9 de outubro de 2026

Husserl e o pote de ouro no fim do arco-íris


Talvez o leitor queira recordar os principais conceitos da fenomenologia, seja pela introdução de Xavier Zubiri ao tema, seja pela conjunção da fenomenologia a outros temas e filósofos, antes de arvorar-se em uma crítica frontal frontal. De qualquer forma, o que faz o filósofo polonês Leszek Kolakowski, mesmo que admire Edmund Husserl, é negar que a fenomenologia atinja o que pretende atingir: a certeza.

Husserl lamentava-se pelo fato da filosofia ter abandonado o bom caminho que vinha trilhando pelo idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling, Hegel) e, por isso, abandonou sua independência em relação às ciências. O impulso de Husserl foi tentar trazer a filosofia de volta aos trilhos, sem que tivesse que simplesmente aceitar os resultados da ciência para apenas generalizá-los. Um dos frutos dessa crise é a redução da epistemologia à psicologia, o chamado psicologismo: nem mesmo a percepção era uma fonte de certezas, e a matemática não passaria de tautologias vazias e alienadas de mundo real. Nossas “certezas” não passavam, portanto, de meros conjuntos de instruções práticas. Certo e errado, bom e mau, belo e feio: tudo são reações biológicas. Até mesmo a lógica estaria desprovida de consistência e convicção: a lógica nada mais é do que a descrição de como o pensamento funciona, ou seja, mesmo ela estaria reduzida ao psicologismo.

Husserl, claro, não aceitava esse estado de coisas. Para além da linguagem e dos objetos tem de haver um significado ideal dos conceitos. A crítica de Kolakowski é precisamente a de que a filosofia de Husserl atinge uma certeza psicológica, e não uma certeza objetiva. Husserl quis criar uma intuição tal que cumprisse duas condições: (1) ser independente do “eu”, pois esse eu está sempre vinculado a influências históricas, sociais e biológicas (é o velho lema husserliano voltar às coisas mesmas), e (2) ter acesso à verdade universal, ou seja, a uma verdade que revele condições “necessárias” com o mundo (è a velha consigna husserliana “a filosofia deve ser uma ciência de rigor”.

Husserl prossegue à moda cartesiana: duvidar. Descartes duvidava da existência do mundo, mas Husserl vai além: não há nos fenômenos (nas “coisas mesmas”) nenhuma substância pensante. Por isso é necessário eliminar também o ego substancial. Tudo, tanto o mundo quanto o sujeito, são postos em suspenso (ou “entre parêntesis”), que é quando o fenomenólogo adota a postura de a tudo marcar com um “indicador epistemológico zero”: é a redução transcendental ou epoché (ἐποχή). O que restam? Os fenômenos e um ego transcendental que funciona como mero receptor desses fenômenos. Nesse âmbito em que só restam fenômenos puros, defende Husserl, estamos diante do ser e, nessa esfera, somos capazes de tudo investigar e de tudo extrair aquilo que Husserl buscava restaurar: a certeza.

Tudo isso soa belo, até mesmo poético. Mas é falso. Colocar tudo (mundo+sujeito) entre parênteses significa passar a ser incapaz de determinar se “as coisas mesmas” (fenômenos) são reais ou alucinações. Husserl dizia que o mundo pode ser um “sonho congruente”: ora, se o sujeito está dentro dos parêntesis, então de que maneira o mundo poderia ser congruente? Quem disse que em meio a tão profunda dúvida abre-se mesmo esse novo reino do ser? Questionar racionalmente a existência de tudo porta certo frescor de rebeldia adolescente, mas no final do dia trata-se apenas disso: coisa de adolescente. O que é esse “ego transcendental” pós-redução senão um recipiente vazio de conteúdo? A “certeza” que surge da redução se refere a quê? Dizem os fenomenólogos que a redução eidética que se segue à redução transcendental consiste precisamente em descobrir a essência válida e cientificamente útil do puro fenômeno: o eidos. A redução eidética seria uma espécie de experiencia direta dos universais, que, presume-se, se revelarão ao sujeito com uma autoevidência irresistível. Esses universais, ou essências, seriam atemporais e a-espaciais.

E como, na prática, se chega às “coisas mesmas”, aos fenômenos? Em suma, mediante jogos imaginativos. Vejamos:

Através do que Husserl chama de variação livre imaginária, tentamos imaginar o objeto (um universal) ignorando ou alterando mentalmente algumas de suas propriedades, e assim concluímos que, embora algumas delas sempre acompanhem empiricamente o fenômeno, não lhe pertencem estruturalmente, e sua ausência deixa intacta a natureza do fenômeno; outras [propriedades], por outro lado, não podem ser suprimidas sem suprimir, ao mesmo tempo, a identidade do fenômeno. Esta operação [a variação livre imaginária] trata as coisas (os fenômenos) como se estivessem dotadas de um significado independente do sentido convencional das palavras.

Como podemos ter certeza que a “certeza irresistível” advinda da redução eidética é verdadeira? A fenomenologia não responde essa pergunta: ou o sujeito tem a intuição ou não tem. E mais: como poderíamos refletir sobre as “essências” que experimentamos com a redução eidética como quer Husserl, ou seja, sem pressupostos, sem preconceitos, sem as distorções da linguagem? Como refletir sobre o eidos da religião, da relação causal, da cor vermelha, da arquitetura, do Estado, das relações sociais, do que quer que seja? Como regressar à inocência cultural de um recém-nascido e, ao mesmo tempo, continuarmos fenomenólogos? A fenomenologia é um chamado à experiência sem preconceitos, mas é incapaz de entregar o produto que promete.

Husserl não escapa do idealismo e, pior, sua fenomenologia ao fim e ao cabo reduz-se a um racionalismo místico: a saga em busca da terra prometida da verdade independente da consciência equivale à busca do pote de ouro no fim do arco-íris. Estava certo Étienne Gilson: se partimos de um mundo imanente terminaremos em um mundo imanente. Eis, a propósito, minha crítica a Kevin Fitzmaurice e sua campanha pela remoção do ego, e a Jiddu Kirshnamurti e sua mente plenamente consciente: a busca por tais estados elevados equivale à máxima abertura do homem à mentira e à malícia.

Fonte: Leszek Kolakowski, Husserl y la búsqueda de la certeza, Marbot Ediciones, Rubí, Espanha, [2001] 2018.