Amar tem uma dose de sofrimento porque obriga os amantes a desprenderem parcialmente da individualidade em nome da relação dual. Todavia, quando tal fusão é realizada à força, o amor desaparece. Já não há uma tentativa de fusão do desejo, de ajuste contínuo e heroico, mas aniquilamento do outro em nome de um ego dominante que infla, incha, cresce desordenadamente e explode em ímpetos de fúria quando a lógica da submissão não funciona mais. Amar é um exercício de aniquilamento no qual os dois criam uma nova vida, um novo horizonte, em que o sombrio e o luminoso apresentar-se-ão inevitavelmente. É por isso que amar exige coragem, como os filósofos antigos bem entenderam.
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A ideia da morte não se dilui com
distrações vãs, como um jogo de cartas. Ela sobrepuja tudo aquilo que pretende
ser um obstáculo à sua presença imponente. É a vida vista de perto.
[...] A partir do século XX, a ideia da morte distanciou-se da vida cotidiana
do indivíduo e foi banida do espaço público. Se antes a morte caminhava entre
os homens, de modo que o moribundo padecia na companhia de seus familiares e
súditos até o último pulsar de seu coração, agora ele enfrentará sozinho seu
fim, pois está afastado daqueles que lhe são caros. Portanto, a morte é
empurrada para os bastidores da vida social.
[Eis] uma característica do homem
contemporâneo: a engenhosidade em esconder aquilo que o destrói.
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O homem pode até escolher uma vida
solitária, desprezando seus possíveis pares, mas só Deus pode desfrutar da
infinita solidão: “Mas só Deus – que é único, que não tem par – poderia dizer
o que é a solidão”. Deus não tem par, e, por este motivo, não preza nem
despreza uma companhia: só o Criador sabe o que é a apoteose da solidão.
Fonte:
Andrei Venturini Martins, A verdade é insuportável, Editora Filocalia,
São Paulo, Brasil, 2019.
