25 de maio de 2016

A vida humana não é séria



Pobreza intelectual é a mente desprovida da verdade, do conhecimento de si e do alcance de seus pensamentos e ações. A escolha deliberada em não conhecer as coisas mais importantes começa quando a mente rejeita todo e qualquer padrão que não seja ela mesma. Ela vislumbra sua vida espiritual como algo que se edificou a si mesmo, que se construiu sozinho. A rigor, a mente não pode “fazer” nada errado, pois é ela quem define o que é certo e errado. Da mesma forma, ela não pode perdoar ou ser perdoada porque isso implicaria que existiria uma fonte e uma medida fora de si.  A pobreza intelectual é a verdadeira origem da pobreza material. Eis porque a sabedoria clássica sempre exorta que conheçamos a nós mesmos, que nos ordenemos por um padrão que não criamos. Quando escolhemos um fim aberrante ou corrupto, todas as demais ações são escolhidas e direcionadas para esse fim. Nossas mentes trabalham diuturnamente para distorcer a realidade e fazer com que ela se enquadre em nossas escolhas.

O que há de mais urgente hoje em dia não é cuidar da pobreza material. A verdadeira pobreza de nossas sociedades é a intelectual. Os alunos frequentam as universidades, ouvem os professores e vão embora intelectualmente pobres, a despeito dos prédios e instalações serem bonitos e bem conservados. Ora, mitigar a pobreza intelectual não é algo que se faça com mais dinheiro ou mais salas de aula. É algo que exige uma transformação na alma. Como disse Sócrates a alguns jovens que vieram lhe fazer perguntas, eles precisam “girar” e vislumbrar algo que não estavam notando por causa da desordem de suas almas. Quando escolhemos justificar estilos de vida que se desviam do bem, nossas vidas intelectuais acabam sendo nada mais do que esforços sofisticados para nos impedir de enxergar o mundo real. Eis a história dos nossos tempos.

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Aristóteles entendia que a prática esportiva era uma atividade mais contemplativa do que o trabalho ou os negócios em geral. Ele achava que o jogo – digamos, um jogo de futebol – portava algumas características em comum com a contemplação. Contemplar Deus e apreciar um jogo tinham algo em comum. A prática esportiva e a contemplação eram semelhantes no sentido de que ambas são atividades desempenhadas “em prol de si mesmas”, enquanto o trabalho é desempenhado em prol de outra coisa. Os jogos não precisam existir. Bem, o mundo também não precisa existir, mas ambos existem. Aristóteles dizia que faltavam aos jogos a seriedade da contemplação. Contudo, sua intenção não era denegrir a “seriedade” com que encaramos os jogos. Fazemos bem em ficarmos fascinados com eles. Apenas assistir a um bom jogo também pode ser fascinante. Ele é seu próprio mundo, seu próprio tempo. O jogo chama a atenção para algo que não está em nós. Aristóteles entendia que nossa relação com Deus não é distinta dessa experiência.

É claro que devemos levar a sério nossas obrigações. Porém, perceber que elas não portam em si o destino supremo, por mais que vislumbremos nelas a mão de Deus, não é o mesmo que denegri-las, mas aceitá-las pelo que elas são. Ora, no que tange ao tempo que gastamos com as coisas, com o tempo que gastamos com Deus em oração ou em convívio com os amigos, é nesse ponto que começamos a entender a essência daquela parte da fé que nos diz que Deus já é Deus.

Quando compreendemos que Deus é Deus, nossa reação é de louvor, graça, prazer e alegria. O fato das coisas elevadas existirem por si mesmas significa que algo simplesmente existe, muito embora nos entreguemos a elas simplesmente porque queremos conhecer a nós mesmos, porque queremos saber por que existimos. A lição de Aristóteles de que o jogo é semelhante à contemplação fala de algo fundamental: somos abstraídos de nós mesmos pelas coisas importantes, por Deus, pelos outros, pelos jogos que nos fascinam, pela beleza e pelo entendimento – somos abstraídos de nós mesmos para descobrirmos o que em certo sentido também está destinado a ser nosso. Alegria, Pieper ensinava, é ter o que queremos, é quando queremos o que em si é bom e digno de fascinação, quando recebemos o que amamos.

Platão dizia que a vida humana não é “séria”. O homem é um “joguete” dos deuses (Leis, 803c). Sua intenção não é nos denegrir, mas louvar nossas vidas por aquilo que são. Não é “necessário” que existamos. Mesmo assim, existimos. Existimos por razões não fundadas no determinismo. O fato de existirmos de maneira desnecessária expressa a mais profunda verdade sobre nós. Existimos por escolha, por amor, pela liberdade fundada no que está para além da necessidade. Significa que nossas vidas devem refletir essa desnecessidade, essa liberdade de sermos receptores de bens e graças das quais não somos a causa.

Aristóteles ensinava que não devemos dar ouvido a quem acha que, por sermos humanos, devemos nos dedicar apenas a coisas humanas (Ética, 1177b32-78a2). Essas coisas “humanas” seriam as questões políticas, econômicas, coisas que parecem tomar todo nosso tempo, coisas que, embora tenham seu lugar na ordem da realidade, não descrevem no que afinal consistimos. Em princípio, tudo bem dedicar bastante tempo a questões políticas e econômicas, pois é permitido que sejamos o que somos: seres finitos, mortais. Contudo, como notou Aristóteles, se o homem fosse o mais superior dos seres do universo, essas questões humanas e políticas constituiriam a ciência mais elevada (Ética, 1141a20-22). Ocorre que o homem não é o mais superior dos seres do universo. A ciência política não “governa os deuses”. Aristóteles afirma ainda que devemos dedicar o máximo de tempo possível aos assuntos superiores, a despeito se o conhecimento que adquirimos é pequeno se comparados aos assuntos inferiores. Para sermos humanos é necessário que sejamos mais do que humanos, uma verdade que frequentemente odiamos aceitar.

Neste sentido, o Cristianismo é a religião da “perda de tempo”. É a religião da alegria porque é a religião do Deus que é alegria. É a religião que ensina que nosso fim é uma alegria séria porque Deus é nosso fim. Devemos organizar nossas vidas para participar nas coisas dessa alegria, a saber, louvor e graça, mas também nas atividades que são manifestações dessa alegria: cantar, dançar e até mesmo sacrificar. Há quem diga que o único tempo que vale a pena é o tempo que passamos com os amigos. E nossa oração é o tempo que “gastamos” com Deus, o tempo que dedicamos para compreender tudo o que nos é dado, tudo o que existe.

Fonte: James Schall, On The Unseriousness Of Human Affairs, Intercollegiate Studies Institute, 2012, pág. 96-106, 152-153, trechos selecionados.