Talvez o
leitor queira recordar os principais conceitos da fenomenologia, seja pela
introdução de Xavier Zubiri ao tema, seja pela conjunção da fenomenologia a outros temas e filósofos, antes de arvorar-se em uma
crítica frontal frontal. De qualquer forma, o que faz o filósofo polonês Leszek
Kolakowski, mesmo que admire Edmund Husserl, é negar que a fenomenologia atinja
o que pretende atingir: a certeza.
Husserl
lamentava-se pelo fato da filosofia ter abandonado o bom caminho que vinha
trilhando pelo idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling, Hegel) e, por isso,
abandonou sua independência em relação às ciências. O impulso de Husserl foi
tentar trazer a filosofia de volta aos trilhos, sem que tivesse que
simplesmente aceitar os resultados da ciência para apenas generalizá-los. Um
dos frutos dessa crise é a redução da epistemologia à psicologia, o chamado psicologismo:
nem mesmo a percepção era uma fonte de certezas, e a matemática não passaria de
tautologias vazias e alienadas de mundo real. Nossas “certezas” não passavam,
portanto, de meros conjuntos de instruções práticas. Certo e errado, bom e mau,
belo e feio: tudo são reações biológicas. Até mesmo a lógica estaria desprovida
de consistência e convicção: a lógica nada mais é do que a descrição de como o
pensamento funciona, ou seja, mesmo ela estaria reduzida ao psicologismo.
Husserl,
claro, não aceitava esse estado de coisas. Para além da linguagem e dos objetos
tem de haver um significado ideal dos conceitos. A crítica de Kolakowski
é precisamente a de que a filosofia de Husserl atinge uma certeza
psicológica, e não uma certeza objetiva. Husserl quis criar uma intuição
tal que cumprisse duas condições: (1) ser independente do “eu”, pois esse eu
está sempre vinculado a influências históricas, sociais e biológicas (é o velho
lema husserliano voltar às coisas mesmas), e (2) ter acesso à verdade
universal, ou seja, a uma verdade que revele condições “necessárias” com o
mundo (è a velha consigna husserliana “a filosofia deve ser uma ciência de
rigor”.
Husserl
prossegue à moda cartesiana: duvidar. Descartes duvidava da existência do
mundo, mas Husserl vai além: não há nos fenômenos (nas “coisas mesmas”) nenhuma
substância pensante. Por isso é necessário eliminar também o ego substancial.
Tudo, tanto o mundo quanto o sujeito, são postos em suspenso (ou “entre
parêntesis”), que é quando o fenomenólogo adota a postura de a tudo marcar
com um “indicador epistemológico zero”: é a redução transcendental ou epoché
(ἐποχή). O que
restam? Os fenômenos e um ego transcendental que funciona como mero
receptor desses fenômenos. Nesse âmbito em que só restam fenômenos puros,
defende Husserl, estamos diante do ser e, nessa esfera, somos capazes de tudo
investigar e de tudo extrair aquilo que Husserl buscava restaurar: a certeza.
Tudo isso soa
belo, até mesmo poético. Mas é falso. Colocar tudo (mundo+sujeito) entre
parênteses significa passar a ser incapaz de determinar se “as coisas mesmas”
(fenômenos) são reais ou alucinações. Husserl dizia que o mundo pode ser um “sonho
congruente”: ora, se o sujeito está dentro dos parêntesis, então de que maneira
o mundo poderia ser congruente? Quem disse que em meio a tão profunda dúvida
abre-se mesmo esse novo reino do ser? Questionar racionalmente a existência de
tudo porta certo frescor de rebeldia adolescente, mas no final do dia trata-se
apenas disso: coisa de adolescente. O que é esse “ego transcendental” pós-redução
senão um recipiente vazio de conteúdo? A “certeza” que surge da redução se
refere a quê? Dizem os fenomenólogos que a redução eidética que se segue
à redução transcendental consiste precisamente em descobrir a essência válida e
cientificamente útil do puro fenômeno: o eidos. A redução eidética
seria uma espécie de experiencia direta dos universais, que, presume-se, se revelarão
ao sujeito com uma autoevidência irresistível. Esses universais, ou essências,
seriam atemporais e a-espaciais.
E como, na
prática, se chega às “coisas mesmas”, aos fenômenos? Em suma, mediante jogos
imaginativos. Vejamos:
Através do que Husserl chama de variação livre imaginária, tentamos imaginar o objeto (um universal) ignorando ou alterando mentalmente algumas de suas propriedades, e assim concluímos que, embora algumas delas sempre acompanhem empiricamente o fenômeno, não lhe pertencem estruturalmente, e sua ausência deixa intacta a natureza do fenômeno; outras [propriedades], por outro lado, não podem ser suprimidas sem suprimir, ao mesmo tempo, a identidade do fenômeno. Esta operação [a variação livre imaginária] trata as coisas (os fenômenos) como se estivessem dotadas de um significado independente do sentido convencional das palavras.
Como
podemos ter certeza que a “certeza irresistível” advinda da redução eidética é
verdadeira? A fenomenologia não responde essa pergunta: ou o sujeito tem a intuição
ou não tem. E mais: como poderíamos refletir sobre as “essências” que experimentamos
com a redução eidética como quer Husserl, ou seja, sem pressupostos, sem preconceitos,
sem as distorções da linguagem? Como refletir sobre o eidos da religião,
da relação causal, da cor vermelha, da arquitetura, do Estado, das relações sociais,
do que quer que seja? Como regressar à inocência cultural de um recém-nascido
e, ao mesmo tempo, continuarmos fenomenólogos? A fenomenologia é um chamado à
experiência sem preconceitos, mas é incapaz de entregar o produto que promete.
Husserl não
escapa do idealismo e, pior, sua fenomenologia ao fim e ao cabo reduz-se a um
racionalismo místico: a saga em busca da terra prometida da verdade
independente da consciência equivale à busca do pote de ouro no fim do arco-íris.
Estava certo Étienne Gilson: se partimos de um mundo imanente terminaremos em
um mundo imanente. Eis, a propósito, minha crítica a Kevin Fitzmaurice e sua campanha pela remoção do ego,
e a Jiddu Kirshnamurti e sua mente plenamente consciente:
a busca por tais estados elevados equivale à máxima abertura do homem à mentira e à malícia.
Fonte: Leszek Kolakowski, Husserl y la búsqueda de la certeza, Marbot Ediciones, Rubí, Espanha, [2001] 2018.
