3 de dezembro de 2007

O que os Santos Padres ensinam sobre as doenças

por Pe. Ambrósio (Alexey) Young

Este é o terceiro e último livreto da série "O que os Santos Padres ensinam sobre...", de autoria do Pe. Alexey Young, atual Hieromonge Ambrósio. Considerado pele seu pai espiritual, o Pe. Serafim Rose, como o melhor livreto da série, Pe. Ambrósio acompanhou de perto a trajetória do Mosteiro de São Germano do Alaska e seus monges. Ele é um convertido do catolicismo romano, tendo abraçado a fé cristã ortodoxa por influência dos monges desse mosteiro.

Introdução

Todas as pessoas, sejam cristãs ou não, sabem que cedo ou tarde serão acometidas por doenças e desconfortos físicos. A dor física é algo universal; ninguém escapa dela. Portanto, o que importa mesmo é nosso entendimento sobre as doenças, e não o sofrimento ou a intensidade delas. O entendimento é tudo.

Se acharmos que nossa vida deva ser encarada como se fossem longas e confortáveis “férias”, então qualquer sofrimento que surja nos parecerá insuportável. Mas, se enxergássmoes a vida como um tempo de aflição, correção e purificação, então o sofrimento se tornaria não apenas suportável, mas até mesmo útil.

Eis o que Santo Ambrósio de Milão ensina sobre a postura cristã diante das enfermidades: “Se a ocasião exigir, o homem sábio aceitará prontamente as enfermidades do corpo e até mesmo o oferecerá à morte, por amor a Cristo.... Este homem não é afetado em espírito nem sucumbe às dores do corpo caso sua saúde titubeie. Ele é consolado por sua batalha nas virtudes, rumo à perfeição” (Obras Exegéticas). Ao ouvir isto, o homem mundano provavelmente exclamará: “O quê?! Como pode um homem ‘aceitar prontamente’ as doenças e as enfermidades?”

Para um infiel, trata-se de algo realmente incompreensível. Ele é incapaz de conciliar o fato do sofrimento humano com seu próprio conceito de Deus. Para ele, a própria noção de que Deus permite a dor é repugnante; em geral, ele encara qualquer tipo de sofrimento como se fosse um mal no sentido absoluto.

Sem o auxílio da Revelação Divina, o homem é incapaz de compreender a origem e a causa da dor, muito menos seu propósito. Muitas pessoas, sem o devido auxílio do correto entendimento, são atormentadas pelo medo da dor, amedrontadas pelo pensamento de uma doença prolongada, e rapidamente saem em busca de alívio médico, pois crêem que a doença é fruto do acaso.

Se as enfermidades são apenas fruto do “azar” (o que até o bom senso afirma não ser assim, já que muitas doenças são resultado de uma vida imoderada), então é de fato permissível, e até mesmo desejável, utilizar de todos os meios disponíveis para evitar a dor proveniente da doença e mesmo a doença em si. Ademais, quando uma deonça se torna irreversível e terminal, a sabedoria mundana ensina que é aceitável acabar com a vida do paciente – a chamada eutanásia, ou “morte misericordiosa” – já que, segundo este ponto de vista, o sofrimento no leito de morte é inútil e cruel, e, portanto, “mau”.

Porém, mesmo em nosso dia-a-dia, sabemos que o sofrimento não é um “mal absoluto”. Por exemplo, quando nos submetemos ao bisturi do cirurgião para que uma parte enferma do corpo seja extirpada. A dor da operação é enorme, mas sabemos que ela é necessária para preservar a saúde e até mesmo a vida. Portanto, até sob um ponto de vsita estritamente materialístico, a dor pode servir a um bem maior.

Outra razão para que o sofrimento humano seja um mistério aos infiéis é o fato de que sua própria “idéia” de Deus é falsa. Eles ficam chocados quando lêem os Santos Padres dizerem: “Se Deus nos envia a fome, ou uma guerra, ou quaisquer calamidades, Ele o faz por causa de Seu imenso cuidado e bondade” (São João Crisóstomo, Homilia 7, Das Estátuas).

Eis o que o Ancião Macário de Optina escreveu a um amigo, na Rússia do século XIX: “Minha saúde está frágil como a tua, e não consigo deixar de sentir empatia por teu infortúnio. Mas a benevolente Providência não é apenas mais sábia do que nós: Ela também é sábia de uma maneira diferente. É este pensamento que nos dá sustento em todas as nossas provações, pois é um pensamento consolador como nenhum outro.”

Sábia de uma maneira diferente... É aqui que começamos a pereceber que o entendimento patrístico de Deus é contrário ao ponto de vista mundano. Na verdade, ele é único: não é especulativo, intelectual ou “acadêmico”. Conforme escreveu São Teófano, o Recluso: “O Cristianismo não é um sistema de doutrinas, mas sim uma via de restauração para o homem caído”. Portanto, o critério da fé – o conhecimento verdadeiro de Deus – não é intelectual. A medida da verdade, conforme escreveu o Professor Andreyev, “é a própria vida... Cristo falou a respeito disso de maneira clara, simples e definitiva: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14:6). Isto é, Eu sou o Caminho para se perceber a Verdade; Eu mesmo sou a Verdade encarnada (tudo o que digo é verdadeiro)... e Eu sou a Vida (sem Mim não pode haver vida)” (Apologética Cristã Ortodoxa). Isto tudo está muito longe da sabedoria deste mundo.

Podemos acreditar ou não nas palavras de Cristo a respeito de Si mesmo. Se acreditarmos, e agirmos segundo nossa fé, então poderemos começar a subir a escada do conhecimento vivo, de uma maneira como nenhum livro ou filósofo é capaz de ensinar: Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? (I Coríntios 1:20).

Uma das dificuldades de se compilar um manual dos ensinamentos patrísticos sobre as doenças é que elas não podem ser separadas da questão da dor (por exemplo: a dor e o sofrimento psicológico que resultam de guerras, fomes etc.). Alguns trechos do que dizem os Santos Padres a respeito das doenças também servem de alicerce para o ensinamento a respeito das adversidades, que será o assunto do quarto livro nesta série.

Outra dificuldade é que os Santos Padres às vezes utilizam palavras como “pecado,” “castigo” e “recompensa” sem se limitarem ao significado que nossa sociedade moderna lhes dá. Por exemplo, “pecado” é uma transgressão da Lei Divina. Mas, segundo o pensamento patrístico, também é algo mais do que isso: é um ato de “traição”, de infidelidade ao amor de Deus pelo homem e uma “violação arbitrária da união sagrada [do homem] com Deus” (Andreyev, Ibid.). O pecado não é algo que devemos entender dentro de um quadro estritamente legalista de “crime e castigo”; a infidelidade do homem é uma condição universal, não limitada a apenas esta ou aquela transgressão. Ele está sempre conosco, porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Romanos 3:23).

O relacionamento de Deus com o homem não está limitado às nossas idéias legalistas de recompensa e castigo. A salvação, que é o principal objetivo da vida cristã, não é uma “recompensa”, mas um dom dado livremente por Deus. Não podemos “adquiri-la” ou “merecê-la” por nada que façamos, não importa o quanto acharmos que somos piedosos ou modestos.

No dia-a-dia, é natural acreditamos que as boas ações devam ser recompensadas e os crimes punidos. Mas nosso Deus não “pune” com base nos padrões humanos. Ele nos corrige e castiga, da mesma maneira que um pai que ama seus filhos os corrige, ou seja, para lhes mostrar o caminho certo. Mas isso não é o mesmo que ser “condenado” a uma “pena” de dor e sofrimento por causa de algum crime cometido. Nosso Deus não é vingativo; Ele é a todo momento perfeitamente cheio de amor por nós, e Sua justiça nada tem a ver com os padrões de justiça humanos.

Ele sabe que não podemos nos aproximar dEle sem pureza de coração, e Ele também sabe que não podemos adquirir esta pureza a menos que estejamos livres de todas as coisas: livres do apego ao dinheiro e à propriedade, livres das paixões e do pecado, e até mesmo desapegados da súde corporal, se for este o obstáculo entre nós e uma verdadeira liberdade diante de Deus. Ele nos instrui, tanto através da Revelação quanto da correção, mostrando-nos como podemos adquirir esta liberdade, pois conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (João 8:32). Como ensina São João Cassiano:

Deus “te guia por um degrau ainda mais elevado, em direção àquele amor que é livre do medo. É através disto que tu começas a praticar naturalmente e sem esforço todas aquelas coisas que originalmente tu praticaras por temor a Deus e ao castigo, mas agora tu não mais as praticas por medo do castigo, mas por amor à própria Bondade, e ao deleite na virtude” (Institutos).

Tendo em mente este significado espiritual mais profundo de “pecado” e “castigo,” podemos continuar nosso estudo a respeito dos discursos divinamente sábios dos Santos Padres relativos às enfermidades, agradecendo a Deus, pois “nossa Fé foi feita segura por Santos sábios e inteligentes” (São Cosmas Aitolas), e “em verdade, conhecer a si mesmo é a coisa mais difícil de todas”, conforme ensinou São Basílio, o Grande. Os Santos Padres indicam o caminho. Suas vidas e escritos agem como um espelho através do qual podemos nos medir, oprimidos que estamos pelas paixões e enfermidades. As doenças são um dos meios pelos quais podemos aprender o que nós realmente somos.

I. A origem e a causa da dor

Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora.

Romanos 8:22



“O caminho da salvação que leva à vida eterna é estreito e apertado (Mateus 7:14). Ele é indicado tanto pelo exemplo santo de nosso Senhor como por Seu santo ensinamento. O Senhor profetizou a Seus discípulos e seguidores que no mundo, isto é, durante sua vida terrena, eles teriam tribulações (João 16:33; 15:18; 16:2-3).... Está claro que aflições e sofrimentos são lançados pelo próprio Senhor a Seus verdadeiros escravos e servos durante sua vida na terra” (Bispo Ignácio Brianchaninov, A Arena).

Mas por quê? Por que “aflições e sofrimentos”, juntamente com as doenças, são “lançados” a nós? O ensinamento dos Santos Padres mostra como o sofrimento deve ser compreendido no contexto do primeiro homem criado e sua subsequente queda em pecado.

No início não havia dor, nem sofrimento, nem enfermidades ou morte. O homem era “alheio ao pecado, às aflições, às preocupações e às grandes necessidades” (São Simeão, o Novo Teólogo, Homilia 45).

Se Adão e Eva não tivessem transgredido, “eles com o tempo teriam ascendido a mais perfeita glória e, devidamente mudados, teriam se aproximado de Deus...e da alegria e do júbilo com os quais, então, seríamos preenchidos através da irmandade um com o outro que, em verdade, seriam inefáveis e além do pensamento humano” (Ibid.). Portanto, não haveria sofrimento, não haveria doenças, e, consequentemente, não haveria necessidade de medicina.

“Mas quando o homem foi enganado e seduzido pelo perverso demônio...Deus veio ao homem como um médico vai a um homem doente” (São João Crisóstomo, Homilia 7, Das Estátuas). Deus desceu ao Éden à tardinha e perguntou a Adão, onde estás? (Gen. 3:9). Sua primeira manifestação ao homem após o pecado da desobediência não foi como a de um Juiz vingativo, “pois Deus, quando encontra um pecador, não pensa em fazê-lo pagar a pena, mas sim como corrigi-lo e melhorá-lo” (São João Crisóstomo, Ibid.).

O homem, a criatura, havia sucumbido à tentação de ser como Deus, o Criador – algo que vai de encotro a toda razão ou possibilidade. Este primeiro pecado não trouxe consigo a “divindade”, mas sim a dor, a doença e a morte – e não foi algo “por acaso”, mas sim por uma razão corretiva específica: para que o homem saiba, de uma vez por todas, que ele não é “como Deus”.

Portanto, o Médico Celestial “fez o corpo [do homem] sujeito a muitos sofrimentos e doenças, para que o homem pudesse aprender com sua própria natureza que ele não deve nunca mais pensar” que pode ser como Deus (São João Crisóstomo, Homilia 11, Das Estátuas). Deus disse a Eva: em dor darás à luz filhos (Gênesis 3:16); e a Adão: maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra (Gênesis 3:17,19).

É extremamente importante entender isto logo de início, pois se não compreendermos esta verdade a respeito da natureza do homem caído então nada mais do que os Santos Padres ensinam sobre este assunto fará sentido. Pelo contrário, “se pudermos entender isto, seremos capazes de aprender a respeito de nós mesmos e seremos capazes de conhecer a Deus e adorá-Lo como Criador” (São Basílio, o Grande, Hexaemeron). “O pecado gera o mal, e o mal gera o sofrimento”, escreveu o Professor Andreyev; “no entato, este mesmo sofrimento, que teve sua origem com Adão e Eva, é uma bênção para todos nós, pois nos obriga a compreendermos como nossa falta de fé em Deus é danosa para nossas almas, e até mesmo para nossos corpos” (Apologética Cristã Ortodoxa).

II. O Propósito das Enfermidades


E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.

Romanos 8:17


Nosso Salvador e os Santos Padres ensinam que a única procupação nesta vida deveria ser a salvação de nossas almas. O Bispo Ignácio ensinou: “A vida terrena – este breve período – é dado ao homem pela misericórdia do Criador para que o homem o utilize para sua salvação, isto é, para que se restaure da morte para a vida.” (A Arena). Portanto, devemos “olhar todas as coisas deste mundo como uma sombra passageira, e não nos apegarmos de coração a nada...pois não nos atentemos às coisas que se vêem, mas sim às que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, enquanto as que se não vêem são eternas” (São João de Kronstadt, Conselhos Espirituais). Para nós, cristãos ortodoxos, o centro das nossas vidas não é aqui, mas lá, no mundo eterno.

Quanto tempo viveremos, qual doença ou enfermidade precederá nossa morte – tais coisas não são preocupações adequadas a cristãos ortodoxos. Embora cantemos “muitos anos” uns aos outros nos nossos onomásticos e em outras celebrações, fazemos isso apenas porque a Igreja, em sua sabedoria, sabe que de fato precisamos de “muitos anos” para que nos arrependamos de nossos pecados e nos convertamos, e não porque ter uma vida longa tem algum valor em si. Deus não está interessado em nossa idade quando nos apresentarmos em Seu Julgamento, mas sim se nos arrependemos. Ele não está preocupado se morremos de ataque cardíaco ou de câncer, mas sim se nossa alma está saudável.

Portanto, “não devemos temer nenhum mal humano salvo o pecado; nem a pobreza, nem as doenças, nem os insultos, nem as malícias, nem a morte” (São João Crisóstomo, Das Estátuas), pois estes “males” são apenas palavras; eles não são reais para aqueles que vivem em função do Reino dos Céus. A única e verdadeira “calamidade” desta vida é ofender a Deus. Se tivermos esta compreensão básica do sentido da vida, então o significado espiritual das enfermidades físicas poderá se abrir para nós.

No capítulo anterior, aprendemos como o Deus Onisciente permitiu que o sofrimento entrasse no mundo de modo a nos mostrar que não passamos de criaturas. Esta é uma lição que ainda não foi aprendida pela raça de Adão, que, no seu orgulho, sempre busca ser como “deuses”: pois cada pecado é uma renovação do pecado dos primeiros homens, um afastamento voluntário de Deus para si próprio. Em verdade, nós nos colocamos no lugar de Deus, adorando a nós mesmo ao invés do Criador. Portanto, o sofrimento das doenças e enfermidades serve o mesmo propósito que tinha no começo: é, pois, um sinal da misericórdia e do amor de Deus. Como dizem os Santos Padres àqueles que estão enfermos: “Deus não vos esqueceu; Ele cuida de vós” (Santos Barsanúfio e João, Philokalia).

Ainda assim, é difícil aceitarmos que a doença possa ser um sinal do cuidado de Deus para conosco – isto é, a menos que compreendamos a relação que existe entre corpo e alma. O Ancião Ambrósio de Optina falou a respeito disso em uma carta à mãe de uma criança muito doente:

“Não devemos nos esquecer que em nossa era ‘sofisticada’, até mesmo as crianças pequenas são machucadas espiritualmente pelo que vêem e escutam. Por causa disso, a purificação é necessária, e isto apenas é realizado através do sofrimento físico... Você deve entender que a bem-aventurança do Paraíso não é concedida a ninguém sem sofrimento”.

São Nicodemos da Santa Montanha explicou que o homem é um ser dual, feito de corpo e alma, e que “há uma interação entre o corpo e a alma” (Conselhos), cada um agindo sobre o outro e, de fato, se comunicando um com o outro. “Quando a alma está enferma, nós geralmente não sentimos dor”, diz São João Crisóstomo. “Mas se o corpo sofre apenas um pouco, nós nos esforçamos ao máximo para nos livrarmos da enfermidade e sua dor. Portanto, Deus castiga o corpo em função dos pecados da alma, de modo que, castigando o corpo, a alma também possa receber alguma cura.... Cristo fez isto com o Paralítico quando disse: Eis que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior. O que aprendemos disto? Que a enfermidade do Paralítico havia sido produzida por seus pecados” (Homilia 38, Do Evangelho de São João).

Em certa ocasião uma mulher foi levada a São Serafim de Sarov. Ela estava terrivelmente debilitada, e não conseguia andar pois seus joelhos estavam dobrados até o seu peito. “Ela disse ao Ancião que havia nascido na Igreja Ortodoxa, mas após se casar com um dissidente, abandonara a Ortodoxia, e por sua infidelidade Deus a havia punido repentinamente... Ela não conseguia mover as mãos ou os pés. São Serafim perguntou à mulher enferma se agora ela acreditava em sua Mãe, nossa Santa Igreja Ortodoxa. Ao ouvir a resposta afirmativa, ele a mandou que fizesse o sinal da Cruz da maneira correta. Ela disse que não conseguia sequer levantar a mão. Mas quando o Santo orou e ungiu suas mãos e seu peito com óleo de uma lamparina de ícone, sua enfermidade imediatamente a deixou”. Eis que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior!

Este elo entre corpo e alma, pecado e enfermidade, é evidente: a dor nos diz que há algo de errado com a alma, que não apenas o corpo está enfermo, mas a alma também está. E é precisamente desta maneira que a alma comunica suas dores ao corpo, despertando o homem ao autoconhecimento e ao desejo de voltar-se a Deus. Lemos isto muitas e muitas vezes nas vidas dos santos, pois a enfermidade também nos ensina que o nosso “eu verdadeiro, aquilo que é principalmente o homem, não é o corpo visível, mas sim a alma invisível, o ‘homem interior’” (São Nicodemos da Santa Montanha, Moralidade Cristã).

Mas será que isto significa que o homem que continuamente goza de boa saúde está espiritualmente em “boa forma”? De modo algum, pois o sofrimento assume muitas formas, quer seja no corpo, na mente ou na alma. Quantas pessoas que possuem uma saúde excelente não lamentam que a vida “não vale a pena”? São João Crisóstomo descreve este tipo de sofrimento:

“Algumas pessoas pensam que gozar de boa saúde é uma fonte de prazer. Mas não é bem assim. Pois muitos que possuem boa saúde já desejaram mil vezes estarem mortos, não sendo capazes de suportar os insultos que lhes são infligidos... Pois mesmo que nos tornássemos reis e vivêssemos majestosamente, nos encontraríamos cercados por muitos problemas e tristezas... Por necessidade, os reis possuem tantas tristezas quanto há ondas no oceano. Portanto, se a realeza é incapaz de deixar a vida livre de tristezas, o que mais neste mundo poderia realizar isto? De fato, nada nesta vida” (Homilia 18, Das Estátuas).

Os protestantes frequentemente “determinam” saúde em “Nome de Jesus”. Eles consideram que saúde é algo do qual o cristão tem direito. Do seu ponto de vista, a enfermidade é resultado de falta de fé. Isto é exatamente o oposto do ensinamento ortodoxo, conforme ilustrado na vida de Jó no Velho Testamento. São João Crisóstomo diz que os santos servem a Deus não porque esperam receber qualquer tipo de recompensa, seja espiritual ou material, mas simplesmente porque amam Deus: “pois os santos sabem que a maior recompensa de todas é poder amar e servir a Deus.” Portanto, “Deus, desejando mostrar que não era por causa de alguma recompensa que Seus santos Lhe serviam, tirou de Jó toda sua riqueza, lançando-o à pobreza, e permitiu que lhe sobrecaíssem terríveis enfermidades”. E Jó, que não estava vivendo por nenhuma recompensa nesta vida, ainda assim permaneceu fiel a Deus (Homilia I, Das Estátuas).

Assim como as pessoas saudáveis não estão sem pecado, Deus também permite algumas vezes que os verdadeiros justos sofram, “enquanto modelo aos fracos” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores). Pois, como ensina São João Cassiano, “um homem é melhor instruído e formado por meio do exemplo alheio” (Institutos).

É o que constatamos no caso bíblico de Lázaro. “Embora sofresse de dolorosas feridas, ele nunca resmungou contra o Homem Rico nem nunca lhe pediu coisa alguma....Como resultado disto, ele encontrou repouso no Seio de Abraão, como alguém que aceitou humildemente os infortúnios da vida” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores).

Os Padres da Igreja também ensinam que a enfermidade é uma maneira pela qual os cristãos podem imitar o sofrimento dos mártires. Assim, nas vidas de muitos santos, sofrimentos físicos intensos lhes sobrevinham no fim de suas vidas para que, por seu justo sofrimento, eles pudessem atingir o martírio físico. Um bom exemplo disto pode ser encontrado na vida do grande defensor da Ortodoxia, São Marcos de Éfeso:

“Ele estava doente há quatorze dias, e a doença, como ele mesmo dissera, tinha sobre ele o mesmo efeito que aqueles instrumentos de tortura de ferro aplicados pelos carrascos aos santos mártires, como se rodeassem suas costelas e órgãos internos, pressionando-os e causando-lhe uma dor absolutamente insuportável; de modo que aquilo que os homens não conseguiram fazer com seu santo corpo de mártir acabou sendo realizado pela enfermidade, segundo o inefável juízo da Providência, de modo que este Confessor da Verdade e Mártir e Consquistador de todos os sofrimentos possíveis e Vencedor aparecesse diante de Deus após passar por todo tipo de sofrimento, e isto até seu último suspiro, como ouro provado na fornalha, e de modo que graças a isto ele possa receber honras e recompensas eternas ainda maiores do Justo Juiz” (The Orthodox Word, vol. 3, nº 3).

III. As Enfermidades e a Oração


Tu, que crês quando estás bem, cuidado para que não te afastes de Deus no tempo dos infortúnios.
São João de Kronstadt



Nosso Salvador nos ensinou: Pedí, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede, recebe (Mat. 7:7-8).

Portanto, quando estivermos doentes, devemos orar pedindo entendimento sobre nossa enfermidade, paciência para suportá-la e, se for a vontade de Deus, para sermos livres dela. Devemos também pedir as orações de outras pessoas e especialmente da Igreja, pois a súplica de um justo pode muito na sua atuação (Tiago 5:16).

“Qualquer pessoa que estiver doente deve pedir a oração de outras pessoas, para que sua saúde lhe seja restaurada; para que, através da intercessão de outros, nossos debilitados corpos e nossas titubeantes obras recuperem sua saúde.... Aprende, tu que estás enfermo, a adquirir a saúde através da oração. Busca as orações dos outros, roga à Igreja que ore por ti e Deus, por Sua consideração pela Igreja, dará aquilo que talvez Ele recusasse a ti” (Santo Ambrósio, Da Cura do Paralítico).

A maior oração pública da Igreja para aqueles que se encontram doentes é o Ofício da Santa Unção. Esse ofício, particularmente longo e repleto de trechos das Escrituras, e que contém diversas alusões a figuras bíblicas curadas pelo poder de Deus, fornece, de maneira concentrada, o ensinamento da Igreja sobre a cura.

Esse ofício chama a Cristo de “Médico e Ajudante do sofrimento”, invocando sobre a pessoa doente, por meio da unção, a graça do Espírito Santo, que cura tanto almas quanto corpos. Dado que Deus “misericordiamente nos deu ordens para desempenharmos a Santa Unção sobre seus servos doentes”, o próprio Cristo é tido como o “crisma incorruptível” que, nos velhos tempos, escolheu o ramo de oliva para mostrar a Noé que o Dilúvio havia terminado. (Desde os tempos antigos, o óleo de oliva era usado para produzir o Santo Óleo). Nos tempos do Dilúvio, o ramo de oliva simbolizava a tranquilidade e a segurança; é por isso que hoje o sacedote reza pedindo que o Salvador, por meio da “tranqüilidade do selo de Tua misericórdia [a unção com o óleo]”, cure o sofredor.

Reconhecendo que as doenças podem advir da atividade de poderes demoníacos, o sacerdote pede: “Que nenhuma interposição dos malignos demônios toque nos sentidos daquele que está marcado pela Tua divina unção”. Mostrando também que a Igreja admite a conexão entre pecado e sofrimento, o sacerdote roga para que, por meio dessa unção, o “sofrimento daquele que está sendo atormentado pela violência das paixões” possa ser eliminado.

Tal ofício explora diversos aspectos do pecado, do sofrimento e da cura; trata-se de um ofício profundo e muito exaltado de oração e intercessão. Há um ponto muito importante a ser ressaltado: durante a Santa Unção, imploramos a Deus para que remova a doença – mas, no lugar dela, pedimos que Ele dê “a alegria da satisfação” (ungir-se a si mesmo é chamado nos Salmos de óleo da satisfação), de maneira que a pessoa anteriormente doente possa agora “glorificar Teu divino poder”. Portanto, um dos propósitos da cura é permitir que o sofredor retorne ao serviço saudável e ativo a Deus. É dessa maneira que nosso Salvador curou a sogra de Pedro: imediatamente após a febre ter cessado, ela levantou-se e ministrou sobre eles. Trata-se de algo muito importante: quando nos livramos das tormentas das dores físicas, Deus espera que enchamos nossas bocas de louvor a Ele, que sirvamos a Ele corrigindo nossos pecados, que vivamos somente por Ele e pelo século porvir e que desprezemos este mundo.

Muitas pessoas só descobrem a oração quando estão doentes. E muitos participam piedosamente nas orações públicas da Igreja mas só descobrem, quando estão doentes, que desprezaram os tesouros da oração privada ou interior. São Gregório Nazianzo, um homem que rezava intensamente mesmo quando estava bem de saúde, durante sua última doença exclamou: “O tempo é ligeiro, a batalha é grande, e minha doença é severa, reduzindo-me quase à paralisia. O que mais me resta senão rezar a Deus?” (Cartas).

Na doença, a oração é capaz de reveler autênticos e duradouros tesouros, “pois se tu tens vigor corporal, a usurpação que a doença provoca interrompe qualquer alegria que possas ter desta fonte...porque tudo o que pertence a este mundo está sujeito à danação e é incapaz de nos dar prazer duradouro. Mas a piedade a as virtudes da alma são exatamente o contrário, pois sua alegria dura para sempre...Se tu verteres contínuas e fervorosas orações, nenhum homem será capaz de despojá-lo de seus frutos, pois tais frutos estão enraizados nos céus e protegidos de toda destruição porque estão além do alcance mortal” (São João Crisóstomo, Das Estátuas).

Dois acontecimentos das vidas dos santos mostram como a oração pode ser simples mas incorruptível. Na vida do Ancião Partênio, ficamos sabendo que, durante sua doença terminal, mesmo depois de ter recebido a Santa Unção, ele continuou a cumprir sua regra de orações, rezando todos os Salmos diariamente. No dia anterior a seu repouso, eis o que ele disse a seus filhos espirituais:

“Logo, logo partirei. Ontem eu já não consegui completar meus Salmos – só metade deles”.

“Quer dizer, Padre, que até ontem tu cumprias todas as orações como de costume?”

“Sim, o Senhor me ajudou; além disso, eu as rezo de memória; eu não consigo rezá-las com meus lábios; não consigo respirar; mas ontem eu não consigui rezá-las nem de memória, pois ela está falhando. Eu me apego apenas à Oração de Jesus e às orações à Mãe de Deus” (Orthodox Life, nº3, 1969).

E na vida de Santo Abba Dorotheus, lemos sobre a morte tocante de seu discípulo, São Dositheus, que permaneceu no mosteiro por apenas cinco anos, mas “morreu em obediência, jamais fazendo sua própria vontade e por apego”. Ele sempre praticava a Oração de Jesus, e quando sua doença tornou-se severa, Santo Abba Dorotheus disse-lhe:

“Dositheus, preste atenção à Oração; não deixe que se prive dela”.

“Muito bem, Padre”, respondeu o monge, “apenas reze por mim”.

Quando ele piorou ainda mais, Santo Abba Dorotheus disse-lhe:

“Bem, Dositheus, como está a Oração? Continua como antes?”

Ele respondeu-lhe: “Sim, Padre, pelas suas orações”.

Porém, quando a situação tornou-se extremamente difícil para ele e a doença ficou tão severa que teve de ser carregado numa maca, Santo Abba perguntou-lhe:

“Como está a Oração, Dositheus?”

Ele respondeu: “Perdoa-me, Padre, não consigo continuá-la”. Então, Santo Abba disse-lhe:

“Deixe a Oração, mantendo Deus em sua mente e representando-O a si mesmo como se Ele estivesse diante de ti” (The Orthodox Word, vol. 5, nº 3).

Um exemplo glorioso e inspirador a respeito do lugar que a oração deve ocupar em tempos de doença é o relato de São Gregório Nazianzo sobre a doença de seu próprio pai:

“Ele sofreu de doença e dor física, nos tempos da santa e ilustre Páscoa, a Rainha dos Dias, a brilhante noite que disspa as trevas do pecado. Explicarei rapidamente o tipo de doença que ele sofreu: todo seu corpo estava queimando em febre; suas forças lhe deixaram, ele não podia comer, seu sono o abandonara, e ele se encontrava muito perturbado. Sua boca tinha tantas úlceras que era difícil e até mesmo perigoso engolir água. O conhecimento dos médicos e a oração de seus amigos, por mais dedicadas e ardentes que fossem, bem como toda atenção possível, não lhe valeram de nada. Nesse estado desesperador, sua respiração era rápida e breve e ele não tinha percepção das coisas à sua volta.

“O horário da Divina Liturgia estava chegando, e a devida ordem e silêncio estavam sendo mantidos para os ofícios solenes. Neste momento, meu pai foi erguido por Aquele que ressuscita os mortos. Em princípio, ele se moveu lentamente, e depois de maneira mais confiante. Então, com voz débil e indistinta, ele chamou um servo pelo nome para que trouxesse suas roupas e o segurasse pelas mãos. O servo aproximou-se espantado e alegremente o acompanhou, enquanto ele, apoiando-se no servo como se fosse um cajado, imitou Moisés na montanha em oração...

“Ele retirou-se de volta à sua cama e, após comer e dormir um pouco, sua saúde lentamente foi se restaurando, de maneira que na primeira segunda-feira após a Páscoa ele já conseguia entrar na igreja...

“Durante sua doença, em nenhum momento ele estava livre da dor. Seu único alívio foi a Divina Liturgia, na qual sua dor cedeu, como que por decreto” (Da Morte de Seu Pai).

IV. A visão cristã sobre os remédios


Reconhecer-se como merecedor de castigo temporal e eterno precede o conhecimento do Salvador e leva ao conhecimento do Salvador.
Bispo Ignácio Brianchaninov



Quando perguntaram a São Basílio, o Grande, se ir ao médico e tomar remédios eram coisas compatíveis com a piedade, ele respondeu:

“Toda arte é um dom de Deus, feita para preencher aquilo que falta na natureza...Depois que fomos informados [nos tempos da Queda] que retornaríamos à terra de onde viemos – e fomos unidos a uma carne alvo de dor e destinada à morte, sujeita à doença por causa do pecado –, as ciências médicas nos foram dadas por Deus para aliviar a doença, mesmo que apenas um pouco” (As Regras Maiores).

Portanto, podemos recorrer a médicos e tomar remédios, pois essa ciência é um dom de Deus. “Deus nos deu as ervas da terra e suas drogas para a cura do corpo, ordenando que o corpo, que vem da terra, seja curado pelas diversas coisas da terra...Quando o homem caiu do Paraíso, ele imediatamente foi colocado sob a influência das desordens e enfermidados da carne...Deus, portanto, deu os remédios ao mundo para conforto, cura e cuidado do corpo, permitindo seu uso por aqueles que não conseguem confiar completamente em Deus” (São Macário, o Grande, Homilia 48).

Quando ir ao médico, e com qual freqüência, é uma questão de bom senso. Mas quando formos, não devemos “esquecer que ninguém pode ser curado sem Deus. Quem se entregar à arte da cura deve também submeter-se a Deus, e Deus então enviará ajuda. A arte da cura não é um obstáculo à piedade, mas tu deves praticá-la com temor a Deus” (São Barsanúfio e João, Philokalia).

“Depositar nossa esperança nas mãos mortais de um médico é ato digno de um animal irracional. Mas é precisamente assim que se comportam os infelizes que, sem hesitar, chamam seus médicos de ‘salvadores’...Por outro lado, é tolice rejeitar inteiramente os benefícios da arte médica” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores).

O Ancião Nectário de Optina aconselhava que devêssemos ir ao médico não para sermos “curados”, mas apenas para sermos “tratados” – reconhecendo assim que nesta vida jamais seremos perfeitamente “curados” ou “saudáveis”. E ao escrever a um amigo gravemente doente, o Ancião Macário de Optina disse:

“Dê-lhe [ao paciente] meus mais calorosos cumprimentos e desejos de que se recupere prontamente. Diga a ele também que mesmo que sua esperança e sua fé sejam fortes, ele não deve desprezar a ajuda de um médico. Deus é o Criador de todos os homens e de todas as coisas: não apenas do paciente, mas também do médico, da sabedoria do médico, das plantas medicinais e de seu poder curativo”.

São Basílio, o Grande, ensina que “definitivamente não devemos depositar nossas esperança de alívio da dor nos remédios, mas confiar que Deus não permitirá que sejamos provados além do que podemos suportar”. Ele se refere àquelas pessoas que correm ao médico por qualquer pretexto, e que se esquecem desta importante lição: “Façamos ou não uso das artes médicas, devemos nos apegar ao nosso objetivo de agradar a Deus e ajudar a alma, cumprindo este preceito: Quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus (I Coríntios 10:31)”.

Este Santo Padre explica também que “às vezes, quando Deus julga por bem, Ele nos cura em segredo, sem meios visíveis [tais como médicos e drogas]. Outras vezes, Ele quer o uso de remédios para nossas enfermidades”.

Portanto, “quando sofremos o golpe da doença nas mãos de Deus, devemos primeiro pedir a Ele entendimento, de maneira que possamos saber por que Ele nos infligiu tal golpe. Em segundo lugar, devemos pedir que ele nos livre de nossas dores ou, pelo menos, que nos dê paciência para aguentá-las”. De posse dessa postura, podemos de boa consciência buscar tratamento médico.

Porém, àquelas pessoas cuja confiança em Deus é muito forte e profunda, há um chamado maior: suas almas, percebendo seus pecados e o propósito da vida, “suportam todas as aflições que lhes são enviadas em silêncio e, se possível, sem recorrer aos remédios, cumprindo estas palavras: Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra Ele (Miquéias 7:9)” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores).

Este caminho de total entrega à Providência divina é muito elevado e difícil, e não é algo dado a todos os homens. Mas devemos ao menos conhecê-lo, para que evitemos a auto-satisfação e o “contentamento” com nossas próprias atitudes. É nas vidas dos santos monges que aprendemos tal caminho de abnegação e suprema confiança na vontade de Deus. O seguinte episódio da vida do Ancião Macário do Eremitério do Mar Branco demonstra como esse monge justo desdenhou a medicina terrena em favor da medicina celestial:

Após vinte e oito anos de severas batalhas monásticas, a incansável força desse monge e pai espiritual começou a fraquejar. No final de 1839, já tendo experimentado ataques de intensas doenças, ele não reclamava nem procurava auxílio médico. Quando seus dentes doíam muito, Ancião Macário tinha o costume de sentar-se à mesa, onde havia uma cesta com sobras de pão do jantar. Dessa cesta, ele tomava as migalhas e comia até última parte macia delas. Uma vez o monge encarregado do refeitório compeliu-o a revelar porque ele roia as crostas. "Os Santos Padres, disse Macário, comeram essas crostas com oração, e eu, um pecador, tocando essas crostas com minha boca pecaminosa, peço ao Senhor, que Ele, por Sua misericórdia, cure meus dentes doloridos e pelas orações dos Santos Padres, meus dentes melhoraram" (Orthodox Life, n° 16, 1971).

Essa confiança simples em Deus é comum entre as grandes almas. Uma simplicidade similar pode ser encontrada na vida do monge Marcos de Sarov. "Perto do fim de sua vida, o Ancião Marcos sofria muito por conta de suas pernas: por longos períodos permanecidos em pé, em oração, e por laboriosas caminhadas pela floresta, as pernas do Ancião Marcos tornaram-se hidrópicas, inchadas e cobertas de feridas, de modo que por algum tempo ele esteve incapaz de andar. Alguns dos irmãos de Sarov, sentindo compaixão pelo Ancião, por seu incômodo, aconselharam-no a procurar auxílio de médicos terrenos. "O Ancião, no entanto, não prestou atenção nesse conselho, e entregou-se complemente ao Curador Celestial de almas e corpos. Com fé, ele pegou algum óleo da lamparina que queimava diante do ícone da Santíssima Mãe de Deus da Fonte Vivificante, localizada na catedral do Eremitério de Sarov, venerado como óleo milagroso e ungiu suas pernas doentes com esse óleo. Para espanto geral daqueles que sabiam de sua doença, logo ele estava complemente curado pelo auxílio da graça da Mãe de Deus, que não o fez envergonhar-se de sua esperança" (Orthodox Life, n° 6, 1970).

Logo depois que foi para o Mosteiro de Sarov, São Serafim de Sarov caiu doente. De acordo com o livro "A Vida de São Serafim de Sarov," seu corpo inteiro inchou e ele jazia paralisado com grande dor, na sua cama dura. Não havia médico, e a doença não respondia a nenhum tratamento. Aparentemente era hidropisia. Durou três anos, e metade desse tempo, o sofredor gastou na cama. Mas ele nunca murmurou: Ele havia entregue a si próprio, completamente, corpo e alma, ao Senhor, e orava a Ele sem cessar. Receoso que a doença pudesse se mostrar fatal, o abade, Anciã Pacômio, propôs-lhe firmemente enviá-lo a um médico. Mas o Santo, com firmeza ainda maior recusou auxílio médico: "Eu me entreguei complemente, Santo Ancião, ao verdadeiro médico de almas e corpos, Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Imaculada Mãe. Mas se o Seu amor achar correto dê-me, pelo amor do Senhor, o Remédio Celestial [a Santa Comunhão]." Logo depois desse episódio, ele foi curado pela Mãe de Deus, que lhe apareceu numa visão junto com os Apóstolos Pedro e João.

Vivendo só para Deus e para a vida que há de vir, arrependendo-se a cada dia, desafiando-se constantemente a adquirir o Espírito Santo de Deus, homens e mulheres justos são capazes de usar seu sofrimento para subir ainda mais alto na escada da virtude, como fez o Hieromonge Partênio das cavernas de Kiev:

"Uma tosse sufocante não lhe dava descanso, e todos os seus ossos doíam. Mas ele continuava deitado, como antes, no banco estreito e duro, com um bom e paciente coração, apesar da sua grande enfermidade, dando graças ao Senhor por sua doença. Freqüentemente dizia: o que darei em troca ao Senhor por Ele ter me dado uma doença, além de todas as Suas outras bênçãos?" (Orthodox Life, n° 3, 1969).

V. A doença e a obra para a perfeição


Uma vida terrena sem pesares é um sinal claro de que o Senhor apartou Seu olhar do homem, e que esse homem está desagradando a Deus, ainda que externamente ele possa parecer reverente e virtuoso.
Bispo Ignácio Bríanchaninov



O padre asceta do deserto Santo Abba Dorotheus exorta seus discípulos a "ter o trabalho de descobrir onde eles estão: se eles deixaram suas cidades, mas ainda permanecem às suas portas, na lixeira, ou se foram avançaram muito ou pouco, se estão na metade do caminho, se andaram dois quilômetros para frente e dois para trás, ou mesmo cinco para frente e cinco para trás, ou se chegaram tão longe, na Cidade Santa e entraram na própria Jerusalém, ou se por acaso se encontram do lado de fora, incapazes de entrar" (Da Vigilância e Sobriedade).

A doença nos ajuda a ver "onde estamos" na estrada da vida: "A doença é uma lição de Deus e serve para nos ajudar em nosso progresso, se nós dermos graças a Ele" (São Barsanúfio e São João, Philokalia); "pois a regra número um que devemos observar é suportar todo golpe da doença com gratidão; pois elas nos são mandadas por causa de nossos pecados" (São João Crisóstomo, Homilia 38, De São João).

Ninguém deve usar a doença como uma desculpa para descansar dos esforços da vida espiritual. "Talvez alguns pensem que as doenças e a ausência de forças corporais retardem o trabalho da perfeição, já que os trabalhos e o dia-a-dia não podem continuar. Mas isso não é um obstáculo" (Santo Ambrósio, Jacó e a Vida Feliz).

Mesmo quando estamos presos na cama, temos que continuar a lutar contra as paixões, produzindo valiosos frutos de arrependimento. Esse trabalho de perfeição requer que adquiramos paciência e resignação. Que melhor meio de conseguir isso do que quando estamos presos por uma doença, na cama? São Tikhon de Zadonsk diz que no sofrimento podemos descobrir se nossa fé é viva ou só "teórica". O teste da verdadeira fé é a paciência no meio do sofrimento, pois "paciência é a armadura dos cristãos." "O que é seguir a Cristo?" ele pergunta. É "suportar todas as coisas, olhando para Cristo que sofreu. Muitos querem ser glorificados com Cristo, mas poucos buscam permanecer com o Cristo sofredor. Não apenas com tribulação, mas com muita tribulação entra-se no Reino de Deus."

Para aqueles que supõem que só podem progredir na vida espiritual quando todo o resto está "bem," São João Cassiano replica: "Vós não deveis pensar que possais encontrar virtudes quando não estiverdes irritados, pois não está em vosso poder evitar que ocorram problemas. Deveríeis, ao invés, procurar com paciência o resultado de vossa humilhação e resignação, pois a paciência depende de vossa vontade própria" (Institutos). Próximo do final de sua vida, São Serafim de Sarov sofreu de ulceração nas pernas. "Mesmo assim", conforme está registrado em sua biografia, "sua aparência era sempre radiosa e alegre, pois em espírito ele sentia aquela paz e júbilo divinos, que são as riquezas da gloriosa herança dos santos".

"Vós sois atacados por essas doenças", dizem os Santos Padres, "para que não partais esterilmente a Deus. Se puderes suportar e agradecer a Deus, essas doenças serão contadas a vosso favor, como trabalhos espirituais" (São Barsanúfio e João, Philokalia). O Bispo Teófano, o Recluso, explica: "suportando coisas desagradáveis com alegria, vós vos aproximais um pouco dos mártires. Mas se vós vos queixais, não só perdereis vosso compartilhar com os mártires, mas ainda sereis responsáveis por mais queixas. Por isso, alegrai-vos".

Para que nosso coração não fraqueje quando cairmos doentes, devemos mentalmente "beijar os sofrimentos de Nosso Salvador e imaginar como se estivéssemos com Ele enquanto Ele sofre abusos, ferimentos, humilhações...vergonha, a dor dos cravos, o furo da lança, o escorrimento de sangue e água. Se agirmos assim, receberemos consolação em nossas doenças. Nosso Senhor não permitirá que esses esforços fiquem sem recompensa" (São Tikhon de Zadonsk).

O Ancião Macário de Optina escreveu sobre isso a alguém que estava doente: "Gostei muito de saber por seus parentes que estás bravamente suportando o cruel flagelo de tua grave doença. Na verdade, assim como o homem da carne perece, o homem espiritual é renovado."

E para outro ele escreveu: "Louvado seja o Senhor por tu aceitares a tua doença tão mansamente! Suportar a doença com paciência e gratidão é algo altamente reconhecido por Ele, que freqüentemente recompensa os sofredores com Seus dons não perecíveis".

Pondere essas palavras: "ainda que nosso homem externo pereça, o homem interno é renovado".

Santo Ambrósio de Milão comparou um corpo enfermo com um instrumento musical quebrado e explicou como o "músico" poderá ainda produzir "música" agradável a Deus, sem seu instrumento: "Se alguém costuma cantar acompanhado por uma harpa e encontra a harpa quebrada, com suas cordas partidas... ele põe de lado a harpa e ao invés de procurar por suas notas, ele se delicia com sua própria voz”.

"Da mesma maneira, um homem doente pode colocar seu corpo de lado. E, assim, encontrar prazer no coração e conforto no conhecimento de que sua consciência está limpa. Ele se sustenta com as palavras de Deus e com os escritos proféticos, e mantendo essa doçura e alegria na alma, ele as abraça com a mente. Nada pode acontecer a ele porque a presença cheia da graça de Deus sopra a favor dele... ele está preenchido com tranqüilidade espiritual" (Jacó e a Vida Feliz).

É muito freqüente que as "músicas" espirituais mais agradáveis a Deus sejam produzidas no anonimato, por santos desconhecidos ou quase desconhecidos, porque tais "melodias" são as mais doces, pois são ouvidas somente por Deus. Uma dessas sofredoras modernas que viveu uma vida angelical, apesar de avançada e terrível moléstia, foi a Santa Nova Mártir da Rússia, Madre Maria de Gatchina.

Madre Maria sofria de encefalite (inflamação do cérebro) e de Mal de Parkinson. "Seu corpo todo se tornou imóvel como se estivesse acorrentada, sua face anêmica como uma máscara; ela podia falar, mas começou a falar com a boca semi-fechada, entre dentes pronunciando vagarosa e monotonamente. Ela estava complemente inválida e com necessidade constante de ajuda e de cuidadosa atenção. Normalmente, essa doença desenvolve-se com profundas modificações psicológicas, de maneira que freqüentemente tais pacientes terminam em hospitais psiquiátricos. Mas Madre Maria, fisicamente inválida, não só não degenerou psiquicamente, como ainda revelou extraordinários aspectos de personalidade e caráter não característicos de tais pacientes: tornou-se extremamente mansa, humilde, submissa, não exigente, concentrada em si própria; ela entrou em oração constante, suportando sua difícil condição sem o mais leve murmúrio.


"Como se fosse uma recompensa por sua humildade e paciência, o Senhor concedeu-lhe um dom: consolação dos aflitos. Pessoas completamente estranhas e desconhecidas encontrando-se em aflição, desconsolo, depressão, desânimo e desespero começaram a visitá-la e conversar com ela. E todos saíram consolados, sentindo seus pesares iluminados, sua aflição pacificada, seus medos acalmados, sua depressão, desânimo e desespero afastados " (Orthodox Word,vol. 13, n°3).

"Assim Deus agiu. Como um Pai providencial e não como um seqüestrados, Ele primeiro nos envolveu em coisas pesarosas, dando-nos tribulações para que, sendo purificados e temperados por essas coisas, nós possamos, depois de mostrar paciência e aprendizado e rígida disciplina, herdar o Reino dos Céus" (São João Crisóstomo, Homilia 18, Das Estátuas).

VI. Oração de Nosso Santo Padre Ambrósio, Bispo de Milão

Santo Ambrósio atribuía essa oração ao Apóstolo Mateus, por ocasião de sua conversão.

Só a Ti eu sigo, Senhor Jesus, que cura minhas feridas. Pois o que poderá me separar do amor de Deus, que está em Ti? Será tribulação ou distração ou fome? Estou preso como que por pregos, e algemado pelas correntes da caridade. Remove de mim, ó Senhor Jesus, com Tua potente espada, a corrupção de meus pecados. Mantém-me preso às ataduras de Teu amor; corta fora o que é corrupto em mim. Vem rápido e dá um fim em minhas muitas, ocultas e secretas aflições. Abre a ferida para que o veneno maligno não se espalhe. Com Teu novo lavagem, limpa-me de tudo que está maculado. Ouvi-me, ó homens terrestres, que em nossos pecados criam pensamentos bêbados: eu encontrei um Médico. Ele habita no céu e distribui Suas curas na terra. Só Ele pode curar minhas dores, Ele que não tem nenhuma. Só Ele, que conhece o que está escondido, pode me livrar da aflição de meu coração e do medo de minha alma - Jesus Cristo. Cristo é graça, Cristo é vida, Cristo é Ressurreição! Amém.