7 de outubro de 2026

Máquinas nomológicas: as fábricas de leis da física


Em uma postagem sobre a metafísica aristotélica aplicada às ciências modernas, tomamos contato com as ideias de Nancy Cartwright, ecoadas por Edward Feser, de que as leis da física, a rigor, não existem tal como as concebemos. O que realmente existe são regularidades aplicadas a um recorte extremamente limitado e artificial do universo, tornando-as na melhor das hipóteses interessantes, mas alheias ao mundo real.

Detenhamo-nos um pouco mais nessas ideias de Cartwright. Em linhas gerais, ela defende três proposições: (1) o sucesso das teorias físicas atesta sua veracidade, mas não sua universalidade, (2) as leis da física funcionam graças ao artifício do ceteris paribus (literalmente “os outros iguais”), ou seja, o artifício de isolar a relação direta entre duas variáveis, desconsiderando o impacto de outros fatores externos, e a aplicação de máquinas nomológicas, e (3) o verdadeiro conhecimento científico não se encontra em leis, mas em naturezas.

Imagine uma nota de 100 reais atirada do alto da Catedral da Sé, no centro de São Paulo. Onde ele vai pousar? Na praça? Na entrada da estação de metrô? No meio da rua? No alto de um prédio? Ou voará de volta no rosto de quem a atirou? O fato é que não há modelo físico que possa prever isso. O crente na física mecânica discordará: por mais complexo que seja, idealmente haverá um modelo que possa descrever com precisão suficiente onde, afinal, a nota de 100 reais vai pousar. Ele pensa assim porque acha que a força, que ele conhece dos livros-texto de física e de experiências em laboratório, é capaz de, levada aos limites por meio de modelos ultraprecisos, explicar o movimento da nota.

Trata-se de mero fundamentalismo religioso. A fórmula escolar ∑ F=ma é obviamente insuficiente. A nota é leve, amassada ou dobrada, oscila no ar, é empurrada por correntes de vento aleatórias, turbulências criadas pelos prédios e assim por diante. Mas não apenas isso: para modelar o vento, precisamos da mecânica dos fluidos (equações de Navier-Stokes); para a nota, da mecânica dos sólidos e assim por diante. A física não é um sistema único e unificado que explica tudo sozinho, mas uma “colcha de retalhos” (patchwork of laws) de diferentes modelos.

Por isso Cartwright lança mão da ideia de “naturezas”. É da “natureza da força” produzir uma aceleração, mesmo que outras causas estejam em jogo. A natureza da força “tentará” produzir uma aceleração, ela tem essa “tendência”. A lei ∑ F=ma  é verdadeira, mas que a lei ∑ F=ma seja universal é não apenas falso, mas fantasioso: para além das condições estritas e controladas ceteris paribus, o mundo real é infinitamente mais complexo e profundo do que as leis físico-matemáticas.

Estou preparada para acreditar em teorias mais gerais quando tivermos evidências empíricas diretas para elas, mas não meramente porque são a “melhor explicação” para algo que pode muito bem não ter explicação. “A teoria é bem-sucedida em seu domínio”: a necessidade de explicação é a mesma, quer o domínio seja pequeno, grande, muito pequeno ou muito grande. As teorias são bem-sucedidas onde são bem-sucedidas, e ponto final.

O patchwork of laws que citamos acima é o que Cartwright chama de pluralismo nomológico metafísico. É o exato oposto do fundamentalismo: a natureza é governada por domínios diferentes, leis diferentes e sistemas diferentes, os quais não possuem absolutamente nenhuma relação. O vetor campo elétrico funciona muito bem em transistores, mas em situações cotidianas sua fórmula torna-se absolutamente inerme.

Pensar dessa forma soa incômodo e mesmo ultrajante. Isso acontece porque nos opomos ao pluralismo nomológico munidos de duas “manias”: (a) a superveniência, que é a irmã do reducionismo, estabelece que não pode haver uma mudanças nas propriedade de alto nível (macroscópicas) sem que ocorra uma mudança nas propriedades de baixo nível (microscópicas); alguns cientistas acreditam todavia no “emergentismo”, ou seja, na curiosa ideia de que a partir de estruturas complexas de nível inferior surgem novas propriedades que são irredutíveis e possuem novidade qualitativa, o que equivale a certa crença quase-mística e desnecessária; (b) a consistência, que é a resistência psicológica que modernamente desenvolvemos em admitir que as leis da física não são uniformemente aplicáveis. Cartwright conta a seguinte anedota para ilustrar a mania da consistência:

Eis duas histórias que eu costumava contar quando lecionava Filosofia Mecânica do século XVII. Ambas são sobre como escrever o Livro da Natureza para garantir a consistência. Na primeira história, Deus está muito interessado em física. Ele escreve cuidadosamente todas as suas leis e estabelece as posições e velocidades iniciais de todos os átomos no universo. Ele então deixa para São Pedro o trabalho tedioso, mas intelectualmente trivial, de calcular todos os acontecimentos futuros, incluindo quais propriedades macroscópicas e leis macroscópicas emergirão, se houver alguma. Essa é a história do reducionismo. O pluralismo metafísico supõe, em vez disso, que Deus está muito preocupado com as leis e, assim, escreve toda e qualquer regularidade que seu universo exibirá. Nesse caso, São Pedro fica com a tarefa gigantesca de organizar as propriedades iniciais no universo de alguma forma que permita que todas as leis de Deus sejam verdadeiras juntas. A vantagem do reducionismo é que ele facilita o trabalho de São Pedro. Deus pode, no entanto, ter escolhido ser um pluralista metafísico.

Para explicar as leis da física (ou de qualquer ciência com pretensões universalistas), Cartwright propõe que elas são fruto de máquinas nomológicas. Trata-se de um arranjo (suficientemente) fixo de componentes, ou fatores, com capacidades (suficientemente) estáveis que, no tipo certo de ambiente (suficientemente) estável, dará origem, com o funcionamento repetido, ao tipo de comportamento regular que representamos em “leis científicas”. Observe que há certa “tecnologia” (a própria máquina) por trás da “ciência”, o que curiosamente alude à ideia de tecnociência de Jason Jorjani. De qualquer forma, ocorre que as leis da engenharia habitualmente apresentam hiatos em relação às leis da física-matemática: é impossível transladar as máquinas nomológicas para o mundo real porque lá, no mundo real, as capacidades (ou, na linguagem aristotélica, “potências”) que agem nas máquinas nomológicas se perdem e tornam-se best guesses ou “naturezas”. Um engenheiro pode aplicar a fórmula de atenuação em espaço livre para redes de radioenlaces, mas tem de saber que a fórmula é um resultado de naturezas que tendem a determinadas ações, e não de leis da física. O conhecimento das capacidades (ou “potências”) é muito mais abrangente e útil do que o conhecimento de regularidades (ou “leis da física”).

Fonte: Nancy Cartwright, The dappled world: a study of the boundaries of science, Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido, 1999.