Lógica espontânea
É o uso
natural da razão, e é usada por todos os homens. É fruto da inclinação natural
humana em conhecer a verdade. Se o homem não segue a ordem lógica natural estará
fadado ao pensamento confuso, ambíguo ou simplesmente falso.
O homem
pode, contudo, desenvolver a capacidade de pensar logicamente e, assim,
elaborar uma arte da lógica (“como usar a lógica”). A ideia é
aprender a falar com fluência, a distinguir, concretar, tirar consequências,
argumentar racionalmente etc. Há técnicas que podem auxiliar esta arte, como a
memorização, a lógica simbólica etc. De
qualquer forma, a arte da lógica não deve ser carregada com regras rígidas do
tipo passo-a-passo para não a tornar forçada ou afetada.
Mas o que
nos interessa aqui é a ciência da lógica (“como funciona a
lógica”). A ideia aqui é entender que, o que quer que entre em nossas mentes a
partir das coisas externas, elas passam a ter um novo status. Por sua
vez, o pensamento apresentar certos atos que são típicos e exclusivos dele: são
as propriedades ou relações lógicas. Essas propriedades têm relação com
a realidade, pois servem precisamente para conhecê-la. O método dessa ciência é
a reflexão, ou seja, a exploração do próprio ato de conhecimento (p.ex.
estudar as características da nossa ideia de justiça, como demonstramos que a
alma humana é imortal etc.). Dado que que tudo o que conhecemos se expressa na
linguagem, é na própria linguagem que a lógica se expressará. Por fim,
cabe comentar que a lógica, embora popularmente tenha fama de precisão e
rigidez, jamais expressa a verdade, mas apenas assegura a correção formal do
raciocínio: a lógica é apenas o instrumento do conhecimento científico,
e não o fundamento do conhecimento científico. O fundamento do conhecimento
científico é o mundo real.
A ciência
da lógica divide-se tal como os atos de intelecção se dividem: simples
apreensão (lógica dos conceitos ou noções), juízo (lógica do juízo), raciocínio
(lógica do raciocínio) e conhecimento sistemático (lógica da ciência). A lógica
formal é aquela que analisa as formas das operações lógicas, algo mais
ligado ao raciocínio [“se A, é B; é A, logo é B” → “se Pedro respira, está
vivo; Pedro respira, logo está vivo”; observe a diferença entre forma e
conteúdo, entre verdade formal (coerência) e verdade material (fato)], e que é
sempre e universalmente verdadeira (embora, lembremo-nos, não necessariamente
“verdade”) porque as leis lógicas são sempre e universalmente verdadeiras, enquanto
a lógica material ou filosófica é aquela que analisa a correspondência
entre a ordem lógica e a ordem real. A lógica formal pode ter certa autonomia,
mas em última instância apoia-se na lógica material ou filosófica.
Há de se
tomar cuidado para não confundir lógica com psicologia. Ambas as ciências lidam
com os atos do entendimento, mas a psicologia o faz enquanto modo de ser
desses atos, e a lógica o faz enquanto modo de significar (representar) desses
atos. Aliás, ao limitar o homem à sua subjetividade, foi precisamente o que
Hume e Locke fizeram: reduziram a lógica a um psicologismo (lembremo-nos
que foi o que Husserl procurou combater sem sucesso).
Lógica
dos conceitos
Comecemos
com uma tabela que compara os principais termos nas três operações mentais:
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Observamos
aqui que o conceito é um conteúdo mental em que captamos uma natureza/essência.
Note: o conceito é aquilo que é entendido pela mente, enquanto a
essência é real. Há também entes de razão, como veremos, que são
essências que só existem enquanto são pensadas. O conceito significa a essência
de uma coisa, mas não como sua natureza substancial, mas apenas como uma
propriedade inteligível da coisa (vermelho, alto, triangular etc.). O conceito
é uma intelecção, ou seja, não implica que compreendamos a fundo a natureza da
coisa.
O conceito
é, portanto, um modo de significar, enquanto o significado é o real: o
conceito pode ser claro (porta, mão, roubar, mentir etc.), imperfeito
(quando é necessário recorrer a analogias, negações etc., como o conceito de
Deus), vago (uma vaga ideia do que seja aminoácido, hiperbólico, turbina
etc.) e falso (uma falsa ideia de liberdade). No entanto, por mais vago
ou falso que seja um conceito, ele não é uma imagem: o conceito é uma
“mensagem” inteligível, enquanto a imagem é uma “mensagem” sensível das coisas.
Dissemos
acima que os entes de razão são conceitos que somente existem no
pensamento, ou seja, suas essências são também mentais, e não reais. Sanguineti
os divide por intenções, então aqui é melhor pesquisarmos do que se trata no
dicionário de Bernard Wuellner (Dictionary of Scholastic Philosophy). A primeira
intenção é o ato cognitivo direto pelo qual o intelecto conhece uma coisa
ou natureza tal como ela é em si mesma na realidade extramental. Os entes de
razão que correspondem a esse ato mental são os conceitos de privação e negação
(cegueira, nada, noções contraditórias etc.) e relações de razão
(esquerda-direita, relações de identidade). A segunda intenção (também
chamada de intenção lógica ou reflexa) é o ato reflexo do intelecto em que a
mente passa a considerar o modo como as coisas existem dentro do próprio
intelecto. Os entes de razão que correspondem a esse ato mental são as
propriedades lógicas.
Os
conceitos também podem significar naturezas possíveis, ou seja,
naturezas que poderiam existir: natureza logicamente possível (centauro),
possibilidades reais (inventos), indivíduos possíveis com natureza irreal
(Pégaso) ou indivíduos possíveis com naturezas reais (Dom Quixote).
É natural
associarmos os conceitos à abstração. De fato, abstrair é considerar um
aspecto das coisas a despeito de outros aspectos que no mundo real estão
unidos. No entanto, diz Sanguineti:
O conhecimento abstrato, para ser perfeito, deve culminar em um conhecimento concreto. Na medida em que alcançamos um conhecimento intelectual dos singulares, ao compreender como um indivíduo participa de uma natureza comum a outros, nossas noções abstratas se concretizam, e nosso saber se aperfeiçoa, pois alcança as coisas singulares, as únicas existentes (não existe o homem, senão os homens individuais). Perceber o singular apenas pelos sentidos é um conhecimento ainda muito pobre; mas estagnar nas ideias gerais é demasiado vago, pois trata-se ainda de um momento potencial do saber. [...] Pouco serve, por exemplo, saber genericamente o que é a generosidade. Daí a importância de exemplos.
Há duas
modalidades de abstração: a abstração total (significa todo o ente, com
uma parte explícita e as demais implícitas) → conceitos concretos (homem,
justo, santo, sábio etc.) → podem predicar (referir, atribuir) o singular (per
modum totius); e a abstração formal (significa a natureza sem o
ente, como se a natureza fosse uma coisa substantivada) → conceitos abstratos
(humanidade, sabedoria, bondade, santidade etc.) → podem predicar uma parte do
singular (per modum partis).
Os
conceitos, lembremo-nos uma vez mais, a despeito de ser um ente real ou ente de
razão, possui, pelo simples fato de ser ente, suas propriedades. E uma delas é
a propriedade de ser universais lógicos. Essa propriedade vem, claro, da
abstração. O universal metafísico ainda está “amarrado” ao singular
(fala-se de compreensão ou intensão, respondendo à pergunta “o que a coisa é”),
enquanto o universal lógico efetivamente estende a propriedade a vários
(ou todos os) singulares (fala-se de denotação ou extensão, respondendo à
pergunta “a quem ou a quantos esse conceito se aplica”). A famosa “querela dos
universais” surgiu, e continua até hoje, a partir da especulação se os
universais são propriedades das palavras (linguagem) ou dos conceitos (lógica).
O debate evidentemente só pode ser lidado e resolvido em um âmbito superior a
ambos, isto é, pela metafísica. Não vamos aqui tratar do tema, mas apenas
mencionar as principais posturas: (a) realismo exagerado (ou ultrarrealismo),
associada a Platão e seu Hiperurânio; (b) realismo moderado, associada a
Aristóteles e Tomás; (c) nominalismo, associada ao materialismo, behaviorismo,
pragmatismo; e (d) conceptualismo, associada ao idealismo, empirismo e
pragmatismo.
A esta
altura já está claro para o leitor que os conceitos, enquanto elementos
lógicos, têm íntima relação, no âmbito da linguagem, com as palavras. Costuma-se
definir a palavra como o signo significativo de um conceito, que por sua vez
é semelhante à coisa. O que chama a atenção aqui não é a dimensão
sintática, ou seja, a relação que um signo pode ter com outro (um adjetivo
com um substantivo, por exemplo) ou a dimensão pragmática, ou seja, a
relação dos signos com os atos ilocutivos da vontade (prometer, pedir, afirmar,
ordenar), mas a dimensão semântica: o signo tem relação não somente com
a coisa, mas com o conceito (“o ouro é um metal”, por exemplo, na qual a relação
com o conceito é o significado ou sentido, e a relação com a coisa é a referência
ou aspecto semântico). No entanto, a dimensão semântica deixa claro algo
que Tomás chamava a atenção: uma coisa é o significado ou sentido, que
aponta para as perfeições das realidades mesmas (sabedoria, vida, bondade, conhecimento,
ser), outra coisa é o modo de significar, que a forma estrutural,
gramatical e conceitual através da qual o nosso intelecto representa essa
perfeição. Como o conhecimento humano deriva dos sentidos e opera por abstração
e composição de conceitos, nosso modo de significar carrega sempre as
marcas da finitude, da composição e da limitação próprias da inteligência
criada: por exemplo, a palavra “homem” e a palavra “humanidade” referem-se à
mesma essência humana (significado ou sentido), mas a representam sob modos
de significar distintos; outro exemplo são os verbos, que significam
primariamente uma ação ou ato, mas cosignificam (trazem como modo secundário de
significação) o tempo e a composição predicativa.
O fenômeno
mais conhecido dos modos de significar é a analogia. Tivemos várias
oportunidades de estudar o tema ao longo dos anos, então não cabe aqui nos
determos demasiado.
A limitação da nossa inteligência exige que se lapidem os conceitos, atendo-se aos distintos matizes com que devem ser aplicados, para que assim reflitam adequadamente os objetos significados. Esta delicada aplicação dos nossos pensamentos à realidade, contrária ao espírito racionalista, traduz-se no respeito pela analogia das noções, pela variedade de sentidos das nossas ideias. Noções como “unidade”, “ciência”, “justiça”, “história” possuem uma amplitude de significados: não cabe forçar a realidade, adotando uma definição unívoca para cada um deles, que depois não encontraria uma aplicação real.
Há dois
tipos principais de analogia. A analogia de proporcionalidade própria é
a “analogia do dia a dia”, a analogia do isomorfismo, na qual o termo
análogo aplica-se aos analogados de acordo com seu modo de ser próprio. Por
exemplo, a analogia entre o ver do olho e o ver da inteligência, entre o ser da
substância e o ser do acidente, entre a vida da planta e a vida do gato etc. Na
analogia de proporcionalidade imprópria, que chamamos coloquialmente de
“metáfora” e que dá origem às comparações, parábolas etc. e muito usada na
literatura e na filosofia, o termo análogo se aplica formalmente apenas a um
dos analogados (o “analogado principal”) e ao outro apenas de forma figurada
(por isso “imprópria”). Por exemplo, a analogia de um homem ser um “leão” na
batalha, de Deus agir com “ira”, dos sábios “semearem” a verdade na sociedade
etc. Por fim, a analogia de atribuição extrínseca baseia-se não em
isomorfismos, mas em um princípio ou perfeição contida pelo termo
análogo, mas que não reside no analogado. Por exemplo, uma comida “saudável” (é
o ser vivo que pode ter saúde, não a comida), um tribunal de “justiça” (é o
homem que pode ter o hábito da justiça, não o tribunal) etc. A analogia de
atribuição intrínseca ocorre quando o princípio ou perfeição reside
ontologicamente no termo análogo e no analogado. Por exemplo, o ser do homem (é
o Ser que o causa), a bondade de Fulano (é o Ser que o é plenamente) etc.
No campo da
lógica, predicáveis são os modos de atribuir um conceito a um sujeito.
No campo da metafísica a divisão é outra. Vejamos:

A espécie
significa a essência completa do indivíduo (leão, cavalo, pinheiro etc.), o
gênero significa a parte da essência comum a outras espécies (ser vivo,
vegetal, animal etc.), a diferença específica significa a característica
própria da espécie que a distingue de outra espécie (animal racional,
ser vivo sensível, hábito operativo bom, polígono quadrilátero
etc.). Os predicáveis essenciais não são meras ideias, mas
significam realidades metafísicas, embora, logicamente, resultam de uma divisão
mental: em potência indicam o todo, enquanto em ato indicam uma parte formal
(por exemplo, quando nos referimos a um cego, embora não nos refiramos somente
à sua cegueira, mas à pessoa inteira; quando dizemos que aquilo é “homem” ou
“animal”, significamos o todo individual, e não a parte desse todo). A propriedade
significa o acidente que necessariamente se deriva da essência (risibilidade,
educabilidade, sociabilidade, sexo, nacionalidade, homo faber, homo
economicus, homo ludens etc.); como em muitos casos somos incapazes
de significar a diferença específica, as propriedades servem para caracterizar
uma espécie. O acidente lógico significa o acidente que não
necessariamente se deriva da essência (está sentado, está passeando, olhos
azuis, joga bem futebol, está saudável, é justo, é engenheiro, não dá bons
frutos etc.). Os predicáveis acidentais se situam foram do conteúdo da
essência, mesmo que estejam muito próximas da essência, como algumas
propriedades.
É comum
confundir-se conceito com definição. O conceito, enquanto unidade de
intelecção, não é ele mesmo passível de definição. Na verdade, a definição
é a expressão da essência de uma espécie mediante o gênero próximo e a
diferença específica. Mas já aludimos acima sobre a dificuldade em muitos
casos de significar a diferença específica, então o que se faz é substituí-la
pelas propriedades específicas. Por isso as definições nesses casos são
substituídas por descrições ou definições acidentais (gênero próximo e
propriedades específicas, como em “cão é um mamífero que late”, “a água é uma
substância incolor, inodora e insípida”). É o caso também dos transcendentais e
predicamentos (ente, bem, quantidade, qualidade etc.), que nem mesmo gênero
têm, então resta-nos apenas descrevê-los. A definição nominal procura
agregar elementos extrínsecos às definições reais (essenciais ou acidentais)
para significar as palavras (o que é “especulação”, “angelim”, “equilátero”,
“transatlântico” etc.). No entanto, adverte Sanguineti:
As definições nominais são úteis para dar precisão ao pensamento. Mas não resolvem o problema do conhecimento da essência. Se a definição nominal se torna exclusiva, como o uso de termos é convencional, toda discussão filosófica ou científica seria uma lis de verbis [disputa de palavras], uma questão verbal.
O que nas
ciências convencionou-se chamar de classificação, a divisão é a
operação lógica que distribui o gênero em suas espécies. O critério da
divisão pode ser a natureza, os acidentes, a participação (vida, conhecimento,
apetição, ciência etc.). A oposição de conceitos significa atributos
que não podem inerir em um mesmo sujeito ao mesmo tempo. A oposição
contraditória ocorre quando há oposição máxima (“branco” e “não-branco”,
“animal” e “não-animal”, “ser e nada”), derivando-se do princípio fundamental
da não-contradição. A oposição privativa ocorre quando há negação de um
ato formal, ou seja, de alguma característica do sujeito (“bem e mal”, “verdade
e falsidade”, “ciência e ignorância”, “virtude e vício”, “saúde e enfermidade”
etc.). O termo da privação sempre conserva a potencialidade com respeito ao ato
próprio (o cego continua tendo sua natureza potencialmente ordenada à vista). A
oposição de contrários ocorre quando os dois extremos são positivos
(“frio e calor”, “branco e vermelho”). A oposição relativa ocorre quando dois
extremos se excluem e ao mesmo tempo se dependem mutuamente (“pai e filho”).
Lógica
dos juízos
O conceito é
um ato isolado e, por isso, é insuficiente para captar todas as perfeições de
um sujeito. O juízo é a operação mental pela qual compomos um conceito
atribuindo-lhe propriedades mediante o uso do verbo ser. Por isso os
conceitos se ordenam naturalmente ao juízo. O juízo é o conhecimento
intelectual definitivo. Tomás chamava o juízo de “composição e divisão”
porque precisamente consiste em reunir (“compor” → este homem é bom) dois
termos ou em separá-los (“dividi-los” → este homem não é bom). O conceito
complexo “homem bom” apenas capta o sujeito com seu atributo, enquanto a
frase “o homem é bom” capta a composição atual pela qual o sujeito está
possuindo o atributo. Os juízos possuem duas propriedades: (1) a composição e a
divisão seguem a união ou a separação real das coisas (há juízos de razão, como
“a lebre não alcança a tartaruga”, mas esses não correspondem a uma conexão
real e não interessam à lógica clássica); (2) o juízo sempre se expressa
mediante um “é” ou “não é” (mesmo em frases como “o menino ri” ou “está
chovendo”, pois qualquer ato significa primordialmente o verbo ser). Portanto,
o “ser” que se afirma nos juízos é analógico: seus sentidos correspondem aos
modos de ser na realidade.
Os
juízos reais são sempre verdadeiros ou falsos, mas cabem exceções: (1) quando versam sobre o
futuro contingente (“amanhã vai ter um jogo de futebol”); (2) quando o
predicado de alguma forma expressa aproximação (“a parede tem 3 metros de
altura mais ou menos”). Há o interessante caso de verdades contingentes,
que são verdades que poderiam não ser reais. Por exemplo, se dizemos que “Pedro
está sentado” poderia ser o caso de que Pedro não estivesse sentado, mas nem
por isso sua natureza teria sido violada. Mas há verdades no fato de Pedro
estar sentado que são verdades necessárias, como o fato de que Pedro é
homem, de que a cadeira existe etc. Uma vez que o fato de que estivesse sentado
se torna passado, tudo tornou-se necessário, ou seja, o fato de que esteve
sentado é uma verdade necessária (não pode mais não ter estado sentado naquele
lugar, naquela hora, naquela posição etc.). Por isso o passado pode
inadvertidamente ser cristalizado pela pessoa como se toda a cena tivesse sido
originalmente necessária enquanto era presente.
Um tema
interessante com respeito aos juízos reais é que a pessoa que os expressa
conhece a verdade formalmente. Os conceitos têm a verdade material como
base (o conceito de “tartaruga” tem a tartaruga real para se conformar), mas os
juízos se conformam à verdade formal (o juízo “a tartaruga é lenta” tem
por base uma reflexão sobre a realidade).
Segundo os
distintos modos de atribuir um universal aos seus sujeitos (predicáveis),
pode-se distinguir: a predicação per se ou essencial, na qual atribuímos
a um sujeito seu gênero, espécie, diferença ou propriedade (como a
essência do sujeito atua como causa intrínseca e necessária da propriedade, a
ligação entre eles é inseparável, constante e universal); e a predicação per
accidens ou acidental, na qual atribuímos um acidente lógico. Assim,
“o homem é inteligente” é per se: o predicado convém-lhe segundo a sua
natureza. Em contrapartida, “esse homem é comerciante” é uma proposição per
accidens: o predicado convém acidentalmente ao sujeito, pois nem a natureza
humana, nem suas propriedades essenciais, exigem ser comerciante.
Lógica do
raciocínio
O
raciocínio é o ato psicológico pelo qual são comparados vários juízos para
formar um novo juízo. Portanto, o que o raciocínio faz, em linhas gerais, é concluir algo novo
a partir de proposições de antemão conhecidas, a despeito de serem verdadeiras,
falsas ou apenas hipotéticas. Quando a inteligência contempla diretamente da
realidade exercendo a função do entendimento chamamos às verdades assim
inteligidas de verdades imediatas (per se notae), mas quando
empreendemos o raciocínio exercendo a função da razão então teremos verdades
mediatas (per aliud notae). Embora a argumentação seja uma atividade
normal e espontânea dos homens, nem por isso é fácil: instada a discorrer com
rapidez, a mente nem sempre consegue raciocinar com o devido cuidado e concentração.
Todo raciocínio
é composto de um antecedente, cujos elementos chamamos premissas,
e um consequente, ou conclusão. O elemento que os une é a inferência
(ou ilação). De maneira muito geral, a inferência realiza-se mediante a implicação
e a oposição entre conceitos e suas perfeições, quando não são imediatas (“todo
homem é moral” implica imediatamente que “nenhum homem é imortal”). O “motor”
da inferência é o fato de que o ente que possui uma perfeição possui tudo o que
está propriamente (per se) implicado nessa perfeição. Por exemplo, se a
alma humana opera por si mesma, como sabemos que tudo o que opera por si mesmo
é uma substância, podemos concluir que a alma humana é uma substância, ou
subsiste; o raciocínio pode prosseguir partindo desta conclusão, pois, se a
alma humana é uma substância, isto é, uma forma subsistente, como toda forma
subsistente é incorruptível, resulta que a alma humana é incorruptível ou
imortal. Em letras simbólicas, pode-se dizer que, se A é B, e B é C,
conclui-se que A é C. Obviamente a inferência só funciona se a vinculação dos
conceitos for per se, nunca per accidens (“os seres livres podem
pecar, mas Deus não pode pecar, então Deus não é livre”). Observe que, em
última instância, o fundamento da inferência é o princípio de não-contradição
do ente.
Quanto às
inferências mediatas, típicas do raciocínio, o silogismo é o
processo lógico clássico e perfeitamente desenvolvido. A ideia do silogismo simples
é tomar dois termos e, apoiando-se em um terceiro termo médio, realizar nele
uma inferência que permita unir ou separar os dois primeiros termos. Se digo
que “a difamação é uma injustiça; a injustiça é um ato mau; portanto a difamação
é um ato mau”, observe que é o termo médio “injustiça” que permite realizar a inferência,
ou seja, a passagem do antecedente (as premissas) para o consequente (a conclusão).
É claro que ninguém pensa com silogismos no dia a dia, já que seria algo não apenas
desnecessário, mas irritante. O que se faz comumente é omitir a premissa maior (“a
difamação é uma injustiça”) por ser ela a mais óbvia, e pular da premissa menor
diretamente para a conclusão. Por outro lado, há casos complexos e delicados em
que, sim, faz-se necessária a devida decomposição silogística. De qualquer forma,
para que o silogismo funcione é absolutamente necessário seguir algumas regras:
(a) o termo médio sempre deve ser tomado no mesmo sentido em ambas as
premissas, (b) o termo médio sempre deve ser tomado em toda sua universalidade
em ambas as premissas, (c) a conclusão sempre deve seguir a premissa mais
fraca, ou seja, aquela que é particular, negativa, contingente, provável,
duvidosa etc. (“quem estuda passa na prova; duvido que Fulano tenha estudado;
portanto, duvido que Fulano passe na prova”), (d) a conclusão nunca se segue a duas
premissas particulares, (e) a conclusão nunca se segue a duas premissas
negativas. É possível estabelecermos um silogismo de relação, muito
usado em matemática e na vida cotidiana (“se Paulo é pai de Jorge, então o irmão
de Paulo é tio de Jorge”) e tomam por base relações como igualdade,
fraternidade, amizade, maior-menor, pai-filho, causa-causado,
conhecer-conhecido, igualdade etc. Algumas são convertíveis (“se A é irmão de
B, então B é irmão de A”), outras não (“se A é pai de B, então B não é pai de A”),
algumas são transitivas (“se 10 é maior do que 9, e 9 é maior do 8, então 10 é
maior do que 8”), enquanto outras não (“se Maria é mãe de Joana, e Joana é mãe de
Paula, então Maria é avó (e não mãe) de Paula”). Por fim, há o silogismo
hipotético, no qual a premissa maior é uma proposição proposta e a premissa
menor afirma ou nega uma das partes da premissa maior. Ele é chamado hipotético
porque a premissa maior contém um elemento conjuntivo (“o homem não pode servir
a Deus e às riquezas ao mesmo tempo; o homem serve a Deus, então não pode servir
às riquezas; o homem serve às riquezas, então não pode servir a Deus”),
disjuntivo (“ou o círculo é uma curva ou é uma reta; o círculo é uma curva, portanto
não é uma reta”), condicional necessário (“se alguém tem passaporte pode cruzar
a fronteira legalmente; cruzou a fronteira legalmente, portanto tinha
passaporte; mas pode não ter cruzado a fronteira legalmente e mesmo assim ter passaporte”),
condicional suficiente (“se choveu o campo está úmido; choveu, portanto o campo
está úmido; não choveu, portanto o campo não está úmido; mas o campo pode estar
úmido sem ter chovido”) ou condicional necessário e suficiente (“se alguém vive,
respira; vive, logo respira; não vive, logo não respira; respira, logo vive; não
respira, logo não vive”).
Muitos se
enganam achando que a indução é uma espécie de raciocínio. Na verdade, a indução
é o processo de remontar-se do sensível ao inteligível, das verdades particulares
às verdades universais. É a base, portanto, da argumentação, do raciocínio,
da “dedução”. Embora indução e dedução se entrelacem no pensamento espontâneo,
o momento inicial do conhecimento, por natureza, pertence à indução, à função intelectiva
(não à função racional). A indução essencial é a descoberta de um vínculo
necessário e universal entre um sujeito e uma propriedade: “o todo é maior do
que sua parte”, “o homem tem a propriedade de ver” (é a descoberta de uma proposição
contingente) etc. A indução se comunica intimamente com os sentidos internos,
em especial a cogitativa. Por experiência observamos que os acontecimentos
novos são causados (uma explosão, uma queda de temperatura, um sinal luminoso
no céu, o rompimento de um cristal etc.) e o processo intelectivo culmina na intelecção
de um juízo universal (é a indução). O número de casos figura somente a título
orientativo, já que a intelecção culminará num juízo essencial (“o homem...”, não
“todos os homens...”). Como havíamos estudado aqui, em especial o que defende Angela
Knobel, no capítulo 8 de The New Cambridge Companion to Aquinas, o intelecto não se limita aos primeiros princípios, mas, enquanto virtude, amealha
também princípios metafísicos, morais, científicos etc. (“o homem é livre”, “todo
agente opera para um fim”, “o homem pode conhecer a verdade”, “o branco não pode
ser vermelho”, “o branco pode ser redondo”, “a calúnia é uma injustiça”, “a
física estuda os corpos”, “o Estado deve governar”) e, além disso, as verdades per
se notae sapientibus (filosofia e as ciências particulares). Por outro
lado, a indução empírica é a generalização de um fato que se repete na
natureza, sendo que não é evidente essa conexão necessária entre sujeito e propriedade.
Por exemplo, não é evidente que o fogo queima, embora trate-se de uma generalização
de um fato que se repetiu, e se repete, na natureza do fogo. A indução empírica
constitui a argumentação indutiva, que produz certezas físicas, mas
nunca metafísicas. O fundamento da indução empírica é o conhecimento
indutivo essencial da causalidade, da ordem do mundo, da relação natureza-operações.
As ciências experimentais utilizam muitíssimo da argumentação indutiva.
Por fim, no
âmbito da lógica do raciocínio, cabe comentar algo sobre aquilo que tem aparência
de verdade, mas não é: o sofisma (paralogismo, falácia). Assim
como há pessoas que parecem boas, obras que parecem belas, pessoas que parecem
fortes, tribunais que parecem justos, casais que parecem felizes, sempre haverá
pessoas inexperientes, ingênuas e principiantes que se deixarão enganar por
sofismas. O sofisma tem uma dupla causa: uma verdade aparente e um erro oculto,
e sua principal estratégia é mesclar-se em um discurso sistemático e compacto e
envernizar-se com elementos retóricos, estéticos e sentimentais. Em geral, o sofisma
verbal apoia-se em confundir o sentido de seus termos [equivocidade
(“bem”, “ser”, “razão” conforme usados pelas várias escolas filosóficas), ambiguidade
(“o homem é autônomo”, mas em relação a quê e em qual sentido?), falsa composição
e divisão (“a Itália e a Alemanha têm mais de 50 milhões de habitantes”,
mas em conjunto ou separadamente?; “esta despesa não me arruinará, nem esta,
nem esta... logo, todas juntas não me arruinarão”, distributivamente não, mas
todas em conjunto sim)]. O sofisma conceitual pode ser de inúmeros tipos;
por exemplo, uma conceito claramente errôneo nas premissas (“não posso fazer
tudo o que eu quero, logo não sou livre”), uma confusão entre gênero e espécie
e generalizando o particular (“os animais são irracionais, o homem é animal,
logo o homem é irracional”), uma confusão de predicados per se e per
accidens (“quase todos os filósofos estão em desacordo, então o homem não conhece
a verdade”), uma identificação entre simpliciter e secundum quid
(“o trabalho nas fábricas corrompe a saúde” não é verdade simpliciter; “o
ser é movimento, logo Deus, que é o Ser, é mutável”, o ser criado é ser secundum
quid, não simpliciter), uma petição de princípio (“Deus não existe
porque o universo não tem causa”), uma contradição aparente (“conhecemos a Deus
e não o conhecemos”, “minto” etc., que pedem uma frase esclarecedora) ou um
argumento ad hominem (“Fulano é muito inexperiente”, “ignorante”, “Beltrano
é muito sábio” etc.).
Lógica
da ciência
A
ciência é o conhecimento das coisas pelas causas (eficiente, final, formal, material). Os
homens se dedicam à ciência porque (1) é inerentemente digno à natureza humana que
atinjam a sabedoria, que em última instância se ordena a Deus, a verdade mais
alta; e (2) para satisfazer as necessidades da vida.
As ciências
particulares supõem alguns conceitos fundamentais, mas não as estuda
diretamente. Este papel cabe à ciência fundamental das ciências particulares: a
filosofia. É a filosofia que estuda todas as causas em seus princípios primeiros
e fundamentais porque o objeto próprio da filosofia é o ser e a essência das
cosias. No entanto, ao contrário do que vulgarmente se entende, a filosofia
é total, completa e radical, enquanto as ciências são abstratas e algo alheias ao
mundo real. Já vimos isso aqui ao darmo-nos conta de que a metafísica opera por separatio enquanto as ciências
particulares operam por abstractio.
Vejamos as
interessantes considerações de Sanguineti sobre a matemática:
Atualmente, muitas interpretações sustentam que a matemática moderna já não estuda a quantidade, mas sim estruturas lógicas. Certamente, a matemática atual, avançando na abstração e devido a uma maior exigência de fundamentação axiomática, chega a confundir-se com alguns desenvolvimentos da lógica formal. Mas, na prática, observa-se que a maior parte dos juízos matemáticos se refere invariavelmente a aspectos quantitativos, partindo da própria ideia de conjunto de elementos diversos, que implica a noção de multiplicidade. A matemática estuda a quantidade abstrata, seja ela realizável no mundo, seja tão somente um ente de razão. A lógica estuda apenas um tipo de entes de razão: as segundas intenções, que é o modo como a mente opera em seu conhecimento dos entes (reais, possíveis ou de razão). [...] Em última instância, as noções matemáticas se reduzem às noções de número natural e contínuo dimensivo, que têm uma referência real direta: baseiam-se na multiplicidade dos entes e no acidente extensão dos corpos.
[...]
O estudo estritamente quantitativo da natureza é inteligível, uma vez que conhecer a quantidade e as dimensões é conhecer uma realidade. No entanto, trata-se de uma inteligibilidade pobre sob o ponto de vista do conhecimento da natureza das coisas (embora muito útil a partir de uma perspectiva técnica); por isso, as fórmulas matemáticas não esgotam o ser das coisas medidas, e sempre faz falta uma visão filosófica que esclareça, na medida do possível, a essência dos entes corpóreos.
A demonstração
é o uso do raciocínio na ciência. Há três tipos: (1) a demonstração propter quid ou a
priori (das causas aos efeitos, como demonstrar a data de um
eclipse com base na trajetória de astros celestes, ou o médico que conclui que
o paciente morrerá em breve com base em seu estado de saúde) e (2) demonstração
quia ou a posteriori (dos efeitos às causas, como dizer que a
terra se move porque (quia) o demonstram tais e tais observações), que
apoia na causalidade; e (3) demonstração por absurdo (infere a verdade mostrando
que sua contraditória é falsa ou impossível, como a verdade dos primeiros
princípios do ser, que estritamente é impossível de provar).
Fonte: Juan José Sanguineti, Lógica, Ediciones Universidad de Navarra, Pamplona, Espanha, [1982] 2007.
