Heidegger e a fenomenologia
Há algo anterior à metafísica, que é
anterior à verdade como adequação ser-pensamento: o desvelamento (sentido
original de verdade), no sentido de uma abertura ou clareira a que se referiam
os antigos pensadores gregos. Diz Heidegger que a abertura à verdade é tarefa
anterior à ratio por tratar-se de uma experiência de abertura ao ser.
Ocorre, diz ele, que o “velamento” da verdade está na base do pensamento grego
e ocidental como um todo.
Heidegger não nega o saber dos entes, mas
nega que o pensamento tenha de se reduzir aos limites do ente. Há, pois, que se
recuperar o impensado da metafísica. Por isso faz sentido nominar a
ontologia de Heidegger como “poética”: as poesias iluminam o mundo e o modo de vivê-lo
de uma forma específica, sem justificativas, sem explicações. O poema torna
evidente o real, nenhum leitor exige dele uma garantia, nenhum tipo de
fidedignidade a conceitos. A poesia transita pelo mistério, pelo inacessível e,
portanto, transita pela órbita do “sentido”. E eis o problema da ciência: ela é
um ponto de vista, e apenas um ponto de vista, do real, e acaba confinando-o ente
sem simplesmente deixá-lo ser ente.
Vimos que Molinaro critica Immanuel Kant eChristian Wolff porque o conceito sobre algo acaba substituindo o próprio algo. Heidegger
também pensa assim porque nós homens reduzimos o real misterioso e fenomênico a
um “fato”. A tarefa da fenomenologia é falar da totalidade da
significatividade do mundo onde cada coisa, ação, ideia se insere e do qual
recebe seu “sentido”. A fenomenologia se esforça para tirar do encobrimento
aquilo que está “cotidianizado” e velado pela familiaridade. A ideia de “perder-se”
no real é vivido por nós como uma tragédia, e daí que o pensamento racional
busca retirar o homem dessa angústia. Ao mesmo tempo, a existência é uma tarefa
implacável a qual não podemos recusar.
O cogito para Husserl e Merleau-Ponty
A palavra cogito obviamente nos
remete ao cogito ergo sum de Descartes. Se “penso, logo existo”, então para
Descartes o cogito é o que propriamente caracteriza o sujeito: o cogito
é a intuição originária mais fundamental, que é a apreensão de mim (eu penso)
por mim (eu penso). A partir desta primeira apreensão descobrimos as
regras inerentes ao pensamento. Para Descartes, é o pensar matemático (o
que nos remete à denúncia de Étienne Gilson ao matematismo cartesiano)
porque ele é o mais racional, o mais certo, que parte do simples para o
complexo mediante cadeias dedutivas.
Ocorre que Husserl entende que o pensamento
matemático é certo, mas não é rigoroso. Isso equivale a dizer que o eu racional
“faz” a verdade, mas não há um recuo ao fundamento. Ora, se há um eu que pensa o
pensado, isso significa que posso retirar-me da realidade e apreender-me como ente
independente. Em outras palavras, há algo anterior e ainda mais ingênuo que
o matematismo, que o “pensar racional”. Há “aquém” da certeza matemática uma
estrutura subjetiva que lhe dá suporte.
Husserl chama de mundo da vida o
compromisso com a realidade que ainda não está propriamente determinada. Antes
do “tematizado” (do eu racional, do pensar reflexivo) há um “temático”
anterior, em torno do qual está o mundo da vida. Se não está claro para nós
que o ser racional está imerso no mundo da vida, que lhe percorre e lhe dá sentido,
o ser racional deixa de ser elucidador para se tornar viciante.
Mas que sentido é esse? Husserl fala no
mundo do anonimato ou dos fenômenos subjetivos que jazem no esquecimento,
mas que são o horizonte de todos os comportamentos e visadas. É um mundo que é
o meu suporte, mas não é meu. Esse mundo não é como um objeto (uma coisa, uma
pedra, animal, planeta), mas aparece como unidade sem a qual a pluralidade dos
objetos se esvazia de sentido. Trata-se de um horizonte possível, não
mais um mundo dos objetos. É esse mundo da vida, esse mundo do anonimato, é
aquele que nos remete ao Ser.
A fenomenologia é o retorno às coisas
mesmas (às vezes chamado também de “retorno ao irrefletido”) contra a estagnação
das coisas nas teorias. Essa volta se opera através da epokhé, do
colocar entre parênteses. Há um eu no mundo da vida que é permanente, que a
acompanha por necessidade. Trata-se do eu absoluto transcendental, ao
qual corresponde uma comunidade ilimitada de mônadas, ou seja, uma intersubjetividade
transcendental que só em mim, ego meditante, pode ser constituída
como existente. Quando eu intenciono, ou seja, tenho consciência de outro
sujeito, somos cogito e cogitata, ou seja, uma intersubjetividade.
Claro, também posso intencionar o outro como uma essência, um fantasma, um
ideal.
Merleau-Ponty busca atingir uma reflexão fenomenológica
radical afirmando que a redução não deve ter por objetivo retirar-nos do mundo para
uma espécie de “consciência pura”, mas uma fórmula de uma filosofia
existencial. Diz ele que a consciência não é mais a primeira: “o verdadeiro
transcendental é o mundo” (Phénomènologie de la Perception) e não o ser
(como para Heidegger, como vimos acima) ou a consciência (como para Sartre).
Esse entendimento é tão radical que Husserl e Merleau-Ponty distinguem a
intencionalidade de ato, isto é, a intencionalidade é colocada na unidade do mundo,
no mundo da vida. Não é como a consciência kantiana.
A redução eidética
Não há um método fenomenológico
propriamente, mesmo porque isso implicaria imediatamente numa contradição em
termos, mas pode-se dizer que a redução eidética, isto é, em reduzir as
coisas a meros estímulos visuais para que possamos atribuir significados e
realizar interpretações a respeito do que o que se apresenta a nós simboliza. O
objetivo é voltar a um convívio original com o sujeito assumido integralmente
na “vivência”. A passagem do plano da vivência para o plano do conhecimento
objetivo é a passagem para um mundo familiar, um mundo alheio, um mundo cuja
experiência é decodificada em regras. A redução eidética busca precisamente o
mundo da vivência, o mundo da vida.
Fonte: Joel
Martins e Maria Fernanda Farinha Beirão (org.), Temas fundamentais de
fenomenologia, Centro de Estudos Fenomenológicos de São Paulo, Editora Moraes,
São Paulo, Brasil, 1984.
