20 de julho de 2022

Fatalismo: a doença espiritual dos nossos tempos


O famoso fundador da logoterapia, o psicólogo austrí­aco Viktor Frankl, é conhecido especialmente por insisitir que a doença tí­pica dos nossos tempos é o fato de nossas vidas carecerem de sentido. Mas a expressão "sentido da vida" vem popularmente carregada de grande pesar. Pensamos nos princí­pios e valores que devem nortear a vida humana. Ok, mas Frankl pensava em algo mais prático e específico que isso.

"O que eu quero é ser feliz". Essa frase, tão comum na boca de muitos, é o slogan dos neuróticos. Sim, pois, para Frankl, desejar a felicidade, desejar o prazer, é algo como curto-circuitar a vida humana. Na eletricidade, um circuito só tem sentido quando entre os polos de um gerador há componentes como resistores, capacitores, transistores, microprocessadores etc. Assim também a vida humana precisa desses componentes para existir: são os sentidos. Em outras palavras, precisamos de um motivo para ser feliz, precisamos cumprir uma obrigação.

"Então buscar sentidos é buscar cumprir obrigações". Certo, mas não pense você que Frankl se refere aqui a cumprir obrigações morais, a cumprir preceitos religiosos, a desempenhar rituais. Nada mais falso do que isso. Pelo contrário, Frankl insiste que os sentidos se encontram, não se dão. O princípio da cura da pobreza espiritual é despertar no homem o desejo de encontrar um sentido, e a partir daí­ o homem, livremente, sem fórmulas prontas, empreenderá a jornada que o curará.

O sentido pode mudar várias vezes ao longo da vida. Uma enfermeira, por exemplo, pode perfeitamente encontrar o sentido no auxí­lio à cura de seus pacientes. Mas que sentido terá sua vida quando estiver moribunda, à beira da morte? Este é um dos casos em que o logoterapeuta pode atuar para ajudá-la. Neste caso em concreto, a enfermeira encontrou ser um exemplo de humanidade, de fortaleza, à sua famí­lia como seu novo sentido. Este é o sentido que se aplica a ela, especificamente a ela, segundo suas circunstâncias, segundo sua história de vida, segundo sua personalidade. Veja como princípios e valores pasteurizados e artificiais, como regras morais, não se aplicam aqui.

Mas o que impede as pessoas de encontrarem um sentido às suas vidas, seus trabalhos, seus amores? Frankl nota que o maior obstáculo na busca de sentido está na curiosa tendência do homem contemporâneo em nao se sentir responsável por essa busca. Em outras palavras, ele espera que algo e/ou alguém lhe dê os sentidos de que necessita.

"Tentei explicar que toda açâo psiquiátrica deve ter como objetivo acostumar o doente a assumir com satisfaçâo sua resposabilidade. Porém, nunca deixa de chamar a atençâo o fato de que em nossos pacientes neuróticos impera precisamente o contrário: o temor, o medo à responsabilidade. No próprio linguajar diemos que o homem tem que "se fazer" responsável; pois bem, parece existir uma força que lhe faz escapar dessa responsabilidade. Mas o que dá ao homem essa "força centrífuga"? É a crença supersticiosa no poder do destino, tanto exterior quanto interior; ou seja, no poder das circunstâncias exteriores e nos estados interiores. Em suma: é o fatalismo que invade essas pessoas, a esses indivíduos que padecem de um transtorno psíquico; mas nâo somente a eles, mas também a todas as pessoas aparentemente sâs e, de certo modo, a todos os homens contemporâneos".

O homem dos nossos tempos está cansado espiritualmente. Ele não quer a liberdade. Pelo contrário, a liberdade é um fardo do qual tenta se livrar mediante a renúncia da responsabilidade. O fatalismo lhe cai como uma luva. Se não é ele quem deve buscar os sentidos á sua existência, ao seu trabalho, ao seu amor, então, que alívio!, lá se vai a liberdade e, com ela, a opressão que lhe causa. Para o homem moderno, o espírito é o grande inimigo da alma. O homem neurótico tende a mostrar a seguinte conduta: o que comprova em si mesmo com isso se compromete; o qu encontra em si mesmo, por exemplo, nos traços de seu caráter, com isso se conforma.

Ora, o homem tem impulsos, é verdade, mas os impulsos não têm a ele. O homem é capaz de dizer "não"; ele não é obrigado a dizer "amém" a si mesmo. Ao reduzir-se a seus impulsos o homem se reduz a um animal. Os animais não têm impulsos: eles são seus impulsos.

Fonte: Viktor Frankl, La psicoterapia al alcance de todos, Herder Editorial, 2003, Barcelona, Espanha.

18 de maio de 2022

A mente religiosa segundo Krishnamurti


O objetivo de Krishnamurti é ajudar o leitor a despertar em si uma mente plenamente consciente.

O homem que busca é imaturo porque o que quer na verdade é uma autoridade que lhe apresente a verdade. Isso é necessariamente falso porque a verdade é viva, dinâmica, não algo estático. Portanto, livrar-se de autoridades é fundamental.

O conhecimento não liberta, mas, ao contrário, aprisiona a mente em memórias acumuladas. Isso significa, na prática, que somos pessoas condicionadas pelo conhecimento, por opiniões, ou, em outras palavras, pelo passado. Entenda que não somos capazes de ver algo como realmente é, sem a intermediação de análises intelectuais, o que é fundamental.

Esse conhecimento reduz a consciência a uma pequena porção. Para ampliá-la é necessário empregar a atenção total, que é diferente de concentração. É como estar em um quarto fechado com uma cobra dentro. Você estará totalmente atento a ela, totalmente focado. Não é um processo intelectual.

A alegria que sentimos em determinada situação é desmanchada pela mente, que procura repetir a alegria e, assim, a transformar em um prazer. O medo de perder o prazer é fonte de dor. Por isso é necessário aprender a se livrar do prazer e, portanto, da dor. Somente a total atenção é capaz de desfrutar de alegria.

O medo nada mais é do que a transição, o movimento, da certeza para a incerteza. Medo do desemprego, da traição, da doença, dos perigos, da passagem, enfim, para a incerteza: medo de que o passado volte, medo do que virá no futuro. O medo é essa projeção do pensamento em passado e futuro. Nós não apenas "temos" medo: nós "somos" medo.

Não é difícil ver que o medo gera violência. A agressão enquanto desejo de dominar o próximo é fruto da perseguição do prazer e da fuga da dor. As divisões que criamos ("cristão", "europeu") são resultado da agressividade, fruto da separação. Só o homem que vive no momento, no instante, é realmente livre disso.

Portanto a verdadeira ação está na inação, ou seja, no extermínio da comparação, da dualidade, do "precisa", do "deveria". É necessário acabar com ideais, com imagens, com projeções, com símbolos, para assim acabar com os estímulos que, por sua vez, trazem consigo a dependência.

"Você nunca está só porque está cheio de memórias, de condicionamentos, de ruminações do passado; sua mente nunca está limpa do lixo acumulado ao longo do tempo. Estar só é estar morto para o passado. Quando está só, totalmente só, sem pertencer a nenhuma família, a nenhuma nação, a nenhum continente, eis aí quando você será um pária. O homem que está completamente só é inocente, e é esta inocência que liberta a mente do sofrimento".

Assim que é urgente entender que a morte é a porta de entrada da vida. Não, não se trata de uma piada. Morrer para o tempo, morrer para o intervalo entre a ideia e a ação, ou seja, morrer para o pensamento, eis o caminho para a ação. Nós inventamos o tempo, o futuro, nós mergulhamos na agonia do passado. Esse jogo estúpido do tempo, eis o que bloqueia o caminho da vida, que é, obviamente, a morte.

Este é o caminho do amor. Não, amor não é o que você chama de amor. Isso que você chama de amor é apenas uma projeção da sua imaginação devidamente envernizada de respeito e consideração por algo ou alguém. Amar é estar morto para a responsabilidade e para o dever. O amor só existe na liberdade, na ausência do pensamento, na ausência da preocupação.

Por isso o amor, assim como a contemplação do belo, exige uma postura austera, isto é, de independência, desprendimento, desinteresse, de total e completa simplicidade, de humildade. O amor, a beleza, a verdade, nada disso se cultiva, mas o que, sim, é possível, é ganhar consciência e, a partir daí, observar o prazer, a dor e a tristeza em ação e, assim, observar o espaço-tempo, a imagem, que separa você do mundo.

Não tardará e você notará que você, o observador, é na verdade mais um elemento do observado. E mais: todo o observado é, em realidade, você. Aqui termina o conflito entre você e a imagem. Aqui começa a inteligência propriamente dita. Ora, a inteligência começa, portanto, quando termina o pensamento.

Mas livrar-se das imagens, do pensamento, é apenas o começo do tão desejado silêncio, da solidão, da paz.

A meditação em si não é, portanto, livrar-se do pensamento, mas observar o pensamento, seus movimentos, seu desenvolvimento, sem controlá-lo. O meditador, ele mesmo, está completamente ausente.

É a mente religiosa, a mente que não age por princípio, por valores, por deveres morais dessa ou daquela natureza. É, enfim, a mente que ama sem saber o que é amor.

Fonte: Jiddu Krishnamurti, Freedom from the Known, Random House, Londres, Reino Unido, 2010.

6 de janeiro de 2022

O herói revolucionário: Jordan Peterson entre o caos e a ordem


Muitos gostam de citar Jordan Peterson, sobretudo aqueles que professam ser politicamente conservadores. Suas duas obras mais famosas, aquelas em que expõe suas regras para viver, são largamente resenhadas não somente por profissionais da psicologia, mas também por aqueles que se apresentam como conservadores ou de direita.

No entanto, há uma obra anterior a essas duas que fornece o pano de fundo de seu pensamento e, portanto, deve necessariamente ser estudada por aqueles que se interessam por Jordan Peterson. É uma obra pouco conhecida de seu público porque, além de densa e extensa, é um tanto mal escrita. Peterson começou a escrevê-la aos 24 anos de idade, em 1986 e, durante treze anos, revisou-a e corrigiu-a inúmeras vezes, motivado não somente por sua inclinação pessoal à precisão, mas também em prol de seus alunos, já que passou a usá-la, mesmo sem ter sido formalmente publicada, como um dos livros-texto de seu curso de psicologia na Harvard University. Finalmente publicada em 1999 pela Routledge, Maps of Meaning contém cinco longos capítulos cujo estilo entrecortado e repetitivo explicam em parte a impopularidade da obra. Mas é a ela que seus maiores fãs, especialmente os que se declaram conservadores, deveriam dedicar mais tempo e energia. É a partir dela que entenderão o mal que o conservadorismo pode fazer à sociedade e, originalmente, a si mesmos.

O objetivo de Peterson é simples, mas ousado. Explicar algo que o afetou tão profundamente a ponto de despertar-lhe pensamentos suicidas: por que existe o mal no mundo? Não o mal do criminoso isolado, mas o mal do genocídio, o mal dos campos de morte, o mal das armas nucleares, o mal da destruição em massa. E sua explicação, como era de se esperar, não é de natureza político-ideológica, mas psicológica. A fonte de sua explicação, a mesma fonte que o ajudou a livrar-se de seus pesadelos mais terríveis, encontra-se sobretudo em Carl Jung, a quem considera um dos maiores gênios da humanidade. Incompreendido, mas gênio.

Peterson começa sua explicação apontando para um fato que frequentemente nos passa despercebido. Quando exploramos o mundo, quando exploramos as pessoas, os objetos, os movimentos, as transformações, o tempo, a disposição das coisas e tudo o mais, o fazemos, como homens de nosso tempo, sob o ponto de vista científico. Gostamos, porque assim nos impõe a cultura vigente, de explorar o mundo, e, portanto, entendê-lo, tomando dados, informações e, por último, relações lógicas entre elas. E isso está perfeitamente correto, segundo Peterson. Ocorre que a abordagem científica não é a única possível. Ela responde à pergunta “o que é?”, mas há outra pergunta que espreita a mente humana. É a pergunta “como deveria ser?”. Em outras palavras, as coisas e pessoas, tal como estão, devem continuar assim? Se sim, por quê? Se não, por quê? E como?

Observe que o pensamento científico é mudo aqui. Atribuir significado às coisas não é tarefa da ciência, explica Peterson, e nem poderia ser. A ciência enquanto tal ocupa-se das propriedades sensoriais empíricas, mas não diz nada sobre o status do objeto, ou seja, não diz nada acerca do que tal objeto implica para nosso comportamento. A natureza objetiva de uma coisa não diz nada sobre seu significado, ou seja, sobre o que o objeto implica para a ação, sobre o afeto do objeto sobre nós, sobre as emoções que eventualmente nos desperta, não diz nada sobre seu valor, sua relevância, sobre sua natureza moral. Ora, e quem, se não a ciência, nos poderia transmitir o significado das coisas? O mito. Sim, são nossas convenções mitológicas, ou seja, as narrações, os rituais patrióticos, as histórias dos heróis ancestrais, os símbolos de identidade cultural, são os mitos enfim que, quer queiramos ou não, guiam nossa capacidade de entender o significado das coisas, do mundo. E mais: é impossível viver sem crenças, ou seja, sem valorações, o que significa dizer que necessariamente temos de depositar nossa fé em algo.

Aquilo que é conhecido, aquilo que nos é familiar, é dado pelas narrações e mitos. Espere, um momento. Nunca é demais lembrar que não se trata aqui de conhecimento científico. Estamos tão acostumados com a ideia de que conhecemos algo quando o conhecemos em suas propriedades intrínsecas que nos custa muito aceitar a noção de que conhecer é não apenas o que é, mas o que deveria ser. E isso, uma vez mais, a ciência não pode fornecer. Muito bem, dizíamos que o que nos é familiar é dado pelas narrações e mitos. Mas também é verdade que no transcurso da vida, seja pessoal, seja social, frequentemente nos deparamos com situações nas quais nossas ações são inadequadas, ineficazes. Mudamos nossas ações e nos adaptamos. Mas isso, adverte Peterson, pode não bastar. A simples mudança comportamental, quando mais profunda, terá de ser acompanhada de uma mudança naquilo que cremos que é importante.

E eis que algo aparentemente simplório se mostra complexo, trágico mesmo. Mudar aquilo que cremos que é importante implica entrar no território do desconhecido, ou, para usar uma expressão largamente empregado por Peterson, implica entrar no território do caos. E o caos tem uma natureza própria, que se nos apresenta com valência afetiva, não objetiva. Ou seja, nossa reação natural é a surpresa, o medo, o pânico. E é aqui, caro leitor, que começam os problemas.

***

Peterson ensina que o domínio do conhecido e o domínio do desconhecido são os elementos constitutivos permanentes da experiência humana. O domínio do conhecido é o que genericamente chamamos de cultura, embora tal palavra deva ser empregada de maneira meramente aproximativa. De qualquer forma, nós, seres humanos, embora sejamos obrigados a nos adaptar à cultura vigente, estamos permanentemente em contato com a insuficiência dessa cultura. A exploração criativa do desconhecido, e a geração de conhecimento que advém dessa exploração, é a construção e a atualização de padrões de comportamento e representação. Ora, a capacidade para esse tipo de exploração criativa é o terceiro e último elemento constitutivo permanente da experiência humana.

As representações mitológicas do mundo costumam atribuir um caráter afetivamente feminino (“mãe”, “devoradora” de tudo e todos), enquanto o eterno masculino se considera como sendo tipicamente masculino. E, por fim, o eternamente conhecedor é o cavaleiro que mata o dragão do caos, é o herói que substitui a desordem e a confusão por claridade e certeza.

Expliquemos um pouco mais isso. Em nossos planos, em nossos cursos de vida, surgem inconvenientes com os quais evitamos tratar. Quando tais inconvenientes se acumulam em uma quantidade suficiente é gerada uma catástrofe. A catástrofe tanto pode servir para rejuvenescer como para destruir. Quanto mais se ignore os inconvenientes de uma catástrofe tanto mais provável será que cause uma destruição.

Peterson traça um curioso paralelo com as funções neuropsicológicas do cérebro. Se dividirmos o cérebro em dois hemisférios comprovaremos, de maneira muito geral, que o hemisfério direito é o que está a cargo de representar o desconhecido com esquemas, hipóteses, metáforas, enquanto o hemisfério esquerdo transforma tais esquemas em descrições verbais detalhadas. Quando o curso de nossas vidas prossegue conforme planejado o hemisfério esquerdo prevalece e as emoções aí geradas são de baixa intensidade. Quando o desconhecido se apresenta o hemisfério direto “se incomoda” e a necessidade de transformar o desconhecido em conhecido pode gerar emoções intensas que são frequentemente (mal) interpretadas como emoções negativas.

Dissemos há pouco que as mitologias do mundo apresentam estruturalmente três elementos da experiência: o conhecido, o desconhecido e conhecedor. Na realidade há um quarto elemento, que é anterior a esses três: o caos precosmogônico. Trata-se da fonte última de todas as coisas, frequentemente representado pelo uróboro, a serpente que se come a si mesma. Peterson faz uso do mito mesopotâmico da criação (Enûma Elish) e seus quatro personagens para explicar as experiências fundamentais: (a) Tiamat (que representa simultaneamente o uróboro e a Grande Mãe), (b) Apsu (consorte de Tiamat), (c) os deuses maiores (filhos de Tiamat e Apsu) e (d) Marduk (herói mítico). Em suma, os deuses maiores matam Apsu, e Tiamat, cheia de vingança, decide destruir tudo o que criou. Seus filhos enviam vários voluntários para derrotá-la, mas acabam vencidos. Marduk por fim é declarado rei e se voluntaria para matá-la. Não só a mata como a corta em pedaços a partir dos quais cria o cosmo. O imperador da Mesopotâmia, a encarnação de Marduk, encena uma batalha na qual o Ano Novo renova o “velho mundo”, ou seja, é a cultura sendo heroicamente renovada. A “moral da história” é que o reino da ordem é insuficiente porque a ordem mesma se converte em algo dominante, sufocante, mortífero, caso a ordem permaneça inalterada. As ações do herói são, portanto, o antídoto do caos contra a tirania da ordem.

***

Aqui cabe introduzir o tema da ideologia. As ideologias são como mitos incompletos. Elas têm alguma relevância porque macaqueiam os mitos. Peterson explica as ideologias como se elas fossem a consequência natural do crescimento. Conforme crescemos nos filiamos a um grupo que nos protegerá, mediante um conjunto de tradições, doutrinas e crenças, da sociedade ameaçadora e desconhecida. À medida que se alcança certa disciplina, a proteção deixa de ser necessária e estamos maduros para a verdadeira liberdade. Preparar o indivíduo para essa liberdade é o serviço que toda religião autêntica deveria prestar. No entanto, as falsas religiões e as ideologias transformam a couraça protetora em uma redoma de vidro limitante e tirânica, cuja única função será esmagar o indivíduo e mantê-lo eternamente adolescente.

Essa paralisia na adolescência grupal se explica pela maneira como alguns indivíduos reagem ao que Peterson chama de “anomalia”, ou seja, como eles reagem ao desconhecido, às ideias estranhas, aos indivíduos criativos. O temor que sentem, a agressão que se lhes desperta, pode ser mais bem compreendido quando entendemos que para esses indivíduos a anomalia é percebida como uma espécie de desastre natural, como um tsunami, um incêndio de grandes proporções ou algo assim. No entanto, o que esses indivíduos não notam, ou não admitem, é que a anomalia é não apenas a fonte vital de interesse, de significado e de força individual, mas também é aquilo que nos torna capaz de mudar, de despertar o aspecto intrínseco e “divino” da psique humana. Em outras palavras, de despertar parte do “Verbo” seminal. É precisamente o Verbo que pode criar novos mundos, que pode destruir velhos mundos, que pode ameaçar culturas aparentemente estáveis, que pode redimir aqueles que chegaram à velhice, à inflexibilidade, à paralisia. No entanto, o Verbo, para aqueles que venderam sua alma ao grupo, é nada mais nada menos que “o” Inimigo.

E qual é a anomalia mais “anômala”? Qual a anomalia mais espinhosa de todas? Certamente é a morte. Para nós, seres humanos, que somos capazes de imaginar nossa própria morte e a de nossos entes queridos, o desconhecido está irremediavelmente contaminado pela morte. E não por acaso os “adolescentes grupais” sentem tanta repulsa pelo Verbo: em última instância, a anomalia que ele traz está contaminada pelo aspecto mais desconhecido, e temido, de todos, ou seja, pela morte.

À medida que a autoconsciência se desenvolve ao longo da história e a anomalia da ameaça da morte, ou seja, do fim da existência, se torna cada vez mais presente, o desconhecido ganha dimensões literalmente insuportáveis. Aqui Peterson desenvolve uma interessante descrição dos padrões de comportamento transpessoais, ou esquemas de representação, que se encarnaram na mitologia como os “irmãos hostis” ou os “filhos eternos de Deus”:

(1) O herói mitológico. É aquele que enfrenta o desconhecido de maneira aberta, ou seja, com uma atitude esperançosa ante a renovação e a redenção que resultará de tal contato. Aqui há uma união criativa com a Grande Mãe. O herói organiza as exigências do ser social e as responsabilidades de sua própria alma em uma unidade coerente e disposta hierarquicamente. Em outras palavras, o herói aceita placidamente sacrificar a segurança em favor do significado. A existência não deixa de ser trágica, mas é aceitável.

(2) O adversário eterno. É o espírito da racionalidade que, horrorizado por seu medo das condições da existência, evita o contato com tudo o que não compreende. Esse comportamento esquivo debilita sua personalidade, que já não se alimenta da “água da vida” e o converte em alguém rígido e autoritário e que se apega tenazmente ao familiar, ao “racional”, ao estável. Aqui podemos distinguir dois grupos: (a) o fascista, que sacrifica sua alma em prol do grupo, que por sua vez promete protegê-lo do desconhecido; (b) o decadente, que, ao contrário do fascista, é indisciplinado e se nega a unir-se a um grupo social e se aferra rigidamente às suas próprias ideias.

O verdadeiro crente é aquele que verdadeiramente almeja imitar o Cristo, ou seja, é aquele que se propõe a realizar a alma do herói, aquele que encarna essa alma em todos os aspectos de sua vida cotidiana. E para explicar esse processo de identificação com o herói Peterson lança mão da análise da alquimia de Jung. Segundo explica Peterson, a matéria alquímica é uma substância como o Tao, ou seja, uma substância “que produzia ou constituía o fluxo do ser”, algo mais parecido ao que modernamente chamamos “informação”. É, em outras palavras, a matriz do ser, o desconhecido. Não é difícil concluir o que os alquimistas diziam daqueles que assimilavam completamente o “espírito do desconhecido”: eram eles equivalentes ao próprio Cristo.

Portanto, em hipótese alguma o pensamento de Peterson pode ser considerado como um apego à ordem, muito menos um apego ao conservadorismo político, seja ele americano, europeu ou qualquer outro. O que Peterson ensina é precisamente o oposto: o indivíduo deve assumir plena responsabilidade por seus sentimentos, pensamentos e comportamentos e, motivado pelo interesse no desenvolvimento de sua individualidade, deve buscar identificar-se com o herói. Somente atendendo ao chamado da anomalia, que vive na fronteira entre o caos e a ordem, e pondo em risco sua própria segurança e enfrentando o desconhecido poderá o individuo identificar-se com o herói, ou seja, o Cristo, o Tao. Deixe de mentir a ti mesmo, faça com que seu coração te diga o que deve sinceramente fazer. Você não apenas será melhor, mas o mundo também o será. Que não tenhamos medo da responsabilidade a qual a anomalia nos chama.

 

Fonte: Jordan B. Peterson, Mapas de Sentidos, Editorial Planeta, Barcelona, Espanha, 2020.

9 de agosto de 2021

O misticismo do templo


Nesta obra a pesquisadora Margaret Barker apresenta um conjunto de análises e interpretações, baseados em uma grande coleção de escritos antigos, que apontam à hipótese de que o objetivo principal da ecclesia, tal como apresentada não somente por Jesus Cristo e seus apóstolos, mas pelos Padres, historiadores, fiéis e cronistas das primeiras décadas e séculos da era cristã, é retomar o misticismo do templo, vigente durante o período do Primeiro Templo e abandonado no Segundo Templo. Em outras palavras, o Cristianismo seria uma "religião de mistério", um herdeiro do templo original. “Misticismo do templo” é aqui usado uma expressão sinônima de “ver o Senhor”. No caso do Cristianismo, segundo a interpretação de Barker às palavras do Apóstolo João, o templo não é mais necessário para o vero o Senhor porque o próprio Senhor veio ao mudo. Cristo, portanto, teria abolido a necessidade de um templo. 

A principal fonte de Barker é, claro, a Bíblia. No entanto, muitos trechos utilizados por Cristo e os apóstolos correspondem à versão Septuaginta do VT da Bíblia, que embora outrora considerada insubstituível foi posteriormente condenada pelos judeus no século II d.C. e substituída por uma versão editada para justamente suprimir e/ou alterar trechos que mencionavam explicitamente o misticismo do templo bem como o papel central de Jesus Cristo nele. Mais tarde a tradução latina de São Jerônimo, feita com base no VT alterado, acabou por contribuir ao ocultamento do misticismo do templo, e evidentemente os reformadores protestantes, ao assumirem tal versão como base de suas doutrinas, igualmente sufocaram a verdade do misticismo do templo. No entanto, Barker entende que o que os primeiros cristãos chamavam de “mistérios” é uma referência à tradição do templo. Isso se pode ver, por exemplo, em Santo Ignácio de Antioquia, Clemente de Alexandria, Orígenes e outros já nas primeiras gerações de cristãos. Há menções explícitas de Cristo como o Sumo Sacerdote que assumiu o santo dos santos, por exemplo. Ou declarações de Orígenes de que os mistérios foram transmitidos aos sumos sacerdotes e ficaram registrados sobretudo nas liturgias, não em escrituras. O mesmo se pode dizer das cartas do Apóstolo Paulo: seu conteúdo esclarecia questões pontuais, temas gerais que poderiam ser tratados à distância. Barker entende que a religião não se registrava nas cartas, mas nas liturgias.

Há alguns conceitos que Barker considera fundamentais para que se compreenda a religião do templo e seu misticismo:

(1) Um. Em outras palavras, Unidade. Quando o Um se manifestava, tal manifestação a chamavam de “reino” ou “santo dos santos”, no sentido de que se transmitia a santidade. Portanto, os místicos que adentravam o santo dos santos se tornavam santos, também chamados “anjos”.

(2) Muitos. Em outras palavras, Pluralidade. A unidade e a pluralidade se expressam na literatura do misticismo do templo, bem como no Cristianismo primitivo, como fogo e luz. Os místicos viam a luz invisível. E também ouviam a música inaudível. Aliás, a capacidade de ouvir a música celestial teria sido perdida por Adão, e eis que os pastores de Belém puderam ouvi-la outra vez quando do nascimento de Jesus. Na Igreja a ideia de restaurar a música angelical era algo muito importante (p.ex.: São João Crisóstomo, São Basílio, São Gregório de Nissa, São Dionísio Areopagita). Infelizmente os elementos-chave da música angélica e seu significado - a visão de Deus, o trono, as hostes, a música e o chamado do Senhor ao templo, a expiação - estão ausentes dos escritos deuteronômicos. Seus relatos acerca de Moisés recebendo os mandamentos nega que o Senhor tenha sido visto (Deuteronômio 4.12); sua descrição do templo em 1 Reis nada diz sobre o trono (cf. 1 Crônicas 28.18); eles nada falam sobre os levitas e sua música; eles negaram que o Senhor pudesse habitar no templo (1 Reis 8.27); eles removeram os 'Exércitos' do título “Senhor dos Exércitos” (Is 37.16, cf. 2 Reis 19.15); não havia dia de expiação em seu calendário (Deut. 16); e eles negaram que alguém pudesse expiar os pecados de Israel (Êxodo 32,31-33). Os primeiros cristãos, por outro lado, guardavam todas essas coisas e adoravam como os levitas. Com sua música eles louvaram ao Senhor, deram graças (‘eucaristia’) e clamaram ao Senhor para que viesse.

(3) Trono. Representa a Senhora. Não é possível dizer se a Senhora do templo de Jerusalém era a personificação do trono ou se o trono era seu símbolo. O que se tem certeza é que quando Ezequiel descreveu o trono da carruagem partindo de Jerusalém, ele descreveu a partida de uma figura feminina na qual a glória do Senhor estava entronizada. A Senhora não é algo que apareça nas traduções porque os tradutores não esperavam encontrá-la e, quando tiveram que escolher entre várias possibilidades para palavras difíceis, o fizeram sabendo o que o texto deveria dizer e o que não. O trono como a Mãe do Senhor é um elemento que aparece no Cristianismo também, e por todas as partes, o que sugere que se trata de algo original, não local.

(4) Servos. Eram os místicos propriamente. Em inúmeros trechos do VT os homens de Deus, os grandes em honra e glória, os homens que viram a Deus, são chamados de “servos”. Não por acaso “servo” era o título preferido da Igreja primitiva de Jerusalém para se referir a Jesus. Isso pode ser visto nos Atos dos Apóstolos, na carta do Apóstolo Paulo aos Filipenses e no Didaquê, por exemplo.

Em suma, Barker conclui que o misticismo do templo foi ocultado por quatro grandes movimentos ou fenômenos: (a) pelos deuteronomistas, (b) pela necessidade de distinguir a ecclesia da gnose, o que acabou por jogar a água do banho fora com a criança, (c) pela pressão da ecclesia para que os cristãos não praticassem os costumes judaicos, e (d) por muitos Bible scholars modernos que insistem, movidos por seu preconceito classicista, em purgar elementos “neoplatônicos” ao invés de identificá-los como elementos próprios da tradição do templo e, portanto, do Cristianismo.

Por fim, cabe mencionar alguns conceitos interessantes expostos por Barker:

Adão significa “o Homem”, no sentido de ser humano. Ele era o sumo sacerdote original, o Filho de Deus. Portanto, são “Filhos do Homem” todos aqueles que alcançam a theosis, ou seja, todos aqueles que alcançam a mesma condição do Homem, todos aqueles que se tornam Adão antes da queda, que se tornam servos (místicos). Enoque, por exemplo, descreve sua transformação em um Filho do Homem, ou seja, descreve sua theosis.

Quando lhe é dito a Adão para dominar o mundo, animais etc., isso não significa dominar a natureza, domar animais, praticar agricultura nem nada do gênero. O que se quer dizer é que Adão deve expiar, ou seja, restaurar os laços rompidos da aliança, ou seja, que Adão deve reatar a terra. Aliás, este mesmo entendimento é usado pelo Apóstolo Paulo para se referir a Jesus Cristo.

Quando lhe é dito a Adão e Eva “frutificai e multiplicai-vos” o que se quer dizer é que o casal deve buscar a glorificação (frutificai) e que sejam grandes (multiplicação). Multiplicar aí não tem sentido aritmético, mas espiritual.

Fonte: Margaret Barker, Temple Mysticism, SPCK Publishing, Londres, Reino Unido, 2011.

21 de julho de 2021

Vidas secas


— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.

Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha.

— Um bicho, Fabiano.

*****

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais.

*****

Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia.

*****

Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos — exclamações, onomatopeias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

*****

Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano parou, franziu a testa, esperou de boca aberta a repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar?

*****

Baleia voou de novo entre as macambiras, inutilmente. As crianças divertiram-se, animaram-se, e o espírito de Fabiano se destoldou. Aquilo é que estava certo. Baleia não podia achar a novilha num banco de macambira, mas era conveniente que os meninos se acostumassem ao exercício fácil — bater palmas, expandir-se em gritaria, seguindo os movimentos do animal.

*****

Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.

— Está aí.

Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais, e nunca ficaria satisfeito.

*****

Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.

*****

Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se.

*****

Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?

Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da ideia cresceu, engrossou — e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.

*****

Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior.

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Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vento, o som dos galhos que rangiam na catinga, roçando-se.

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Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.

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Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os nego-ciantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis.

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Todos lhe davam prejuízo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro, e os que não tinham negócio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeçando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes.

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Fonte: Graciliano Ramos, Vidas Secas, Editora Record, Rio de Janeiro, Brasil, 120ª edição, 2013.


12 de julho de 2021

There's no free market


O mercado livre não existe. A velha ideia de que os economistas de livre mercado estão apenas tentando defender o mercado das interferências políticas do governo é falsa. O governo está sempre envolvido de uma forma ou de outra, e os defensores do livre mercado são tão politicamente motivados quanto qualquer um. O mesmo mercado pode ser percebido como tendo vários graus de liberdade para diferentes pessoas. Se alguns mercados parecem livres, é apenas porque estão tão habituados com os regulamentos que os sustentam que se tornam invisíveis. Enxergamos um regulamento somente quando não endossamos os valores morais por trás dele. Reconhecer que as fronteiras do mercado são ambíguas e não podem ser determinadas de forma objetiva nos permite perceber que a economia não é uma ciência como a física ou a química, mas um exercício político. Quando os economistas de livre mercado dizem que certa regulamentação não deve ser introduzida porque restringiria a "liberdade" de um determinado mercado, eles estão apenas expressando uma opinião política. Seu manto ideológico é fingir que sua política não é realmente política, mas sim uma verdade econômica objetiva, enquanto a política dos outros é política. No entanto, eles são tão motivados politicamente quanto seus oponentes. Romper com a ilusão da objetividade do mercado é o primeiro passo para compreender o capitalismo.

Fonte: Ha-Joon Chang, 23 Things They Don’t Tell You about Capitalism, Penguin Books, Londres, Reino Unido, 2010, trechos do capítulo 1.

11 de junho de 2021

Reflexões

 

O ciúme não é prova de amor. Costuma acompanhá-lo, mas os ciumentos são os que estabelecem mais dependências práticas, e não os que mais amam. Assim, não cabe a excessiva tolerância de alguns para com esse sentimento. Trata-se de uma emoção inevitável, mas que deve ser objeto de administração e máximo controle justamente a fim de preservar os legítimos direitos do amado.

[...]

As pessoas que com mais frequência sentem ciúme não são, como regra, as que mais intensamente amam, mas as que mais temem perder o parceiro, o que corresponde, antes de tudo, à fraqueza pessoal e ao medo de lidar com frustrações, dores e perdas práticas de todo tipo.

[...]

O medo da felicidade corresponde à sensação de iminência de tragédia que acompanha nossos melhores momentos. É como se a grande desgraça viesse a se repetir: estávamos no útero, felizes, em harmonia e simbiose com nossa mãe; à situação paradisíaca seguiu-se a dramática e dolorosa ruptura do nascimento.

[...]

A revolta contra fatos irreversíveis é imaturidade emocional e autocondenação à infelicidade eterna. A aceitação de como somos nos permite elaborar os rumos que deveríamos seguir.

[...]

Entre amor e individualidade, opto pela segunda. Faço isso ciente de que ela implica a morte do amor romântico, a meus olhos o grande vilão da história. O final é feliz porque determina a supressão de uma gama enorme de sofrimentos inúteis e dilacerantes. Libertos do anseio de fusão – que entendo como algo que aponta para o passado, e não para a frente –, indivíduos podem seguir seu caminho na direção da autonomia e da liberdade.

[...]

Individualismo é um termo que costuma provocar uma reação negativa na maior parte das pessoas porque parece sinônimo de egoísmo, o que não faz o menor sentido, uma vez que o egoísta costuma ser a favor dos grupos exatamente para poder encontrar alguém a quem parasitar.

[...]

Muitos são os que se entristecem o tempo todo com sua aparência física, com a falta de habilidade para práticas esportivas, com a pouca competência para atividades manuais, com os dotes verbais escassos ou o senso de humor precário, e várias dessas propriedades correspondem a uma forma peculiar da atividade cerebral que, creio, não convém pretender modificar. Nesse caso, mudar significa aceitar os fatos, não lutar contra eles. Mudar significa, portanto, alterar o modo como pensamos para que possamos aproveitar melhor a vida, viver com mais harmonia e serenidade – e isso está longe de ser pouca coisa.

[...]

Aqueles que vivem sós por certo período aprendem a se tornar independentes e a cuidar melhor de si mesmos. Desenvolvem prazer e orgulho por ser capazes disso. Avançam assim na direção da justiça, abandonando tanto o egoísmo como a generosidade originais.

[...]

Buscar a verdade é um indicador de coragem para a introspecção, condição indispensável para conseguir avançar para o autoconhecimento e para a liberdade.

[...]

Muitas de nossas verdadeiras propriedades, como a inveja, a vaidade e a agressividade, são negadas e vão para o porão do inconsciente, de onde influenciam dramaticamente a conduta real da maior parte das pessoas, mesmo daquelas que se pretendem mais idealistas e despojadas.

[...]

Poderíamos nos satisfazer com uma única regra moral para as questões da vida prática: temos de atribuir a nós mesmos e aos outros direitos iguais.

Fonte: Flávio Gikovate, Reflexões que Permanecem, MG Editores, São Paulo, Brasil, 2017.

23 de maio de 2021

Contra a religião


Algumas obserevações acerca de Against Religion, de Christos Yannaras.

Religião

A religião é fruto do instinto humano de preservação de seu eu individual, de seu ego, face à ameaça do desconhecido. A partir daí se abrem três vertentes para aplacar o problema: (1) a criação de uma doutrina metafísica, ou seja, de um conjunto a priori de axiomas que explicam o mundo sobrenatural a partir de observações do mundo natural e que não podem ser questionados nem pela razão, nem pela experiência comum; e (2) a criação de um conjunto de sacrifícios, sejam eles externos (sacrifícios de coisas ou pessoas), internos (abstinência de comida ou sexo) ou expressões e cerimônias (adoração, hinos, poesia, arquitetura), cujo objetivo é em última instância subornar a Deus e colocá-Lo contra a parede; (3) a criação de um código moral, ou seja, de um conjunto de comportamentos, alguns obrigatórios, outros proibidos, que assegurem ao individuo que ele é bom aos olhos de Deus.

Todas essas vertentes refletem ao fim e ao cabo o esforço do ego em ganhar sua salvação por meio do mérito, seja por fidelidade mental a um conjunto de doutrinas e dogmas, seja como pagamento pela consecução de sacrifícios, seja como fruto da chantagem em parecer uma pessoa boazinha.

Quanto à primeira vertente (apego racional a doutrinas e dogmas), as proposições metafísicas, não importa quais sejam, estarão sempre e constantemente sob ataque de novas objeções. Portanto, o intelectualismo metafísico só poderá sustentar-se lançando mão do recurso da autoridade, ou seja, a doutrina metafísica precisa provir de uma fonte irracional ou a-racional (líderes religiosos, revelações, insights, experiencias existenciais etc.). Aqui observa-se uma vez mais o elemento da escolha individual, da preferência atomizada, típicos da vida do ego. É por isso que se observa em tais grupos o comportamento ilógico, mas perfeitamente compreensível, de se construir um cerco fechado em torno das autoridades que protegem a doutrina metafísica: em face à ameaça externa o grupo se blinda e se enrijece em torno da fonte que lhes confere a certeza.

Evento eclesial

Enquanto a religião se caracteriza por mover-se dentro das limitações impostas pela natureza, a ekkesia se caracteriza precisamente por livrar-se dessas limitações dadas pela natureza. É por isso que se diz que Cristo não veio para fundar uma nova religião, mas uma nova criatura, um novo modo de existência. A este novo modo de existência Cristo chamou amor. Amor não é, portanto, um “gostar muito”, uma afeição carinhosa, um sentimento romântico, uma virtude altruísta. Amor é livrar-se da existência individualizada e atomizada, é livrar-se da vida do ego, é livrar-se das limitações impostas pela natureza.

Quando se diz que “Deus é amor” o que se quer dizer é precisamente que Deus não está limitado pelas condições e determinações naturais. Em outras palavras, Deus não “tem” amor, mas “é” amor, ou seja, ele se define precisamente por sua ausência de individualidade, atomicidade, por Seu modo de existência. Por isso Deus não é Deus no sentido das doutrinas metafísicas (“Ser”, “Ser Supremo” etc.), que se caracterizam precisamente por tomar as definições naturais como fundamento de sua lógica interna, mas é Pai, Filho, Espírito, ou seja, hipóstases (existências reais) em livre comunhão entre si, isto é, em comunhão não imposta por nenhuma condição natural ou criada. Observe que Pai, Filho e Espírito vivem um para o outro em liberdade hipostática, ou seja, em uma liberdade que parte exclusivamente da vontade de existir em comunhão, e não de existirem de modo que se autocompletem de maneira independente, nem de existirem por uma espécie de compulsão ou predeterminação de sua “natureza divina”. Este ponto é fundamental, vale a pena insistir: Pai, Filho e Espírito não estão predeterminados por nenhuma natureza ou essência, mas se autodeterminam por sua liberdade de relação entre si. Por isso Pai, Filho e Espírito são hipóstases, não indivíduos ou “pessoas” no sentido que naturalmente atribuímos a essa palavra. O efeito de autocompletar-se, a propósito, é o típico modo de existência autista, atômico, egocêntrico. É por isso que as doutrinas metafísicas, por mais que se cerquem de certa linguagem intelectualizada, são ao fim e ao cabo produto do instinto da religião natural.

É a este modo de existência, a esta nova criação, que os sinais operados por Jesus Cristo apontam. Esses sinais não devem ser interpretados como uma demonstração espetacular do poder de Cristo para que, a partir daí, nos entreguemos de maneira submissa à autoridade. Tal seria a resposta tipicamente religiosa. O que Cristo demonstra, não somente em si mesmo, mas em muitos outros à sua volta, é um novo modo de existência, um modo de existência a qual somos chamados para superar as limitações naturais, a uma verdadeira liberdade existencial, a uma liberdade de relação. Este é o sentido do evangelho, da boa nova. É a pregação do amor, desta nova vida, dessa nova, real e verdadeira existência.

Quando a vontade gnômica se liberta dos imperativos do ego, eis quando o pecado cessa. Pecar é errar o alvo, e o alvo é o modo de existência livre das limitações da natureza. Portanto, pecar é viver de acordo com as imposições do ego, de acordo com aquilo que interessa à sobrevivência e perpetuação do ego, à autoimagem, à vida natural, não uma infração a alguma regra moral. Há de ser muito claro

Ora, mas desapegar-se do ego não é algo que possa ser levado a cabo pelo próprio ego, pelo indivíduo, de maneira autista. Por isso falamos de “evento eclesial”, ou seja, de um esforço conjunto de pessoas em direção a uma vida em comunhão de amor, ou seja, que vivam conjuntamente o esforço de livrarem-se da vida egocêntrica. Haverá altos e baixos, e assim o esforço por eliminar os impulsos de autopreservação -- da preservação do ego -- será constante. Tal impulso, se porventura prevalecer, anulará o modo de existência relacional, e regressaremos ao estágio da vida natural.

O que acontece quando o evento eclesial se transforma em uma religião

Eis aqui alguns exemplos do que a religionização do evento eclesial causa:

(1) A fé se transforma em ideologia. A originalmente é a confiança que as pessoas que amam sinceramente experimentam. É uma experiência, e a linguagem que expressa essa experiência evidentemente pressupõe a existência dessa experiência e, obviamente, essa linguagem precisa ser controlada, ponderada, dirigida pela experiência que a originou. Mas a religião, escrava do ego e, portanto, desprovida da experiência proveniente do evento eclesial, toma o produto da linguagem que expressa essa experiência e o ideologiza por meio da introdução de uma falsa experiência a fim de conferir-lhe validação: a intelecção natural. No entanto, a intelecção é incapaz de garantir a certeza de seus encadeamentos lógicos porque os axiomas sobre os quais se baseiam são necessariamente arbitrários. Para esconder a dolorosa realidade dessa falta de certeza entra em ação um curioso mecanismo de defesa: o desejo de obter a certeza busca na imaginação, em “memórias vestigiais”, experiências emocionais passadas de euforia, excitação, alegria, autossuficiência etc., e substitui o objetivo real e original do desejo, que é a certeza da validade dos axiomas das doutrinas metafísicas, por essas memórias vestigiais. Por sua vez, a experiência subjetiva das memórias vestigiais é reaplicada na linguagem das doutrinas metafísicas, de maneira que o encadeamento lógico, em lugar de buscar a garantia de sua certeza na artificialidade dos axiomas, sub-repticiamente a buscará na invocação da certeza subjetiva que lhe conferem as memórias vestigiais. A fé se transforma em uma ideologia ou, em outras palavras, em uma construção psicológica. A religião não se interessa realmente por ontologia, mas por “psicologia”.

(2) A salvação em uma nova criatura se transforma em salvação do ego. O instinto religioso nega o evento eclesial, nega o modo de existência da comunhão em amor, nega o caminho para uma nova criatura. Assim que lhe resta buscar a salvação do que já existe. Em outras palavras, lhe resta salvar o ego psicológico individual. E essa certeza de salvação será construída mediante o cumprimento da lei. A lei, da qual o evento eclesial se opõe, é uma maldição porque é uma manifestação do poder do pecado, ou seja, do poder da vida natural, psicológica, do poder da escravização ao ego e seus ditames de autoestima, autossuficiência e respeitabilidade narcisista. Quando o Apóstolo sugere que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes (Atos 15:29) isso de forma alguma representa regras que, se cumpridas, farão parte da garantia da salvação do indivíduo. Tais são apenas sinais exteriores, objetivos, para distinguir os cristãos dos pagãos. Uma mera necessidade social circunscrita àquele ambiente em especial. No entanto, o instinto religioso, que sempre se espreitou e se manifestou aqui e ali na vida da ekklesia, ganhou enorme impulso a partir da proclamação da Ortodoxia em religio imperii e, em especial, ganhou forma nos cânones do Concílio Quinissexto de Constantinopla de 692, que publicou uma série de regras socias e morais, com especial ênfase à regulação da vida sexual dos fiéis. A elaboração desse e muitos outros códigos morais, e a respectiva exigência de seu cumprimento para a salvação do ego, impactou várias gerações, milhares ou milhões de seres humanos, que viveram sua única vida em um inferno de culpa imaginária, de desejos reprimidos, de ansiedade implacável, de autotortura narcisista. Gerações inteiras foram presas involuntariamente no tormento do legalismo, na existência deficiente de uma vida sem amor. Milhões de pessoas foram levadas a identificar no amor erótico o medo do pecado, na virtude a repugnância pelo próprio corpo e na expressão perceptível de afeto na repulsa. Tudo em nome da concessão humilhante à brutalidade da natureza humana.

(3) A assembleia eucarística se reduz a um ritual mágico. Jesus Cristo, na Última Ceia, apresentou uma realidade ontológica imageada no pão e no vinho. Os participantes ali presentes, assim como os participantes presentes nas subsequentes assembleias eucarísticas, devem evidentemente apresentar os mesmos pressupostos eucarísticos: a abnegação de seus egos individuais em prol da vida em comunhão amorosa. A realidade ontológica originalmente apresentada por Cristo só poderá ser “reproduzida” cumpridas tais condições. No entanto, de maneira lenta e imperceptível, o instinto religioso perverteu essa realidade em uma possessão individual do pão e do vinho que, milagrosamente, como num passe de mágica, se “transubstancia” (há outras expressões igualmente absurdas) em Corpo e Sangue de Cristo. Os participantes, agora transformados em “paroquianos”, se aproximam do pão e do vinho magicamente, como se fosse possível apossar-se do Corpo e Sangue objetivamente. O fetiche egocêntrico manifestado por esse entendimento é escandaloso: a ideia de purificar-se da culpa a fim angariar mérito para a salvação individual não tem absolutamente nenhuma relação com o modo de existência do evento eclesial. Todo o espaço eucarístico se preenche de expressões artísticas (orações, hinos, iconografia, arquitetura, idiomas eclesiásticos, indumentária) para impressionar o indivíduo, para conduzi-lo, como em uma sessão de hipnose, a sentimentos, emoções, euforias, imagens, cujo objetivo final será, evidentemente, satisfazer o ego.

(4) O sexo como fonte de alegria se transforma em sexo como fonte de neuroses. A perspectiva eclesial sobre as relações entre homens e mulheres atinge seu clímax em Paulo com a famosa passagem de sua Epístola aos Efésios onde ele vê na união amorosa de um homem e uma mulher e na “partilha de toda a vida” a imagem da relação de Cristo com a Igreja, uma imagem que não é metafórica ou intelectualmente alegorizada, mas é uma imagem/manifestação do poder dos seres humanos para realizar a relação vital do Filho Encarnado com a humanidade (vital porque é o provedor de vida ilimitada) como um evento existencial por meio de sua natureza psicossomática criada. É um poder que define aquilo que a Igreja chama de mistério, aquilo que distingue nitidamente o casamento eclesial da instituição natural/social /legal do casamento (cf. Ef 5, 21-33). Dentro do contexto do relacionamento mutuamente autotranscendente de marido e mulher, Paulo exige da esposa que ela cultive ativamente o respeito por seu marido, esteja sujeita a seu marido “em tudo”, como a Igreja o é para Cristo. Ele pede correspondentemente aos maridos que eles devem amar suas esposas “como eles amam seus próprios corpos” e muito mais, “assim como Cristo amou a igreja e se entregou por ela”. Essas demandas não constituem princípios reguladores do comportamento social; são os termos da transformação da instituição natural em mistério eclesial, em luta pela renúncia à vontade egoísta, luta de autotranscendência e oferta de si realistas. É apenas em termos de mistério (o modo de existência eclesial) que essas demandas podem ser julgadas, não de acordo com os padrões dos “direitos do indivíduo”, os padrões do moderno individualismo democrático de massa.

Há também a preferência claramente expressa de Paulo pela vida celibatária, que pode ser interpretada de várias maneiras: como um senso de reserva, depreciação e desprezo em relação à sexualidade, ou como uma busca pela liberação mais plena possível das leis naturais que regem natureza humana. O próprio Paulo não esclarece sua preferência analiticamente, mas também não pode ser discernido no que ele diz qualquer disposição ou sugestão de uma depreciação do sexo feminino - não há nada neles que nos permitiria atribuir a Paulo uma demonização das mulheres e de sexualidade.

Paralelamente a isso, podem-se discernir duas sugestões indiretas de que o instinto sexual natural pode cooperar com a meta da salvação humana (a meta de que o ser humano pode ser salvo, tornar-se sadio ou íntegro, com seus poderes existenciais totalmente integrados). A primeira sugestão diz respeito ao homem que é ajudado pela instituição natural do casamento a "deixar seu pai e sua mãe" (Ef 5:31), a romper com a garantia que reforça o ego de sua proteção, a fim de ousar aceitar o risco de atingir a vida adulta. A segunda dica diz respeito à mulher que “será salva por ter filhos” (1 Tm 2:15). A função natural da maternidade ajuda também a mulher a compartilhar seu ser, seu próprio corpo, a comunicar sua individualidade corporal, por meio da renúncia e da oferta de si que a maternidade acarreta. Ambas as dicas que encontramos em Paulo referem-se a potencialidades que são características da função generativa, não a preceitos reguladores que a "ética" de Paulo quer impor à natureza. É precisamente esse mal-entendido que causou (e ainda causa) muita desumanidade - atormentou (e ainda atormenta) gerações de seres humanos ao longo de muitos séculos.

Quando o evento eclesial é religioso, são esses textos do apóstolo Paulo que são idolatrados e proclamados (não apenas pelos protestantes) como sendo divinamente inspirados ao pé da letra. Mesmo seus elementos circunstanciais e historicamente condicionados são tratados como princípios reguladores obrigatórios para os cristãos de todas as épocas.

Leia: Christos Yannaras, Against Religion, Holy Cross Orthodox Press, Brookline, MA, EUA, 2013.

8 de maio de 2021

Como amar Cristo


Como São João, o Teólogo, conseguiu atingir um amor tão elevado pelo Senhor e se tornar um modelo de amor para todos nós? Acho que ele fez isso da mesma forma com que as pessoas começam a se amar. Elas veem a beleza e a bondade de uma pessoa e se sentem atraídos por ela de todo o coração. Da mesma maneira, São João viu a beleza do Senhor e foi atraído por Ele. Ele sentiu o amor especial do Senhor por ele e da mesma forma foi inflamado com amor por ele. Ele viu as grandes, maravilhosas e frutíferas obras do Senhor e, movido por uma piedade fervorosa, tornou-se totalmente devotado a Ele. Ele provou a doçura do amor por Ele e, imerso de todo o coração neste amor, descansou nEle. Aqui segue o caminho da ascensão no amor ao Senhor. Entremos nele e, ao final, conseguiremos adquiri-lo.

 Primeiro: São João viu a beleza do Senhor e foi atraído por ela. Da mesma maneira nasce o amor entre as pessoas. Elas veem a beleza de alguém, espiritual ou física, e começam a amar umas às outras. Levantemos nossa mente para a contemplação da beleza do Senhor, e certamente não permaneceremos frios e indiferentes para com Ele. A beleza do Senhor é a soma total de toda a Sua perfeição. “Olhe e observe, o que falta ao Senhor?” diz São Ticônio de Zadonsk. Tudo o que você deseja pode ser encontrado no Senhor em plenitude indescritível e ilimitada. Você busca bem-aventurança? Ele tem bem-aventurança eterna e verdadeira. Você está procurando beleza? “Digno és Tu em formosura mais do que os filhos dos homens” (Salmos 44: 3). Você busca a nobreza? Quem é mais nobre do que o Filho de Deus? Você está procurando por honra? Quem tem mais honra ou é mais elevado do que o Rei dos céus? Você busca sabedoria? Ele é a Pessoa (Hipóstase) da Sabedoria de Deus. Você quer alegria? Ele é a alegria dos espíritos abençoados e dos escolhidos de Deus. Você precisa de conforto? Quem pode confortá-lo mais do que o Senhor Jesus? Você procura descanso? Aqui está o descanso eterno das almas que O amam. Você quer vida? Ele é a fonte da vida. Você tem medo de se perder? Ele é o caminho. Você tem medo do engano? Ele é a verdade. Você tem medo da morte? Ele é vida como Ele mesmo nos assegura: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Em suma, toda a perfeição, beleza e bondade que a alma humana poderia amar são encontradas nEle. Force sua mente a entender isso e você não será capaz de fazer outra coisa senão amar o Senhor. Santa Catarina, a Grã-Mártir, prometeu amar aquele em quem ela veria a mesma riqueza que possuía, a mesma beleza, a mesma sabedoria de que se gabava, esperando que em todo o mundo ela não encontrasse tal pessoa. Mas quando ela conheceu o Senhor, ela viu que comparada à Sua beleza, sabedoria e riqueza, ela não era nada, ela era desprezível. Ela então se entregou completamente a Ele, apegando-se a Ele e oferecendo-se a Ele como um sacrifício.

Em segundo lugar, São João, o Teólogo, sentindo o amor do Senhor por ele, ficou inflamado de amor por ele. O amor sincero e altruísta, quando experimentado de outra pessoa, sempre inspira um sentimento correspondente. Vamos experimentar o amor do Senhor e acender nosso amor por ele. “O que o Filho de Deus não fez por nós?” pergunta São Ticônio. “O que Ele não alcançou por nós? O que Ele não suportou e sofreu por causa de nossas pobres e necessitadas almas? Que labutas e sofrimentos Ele não tomou sobre Si a fim de levar-nos a nós, que havíamos caído, a Seu Pai Celestial? Ele desceu do céu para nos elevar, nós que que tínhamos sido expulsos do paraíso, ao céu. Para o nosso bem, Ele nasceu na carne a fim de nos trazer a Si mesmo por meio da regeneração espiritual. Ele se humilhou por nós, para nos elevar. Ele empobreceu para enriquecer a nós, desgraçados. Ele sofreu desonra e feridas para nos curar e glorificar. Ele morreu por nós para dar vida a nós que estávamos mortos. Veja a que condescendência e humildade Seu perfeito amor e complacente misericórdia O trouxeram”. Cada um de nós não experimentou este movimento do amor de Deus? Quantas vezes fugimos desse amor pecando? Todas as vezes, por causa de uma frase, “Eu sou culpado e não farei isso novamente”, nós nos reunimos por meio de Sua misericórdia. Quantas vezes O irritamos cedendo à tentação das delícias deste mundo? Então, quando nos voltamos para Ele novamente, fomos admitidos na mesa do Senhor, para participar de Seu Corpo e beber Seu Sangue. Não é este o abraço de Seu amor misericordioso? Cristo está entre nós em nossa vida cotidiana. Quem entre nós não experimentou Sua cuidadosa proximidade de nós, na libertação de infortúnios, doenças, tristezas, circunstâncias difíceis, em todas as necessidades espirituais e físicas? É possível não responder a um amor tão grande e voltar-se para Aquele que nos ama tão incansavelmente? É possível por causa da distração e desatenção esquecer o amor do Senhor por nós? Tendo conhecido e lembrado esse amor, é impossível não experimentar um sentimento de amor pelo Senhor, não importa quão calejado esteja o coração. Aquele que anda continuamente na presença do amor de Deus sempre será inflamado com amor por Ele. Essa é a natureza do amor!

Terceiro: São João provou a doçura do amor ao Senhor e com perfeita paz repousou em Seu peito. O amor é em si mesmo uma dádiva que não pode ser comparada a nenhuma outra. Ele traz uma bênção que é mais elevada do que qualquer coisa no céu ou na terra. O Senhor diz: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele. Disse-lhe Judas (não o Iscariotes): Senhor, de onde vem que te hás de manifestar a nós, e não ao mundo? Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. (João 14:21-23). Quão consoladoras são essas palavras! Que grandes e exaltadas promessas o Filho de Deus oferece àqueles que O amam - que o verdadeiro amante de Cristo terá amizade com o Pai e Seu Filho! A mente humana não consegue compreender a bondade de Deus. Deus, que é grande, infinito e inatingível, deseja ter amizade com o homem que Ele criou e que é Seu escravo. Ele deseja ter amizade, desde que o homem não a rejeite ... ”a comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo”, escreve São João (I João 13). Onde estão o Filho e o Pai, também o Espírito Santo não está excluído. Veja o que o amor de Cristo alcança! Quem ama é digno de ser morada e morada da Santíssima Trindade. O Deus Tri-Hipostático - Pai, Filho e Espírito Santo - está bem disposto a habitar no homem pela graça. Deus é amor; e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele (I João 4:16). Bem-aventurado é esse coração! Mesmo aqui na terra, sente alegria que é abundantemente derramada nos corações dos escolhidos para a vida eterna. O coração prova a própria essência de “quão bom é o Senhor” e possui o que se entende pelas palavras “O Reino de Deus está dentro de você”. Pois lá onde Deus está, também está tudo o que Lhe pertence. Se Deus está dentro de você por causa do seu amor, então você terá Sua justificação para seus pecados, libertação de seu cativeiro, paz em vez de sua má consciência, alegria em vez de sua miséria, conforto em vez de sua tristeza, justificação no julgamento de Deus, assistência contra seus inimigos, sabedoria e inteligência em vez de confusão e ignorância, força em sua fraqueza. Se o Senhor habita em você por causa do seu amor, então quem pode ser contra você, que mal pode acontecer com você? Se Ele é a sua paz, quem pode perturbá-lo? Se Ele é a sua alegria e conforto, quem ou o que pode causar tristeza em você? Se Ele é a sua força, quem pode vencê-lo? Se Ele é o seu Rei, quem pode subjugar você? “Se Deus está conosco, quem pode ser contra nós”, exclama corajosamente São Paulo junto com todos os que amam o Senhor (Romanos 8:31). Assim é o amor, e veja o que ele traz consigo! Aqueles que entram no amor do Senhor sentem que estão cada vez mais plenos e perfeitos. Pois o amor é o vínculo da perfeição (Colossenses 3:14).

Se você deseja amar o Senhor, então se esforce para contemplar com sua mente Sua beleza, ou a plenitude de Sua perfeição, sinta o calor de Seu amor e experimente a doçura do próprio amor com seu coração. Não se pode aprender o amor, ele ocorre nos lugares escondidos do coração. É semeada em segredo e amadurece sem ser observada, como a semente lançada ao solo que brota sem o conhecimento do semeador, produzindo um caule, uma espiga do grão e uma semente na espiga. O amor semeia-se misteriosamente, sempre, porém, a partir do efeito sobre o coração, objeto de amor. Volte sua mente em seu coração para o rosto radiante do Senhor, cheio de amor e digno de amor, e de Seus olhos uma centelha descerá em seu coração e o acenderá com amor por Ele. Aquele que está perto do fogo é aquecido por ele, e aquele que se volta para o Senhor com sua mente e coração é aquecido pelo fervor de Seu amor, e ele mesmo começa a retornar uma disposição calorosa para com Ele. ... O amor de Deus está derramado em nossos corações ... (Romanos 5:5), ensina o Apóstolo Paulo. O amor é um presente, mas um presente preparado para todo aquele que o busca: apenas deseje e busque, e imediatamente você o receberá. Assim como o Senhor abraça a todos, é impossível não amá-Lo. No entanto, como nem todos se voltam para Ele e O buscam, nem todos O amam. Pois, de fato, Ele nos amou primeiro e, portanto, devemos amá-Lo.

Detenhamo-nos nestas coisas, irmãos, e nos esforcemos para amar ao Senhor com todo o nosso coração, toda a nossa alma e todas as nossas forças. Melhor ainda, vamos despertar o amor por Ele adormecido em nós e colocá-lo em ação para ser visto por nós e por todos. Amém.

8 de maio de 1864 – Festa de São João, Apóstolo e Evangelista.

Fonte: São Teófano, o Recluso, Road to Emmaus Vol. XV, No. 2 (#57).

26 de março de 2021

Gestão emocional: a essência da liderança


A sensibilidade racional

Reconhecer suas neuroses é bom; decidir fazer algo para resolvê-las é melhor ainda; mas fazer esse algo, concretamente, é uma coisa totalmente diferente. Cuidado, contudo, para que esses insights não se transformem em pensamentos do tipo: “Eu vejo com clareza que ando me comportando de maneira idiota, portanto sou um idiota!”

A solução? Adquirir sensibilidade racional. Em outras palavras, tornar-se sensibilizado, mas não sensível: em termos mais claros, ensinar-se como ser sensível sem ser vulnerável.

A sensibilidade racional consiste em empregar seus pensamentos e emoções de maneira que você se torne cada vez mais sensível e perceptível aos seus próprios erros e aos erros dos outros. Ao mesmo tempo, consiste em tornar-se infinitamente menos vulnerável, menos condenatório, quando você erra, ou quando os outros erram. É a capacidade de agir de maneira autêntica, e deixar que os outros ajam de maneira autêntica, sem condenar-se a si ou aos outros quando formos tolos, quando cometermos erros ou quando agirmos de maneira autodestrutiva.

Um dos pensamentos mais comuns nessas situações é que devemos ser castigados pelo que fizemos. Castigo, neste sentido, não significa apenas penalização. Se você continuar apresentando um mal desempenho o que poderá acontecer é que será penalizado: ou seja, você não será recompensado por ter sido bem sucedido, será criticado por cometer algum erro, não poderá continuar no projeto etc. Mas castigo significa penalização mais condenação. Significa que só porque cometeu um erro você tem que ser especialmente condenado a sofrer nesta terra, pois você supostamente violou a lei da natureza de que você deve, você tem que, você precisa ser bem-sucedido.

A sensibilidade racional lhe mostrará, de maneira explícita e eficiente, como desinventar os demônios e duendes que você idiotamente inventou e como substituí-los por filosofias de vida racionais: (1) “Não é horrível que meu departamento tenha tido um desempenho tão ruim este ano; é apenas muito inconveniente”; (2) “É claro que eu consigo aguentar esse tipo de fracasso. Nunca irei gostar de fracassar, mas sempre poderei lidar de maneira elegante com isso”; (3) “Não há, nem nunca poderá haver, nenhuma evidência de que eu seja uma pessoa indigna por ter tido um desempenho tão ruim”; (4) “Não importa se eu continuar cometendo erros, eu nunca merecerei ser castigado por meu comportamento ineficaz. Castigo significa condenação; e nem eu nem ninguém seremos condenados mesmo que façamos algo tolo ou irresponsável”.

A essência de praticamente todos os transtornos humanos reside em seu caráter ditatorial, grandiloquente, exigente, típico de criancinhas de dois anos de idade. As pessoas naturalmente, e facilmente, a causa de suas predisposições biológicas e ambiente familiar degradado, creem com devoção e intolerância que elas precisam o que elas querem, que elas precisam ter o que elas preferem, que é um horror se elas forem privadas.

A sensibilidade racional sensibiliza o individuo a suas próprias exigências pueris, bem como as dos demais. Ela lhe mostra como é completamente louco lamuriar-se, reclamar, choramingar e insistir que o universo foi feito especialmente para ele. O indivíduo que pratica a sensibilidade racional, por outro lado, não tem certeza de nada; ele aceita de bom grado o acaso e a probabilidade; ele percebe que nem ele nem ninguém é uma pessoa indigna.

 A sensibilidade racional e o executivo

De certa forma o executivo é um revolucionário nato. Ele naturalmente se conforma em grande medida às regras organizacionais vigentes: pois ele sabe perfeitamente bem que se não as seguir não conseguirá nem mesmo aproximar-se da direção da empresa a qual pertence.

Porém, o líder organizacional realmente dedicado às suas atividades está sempre, de maneira automática, procurando ineficiências por eliminar e eficiências por construir. Raramente fica satisfeito em seguir indefinidamente as mais “bem-sucedidas” e consolidadas políticas da empresa; de outra forma, seu trabalho se tornaria rotineiro e tedioso. Dado que “mudanças radicais” é outro nome para “revolução”, o executivo é sob vários aspectos (e não somente teoricamente) uma das criaturas mais revolucionárias da terra.

O executivo, ademais, é um ser essencialmente lógico e racional. Ou, pelo menos, deveria ser! Pois embora seja emotivo, líder e orientado por comportamentos, ele é forte em pensar, imaginar, planejar, estruturar e teorizar. Ele não apenas age; ele usa a cabeça. Talvez seu ponto mais forte esteja precisamente nisso: enquanto alguns são exímios pensadores, outros extremamente emotivos e alguns extraordinariamente impetuosos, o executivo tende a empenhar-se nessas três formas de comportamento.

Mas como? Bem, tente por um momento observar o homem, não apenas sua obra. Por que o executivo tem poder para executar? Em última instância, porque ele realmente quer. Ele quer, prefere, gosta imensamente de liderar os outros e dirigir empresas. Ele deseja intensamente a eficiência e o sucesso. Ele anseia apaixonadamente atingir os objetivos da empresa. Ele cobiça ativamente vários tipos de poder. Ele normalmente detesta, despreza e odeia a ineficiência, a fraqueza, a desordem e o desperdício. Ele sabe muito bem onde ele quer chegar na vida e está absolutamente determinado a chegar lá.

Mas será que seus desejos, gostos, vontades, ânsias, cobiças, ódios e determinações realmente representam a epítome do desinteresse, da pura objetividade e da frieza? Não tenha dúvida! Muitos de seus métodos podem ser incrivelmente frios e calculados. Ora, mas e as chamas da motivação, aquela motivação que ventila e promove esses métodos? Será que elas também são frias e calculadas?

O verdadeiro executivo é, portanto, naturalmente racional, mas é também naturalmente, no melhor sentido do termo, sensível. Ele não apenas sabe o que é, mas também o que deveria ser.

A sensibilidade racional é sensatamente dualista. Ela reconhece a existência das inclinações totalmente centradas no prazer, as tendências incrivelmente egoístas e maravilhosamente individualistas do cidadão saudável. Mas não se esqueça: as pessoas, em especial os executivos, trabalham com outras pessoas.

A sensibilidade racional o ajudará a que se sensibilize com você mesmo; com as pessoas mais próximas a você (esposa, filhos); a seus colegas de trabalho, a seus superiores e subordinados. Ela oferece a você uma chave para a humanidade: entender os comportamentos incrivelmente repetitivos das pessoas ao seu redor.

 Determinação

Antes de mais nada, o executivo competente é uma pessoa determinada, que decide. Ele pensa por meio de planos e cronogramas. Então é quando ele decide implementá-los com determinação.

Adiar deliberadamente uma decisão é sinal de uma necessidade terrível de aprovação.

Em primeiro lugar, desafie-se: as decisões são parte do processo gerencial; enquanto você for gerente, é você quem decidirá se deve ou não manter uma determinada pessoa na equipe. Quem disse que todos devem tratar você com isenção total? Sim, é triste mandar alguém embora; sim, haverá consequências à esposa e aos filhos do funcionário, que certamente sofrerão; mas não é você que está encorajando a miséria dele, mas ele mesmo.

Mas e o excesso de determinação, ou seja, a ânsia de decidir rapidamente? Não seria isso um problema também? Sim, pode ser. Se sua raiva, sua autodepreciação, sua baixa tolerância à frustração, se tudo isso foi a verdadeira causa de sua decisão impulsiva, açodada, e impetuosa de demitir o funcionário, então, sim, você maculou sua capacidade executiva, sua posição.

Quanto mais reativo você for em relação ao comportamento inadequado de um de seus subordinados, tanto mais será alvo de seu ressentimento e de seu enfrentamento. Dado que esta é a maneira que muitas (mas não todas) pessoas são, por que não aceitar tranquilamente esse fato e até mesmo usá-lo a seu favor?

Pois se você realmente for capaz de resolver o problema fundamental do “ego” e da “autovalorização”, você não apenas estará à frente no jogo da eficiência executiva, mas se tornará invulnerável à maioria dos golpes e “insultos” que certamente receberá ao longo de sua trajetória em outras importantes áreas da vida.

 Concentração

O elemento mais importante para a competência executiva é provavelmente a capacidade de concentração continuada.

Eis algumas regras gerais: Tente concentrar-se nas coisas mais importantes a serem feitas, por você e por outros, para cumprir os objetivos da empresa. Observe sua vida social – e a dos outros – no ambiente de trabalho.

O que está bloqueando a sua concentração eficiente? Ora, você. A principal cagada é provavelmente sua baixa tolerância à frustração, ou, em outras palavras, seu hedonismo de curto prazo. Sim, você sabe que não deve perder tempo com trivialidades, com socializar excessivamente com seu chefe, seus pares, seus subordinados, que você deve concentrar-se no que é realmente importante etc. Mas conhecimento não é ação.

Que tipo de merda está fazendo com você mesmo? Este deveria ser o principal aspecto sobre você: adiar o prazer presente em prol de um ganho no futuro.

 A relação com os outros

Um dos aspectos mais importantes a que o executivo deve prestar atenção é sua relação com os outros. É necessário manter uma relação amigável, embora não necessariamente intima, com eles.

Você sabe perfeitamente bem que há tarefas que deve executar, por mais chatas e inoportunas que sejam; que há pessoas com quem deve relacionar-se, por mais estúpidas e desprezíveis que sejam; que há prazos e processos a cumprir, por mais draconianos e arbitrários que sejam. O problema não é a respeito no quê você deve disciplinar-se, mas como. A falta de disciplina normalmente é causada por uma ideia irracional básica na qual literalmente milhões de indivíduos creem. Ela reza que é mais fácil evitar enfrentar as dificuldades e responsabilidades da vida do que assumir formas mais recompensadoras de autodisciplina.

 Autoaceitação

A característica humana mais valiosa talvez seja a autoaceitação plena.

Poucos psicólogos sabem o que é autoaceitação. Frequentemente confundem autoaceitação com “autoconfiança”, “autoestima”, “autoaprovação”, “amor próprio” e coisas do tipo, que em muitos aspectos não só são diferentes mais contrários à autoaceitação.

A autoaceitação incondicional significa exatamente o que parece significar: que o indivíduo se aceita completamente a si mesmo, a sua existência, a seu ser, a sua vivacidade, sem qualquer tipo de restrição ou condição. Por outro lado, o que normalmente chamamos de “autoconfiança” ou “autoestima” são conceitos altamente condicionados de aceitação. Pois se você confia em si mesmo ou estima-se a si mesmo invariavelmente o fará por alguma razão, porque faz algo bem. E se esse é o caso, então você imediatamente perderá essa confiança ou estima assim que começar a fazer coisas mal feitas. “Eu sou bom não porque eu faça algo bem feito ou porque eu seja amado pelos outros, mas pelo simples fato de que estou vivo. Minha bondade está em minha vivacidade. Ponto final.”

A autodepreciação frequentemente leva ao outro lado da moeda da insegurança pessoal: a exaltação compulsiva do ego. Se você acha que não vale nada enquanto pessoa somente porque fez coisas erradas ou mal feitas, então começará a tentar provar a si mesmo que você na verdade é, sim, uma pessoa digna e de valor; e a maneira com que fará isso é fazer coisas que supostamente inflem seu ego e dar-se tapinhas nas costas por ter feito elas.

As tentativas de inflar o ego são provavelmente os comportamentos mais destrutivos da eficiência organizacional.

 Sentimentos de hostilidade

A autoafirmação é um dos mais saudáveis objetivos no ambiente de trabalho, e um dos que mais o ajudarão a atingir (e manter) a eficiência executiva. Mas o problema é que é muito fácil confundir autoafirmação com hostilidade. Dado que a hostilidade, ou raiva, nos motiva a ser assertivos e às vezes a atingir bons resultados (ou ao menos resultados rápidos), então muita gente conclui que (1) a raiva é um elemento necessário da afirmação, (2) a raiva é uma demonstração de força, (3) a raiva é uma demonstração autêntica a respeito do que está acontecendo e (4) a raiva é altamente desejável.

A afirmação (ou assertividade) é saudável porque demonstra que você quer algo e que está determinado a fazer alguma coisa para obter esse algo, mesmo que algumas pessoas pensem diferente e queiram que você faça o que elas querem.

Mas a hostilidade é algo completamente diferente. A hostilidade não é apenas batalhar pelo que você quer; é depreciar, enquanto ser humano, àqueles que querem algo diferente de você.

 Depressão

Será que a sensibilidade racional ensina às pessoas que elas nunca, jamais, devem sentir-se deprimidas – nem mesmo quando alguém querido morrer ou quando uma empresa entrar em falência? Sim, é exatamente isso que ela ensina. Pois a depressão, quando corretamente definida, não significa apenas tristeza profunda, infelicidade ou luto; depressão significa também autodepreciação, autopiedade e um sentimento de total desesperança.

Pois sentir-se frustrado, contrariado, chateado, tudo isso naturalmente o encoraja a sentir-se triste e cabisbaixo. Mas sentir-se deprimido, desesperado, completamente melancólico, significa, acima de tudo, que você está torturando-se a si mesmo por ser torturado, que está exigindo e fazendo birrinha porque o mundo deveria ser arrumado de tal forma que você nunca seja frustrado, contrariado e chateado.

Quase todos os transtornos de personalidade resultam do mecanismo de culpa irrealista e exagerada – culpar a si mesmo, os outros, o mundo. Quando se comporta neuroticamente você flagela pessoas e coisas de maneira supergeneralizada somente porque algumas características delas são indesejadas. Ao invés de querer, desejar e preferir que essas pessoas e coisas tenham características melhores, você exige e ordena que elas melhorem completa e imediatamente.

Fonte: Albert Ellis, Executive Leadership, Institute for Rational Living, Nova York, NY, EUA, 1972.