O psiquiatra português Narciso Irala nos
lembra que a atividade mental é dupla: ou é receptora (sensações conscientes em
uma atenção suave), ou é emissora (ideias conscientes em uma atenção ativa).
Mas o núcleo dessa observação está no fato de que não podemos ser
simultaneamente receptores e emissores e, por isso mesmo, boa parte do que ele
chama de “controle cerebral” reside na tomada de consciência dessa
unidirecionalidade.
No entanto, por mais perfeita que seja a atenção,
nos é simplesmente impossível mantê-la contínua no transcurso do tempo. Haverá
necessariamente alguma interrupção seja de qual natureza for. Eis que a paz,
não mais advinda da emissividade, terá por imposição advir da receptividade.
A vontade precisa de alimentos saudáveis
A atenção tem raiz na vontade, a maior das energias psíquicas humanas. Grosso modo a
vontade opera em duas fases: a deliberação e a decisão. Na deliberação há certa
tensão, certa energia acumulada, e na decisão (no “querer”) tal energia é
descarregada. Tudo o que é inferior à decisão é ineficaz à vontade: o desejo, a
intenção, o impulso, a veleidade (desejo fraco).
Para “tonificar” a vontade para torná-la eficaz,
prática, Irala elenca algumas técnicas, mas o fundamental aqui é que se chegue
a um ponto em que todas as ideias opostas sejam impossíveis.
A imaginação é a louca da casa
Outro fator que nos furta a atenção são os
sentimentos e emoções. Se deixam de ser ligeiras e
passam a incrustar-se na alma, elas influenciam a personalidade e desviam a atenção
e, por conseguinte, a paz e a alegria. A emoção, assim como a inteligência e a
vontade, é causada pelo eu. Ela é resultado da maneira como a felicidade é
simbolizada pela pessoa, seja conforto, saúde, riqueza, ideal, virtude,
honra. O problema surge quando não é a inteligência que está no centro da
personalidade, mas a imaginação. Frequentemente, por sua natureza fugaz e
imediata, a imaginação sequestra a atenção e passa a assediar a mente com fixações
e obsessões. É na obsessão que se instala o escrúpulo (receio moral que se
manifesta como cuidado extremo, zelo). A pessoa guiada pela imaginação deixa
gravada em seu subconsciente uma tendência permanente que só poderá ser aliviada
mediante distrações, sob pena de instalar-se a insegurança e a tristeza que lhe
tiram a paz e a tranquilidade. Quando a inteligência deixa de governar a
personalidade, a vontade ficará à mercê da imaginação.
A felicidade é a consciência de um bem
A ideia de que a felicidade é algo que podemos
“encontrar” é absurda. A felicidade não é uma coisa, mas um estado que se constrói,
segundo Aristóteles, mediante atos perfeitos. Um ato é perfeito quando nos faz
avançar em direção ao nosso ideal. O ideal é tem um lado objetivo (ciência,
arte, filosofia) e um lado subjetivo (anseio intenso).
O segredo aqui é dar uma unidade ao ideal.
Irala chama essa prática de monoideísmo, mas com uma conotação positiva.
O ideal que nos faz pensar constantemente no que muito ansiamos é fonte de
descanso e alegria. O que quer que elijamos como ideal tem de (1) estar de
acordo com o bem total (“fim último”), isto é, com a preparação desta vida
para a outra vida, (2) estar de acordo com nossas aptidões e (3) se
encontrar fora e acima de nós (do contrário, “Carlitos é um pequeno
estado limitado ao norte, sul, leste e oeste por Carlitos”).
Fonte:
Narciso Irala, Controle cerebral e emocional, Edições Loyola, São Paulo,
SP, Brasil, 1970.
