12 de dezembro de 2022

O filósofo-místico de Eric Voegelin - II


Parte I

Em seu livro autobiográfico, o filósofo Eric Voegelin relata como de repente se viu obrigado a abandonar um longo e trabalhoso projeto intelectual quando se convenceu, em definitivo, de que "não haveria ideias se antes não houvesse símbolos e experiências imediatas. Ademais, era impossível tratar como 'ideias' fenômenos como um ritual egípcio de coroação ou a recitação do Enuma Elish nas celebrações do ano-novo sumério [...]; [Assim, seria preciso] recuperar as experiências em que as ideias têm origem". Na elucidação desse ponto, Voegelin não quis afirmar a impossibilidade de escrever uma "história das ideias", mas sim a inadequação de tratar as ideias religiosas como realidades fundantes, principalmente quando se estudam as instituições religioso-políticas em contextos arcaicos. Muito antes que se organizassem determinadas ideias (religiosas e/ou políticas), Voegelin percebeu que teria de haver experiências cujo impacto seria determinante na atriuição dos sinais fundantes dessas ideias. Todavia, ainda que Voegelin estivesse certo na aposta que fez de uma anterioridade estrutural de certas experiências e eventos fundadores, ele jamais conseguiu se libertar do fascínio intelectual que tinha pelas simbologias do sagrado; portanto, embora percebsse a necessidade de desintelectualizar as experiências fundantes, que se expressariam como experiências de ordem (seu objetivo era conseguir compreendê-las com maior acuidade histórica), suas análises nunca abandonaram o mundo das ideias. Os sistemas de Voegelin simplesmente não encontram o necans [que mata], o implantador dos mais variados sistemas de ordem. A meu ver, esse filósofo germânico, ainda que intelectualmente brilhante e de inegável erudição, foi incapaz de rompero véu de seu reconhecido platonismo e ver Caim matar seu irmão.

Como ocorre com parte expressiva dos "filósofos esotéricos", havia um comprometimento inegociável com a autoridade primeira das ideias e dos conceitos, mesmo quando se afirmava o contrário em nome de um suposto rastreamento histórico das experiências fundantes em seus ordenamentos simbólicos, em cuja base as mais diersas cosmologias teriam tomado forma.

Àqueles que se escandalizarão por conta da atrbuição de esoterismo a Voegelin (o presumível campeão de uma cruzada intelectual contra o perigo gnóstico dos revolucionários modernos),deixo-lhes as palavras de Gregor Sebba, colega e amigo íntimo de Voegelin: "Para mim Eric Voegelin sempre fora um representante exemplar do racionalismo, em seu sentido grego. Todavia, ao defender essa posição contra afirmações que lhe chamavam de filósofo místico, ele me escreveu: 'Isso lhe causará um choque, mas sou um filósofo místico'". Não se engane o leitor, o misticismo de Voegelin nõ se alicerçava na fé, na oração e no arrependimento, mas numa via negativa sustentada pelo pretenso distanciamento reflexivo do filósofo, "uma forma de autoasserção e a expressão de um desejo de estar certo quando tutdo e todos estariam comprovadamente equivocados". Semelhante aos gnósticos que tanto denunciava, Voegelin também fundou uma crítica social fundamentalista, baseada na dimâmica entre opostos, e que em seu caso expressava numa pretensa validade insuperável de sua via negativa versus o que via como engano da obstrução gnóstica: "A insistência de Voegelin no mistério fundamental da Realidade e de seu campo cognitivo não reflete o 'acesso humilde' da prece meditativa, mas a imposição de um sistema portador de um paradoxo em seu centro".

Na pena de Voegelin, o filósofo "esotérico", um hino dedicado a Hórus tornar-se mera idealização indumentária de um poder excelso. Como disse John Ranieri com prcisão: "Esse é um problema que a filosofia não consegue olhar; fascinada pela aparente profundidade de sua própria cortina de fumaça".

"Para Voegelin, a crise [de ordem] era sempre e exclusivamente um fenômeno social, e a imunidade pessoal [do filósofo] era uma possibiidade distinta ou mesmo uma obrigação. O orgulho ao qual nos referimos neste contexto corresponde à indisposição ou incapacidade do filósofo de contemplar a possibilidade de que o seu pensamento seja um sintoma da própria doença que ele tão bem diagnosticou em seu meio social".

Fonte: Maurício Righi, Pré-História & História, É Realizações Editora, São Paulo, Brasil, 2017.

Algumas observações girardianas


René Girard faz uma crítica à circularidade viciosa do raciocínio-padrão do evolucionismo social.

"Não se pode pressupor que os domesticadores tivessem sido motivados pelos resultados futuros do processo, que não tinham como prever. Não pode ter havido nenhum incentivo para domesticá-los [animais e plantas] diretamente ligado à domesticação e suas vantagens, pois tais consequências eram naturalmente desconhecidas! Além disso, em seus primeiros estágios, a domesticação era antieconômica [grifo do autor] [...] A domesticação não pode ter sido prevista, nem mesmo planejada."

O desfecho de um longo processo histórico não se antecipa em sua origem, ao menos não para nós; logo, um período da história não adivinhará o próximo.

* * *

A intuição/criação de reinos espirituais via estados alterados de consciência ou, melhor dizendo, via percepção aguçada, foi uma prerrogativa do sapiens, a marca inconfundível de sua superioridade simbólico-imaginativa. A religião passaria a ser vista como a "invenção" mais original de nossa espécie, em torno da qual se fundamentou o traço tipicamente humano de erigir constructos simbólicos, narrativas de gênese e procedimentos religiosos coletivamente hierarquzados e socialmente distribuídos.

[...]

Apreende-se que por trás das variações mitológicas dos povos há três instituições (e três ideias) universalmente presentes: sacrifício, sepultamente e xamanismo. 

No templo-palácio, sacrifício, sepultamento e xamanismo foram finalmente domesticados, e esquemas mais acrisolados de racionalização e controle puderam ser concebidos e implantados, o que levou, muito provavelmente, a um dinamismo intelectual fomentador de procedimentos mais complexos e hierarquizados de ordenamento coletivo.

Surgiu, de bases xamânicas, uma classe especialmente talhada para pensar a religio: o estamento sacerdotal. Esse ambiente social acabou por criar modos de vida sobremaneira intelectulizados.

* * *

Girard: "Em seus sonhos [e devaneios] solitários, o orgulho se vê como um, mas no fracasso ele se divide entre um ser desprezível e um observador que despreza. Ele se torna Outro para si próprio. O fracasso o obriga a tomar, contra si mesmo, o partido desse Outro que lhe revela o seu próprio nada".

* * *

O que faz de uma pessoa um psicopata é sua incapacidade de relaxar diante das adversidades que se contrapõem ao seu desejo, já que este jamais aceitará uma derrota. Ele vive a tirania de um desejo que não admite ser contrariado, que se ressente de tudo e todos que lhe antagonizem a vontade. Os outros, os que lhe cruzam o caminho, são vistos como realidades potencialmente hostis e, mais cedo ou mais tarde, precisrão ser vencidos ou descartados. Nesse universo de violência psíquica (e física), o companheiro hoje será amanhã o inimigo, um adversário que precisará ser enganado ou eliminado. Trata-se de um ambiente privado de perdão, mas que, ao mesmo tempo, abarrota-se de retaliações, uma atmosfera que podemos chamar de subterrânea, em que o desejo (de si) é ao mesmo tempo sagrado e violento.

* * *

Em sua base, a intuição de Girard é mínima e largamente assistêmica: não sabemos o que desejar e precisamos que os outros nos indiquem; ou seja, precisamos de modelos cujos desejos imitamos. Logo, "entre o eu e os outros sempre se estabelece uma comparação" que busca apropriar-se não só de objetos e substâncias, mas, pricipalmente, do que essas coisas representam. Por conseguinte, essa tendência à imaterialidade do que se busca abre um espectro absolutamente infinito de significados (e justificativas) possíveis de conflito. O "caminho da rivalidade" gera doses crescentes de fascínio entre elementos polarizados, levando seus participantes às dimensões "metafísicas" (imateriais) do desejo, que se afastam progressivamente de ojetos e coisas, intensificando as subjetividades desencadeadas entre os desejantes.

Fonte: Maurício Righi, Pré-História & História, É Realizações Editora, São Paulo, Brasil, 2017.

7 de dezembro de 2022

O despertar da senhorita Prim


-- Sabemos que [a Redenção] não se trata de um conto de fadas normal. Sabemos que é um conto de fadas real.

-- O que o senhor quer dizer é que se parece com os contos de fadas? É isso? --perguntou intrigada.

-- Não, claro que não. A Redenção não se parece nem um pouco com os contos de fadas, senhorita Prim. São os contos de fadas e as velhas lendas que se parecem com a Redenção. Nunca tinha percebido? É como quando você copia uma árvore do jardim no papel. A árvore do jardim não se parece com o desenho, certo? É o desenho que se parece um pouco, só um pouquinho, com a árvore de verdade.

* * *

-- Os homens? Deixemos que os homens se ocupem de si mesmos. Já temos muito com o que nos ocupar, não acha? A senhorita é muito jovem e inexperiente, Prudência, mas vou te dizer uma coisa. O dia em que grande parte dos jantares entre homens e mulheres deixar de se dividir em dois guetos (um masculino, no qual se fala sobre política e economia, e outro feminino, onde triunfam as piadinhas e fofocas), esse dia vamos ter autoridade para dizer algo sobre a formação dos homens. O que vou te dizer agora vai te deixar escandalizada, sem dúvida, mas vou dizer assim mesmo: a maioria das mulheres não conversa. E não conversam, eis o mais grave, não porque não podem, mas porque não se dão ao trabalho de tentar.

* * *

-- Escute bem. Lhe chamei de tonta porque me parece que perturbar-se dessa forma pelo que me contou é comportar-se como uma tonta. Sou um homem franco, com certeza franco demais, e a senhorita tem razão: não sou delicado. Mas acredito que a estas alturas a senhorita já deveria saber o suficiente sobre mim para entender que, embora não seja um exemplo de delicadeza, sou uma pessoa decente. Se lhe digo que me conte algo é porque me interessa ajudar-lhe. Então deixe-me falar e escute o que tenho a dizer.

-- Não escutarei nada a não ser que retire seu insulto --disse ela com secura.

-- Está bem, retiro o que disse. Mas que conste que não era um insulto; eu qualifiquei sua forma de se comportar, não qualifiquei você.

-- Não comece outra vez com suas distinções teológicas, não vai me ludibriar de novo.

[...]

-- Ora, você não é tonta, Prudência, apenas se comporta como tonta. Não chore, por favor, já que sabe que indivíduos como eu não sabem lidar com as lágrimas, não temos esse dom. Escute bem: ocorre que há algumas coisas que lhe fazem sofrer, e lhe fazem sofrer porque não as compreende bem, simplesmente. Em primeiro lugar, não existe isso de vitória definitiva de si mesmo sobre os próprios defeitos, Prudência, não é um campo em que funcione a mera força de vontade. Temos uma natureza defeituosa, uma espécie de velha locomotiva ferida e como consequência disso, por muito que nos empenhemos, tendemos sempre a falhar. Angustiar-se por isso é absurdo e, mesmo que você fique com raiva ao ouvir isso, soberbo também. O que temos que fazer é pedir ajuda a quem fez a máquina cada vez que falhamos. E em todo caso deixar que a melhore aos poucos injetando-lhe de vez em quando uma boa dose de óleo.

-- Essa é uma explicação religiosa e eu não sou religiosa. Não utilize esse argumento comigo, por favor, não serve. --disse ela com o nariz vermelho pelo frio e pelo choro.

-- Essa resposta não é digna de uma mente lúcida, Prudência. E é um dos frutos dessa educação antitomista da qual está tão orgulhosa. A questão aqui, ou em qualquer outra discussão, não é se minha resposta é ou não é religiosa, mas se é ou não é verdadeira. Será que você não vê a diferença? Contraargumente, Prudência, diga-me que não é verdade o que eu digo, explique-me por que não é verdade, mas não me responsa que meu argumento não serve porque é religioso. A única razão pela qual meu argumento pode não servir aqui ou no fim do mundo é simplesmente porque resulte falso.

-- Está bem, pois lhe digo que não serve porque é falso.

-- É mesmo? Isso quer dizer que a senhorita acredita que o ser humano é capaz de alcançar a perfeição e manter-se nesse nível de excelência moral por suas próprias forças. Não acredita que errar é humano? Acredita que o homem não falha?

-- É claro que não acredito nisso, sei perfeitamente que errar é humano e que ninguém é perfeito.

-- Quer dizer que, no fundo, acredita que boa parte do que eu disse é verdade. O que acontece é que a senhorita apenas reconhece a verdade quando ela vem vestida com roupa secular.

* * *

-- É ela que se culpa a si mesma, mas não pode reconhecê-lo. É mais fácil projetar a culpa nos olhos dos outros e defender-se dela do que encontrá-la no interior de si mesmo, onde não há defesa possível.

* * *

-- A sensibilidade é um dom, Prudência, sou perfeitamente consciente disso. Mas a sensibilidade não é o instrumento adequado para pensar, e quando se utiliza para pensar, não somente não traz à fruição, mas conduz ao desastre. O mesmo acontece com as orelhas e a comida. Um órgão admirável, a orelha; uma maravilha de desenho pensada até a última de suas tramas para facilitar a audição. Ah, mas experimente usá-la para comer e verá que resultado obterá. Detesto o sentimentalismo, mas isso não me converte em uma pessoa fria. Uma coisa é o sentimentalismo e outra o sentimento, Prudência. O sentimentalismo é uma patologia dos sentimentos, que crescem, se exccedem, ocupam um lugar que não lhes corresponde, se tornam loucos, escurecem o juízo. Não ser sentimental não significa carecer de sentimentos, mas unicamente saber canalizá-los. O ideal é possuir uma cabeça temperada e um coração sensivel.

Fonte: Natalia Sanmartín Fenollera, El despertar de la señorita Prim, Editorial Planeta, Barcelona, Espanha, 2013.

5 de dezembro de 2022

Amor e sexo


O corpo de uma pessoa -- não somente suas formas mas também seu gesto e porte -- oferece uma informação extensa e intensa acerca da vida dessa pessoa; frases como "ter o coração na mão", "ficar de cabelo em pé", "fazer das tripas coração", "ficar sem ar",...escondem uma riqueza intuitiva nada desdenhável e mesmo assim continuamos a estabelecer grandes distâncias entre nosso corpo e nossa mente, nosso corpo e nossa vida e consequentemente continuamos a nos guiar exclusivamente por nossas crenças e desprezando as mensagens corporais.

Esse dualismo de longínqua origem antropológica -- amplamente reforçado pelo dualismo religioso amor/sexualidade -- é uma das fisuras de nosso mundo ocidental e seu preço é caro: a substituição do conhecimento pelo controle.

Os efeitos dessa substituição têm sido traduzidos por um conflito interno contínuo, por uma luta pelo controle, mas não um controle saudável de nossas emoções, mas um domínio permanente e intolerante de quase todas as manifestações de nosso corpo, e como consequência dessa luta, nosso domínio egoísta do entorno, do que como organismos vivos formamos parte inseparável e sem a qual não poderíamos sobreviver. Costumamos entender por personalidade o caráter e o temperamento de um indivíduo, assim como suas convicções e a escala de valores que vai formando ao longo de sua vida. Ou seja, é a expressão particular de cada ser humano: tal como aparece diante de nós e tal como se vê a si mesmo. Etimologimente o conceito deriva da "máscara" que utilizavam os atores para que os escutassem melhor. Se aproveitamos o símbolo que isso representa podemos afirmar que a "autoconsciência" se reduz habitualmente à "ideia que temos de nós mesmos" e mais concrectamente à soma de nosso status e papéis sociais. Mas talvez isso tenha pouco a ver com o que somos em realidade, já que em nossa consciência habitual não costumamos incluir, por exemplo, a percepção de nossas funções vitais, essenciais para a sobrevivência, nem uma ideia coerente da mencionada relação simbiótica com o entorno.

Nos guiar unicamente por nossas suposições e crenças, sem nos darmos a possibilidade de escutar nossas intuições e percepções sensoriais, implica em nos guiar por uma informação muito parcial de toda a informação que temos a nosso alcance; parcial e deformada. Perigosamente confundidos pelo mais simples e evidente, acreditamos ter uma pele, quando somos uma pele, acreditamos ter um órgão genital, quando somos um órgão genital, acreditamos ter um corpo, quando somos um corpo. Costumamos perseguir objetivos que são "símbolos" culturais como o poder, o controle, a fama, a honra, a glória...e desprezamos os prazeres cotidianos acessíveis e reais, os quais não precisamos procurar, mas simplesmente nos colocar em atitude de encontrá-los, como passear, mastigar, acariciar, contemplar, respirar... Vemos, pois, como a maior confusão entre símbolo e realidade se encarniça com a autoconsciência, e consequentemente com essa parcela das relações humanas que é a sexualidade.

Em consequência podemos nos perguntar se nossa "ideia de satisfação sexual" corresponde com a satisfação que realmente se pode obter da sexualidade. A ideia de satisfação sexual baseada na alimentação da personalidade (máscara) e da autoimagem, assim como em todas as crenças irracionais que estamos comentando, sempre dará menos jogo que quando nos baseamos no conhecimento -- racional e emocional --, e não no domínio, do corpo e suas sensações. 

Podemos decidir, portanto, que da mesma forma que não existe "plena" autoconsciência a partir do domínio e do controle, mas somente a partir do conhecimento, a ideia de satisfação sexual baseada em nossos símbolos de sucesso e de domínio não apenas não corresponderá à satisfação "real", mas a dificultará consideravelmente: a anestesia gerada na qual, escravos da ideia de satisfação e de "satisfação cumprida", deixamos de escutar o próprio corpo, pode ser e constuma ser um germe de insatisfação sexual e vital. De fato, é o germe e a essência da ansiedade desnecessária, a qua já definimos como "esperar o que não chega, desprezando ou ignorando o mais estrito presente".

Felizmente, ha antídotos contra tal anestesia, entre eles o conhecer, tal como propomos, a ansiedade; o descobrir o prazer do cotidiano, que por ser cotidiano está constantemente presente, e a humildade suficiente para deixar de contemplar o corpo como se fosse uma casca que devemos suportar ou como se fosse um automóvel do qual acreditamos não ser o motorista, e começar a contemplá-lo como nosso mais leal e seguro mestre; alimentando seu conhecimento em substituição do domínio e do controle.


* * *


1. O amor


Não pretendemos definir uma vivência que, talvez, não tenha tradução verbal; apenas tentaremos expor uma concepção pessoal do amor.

Diz-se, com razão, que a base do amor é a entrega, mas essa entrega se confunde com a concessão e o sacrifício, quando se necessita pouca lógica para observar que nunca podemos entregar e oferecer aquilo que não possuímos previamente. É por esse pequeno e grande matiz que descreveríamos o amor como a autoaceitação incondicional e consequentemente de seu entorno: é difícil copreender, aceitar e conhecer os outros mais do que a medida em que nos compreendemos, aceitamos e conhecemos a nós mesmos. Se tivéssemos que dar um exemplo a respeito, diríamos que apenas os mafiosos conhecem a linguagem verbal e gestual de outro mafioso, assim como a generosidade ou a honestidade são reconhecidas por aqueles que são honestos e generosos. Da mesma forma, somente na medida em que fujamos do autoengano deixaremos de enganar mais ou menos conscientemente os outros.

Essa aceitação de si mesmo e do entorno, do que gostamos e não gostamos, não apenas não implica mas se opõe à resignação e ao conformismo.

Por um lado, somente o que aceitamos permite ser conhecido sem preconceitos e juízos de valor (por exemplo, no terreno sexual, somente as fantasias aceitadas permitem o jogo erótico de sua verbalização); por outro lado, somente o deixar de projetar a autoaceitação no futuro, ou seja, na forma como gostaríamos de ser, ao invés de nos conhecermos tal como somos em realidade no momento presente, possibilita fugir do autoengano. Finalmente, quanto mais informação tenhamos de nós mesmos mais informação podemos captar dos outros.

O conhecimento de nossa "totalidade", longe de conduzir à resignação (submissão voluntária), facilita aprender a pilotar nossas frustraões, carências e limitações. Somente a ignorância facilita e permite o conformismo ou a subsmissão.

Somente o desamor é cego, louco e gera sofrimento, porque somente o desamor permite o autoengano, o desconhecimento e a manipulação de nossos semelhantes.

Talvez somente deixaremos de tentar mudar os outros a fim de que sejam como gostaríamos que fossem, e manter assim o autoengano e o desconhecimento, quando começarmos a relacionar o amor com conceitos como verdade, clareza, saúde,conhecimento, criatividade e corpo.


2. O namoro


Dado que "namoro" signfica "em amor", os mesmos flagelos que pesam sobre o amor pesam consequentemente sobre o namoro.

Quando descobrimos alguém que sentimos atração nosso primeiro desejo é de "conhecer" a pessoa descoberta; uns vão querer conhecer preferencialmente seus ideais, outros sua conta bancária, mas o sentimento que sempre acompanha a flechada é o desejo de conhecimento.

Para nós, a paixão é acompanhada de um desejo de conhecer o outro e mostrar-lhe o que sabemos de nós mesmos. Mas apesar do desejo fundamental de ser querido "em nossa totalidade", a "personalidade" que autofabricamos nos força imediatamente a ocultar o que não gostamos de nós mesmos.

Isso costuma ser um autoengano e consequentemente um engano para o outro. Se além disso acresentamos a interpretação que fazemos do Cupido, isto é, concebemos o namoro como algo que não requer maiores cuidados mais do que o mero desenrolar do que o destino proporciona, e acresentamos ainda a supervalorização da pessoa amada, da qual irracionalmente se espera a solução definitiva de nossos problemas, entenderemos a facilidade com que responsabiizamos o namoro de suas típicas consequências trágicas.

Vivido dessa forma, o namoro não deixa de ser um episódio temporário de alienação no qual o ser amado é amo e senhor de nossos pensamentos, para deixar de ser quando na convivência, geralmente incultivada, vai surgindo tudo aquilo que havíamos escondido de nós mesmos e a evidência de que "o outro" não é a solução definitiva de nossos problemas.

Mas se esse primeiro "desejo de conhecer" a pessoa que nos atrai por qualquer motivo, longe de bloqueá-lo com o resto de nossos desejos, soubéssemos mantê-lo -- com os altos e baixos que todo intercâmbo de informações supõe -- o namoro poderia ser renovado constantemente, sem acabar no frequente triste amor-resignação.


3. Da sexualidade ao amor e do amor à sexualidade


Aliado ao amor "sem paixão" que costuma suceder o processo de namoro, costuma aparecer também a monotonia e o aborrecimento sexual.

Consequentemente existe a ideia popular, rígida e idealizada de que somente a "novidade sexual" é excitante ou sistematicamente exitante, ou garantia de excitação, esquecendo a possibilidade de permanente descobrimento quando existe um cultivo da relação.

O prazer sexual mais global e/ou intenso costuma ser encontrado quando existe o afeto e o desejo de conhecimento entre os membros da relação. Dito de outro modo, o amor costuma ser o melhor afrodisíaco.

A diferença fundamental que introduz a presença do componente amoroso é a confiança para nos desnudarmos completamente não apenas da roupa mas também da "personalidade".

Quando mantemos relações sexuais com "personalidade", o seja, com nosso orgulho, nossos títulos, nossas diversas máscaras...estamos nos relacionando com a ideia que temos de nós mesmos; consequentemente, nossas atitudes sexuais vão tender a ser um meio para alimentar essa ideia, que pouco tem a ver com nossa autêntica realidade de seres humanos limitados a um ínfimo espaço e tempo. As possibilidades de nos aceitarmos com nossas fraquezas e limitações ficam minguadas e o oferecimento que, em consequência, costumamos fazer de nós mesmos será parcial.

Dado que ninguém pode se sentir realmente querido por sua personalidade e suas diversas máscaras e dado que o intercâmbio de informação nunca é unilateral, nos sentimos queridos e desejados na mesma medida proporcional que nos mostramos sem autoengano e, em conquência, somos aceitos em nossa autenticidade.

Numa primeira relação é importante guardar o desejo e a atitude aberta às possibilidades de confiança e conhecimento.

Essa atitude requer contemplar os obstáculos a tal confiança como parte do jogo saudável; requer também certa disposição à desilusão, mas não só: requer uma disposição à ruptura ou separação de acordo com o tipo de desilusão; requer finalmente honestidade consigo mesmo e com os outros, descartando por completo a manipulação.

Podemos dizer que a manipulação consiste em possuir e usar o outro para nosso prazer, isto é, conduzi-lo a um objetivo pré-fixado que o outro não conhece e que, consequentemente, não consentiu.

Alimentar, portanto, o desconhecimento não poderá resultar em outra coisa que não dificultar o mútuo intercâmbio de informações.

Sem dúvida nem todas as relações sexuais se realizam entre as pessoas que se amam com esse amor entendido como aceitação de si mesmo e em consequencia dos outros. Inclusive podem funcionar satisfatoriamente sem que seus membros tenham proposto nunca tais níveis de relação, mas "todas" as relações francas nas quais estejamos atentos aos próprios desejos e preferências e fujamos da posse e da manipulação, não somente oferecem a posibilidade de uma confiança "plena" mas que constituem em si mesmas um exemplo de ternura e amor.

Embora nos pareça útil mostrar as vantagens das relações duradouras (à margem do modelo de relação de que se trate), em nenhum momento tentamos erigir a confiança e a aceitação plenas como requisito imprescindível do prazer sexual, já que essa confiança e aceitação também provêm da atvidade e do prazer sexual.

Com respeito a isso, se o amor implica em conhecimento e se somente amamos, gostamos ou desejamos aquilo que conhecemos, então qual conhecimento da outra pessoa poderia ser mais completo do que não somente através de nossos ideias mas também através de todo nosso corpo e nossa percepção sesorial?

No entanto, existe ou uma idealização ou uma infravalorização da ternura e do próprio amor, aos quais se costuma conceber como algo pouco carnal ou excessivamente transcendente, quando não há nada mais real, constante e cotidiano que aquilo com que convivemos permanentemente: nosso corpo com seus pensamentos e sua percepção sensorial.

O erotismo seria talvez o mais completo e intenso intercâmbio de informação com nós mesmos e com nossos semelhantes se entendêssemos que não existe desejo nem atração sexual sem um mínimo de informação e conhecimento, e se entendêssemos que o amor se transmite e recebe com o próprio corpo.

Mostrar portanto a semelhança entre o amor e a sexualidade é a única e autêntica intenção, a fim de que posasmos nos aproximar em "toda" relação sexual (estável ou promíscua) a essa elegância, criatividade e savoir faire autênticos, baseados no respeito a si mesmo e no respeito aos outros. A fim de que entendamos que esse "respeito" não somente atenta diretamente contra a monotonia nas relações mais estabilizadas, mas que é imprescindível para uma certa qualidede no prazer sexual.

Fonte: Montserrat Calvo Artés, Trampas y Claves Sexuales, Icaria Editorial, Barcelona, Espanha, 1987.

23 de novembro de 2022

As características fundamentais da vida adulta


É certo que cada pessoa tem suas próprias características, seus próprios valores e suas próprias atitudes. Mas aqui do que vamos tratar são as características fundamentais que marcam a passagem da vida infanto-juvenil para a vida adulta. Não me refiro às características físicas, sobre as quais um bom manual de anatomia basta para delineá-las: diferenças em tamanho, musculatura, desenvolvimento cerebral, produção hormonal etc., são visíveis e, dadas as condições mínimas de cuidado e alimentação, inevitáveis. Por outro lado, tampouco me refiro às características sociais, como levar uma vida independente e produtiva, mesmo porque tais traços também são de certa forma visíveis e sobre as quais restam poucas dúvidas. Me refiro às características psicológicas, por definição invisíveis, que devem estar presentes para que uma "criança grande" possa adentrar à vida adulta e buscar sua realização pessoal.

Tais características não surgem naturalmente, como é o caso das características físicas. A simples passagem do tempo não basta para que se desenvolvam. É necessário o emprego da intenção consciente, de um esforço pessoal e contínuo, para que possam estabelecer-se como hábitos mentais e, por conseguinte, como parte de uma identidade adulta, saudável e sensata.

As diversas terapias cognitivo-comportamentais listam alguns comportamentos e valores que habitualmente se encontram em adultos saudáveis e mnimamente desenvlvidos. Aqui tomaremos as características listadas pela psicóloga espanhola Leonor Lega, embora pequenas variações possam ser encontradas em outras obras.

(1) Responsabilidade emocional vs. irresponsabilidade emocional

As pessoas saudáveis tendem a aceitar a resposabilidade por sua própria existência em vez de culpar o passado, os outros ou as condições sociais por seus pensamentos, sentimentos e comportamentos disfuncionais. Elas são capazesde escolher com liberdade suas própria emoções, comportamentos e estilo de vida.

As pessoas saudáveis sabem que elas mesmas são as principais responsáveis por seus próprios transtornos. Elas não dizem "Ele me ofendeu", mas "Eu me ofendi". Isso significa que não é "ele" (seja esse "ele" quem seja) que é injusto, que lhe causa malestar, que não é razoável, que lhe prejudica, que não tem direito de fazer o que fez etc., mas apenas que ele está louco, que ele está muito perturbado, que ele tem direito a estar enganado, que sua conduta é má etc. Observe que em lugar de sentir raiva, que não apenas é um sentimento negativo mas insalubre, sentimos aborrecimento, pesar e decepção, que são sentimentos negativos mas saudáveis.

(2) Autointeresse vs. interesse social

As pessoas sensatas e emocionalmente saudáveis tendem a estar interessadas prioritária e fudamentalmente em si mesmas, e a colocar ligeiramente à frente seus próprios intereses em relação aos interesses dos outros. Elas se sacrificam a si mesmas por aquelas que estimam, mas só até certo ponto, nunca de forma completa ou totalmente entregada. Os seres humanos se preocupam sobretudo de si mesmos, se interessam, basicamente, por seu próprio bem-estar e por sua própria sobrevivência.

A ideia aqui não é ser egoísta, ou seja, usar o próximo para seu próprio benefício, mas tampouco permitir que o próximo seja um elemento que promova sua destruição, não importa se o faça consciente ou inconscientemente. O interesse social (familiar, laboral, escolar, comunitário, religioso, não importa) é racional, pois escolhemos viver em comunidade, mas passa a ser insensato se tal convivio implica em sacrificar-se enquanto pessoa, enquanto ser humano, enquanto adulto.

(3) Autodireção vs. dependência

As pessoas adultas, ao assumirem responsabilidades e compromissos, tendem a tomar as rédeas de suas próprias vidas e podem cooperar, apoiar e colaborar com os demais. Mas não precisam ou exigem um apoio ou socorro constantes dos outros.

A autodireção ensina às pessoas a saberem o que querem fazer de suas vidas, a seguirem seus caminhos e a tomarem suas próprias decisões, mesmo que fracassem ou se enganem, e a não a seguirem cegamente o que dizem seus pais ou outras pessoas. O adulto controla sua vida, pensa por si mesmo e é autônomo em suas decisões. Ele escolhe suas próprias metas, persegue ativamente seus próprios objetivos, toma suas próprias decisões e supera as dificuldades que surgem pelo caminho.

(4) Flexibilidade vs. rigidez

Os indivíduos adultos, sãos e maduros tendem a ser flexíveis em sua forma de pensar, abertos à mudança, tolerantes e pluralistas em sua visão das coisas e das pessoas. Não estabelecem regras rígidas e inamovíveis acerca de si mesmos e dos demais. O pensamento flexível permite ajustar-se, gerenciar melhor o tempo, romper a monotonia e adaptar-se às novas circunstânias que requerem novas formas de pensar e agir. Um visão extremista das coisas, um visão "8 ou 80", resultará em problemas.

Mas exatamente o quê devemos flexibilizar? Precisamente os valores que se situam abaixo dos valores que aqui elencamos. Os valores devem ser encarados como preferências, não como normas rígidas. Se aparece uma nova informação que põe em xeque uma visão que temos sobre determinado assunto ou mesmo sobre a vida como um todo, convém que a adaptemos. Os valores não somos nós. Nós temos valores, não os valores a nós. Portanto, para um adulto, a mudança é um desafio, não uma ameaça. 

(5) Incerteza vs. certeza absoluta

Os adultos tendem a reconhecer e aceitar a ideia de que vivem em um mundo de incertezas e probabilidades, onde não existem as certezas absolutas. Se dão conta, inclusive, que viver nesta vida incerta é às vezes fascinante e divertido, não algo terrível. Importante: a incerteza aqui refere-se ao futuro, ou seja, viver com certo grau de ordem e organização é, sim, benéfico, desde que não se exija saber exatamente o que acontecerá no futuro.

A vida é como uma roleta de cassino: nunca se sabe se, e quando, vai sair o prêmio para você. Melhor que a segurança e a certeza é a aceitação de que não podemos controlar o futuro.

(6) Interesse vital vs. desinteresse vital

A maoria das pessoas tende a sentir-se mais sãs e felizes quando estão vitalmente ocupadas em um projeto alheio a si mesmas, seja em um tema de interesse coletivo, seja algum comprmisso humano, ao qual outorgam tanta importância que planejam boa parte de sua vida diária em função desse interesse ou compromisso.

Uma vida com pouco ou nenhum compromisso acarreta em aborrecimento, insatisfação e mesmo depressão. O próprio indivíduo escolhe seus interesses, seja a educação física, intelectual ou espiritual, seja alguma atividade extra-laboral, seja costurar etc. Esas metas são especialmente importantes conforme envelhecemos e os objetivos meramente laborais perdem sua relevância e interesse e criar os filhos perde o sentido.

(7) Pensamento científico vs. pensamento mágico

Os adultos tendem a ser mais objetivos, racionais e científicos. São capazes de sentir profundamente e agir de maneira concentrada, e tendem a regular suas emoções e ações refletindo sobre elas e avaliando as consequências de suas condutas a curto e longo prazo.

A perspectiva religiosa ou mística não deve ser a base da vida adulta, e sim a evidência científica. Qualquer traço de fanatismo ou visão sectária e preconceituosa deve ser recusada in limine. Assim também uma teoria científica, para ser levada a sério, deve ser comprovada cientificamente.

Infelizmente parece que o ser humano tende a pensar de forma mágica, criando neuroses e transtornos emocionais a partir de pensamentos completamente ilógicos. Qualquer hipótese que não se demonstre empiricamente deve ser vista como mágica.

(8) Risco vs. controle

Uma vida perfeitamente predizível e segura em geral resulta insatisfatória, monótona e aborrecida. As pessoas adultas e, portanto, emocionalmente saudáveis, tendem a assumir riscos, aprender coisas novas, levar a cabo ações nas quais não se tem garantia de sucesso, iniciam novas relações pessoais etc. mesmo que existam muitas possibilidades de fracassar. 

E por que assumir riscos é importante? Porque essa é a forma de se conhecer nossos limites pessoais, expandir nossos interesses, resolver problemas e desenvolver habilidades. Em suma, é mediante as experiências que arriscamos viver que expandimos nossa personalidade e testamos nosso caráter.

A propósito, a palavra "risco" é equívoca aqui. Ora, só existe "risco" quando imaginamos que algo possa dar errado. Mas se não pensamos que tudo tem que funcionar perfeitamente, então não há "risco" propriamente. A ansiedade é a predição de um horror futuro que está na cabeça do indivíduo. Claro que "errado" é quando as coisas não funcionam como queremos, mas nada disso é terrivel ou espantoso.

(9) Felicidade vs. contentamento

Os adultos saudáveis sabem trocar os prazeres imediatos pela felicidade futura. Em outras palavras, aprendem que desenvolver-se como pessoa e ampliar sua consciência vale mais do que a obtenção dos pequenos contentamentos de curto prazo. Comer é gostoso, mas ter um corpo bonito e saudável é melhor. A experiência de comer é boa, mas a experiência de ser capaz de educar e direcionar o próprio corpo é muitíssimo melhor. Idem para bebida, álcool, drogas, dinheiro, sexo, bens móveis e imóveis, compras etc.

Os prazeres imediatos têm, sim, seu papel na vida adulta, mas eles são inseridos de maneira racional, de maneira que façam parte da experiência total de longo prazo do indivíduo, não que sejam elas mesmas a experiência principal da vida.

Conclusão

A vida adulta não é uma vida consciente, da qual até mesmo os animais disfrutam, mas uma vida autoconsciente, ou seja, uma vida na qual a consciência superior (noûs) não esteja dispersa nas correntes e movimentos da alma inferior (desejos, imaginações, devaneios, sensações, memórias, subconsciente) e do corpo, mas conduza todos esses elementos e os alinhe de acordo com aquilo que seja condigno para a vida da alma superior (noûs, logos, pneuma). As características aqui indicadas são as balizas dentro das quais o homem adulto deve viver, mas elas mesmas não fornecem os valores e os sentidos para a vida de cada um.

Quem sabe assim o noûs, liberto dos devaneios da vida infanto-juvenil do ego, possa estar preparado para abraçar uma nova identidade, uma nova dimensão, digamos, dada por aqueles que se encontram ontologicamente acima dele: os anjos, os logoi das coisas criadas, os santos e o próprio Espírito. Mas isso é uma nova aventura, um capítulo completamente novo e fresco na vida de nossa raça.

Fonte: Leonor Lega,  Terapia Racional Emotiva Conductual, Ediciones Paidós, Barcelona, Espanha, 2017.

Imagem: Mulher com frutas, pintura de 1931 do artista eslovaco Martin Benka. 

18 de novembro de 2022

Trágica vs. moral: as visões sobre a natureza humana


O economista alemão Ernst Schumacher dizia em seu Guide for the Perplexed que há no mundo dois tipos de problemas: os convergentes e os divergentes. Os convergentes são aqueles que se resolvem mediante o emprego de inteligência e tempo. Problemas desse tipo encontramos nas engenharias, por exemplo, nas quais um dispositivo, máquina ou equipamento é construído com inversão de horas, mão-de-obra e capital.

Os problemas divergentes não são assim. Eles tocam temas complexos que não se referem ao mundo material, mas ao mundo imaterial, interior, espiritual. Exigem experiência, profundidade, ponderação, maturidade, tato, compromissos. Lidam com o imponderável, com o arbítrio, com sonhos, com visões de mundo, com relacionamentos. Aqui a mentalidade lógica, simplória e concreta da ciência e da tecnologia não os alcançam, e não é incomum que ofereçam soluções simples e erradas para problemas complexos. As abordagens dos problemas divergentes normalmente se cristalizam em polos, que podem ser dois ou mais, e a solução do problema, se é que há uma, frequentemente passa por ponderar qual polo, ou quais aspectos de cada polo, podem ser aplicados em dado momento. Schumacher cita como exemplo a questão da educação infantil. Qual o melhor método para educar uma criança? Devemos ser liberais ou rígidos? A pedagogia nos oferece alguns caminhos, mas a resposta será sempre "depende". O mesmo vale para hipertrofia muscular, alimentação, ensino de idiomas, gestão de pessoas, entre outros. A vida é maior do que a lógica.

O cientista político americano Thomas Sowell também notou esse fenômeno e em sua obra-prima A Conflict of Visions tratou precisamente de apresentar quais são esses polos, ou "visões", que dominam o âmbito da política. Vejamos como ele se sai.

* * *

Sowell fala de "visões", não de ideologias. As ideologias, diz ele, se derivarão logicamente das visões, mas as visões em si são produto de uma maneira de enxergar o mundo, a história, a sociedade e, acima de tudo, a natureza do homem. Em outras palavras, não há uma maneira precisa ou "científica" que garanta que as duas visões apresentadas por Sowell sejam de fato aquelas que predominam na ciência política. É uma questão de experiência, bom senso e, claro, conhecimento histórico.

As visões são como premissas de um conjunto de pensamentos. São elas que os moldam, digamos. Por trás dos conflitos de interesses, das conspirações, das alianças, dos subornos, das chantagens, dos discursos -- por trás de tudo isso estão as duas visões, ou duas categorias de visões, que de maneira invisível, sutil, mas decisiva, conduzem os rumos politicos do concerto das nações.

As duas visões são a visão restrita e a visão irrestrita. Nenhuma é melhor que a outra. Nenhuma é mais precisa que a outra. Ambas coexistem, ambas se comunicam, ambas se misturam em determinados autores, mas ambas podem ser claramente identificadas.

Os adeptos da visão restrita em geral enxergam a natureza humana como egcêntrica, moralmente limitada, essencialmente corrupta e imperfectível. O desafio não está tanto em aperfeiçoar o comportamento dos homens, pois este tende a mover-se dentro das limitações de sua natureza, mas em procurar extrair o melhor dentro de suas possibilidades. O progresso social se dá mediante permutas e o incentivo de valores que promovam a coesão social como honra e nobreza. O prorgesso está no processo. Exemplos de pensadores desta visão: Adam Smith, Thomas Hobbes, Edmund Burke, Oliver Wendell Holmes, Milton Friedman, Friedrich Hayek.

Os adeptos da visão irrestrita em geral enxergam a natureza humana como altruista, moralmente aperfeiçoável, essencialmente benevolente e perfectível. O desafio não está tanto em aperfeiçoar as sociedades, pois estas tendem a impedir o desenvolvimento dos homens, mas em procurar libertá-las o mais que possível. O progresso social se dá mediante a aplicação de soluções que promovam a liberdade de ação e pensamento dos homens. O progresso está no resultado. Exemplos de pensadores desta visão: Jean-Jacques Rousseau, Voltaire, Condorcet, Thomas Paine, Holbach, Saint-Simon, Robert Owen, George Bernard Shaw, Harold Laski, Thorstein Veblen, John Kenneth Galbraith, Ronald Dworkin, Earl Warren.

Há dois grandes pensadores que não se encaixam claramente em nenhuma das duas visões: John Stuart Mill e Karl Marx.

Na visão restrita, o conhecimento de um indivíduo, ou de um conjunto de indivíduos, jamais suplantará a experiência transmitida pelas instituições sociais, seja mediante um sistema de preços, seja pelas diversas tradições incorporadas na sociedade. Há muito mais inteligência presente no sistema de regras de conduta do que na inteligência de um homem, ou mesmo de alguns homens. A experiência dos povos está condensada nos sentimentos, formalidades e até mesmo preconceitos de sua cultura e comportamentos.

Na visão irrestrita, a razão é o elemento primordial. É o poder racional de uma mente culta que tem, ou deveria ter, predominância na sociedade. Somente pelo poder da ponderação e da meditação racional que podemos alcançar verdades gerais de benefício social. A validação deve ser algo direto, individual, intencional. As pessoas de mente estreita, aquelas cujo horizonte de consciência é limitado, não podem ser comparadas às pessoas cultas, sábias e inteligentes. A missão social dessas pessoas é infundir visões sociais justas nos membros bem educados e formados da sociedade, que, por sua vez, servirão como guias e instrutores do povo em geral.

Os membros da visão restrita tendem a criar condições que impeçam o surgimento de desigualdades de poder que uma elite governante possa acumular.

Os membros da visão irrestrita tendem a criar condições sociais e econômicas equalizantes, mesmo que isso implique em desigualdades no direito individual de decidir sobre essas questões. 

Na visão restrita, o elemento moral central é a fidelidade ao seu dever na sociedade. O empresário deve ser fiel aos acionistas, o juiz deve ser fiel à lei, o inteletual deve ser fiel à promoção intelectual de seus alunos e leitores. Na visão irrestrita, o elemento moral central é a sinceridade e dedicação ao bem comum, em especial nos indivíduos sábios e conscientes.

Na visão restrita, os velhos são incomparavelmente superiores aos jovens em sabedoria e experiência, daí serem eles os elementos mais valorizados na sociedade. Na visão irrestrita, os jovens apresentam inegáveis vantagens sobre os velhos, pois as enfermidades do mundo são produto das crenças e instituições existentes, e o fato de eles terem sido pouco expostos a elas os tornam elementos importantes no melhoramento social. Preconceito e avareza, eis as características típicas dos velhos.

Em termos comportamentais, os defensores da visão irrestrita da natureza humana afirmam que os comprometimentos intertemporais não são imparciais, ou seja, a lealdade, as promessas, o patriotismo, a gratidão, os precedentes, os juramentos de fidelidade, as constituições, os casamentos, as tradições sociais, os tratados internacionais, tudo isso são restrições impostas no passado, quando o conhecimento era inferior, sobre o conhecimento contemporâneo, que é necessariamente superior.

Os membros da visão restrita da natureza humana veem com enorme desconfiança as "ciências sociais", que seriam um delírio pretencioso de fazer ciência onde os pressupostos para uma ciência não existe. Similarmente, um juiz de direito jamais deveria tentar fazer "justiça social" na aplicação das leis.

A abordagem que dão à liberdade é marcadamente distinta em ambas visões. Na visão restrita, a liberdade é um processo caracteristico: é a ausência de impedimentos externamente impostos. Na visão irrestrita, a liberdade é abordada assim, mas com um acréscimo: também é a ausência de limitações circunstanciais que reduzem o leque de escolhas.

Quanto à igualdade, para os adeptos da visão restrita basta que o processo garanta tratamento igual a todos os membros. Mas os adeptos da visão irrestrita não encaram assim: os resultados também devem ser equalizados. Veja que "igualdade de oportunidade" ou "igualdade perante a lei" também são conceitos diferentes entre as visões: para a visão restrita significa que os membros da sociedade são tratados igualmente; para a visão irrestrita, é igualar as probabilidades de alcançar resultados desejados, seja na educação, no emprego ou na justiça.

A guerra, na visão irrestrita, é uma catástrofe resultado de desentendimentos ou emoções paranóicas, cuja resolução deve provir da influência de membros intelectual e moralmente capacitados. É causada pelas instituições. Na visão restrita, a guerra é resultado da natureza humana e deve ser evitada mediante o preparo militar generalizado e o consequente aumento de custos nela envolvido. É mitigada pelas instituições.

Similarmente, os membros da visão restrita veem o crime como algo natural, ou seja, como algo parte da natureza humana, que tendem a elevar os ditames do ego acima dos interesses e sentimentos alheios. O castigo é um fator necessário, digamos, e ademais não tem o objetivo de recuperr o preso. Mas para os defensores da visão irrestrira, o crime tem necessariamente uma causa social, seja na forma de injustiças, insensibilidades ou brutalidades sociais. O castigo é uma vingança desnecessária, digamos, e ademais pode ter o objetivo de recuperar o preso.

* * *

A título de conclusão, ou comentário geral, embora Sowell não o diga, fica claro que a visão restrita é típica dos conservadores e a visão irrestrita é típica dos progressistas. No entanto, e como já havia dito, ambas visões estão corretas e incorretas a depender do contexto em que se encontram. Não há uma "visão melhor" que a outra, mas parece que há algo na visão restrita que escapa aos conservadores.

Se o conhecimento disperso na sociedade na forma de tradição, instituições, preços, direito etc. é superior ao conhecimento individual, atomizado, das "mentes cultas" -- como pregram os ideólogos conservadores -- e se foi no seio dessa mesma sociedade tradicional que se formaram os processos revolucionários que deram origem aos regimes democráticos liberais, socialistas e demais modelos modernos e pós-modernos, então que sentido tem uma volta ao passado, um reacionarismo monárquico, um conservadorismo retrógrado? O conservadorismo só tem sentido como diferença de grau em relação ao progressismo, e não de tipo. É um "progressismo light", na melhor das hpóteses.

O consrvadorismo perdeu no seu próprio terreno e com suas próprias regras.

Fonte: Thomas Sowell, A Conflict of Visions, Basic Books, Nova York, EUA, 2007.

14 de novembro de 2022

Alguns conceitos filosóficos de Józef Bochenski


Filosofar é preciso. É até mesmo inevitável. Embora o uso da autoconsciência (noûs) seja algo que exija esforço intencional, um certo distanciamento do turbilhão de impressões e pensamentos que trafegam pela consciência, há momentos na vida de todos os homens que questões alheias aos interesses imediatos, laborais, familiares e sociais se apresentam de maneira imperiosa, que demandam respostas sem as quais perdemos a capacidade de nos orientar. São questões ou "problemas" cuja resolução é necessária como uma bússola é necessária a um navegante. Navegar é preciso, e orientar-se nessa navegação é ainda mais preciso. 

Assim que seria interessante conhecermos como o filósofo polonês Józef Maria Bochenski apresenta e pensa sobre alguns desses assuntos. De uma adolescência dissoluta e anarquista, Bochenski decidiu tomar as rédeas de seus pensamentos e sentimentos e empreendeu uma longa e frutífera carreira intelectual no seio da filosofia, em especial da lógica e da teologia.

(1) Onde ficam as leis do mundo?

A lei entra profudamente em nossa vida. Ela é o elemento de clareza e racionalidade em nossa visão de mundo. Se pensarmos, por exemplo, em uma lei da física ou sobre as relações matemáticas, constatamos que a lei, a despeito dos demais entes da realidade, não se encontra em um lugar específica (espaço), não começou nem terminará num tempo determinado, não está submetida a mudanças e não se aplica a indivíduos ou situações particulares, mas é de caráter geral. Mas, acima de tudo, e talvez o mais importante de tudo, a lei é necessária, ou seja, ela não pode ser de outro modo a não ser da maneira como se enuncia.

Porém tudo isso e estranho. O mundo é muito diferente das leis. O mundo se nos apresenta como familiar, temporal, espacial, perecível, individual e contingente. Eis o problema filosófico: todas as ciências dão por bem a existência das leis. As ciências enunciam leis, as buscam e investigam, mas nenhuma dessas ciências se interessa por dizer o quê, afinal, é uma lei.

Aimensa maioria dos filósofos afirma que as leis são algo que não depende de nosso espírito nem de nosso pensamento. Nós, homens, só podemos conhecê-las melhor ou pior, mas não criá-las, assim como não podemos criar, pela "força do pensamento", uma pedra, uma árvore ou um animal. Isso supõe que as leis contituem uma segunda espécie de ente, algo que é inteiramente outra. Diz-se que as leis pertencem ao ser ideal. Em outras palavras, há dois tipos de ente: o real e o ideal.

Há distintas escolas de pensamento segundo a maneira de conceber esse ideal. A primeira diz que o ideal existe independentemente do real. Tudo no mundo ideal é puro, eterno, imutável e necessário. Platão é o grande representante dessa teoria. A segunda diz que o ideal existe no real, ou seja, como que "junto" do real. As fórmulas das leis possuem um fundamento nas coisas, e por aí regem o mundo. Aristoteles é o mais famoso expoente dessa teoria. A terceira afirma que o ideal se dá no pensamento, ou seja, as leis se originam por uma projeção das leis do pensamento. Kant defendia essa solução.

(2) O que é filosofia?

Bochenski acredita que a filosofia não pode ser identificada com as ciências especiais nem limitada a apenas um terreno. Pode ocorrer, e de fato ocorre, que a filosofia trate dos mesmos objetos dos quais se ocupam as outras ciências. Mas qual a diferença?

A filosofia se distingue por seu método porque ao filósofo não se lhe veda nenhum dos métodos de conhecer. O filósofo não tem por que limitar-se a um método empírico e reducionista. Pode valer-se da intuição dos dados, por exemplo. O ponto de vista que adota também é diferente, no sentido de que a filosofia mira sempre e exclusivamente desde o ponto de vista do limite, dos aspectos fundamentais, das questões que trata. As ciências conhecem, a filosofia estuda o que é conhecer. As ciências estabelecem leis, a filosofia estuda o que é uma lei. O homem fala de sentido da vida, a filosofia estuda o que é sentido e finalidade.

(3) Chegamos a realmente conhecer alguma coisa?

Um físico, um botânico, um historiador e qualquer um de nós, na vida diária, supomos que existem coisase que podemos conhecê-las. Mas os céticos duvidam disso. Dizem eles que nda pode ser conhecido. Mas se é assim, como essa mesma afirmação se sustentaria? Por outro lado, se realmente existem coisas e podemos conhecê-las, essa hipótese se harmoniza com quase tudo o que eperimentamos. A diferença entre o que chamamos realidade e a aparêcia cosiste em que a realidade está ordenada, nela mandam leis, enquanto que a aparência não se rege por nenhuma ordem. Ora, essa ordem, no mundo de nossa experiência, reina quase que por toda parte. Bochenski se deixa levar pelo bom senso: é "evidente" que existem coisas e que podemos conhecê-las.

(4) O que é verdade?

Há dois conceitos gerais de verdade. A verdade ontológica, ou seja, aquela em que uma coisa corresponde a uma ideia/juízo/proposição ("este metal é feito de ouro de verdade", o que está em jogo é se a coisa é verdadeira), e a verdade lógica, ou seja, aquela em que uma ideia/juízo/proposição corresponde a uma coisa ("o sol está brilhando hoje", o que está em jogo é se ojuízo é verdadeiro). Bochenski se limita a este segundo caso. 

Ele explica que há duas possíveis interpretações da realidade: 

(a) O idealismo, segundo o qual o conhecimento cria seus próprios objetos. Aqui há um problema: é evidente que nosso pensamento pessoal e individual pode criar muito pouco, basicamente entes de razão, imaginações ou fantasmas, e mesmo esse pouco é feito de elementos que não criamos, mas apenas combinamos. Daí que os idealistas se veem forçados a supor um duplo sujeito, o "eu empírico" (um eu "menor") e o "eu absoluto" (um eu "maior"). É este eu absoluto, transcendente, que cria os objetos.

(b) O realismo, segundo o qual o conhecimento é apreendido pelo conhecedor. Os realistas veem o idelismo como problemático, quase supersticioso. Por sua vez, os realistas explicam as dificuldades de sua própria interpretação explicando que a fronteira entre o conhecedor e o mundo exterior não precisa estar na pele do homem, mas onde se dá o trânsito entre os processos físicos e psíquicos. É como se os óculos, ou os olhos, os responsáveis pelo efeito ou resultado do que experimentamos.

A despeito de qual interpretação seja a correta -- Bochenski acredita ser o realismo --, a decisão tem que ser total, ou seja, ou não existe em absoluto o mundo exterior e nosso espírito cria tudo, ou que ele não cria nada, a não ser a combinação de conteúdos, e que tudo o que conhecemos há de existir de alguma maneira fora do espírito.

(5) O que é pensamento científico?

De modo muito geral, se chama "pensamento" todo movimento em nossas ideias, imaginações, conceitos etc. O pensamento científico é um pensamento sério, disciplinado. Um homem que pensa com seriedade não deixa que suas ideias e conceitos flutuem livremente diante dele, mas os endireita e organiza rigorosamente para um fim determinado: para o saber.

Há somente dois casos possíveis para que se dê o pensamento: o objeto de pensamento é dado ou não é dado. Se é dado, então há somente uma possibilidade de saber algo sobre ele: por dedução e conclusão. Não existe uma terceira via de conhecimento. É verdade que se pode acreditar em algo, mas crear não é saber. O saber somente vem da observação do objeto dado ou da dedução e conclusão.

Para realizar uma concluão é fundamental sempre, sem exceção, que tenhamos como pressupostos duas coisas: de uma lado, certas premissas, ou seja, juízos, proposições que se dão por conhecidas e verdadeiras ou de algum modo se admitem; por outro lado, certas regras lógicas segundo as quais se tire uma conclusão.

As regras lógicas são infalíveis. No entanto, há muitas regras que são falíveis. E o delicado aqui é que na vida e nas ciências tais regras falíveis desempenham um papel muito mais frequente que as regras infalíveis. Por exemplo, na indução temos como premissa que alguns indivíduos se comportam assim ou assado. Por outro lado, sabemos pela lógica que, se todos os indivíduos se comportam de um modo determinado, também se comportarão assim alguns. Ora, do comportamento de alguns cocluímos que é o comportamento de todos. Em suma: se todos, logo alguns; portanto, se alguns, logo todos. Sim, claro,a ciência moderna desenvolveu métodos sofisticados para confirmar suas conclusões falíveis. No entanto, isso não altera o fato de que a ciência avança mediante regras falíveis. O resultado é que as torias científicas não são nunca verdades inteiramente certas. Tudo o que a ciência pode alcançar são probabilidades. Que razão temos para crer que o sol nascerá amanhã? Dizer que sempre tem sido assim não é razão suficiente.

A ciência é falível, e se nos encontramos uma evidência que vá de encontro ao que afirma a ciência, temos de estar do lado da evidência, e não das teorias científicas. Infelizmente acontece de cientistas pontificarem sobre temas dos quais pouco ou nada têm a ver com sua especialidade. O que tentam fazer é preencher o enorme vazio do saber científico com suas opiniões filosóficas amadoras e, o mais das vezes, grosseiramente ingênuas e falsas. Que a população em geral o faça é natural, mas quando esse comportamento vem de cientistas, que hoje em dia gozam de grande prestígio, o poder de enganar os incautos é multiplicado por mil. Daí vem boa parte da exaltação e do desvario contemporâneos.

(6) Como atribuímos valor âs coisas?

Contemplar a realidade não é apenas vê-la, mas atribuir-lhe valor ou "estima". O homem sente a realidade como bela ou feia, como boa ou má, como agradável ou penosa, como nobre ou vil, como santa ou condenável etc. Aqui é importante distinguirmos três coisa completamente distintas: o portador do valor (pessoa ou objeto), o valor mesmo e a reação humana ante o valor. 

Quanto ao valor em si mesmo, em geral identificamos três tipos: os valores morais (dever-fazer), os valores estéticos (dever-ser) e os valores religiosos (dever-fazer e dever-ser).

Bochenski acredita, como os idealistas, que os valores são independentes da valoração. As valorações são relativas,mas os valores são eternos e imutáveis. Assim como há homens cegos para as cores, há homens cegos para os valores. Os positivistas reduzem os valores à valoração, ou seja, à sua utilidade imediata. Os idealistas, embora admitam certa relativamente, não deixam de admitar que os valores exercem um efeito atrativo sobre si. Em suma: há certa relatividade imanente que gravita em torno da imutabilidade dos valores em si. Qaundo Cristo diz que ninguém é bom fora de Deus isso significa que o valor da bondade é algo que se esgota soment em Deus, mas não quer dizer que fora de Deus a bondade não exista de maneira parcial, relativa, fragmentária. Somente um espírito plenamente santo pode plenamente compreender um valor. 

Aqui é importante salientar que ver ou compreender um valor tem menos a ver com a inteligência e mais com a vontade. Um homem decente vê ou compreende melhor a retidão (ou falta dela) que um homem pouco decente. Daí que homens cultos e eruditos podem, em determinadas ordens de valores, se mostrarem incrivelmente bárbaros e subdesenvolvidos. É o caso, por exemplo, de "pessoas formadas" que se aborrecem ouvindo a Nona Sinfonia de Beethoven.

Bochenski acredita que os valores se fundam no mundo, mais especificamente na relação entre os homen e entre os homens e as coisas. Ainda mais especificamente, é na constituição espiritual e física da raça humana que se fundam a estética e a moral. É nesta constituição que está gravada, por exemplo, que fazer-se homem a criança deve amar e obedecer seus pais. Claro, há homens que são, ou se tornam, cegos para determnados valores (basta imaginar por exemplo um filho que mata sua própria mãe por motivo torpe).

(7) Como pensar sobre o homem?

O homem, e somente o homem, ostenta uma série de qualidades completamente distintas. As mais notáveis são as seguintes:

(a) A técnica, ou seja, o homem se erve de certos instrumentos produzids por ele mesmo.

(b) A tradição, ou seja, o elemento que ensina ao homem mediante uma linguagem complicada a viver em sociedade, já que essa capacidade não lhe é ingênita, ou seja, não se desenvolve por instinto.

(c) O progresso, ou seja, o efeito de aprender mais e mais, não apenas como indivíduo, mas como sociedade também. Biologicamente não somos diferentes dos antigos gregos, mas sem dúvida sabemos muito mais que eles.

(d) A abstração, ou seja, a capacidade de pensar universalmente, e não apena mirar o particular e concreto. E mais: a abstração permite não apenas pensar sobre universais, mas em objetos ideais também: como números, valores morais e estéticos etc. A abstração nos livra da teleologia que domina os animais: os homens são capazes de pensar e desenvolver um saber puro, ou seja, o saber pelo saber, e não apenas um saber para um fim ou objetivo útil. A ciência e a religião apresentam aspectos típicos desse tipo de qualidade humana. 

(e) A reflexão, ou seja, a capacidade de mirar não apenas ao mundo exterior, mas ocupar-se de si mesmo, de perguntar-se qual o sentido da vida, a consciência da morte etc.

Se nota no homem uma curiosa inquetude: por um lado, almeja o ilimitado, ao progresso, ao acúmulo material e espiritual, à insatisfação de seu estado atual; por outro lado, a morte e a limitação existencial o aprisiona. Essa tensão, esse "enigma trágico", como o chama Bochenski, só pode ser aliviar alcançando-se o infinito. Não é possível alcançá-lo nesta vida, mas no além, no além-túmulo. Como? Não é a filosofia quem vai responder a essa pergunta, mas a religião.

Fonte: Józef Maria Bochenski, Introducción al Pensamiento Filosófico, Herder Editorial, Barcelona, Espanha, 1992. 

9 de novembro de 2022

A metafísica do inferno


Segundo o historiador americano Matthew Raphael Johnson, o nominalismo é o grande inimigo da raça humana e, em especial, da Igreja. A natureza, explica Johnson, não é uma força cega, um cenário neutro, mas uma "habitação" de Deus e Seu poder. Em outras palavras, Deus não está "lá" no céu, mas existe imanente na criação, embora não se identifique com ela. As palavras escondem mais do que revelam, ou seja, elas são veículos ineficientes para expressar a ação da graça. A doutrina sempre será algo incompleto porque se manifesta em palavras. Eis porque a Igreja usa expressões artísticas para suplementar os canais da graça.

Guilherme de Ockham (1285-1347) rejeita a ideia de que as coisas tenham "espécies", ou seja, ele reduz toda e qualquer categorização à mera aplicação utilitária das palavras. O mundo seria apenas e tão-somente um "palco" ou "fluxo". Um "universal", portanto, seria uma palavra que convenientemente aplicamos a várias coisas, uma maneira fácil e prática que a humanidade usa para se comunicar e se referenciar às coisas. Se você ao ler isso pensou "mas é óbvio que as palavras são isso", então assume de maneira um tanto inconsciente que a realidade se estrutura de acordo com os ditames nominalistas. Em suma, a visão nominalista nega que a realidade seja substancial, ou seja, quando uma pessoa descreve um objeto que não está presente, segundo essa visão, o faz com referência a uma imagem mental que ela e as demais pessoas têm desse objeto. As palavras são meros nomes, daí "nominalismo". Ockham não nega a existência de ideias/formas, mas afirma que estão na mente de Deus e, portanto, são incognoscíveis.

O modernismo, conclui Johnson, é um fenômeno intelectual baseado na ideia nominalista de que os universais não são reais. Afinal, se houvesse um reino aespacial e atemporal no qual a ciência moderna não pudesse exercer nenhum controle então essa mesma ciência teria de adaptar seus métodos a ele, ou seja, teria de abrir mão de sua visão nominalista, o que é algo que não está disposta a fazer de maneira alguma.

A estrutura da realidade cristã, essencialmente platônica, ensina que os objetos individuais são símbolos, "emblemas" ou "marcas" que apontam para objetos mais abrangentes, mais amplos, mais abarcantes, que se encontram fora do espaço e do tempo. Uma vez que os apreendamos, que os percebamos, que os contemplemos, servirão de portais para experienciar as energias (ou seja, a presença) de Deus.

As leis naturais não são "naturais" no sentido de que são meras descrições de como o mundo funciona, mas elas têm uma fonte que as mantêm ativas, que as sustentam, que é a Lei das leis: Cristo, o Logos. Ele está presente na natureza como o Fiador de seu funcionamento normal. Contudo, a queda de Adão invadiu o mundo natural tornando o Logos menos transparente, mais opaco. O homem, nesta condição decaída, irremida, enxerga apenas causa e efeito no mundo, e não mais origem e propósito.

Quanto à Trindade, Johnson explica o seguinte:

"O Pai está sempre ontologicamente distante e para além de Sua criação. O Logos é o princípio "ativo", que Se manifesta na lei natural e na consciência humana. Neste sentido Ele não está de forma alguma distante. O Espírito Santo é a manifestação dessa graça especificamente na igreja e em seus membros. O Espírito não tem outra função que não a de agir como o "andaime ontológico" da igreja. Fora dela, o Espírito não funciona de maneira tão íntima. O "mundo" é matéria morta do ponto de vista da humanidade degenerada.

O Pai é inacessível ao pensamento humano. Isso porque o Fundamento (Ground) do fundamento do ser (ground of being) não é um objeto entre muitos e, portanto, não pode ser descrito na linguagem dos homens. Ninguém é capaz de experienciar intelectualmente o Fundamento do fundamento, ou a realidade fundamental do fundamento de todos os seres. Se pudesse ser experienciado de alguma maneira humana então não seria o fundamento supremo. O Pai é acessível somente pela presença do Logos possibilitada pela ação do Espírito. O Logos é necessário porque Ele é Deus sob o ponto de vista da atividade [cf. E.F. Schumacher e as progressões do ser]; o movimento da lei natural no sentido biológico e químico, mas também no sentido ético de nosso arbítrio, uma liberdade que somente existe na igreja, já que fora dela não há espírito.

Portanto, o "livre arbítrio" é algo a ser conquistado e com o qual ninguém nasce. Os homens nascem totalmente dependentes e determinados; somente com a maturidade e a graça o potencial para o livre arbítrio pode despertar, e mesmo assim será um grande esforço pensar e agir livremente. Conformar-se é muito mais fácil. Somente os santos têm livre arbítrio, no sentido normal do termo. O salário do pecado é a determinação natural, que é uma outro maneira de dizer "a morte". A humanidade degenerada não pensa livremente, mas conforma-se a um partido, paixão ou carreira, concentrando sua atividade de acordo. O santo vive em outro mundo, no mundo numênico inacessível ao mundo".

Johnson entende que a matéria morta, amorfa, é o Deus dos pagãos. Ela seria eterna (sempre existiu e sempre existirá) e é a partir dela que se produzem as coisas. O verdadeiro "maçom" é aquele que molda o caos primordial da matéria eterna em formas úteis. As máquinas e dispositivos são o produto da imitação demoníaca das formas orgânicas, formas essas que os demônios são incapazes de criar pois suas máquinas dependem somente da matéria já pré-existente. Um engenheiro não é um criador, mas tão-somente um manipulador. Ele não cria nada, mas apenas desloca a forma da matéria existente. Aqui cabe lembrar que "forma", no sentido platônico, não tem nada a ver com o "formato" ou "figura" que os objetos podem assumir pelas mãos humanas. Tais artes e engenhos foram ensinados aos primeiros homens por demônios. Altamente inteligentes e sempre tentando imitar a Deus, os demônios procuram "criar" mediante civilizações e estruturas burocráticas centralizadas. O Velho Testamento apresenta a Caim sendo ensinado por esses seres. Caim não poderia ter "edificado uma cidade" do nada. Ele foi ensinado para que se tornasse autossuficiente, sem Deus. Essa "cidade" se tornou o coração da civilização mesopotâmica. A tecnologia é demoníaca porque seu propósito é elevar uma classe dominante ao status de quase-divindade. A tecnologia procura substituir o mundo orgânico que, embora decaído, contém tudo o que é necessário para a salvação dos homens. Isso não significa que as invenções humanas sejam demoníacas em si, pois elas podem cooperar com o mundo orgânico, mas quando o objetivo da "civilização" é substituí-lo, então será certamente demoníaco.

São Basílio ensinava que o propósito da metafísica é fornecer bases sólidas para a paz mental e espiritual, ou seja, para que o pensamento não se disperse. A dispersão do pensamento é inimigo da paz, que exige unidade e concentração. Em sua famosa Segunda Carta a São Gregório Teólogo, São Basílio afirma que os "afazeres mundanos" prejudicam e mesmo destroem a "apreensão da verdade". Em outras palavras, a verdade é algo que se encontra à parte das ocupações mundanas, ou seja, é de uma ordem completamente diferente. Tudo o que nominalismo enxerga como importante e real (objetos físicos, dinheiro, reputação, destreza técnica etc.) é exatamente aquilo que está apartado da verdade. São precisamente essas coisas "reais" que não são reais. Bem, dizíamos que a metafísica ocupa-se de trazer a paz, ou seja, a concentração da mente: é precisamente o contrário do nominalismo, cujo efeito é dispersar o pensamento nas coisas sensíveis particulares do mundo. A dispersão do pensamento é a raiz do pecado. Ora, ao reduzir a natureza a praticamente nada, a um turbilhão caótico de qualidades e quantidades, o nominalismo oculta o Cristo, pois é nela, na natureza, que Ele reside. Lembre-se, a essência das coisas criadas não está nas coisas mesmas, então ceifar o mundo material de sua essência é ceifar o mundo da presença do Cristo. Pecar não é "errar", não é uma infração moral, mas é "incompletar", ou seja, é estar em um estado no qual a mente depende do mundo para ganhar identidade. "Quando o mundo produz sua identidade, eis o pecado", diz Johnson. O ato pecaminoso é efeito do pecado, não é o pecado em si. São as coisas individuais, as coisas valorizadas pelo nominalismo, que despertam nossas paixões. Alguém por acaso se excita pelos conceitos geométricos das curvas de uma mulher? Alguém se excita pela conceito ou ideia de "mulher"? Ou será que são as curvas individuais dessa mulher individual que me excitam? O homem só consegue controlar, ou seja, "possuir", "tornar útil", coisas individuais. Uma forma, um universal, é impossível controlar. Daí a luxúria, ou qualquer ato pecaminoso, se exerce sobre coisas individuais, sobre aquilo que o nominalismo entrona. Somente a ideia, a forma, o universal, pode integrar a mente.

E como se faz isso? Como se integra a mente? A ideia aqui é praticar as virtudes, ou seja, purificar a mente (noûs) para que reconheça e apreenda as energias dAquele que contém todas as ideias (logoi) das coisas criadas em Si, ou seja, as energias incriadas do Logos/Cristo na terra. O Cristo/Logos não se faz presente apenas na natureza, mas Ele se acerca daquele que se purifica para recebê-Lo mediante esforço. Esforçar-se em praticar as virtudes, isto é, em amar. É na experiência comunal, no convívio (cf Christos Yannaras e o conceito de "evento eclesial"), que o ego individual pode ser atrofiado para que a mente abra espaço para a ação do Espírito. Aqui Johnson deriva uma conclusão importante: o elemento primordial da vida não é o indivíduo, mas a comunidade. É quando minha vontade se mescla com a vontade do outro que se forma um laço de amor. O nominalismo, que só enxerga indivíduos ou, na melhor das hipóteses, agrupamentos de indivíduos, é incapaz de inspirar o verdadeiro amor entre as pessoas. O outro é sempre um instrumento para que meu ego se fortaleça, se estime. Daí que Johnson conclui que o nominalismo é a metafísica do inferno. E a democracia, a soma de indivíduos, é o sistema político do nominalismo por excelência. O orgulho, o motor do ego, eis o pecado primordial do nominalismo. Só o ego existe, só o ego tem valor, só o ego precisa ser salvo. 

Neste sentido, em um ambiente onde grassa o nominalismo, a igreja é uma mera coleção de egos-indivíduos, e portanto não existe uma dimensão vertical na qual a interpretação da Bíblia possa se dar. Assim que todos os egos são capazes, ou estão aptos, a interpretá-la. O Protestantismo é a religião cristã do nominalismo. A oração protestante a Deus é feita como se Deus fosse um Ego como qualquer outro ego, com Quem falamos como falamos com um vizinho através de uma parede. É por isso que as orações protestantes estão recheadas de pedidos, como se Deus não soubesse o que você precisa ou o que você pode pedir. O status ontológico de Deus no Protestantismo é, a rigor, o mesmo que o nosso. Não somos indivíduos que lutamos para sermos pessoas, mas são as Pessoas que se reduzem a um Ego-Indivíduo.

Vimos que a natureza não é uma coleção de indivíduos, mas são comunidades. No entanto, isso vale para os animais também. Sim, é verdade, as espécies de animais estão contidas no Logos, que lhes fornece os instintos e desejos típicos de cada espécie. Mas não para por aí. Uma espécie faz parte também do ambiente no qual está inserido, e é esse ecossistema que lhe mantém viva. Portanto, os ecossistemas, enquanto comunidades de comunidades, também têm suas essências contidas no Logos

Muito bem, vimos que as formas platônicas são um elemento fundamental da metafísica. As formas são mais reais que a "realidade" que nos cerca, mas, afinal, quem pode "ver" essas formas? As formas são reais para quem? Platão foi um "profeta" que "viu" as formas, mas a estrutura da realidade descrita por ele só poderia estar completa mais tarde, mediante a revelação de Jesus Cristo, mediante a revelação do EU SOU, porque foi através de Sua revelação, de Seus ensinamentos, de Seu exemplo, da Sua presença na forma de energias, que a ascese da mente adquiriu uma forma mais definida, um método mais assertivo e inequívoco. A Igreja enquanto "evento eclesial" ensina como purificar o homem de suas paixões, ou seja, como transfigurá-las sem reprimi-las. Vivemos em um mundo nominalista, ou seja, em um mundo em que os objetos são indivíduos, são meros exemplares, e a eles atribuímos nomes, e portanto não podem ser verdadeiros objetos de conhecimento no sentido profundo do termo "conhecimento". Daí que entra a ascese mental, a purificação do noûs: o objetivo é deixar o mundo dos objetos individuais e elevar o espírito para apreender, mesmo que de maneira limitada, as próprias formas desses objetos as quais, por sua vez, nos revelam o Logos que as contém. Eis ao quê se deve dedicar um filósofo, isto é, um amante da sabedoria. Novamente, os objetos individuais não estimulam a razão, mas estimulam a paixão, ou seja, o desejo de controlá-los, possuí-los e desfrutá-los. Observe que isso não é algo ruim em si. Em certo sentido é algo até mesmo necessário. Mas é incompleto. Não é a isso que nossa raça foi chamada: para isso estão os animais. Os objetos individuais que compõem nosso dia-a-dia implicam a existência de Objetos que existem eternamente. Os prazeres e apetites que desfrutamos no dia-a-dia desvanecem rápida e facilmente. Não são a eles que devemos nos devotar. Há um prazer e uma alegria que não desvanece, há um Amor que não vacila como os amores do mundo. Esse Amor, digamos logo, a Trindade, é algo que nossa mentalidade nominalista é incapaz de captar: Três Pessoas que compartilham uma e mesma substância. O mundo da Trindade é um mundo social, um mundo que exclui o conceito de individualidade. As relações da Trindade são tão importantes quanto as Pessoas que a compõem: são as relações de amor.

O Cristo, ao encarnar-Se, trouxe ao mundo as formas platônicas de maneira que os homens possam contemplar sua estrutura e seu propósito sem a necessidade de possuir conhecimento filosófico prévio. Ao observá-Lo, ao contemplá-Lo, ao segui-Lo, os apóstolos e as comunidades que surgiram a partir de suas pregações entenderam que é necessário purificar a mente, a vontade e os sentidos para que pudessem experienciar a graça (presença) dEle e para que pudessem "ver" (ser iluminados) pelo Logos/Sabedoria/Cristo e consequentemente vê-Lo no mundo natural. Ao vê-Lo no mundo natural entenderam que as qualidades desse mundo, embora emanem certa beleza e harmonia, são completamente secundárias em relação à sua causa final e formal. As qualidades (ou "acidentes") são ilusões que surgem da relação passional que estabelecemos com os objetos individuais. Essa paixão surge, claro, de uma mente que se dispersa nesses objetos, que os aborda como indivíduos, não como símbolos que apontam para o mundo da Forma. Johnson cita o filósofo ucraniano Gregor Skovoroda ao dizer: "A matéria é a mera qualidade da aparência". Ou seja, a matéria é o acidente de uma coisa, enquanto a essência permanece oculta. O objetivo da filosofia é ir além da aparência. A realidade apenas gera uma aparência, mas não é a aparência.

A Igreja, enquanto evento eclesial (e não mera indústria litúrgico-sacramental), existe para que as formas, e o Logos que as contém, possam ser conhecidas por todos, e não apenas pelas pessoas especialmente dotadas como Platão, os profetas do Velho Testamento, o imperador Marco Aurélio etc. O espírito dos homens quer conhecer a Verdade, a Forma, mas o mundo os "puxa para baixo", os distrai nos elementos que lhes servem de instrumento para dominar os objetos individuais e para se sentirem seguros, sejam governos, propriedades, exércitos, burocracias, fábricas, empresas, carreiras, fama etc. É necessário disciplina para escapar do mundo nominal, do mundo passional, do "fetiche das commodities", dos fantasmas e das respectivas emoções que criamos a partir do mundo das aparências, do mundo dos nomes que ocultam a realidade mais ampla e profunda. Para o homem nominalista, as coisas do mundo só têm valor quando uma máquina ou dispositivo lhe confere valor. Para o homem real, os símbolos não são irrealidades, mas são portais para uma realidade mais verdadeira e profunda.

O mundo nominal é um mundo medíocre. É um mundo no qual até mesmo os ignorantes podem viver. Os objetos do mundo nominal não são objetos para serem conhecidos, mas objetos acima de tudo para serem desejados, almejados.

A identificação das formas com os anjos é algo que Johnson explica, como não poderia deixar de ser, a partir da obra de São Dionísio Areopagita. Embora hoje em dia a comunidade científica negue que São Dionísio seja quem diz ser, ou seja, a pessoa convertida pelo Apóstolo Paulo (Todavia, chegando alguns homens a ele [Paulo], creram; entre os quais foi Dionísio, areopagita, uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros. Atos 17:34), Johnson não deixa de lembrar que os medievais tinham acesso a muito mais obras e fontes que nós temos hoje em dia e, portanto, poderiam muito bem estar corretos ao afirmar que São Dionísio foi realmente o discípulo do Apóstolo. A criação, segundo São Dionísio, provém de um "transbordamento" de Deus, ou seja, do amor de Deus, da vontade de Deus. É a transferência da ação de Deus do incriado para o criado. Nesse processo de criação, Deus cria ("transborda") duas coisas: (1) os objetos universais e (2) os objetos particulares que dependem dos objetos universais. A matéria manifesta a presença do Logos, embora, claro, em grau menor. O Logos está presente tanto na lama e na saliva quanto em uma Ideia. Os anjos, por sua vez, completam a estrutura metafísica da realidade no sentido de que eles são a manifestação dessa dependência ontológica mencionada em (2). Os anjos são universais concretos, ou seja, são universais que têm personalidade, pois a personalidade/vontade é um dos atributos de Deus. Aqui o nominalismo falha porque se recusa a acreditar que a natureza tenha personalidade/vontade. O ser dos anjos vem da Luz de Deus. "Luz" tem duplo sentido: é o centro unificado da Verdade e ao mesmo tempo é a "força" que mantém a Forma e a matéria que a informa unidos.

Em termos políticos, a ausência de ordem e hierarquia otológica na metafísica nominalista implica na intensificação de um aspecto no cenário econômico-político: o uso da força mediante revoluções políticas. Não há alternativa: a força tem de ser usada para que ela garanta a "ordem" na sociedade caótica engendrada pelo nominalismo. 

Fonte: Matthew Raphael Johnson, The Ontology of Death, Hromada Books, 2022.