2 de outubro de 2022

Os seis amores


Antes de versarmos sobre os quatro (na verdade, seis) amores, é importante desde o início mencionar que Lewis identifica nos amores três elementos:

(a) Amor-doação: é o amor propriamente dito, em sua forma mais pura. É por exemplo o amor de Deus aos homens, um amor totalmente desinteressado, sem trocas, sem barganhas.

(b) Amor-necessidade: é o amor exercido sob o impulso de algum desejo subjacente. Há um interesse, uma intenção, por trás do ato de amor. É por exemplo o amor dos homens a Deus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos" (Novo Testamento) ou "abre bem a tua boca, e ta encherei" (Velho Testamento). O amor-necessidade se manifesta de duas maneiras:

* por semelhança: no exemplo do amor dos homens a Deus trata-se da racionalidade, da grandeza, da fecundidade humanas. Os amores humanos se exercem por semelhança. Eles imageam o amor divino, e por isso mesmo caso se tornem deuses em si se tornarão imediatamente em demônios.

* por aproximação: trata-se da união, da visão, da contemplação de Deus.

(c) Amor-apreciação: é o amor resultante da impressão de que objetos, situações, cenários, grupos, instituições etc. devam existir em si e por si, de que lhes temos uma dívida a saldar, de que lhes devemos homenagear mantendo-os vivos e ativos. O amor a uma obra de arte, por exemplo.

Esses três elementos não existem de maneira isolada. Eles se sucedem um ao outro. Por exemplo, um homem pode amar uma mulher a ponto de não conseguir viver sem ela (necessidade), a ponto de querer provê-la de alegria, conforto, proteção, riqueza (doação), e a ponto de admirá-la enquanto pessoa, de agradecer pelo simples fato de tal pessoa existir (apreciação).

1. Amor sub-humano

Às vezes nos referimos às coisas que nos dão prazer (às coisas que "gostamos") como se as amássemos. "Amo batata frita", por exemplo. É certamente um uso pouco exigente da linguagem. No entanto, em linhas gerais, podems identificar dois tipos de prazer: 

(a) prazer-necessidade: tomamos um copo d'água por necessidade, mesmo que sintamos prazer nesse ato. Uma vez atendida a necessidade (ou "desejo", se quiser), cessa o prazer.

(b) prazer-apreciação: passamos em frente a uma floricultura e sentimos o agradável perfume das flores. Isso nos dá prazer a despeito de não haver uma necessidade (ou "desejo") precedente. No entanto, aqui, além de não haver uma necessidade que "empurre" o prazer, há um senso de gratificação, de remuneração, que "puxa" o prazr e lhe concede uma espécie de direito de existir. Em suma, se há prazeres que existem por cruda necessidade, há prazeres que sentimos que lhes devemos o direito de existir.

Uma vez compreendido o prazer-apreciação (que evidentemente está relacionado ao amor-apreciação mencionado acima), Lewis se concentra nos dois principais amores sub-humanos:

(I) Amor à natureza: os amantes da natureza não estão procupados com os elementos individuais da natureza (flores, árvores, animais), mas é o "estado de espírito" ou "ânimo" que a natureza lhe proporciona. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do botânico profissional, que, pelo contrário, se ocupa dos elementos específicos e quantitativos da natureza.

(II) Amor à patria: esse amor se manifesta como amor ao entorno, ao bairro, aos velhos conhecidos, às paisagens familiares, ao passado da cidade/província/país, às estórias heróicas da formação do país. Assim como o convívio fmiliar é um passo para romper parte do egoísmo do idivíduo, o convívio nacional é um passo para romper parte do egoísmo familiar. O perigo aqui, o "demönio", é o espírito do historiador profissional, que enaltece os elementos negativos da formação e desenvlvimento do pais e nivela moralmente os fatos, o racista/ultranacionalista, que nega a dignidade de outros povos/países, e o cínico, que rejeita completamente o sentimento de patriotismo para com seu país movido por um senso ético distorcido, exagerado, como se as causas de seu país devessem ter o status de causas divinas.

2. Amor da afeição (storge)

A afeição (ou "empatia" como diríamos hoje em dia) é de longe o mais humilde, o mais furtivo e o mais difundido dos amores. É uma espécie de "amor democrático", no sentido de que é um amor cuja expressão não apenas se deseja, mas se espera, que seja encontrado em praticamente qualquer ambiente que se frequente. A afeição é aquele amor no qual há uma espécie de satisfação em estar junto. Simples assim. Praticamente qualquer pessoa pode ser objeto de afeição. Na verdade, nem mesmo é necessária uma afinidade prévia para seu exercicio, ou seja, não é necessário que as pessoas "se combinem" física ou psicologicamente para que a afeição entre elas desperte. Não há barreiras etárias, sexuais, educacionais, econômicas. Nem mesmo entre espécies, já que aqui se encontra também a afeição do homem por um animal e vice-versa. 

Há, no entanto, um traço que necessita estar presente na relação afetiva: o fato de que as partes têm de compartilhar certa familiaridade, certa intimidade. É curioso como aqui entram coleguismos e camaradagens entre pessoas as mais insuspeitas: pessoas que à distância jamais se combinariam se veem ligadas afetivamente de maneira quase cômica.

A afeição, assim como os demais amores, apresenta o elemento de amor-necessidade. É mais ou menos intuitivo que a amizade e o amor erótico exijam certo mérito, certo esforço, para serem mantidos. A afeição também, mas ocorre que sua presença é tão generalizada que por vezes as pessoas querem que esteja presente, como se fosse algo natural. Não é bem assim. Esperar que o afeto desperte é razoável, mas presumir que temos o direito de que desperte é estupidez. Se não há normalidade e tolerância entre as pessoas a relação se transformará em aversão exatamente com a mesma naturalidade e velocidade da afeição. Traços de incivilidade, de afirmações dogmáticas, de contradições, de ridicularizações, de referências insultuosas: a ideia de que o afeto tudo suporta, que a intimidade tudo permite, parece tão verdadeira, mas é falsa. Um erro crasso, fatal. 

Ocorre que a regra fundamental do convívio público -- todos somos iguais, ninguém tem prioridade ou superioridade sobre os demais -- é deixada de lado no ambiente privado. Mas é precisamente o contrário que deve acontecer. Embora as formalidades não existam no âmbito privado, isso não significa que a regra fundamental do convívio possa ser igualmente dispensada. As formalidades existem precisamente porque não existe um nível profundo, sutil e sensível de cortesia entre as partes. No ambiente privado, as boas maneiras devem ser ainda mais observadas exatamente porque os rituais da formalidade estão ausentes. Quem não é cortês em casa também não é cortês em público: a pessoa macaqueia a cortesia em público, mas não a exerce realmente.

Outro aspecto curioso da afeição é o ciúme que porventura surge quando uma das partes rompe a familiaridade. Dois amigos, por exemplo, podem ter seu laço de afeição rompido, ou perturbado, se um deles se interessa por algo novo, por um esporte, religião, hobby, plano, filosofia etc. novo. O outro, por ciúmes, tenderá a ridicularizar o novo interesse.

E quanto ao elemento amor-doação? Ele está presente na afeição? Aparentemente sim, mas não exatamente. Pensemos no amor maternal. Dar à luz, dar de mamar, dar atenção...tudo remete a doação. Mas observe que se a doação não for feita haverá consequências graves à mãe e ao bebê. O que há na verdade é uma necessidade de doação e, ao fim e ao cabo, uma necessidade de ser necessário. De qualquer forma, esse elemento do "precisar ser precisado" pode ser perfeitamente pervertido e transformar-se num demônio. É o caso da mãe que seguidamente cuida da família, que cozinha quado não é necessário, que limpa quando não é necessário, que cuida da saúde dos filhos quando não é necessário. E por que o faz? Porque o que está por trás do instinto de doação não é a doação em si, mas a necessidade de doar. A doação deve ocorrer até que se torne supérflua, até que deva ser abdicado. O mesmo pode ocorrer na relação professor-aluno, chefe-empregado, dono-cão. 

O elemento doação do afeto pode invalidar o objeto do amor. O afeto só produz felicidade em meio ao bom-senso, à racionalidade, à decência. A mãe que supercuida é a mãe que se compraz no sofrimento que sente a despeito do bem-estar alheio. A justiça deve regular o afeto sob pena de tornar-se um demônio.

3. Amor da amizade (philia)

Muitos confundem o companheirismo com a amizade. O companheirismo, a camaradagem, o convívio no sentido mais amplo da palavra, é fruto da afeição. O companheirismo, é verdade, é a matriz a partir da qual surge a amizade, mas cabe que não as confundamos. 

A amizade é o menos natural dos amores, ou seja, a raça humna, biologicamente falando, não a necessita para sobreviver. A amizade é um relacionamento estabelecido por livre escolha, no qual impera um ambiente racional, tranquilo, luminoso. É uma relação humana do mais alto grau de individualidade. Ela surge quando duas pessoas, em geral dois homens ou duas mulheres, descobrem que compartilham um insight, um interese, um gosto, uma visao, em comum. É o momento que dizem: "O quê?! Quer dizer que você também pensa assim? Eu achava que só eu pensava assim", ou "Você vê a mesma verdade que eu vejo? Você se importa com essa mesma verdade que vemos?" Neste instante se estabelece uma imensa solidão entre eles. É como se houvesse uma união intelectual que, ao mesmo tempo que é uma união, é uma exclusão dos demais.

Se o companheirismo tem a ver com fazer algo juntos, a amizade tem a ver com fazer algo imaterial, intangível, insubstancial, juntos. É como se estivessem percorrendo um caminho secreto. Pouco importa os detalhes da vida pessoal, se são casados, solteiros, onde trabalham, onde estudaram, quantos filhos têm ou não têm etc. O que importa é percorrer a estrada juntos. Esse efeito "bolha" da amizade pode despertar naqueles que não pertencem à bolha, ou naqueles que desconhecem o amor da amizade, um sentimento de inveja, ou seja, um desejo de que a bolha seja destruída.

O que acontece quando um homem e uma mulher se tornam amigos? É quase certo que a amizade evoluirá para um relacionamento amoroso. Isso pode ocorrer até mesmo em questão de minutos. Na verdade, se não houver nenhum fator físico, nenhuma repulsa moral, que impeça o surgimento do amor romântico, é praticamente inevitável que ocorra. E vice-versa: o amor romântco pode facilmente despertar a amizade entre o casal.

O elemento mais característico da amizade é o amor-apreciação. Da amizade surgem o respeito, a admiração, a confiança, e tais sentimentos, como dissemos acima, são a base para o desejo de que os objetos do amor, no caso o amigo, simplesmente permaneçam, simplesmente existam em si e por si. O amigo passa a deter uma espécie de "direito de existir".

Mas há perigos na amizade, há um risco de que ela se transforme num demônio. Ocorre que o elemento excludente da amizade é forçosamente negativo: se minha amizade está assentada sobre certa visão sobre uma questão filosófica, por exemplo, então seremos indiferentes a uma visão alternativa a essa questão. O perigo está em que essa indiferença no varejo se transforme em indiferença no atacado. Em outras palavras, o círculo de amizade pode se transformar numa espécie de "classe" cujo combustível é o senso de superioridade em relação a quem está do lado de fora. O problema está na migração, ou exacerbação, do senso de superioridade. Não são só nossas ideias, ou tipo artístico, ou visão de mundo, ou estilo musical, que são superiores. Nós somos superiores. A amizade não mais se assenta sobre um tema ou visão que a delimita, mas se assenta na própria exclusão em si, no próprio orgulho em pertencer a essa classe de pessoas superiores.

A amizade é um amor espiritual, quase angelical. O antídoto para esse demônio deverá ser também espiritual: a humildade. A amizade parece ter sido um ato de escolha. Não foi. Deus usa a amizade como instrumento para que admirem um no outro suas belezas.

4. Amor romântico (eros)

O amor romântico, também chamado de amor erótico, é o estado de estar apaixonado. O que normalmente ocorre é o amante começar a desenvolver certa preocupação com a amada, algo ainda leve, um tanto esporádico. Não se trata, no entanto, de uma preocupação com algum aspecto ou circunstância sobre a amada, mas uma preocupação com a pessoa em si, em sua totalidade. Neste estado, o que o amante quer, acima de tudo, é simplesmente pensar na amada.

Há um momento, no entanto, em que o amor romântico efetivamente irrompe e, como um invasor, trata de reorganizar todo a vida interior do amado de maneira a orientá-la à amada. O amante deseja a amada, a pessoa em si, não o prazer que eventualmente ela pode provê-lo. Observa-se claramente aqui que o amor romântico não porta o elemento do amor-necessidade, mas do amor-apreciação. O prazer sexual é apenas um subproduto da relação romântica, um efeito colateral, digamos. Na verdade, a abstinência sexual é mais fácil de ser cumprida no estado de estar apaixonado, sem que, no entanto, o desejo sexual em si seja diminuído.

Está claro que o amor romântico não almeja o prazer sexual, mas não esta tão claro que ele tampouco almeja a felicidade. Prova disso é que mesmo os amantes que entendem racionalmente que seu relacionamento será um fracasso, que seu casamento será infeliz, preferem estar juntos e infelizes do que separados e felizes.

O amor romântico se transforma em deus, e portanto num demônio, quando seu alcance extrapola os limits do bom-senso e da decência e adentra o território dos crimes passionais, suicídios, perseguições, assassinatos, desprezo aos próprios pais, filhos, traições, infidelidades a amigos etc. É o amor romântico exigindo sua existência a todo custo. É o amor romântico que se transformou numa cláusula pétrea, numa religião.

Outro aspecto demoníaco do amor romântico é imaginar que tem de durar para sempre enquanto o casal estiver junto. É claro que isso não vai acontcer: os egos do casal furtivamente voltarão a manifestar-se. E logo descobrirão que o mero sentimento não é suficiente para sustentar a relação, que deverão trabalhar de maeir diligente e intencionalmente para manter vivo parte daquilo que o amor romântico lhes havia mostrado.

5. Amor transcendente (agape)

Os amores naturais que elencamos até agora não são autosuficientes. Em geral diz-se que para exercitarmos os amores naturais devemos acrescentar algo de "bom-senso" neles. Pois este bom-senso nada mais é do que o amor transcendente da caridade (não tem necessariamente a ver com filantropia, com "fazer caridade"), o amor a Deus. Assim como Deus criou o Jardim e posicionou o homem entre Ele e esse Jardim, assim também Deus plantou os amores naturais no homem e posicionou o amor a Deus entre Si e esses amores naturais. De pouco ou nada servem se não estivrem moldados e de certa forma enquadrados dentro do amor transcendente a Deus.

Algumas pessoas, preocupadas com o devido exercício do amor a Deus, concluem que os amores naturais não apenas não contribuem como rivalizam com esse amor transcendente. Trata-se evidentemente de um exagero, de um zelo desmedido e farisaico. ou, na melhor das hipóteses, de um medo de correr o risco de amar travestido de cálculo racional. Basta uma simples e honesta reflexão sobre meus próprios sentimentos para concluir que a verdadeira rivalidade reside muito mais entre meu ego e o ego alheio, entre minha auto-imagem e meus semelhantes, entre meu orgulho e o próximo. Sim, claro, há também a rivalidade entre o ego humano e Deus. Mas, convenhamos, há muito mais que se corrigir antes que possamos nos dar ao luxo de debruçarmos sobre a oposição ego-Deus. Quem sou eu para invocar tal rivalidade quando sou incapaz de transmitir os amores mais humanos e naturais?

Por outro lado, há aqueles que preferem não amar seus semelhantes, seja desenvolvendo uma simples empatia (afeição), seja uma amizade ou amar uma mulher, porque não querem correr o risco de se sentirem frustrados ou de se frustrarem de novo. A ideia de substituir os amores humanos pelo amor a Deus é tola porque supõe que possamos entregar a Deus um coração íntegro, inteiro, conservado. Ora, exercitar o amr a Deus implica precisamente em entregar seu coração partido a Deus. Se no exercício dos amores humanos seu coração partiu, e ele vai partir, que seja. É exatamente isso que você deve entregar a Deus. Quando Jesus Cristo diz que devemos odiar pai e mãe etc., o contexto é odiá-los quando eles rivalizam ou bloqueiam o amor a Deus. A ideia não é "um ou outro", mas "um e outro".

Deus implantou nos homens, dizíamos, os amores naturais. Mas também implantou em nós dois dons, ou capacidades, que não são naturais, ou pelo menos não são explicáveis do ponto de vista puramente individual, egocêntrico. Dissemos que o amor de uma mãe pelo seu bebê contém o elemento amor-doação. Bem, mais ou menos. Além de ser necessário amá-lo para que não sofra e, pior, não morra, o bebê é em si mesmo um objeto amável, ou seja, porta em si certos traços que o tornam amável: doçura, inocência, purea, beleza etc. Ou seja, o amor-doação não é tão doação assim. Ocorre que há certas instâncias em que o exercício do amor parece ser puramente doação. É o caso, por exemplo, dos objetos que não são nada amáveis em si: leprosos, doentes, estúpidos, criminosos, inimigos, miseráveis etc. Segundo Lewis, esses dons, esses exercícios de amor, essas caridades, não são naturais, mas são fruto da energia divina. E mais: o amor dos homens a Deus tampouco é natural e também provém, paradoxalmente, das energias divinas. Somos levados por Deus a amá-Lo. Curioso.

Há ainda um elemento adicional no amor transcendente: Deus implantou nos homens a necessidade de nos amarmos mutuamente. E outras palavras, o próprio amor, em si e por si, é uma necessidade. Se não amamos, sofremos, seja um sofrimento pontual, seja um sofrimento crônico e difuso. E mais: os homens também precisam, têm necessidade, de amar a Deus. Não se trata portanto de mera doação, mas de uma necessidade também. Amamos nossos pais, esposas, amigos, não apenas porque são amáveis, mas porque o Amor está neles.

É no exercício dos amores naturais e transcendentes que, por semelhança, reconhecemos a Jesus Cristo. Quando nos encontrarmos com Ele face a face, com o Amor, seremos capazes de responder positivamente à Sua presença porque esse Amor já havíamos encontrado antes, embora de forma semelhante apenas. Ele nos será algo um tanto familiar, um convívio que já existia de certa forma. Observa a importância e a gravidade de amarmos ao próximo como a nós mesmos.

6. Amor divino (theosis)

Aqui não há semelhança, mas aproximação. Aqui não há necessidade nem doação, mas apreciação pura e simples. Aqui não há se exercita o amor, mas se é o Amor. Aqui não há dois, amante e Amado, mas dois-em-um. Eis o objetivo da vida humana e da vida angélica, eis o centro e sentido último de nossa existência. É a união com Deus.

Lewis praticamente nada versa sobre este amor. Se sente incapaz de fazê-lo. É compreensível.

Fonte: C.S. Lewis, The Four Loves, HarperCollins Publisher, San Francisco, EUA, 2017.

21 de setembro de 2022

A prática apostólica do hesicasmo



São Paulo viveu durante o período inicial do desenvolvimento do que mais tarde seria chamado de misticismo Merkabah ("Carruagem") no contexto do mundo judaico do Segundo Templo. [1] Esse elemento místico do Judaísmo do século I seria mais tarde podado da tradição judaica rabínica, sobrevivendo apenas no Cristianismo. A tradição Merkabah (ou Carruagem) se refere especificamente ao trono-carruagem de Yahweh na visão de Ezequiel (cf Ezequiel 1), que foi carregado por quatro criaturas que apresentavam face de boi, leão, águia e ser humano. Dado que o primeiro templo já havia sido destruído nos tempos em que o Livro de Ezequiel foi redatado, Ezequiel vê o trono divino nos céus dos quais Yahweh governa a criação em vez de ver o Deus de Israel entronado no templo com o altar como escabelo como havia visto Isaías. No período do Segundo Templo, no qual São Paulo vivia, quando Israel já não se encontrava exilado, essa visão se tornou o paradigma a partir do qual as futuras visões seriam interpretadas, como uma visão do Deus de Israel em que o ser humano poderia experimentar sem perder sua vida.

O misticismo Merkabah, portanto, incluía meditar sobre a visão de Ezequiel na esperança de ver o que ele havia visto. Embora a maioria dos praticantes dessa forma de misticismo tenha admitido nunca haver recebido essa visão, relatos dos que a receberam estão registrados na literatura apocalíptica do período do Segundo Templo, na qual uma gramática comum começou a desenevolver-se a fim de descrever tais experiências visionárias. [2] Essas narrativas frequentemente descrevem um conjunto de céus, geralmente sete, pelos quais se ascende um a um. Nesse caminho os peregrinos eram auxiliados pela oração contemplativa, que centrava-se na repetição de trechos da Escritura, sobretudo na Shema (uma oração diária mais ou menos baseada em Deuteronômio 6:4, "Ouve, Israel, o Yahweh nosso Deus é o único Yahweh"). Também não eram incomuns os encontros e intercâmbios com seres angélicos enquanto ascendiam através dos diversos níveis celestes. Nas formas mais puras e elevadas dessas visões, a ascensão culminava na contemplação do trono-carruagem do Deus de Israel, no qual sentava-se a Glória de Deus ou a figura do Anjo do Sehor.

Há vários indícios nas cartas de São Paulo de que ele estava familiarizado com tais práticas místicas. O texto mais importante neste sentido é 2 Coríntios 12:1-6, no qual São Paulo descreve uma ascesão ao terceiro céu e depois ao Paraiso. Embora ele afirme que tenha ouvido de alguém esse relato, o consenso entre os Padres e estudiosos é que São Paulo estava descrevendo sua própria experiência, conforme aludida no versículo 6, quando ele afirma que se fosse gloriar-se de tal visão estaria dizendo a verdade. De qualquer forma, a visão e a linguagem que ele utiliza correspondem muitíssimo às antigas fontes do misticismo Merkabah. O "terceiro céu" (v. 2) e o Paraíso (v. 3) se referem a um conjunto de asceses. De maneira similar, ele menciona palavras inefáveis que ao homem não é lícito falar (v. 4).

Ao aceitarmos, portanto, que São Paulo era um praticante dessa tradição orante, uma nova perspectiva se abre para que entendamos sua visão de Cristo em Atos 9. É razoável crer que em sua longa jornada de Jerusalém a Damasco (deve ter levado no mínimo vários dias), São Paulo teria empregado boa parte do seu tempo em orações e meditações, especialmente nas horas dedicadas às orações. Isso significa que embora sua visão de Cristo tenha sido tão repentina a ponto de derrubá-lo, ela ainda assim situou-se dentro de seu campo interpretativo. No contexto da tradição mística Merkabah na qual ele estava imerso, essa visão deve ter sido considerada um dom concedido a pouquíssimas pessoas abençoadas por compartilhar a experiência de Ezequiel e dos demais profetas. No entanto, quando São Paulo recebe essa visão, não é a uma figura angélica que ele contempla, mas a Jesus Cristo sentado no trono-carruagem de Yahweh. A visão de São Paulo na estrada de Damasco lhe impõe a realidade inegável de que Jesus Cristo não é apenas o Messias, mas o próprio Deus. Esta é a base na qual São Paulo se assenta para afirmar em suas epístolas que Jesus Cristo é o Deus de Israel encarnado.

* * *

Desde os tempos apostólicos que a ascensão de Cristo aos céus e Seu entronamento são fenômenos interpretados no contexto das asceses celestes e do trono-carruagem de Deus que já haviam ocorrido na religião e na prática mística do Segundo Templo. É por essa razão que, na tradição iconográfica ortodoxa, Cristo é visto entronado sobre as quatro criaturas da visão de Ezequiel. Estes ícones servem como uma meio visual de meditação paralelo à maneira como a meditação no Segundo Templo se concentrava em textos, neste caso no relato de Ezequiel. O Deus entronado das visões do Antigo Testamento Se fez conhecer através de Sua encarnação antes de ascender novamente à Sua glória anterior. Em vez de repudiar a prática mística, os primeiros cristãos, a exemplo de São Paulo, continuaram a recorrer à oração contemplativa, que para alguns culminava na visão de Cristo em Sua glórica incriada. Essa tradição, rejeitada no Talmude, prosseguiu no Cristianismo Ortodoxo, florescendo no que posteriormente se passou a chamar de hesicasmo. A Oração de Jesus, ao identificar Cristo como Senhor e Deus, substituiu a Shema por essa prática.

* * *

São Paulo via o Cristo como a figura central na identidade de Yahweh no Antigo Testamento. Ele expressa essa ideia de maneira muito clara ao integrar a Pessoa de Jesus Cristo na confissão de fé do antigo Israel. Embora chamá-lo de "credo" seja um tanto anacrônico, o fato é que a Shema era tanto uma afirmação doutrinária quanto uma oração meditativa da fé dos judeus, inclusive de São Paulo. Em sua primeira epístola aos coríntios, São Paulo usa a forma grega deste texto sacro e o adapta. A forma grega do texto substitui o nome do Deus de Israel pela palavra Kyrios, ou seja, Senhor. Diz o seguinte: "Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele". (1 Coríntios 8:6)

São Paulo inseriu Jesus Cristo na Shema ao identificar o Deus único de sua confissão como o Pai e o Senhor único como Jesus Cristo. Ao modificar o grego do Deuteronômio, ele apresentou o Deus único de Israel, Yahweh, como duas hipóstases: o Pai e Jesus Cristo. Isso acaba servindo para identificar Jesus Cristo como a segunda hipóstase do Deus de Israel e, aliado ao que diz em Filipenses, O retrata como a Pessoa divina preexistente que Se fez carne nesses dias derradeiros.

São Paulo faz uso de tais construções linguísticas de maneira relativamente frequente. Em 1 Coríntios 12:4-6 ele correlaciona todas as três Pessoas da Santíssima Trindade mutuamente. A fórmula "o mesmo Espírito, o mesmo Senhor, o mesmo Deus" identifica os três como Pessoas distintas ao mesmo tempo que as une. A fórmula também enfatiza a tarefa comum que compartilham já que as três são consideradas de maneira igual. Bendições como as que lemos em 2 Coríntios 13:14 ("A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós") também situa a bênção do Deus de Israel na estrutura das três Pessoas.

Longe de revelar um estágio primitivo da crença cristã a respeito de Cristo, que mais tarde supostamente se desenvolveria em dogmas sobre a Santíssima Trindade e a Cristologia em geral, os textos de São Paulo revelam uma Cristologia e uma fé trinitária plenamente formadas. Esses textos primitivos do Novo Testamento foram capazes de já apresentar tal entendimento porque São Paulo estava interpretando a revelação de Jesus Cristo encarnado e a vinda do Espírito Santo através das lentes do entendimento judaico corrente a respeito do Deus de Israel. Em vez de inventar um meio-campo entre monoteísmo e politeísmo, São Paulo revela a verdadeira natureza das figuras divinas com as quais seus leitores já estavam familiarizados através da tradição na qual haviam recebido as Escrituras.

* * *

A Revelação de São João apresenta repetidas vezes a imagem do trono de Yahweh, o Deus de Israel, reinando no céu em meio a Seu concílio divino. Em Relevação 4 ele descreve uma cena de adoração celestial ante o Senhor Deus de Israel extraindo sua linguagem diretamente e por várias vezes de Ezequiel 1. Deus Pai é por vezes descrito na Revelação como "o Único", uma clara referência à Shema. Ao mesmo tempo, quando Cristo aparece a São João (1:12-16), a descrição de Seu surgimento é uma combinação da descrição do Filho do Homem em Daniel 10 e a figura do trono em Ezequiel 1. Yahweh, o Deus de Israel, é Único, e mesmo assim as descrições proféticas a Seu respeito são distribuiídas na visão de São João entre a Pessoa do Pai e a Pessoa de Jesus Cristo.

[1] O misticismo Merkabah desenvolveu-se mais plenamente em paralelo ao Judaísmo Rabínico, embora como prática espiritual nunca tenha sido acolhido pela corrente principal dessa religião. No século X já se encontrava formalmente morto, embora elementos dessa prática persistam na tradição cabalística.

[2] Isso pde ser verificado sobretudo na literatura enóquica, assim como em outros apocalipses.

Fonte: Stephen De Young, The Religion of the Apostles: Orthodox Christianity in the First Century, Ancient Faith Publishing, Chesterton, IN, EUA, 2021, trechos selecionados.

19 de setembro de 2022

Os 6 cérebros e o método M-M


Eis os 6 cérebros reunidos em 4 pontos focais:

(1) Cérebro reptiliano (lagarto): tronco cerebral → respostas instintivas e primitivas (dor/prazer)

(2) Cérebro mamífero (emcional): sistema límbico → respostas pessoais e sociais

(3) Cérebro primata (cerebral): neocórtex → pensamentos concretos e abstratos

    (a) Hemisfério esquerdo → verbal e orientado a detalhes

    (b) Hemisfério direito → visual e holístico

(4) Cérebro intestinal (entérico): é o cérebro responsável pelo sistema segurança-perigo, funcionando como um radar. Quando algo lhe diz que não deveria embarcar nesse avião, ou quando você sente vibrações ruins vindo de alguém, ou quando você não confia numa pessoa mas não sabe por quê, ou quando você sente que uma ideia não é boa, ou quando você entra num determinado aposento e sente que a atmosfera está tão pesada que poderia cortá-la com uma faca: provavelmente essas situações retratam respostas do seu cérebro intestinal. O cérebro intestinal é tão importante que se ele morre, todo o corpo morre. O corpo pode viver sem o neocórtex, mas sem o cérebro intestinal morreria de imediato. Em suma, o cérebro intestinal está a cargo de verificar que não há nenhuma ameaça externa real. A ativação crônica do cérebro intestinal, seja por medo ou raiva, impacta diretamente na sua saúde e nos seus relacionamentos. 

(5) Cérebro cardíaco: como você sente seus sentimentos é uma escolha feita pelo coração. 

Os cérebros estão interconectados da seguinte forma:

    (a) Sistema de sobrevivência (ou experiencial): (1) + (4)

    (b) Sistema emocional (ou relacional): (2) + (5)

    (c) Sistema racional (ou cognitivo): (3a) + (3b)

Os 4 pontos focais para a respiração são:

    (a) Intestino: (1) + (4)

    (b) Coração: (2) + (5)

    (c) Cérebro esquerdo

    (d) Cérebro direito

Ambos cérebros também estão interconectados, mas a atenção que as pessoas prestam a seus pensamentos deixa claro que é melhor tratá-los de maneira distinta. Ademais, a troca natural entre os hemisférios pode ser facilmente curto-circuitada por meios psicológicos.

Método M-M (Mind-Move):

(1) Mova sua mente (atenção, consciência) para o intestino e, enquanto a move, inspire.

(2) Mova sua mente (atenção, consciência) para o coração e, enquanto a move, expire.

(3) Mova sua mente (atenção, consciência) para a mão esquerda e, enquanto a move, inspire.

(4) Mova sua mente (atenção, consciência) para a mão direita e, enquanto a move, expire.

Fonte: Kevin FitzMaurice, Breathe, FitzMaurice Publishers, Portland, EUA, 2010.

2 de setembro de 2022

As cinco linguagens do amor

 


O QUE ACONTECE COM O AMOR DEPOIS DO CASAMENTO?

Se falarmos apenas uma língua e encontrarmos alguém que fale outra língua, a comunicação será limitada. Vamos ter de confiar em gestos, grunhidos ou desenhos para transmitir ideias. Podemos nos comunicar, mas é estranho.

Este famoso livro de Gary Chapman apresenta as cinco linguagens básicas do amor emocional — cinco maneiras pelas quais as pessoas falam e entendem o amor emocional. No campo da linguística uma língua pode ter inúmeros dialetos ou variações. Da mesma forma, dentro das cinco linguagens básicas de amor emocional, há muitos dialetos.  Mas o importante é falar a linguagem amorosa do seu cônjuge. Raramente um homem e uma mulher têm a mesma linguagem de amor emocional primária.

MANTENDO O TANQUE DO AMOR CHEIO

A necessidade emocional de amor não é simplesmente um fenômeno da infância. Essa necessidade nos segue até a vida adulta e casamento adentro.  É fundamental para nossa natureza. Está no centro de nossos desejos emocionais. Precisaremos dele enquanto vivermos. O isolamento é devastador para a psique humana. No coração da existência da humanidade está o desejo de ser íntimo e ser amado por outro. O casamento é projetado para atender a essa necessidade de intimidade e amor.

APAIXONANDO-SE

No seu auge, a experiência de “estar apaixonado” é eufórica. Estamos emocionalmente obcecados um com o outro. Nossos sonhos antes do casamento são de felicidade conjugal.  Claro, não somos totalmente ingênuos. Sabemos, intelectualmente falando, que vamos ter diferenças. Mas estamos certos de que discutiremos essas diferenças abertamente; um de nós estará sempre disposto a fazer concessões, e chegaremos a um acordo. É difícil acreditar que não vai ser assim quando se está apaixonado. Infelizmente, a eternidade da experiência de "estar apaixonado" é ficção, não fato.

A experiência de apaixonar-se não é o verdadeiro amor por três razões. Primeiro, apaixonar-se não é um ato de vontade ou uma escolha consciente. Não importa o quanto queiramos nos apaixonar, não podemos fazer isso acontecer. Segundo, apaixonar-se não é amor de verdade porque é fácil. O que quer que façamos no estado do amor requer pouca disciplina ou esforço consciente de nossa parte. Os telefonemas longos que fazemos um para o outro, o dinheiro que gastamos viajando para ver um ao outro, os presentes que damos, os projetos de trabalho que fazemos não são nada para nós. A natureza instintiva da experiência amorosa nos leva a fazer coisas estranhas e não naturais um para o outro. Em terceiro lugar, a experiência amorosa não se concentra no nosso próprio crescimento, nem no crescimento e desenvolvimento da outra pessoa. Em vez disso, nos dá a sensação de que chegamos e que não precisamos de mais nenhum crescimento.  Apaixonar-se é uma suspensão temporária das fronteiras do ego e uma resposta estereotipada dos seres humanos a uma configuração de impulsos sexuais internos e estímulos sexuais externos, o que serve para aumentar a probabilidade de pareamento sexual e vínculo de modo a aumentar a sobrevivência da espécie.

Podemos reconhecer a experiência amorosa pelo que ela foi — uma alta emocional temporária — e agora buscar o "amor real" com nosso cônjuge. Esse tipo de amor é emocional na natureza, mas não é obsessivo. É um amor que une razão e emoção. Envolve um ato de vontade e requer disciplina, e reconhece a necessidade de crescimento pessoal. Nossa necessidade emocional mais básica não é se apaixonar, mas ser genuinamente amado pelo outro, conhecer um amor que cresce por razão e escolha, não instinto.  Esse tipo de amor requer esforço e disciplina. É a escolha de gastar energia em um esforço para beneficiar a outra pessoa, sabendo que se sua vida for enriquecida pelo seu esforço, você também encontrará um senso de satisfação — a satisfação de ter amado genuinamente outra. Esse é o tipo de amor a que os sábios sempre nos chamaram. É intencional.

Como nos encontramos com a profunda necessidade emocional um do outro de nos sentirmos amados? Se pudermos aprender isso e escolher fazê-lo, então o amor que compartilhamos será emocionante além de qualquer coisa que já sentimos quando estávamos apaixonados.

#1 - PALAVRAS DE AFIRMAÇÃO

Uma maneira de expressar o amor emocionalmente é usar palavras que se acumulam. Elogios verbais, ou palavras de agradecimento, são poderosos comunicadores do amor. Eles são melhor expressos em declarações simples e diretas.

Não estou sugerindo bajulação verbal para que seu cônjuge faça algo que você quer. O objetivo do amor não é conseguir algo que você quer, mas fazer algo para o bem-estar daquele que você ama. É fato, no entanto, que quando recebemos palavras afirmantes, é muito mais provável que sejamos motivados a retribuir e fazer algo que nosso cônjuge deseja.

Oferecer elogios verbais é apenas uma maneira de expressar palavras de afirmação ao seu cônjuge. Outro dialeto é encorajar palavras. A palavra encorajar significa "inspirar coragem". Todos nós temos áreas em que nos sentimos inseguros. Falta coragem, e essa falta de coragem muitas vezes nos impede de realizar as coisas positivas que gostaríamos de fazer. O potencial latente dentro de seu cônjuge em suas áreas de insegurança pode aguardar suas palavras encorajadoras.  Não estou falando de pressionar seu cônjuge a fazer algo que você quer. Estou falando em encorajá-lo a desenvolver um interesse que ele já tem. Encorajamento requer empatia e ver o mundo da perspectiva do seu cônjuge. Primeiro devemos aprender o que é importante para nosso cônjuge. Só então podemos encorajar.

A maneira como falamos é extremamente importante.  Você buscará a compreensão e a reconciliação, e não provará sua própria percepção como a única maneira lógica de interpretar o que aconteceu. Isso é amor maduro — amor ao qual aspiramos se buscamos um casamento em crescimento. Quando fui injustiçado pela minha esposa e ela confessou dolorosamente e pediu perdão, tenho a opção de justiça ou perdão. Se eu escolher a justiça e tentar pagá-la ou fazê-la pagar por seu delito, estou fazendo de mim mesmo o juiz e ela o criminoso. Intimidade torna-se impossível. Se, no entanto, eu escolher perdoar, a intimidade pode ser restaurada. Perdão é o caminho do amor.  A melhor coisa que podemos fazer com os fracassos do passado é deixá-los ser história. Não podemos apagar o passado, mas podemos aceitá-lo como história. Podemos escolher viver hoje livre dos fracassos de ontem.

O amor faz pedidos, não exige. Quando exijo coisas do meu cônjuge, me torno pai e ela é a criança. No casamento, somos iguais, parceiros adultos. Para desenvolvermos uma relação íntima, precisamos conhecer os desejos um do outro. Se queremos nos amar, precisamos saber o que a outra pessoa quer.  Quando você faz um pedido de seu cônjuge, você está afirmando seu valor e habilidades. Você está, em essência, indicando que ela tem algo ou pode fazer algo que é significativo e vale a pena para você. Quando, no entanto, você faz exigências, você se tornou não um amante, mas um tirano. Seu cônjuge não se sentirá afirmado, mas menosprezado. Um pedido introduz o elemento de escolha. Seu companheiro pode optar por responder ao seu pedido ou negá-lo, porque o amor é sempre uma escolha. Não podemos ter amor emocional por demanda. Meu cônjuge pode de fato cumprir minhas exigências, mas não é uma expressão de amor. É um ato de medo ou culpa ou alguma outra emoção.

#2 - TEMPO DE QUALIDADE

Por "tempo de qualidade", quero dizer dar a alguém sua atenção total.  O que quero dizer é sentar no sofá com a TV desligada, olhando um para o outro e conversando, dando um ao outro sua atenção total. Significa dar uma volta, só vocês dois, ou sair para comer e olhar um para o outro e conversar.  Um aspecto central do tempo de qualidade é a união. Não quero dizer proximidade. Duas pessoas sentadas na mesma sala estão próximas, mas não estão necessariamente juntas. A união tem a ver com atenção focada. O que acontece no nível emocional é o que importa. Passarmos um tempo juntos em uma perseguição comum comunica que nos preocupamos um com o outro, que gostamos de estar um com o outro, que gostamos de fazer as coisas juntos.

Conversa de qualidade é bem diferente da primeira linguagem amorosa. Palavras de afirmação se concentram no que estamos dizendo, enquanto a conversa de qualidade se concentra no que estamos ouvindo. Se estou compartilhando meu amor por você por meio de tempo de qualidade e vamos passar esse tempo na conversa, significa que vou me concentrar em atraí-lo, ouvindo com simpatia o que você tem a dizer. Farei perguntas, não de uma maneira instigante, mas com um desejo genuíno de entender seus pensamentos, sentimentos e desejos.

Somos treinados para analisar problemas e criar soluções. Esquecemos que o casamento é um relacionamento, não um projeto a ser concluído ou um problema para resolver. Uma relação exige uma escuta solidária com vistas a entender os pensamentos, sentimentos e desejos do outro. Devemos estar dispostos a dar conselhos, mas apenas quando ele é solicitado e nunca de forma condescendente. A maioria de nós tem pouco treinamento para ouvir. Somos muito mais eficientes em pensar e falar. Aprender a ouvir pode ser tão difícil quanto aprender uma língua estrangeira, mas aprenda que devemos, se quisermos comunicar o amor. Isso é especialmente verdade se a linguagem de amor primária do seu cônjuge é o tempo de qualidade e seu dialeto é conversa de qualidade.

1. Mantenha contato visual quando seu cônjuge estiver falando.

2. Não ouça seu cônjuge e faça outra coisa ao mesmo tempo.

3. Ouça por sentimentos.

4. Observe a linguagem corporal.

5. Recuse-se a interromper.

Atividades de qualidade podem incluir atividades como colocar um jardim, visitar mercados de pulgas, comprar antiguidades, ouvir música, fazer piquenique juntos, fazer longas caminhadas ou lavar o carro juntos em um dia quente de verão. As atividades são limitadas apenas pelo seu interesse e disposição para experimentar novas experiências. Os ingredientes essenciais em uma atividade de qualidade são: (1) pelo menos um de vocês quer fazê-lo, (2) o outro está disposto a fazê-lo, (3) ambos sabem por que estão fazendo isso — para expressar amor por estarem juntos.

#3 - RECEBENDO PRESENTES

Um presente é algo que você pode segurar em sua mão e dizer: "Olha, ele estava pensando em mim", ou, "Ela se lembrou de mim." Você deve estar pensando em alguém para lhe dar um presente. Tele dom em si é um símbolo desse pensamento. Não importa se custa dinheiro. O importante é que você pensou nele. E não é o pensamento implantado apenas na mente que conta, mas o pensamento expresso em realmente garantir o dom e dá-lo como expressão do amor. Presentes são símbolos visuais do amor.  That não é retórica sem sentido. Está verbalizando uma verdade significativa — símbolos têm valor emocional.

Se a presença física do seu cônjuge é importante para você, não espere que ele leia sua mente. Se, por outro lado, seu cônjuge lhe disser: "Eu realmente quero que você esteja lá comigo hoje à noite, amanhã, esta tarde", leve seu pedido a sério. Do seu ponto de vista, pode não ser importante; mas se você não responder a essa solicitação, você pode estar comunicando uma mensagem que você não pretende.

Quase tudo o que já foi escrito sobre o tema do amor indica que no coração do amor está o espírito de dar. Todas as cinco línguas de amor nos desafiam a dar ao nosso cônjuge, mas para alguns, recebendo presentes, símbolos visíveis de amor, fala mais alto.

#4 - ATOS DE SERVIÇO

Por atos de serviço, quero dizer fazer coisas que você sabe que seu cônjuge gostaria que você fizesse. Você procura agradá-la servindo-a, para expressar seu amor por ela fazendo coisas por ela. Eles exigem pensamento, planejamento, tempo, esforço e energia. Se feito com um espírito positivo, são de fato expressões de amor.

Ninguém gosta de ser forçado a fazer alguma coisa. Na verdade, o amor é sempre dado livremente. O amor não pode ser exigido. Podemos pedir coisas um do outro, mas nunca devemos exigir nada. Pedidos dão direção ao amor, mas as exigências param o fluxo do amor.

Os atos que fazemos um pelo outro antes do casamento não são indícios do que faremos depois do casamento. Antes do casamento, somos levados pela força da obsessão pelo amor. Depois do casamento, voltamos a ser as pessoas que éramos antes de "nos apaixonarmos". Nossas ações são influenciadas pelo modelo de nossos pais, nossa própria personalidade, nossas percepções de amor, nossas emoções, necessidades e desejos. Só uma coisa é certa sobre nosso comportamento: não será o mesmo comportamento que exibimos quando fomos pegos por estar "apaixonados. "

Um capacho é um objeto inanimado. Você pode limpar os pés nele, pisar nele, chutá-lo, ou o que você quiser. Não tem vontade própria. Pode ser seu servo, mas não seu amante. Quando tratamos nossos cônjuges como objetos, impedimos a possibilidade de amor. Manipulação por culpa ("Se você fosse um bom marido, você faria isso por mim") não é a linguagem do amor. Coerção pelo medo ("Você vai fazer isso ou vai se arrepender") é alheia ao amor. Nenhuma pessoa deveria ser capacho. Podemos nos permitir ser usados, mas somos, na verdade, criaturas de emoção, pensamentos e desejos. E temos a capacidade de tomar decisões e agir. Permitir-se ser usado ou manipulado por outro não é um ato de amor. É, de fato, um ato de traição. Você está permitindo que ele ou ela desenvolva hábitos desumanos. O amor diz: "Eu te amo demais para deixar você me tratar assim. Não é bom para você ou para mim.

#5 - TOQUE FÍSICO

Mãos dadas, beijos, abraços e relações sexuais são todas formas de comunicar amor emocional ao cônjuge. Para alguns indivíduos, o toque físico é sua linguagem de amor primária. Sem ele, eles não se sentem amados. Com ele, seu tanque emocional está cheio, e eles se sentem seguros no amor de seu cônjuge.

Dos cinco sentidos, o toque, ao contrário dos outros quatro, não se limita a uma área localizada do corpo. Algumas partes do corpo são mais sensíveis que outras. A diferença se deve ao fato de que os pequenos receptores táteis não estão espalhados uniformemente sobre o corpo, mas dispostos em aglomerados. Assim, a ponta da língua é altamente sensível ao toque, enquanto a parte de trás dos ombros é a menos sensível. As pontas dos dedos e a ponta do nariz são outras áreas extremamente sensíveis. Nosso propósito, no entanto, não é entender a base neurológica do sentido de toque, mas sim sua importância psicológica.

O toque físico pode fazer ou quebrar um relacionamento. Pode comunicar ódio ou amor. Para a pessoa cuja linguagem de amor principal é o toque físico, a mensagem será muito mais alta do que as palavras "Eu te odeio" ou "eu te amo". Um tapa na cara é prejudicial para qualquer criança, mas é devastador para uma criança cuja linguagem de amor primária é o toque. Um abraço carinhoso comunica amor a qualquer criança, mas grita amor à criança cuja linguagem de amor primária é o toque físico. O mesmo acontece com os adultos.

No casamento, o toque do amor pode tomar muitas formas. Uma vez que receptores de toque estão localizados em todo o corpo, tocar amorosamente seu cônjuge em quase qualquer lugar pode ser uma expressão de amor. Isso não significa que todos os toques sejam criados iguais. Alguns trarão mais prazer ao seu cônjuge do que outros. Seu melhor instrutor é seu cônjuge, é claro. Afinal, ela é a única que você está procurando amar. Ela sabe melhor o que percebe como um toque amoroso.  Once você descobre que o toque físico é a linguagem de amor primária do seu cônjuge, você é limitado apenas por sua imaginação em maneiras de expressar o amor.

Se a linguagem de amor principal do seu cônjuge é o toque físico, nada é mais importante do que segurá-la enquanto ela chora. Suas palavras podem significar pouco, mas seu toque físico comunicará que você se importa. As crises oferecem uma oportunidade única para expressar o amor. Seus toques ternos serão lembrados muito depois que a crise passar. Seu fracasso em tocar pode nunca ser esquecido.

Fonte: Gary Chapman, The Five Love Languages, Northing Publishing, Chicago, EUA, 1992.

29 de agosto de 2022

Devemos tomar as rédeas à fantasia


Devemos tomar as rédeas à fantasia em tudo o que concerne ao nosso conforto e desconforto. Logo, antes de mais nada, não devemos construir castelos no ar, porque estes são muitos caros, já que imediatamente depois temos de demoli-los com suspiros. Devemos guardar-nos mais ainda de angustiar o coração imaginando desgraças apenas possíveis. Se estas fossem infundadas por completo ou pelo menos pouco convincentes, então saberíamos de imediato, ao despertar do sonho, que tudo não passou de ilusão; por conseguinte, nos alegraríamos tanto mais com a realidade melhor e tomaríamos talvez como lição uma advertência contra desgraças futuras bastante longínquas, mas possíveis. No entanto, nossa fantasia não joga fácil com tais representações. Por puro prazer, ela só constrói castelos no ar. O material para seus sonhos sombrios são desgraças que, mesmo distantes, ameaçam-nos efetivamente em certa medida. A fantasia as amplifica, traz sua possibilidade para bem mais perto do que em verdade estão e pinta-as com as mais terríveis cores. Ao acordar, não podemos de imediato nos livrar dessa espécie de sonho, como fazemos com os agradáveis. Estes últimos são logo desmentidos pela realidade, que lhes permite no máximo uma esperança tênue de concretização. Porém, quando nos abandonamos às fantasias negras (blue devils), estas trazem imagens para perto de nós que não se afastam com facilidade. A possibilidade do evento, em geral, é estabelecida sem que estejamos sempre em condições de estimar o seu grau. Ora, tal possibilidade transforma-se facilmente em verossimilhança, fazendo com que nós mesmos nos entreguemos às mãos da angústia. Por isso, devemos considerar as coisas concernentes ao nosso conforto e desconforto só com os olhos da razão e do juízo, consequentemente, com ponderação fria e seca, operando com meros conceitos e in abstracto. A fantasia deve ficar fora de jogo, pois não sabe julgar; ao contrário, só apresenta imagens aos olhos que agitam a alma de modo desnecessário e amiúde penoso. Essa regra deveria ser observada com mais rigor à noite. Pois, assim como a escuridão nos torna temerosos e nos faz ver figuras apavorantes por toda parte, assim também a falta de clareza dos pensamentos provoca um efeito análogo, já que toda incerteza gera insegurança. Portanto, à noite, quando a fadiga envolveu tanto o entendimento quanto a razão com uma escuridão subjetiva, e o intelecto está cansado e confuso, sem forças para examinar as coisas a fundo, os objetos de nossa reflexão, caso digam respeito aos nossos interesses pessoais, assumem facilmente um aspecto ameaçador e tornam-se imagens apavorantes. É o que ocorre com frequência, à noite, na cama, quando o espírito está completamente relaxado e o juízo não desempenha mais a sua função, porém a fantasia ainda está ativa. Dessa maneira, a noite confere a tudo e a todos sua cor negra. Como consequência, antes de dormirmos, ou ao acordarmos de madrugada, os nossos pensamentos são, na maioria das vezes, deformações malignas e perversões das coisas, como nos sonhos. Se dizem respeito aos nossos assuntos pessoais, em geral parecem horrendos e até azarentos. Pela manhã, tais imagens apavorantes desaparecem, como os sonhos. É o significado do provérbio espanhol: Noche tinta, blanco el día [Noite tinta, branco o dia]. Mas já no final da tarde, quando se ascendem as velas, o entendimento, como os olhos, não vê com tanta nitidez como durante o dia. Eis por que esse período de tempo não é apropriado para a meditação e temas sérios e sobretudo desagradáveis. A manhã, sim, é o período correto. Manhã que, em geral, é adequada para todas as realizações, sem exceção, sejam as espirituais ou corporais. Em verdade, a manhã é a juventude do dia. Nela, tudo é jovial, fresco e leve; sentimo-nos fortes e temos todas as nossas capacidades à inteira disposição. Não devemos abreviá-la levantando-nos tarde, nem gastá-la em ocupações ou conversas indignas, mas considerá-la a quintessência da vida e, em certa medida, sagrada. Por outro lado, a noite é a velhice do dia: à noite ficamos abatidos, faladores e levianos. Todo dia é uma pequena vida: o acordar é o nascimento, concluído pelo sono como morte. Assim, o adormecer é uma morte diária e cada acordar é um novo nascimento. Para ser completo, poder-se-ia comparar o desconforto e a dificuldade de levantar-se com as dores do parto.

De modo geral, o estado de saúde, o sono, a alimentação, a temperatura, as condições climáticas, o ambiente e muitas outras circunstâncias exteriores exercem uma influência poderosa sobre a nossa disposição, e esta sobre os nossos pensamentos. Como consequência, nossa visão de uma questão qualquer, bem como nossa capacidade de produzir alguma coisa estão intensamente submetidas ao tempo e mesmo ao lugar. Portanto:

 

Aproveita a disposição verdadeira,

Pois ela chega raramente.

              Goethe (“Generalbeichte”) [“Confissao geral”]

 

Não é apenas em relação às concepções objetivas e aos pensamentos originais que temos de esperar se lhes agrada vir e quando. Mesmo a ponderação profunda de uma questão pessoal nem sempre dá seus resultados no tempo que estabelecemos com antecedência e para o qual nos preparamos. Ao contrário, a ponderação profunda também escolhe o seu tempo, e então a sequência dos pensamentos que se ajusta a ela se desenvolve espontaneamente e nós a seguimos com inteira atenção.

Para tomar as rédeas à fantasia, como recomendado acima, também é preciso impedir que ela evoque e ilustre as injustiças outrora sofridas, bem como os danos, as perdas, as injúrias, as preterições, as humilhações e coisas semelhantes. Do contrário, excitamos novamente a indignação, a cólera e todas as paixões odiáveis, há muito tempo adormecidas, que contaminam nossa alma. Pois, segundo uma bela comparação do neoplatônico Proclo, assim como em cada cidade, ao lado dos nobres e distintos, mora também o populacho de todo tipo, também em cada homem, mesmo o mais nobre e mais sublime, existem, segundo a sua disposição, os elementos mais diminutos e comuns da natureza humana e mesmo animal. Esse populacho não deve ser excitado ao tumulto, nem deve ter a permissão de olhar pela janela, pois sua aparência é deveras feia. Ora, esses produtos da fantasia que acabamos de descrever são os demagogos desse populacho. Além disso, a menor contrariedade, advinda seja dos homens ou das coisas, se for constantemente cogitada e repintada com cores vivas e segundo uma escala ampliada, pode transformar-se num monstro que nos coloca fora de controle. Devemos, antes, encarar de maneira bem prosaica e sóbria tudo o que for desagradável, para assim aceitarmos o que nos couber da maneira mais fácil possível.

Do mesmo modo como os objetos pequenos, mantidos na proximidade dos olhos, limitam o nosso campo de visão, encobrindo o mundo, também os homens e as coisas da nossa vizinhança mais imediata, por mais insignificantes e indiferentes que sejam, ocuparão com frequência a nossa atenção e nossos pensamentos para além do necessário, e muitas vezes de modo desagradável, reprimindo pensamentos e questões importantes. É preciso reagir contra isso.

Fonte: Arthur Schopenhauer, The Wisdom of Life and Counsels and Maxims, Pantianos Classics.

22 de agosto de 2022

Energias masculina e feminina


Todos os seres humanos têm basicamente dois tipos de energia: a masculina e a feminina.  A energia masculina é a energia do pensar, do agir, do fazer, do decidir, do dar, do proteger. Quando ativamos um tipo de energia as pessoas ao nosso redor têm a tendência de ativar a energia contrária. 

Hoje em dia as mulheres, quando em um relacionamento, tendem a ativar sua energia masculina porque o ambiente laboral, do qual em geral provêm, é naturalmente masculino. Isso ocorre especialmente com as mulheres que coordenam equipes, lideram reuniões com a presença majoritária de homens, têm uma empresa etc. 

Ocorre que nos relacionamentos mulheres que se portam assim tenderão a motivar no homem a ativação de sua energia feminina. Esse fenômeno provoca certa desconexão, certo distanciamento, já que o homem busca na mulher a energia feminina que complementará a energia masculina que lhe é natural. 

A solução para esse impasse está na escolha consciente e deliberada de qual energia ativar no momento adequado. As mulheres devem, portanto, aprender, ou reaprender, a ativar sua energia feminina. Eis algumas maneiras:

1) Fale de suas emoções. Isso pode ser feito usando frases como “Eu me sinto [honrada        de estar aqui], [feliz por estar nesse ambiente], [alegre hoje]...” ou “Esse lugar me traz felicidade, me preenche com alegria...”

2) Ative no homem a presença plena. Para fazê-lo é necessário antes que a mulher esteja presencialmente plena, ou seja, presente naquele ambiente, vivenciando, ouvindo, prestando atenção. Em suma, a consciência não está vagando no passado ou no futuro, mas está presente no aqui e agora (objetos, contato da roupa, cheiros, posição do corpo etc.).  Pela própria natureza da energia masculina, que é mais cerebral, é comum que o homem esteja “ausente” do ambiente, que não preste atenção ao que a mulher lhe conta ou diz. Para trazê-lo um recurso muito útil é tocá-lo, elogiá-lo de maneira inesperada, ou qualquer gesto que lhe traga “de volta” ao encontro que ocorre naquele momento. 

3) Aprenda a receber. A energia feminina é tipicamente a energia do receber, enquanto a masculina é a energia do dar. Por isso que aos homens em geral lhes convêm serem provedores, mostrarem que são suficientes para estarem ali, para pagar uma conta, uma viagem, uma roupa etc. Assim que devolver o que o homem dá é uma forma de não alimentar a energia masculina no homem. Portanto não cabe à mulher, se quiser presentear o home, dar algo que lhe impressione ou que caracterize provimento.

4) Use a intuição. Para isso é necessário que a mulher desenvolva certo autoconhecimento, certa conexão consigo mesma. Para isso é necessário ouvir seus pensamentos, seu corpo, ouvir as respostas dos outros, conectar-se ao plano espiritual (Deus, orações, meditação etc.).  A intuição ajuda a direcionar o relacionamento, seja para continuá-lo, seja para abandoná-lo. É a intuição, o instinto, que direciona a mulher a ser mãe, por exemplo. É a característica mais importante, e mais difícil, de desenvolver. É essa característica que, ao fim e ao cabo, faz com que a mulher não seja carente, “pegajosa”, “sufocante” etc. Os homens em geral detectam a intuição feminina ao sentirem certa leveza, certa estabilidade, em sua presença. Os homens de maneira geral vivem uma vida mental mais ansiosa, mais exigente (“tenho que decidir”, “isso tem que dar certo”), mais competitiva (seja com outras pessoas, seja consigo mesmo), e, portanto, a presença da energia feminina inconscientemente lhe traz certo alívio, contentamento, estabilidade, um sentimento de que “está tudo bem”. A intuição feminina, e o alívio que essa intuição comunica ao homem, é o motivo principal que faz com que ele busque encontrar-se mais vezes com ela.

5) Use seu corpo. Perder a timidez, andar movendo o quadril, dançar. A energia feminina é a energia do “pescoço pra baixo”, enquanto a masculina é do “pescoço pra cima”. O uso do corpo é um elemento importante na conexão.

* * *

5 sinais da relação:

1. A pessoa não atende seus critérios

Não aceite critérios genéricos, básicos, óbvios (a pessoa é "trabalhadora", "boa", "legal" etc.). Pare de brigar com a realidade. Se a pessoa não atende seus critérios hoje, não atenderá amanhã nem depois de amanhã. Você escolhe qualquer sapato em uma loja de sapatos? Você compra qualquer roupa em uma loja de roupas? Não, você pede algo compatível com seu corpo, sua estatura, seus gostos, seu perfil, sua personalidade. Se isso vale para calçados e roupas, tanto mais vale para sua parceira.

2. A pessoa te diminui

"Nossa, que bobagem esse negócio de viajar", "Ih, caamento é coisa fútil", não presta atenção àquilo que é importante para você. Relacionamento é para tornar a vida muito melhor. Se não, está errado.

3. As coisas não acontecem do jeito que você quer

As coisas acontecem do jeito dela, da agenda dela, com amigas dela, no dia que ela quer. Essa situação tende a piorar ainda mais com o tempo.

4. O discurso dela é bonito

Quer apresentar para a família, quer fazer aquela viagem etc. A prática não corresponde com as palavras.A pessoa provavelmente não é parceira de vida, mas uma manipuladora.

5. Ficar por meses

Não existe "ficar por 5 meses" e assemelhados. A pessoa que quer estar com você, namorar você, conhecer você a fundo, age rápido. Se fosse um carro, a pessoa já teria comprado porque ela quer e é conveniente ter um carro. No seu caso, ela quer e é conveniente continuar te enrolando; esse é o melhor dos mundos.. É você quem dá o ritimo para o relacionamento. É você que está permitindo isso. A resposabilidade é sua de ter a vida do jeito que você quer ter. É você que permite ou não permite.

Fonte: Luiza Vono, YouTube.

16 de agosto de 2022

Conceitos básicos da queima de gordura


A lipase hormônio sensível é a enzima que desempenha o papel central na queima de gordura. É o local onde ocorre a oxidação dos ácidos graxos – a quebra da gordura – no corpo. A quebra da gordura não ocorrerá se não estiver na presença da lipase hormônio sensível.

A lipase hormônio sensível tem uma relação inversamente proporcional à insulina. A insulina é um hormônio de absorção. Portanto, quando comemos alguma coisa o corpo provoca um pico de insulina. Inversamente, quando os níveis de insulina estão baixos significa que a lipase hormônio sensível está alta. Portanto, mesmo que o corpo esteja sob um regime de déficit calórico, se os níveis de insulina estiverem elevados o corpo terá mais dificuldade em ativar a enzima da lipase hormônio sensível.

Quando a insulina não está presente no corpo há a presença de outro hormônio chamado glucagon. O glucagon estimula a quebra de proteínas e gorduras e a liberação de glicose. Em outras palavras, é o hormônio da “quebra”.

Há, no entanto, outros componentes que devemos prestar atenção: as catecolaminas, como a adrenalina, a epinefrina, a norepinefrina. Geralmente associamos as catecolaminas a estados psicológicos alterados, mas quando estamos em regimes de jejum e/ou déficit calórico as catecolaminas se elevam. Ora, quando a adrenalina e a epinefrina se associam ao glucagon elas ativam (é a fosforilação) a lipase hormônio sensível. Em poucas palavras, a fosforilação nada mais é do que uma espécie de manipulação proteica por meio da adição de moléculas de fósforo de forma que a lipase é ativada.

Portanto, o processo de queima de gordura exige a ativação da lipase hormônio sensível por meio da elevação dos níveis de catecolaminas. As catecolaminas, por sua vez, atuam sobre receptores beta-adrenérgicos, que, como diz o nome, recebem as catecolaminas para dar início ao processo de lipase. É por isso, por exemplo, que as farmácias vendem “beta bloqueadores”: seu objetivo é bloquear a ação da adrenalina e demais catecolaminas para que o paciente não sofra seus efeitos. No entanto, no caso da queima de gordura, os receptores beta-adrenérgicos são desejados porque são eles que ativam a proteína quinase A, ou seja, é uma enzima que quebra (ou altera) certas proteínas responsáveis pela fosforilação.

No interior da célula de gordura, em seu citoplasma, reside a lipase hormônio sensível. Ocorre que, como dissemos acima, a lipase não atuará a não ser que seja ativada por um hormônio. Em termos práticos, a lipase está como que “protegida” dentro da célula de gordura. Na parte exterior do lipídio (célula de gordura) a lipase hormônio sensível está também protegida pela perilipina. A ativação da proteína quinase A fosforila tanto a perilipina quanto a lipase hormônio sensível.

O processo de queima de gordura, no entanto, não está restrito meramente à ativação da lipase hormônio sensível. A partir de 2004 alguns estudos mostraram de maneira categórica que a queima de gordura envolve outras enzimas, sobretudo a lipase de triacilglicerol do adipócito (adipose triglyceride lipase – ATGL). O que essa enzima faz é quebrar o triacilglicerol (forma em que a gordura é armazenada, ou seja, três ácidos graxos associados a uma molécula de glicerol) em um diacilglicerol. Neste processo um ácido graxo acabou sendo eliminado. Para seguir o processo, é necessário que uma lipase de diacilglicerol quebre esse diacilglicerol. É aqui que a lipase hormônio sensível desempenha seu principal papel: ela reduzirá essa molécula a um monoacilglicerol. Por fim, uma nova lipase quebrará esse monoacilglicerol, liberando o terceiro e último ácido graxo. É o que informalmente chamamos de “queima de gordura”. O glicerol retorna ao fígado e é convertido em glicose: é o processo de gliconeogênese. Quanto aos ácidos graxos, eles são convertidos em cetonas ou são usados pelo músculo esquelético etc., ou seja, são usados para os diversos processos que o corpo da pessoa necessite.

Fonte: Thomas DeLauer, Basics of Fat Loss.

20 de julho de 2022

Fatalismo: a doença espiritual dos nossos tempos


O famoso fundador da logoterapia, o psicólogo austrí­aco Viktor Frankl, é conhecido especialmente por insisitir que a doença tí­pica dos nossos tempos é o fato de nossas vidas carecerem de sentido. Mas a expressão "sentido da vida" vem popularmente carregada de grande pesar. Pensamos nos princí­pios e valores que devem nortear a vida humana. Ok, mas Frankl pensava em algo mais prático e específico que isso.

"O que eu quero é ser feliz". Essa frase, tão comum na boca de muitos, é o slogan dos neuróticos. Sim, pois, para Frankl, desejar a felicidade, desejar o prazer, é algo como curto-circuitar a vida humana. Na eletricidade, um circuito só tem sentido quando entre os polos de um gerador há componentes como resistores, capacitores, transistores, microprocessadores etc. Assim também a vida humana precisa desses componentes para existir: são os sentidos. Em outras palavras, precisamos de um motivo para ser feliz, precisamos cumprir uma obrigação.

"Então buscar sentidos é buscar cumprir obrigações". Certo, mas não pense você que Frankl se refere aqui a cumprir obrigações morais, a cumprir preceitos religiosos, a desempenhar rituais. Nada mais falso do que isso. Pelo contrário, Frankl insiste que os sentidos se encontram, não se dão. O princípio da cura da pobreza espiritual é despertar no homem o desejo de encontrar um sentido, e a partir daí­ o homem, livremente, sem fórmulas prontas, empreenderá a jornada que o curará.

O sentido pode mudar várias vezes ao longo da vida. Uma enfermeira, por exemplo, pode perfeitamente encontrar o sentido no auxí­lio à cura de seus pacientes. Mas que sentido terá sua vida quando estiver moribunda, à beira da morte? Este é um dos casos em que o logoterapeuta pode atuar para ajudá-la. Neste caso em concreto, a enfermeira encontrou ser um exemplo de humanidade, de fortaleza, à sua famí­lia como seu novo sentido. Este é o sentido que se aplica a ela, especificamente a ela, segundo suas circunstâncias, segundo sua história de vida, segundo sua personalidade. Veja como princípios e valores pasteurizados e artificiais, como regras morais, não se aplicam aqui.

Mas o que impede as pessoas de encontrarem um sentido às suas vidas, seus trabalhos, seus amores? Frankl nota que o maior obstáculo na busca de sentido está na curiosa tendência do homem contemporâneo em nao se sentir responsável por essa busca. Em outras palavras, ele espera que algo e/ou alguém lhe dê os sentidos de que necessita.

"Tentei explicar que toda açâo psiquiátrica deve ter como objetivo acostumar o doente a assumir com satisfaçâo sua resposabilidade. Porém, nunca deixa de chamar a atençâo o fato de que em nossos pacientes neuróticos impera precisamente o contrário: o temor, o medo à responsabilidade. No próprio linguajar diemos que o homem tem que "se fazer" responsável; pois bem, parece existir uma força que lhe faz escapar dessa responsabilidade. Mas o que dá ao homem essa "força centrífuga"? É a crença supersticiosa no poder do destino, tanto exterior quanto interior; ou seja, no poder das circunstâncias exteriores e nos estados interiores. Em suma: é o fatalismo que invade essas pessoas, a esses indivíduos que padecem de um transtorno psíquico; mas nâo somente a eles, mas também a todas as pessoas aparentemente sâs e, de certo modo, a todos os homens contemporâneos".

O homem dos nossos tempos está cansado espiritualmente. Ele não quer a liberdade. Pelo contrário, a liberdade é um fardo do qual tenta se livrar mediante a renúncia da responsabilidade. O fatalismo lhe cai como uma luva. Se não é ele quem deve buscar os sentidos á sua existência, ao seu trabalho, ao seu amor, então, que alívio!, lá se vai a liberdade e, com ela, a opressão que lhe causa. Para o homem moderno, o espírito é o grande inimigo da alma. O homem neurótico tende a mostrar a seguinte conduta: o que comprova em si mesmo com isso se compromete; o qu encontra em si mesmo, por exemplo, nos traços de seu caráter, com isso se conforma.

Ora, o homem tem impulsos, é verdade, mas os impulsos não têm a ele. O homem é capaz de dizer "não"; ele não é obrigado a dizer "amém" a si mesmo. Ao reduzir-se a seus impulsos o homem se reduz a um animal. Os animais não têm impulsos: eles são seus impulsos.

Fonte: Viktor Frankl, La psicoterapia al alcance de todos, Herder Editorial, 2003, Barcelona, Espanha.

18 de maio de 2022

A mente religiosa segundo Krishnamurti


O objetivo de Krishnamurti é ajudar o leitor a despertar em si uma mente plenamente consciente.

O homem que busca é imaturo porque o que quer na verdade é uma autoridade que lhe apresente a verdade. Isso é necessariamente falso porque a verdade é viva, dinâmica, não algo estático. Portanto, livrar-se de autoridades é fundamental.

O conhecimento não liberta, mas, ao contrário, aprisiona a mente em memórias acumuladas. Isso significa, na prática, que somos pessoas condicionadas pelo conhecimento, por opiniões, ou, em outras palavras, pelo passado. Entenda que não somos capazes de ver algo como realmente é, sem a intermediação de análises intelectuais, o que é fundamental.

Esse conhecimento reduz a consciência a uma pequena porção. Para ampliá-la é necessário empregar a atenção total, que é diferente de concentração. É como estar em um quarto fechado com uma cobra dentro. Você estará totalmente atento a ela, totalmente focado. Não é um processo intelectual.

A alegria que sentimos em determinada situação é desmanchada pela mente, que procura repetir a alegria e, assim, a transformar em um prazer. O medo de perder o prazer é fonte de dor. Por isso é necessário aprender a se livrar do prazer e, portanto, da dor. Somente a total atenção é capaz de desfrutar de alegria.

O medo nada mais é do que a transição, o movimento, da certeza para a incerteza. Medo do desemprego, da traição, da doença, dos perigos, da passagem, enfim, para a incerteza: medo de que o passado volte, medo do que virá no futuro. O medo é essa projeção do pensamento em passado e futuro. Nós não apenas "temos" medo: nós "somos" medo.

Não é difícil ver que o medo gera violência. A agressão enquanto desejo de dominar o próximo é fruto da perseguição do prazer e da fuga da dor. As divisões que criamos ("cristão", "europeu") são resultado da agressividade, fruto da separação. Só o homem que vive no momento, no instante, é realmente livre disso.

Portanto a verdadeira ação está na inação, ou seja, no extermínio da comparação, da dualidade, do "precisa", do "deveria". É necessário acabar com ideais, com imagens, com projeções, com símbolos, para assim acabar com os estímulos que, por sua vez, trazem consigo a dependência.

"Você nunca está só porque está cheio de memórias, de condicionamentos, de ruminações do passado; sua mente nunca está limpa do lixo acumulado ao longo do tempo. Estar só é estar morto para o passado. Quando está só, totalmente só, sem pertencer a nenhuma família, a nenhuma nação, a nenhum continente, eis aí quando você será um pária. O homem que está completamente só é inocente, e é esta inocência que liberta a mente do sofrimento".

Assim que é urgente entender que a morte é a porta de entrada da vida. Não, não se trata de uma piada. Morrer para o tempo, morrer para o intervalo entre a ideia e a ação, ou seja, morrer para o pensamento, eis o caminho para a ação. Nós inventamos o tempo, o futuro, nós mergulhamos na agonia do passado. Esse jogo estúpido do tempo, eis o que bloqueia o caminho da vida, que é, obviamente, a morte.

Este é o caminho do amor. Não, amor não é o que você chama de amor. Isso que você chama de amor é apenas uma projeção da sua imaginação devidamente envernizada de respeito e consideração por algo ou alguém. Amar é estar morto para a responsabilidade e para o dever. O amor só existe na liberdade, na ausência do pensamento, na ausência da preocupação.

Por isso o amor, assim como a contemplação do belo, exige uma postura austera, isto é, de independência, desprendimento, desinteresse, de total e completa simplicidade, de humildade. O amor, a beleza, a verdade, nada disso se cultiva, mas o que, sim, é possível, é ganhar consciência e, a partir daí, observar o prazer, a dor e a tristeza em ação e, assim, observar o espaço-tempo, a imagem, que separa você do mundo.

Não tardará e você notará que você, o observador, é na verdade mais um elemento do observado. E mais: todo o observado é, em realidade, você. Aqui termina o conflito entre você e a imagem. Aqui começa a inteligência propriamente dita. Ora, a inteligência começa, portanto, quando termina o pensamento.

Mas livrar-se das imagens, do pensamento, é apenas o começo do tão desejado silêncio, da solidão, da paz.

A meditação em si não é, portanto, livrar-se do pensamento, mas observar o pensamento, seus movimentos, seu desenvolvimento, sem controlá-lo. O meditador, ele mesmo, está completamente ausente.

É a mente religiosa, a mente que não age por princípio, por valores, por deveres morais dessa ou daquela natureza. É, enfim, a mente que ama sem saber o que é amor.

Fonte: Jiddu Krishnamurti, Freedom from the Known, Random House, Londres, Reino Unido, 2010.

6 de janeiro de 2022

O herói revolucionário: Jordan Peterson entre o caos e a ordem


Muitos gostam de citar Jordan Peterson, sobretudo aqueles que professam ser politicamente conservadores. Suas duas obras mais famosas, aquelas em que expõe suas regras para viver, são largamente resenhadas não somente por profissionais da psicologia, mas também por aqueles que se apresentam como conservadores ou de direita.

No entanto, há uma obra anterior a essas duas que fornece o pano de fundo de seu pensamento e, portanto, deve necessariamente ser estudada por aqueles que se interessam por Jordan Peterson. É uma obra pouco conhecida de seu público porque, além de densa e extensa, é um tanto mal escrita. Peterson começou a escrevê-la aos 24 anos de idade, em 1986 e, durante treze anos, revisou-a e corrigiu-a inúmeras vezes, motivado não somente por sua inclinação pessoal à precisão, mas também em prol de seus alunos, já que passou a usá-la, mesmo sem ter sido formalmente publicada, como um dos livros-texto de seu curso de psicologia na Harvard University. Finalmente publicada em 1999 pela Routledge, Maps of Meaning contém cinco longos capítulos cujo estilo entrecortado e repetitivo explicam em parte a impopularidade da obra. Mas é a ela que seus maiores fãs, especialmente os que se declaram conservadores, deveriam dedicar mais tempo e energia. É a partir dela que entenderão o mal que o conservadorismo pode fazer à sociedade e, originalmente, a si mesmos.

O objetivo de Peterson é simples, mas ousado. Explicar algo que o afetou tão profundamente a ponto de despertar-lhe pensamentos suicidas: por que existe o mal no mundo? Não o mal do criminoso isolado, mas o mal do genocídio, o mal dos campos de morte, o mal das armas nucleares, o mal da destruição em massa. E sua explicação, como era de se esperar, não é de natureza político-ideológica, mas psicológica. A fonte de sua explicação, a mesma fonte que o ajudou a livrar-se de seus pesadelos mais terríveis, encontra-se sobretudo em Carl Jung, a quem considera um dos maiores gênios da humanidade. Incompreendido, mas gênio.

Peterson começa sua explicação apontando para um fato que frequentemente nos passa despercebido. Quando exploramos o mundo, quando exploramos as pessoas, os objetos, os movimentos, as transformações, o tempo, a disposição das coisas e tudo o mais, o fazemos, como homens de nosso tempo, sob o ponto de vista científico. Gostamos, porque assim nos impõe a cultura vigente, de explorar o mundo, e, portanto, entendê-lo, tomando dados, informações e, por último, relações lógicas entre elas. E isso está perfeitamente correto, segundo Peterson. Ocorre que a abordagem científica não é a única possível. Ela responde à pergunta “o que é?”, mas há outra pergunta que espreita a mente humana. É a pergunta “como deveria ser?”. Em outras palavras, as coisas e pessoas, tal como estão, devem continuar assim? Se sim, por quê? Se não, por quê? E como?

Observe que o pensamento científico é mudo aqui. Atribuir significado às coisas não é tarefa da ciência, explica Peterson, e nem poderia ser. A ciência enquanto tal ocupa-se das propriedades sensoriais empíricas, mas não diz nada sobre o status do objeto, ou seja, não diz nada acerca do que tal objeto implica para nosso comportamento. A natureza objetiva de uma coisa não diz nada sobre seu significado, ou seja, sobre o que o objeto implica para a ação, sobre o afeto do objeto sobre nós, sobre as emoções que eventualmente nos desperta, não diz nada sobre seu valor, sua relevância, sobre sua natureza moral. Ora, e quem, se não a ciência, nos poderia transmitir o significado das coisas? O mito. Sim, são nossas convenções mitológicas, ou seja, as narrações, os rituais patrióticos, as histórias dos heróis ancestrais, os símbolos de identidade cultural, são os mitos enfim que, quer queiramos ou não, guiam nossa capacidade de entender o significado das coisas, do mundo. E mais: é impossível viver sem crenças, ou seja, sem valorações, o que significa dizer que necessariamente temos de depositar nossa fé em algo.

Aquilo que é conhecido, aquilo que nos é familiar, é dado pelas narrações e mitos. Espere, um momento. Nunca é demais lembrar que não se trata aqui de conhecimento científico. Estamos tão acostumados com a ideia de que conhecemos algo quando o conhecemos em suas propriedades intrínsecas que nos custa muito aceitar a noção de que conhecer é não apenas o que é, mas o que deveria ser. E isso, uma vez mais, a ciência não pode fornecer. Muito bem, dizíamos que o que nos é familiar é dado pelas narrações e mitos. Mas também é verdade que no transcurso da vida, seja pessoal, seja social, frequentemente nos deparamos com situações nas quais nossas ações são inadequadas, ineficazes. Mudamos nossas ações e nos adaptamos. Mas isso, adverte Peterson, pode não bastar. A simples mudança comportamental, quando mais profunda, terá de ser acompanhada de uma mudança naquilo que cremos que é importante.

E eis que algo aparentemente simplório se mostra complexo, trágico mesmo. Mudar aquilo que cremos que é importante implica entrar no território do desconhecido, ou, para usar uma expressão largamente empregado por Peterson, implica entrar no território do caos. E o caos tem uma natureza própria, que se nos apresenta com valência afetiva, não objetiva. Ou seja, nossa reação natural é a surpresa, o medo, o pânico. E é aqui, caro leitor, que começam os problemas.

***

Peterson ensina que o domínio do conhecido e o domínio do desconhecido são os elementos constitutivos permanentes da experiência humana. O domínio do conhecido é o que genericamente chamamos de cultura, embora tal palavra deva ser empregada de maneira meramente aproximativa. De qualquer forma, nós, seres humanos, embora sejamos obrigados a nos adaptar à cultura vigente, estamos permanentemente em contato com a insuficiência dessa cultura. A exploração criativa do desconhecido, e a geração de conhecimento que advém dessa exploração, é a construção e a atualização de padrões de comportamento e representação. Ora, a capacidade para esse tipo de exploração criativa é o terceiro e último elemento constitutivo permanente da experiência humana.

As representações mitológicas do mundo costumam atribuir um caráter afetivamente feminino (“mãe”, “devoradora” de tudo e todos), enquanto o eterno masculino se considera como sendo tipicamente masculino. E, por fim, o eternamente conhecedor é o cavaleiro que mata o dragão do caos, é o herói que substitui a desordem e a confusão por claridade e certeza.

Expliquemos um pouco mais isso. Em nossos planos, em nossos cursos de vida, surgem inconvenientes com os quais evitamos tratar. Quando tais inconvenientes se acumulam em uma quantidade suficiente é gerada uma catástrofe. A catástrofe tanto pode servir para rejuvenescer como para destruir. Quanto mais se ignore os inconvenientes de uma catástrofe tanto mais provável será que cause uma destruição.

Peterson traça um curioso paralelo com as funções neuropsicológicas do cérebro. Se dividirmos o cérebro em dois hemisférios comprovaremos, de maneira muito geral, que o hemisfério direito é o que está a cargo de representar o desconhecido com esquemas, hipóteses, metáforas, enquanto o hemisfério esquerdo transforma tais esquemas em descrições verbais detalhadas. Quando o curso de nossas vidas prossegue conforme planejado o hemisfério esquerdo prevalece e as emoções aí geradas são de baixa intensidade. Quando o desconhecido se apresenta o hemisfério direto “se incomoda” e a necessidade de transformar o desconhecido em conhecido pode gerar emoções intensas que são frequentemente (mal) interpretadas como emoções negativas.

Dissemos há pouco que as mitologias do mundo apresentam estruturalmente três elementos da experiência: o conhecido, o desconhecido e conhecedor. Na realidade há um quarto elemento, que é anterior a esses três: o caos precosmogônico. Trata-se da fonte última de todas as coisas, frequentemente representado pelo uróboro, a serpente que se come a si mesma. Peterson faz uso do mito mesopotâmico da criação (Enûma Elish) e seus quatro personagens para explicar as experiências fundamentais: (a) Tiamat (que representa simultaneamente o uróboro e a Grande Mãe), (b) Apsu (consorte de Tiamat), (c) os deuses maiores (filhos de Tiamat e Apsu) e (d) Marduk (herói mítico). Em suma, os deuses maiores matam Apsu, e Tiamat, cheia de vingança, decide destruir tudo o que criou. Seus filhos enviam vários voluntários para derrotá-la, mas acabam vencidos. Marduk por fim é declarado rei e se voluntaria para matá-la. Não só a mata como a corta em pedaços a partir dos quais cria o cosmo. O imperador da Mesopotâmia, a encarnação de Marduk, encena uma batalha na qual o Ano Novo renova o “velho mundo”, ou seja, é a cultura sendo heroicamente renovada. A “moral da história” é que o reino da ordem é insuficiente porque a ordem mesma se converte em algo dominante, sufocante, mortífero, caso a ordem permaneça inalterada. As ações do herói são, portanto, o antídoto do caos contra a tirania da ordem.

***

Aqui cabe introduzir o tema da ideologia. As ideologias são como mitos incompletos. Elas têm alguma relevância porque macaqueiam os mitos. Peterson explica as ideologias como se elas fossem a consequência natural do crescimento. Conforme crescemos nos filiamos a um grupo que nos protegerá, mediante um conjunto de tradições, doutrinas e crenças, da sociedade ameaçadora e desconhecida. À medida que se alcança certa disciplina, a proteção deixa de ser necessária e estamos maduros para a verdadeira liberdade. Preparar o indivíduo para essa liberdade é o serviço que toda religião autêntica deveria prestar. No entanto, as falsas religiões e as ideologias transformam a couraça protetora em uma redoma de vidro limitante e tirânica, cuja única função será esmagar o indivíduo e mantê-lo eternamente adolescente.

Essa paralisia na adolescência grupal se explica pela maneira como alguns indivíduos reagem ao que Peterson chama de “anomalia”, ou seja, como eles reagem ao desconhecido, às ideias estranhas, aos indivíduos criativos. O temor que sentem, a agressão que se lhes desperta, pode ser mais bem compreendido quando entendemos que para esses indivíduos a anomalia é percebida como uma espécie de desastre natural, como um tsunami, um incêndio de grandes proporções ou algo assim. No entanto, o que esses indivíduos não notam, ou não admitem, é que a anomalia é não apenas a fonte vital de interesse, de significado e de força individual, mas também é aquilo que nos torna capaz de mudar, de despertar o aspecto intrínseco e “divino” da psique humana. Em outras palavras, de despertar parte do “Verbo” seminal. É precisamente o Verbo que pode criar novos mundos, que pode destruir velhos mundos, que pode ameaçar culturas aparentemente estáveis, que pode redimir aqueles que chegaram à velhice, à inflexibilidade, à paralisia. No entanto, o Verbo, para aqueles que venderam sua alma ao grupo, é nada mais nada menos que “o” Inimigo.

E qual é a anomalia mais “anômala”? Qual a anomalia mais espinhosa de todas? Certamente é a morte. Para nós, seres humanos, que somos capazes de imaginar nossa própria morte e a de nossos entes queridos, o desconhecido está irremediavelmente contaminado pela morte. E não por acaso os “adolescentes grupais” sentem tanta repulsa pelo Verbo: em última instância, a anomalia que ele traz está contaminada pelo aspecto mais desconhecido, e temido, de todos, ou seja, pela morte.

À medida que a autoconsciência se desenvolve ao longo da história e a anomalia da ameaça da morte, ou seja, do fim da existência, se torna cada vez mais presente, o desconhecido ganha dimensões literalmente insuportáveis. Aqui Peterson desenvolve uma interessante descrição dos padrões de comportamento transpessoais, ou esquemas de representação, que se encarnaram na mitologia como os “irmãos hostis” ou os “filhos eternos de Deus”:

(1) O herói mitológico. É aquele que enfrenta o desconhecido de maneira aberta, ou seja, com uma atitude esperançosa ante a renovação e a redenção que resultará de tal contato. Aqui há uma união criativa com a Grande Mãe. O herói organiza as exigências do ser social e as responsabilidades de sua própria alma em uma unidade coerente e disposta hierarquicamente. Em outras palavras, o herói aceita placidamente sacrificar a segurança em favor do significado. A existência não deixa de ser trágica, mas é aceitável.

(2) O adversário eterno. É o espírito da racionalidade que, horrorizado por seu medo das condições da existência, evita o contato com tudo o que não compreende. Esse comportamento esquivo debilita sua personalidade, que já não se alimenta da “água da vida” e o converte em alguém rígido e autoritário e que se apega tenazmente ao familiar, ao “racional”, ao estável. Aqui podemos distinguir dois grupos: (a) o fascista, que sacrifica sua alma em prol do grupo, que por sua vez promete protegê-lo do desconhecido; (b) o decadente, que, ao contrário do fascista, é indisciplinado e se nega a unir-se a um grupo social e se aferra rigidamente às suas próprias ideias.

O verdadeiro crente é aquele que verdadeiramente almeja imitar o Cristo, ou seja, é aquele que se propõe a realizar a alma do herói, aquele que encarna essa alma em todos os aspectos de sua vida cotidiana. E para explicar esse processo de identificação com o herói Peterson lança mão da análise da alquimia de Jung. Segundo explica Peterson, a matéria alquímica é uma substância como o Tao, ou seja, uma substância “que produzia ou constituía o fluxo do ser”, algo mais parecido ao que modernamente chamamos “informação”. É, em outras palavras, a matriz do ser, o desconhecido. Não é difícil concluir o que os alquimistas diziam daqueles que assimilavam completamente o “espírito do desconhecido”: eram eles equivalentes ao próprio Cristo.

Portanto, em hipótese alguma o pensamento de Peterson pode ser considerado como um apego à ordem, muito menos um apego ao conservadorismo político, seja ele americano, europeu ou qualquer outro. O que Peterson ensina é precisamente o oposto: o indivíduo deve assumir plena responsabilidade por seus sentimentos, pensamentos e comportamentos e, motivado pelo interesse no desenvolvimento de sua individualidade, deve buscar identificar-se com o herói. Somente atendendo ao chamado da anomalia, que vive na fronteira entre o caos e a ordem, e pondo em risco sua própria segurança e enfrentando o desconhecido poderá o individuo identificar-se com o herói, ou seja, o Cristo, o Tao. Deixe de mentir a ti mesmo, faça com que seu coração te diga o que deve sinceramente fazer. Você não apenas será melhor, mas o mundo também o será. Que não tenhamos medo da responsabilidade a qual a anomalia nos chama.

 

Fonte: Jordan B. Peterson, Mapas de Sentidos, Editorial Planeta, Barcelona, Espanha, 2020.