Se o curso instaurado pela razão e a própria
vontade conduzissem ao porto da filosofia, único ponto através do qual se
pode alcançar a região da vida feliz, não sei se afirmaria temerariamente
que bem poucos seriam os que conseguiriam chegar a esse porto. Quão poucos
saberiam com que empenhar-se e através de que recursos retornar, a não ser que
vez por outra, contra sua vontade e na medida em que lutam em direção oposta,
alguma procela [tempestade violenta], vista pelos tolos como adversa, não impelisse
violentamente os ignorantes e errantes para a terra imensamente desejada.
Falamos corretamente dizendo que as mentes
daqueles que não foram instruídos em qualquer disciplina nada conseguem
absorver das boas artes, sofrem de jejum e de fome. Trigésio interveio: julgo
antes que seus ânimos estão cheios, mas de vícios e também de devassidão (nequitia).
Creia-me, disse eu, que essas coisas para o espírito não passam de certa
esterilidade e fome. Pois, do mesmo modo que o corpo, uma vez tendo-lhe sido
suprimido o alimento, via de regra acaba cheio de doenças e pruridos, que
indicam nele uma fome aguda, do mesmo modo os espíritos daqueles estão repletos
de doenças, devidas à sua falta de alimento. Assim, os antigos entenderam que
essa devassidão deveria ser chamada de a mãe de todos os vícios, pelo fato de
ser vã, isto é, por ser a partir daquilo que nada é. A virtude contrária a esse
vício se chama de frugalidade. Essa palavra vem pois de frux (frugis),
quer dizer, fruto, em virtude de certa fecundidade dos espíritos; assim como
aquela provém da esterilidade, isto é, do nada (nihil) e por isso é
chamada de devassidão (nequitia). Nada é pois aquilo que flui,
que se dissolve, que se liquefaz, e de certo modo sempre perece e se perde. É
por isso que dizemos também que tais pessoas estão perdidas. Algo é,
portanto, se permanece, fica constante, se é sempre o mesmo, como é o caso da
virtude. A parte magnânima e a mais bela da virtude é o que se chama de temperança
e frugalidade.
Eu disse então: o que deve conseguir alcançar
o homem para ser feliz? Pois, na minha opinião, o que deve conseguir
alcançar o homem feliz é poder ter aquilo que quer. [O querido não é mero desejo, intenção, impulso, veleidade, pois nestes casos as ideias opostas ainda são contempladas como possíveis. N.
do E.] Isso deve ser algo sempre permanente e que não depende da fortuna e do
acaso. Isso porque não podemos ter quando queremos nem pelo tempo que queremos
tudo que é perecível e mortal. A pessoa que teme não me parece ser feliz. E
portanto se alguém pode vir a perder o que ama, pode por acaso não temer? Não
pode. Aqueles bens fortuitos, portanto, podem vir a ser perdidos. Quem os
ama e possui, portanto, de modo algum poderá ser feliz. Ora, se alguém dispusesse
da abundância de todos esses bens e estivesse cercado deles, e viesse a
estabelecer um limite àquilo que deseja, de maneira decente, desfrutando
contente e alegre daquilo de que dispõe, não te parece ser feliz? Não seria
feliz, disse ela, por causa daquelas coisas, portanto, mas por causa da
moderação (moderatio) de seu espírito. O que vos parece [ser feliz],
disse eu, é eterno e permanece para sempre? Então, quem tem Deus, disse eu, é
feliz.
Possui a Deus quem vive bem. Possui a Deus
quem faz aquilo que Deus quer que seja feito. Possui a Deus aquele que não tem
um espírito impuro (cf. Mt 5,8). E ninguém é sábio se não for feliz.
Suponhamos existir um homem muito rico,
extremamente agradável e encantador, a quem jamais nada faltou daquilo que
desejasse, nem beleza nem saúde boa e perfeita. Mesmo que eu concorde que ele não
deseje ter mais do que possui, coisa que não saberia como possa acontecer num
homem não sábio, ele temeria, porém, que uma adversidade inesperada pudesse vir
a roubar-lhe todos esses bens.
Seguramente não pode haver indigência
maior e mais miserável do que ser indigente de sabedoria. A sabedoria nada mais é que a medida do espírito, isto é, aquilo
pelo que o espírito busca o equilíbrio de modo que não incorra no excesso e nem
tampouco se restrinja ao que é inferior à plenitude.
Ele é a Verdade. Todo aquele que
chegar à medida suprema pela verdade é feliz. Portanto, a saciedade plena dos
espíritos, isto é, a vida feliz é conhecer piedosa e perfeitamente: por quem
somos conduzidos para a verdade; qual a verdade de que fruímos; através do que
somos ligados com a medida suprema.
Fonte: Santo
Agostinho, Sobre a vida feliz, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, Brasil,
2014. Trechos selecionados e adaptados.
