13 de fevereiro de 2023

Alquimia


O filósofo suíço Titus Burckhardt, conhecido no meio perenialista por suas obras de estilo claro e conciso, escreveu em 1960 um livro sobre alquimia que rapidamente se tornou referência entre os estudiosos de religiões comparadas e do público em geral. O objetivo aqui não é apresentar os detalhes da obra, os quais o leitor faz bem em consultar diretamente a fonte, mas fornecer um panorama geral do que o autor entende ser a essência da alquimia.

Alquimia não tem a ver exatamente com transformar metais comuns em ouro, nem com a ideia de que a alquimia teria sido uma precursora da química moderna. Embora ambas as posturas de fato existiam de certa maneira no meio alquímico, Burckhardt as denuncia como fruto do preconceito moderno contra as antigas artes esotéricas, cujo objetivo se encontra mais além dos fins meramente utilitários e imediatos que a modernidade pressupõe.

De início, a título introdutório, Burckhardt salienta o fato de que o espírito humano, ao afastar-se da multiplicidade das coisas do mundo e ao mesmo tempo ao aproximar-se da unidade indistinta, ganha uma nova “visão” que não poderia ser detalhada e analisada tal como a visão que temos deste mundo. No entanto, este mundo passa a ser-lhe transparente, e o que deixa transparecer é o brilho dos arquétipos eternos, ou, caso a visão ainda não tenha se estabelecido por completo, deixa entrever ao menos os símbolos neste mundo que despertarão a “memória” ou a “intuição” desses arquétipos. Eis o que Burckhardt chama de “contemplação hermética da natureza”. Portanto, a despeito de ser uma visão vertical exata dos arquétipos, será necessariamente uma visão horizontal inexata do cosmo.

Ora, se os arquétipos “reúnem” a multiplicidade do mundo, ademais das possibilidades de manifestação que lhes são próprios, é justo que nos perguntemos o que causa essa multiplicidade. Trata-se, claro, da matéria, pois é ela o elemento passivo e receptivo de toda manifestação. No entanto, e aqui está um elemento importante para entender os processos alquímicos, a “matéria psíquica” também se comporta assim, ou seja, ela é similarmente o polo passivo e receptivo da alma.  Por outro lado, o polo essencial, formal, da alma é o espírito. Quando o espírito se projeta sobre uma matéria psíquica, imprime nela a “forma pessoal” da alma e, assim, constitui o ser pessoal. Assim como a luz de um ambiente se projeta em todos os lados, mas ao atingir uma superfície qualquer o raio de luz se reflete de acordo com as características dessa superfície, assim também o espírito ganha certa "pessoalidade" ao projetar-se sobre uma matéria psíquica. Assim, não é descabido nos referirmos a esse “espírito refletido” como o espírito pessoal do ser individual em questão.

Para que a alma se livre de suas turbações é preciso que alma e espírito se livrem de seus vínculos toscos e superficiais. É como se ambos se divorciassem para se casarem novamente depois. Tipicamente, a matéria amorfa se põe ao fogo, derrete, purifica e, finalmente, concreta-se em um cristal perfeito. Aqui entra uma curiosa associação entre a alquimia e a astrologia, já que ambas derivam do mesmo legado hermético, assim como a Terra e o Céu se relacionam entre si. Enquanto o astrólogo indica o significado do zodíaco e os planetas, o alquimista indica o significado dos elementos e os metais. Os doze signos do zodíaco são uma imagem simplificada dos arquétipos que, de forma imutável, contém o espírito. Por outro lado, os elementos fogo, ar, água e terra mostram materialmente as diferenças fundamentais da materia prima (cabe não confundir materia prima, conforme entendido pelos escolásticos e pelos adeptos do perenialismo, com a matéria-prima da indústria moderna; cf. RenéGuénon). Observe, portanto, que “acima” estão os astros, que “espelham” o espírito, e “abaixo” estão os elementos, que “espelham” a matéria. À medida que os planetas se situam em suas distintas posições mútuas, eles “realizam” as possibilidades contidas no zodíaco, representando temporalmente as possibilidades contidas nesse zodíaco, representando assim os modos de operar do espírito que “descende” do Céu à Terra. Da mesma forma, os metais (prata, mercúrio, cobre, ouro, ferro, estanho, chumbo) são os primeiros frutos da materia prima maturados pelo espírito. Em suma, as propriedades cósmicas se manifestam ativamente nos planetas e passivamente nos metais. Por ser passivo e inerte, os metais expressam um estado de conhecimento íntimo, desligado de formas racionais, isto é, trata-se de um conhecimento interior do próprio corpo caótico, opaco, embaçado pelas paixões e hábitos. No corpo, a alma e o espírito encontram-se como que “viscosos”, obscurecidos, misturados com a terra; no entanto, uma vez purificado, o “metal nobre” adquire um modo de existência espiritual.

No entanto, para converter os metais comuns em prata e ouro é necessário antes reduzi-los à sua materia prima. Assim também é necessário que a alma se livre de suas concreções e contradições interiores sob pena de não ser dúctil o bastante para que o espírito lhe imprima uma nova forma. A materia prima da alma é a substância básica da consciência, mas, também, é a substância de todas as almas e de todo o cosmo. Mas que não pense o leitor que a alquimia tenha qualquer valor psicoterápico. Não se trata disso, mas, pelo contrário, o alquimista necessita antes dissolver suas inibições e “complexos” preexistentes para estar apto a executar a obra alquímica. A redução alquímica da alma, ou seja, a redução do consciente diferenciado (individualizado) ao consciente indiferenciado, produz um obscurecimento da alma, uma entrada a um estado caótico, a um estado que Burckhardt chama de “matéria bruta” (me parece algo semelhante à materia secunda dos escolásticos), estado no qual a alma, embora não esteja em seu estado de pureza original (não é materia prima), contém possibilidades diferenciáveis, ou seja, possibilidades ainda não definidas de maneira clara e ordenada. Mas o consciente descobrirá, mais adiante, o “fundo da alma”, ou seja, o espelho da alma humana, a materia prima, capaz de refletir a luz do espírito universal de maneira límpida. Assim, o caos da alma, a “matéria bruta”, é como o chumbo, e o fundo da alma é como a prata.

A materia prima, como essência receptiva, é afim à Natureza, ou seja, à “força unitária” que dá ritmo universal tanto ao mundo exterior quanto ao mundo interior. É a shakti, que, segundo Burckhardt, abraça amorosamente a todos os seres e, ao mesmo tempo, tiraniza todos os seres com sua força destruidora, com a morte, com a ação do tempo e do espaço. A cor da shakti é escura. A Natureza é a força motriz das transmutações, é a “energia potencial” das coisas. Aqui cabe observar que a obra da Natureza, da shakti, é uma ininterrupta sucessão de dissoluções e cristalizações, na qual a dissolução é apenas um primeiro passo para a conjunção de uma nova forma na matéria. Similarmente, o alquimista, sob o lema solve et coagula, dissolve as concreções imperfeitas da alma, as reduz à sua matéria e as cristaliza novamente em uma forma mais nobre. Mas como isso ocorreria? Ora, a obra só pode ser realizada em harmonia com a Natureza, com a shakti, como se ela provesse uma espécie de “vibração” espiritual engendrada durante a obra e que enlaçasse o reino humano com o reino cósmico. Na Natureza, o enxofre alquímico representa o polo ativo e o mercúrio representa o polo passivo, e não é difícil deduzir que a relação mútua de ambos polos é simular à relação sexual do homem com a mulher. Por conseguinte, na psique humana, o enxofre denota o espírito, a vontade, enquanto o mercúrio denota o aspecto receptivo, passiva ou “plástico” da alma. Da perfeita união de ambas as causas procriadoras nasce o ouro. No campo físico a Natureza se manifesta em quatro propriedades, a saber: calor e secura (enxofre) e frio e umidade (mercúrio).

Aqui cabe citar Burckhard textualmente:

As quatro propriedades naturais ou modos de operação associados, respectivamente, com enxofre e mercúrio, podem, de acordo com o ciclo de cristalizações e dissoluções, ser variadamente ligados entre si. A geração só ocorre quando as propriedades do enxofre e do mercúrio se interpenetram. Se a secura do enxofre se unir exclusivamente ao frio do mercúrio, de modo que a fixação e a contração se acumulem sem que o calor expansivo do enxofre e a umidade resolutiva do mercúrio neutralizem a combinação, então um congelamento é produzida em todo o organismo psíquico ou corporal; no plano vital é o congelamento da velhice, e no plano ético, a ganância; de forma mais geral e ao mesmo tempo profunda, é a limitação da consciência individual a si mesma, o estado de morte da alma que não conservou sua receptividade e vitalidade originais em relação ao espírito ou ao mundo dos objetos. Ao contrário, uma associação exclusiva das propriedades calor-umidade, ou expansão-dissolução, determina a volatilização das forças; equivale ao estado de dissolução da paixão, do vício e da dispersão do espírito. É significativo que ambos os desequilíbrios geralmente se manifestem ao mesmo tempo. Ocorre que um engendra o outro: o congelamento das potências da alma leva à dispersão, e o fogo de uma paixão desenfreada causa a morte interior; a alma mesquinha em si mesma e fechada ao espírito será arrastada pelo turbilhão das impressões que se dissolvem. O equilíbrio criativo é alcançado quando a força expansiva do enxofre e a força adstringente do mercúrio mantêm o equilíbrio no fiel da balança, enquanto a força fixadora do elemento masculino se liga frutuosamente com a faculdade resolutiva do feminino. Este é o verdadeiro "casamento" de ambos os polos.

O alquimista alcança a plenitude graças à obra hermética, pois ela domina as forças primordiais do enxofre e do mercúrio que nele se encontram em estado de “matéria bruta”, caótica e latente em sua alma. O corpo do alquimista serve de ponto de apoio da obra, desde que esteja limpo das febres da paixão, pois será ele que atuará como “ponte” objetiva ente o microcosmo humano e o macrocosmo e permitirá ao alquimista atingir um estado contemplativo.

Do ponto de vista psicológico, o ego não apenas não é o núcleo da personalidade como é algo que separa a consciência (eu) da luz do espirito puro, ou seja, é o ego que impede que a luz atinja a consciência. A Psicologia é por definição incapaz de observar a luz porque a alma humana é incapaz de sair de si mesma e observar sua própria fonte, assim como é impossível iluminar o sol com um espelho. Portanto a consciência, o campo psíquico, encontra-se como que envolta por dois inconscientes: um inconsciente espiritual (cf. Jean-Claude Larchet), que vem de cima e é impenetrável, e um inconsciente inferior, que vem de baixo, e em si é amorfo e puramente potencial.

A obra alquímica se divide em fases, as quais Burckhardt relaciona com a cosmologia hindu. Novamente vale a pena ler tal descrição em suas próprias palavras:

Sem dúvida a divisão mais antiga é a que designa as fases ou etapas da obra com cores, e possivelmente se deriva de um determinado processo metalúrgico, como a limpeza e coloração de um metal. A partir do enegrecimento (melanosis, nigredo) da matéria ou da “pedra” se dá o branqueamento (leucosis, albedo) e, por fim, a vermelhidão (iosis, rubedo). [...] É curioso que as três cores básicas – negro, branco e vermelho – designem, na cosmologia hindu, os três movimentos básicos (gunas) da materia prima (prakriti), a saber: o negro se associa ao movimento que se aparta da luz original e que simbolicamente se dirige para baixo (tamas); o branco representa a ascensão em direção à luz da origem (sattwa), e o vermelho simboliza a tendência à expansão no plano da própria manifestação (rajas). Se transferimos estes significados à obra alquímica, nos surpreende que seja o vermelho e não o branco a cor que represente o resultado final, enquanto a doutrina hindu do cosmo estabelece que, primeiro, tamas, a força descendente, se ancora na obscuridade; então rajas, ao estender-se em sentido horizontal, desenvolve a pluralidade, e, por fim, sattwa sobe como uma chama branca e luminosa e a devolve à sua origem. No entanto, precisamente as três cores alquímicas na cosmologia hindu indicam com clareza o ponto de vista da alquimia e o alcance de seu simbolismo. Depois da “espiritualização do corpo” que, de certa forma, representa o branqueamento e que procede o enegrecimento ou putrefação, se produz, finalmente, a “corporificação do espírito”, com sua cor púrpura.

Portanto, Burckhardt conclui que a transformação de metais comuns em ouro não é o verdadeiro propósito da alquimia. Pelo contrário, quem persegue este objetivo jamais o obterá. O que o alquimista deve almejar é que a obra, a obtenção do elixir, sirva de apoio simbólico à sua transformação interior. Burckhardt não descarta a possibilidade, bastante plausível em sua opinião, de que o alquimista, portador já do “ouro” em seu interior, obtenha ouro também na obra alquímica, ou seja, que se realize uma transformação metalúrgica a partir de uma transformação espiritual. Tal opinião se sustenta na ideia de que tal “milagre” não seria menos espantoso do que o milagre da transformação interior. O salto que se produz no interior do homem, que necessariamente tem de contar com a ajuda do Alto, também pode perfeitamente se produzir na obtenção do ouro na obra alquímica.

Fonte: Titus Burckhardt, Alquimia, Plaza & Janes Editores, Esplugas de Llobregat, Espanha, 1976.