O motor de arranque da metafísica é a
unidade da experiência. Mas isso não significa que o campo de experiência de todas
as pessoas tenha o mesmo alcance.
A primeira experiência que vivemos, a mais básica,
é a de coisas que estão ao nosso redor. Instalados entre as coisas, o homem
ocupa um determinado lugar. O homem procura as coisas para satisfazer
necessidades que condicionam sua existência. Trata-se da circunstância:
tendemos às coisas (tendência) e, quando nos apossamos delas, estamos
repousados (quiescência). Os animais, neste caso, também estão imersos
na situação de circunstancialidade.
A segunda
experiência que vivemos inclui os úteis (pragmata). É quando algo
serve para alguma coisas, é útil para alguma coisa, é adequado para
alguma coisa. Aqui nos encontramos não apenas imersos numa circunstância,
mas num meio. Os utensílios (artefatos) são meios que abrem possibilidades
de vida. Os animais não apenas “se comportam” como os animais, mas eles “conduzem”
suas vidas. O que define o homem é seu atributo de essência aberta (e
não essência fechada como nos animais). Os homens enfrentam as coisas não com
base somente em estímulos, mas exerce um enfrentamento real (conforme expressão
de Xavier Zubiri) porque retêm as coisas como realidades. O homem tem fome
de verdade e desejo de realidade: ele se apropria de realidades para
alargar seu mundo não apenas espacialmente, mas de sentido.
Por isso o mundo
humano é um mundo cultural composto de (a) ecologia (coisas naturais),
(b) artefatos e indústrias, (c) instituições (as coisas
invisíveis, costumes morais), (d) valores (diferentes aspectos da vida,
como política, economia, moral, religião etc.) e (e) símbolos existenciais
(aquilo que dá ao mundo unidade de sentido e horizonte de possibilidades).
Os três
conceitos que vimos acima (circunstância, meio, mundo) definem o horizonte
dentro do qual situamos e compreendemos a metafísica. Esse horizonte é o campo visível
e intelectual que dá referência e sentido total às coisas.
A partir dessa
concepção de horizonte e sentido podemos dividir historicamente quatro períodos
de desenvolvimento da metafísica:
(1) o horizonte
da physis (filosofia grega): isso inclui Aristóteles por conta de sua
metafísica da substância.
(2) o horizonte
do ser (filosofia medieval): Tomás de Aquino funda a metafísica sobre o ser, e
não na substância.
(3) o horizonte
do sujeito (filosofia moderna): deslocamento para o “eu pensante” empreendido sobretudo
por Descartes e Kant.
(4) o horizonte
da pluralidade (filosofia contemporânea): rompimento com a “filosofia ocidental”
(os três horizontes acima) em favor de uma filosofia existencialista, fenomenológica.
Fonte: Márcio Bolda da Silva, Metafísica e assombro, Editora
Paulus, São Paulo, SP, Brasil, 1994.
