futuras visões seriam interpretadas, como uma visão do Deus de Israel em que o ser humano poderia experimentar sem perder sua vida.

O misticismo Merkabah, portanto, incluía meditar sobre a visão de Ezequiel na esperança de ver o que ele havia visto. Embora a maioria dos praticantes dessa forma de misticismo tenha admitido nunca haver recebido essa visão, relatos dos que a receberam estão registrados na literatura apocalíptica do período do Segundo Templo, na qual uma gramática comum começou a desenevolver-se a fim de descrever tais experiências visionárias. [2] Essas narrativas frequentemente descrevem um conjunto de céus, geralmente sete, pelos quais se ascende um a um. Nesse caminho os peregrinos eram auxiliados pela oração contemplativa, que centrava-se na repetição de trechos da Escritura, sobretudo na Shema (uma oração diária mais ou menos baseada em Deuteronômio 6:4, "Ouve, Israel, o Yahweh nosso Deus é o único Yahweh"). Também não eram incomuns os encontros e intercâmbios com seres angélicos enquanto ascendiam através dos diversos níveis celestes. Nas formas mais puras e elevadas dessas visões, a ascensão culminava na contemplação do trono-carruagem do Deus de Israel, no qual sentava-se a Glória de Deus ou a figura do Anjo do Sehor.

Há vários indícios nas cartas de São Paulo de que ele estava familiarizado com tais práticas místicas. O texto mais importante neste sentido é 2 Coríntios 12:1-6, no qual São Paulo descreve uma ascesão ao terceiro céu e depois ao Paraiso. Embora ele afirme que tenha ouvido de alguém esse relato, o consenso entre os Padres e estudiosos é que São Paulo estava descrevendo sua própria experiência, conforme aludida no versículo 6, quando ele afirma que se fosse gloriar-se de tal visão estaria dizendo a verdade. De qualquer forma, a visão e a linguagem que ele utiliza correspondem muitíssimo às antigas fontes do misticismo Merkabah. O "terceiro céu" (v. 2) e o Paraíso (v. 3) se referem a um conjunto de asceses. De maneira similar, ele menciona palavras inefáveis que ao homem não é lícito falar (v. 4).

Ao aceitarmos, portanto, que São Paulo era um praticante dessa tradição orante, uma nova perspectiva se abre para que entendamos sua visão de Cristo em Atos 9. É razoável crer que em sua longa jornada de Jerusalém a Damasco (deve ter levado no mínimo vários dias), São Paulo teria empregado boa parte do seu tempo em orações e meditações, especialmente nas horas dedicadas às orações. Isso significa que embora sua visão de Cristo tenha sido tão repentina a ponto de derrubá-lo, ela ainda assim situou-se dentro de seu campo interpretativo. No contexto da tradição mística Merkabah na qual ele estava imerso, essa visão deve ter sido considerada um dom concedido a pouquíssimas pessoas abençoadas por compartilhar a experiência de Ezequiel e dos demais profetas. No entanto, quando São Paulo recebe essa visão, não é a uma figura angélica que ele contempla, mas a Jesus Cristo sentado no trono-carruagem de Yahweh. A visão de São Paulo na estrada de Damasco lhe impõe a realidade inegável de que Jesus Cristo não é apenas o Messias, mas o próprio Deus. Esta é a base na qual São Paulo se assenta para afirmar em suas epístolas que Jesus Cristo é o Deus de Israel encarnado.

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Desde os tempos apostólicos que a ascensão de Cristo aos céus e Seu entronamento são fenômenos interpretados no contexto das asceses celestes e do trono-carruagem de Deus que já haviam ocorrido na religião e na prática mística do Segundo Templo. É por essa razão que, na tradição iconográfica ortodoxa, Cristo é visto entronado sobre as quatro criaturas da visão de Ezequiel. Estes ícones servem como uma meio visual de meditação paralelo à maneira como a meditação no Segundo Templo se concentrava em textos, neste caso no relato de Ezequiel. O Deus entronado das visões do Antigo Testamento Se fez conhecer através de Sua encarnação antes de ascender novamente à Sua glória anterior. Em vez de repudiar a prática mística, os primeiros cristãos, a exemplo de São Paulo, continuaram a recorrer à oração contemplativa, que para alguns culminava na visão de Cristo em Sua glórica incriada. Essa tradição, rejeitada no Talmude, prosseguiu no Cristianismo Ortodoxo, florescendo no que posteriormente se passou a chamar de hesicasmo. A Oração de Jesus, ao identificar Cristo como Senhor e Deus, substituiu a Shema por essa prática.

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São Paulo via o Cristo como a figura central na identidade de Yahweh no Antigo Testamento. Ele expressa essa ideia de maneira muito clara ao integrar a Pessoa de Jesus Cristo na confissão de fé do antigo Israel. Embora chamá-lo de "credo" seja um tanto anacrônico, o fato é que a Shema era tanto uma afirmação doutrinária quanto uma oração meditativa da fé dos judeus, inclusive de São Paulo. Em sua primeira epístola aos coríntios, São Paulo usa a forma grega deste texto sacro e o adapta. A forma grega do texto substitui o nome do Deus de Israel pela palavra Kyrios, ou seja, Senhor. Diz o seguinte: "Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele". (1 Coríntios 8:6)

São Paulo inseriu Jesus Cristo na Shema ao identificar o Deus único de sua confissão como o Pai e o Senhor único como Jesus Cristo. Ao modificar o grego do Deuteronômio, ele apresentou o Deus único de Israel, Yahweh, como duas hipóstases: o Pai e Jesus Cristo. Isso acaba servindo para identificar Jesus Cristo como a segunda hipóstase do Deus de Israel e, aliado ao que diz em Filipenses, O retrata como a Pessoa divina preexistente que Se fez carne nesses dias derradeiros.

São Paulo faz uso de tais construções linguísticas de maneira relativamente frequente. Em 1 Coríntios 12:4-6 ele correlaciona todas as três Pessoas da Santíssima Trindade mutuamente. A fórmula "o mesmo Espírito, o mesmo Senhor, o mesmo Deus" identifica os três como Pessoas distintas ao mesmo tempo que as une. A fórmula também enfatiza a tarefa comum que compartilham já que as três são consideradas de maneira igual. Bendições como as que lemos em 2 Coríntios 13:14 ("A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós") também situa a bênção do Deus de Israel na estrutura das três Pessoas.

Longe de revelar um estágio primitivo da crença cristã a respeito de Cristo, que mais tarde supostamente se desenvolveria em dogmas sobre a Santíssima Trindade e a Cristologia em geral, os textos de São Paulo revelam uma Cristologia e uma fé trinitária plenamente formadas. Esses textos primitivos do Novo Testamento foram capazes de já apresentar tal entendimento porque São Paulo estava interpretando a revelação de Jesus Cristo encarnado e a vinda do Espírito Santo através das lentes do entendimento judaico corrente a respeito do Deus de Israel. Em vez de inventar um meio-campo entre monoteísmo e politeísmo, São Paulo revela a verdadeira natureza das figuras divinas com as quais seus leitores já estavam familiarizados através da tradição na qual haviam recebido as Escrituras.

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A Revelação de São João apresenta repetidas vezes a imagem do trono de Yahweh, o Deus de Israel, reinando no céu em meio a Seu concílio divino. Em Relevação 4 ele descreve uma cena de adoração celestial ante o Senhor Deus de Israel extraindo sua linguagem diretamente e por várias vezes de Ezequiel 1. Deus Pai é por vezes descrito na Revelação como "o Único", uma clara referência à Shema. Ao mesmo tempo, quando Cristo aparece a São João (1:12-16), a descrição de Seu surgimento é uma combinação da descrição do Filho do Homem em Daniel 10 e a figura do trono em Ezequiel 1. Yahweh, o Deus de Israel, é Único, e mesmo assim as descrições proféticas a Seu respeito são distribuiídas na visão de São João entre a Pessoa do Pai e a Pessoa de Jesus Cristo.

[1] O misticismo Merkabah desenvolveu-se mais plenamente em paralelo ao Judaísmo Rabínico, embora como prática espiritual nunca tenha sido acolhido pela corrente principal dessa religião. No século X já se encontrava formalmente morto, embora elementos dessa prática persistam na tradição cabalística.

[2] Isso pde ser verificado sobretudo na literatura enóquica, assim como em outros apocalipses.

Fonte: Stephen De Young, The Religion of the Apostles: Orthodox Christianity in the First Century, Ancient Faith Publishing, Chesterton, IN, EUA, 2021, trechos selecionados.

19 de setembro de 2022

Os 6 cérebros e o método M-M


Eis os 6 cérebros reunidos em 4 pontos focais:

(1) Cérebro reptiliano (lagarto): tronco cerebral → respostas instintivas e primitivas (dor/prazer)

(2) Cérebro mamífero (emcional): sistema límbico → respostas pessoais e sociais

(3) Cérebro primata (cerebral): neocórtex → pensamentos concretos e abstratos

    (a) Hemisfério esquerdo → verbal e orientado a detalhes

    (b) Hemisfério direito → visual e holístico

(4) Cérebro intestinal (entérico): é o cérebro responsável pelo sistema segurança-perigo, funcionando como um radar. Quando algo lhe diz que não deveria embarcar nesse avião, ou quando você sente vibrações ruins vindo de alguém, ou quando você não confia numa pessoa mas não sabe por quê, ou quando você sente que uma ideia não é boa, ou quando você entra num determinado aposento e sente que a atmosfera está tão pesada que poderia cortá-la com uma faca: provavelmente essas situações retratam respostas do seu cérebro intestinal. O cérebro intestinal é tão importante que se ele morre, todo o corpo morre. O corpo pode viver sem o neocórtex, mas sem o cérebro intestinal morreria de imediato. Em suma, o cérebro intestinal está a cargo de verificar que não há nenhuma ameaça externa real. A ativação crônica do cérebro intestinal, seja por medo ou raiva, impacta diretamente na sua saúde e nos seus relacionamentos. 

(5) Cérebro cardíaco: como você sente seus sentimentos é uma escolha feita pelo coração. 

Os cérebros estão interconectados da seguinte forma:

    (a) Sistema de sobrevivência (ou experiencial): (1) + (4)

    (b) Sistema emocional (ou relacional): (2) + (5)

    (c) Sistema racional (ou cognitivo): (3a) + (3b)

Os 4 pontos focais para a respiração são:

    (a) Intestino: (1) + (4)

    (b) Coração: (2) + (5)

    (c) Cérebro esquerdo

    (d) Cérebro direito

Ambos cérebros também estão interconectados, mas a atenção que as pessoas prestam a seus pensamentos deixa claro que é melhor tratá-los de maneira distinta. Ademais, a troca natural entre os hemisférios pode ser facilmente curto-circuitada por meios psicológicos.

Método M-M (Mind-Move):

(1) Mova sua mente (atenção, consciência) para o intestino e, enquanto a move, inspire.

(2) Mova sua mente (atenção, consciência) para o coração e, enquanto a move, expire.

(3) Mova sua mente (atenção, consciência) para a mão esquerda e, enquanto a move, inspire.

(4) Mova sua mente (atenção, consciência) para a mão direita e, enquanto a move, expire.

Fonte: Kevin FitzMaurice, Breathe, FitzMaurice Publishers, Portland, EUA, 2010.

2 de setembro de 2022

As cinco linguagens do amor

 


O QUE ACONTECE COM O AMOR DEPOIS DO CASAMENTO?

Se falarmos apenas uma língua e encontrarmos alguém que fale outra língua, a comunicação será limitada. Vamos ter de confiar em gestos, grunhidos ou desenhos para transmitir ideias. Podemos nos comunicar, mas é estranho.

Este famoso livro de Gary Chapman apresenta as cinco linguagens básicas do amor emocional — cinco maneiras pelas quais as pessoas falam e entendem o amor emocional. No campo da linguística uma língua pode ter inúmeros dialetos ou variações. Da mesma forma, dentro das cinco linguagens básicas de amor emocional, há muitos dialetos.  Mas o importante é falar a linguagem amorosa do seu cônjuge. Raramente um homem e uma mulher têm a mesma linguagem de amor emocional primária.

MANTENDO O TANQUE DO AMOR CHEIO

A necessidade emocional de amor não é simplesmente um fenômeno da infância. Essa necessidade nos segue até a vida adulta e casamento adentro.  É fundamental para nossa natureza. Está no centro de nossos desejos emocionais. Precisaremos dele enquanto vivermos. O isolamento é devastador para a psique humana. No coração da existência da humanidade está o desejo de ser íntimo e ser amado por outro. O casamento é projetado para atender a essa necessidade de intimidade e amor.

APAIXONANDO-SE

No seu auge, a experiência de “estar apaixonado” é eufórica. Estamos emocionalmente obcecados um com o outro. Nossos sonhos antes do casamento são de felicidade conjugal.  Claro, não somos totalmente ingênuos. Sabemos, intelectualmente falando, que vamos ter diferenças. Mas estamos certos de que discutiremos essas diferenças abertamente; um de nós estará sempre disposto a fazer concessões, e chegaremos a um acordo. É difícil acreditar que não vai ser assim quando se está apaixonado. Infelizmente, a eternidade da experiência de "estar apaixonado" é ficção, não fato.

A experiência de apaixonar-se não é o verdadeiro amor por três razões. Primeiro, apaixonar-se não é um ato de vontade ou uma escolha consciente. Não importa o quanto queiramos nos apaixonar, não podemos fazer isso acontecer. Segundo, apaixonar-se não é amor de verdade porque é fácil. O que quer que façamos no estado do amor requer pouca disciplina ou esforço consciente de nossa parte. Os telefonemas longos que fazemos um para o outro, o dinheiro que gastamos viajando para ver um ao outro, os presentes que damos, os projetos de trabalho que fazemos não são nada para nós. A natureza instintiva da experiência amorosa nos leva a fazer coisas estranhas e não naturais um para o outro. Em terceiro lugar, a experiência amorosa não se concentra no nosso próprio crescimento, nem no crescimento e desenvolvimento da outra pessoa. Em vez disso, nos dá a sensação de que chegamos e que não precisamos de mais nenhum crescimento.  Apaixonar-se é uma suspensão temporária das fronteiras do ego e uma resposta estereotipada dos seres humanos a uma configuração de impulsos sexuais internos e estímulos sexuais externos, o que serve para aumentar a probabilidade de pareamento sexual e vínculo de modo a aumentar a sobrevivência da espécie.

Podemos reconhecer a experiência amorosa pelo que ela foi — uma alta emocional temporária — e agora buscar o "amor real" com nosso cônjuge. Esse tipo de amor é emocional na natureza, mas não é obsessivo. É um amor que une razão e emoção. Envolve um ato de vontade e requer disciplina, e reconhece a necessidade de crescimento pessoal. Nossa necessidade emocional mais básica não é se apaixonar, mas ser genuinamente amado pelo outro, conhecer um amor que cresce por razão e escolha, não instinto.  Esse tipo de amor requer esforço e disciplina. É a escolha de gastar energia em um esforço para beneficiar a outra pessoa, sabendo que se sua vida for enriquecida pelo seu esforço, você também encontrará um senso de satisfação — a satisfação de ter amado genuinamente outra. Esse é o tipo de amor a que os sábios sempre nos chamaram. É intencional.

Como nos encontramos com a profunda necessidade emocional um do outro de nos sentirmos amados? Se pudermos aprender isso e escolher fazê-lo, então o amor que compartilhamos será emocionante além de qualquer coisa que já sentimos quando estávamos apaixonados.

#1 - PALAVRAS DE AFIRMAÇÃO

Uma maneira de expressar o amor emocionalmente é usar palavras que se acumulam. Elogios verbais, ou palavras de agradecimento, são poderosos comunicadores do amor. Eles são melhor expressos em declarações simples e diretas.

Não estou sugerindo bajulação verbal para que seu cônjuge faça algo que você quer. O objetivo do amor não é conseguir algo que você quer, mas fazer algo para o bem-estar daquele que você ama. É fato, no entanto, que quando recebemos palavras afirmantes, é muito mais provável que sejamos motivados a retribuir e fazer algo que nosso cônjuge deseja.

Oferecer elogios verbais é apenas uma maneira de expressar palavras de afirmação ao seu cônjuge. Outro dialeto é encorajar palavras. A palavra encorajar significa "inspirar coragem". Todos nós temos áreas em que nos sentimos inseguros. Falta coragem, e essa falta de coragem muitas vezes nos impede de realizar as coisas positivas que gostaríamos de fazer. O potencial latente dentro de seu cônjuge em suas áreas de insegurança pode aguardar suas palavras encorajadoras.  Não estou falando de pressionar seu cônjuge a fazer algo que você quer. Estou falando em encorajá-lo a desenvolver um interesse que ele já tem. Encorajamento requer empatia e ver o mundo da perspectiva do seu cônjuge. Primeiro devemos aprender o que é importante para nosso cônjuge. Só então podemos encorajar.

A maneira como falamos é extremamente importante.  Você buscará a compreensão e a reconciliação, e não provará sua própria percepção como a única maneira lógica de interpretar o que aconteceu. Isso é amor maduro — amor ao qual aspiramos se buscamos um casamento em crescimento. Quando fui injustiçado pela minha esposa e ela confessou dolorosamente e pediu perdão, tenho a opção de justiça ou perdão. Se eu escolher a justiça e tentar pagá-la ou fazê-la pagar por seu delito, estou fazendo de mim mesmo o juiz e ela o criminoso. Intimidade torna-se impossível. Se, no entanto, eu escolher perdoar, a intimidade pode ser restaurada. Perdão é o caminho do amor.  A melhor coisa que podemos fazer com os fracassos do passado é deixá-los ser história. Não podemos apagar o passado, mas podemos aceitá-lo como história. Podemos escolher viver hoje livre dos fracassos de ontem.

O amor faz pedidos, não exige. Quando exijo coisas do meu cônjuge, me torno pai e ela é a criança. No casamento, somos iguais, parceiros adultos. Para desenvolvermos uma relação íntima, precisamos conhecer os desejos um do outro. Se queremos nos amar, precisamos saber o que a outra pessoa quer.  Quando você faz um pedido de seu cônjuge, você está afirmando seu valor e habilidades. Você está, em essência, indicando que ela tem algo ou pode fazer algo que é significativo e vale a pena para você. Quando, no entanto, você faz exigências, você se tornou não um amante, mas um tirano. Seu cônjuge não se sentirá afirmado, mas menosprezado. Um pedido introduz o elemento de escolha. Seu companheiro pode optar por responder ao seu pedido ou negá-lo, porque o amor é sempre uma escolha. Não podemos ter amor emocional por demanda. Meu cônjuge pode de fato cumprir minhas exigências, mas não é uma expressão de amor. É um ato de medo ou culpa ou alguma outra emoção.

#2 - TEMPO DE QUALIDADE

Por "tempo de qualidade", quero dizer dar a alguém sua atenção total.  O que quero dizer é sentar no sofá com a TV desligada, olhando um para o outro e conversando, dando um ao outro sua atenção total. Significa dar uma volta, só vocês dois, ou sair para comer e olhar um para o outro e conversar.  Um aspecto central do tempo de qualidade é a união. Não quero dizer proximidade. Duas pessoas sentadas na mesma sala estão próximas, mas não estão necessariamente juntas. A união tem a ver com atenção focada. O que acontece no nível emocional é o que importa. Passarmos um tempo juntos em uma perseguição comum comunica que nos preocupamos um com o outro, que gostamos de estar um com o outro, que gostamos de fazer as coisas juntos.

Conversa de qualidade é bem diferente da primeira linguagem amorosa. Palavras de afirmação se concentram no que estamos dizendo, enquanto a conversa de qualidade se concentra no que estamos ouvindo. Se estou compartilhando meu amor por você por meio de tempo de qualidade e vamos passar esse tempo na conversa, significa que vou me concentrar em atraí-lo, ouvindo com simpatia o que você tem a dizer. Farei perguntas, não de uma maneira instigante, mas com um desejo genuíno de entender seus pensamentos, sentimentos e desejos.

Somos treinados para analisar problemas e criar soluções. Esquecemos que o casamento é um relacionamento, não um projeto a ser concluído ou um problema para resolver. Uma relação exige uma escuta solidária com vistas a entender os pensamentos, sentimentos e desejos do outro. Devemos estar dispostos a dar conselhos, mas apenas quando ele é solicitado e nunca de forma condescendente. A maioria de nós tem pouco treinamento para ouvir. Somos muito mais eficientes em pensar e falar. Aprender a ouvir pode ser tão difícil quanto aprender uma língua estrangeira, mas aprenda que devemos, se quisermos comunicar o amor. Isso é especialmente verdade se a linguagem de amor primária do seu cônjuge é o tempo de qualidade e seu dialeto é conversa de qualidade.

1. Mantenha contato visual quando seu cônjuge estiver falando.

2. Não ouça seu cônjuge e faça outra coisa ao mesmo tempo.

3. Ouça por sentimentos.

4. Observe a linguagem corporal.

5. Recuse-se a interromper.

Atividades de qualidade podem incluir atividades como colocar um jardim, visitar mercados de pulgas, comprar antiguidades, ouvir música, fazer piquenique juntos, fazer longas caminhadas ou lavar o carro juntos em um dia quente de verão. As atividades são limitadas apenas pelo seu interesse e disposição para experimentar novas experiências. Os ingredientes essenciais em uma atividade de qualidade são: (1) pelo menos um de vocês quer fazê-lo, (2) o outro está disposto a fazê-lo, (3) ambos sabem por que estão fazendo isso — para expressar amor por estarem juntos.

#3 - RECEBENDO PRESENTES

Um presente é algo que você pode segurar em sua mão e dizer: "Olha, ele estava pensando em mim", ou, "Ela se lembrou de mim." Você deve estar pensando em alguém para lhe dar um presente. Tele dom em si é um símbolo desse pensamento. Não importa se custa dinheiro. O importante é que você pensou nele. E não é o pensamento implantado apenas na mente que conta, mas o pensamento expresso em realmente garantir o dom e dá-lo como expressão do amor. Presentes são símbolos visuais do amor.  That não é retórica sem sentido. Está verbalizando uma verdade significativa — símbolos têm valor emocional.

Se a presença física do seu cônjuge é importante para você, não espere que ele leia sua mente. Se, por outro lado, seu cônjuge lhe disser: "Eu realmente quero que você esteja lá comigo hoje à noite, amanhã, esta tarde", leve seu pedido a sério. Do seu ponto de vista, pode não ser importante; mas se você não responder a essa solicitação, você pode estar comunicando uma mensagem que você não pretende.

Quase tudo o que já foi escrito sobre o tema do amor indica que no coração do amor está o espírito de dar. Todas as cinco línguas de amor nos desafiam a dar ao nosso cônjuge, mas para alguns, recebendo presentes, símbolos visíveis de amor, fala mais alto.

#4 - ATOS DE SERVIÇO

Por atos de serviço, quero dizer fazer coisas que você sabe que seu cônjuge gostaria que você fizesse. Você procura agradá-la servindo-a, para expressar seu amor por ela fazendo coisas por ela. Eles exigem pensamento, planejamento, tempo, esforço e energia. Se feito com um espírito positivo, são de fato expressões de amor.

Ninguém gosta de ser forçado a fazer alguma coisa. Na verdade, o amor é sempre dado livremente. O amor não pode ser exigido. Podemos pedir coisas um do outro, mas nunca devemos exigir nada. Pedidos dão direção ao amor, mas as exigências param o fluxo do amor.

Os atos que fazemos um pelo outro antes do casamento não são indícios do que faremos depois do casamento. Antes do casamento, somos levados pela força da obsessão pelo amor. Depois do casamento, voltamos a ser as pessoas que éramos antes de "nos apaixonarmos". Nossas ações são influenciadas pelo modelo de nossos pais, nossa própria personalidade, nossas percepções de amor, nossas emoções, necessidades e desejos. Só uma coisa é certa sobre nosso comportamento: não será o mesmo comportamento que exibimos quando fomos pegos por estar "apaixonados. "

Um capacho é um objeto inanimado. Você pode limpar os pés nele, pisar nele, chutá-lo, ou o que você quiser. Não tem vontade própria. Pode ser seu servo, mas não seu amante. Quando tratamos nossos cônjuges como objetos, impedimos a possibilidade de amor. Manipulação por culpa ("Se você fosse um bom marido, você faria isso por mim") não é a linguagem do amor. Coerção pelo medo ("Você vai fazer isso ou vai se arrepender") é alheia ao amor. Nenhuma pessoa deveria ser capacho. Podemos nos permitir ser usados, mas somos, na verdade, criaturas de emoção, pensamentos e desejos. E temos a capacidade de tomar decisões e agir. Permitir-se ser usado ou manipulado por outro não é um ato de amor. É, de fato, um ato de traição. Você está permitindo que ele ou ela desenvolva hábitos desumanos. O amor diz: "Eu te amo demais para deixar você me tratar assim. Não é bom para você ou para mim.

#5 - TOQUE FÍSICO

Mãos dadas, beijos, abraços e relações sexuais são todas formas de comunicar amor emocional ao cônjuge. Para alguns indivíduos, o toque físico é sua linguagem de amor primária. Sem ele, eles não se sentem amados. Com ele, seu tanque emocional está cheio, e eles se sentem seguros no amor de seu cônjuge.

Dos cinco sentidos, o toque, ao contrário dos outros quatro, não se limita a uma área localizada do corpo. Algumas partes do corpo são mais sensíveis que outras. A diferença se deve ao fato de que os pequenos receptores táteis não estão espalhados uniformemente sobre o corpo, mas dispostos em aglomerados. Assim, a ponta da língua é altamente sensível ao toque, enquanto a parte de trás dos ombros é a menos sensível. As pontas dos dedos e a ponta do nariz são outras áreas extremamente sensíveis. Nosso propósito, no entanto, não é entender a base neurológica do sentido de toque, mas sim sua importância psicológica.

O toque físico pode fazer ou quebrar um relacionamento. Pode comunicar ódio ou amor. Para a pessoa cuja linguagem de amor principal é o toque físico, a mensagem será muito mais alta do que as palavras "Eu te odeio" ou "eu te amo". Um tapa na cara é prejudicial para qualquer criança, mas é devastador para uma criança cuja linguagem de amor primária é o toque. Um abraço carinhoso comunica amor a qualquer criança, mas grita amor à criança cuja linguagem de amor primária é o toque físico. O mesmo acontece com os adultos.

No casamento, o toque do amor pode tomar muitas formas. Uma vez que receptores de toque estão localizados em todo o corpo, tocar amorosamente seu cônjuge em quase qualquer lugar pode ser uma expressão de amor. Isso não significa que todos os toques sejam criados iguais. Alguns trarão mais prazer ao seu cônjuge do que outros. Seu melhor instrutor é seu cônjuge, é claro. Afinal, ela é a única que você está procurando amar. Ela sabe melhor o que percebe como um toque amoroso.  Once você descobre que o toque físico é a linguagem de amor primária do seu cônjuge, você é limitado apenas por sua imaginação em maneiras de expressar o amor.

Se a linguagem de amor principal do seu cônjuge é o toque físico, nada é mais importante do que segurá-la enquanto ela chora. Suas palavras podem significar pouco, mas seu toque físico comunicará que você se importa. As crises oferecem uma oportunidade única para expressar o amor. Seus toques ternos serão lembrados muito depois que a crise passar. Seu fracasso em tocar pode nunca ser esquecido.

Fonte: Gary Chapman, The Five Love Languages, Northing Publishing, Chicago, EUA, 1992.

29 de agosto de 2022

Devemos tomar as rédeas à fantasia


Devemos tomar as rédeas à fantasia em tudo o que concerne ao nosso conforto e desconforto. Logo, antes de mais nada, não devemos construir castelos no ar, porque estes são muitos caros, já que imediatamente depois temos de demoli-los com suspiros. Devemos guardar-nos mais ainda de angustiar o coração imaginando desgraças apenas possíveis. Se estas fossem infundadas por completo ou pelo menos pouco convincentes, então saberíamos de imediato, ao despertar do sonho, que tudo não passou de ilusão; por conseguinte, nos alegraríamos tanto mais com a realidade melhor e tomaríamos talvez como lição uma advertência contra desgraças futuras bastante longínquas, mas possíveis. No entanto, nossa fantasia não joga fácil com tais representações. Por puro prazer, ela só constrói castelos no ar. O material para seus sonhos sombrios são desgraças que, mesmo distantes, ameaçam-nos efetivamente em certa medida. A fantasia as amplifica, traz sua possibilidade para bem mais perto do que em verdade estão e pinta-as com as mais terríveis cores. Ao acordar, não podemos de imediato nos livrar dessa espécie de sonho, como fazemos com os agradáveis. Estes últimos são logo desmentidos pela realidade, que lhes permite no máximo uma esperança tênue de concretização. Porém, quando nos abandonamos às fantasias negras (blue devils), estas trazem imagens para perto de nós que não se afastam com facilidade. A possibilidade do evento, em geral, é estabelecida sem que estejamos sempre em condições de estimar o seu grau. Ora, tal possibilidade transforma-se facilmente em verossimilhança, fazendo com que nós mesmos nos entreguemos às mãos da angústia. Por isso, devemos considerar as coisas concernentes ao nosso conforto e desconforto só com os olhos da razão e do juízo, consequentemente, com ponderação fria e seca, operando com meros conceitos e in abstracto. A fantasia deve ficar fora de jogo, pois não sabe julgar; ao contrário, só apresenta imagens aos olhos que agitam a alma de modo desnecessário e amiúde penoso. Essa regra deveria ser observada com mais rigor à noite. Pois, assim como a escuridão nos torna temerosos e nos faz ver figuras apavorantes por toda parte, assim também a falta de clareza dos pensamentos provoca um efeito análogo, já que toda incerteza gera insegurança. Portanto, à noite, quando a fadiga envolveu tanto o entendimento quanto a razão com uma escuridão subjetiva, e o intelecto está cansado e confuso, sem forças para examinar as coisas a fundo, os objetos de nossa reflexão, caso digam respeito aos nossos interesses pessoais, assumem facilmente um aspecto ameaçador e tornam-se imagens apavorantes. É o que ocorre com frequência, à noite, na cama, quando o espírito está completamente relaxado e o juízo não desempenha mais a sua função, porém a fantasia ainda está ativa. Dessa maneira, a noite confere a tudo e a todos sua cor negra. Como consequência, antes de dormirmos, ou ao acordarmos de madrugada, os nossos pensamentos são, na maioria das vezes, deformações malignas e perversões das coisas, como nos sonhos. Se dizem respeito aos nossos assuntos pessoais, em geral parecem horrendos e até azarentos. Pela manhã, tais imagens apavorantes desaparecem, como os sonhos. É o significado do provérbio espanhol: Noche tinta, blanco el día [Noite tinta, branco o dia]. Mas já no final da tarde, quando se ascendem as velas, o entendimento, como os olhos, não vê com tanta nitidez como durante o dia. Eis por que esse período de tempo não é apropriado para a meditação e temas sérios e sobretudo desagradáveis. A manhã, sim, é o período correto. Manhã que, em geral, é adequada para todas as realizações, sem exceção, sejam as espirituais ou corporais. Em verdade, a manhã é a juventude do dia. Nela, tudo é jovial, fresco e leve; sentimo-nos fortes e temos todas as nossas capacidades à inteira disposição. Não devemos abreviá-la levantando-nos tarde, nem gastá-la em ocupações ou conversas indignas, mas considerá-la a quintessência da vida e, em certa medida, sagrada. Por outro lado, a noite é a velhice do dia: à noite ficamos abatidos, faladores e levianos. Todo dia é uma pequena vida: o acordar é o nascimento, concluído pelo sono como morte. Assim, o adormecer é uma morte diária e cada acordar é um novo nascimento. Para ser completo, poder-se-ia comparar o desconforto e a dificuldade de levantar-se com as dores do parto.

De modo geral, o estado de saúde, o sono, a alimentação, a temperatura, as condições climáticas, o ambiente e muitas outras circunstâncias exteriores exercem uma influência poderosa sobre a nossa disposição, e esta sobre os nossos pensamentos. Como consequência, nossa visão de uma questão qualquer, bem como nossa capacidade de produzir alguma coisa estão intensamente submetidas ao tempo e mesmo ao lugar. Portanto:

 

Aproveita a disposição verdadeira,

Pois ela chega raramente.

              Goethe (“Generalbeichte”) [“Confissao geral”]

 

Não é apenas em relação às concepções objetivas e aos pensamentos originais que temos de esperar se lhes agrada vir e quando. Mesmo a ponderação profunda de uma questão pessoal nem sempre dá seus resultados no tempo que estabelecemos com antecedência e para o qual nos preparamos. Ao contrário, a ponderação profunda também escolhe o seu tempo, e então a sequência dos pensamentos que se ajusta a ela se desenvolve espontaneamente e nós a seguimos com inteira atenção.

Para tomar as rédeas à fantasia, como recomendado acima, também é preciso impedir que ela evoque e ilustre as injustiças outrora sofridas, bem como os danos, as perdas, as injúrias, as preterições, as humilhações e coisas semelhantes. Do contrário, excitamos novamente a indignação, a cólera e todas as paixões odiáveis, há muito tempo adormecidas, que contaminam nossa alma. Pois, segundo uma bela comparação do neoplatônico Proclo, assim como em cada cidade, ao lado dos nobres e distintos, mora também o populacho de todo tipo, também em cada homem, mesmo o mais nobre e mais sublime, existem, segundo a sua disposição, os elementos mais diminutos e comuns da natureza humana e mesmo animal. Esse populacho não deve ser excitado ao tumulto, nem deve ter a permissão de olhar pela janela, pois sua aparência é deveras feia. Ora, esses produtos da fantasia que acabamos de descrever são os demagogos desse populacho. Além disso, a menor contrariedade, advinda seja dos homens ou das coisas, se for constantemente cogitada e repintada com cores vivas e segundo uma escala ampliada, pode transformar-se num monstro que nos coloca fora de controle. Devemos, antes, encarar de maneira bem prosaica e sóbria tudo o que for desagradável, para assim aceitarmos o que nos couber da maneira mais fácil possível.

Do mesmo modo como os objetos pequenos, mantidos na proximidade dos olhos, limitam o nosso campo de visão, encobrindo o mundo, também os homens e as coisas da nossa vizinhança mais imediata, por mais insignificantes e indiferentes que sejam, ocuparão com frequência a nossa atenção e nossos pensamentos para além do necessário, e muitas vezes de modo desagradável, reprimindo pensamentos e questões importantes. É preciso reagir contra isso.

Fonte: Arthur Schopenhauer, The Wisdom of Life and Counsels and Maxims, Pantianos Classics.

22 de agosto de 2022

Energias masculina e feminina


Todos os seres humanos têm basicamente dois tipos de energia: a masculina e a feminina.  A energia masculina é a energia do pensar, do agir, do fazer, do decidir, do dar, do proteger. Quando ativamos um tipo de energia as pessoas ao nosso redor têm a tendência de ativar a energia contrária. 

Hoje em dia as mulheres, quando em um relacionamento, tendem a ativar sua energia masculina porque o ambiente laboral, do qual em geral provêm, é naturalmente masculino. Isso ocorre especialmente com as mulheres que coordenam equipes, lideram reuniões com a presença majoritária de homens, têm uma empresa etc. 

Ocorre que nos relacionamentos mulheres que se portam assim tenderão a motivar no homem a ativação de sua energia feminina. Esse fenômeno provoca certa desconexão, certo distanciamento, já que o homem busca na mulher a energia feminina que complementará a energia masculina que lhe é natural. 

A solução para esse impasse está na escolha consciente e deliberada de qual energia ativar no momento adequado. As mulheres devem, portanto, aprender, ou reaprender, a ativar sua energia feminina. Eis algumas maneiras:

1) Fale de suas emoções. Isso pode ser feito usando frases como “Eu me sinto [honrada        de estar aqui], [feliz por estar nesse ambiente], [alegre hoje]...” ou “Esse lugar me traz felicidade, me preenche com alegria...”

2) Ative no homem a presença plena. Para fazê-lo é necessário antes que a mulher esteja presencialmente plena, ou seja, presente naquele ambiente, vivenciando, ouvindo, prestando atenção. Em suma, a consciência não está vagando no passado ou no futuro, mas está presente no aqui e agora (objetos, contato da roupa, cheiros, posição do corpo etc.).  Pela própria natureza da energia masculina, que é mais cerebral, é comum que o homem esteja “ausente” do ambiente, que não preste atenção ao que a mulher lhe conta ou diz. Para trazê-lo um recurso muito útil é tocá-lo, elogiá-lo de maneira inesperada, ou qualquer gesto que lhe traga “de volta” ao encontro que ocorre naquele momento. 

3) Aprenda a receber. A energia feminina é tipicamente a energia do receber, enquanto a masculina é a energia do dar. Por isso que aos homens em geral lhes convêm serem provedores, mostrarem que são suficientes para estarem ali, para pagar uma conta, uma viagem, uma roupa etc. Assim que devolver o que o homem dá é uma forma de não alimentar a energia masculina no homem. Portanto não cabe à mulher, se quiser presentear o home, dar algo que lhe impressione ou que caracterize provimento.

4) Use a intuição. Para isso é necessário que a mulher desenvolva certo autoconhecimento, certa conexão consigo mesma. Para isso é necessário ouvir seus pensamentos, seu corpo, ouvir as respostas dos outros, conectar-se ao plano espiritual (Deus, orações, meditação etc.).  A intuição ajuda a direcionar o relacionamento, seja para continuá-lo, seja para abandoná-lo. É a intuição, o instinto, que direciona a mulher a ser mãe, por exemplo. É a característica mais importante, e mais difícil, de desenvolver. É essa característica que, ao fim e ao cabo, faz com que a mulher não seja carente, “pegajosa”, “sufocante” etc. Os homens em geral detectam a intuição feminina ao sentirem certa leveza, certa estabilidade, em sua presença. Os homens de maneira geral vivem uma vida mental mais ansiosa, mais exigente (“tenho que decidir”, “isso tem que dar certo”), mais competitiva (seja com outras pessoas, seja consigo mesmo), e, portanto, a presença da energia feminina inconscientemente lhe traz certo alívio, contentamento, estabilidade, um sentimento de que “está tudo bem”. A intuição feminina, e o alívio que essa intuição comunica ao homem, é o motivo principal que faz com que ele busque encontrar-se mais vezes com ela.

5) Use seu corpo. Perder a timidez, andar movendo o quadril, dançar. A energia feminina é a energia do “pescoço pra baixo”, enquanto a masculina é do “pescoço pra cima”. O uso do corpo é um elemento importante na conexão.

* * *

5 sinais da relação:

1. A pessoa não atende seus critérios

Não aceite critérios genéricos, básicos, óbvios (a pessoa é "trabalhadora", "boa", "legal" etc.). Pare de brigar com a realidade. Se a pessoa não atende seus critérios hoje, não atenderá amanhã nem depois de amanhã. Você escolhe qualquer sapato em uma loja de sapatos? Você compra qualquer roupa em uma loja de roupas? Não, você pede algo compatível com seu corpo, sua estatura, seus gostos, seu perfil, sua personalidade. Se isso vale para calçados e roupas, tanto mais vale para sua parceira.

2. A pessoa te diminui

"Nossa, que bobagem esse negócio de viajar", "Ih, caamento é coisa fútil", não presta atenção àquilo que é importante para você. Relacionamento é para tornar a vida muito melhor. Se não, está errado.

3. As coisas não acontecem do jeito que você quer

As coisas acontecem do jeito dela, da agenda dela, com amigas dela, no dia que ela quer. Essa situação tende a piorar ainda mais com o tempo.

4. O discurso dela é bonito

Quer apresentar para a família, quer fazer aquela viagem etc. A prática não corresponde com as palavras.A pessoa provavelmente não é parceira de vida, mas uma manipuladora.

5. Ficar por meses

Não existe "ficar por 5 meses" e assemelhados. A pessoa que quer estar com você, namorar você, conhecer você a fundo, age rápido. Se fosse um carro, a pessoa já teria comprado porque ela quer e é conveniente ter um carro. No seu caso, ela quer e é conveniente continuar te enrolando; esse é o melhor dos mundos.. É você quem dá o ritimo para o relacionamento. É você que está permitindo isso. A resposabilidade é sua de ter a vida do jeito que você quer ter. É você que permite ou não permite.

Fonte: Luiza Vono, YouTube.

16 de agosto de 2022

Conceitos básicos da queima de gordura


A lipase hormônio sensível é a enzima que desempenha o papel central na queima de gordura. É o local onde ocorre a oxidação dos ácidos graxos – a quebra da gordura – no corpo. A quebra da gordura não ocorrerá se não estiver na presença da lipase hormônio sensível.

A lipase hormônio sensível tem uma relação inversamente proporcional à insulina. A insulina é um hormônio de absorção. Portanto, quando comemos alguma coisa o corpo provoca um pico de insulina. Inversamente, quando os níveis de insulina estão baixos significa que a lipase hormônio sensível está alta. Portanto, mesmo que o corpo esteja sob um regime de déficit calórico, se os níveis de insulina estiverem elevados o corpo terá mais dificuldade em ativar a enzima da lipase hormônio sensível.

Quando a insulina não está presente no corpo há a presença de outro hormônio chamado glucagon. O glucagon estimula a quebra de proteínas e gorduras e a liberação de glicose. Em outras palavras, é o hormônio da “quebra”.

Há, no entanto, outros componentes que devemos prestar atenção: as catecolaminas, como a adrenalina, a epinefrina, a norepinefrina. Geralmente associamos as catecolaminas a estados psicológicos alterados, mas quando estamos em regimes de jejum e/ou déficit calórico as catecolaminas se elevam. Ora, quando a adrenalina e a epinefrina se associam ao glucagon elas ativam (é a fosforilação) a lipase hormônio sensível. Em poucas palavras, a fosforilação nada mais é do que uma espécie de manipulação proteica por meio da adição de moléculas de fósforo de forma que a lipase é ativada.

Portanto, o processo de queima de gordura exige a ativação da lipase hormônio sensível por meio da elevação dos níveis de catecolaminas. As catecolaminas, por sua vez, atuam sobre receptores beta-adrenérgicos, que, como diz o nome, recebem as catecolaminas para dar início ao processo de lipase. É por isso, por exemplo, que as farmácias vendem “beta bloqueadores”: seu objetivo é bloquear a ação da adrenalina e demais catecolaminas para que o paciente não sofra seus efeitos. No entanto, no caso da queima de gordura, os receptores beta-adrenérgicos são desejados porque são eles que ativam a proteína quinase A, ou seja, é uma enzima que quebra (ou altera) certas proteínas responsáveis pela fosforilação.

No interior da célula de gordura, em seu citoplasma, reside a lipase hormônio sensível. Ocorre que, como dissemos acima, a lipase não atuará a não ser que seja ativada por um hormônio. Em termos práticos, a lipase está como que “protegida” dentro da célula de gordura. Na parte exterior do lipídio (célula de gordura) a lipase hormônio sensível está também protegida pela perilipina. A ativação da proteína quinase A fosforila tanto a perilipina quanto a lipase hormônio sensível.

O processo de queima de gordura, no entanto, não está restrito meramente à ativação da lipase hormônio sensível. A partir de 2004 alguns estudos mostraram de maneira categórica que a queima de gordura envolve outras enzimas, sobretudo a lipase de triacilglicerol do adipócito (adipose triglyceride lipase – ATGL). O que essa enzima faz é quebrar o triacilglicerol (forma em que a gordura é armazenada, ou seja, três ácidos graxos associados a uma molécula de glicerol) em um diacilglicerol. Neste processo um ácido graxo acabou sendo eliminado. Para seguir o processo, é necessário que uma lipase de diacilglicerol quebre esse diacilglicerol. É aqui que a lipase hormônio sensível desempenha seu principal papel: ela reduzirá essa molécula a um monoacilglicerol. Por fim, uma nova lipase quebrará esse monoacilglicerol, liberando o terceiro e último ácido graxo. É o que informalmente chamamos de “queima de gordura”. O glicerol retorna ao fígado e é convertido em glicose: é o processo de gliconeogênese. Quanto aos ácidos graxos, eles são convertidos em cetonas ou são usados pelo músculo esquelético etc., ou seja, são usados para os diversos processos que o corpo da pessoa necessite.

Fonte: Thomas DeLauer, Basics of Fat Loss.