Descartes e a brincadeira da morte da
alma
O problema da dúvida cartesiana é que a
dúvida deixa de ser uma alternância entre dois momentos antagônicos e se torna
ela mesmo um estado permanente, e, a partir daí, Descartes a coisifica. A
dúvida cartesiana se torna uma certeza, mas isso é necessariamente falso: a
dúvida só pôde ser uma “certeza” porque sua realidade foi posteriormente
refletida. Houve uma sutil, mas decisiva, mudança de enfoque: a dúvida não foi
realmente uma vivência permanente, mas apenas um objeto de reflexão.
Ora, se a dúvida é apenas um objeto de
reflexão, então para que Descartes pudesse afirmar o que quer que seja sobre a
dúvida ele antes teve que (1) supor a continuidade da consciência entre a dúvida
e a reflexão e (2) supor o conhecimento da distinção entre verdade e falsidade.
A dúvida cartesiana é, na verdade, um equívoco cartesiano.
Mas como Descartes pode duvidar que sabe o
que sabe e supor que apenas o pensamento é líquido e certo? Se pensamos
inevitavelmente algo, como é possível estranhar o conhecimento desse algo
e nos atermos ao puro pensamento? Por que imaginar uma privação impossível?
Olavo de Carvalho explica que, por trás desse exercício cartesiano, há uma tentativa
de precaver-se da “morte da alma” (algo como uma perda de identidade) neutralizando-a
preventivamente. A dúvida metódica cartesiana não é uma situação normal, real, e
por isso mesmo é uma situação infernal, no sentido de que há um rebaixamento do
status ontológico do ser.
A dúvida metódica – seja a de Descartes, de
Kant ou de Husserl – falha porque a filosofia necessariamente falha na tarefa
impossível de defender o homem da morte da alma. A dúvida não é o caminho da
filosofia, mas, pelo contrário, o caminho da filosofia é a da reflexão
completa, da reflexão que não nega o conhecimento, nem mesmo
hipoteticamente.
Kant e a invenção de um novo absoluto
Também Kant, como Descartes, põe em dúvida
o conhecimento humano. Na tentativa de impor-lhe limites, Kant incorre numa
falácia incontornável: os limites intrínsecos do conhecimento não podem “emigrar”
para o domínio dos fatos e, extrinsecamente, tampouco os fatos podem nos dizer
o que quer que seja porque não passam de fatos contingentes. Não há nada de
necessário neles, tudo são acidentes.
Mas dado que a dúvida foi elevada a algo inquestionável
e infalível, então para sustentá-la Kant busca e absolutiza os limites do conhecimento
como seu ponto de apoio. Um giro lógico, sem dúvida. Então ficamos assim: não
sabemos absolutamente nada, e esse mesmo limite o tomamos como algo absoluto. Os
limites do conhecimento são o novo absoluto.
O tempo e o espaço, como sabemos, são as
formas a priori da sensibilidade. O espaço é a forma da exterioridade e
o tempo da interioridade. Alguma mediação entre tempo e espaço é necessário,
senão nenhuma percepção seria possível. Segundo Kant, essa mediação não pode
ser racional (ou seja, nenhuma categoria da razão) porque, como vimos em várias
postagens, a razão pura é alvo de crítica dura.
A mediação tem que ser feita pela existência.
Kant admite a existência, mas apenas como categoria da razão. Porém, a
existência a fortiori tem de ser uma categoria gnosiológica e ontológica:
é a forma da percepção dos objetos (gnosiológica) e a forma da presença dos
objetos (ontológica).
Ser e conhecer
Para Olavo de Carvalho, ser é conhecer porque
o real, antes de ser “sujeito” ou “objeto”, tem necessariamente a capacidade de
se apresentar a alguém. Então o conhecimento não está enraizado na “ponte” (ou
adequação) entre um ser e outro, mas está enraizado no próprio ser. Podemos
raciocinar de maneira inversa: se há algo que absolutamente não pode ser
conhecido então esse ser absolutamente não existe.
O conhecimento é, então, uma potência que
se atualiza no ser. Uma pedra recebe informação porque sofre pressão
atmosférica, propriedades cristalográficas etc. A pedra, claro, não é
consciente disso, e portanto essas informações não são propriamente um modo
de conhecimento, mas melhor dizendo um modo de apresentação. É
verdade que a pedra conhece algo de quem a vê, nem que seja atualizar sua
potência de ser vista. Mas não é assim no ser humano: nós não apenas
conhecemos, mas conhecemos o que conhecemos (temos consciência de que
conhecemos).
Nós, seres humanos, podemos aumentar nosso
conhecimento e, assim, aumentar nossa realidade. Somos mais reais quando
conhecemos mais. O puro sujeito, que só conhece e nunca é conhecido, e o puro
objeto, que só é conhecido e nunca conhece, são negações da realidade. O
conhecimento é, portanto, uma relação de termos coexistentes, é a estrutura do
ser.
A presença, segundo Olavo de Carvalho,
é a forma de conhecer que consiste em ser. O ser é portador de “registros” e
receptor de “registros”. A presença é o fundamento de todas as práticas de
conhecimento, seja concentração, meditação, recolhimento etc.
