25 de fevereiro de 2016

Casamento e vida familiar


Casamento

Você passará por muitas dificuldades na vida. Chuvas de problemas cairão em você. Preocupações o cercarão e manter sua vida cristã não será fácil. Mas não se preocupe. Deus o ajudará. Faça o que estiver ao seu alcance. Você consegue ler um livro espiritual por cinco minutos? Então leia. Você consegue rezar por cinco minutos? Reze. E se não conseguir por cinco, reze por dois minutos. O resto é com Deus.

Quando você enfrentar dificuldades no casamento, quando perceber que não está progredindo na sua vida espiritual, não se desespere. Mas também não se contente com qualquer progresso que porventura já tenha obtido. Eleve seu coração a Deus. Imite aqueles que entregaram tudo a Deus e faça o que puder para ser como eles, mesmo que tudo o que consiga seja desejar em seu coração ser como eles. Deixe a ação para Cristo. E quando avançar dessa forma, você verdadeiramente sentirá o propósito do casamento. Senão, assim como um cego perambula por aí, você também vai acabar perambulando na vida.

Mas então qual o propósito do casamento? Vou lhe dizer três dos principais propósitos. 

Em primeiro lugar, o casamento é um caminho de dores. O casamento é uma jornada em conjunto, um compartilhamento de dores e, claro, de alegrias. Mas normalmente são seis acordes de nossa vida que soam tristes e apenas uma que soa alegre. Pensar que o casamento é uma estrada para a felicidade é adulterar seu verdadeiro sentido, é como negar a cruz. A alegria do casamento está no fato de que marido e mulher encostam seus ombros na roda e, juntos, rolam ela montanha acima. “Você nunca sofreu? Então você nunca amou”, dizia um poeta. Só quem sofre pode amar de verdade. Eis porque a tristeza é uma característica necessária ao casamento. Assim como o aço é forjado na fornalha, assim também o marido e a mulher são forjados no fogo das dificuldades do casamento.

Em segundo lugar, o casamento é uma jornada de amor. Dizer “sou casado” significa dizer “não posso viver um único dia, nem mesmo alguns momentos, sem a companheira da minha vida”. O casal troca alianças exatamente para mostrar que, em meio às tormentas da vida, permanecerão unidos. Cada um tem uma aliança colocada no dedo do qual corre uma veia direto para o coração justamente para demonstrar que o cônjuge está inscrito em seu próprio coração. O aspecto mais fundamental do casamento é o amor, e o amor nada mais é do que a união de dois em um. Deus abomina a separação e o divórcio. O que Ele quer é uma unidade inquebrantável (cf. Mateus 19:33-9; Marcos 10:2-12).

Em terceiro lugar, o casamento é uma jornada para o céu, um chamado de Deus. Por exemplo, o ícone é um mistério. Quando veneramos um ícone não estamos venerando a madeira ou a pintura em si, mas o Cristo, a Mãe de Deus ou o santo que está ali misticamente retratado. A santa cruz é um símbolo do Cristo, ela contém Sua presença mística. O casamento também é uma presença mística, exatamente como o ícone e a cruz. É o Cristo, portanto, que está no coração do mistério e no centro da vida do casal. Quando você vislumbra seu casamento, seu marido, sua esposa, o corpo de seu cônjuge, quando você vê seus problemas, tudo o que está em sua casa, saiba que tudo isso são sinais da presença de Cristo. Todas essas coisas são as sombras do Cristo, são coisas que revelam que Ele está conosco.

O casamento é um movimento, uma progressão, uma jornada que termina no céu, na eternidade. À primeira vista parece que o casamento é a união de duas pessoas. Mas na verdade é a união de três pessoas. O marido se casa com a mulher, a mulher se casa com o marido, mas os dois juntos também se casam com Jesus Cristo. Portanto, os três tomam parte no mistério, e os três permanecem juntos ao longo da vida. – Arquimandrita Emiliano do Mosteiro de Simonopetra, Monte Athos

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Não são paredes nem móveis refinados que constituem um lar. Os milionários que moram em magníficas mansões talvez nunca tenham visto um lar. Mas onde há bons relacionamentos, onde o amor une os membros da família entre si e a Deus, aí sempre haverá felicidade. Pois os bons relacionamentos são o céu em qualquer lugar em que estejam. Monotonia e miséria não existem onde há amor. Mas a lareira do amor deve ser mantida aquecida e viva com a doce lenha do sacrifício. Nosso Senhor, ao nos ensinar a arrancar o “eu” de nossas vidas, nos ensinou o segredo da felicidade: é aquilo que os santos chamam de êxtase da autodesatenção. Pois o amor divino sempre é modesto, busca sempre dar em vez de receber, servir em vez de ser servido, amar em vez de ser amado. E a tudo sacrificar pelo bem do amado.

Vida familiar

Disse São João Crisóstomo: “É a total desatenção dos pais que causa a desordem que faz com que nossa sociedade sofra. Observem com atenção o que seus filhos fazem, seus relacionamentos e seus apegos, e não esperem piedade de Deus se vocês não cumprirem esse dever”. Não se esqueçam: Deus os colocou como cabeças e mestres de suas famílias. É seu dever observar, e observar continuamente o comportamento de seus filhos.

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O Ancião Porfírio deu um dos melhores conselhos que eu, uma indigna mãe de muitas almas, já vi: “Se você tem um filho de caráter rebelde, o que quer que você diga a ele, diga antes a Deus. Ajoelhe-se perante Deus e por meio da graça de Deus suas palavras serão transmitidas a seu filho... Outra criança pode até ouvir o que você diz, mas a verdade é que ela esqueça muito facilmente o que ouve. Portanto, ajoelhe-se e peça a graça de Deus para que suas palavras maternais caiam sobre solo fértil e deem frutos. Não pressione seus filhos. Não importa o que queira dizer a eles, diga com suas orações. Os filhos não ouvem com ouvidos. Eles só vão ouvir o que queremos lhes dizer quando a graça divina estiver presente e os iluminar. Quando quiser dizer algo a seu filho, diga à Mãe de Deus e ela fará todo o trabalho. Suas palavras se transformarão em um abraço espiritual, as quais abraçarão seus filhos e os motivarão. Mas nossas orações têm de ser fortes, vivas. Sempre conseguimos bons resultados quando rezamos com fé e confiança”.

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O rigor é um elemento essencial no trabalho pedagógico. Porém, ele tem de ser dosado de maneira consistente para que não se transforme em mera grosseria; mas também não deve deixar a impressão de que é apenas ameaça vazia. Bater nos filhos continuamente, portanto, não é a maneira correta de castigar. A criança acaba se acostumando com os castigos e nem por isso fica mais sábia. O método mais apropriado para castigar é ameaçar de castigar e, de vez em quando, colocar a ameaça em prática para que a criança tema de fato os castigos e não pense que a ameaça são só palavras ao vento. O contínuo rigor não deve ser permitido porque o homem, por natureza, precisa de indulgência e tolerância.

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Quando me perguntam como pode o amor de Deus permitir que crianças pequenas morram, eu respondo assim: “Deus designou os pais para criarem os filhos dEle, e não os filhos deles. As crianças são de Deus, não dos pais. Muitas vezes Deus faz, com a morte das crianças pequenas, o mesmo que os pastores fazem com as ovelhas rebeldes que insistem em não se juntar ao rebanho: ele agarra o cordeirinho para forçar a ovelha rebelde a vir a ele”. – Ancião Epifânio Theodoropoulos (+1989)

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As crianças que adormecem no Senhor em tenra idade vão direto para o paraíso, como anjos. E quando os pais veem a falecer, são esses pequenos anjos que os recebem no céu com velas acesas. Os pais são espiritualmente recompensados pelos seus filhos-anjos. – Ancião Paísio, o Atonita (+1994)

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A dor suaviza o coração e dele remove sua dureza. Na medida em que o coração é suavizado, o terreno se torna apto para receber as sementes do verdadeiro arrependimento e da correção genuína. – Santo Ignácio Brianchaninov (+1867)

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Em geral os pais são os culpados pelo mau comportamento dos filhos. O comportamento deles não melhora mediante reprimendas, disciplinas ou crueldades. Se os pais não buscam uma vida de santidade e se não se esforçam na batalha espiritual, graves erros acabam sendo cometidos e transmitidos para seus filhos. Se os pais não vivem uma vida santa e não demonstram amar um ao outro, o diabo tormenta os pais com as reações de seus filhos. Amor, harmonia e entendimento entre os pais é do que os filhos precisam. Isso lhes dará a verdadeira segurança de que precisam.

O comportamento dos filhos é diretamente proporcional ao estado dos pais. Quando os filhos são vítimas do mau comportamento que os pais demonstram entre si, eles perdem a força e o desejo de progredir em suas vidas. Suas vidas tornam-se fracas, fajutas, e o edifício de suas almas está sempre prestes a desmoronar.

Vocês, pais, devem rezar silenciosamente a Cristo com os braços erguidos e abraçar seus filhos misticamente. – Ancião Porfírio (+1991)

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Quando há um incêndio na casa, ninguém diz “Nossa, que fogo lindo!”, mas imediatamente pede ajuda o mais rápido possível. Quando o fogo das paixões começa a irromper nos filhos, ameaçando-os temporal e eternamente, como é possível que fiquemos apenas observando? Portanto, vocês, pais, estejam sempre atentos e não deixem de notar o mais mínimo sinal de maldade, mesmo na mais tenra idade – pois os defeitos, que são inconscientes em princípio, tornar-se-ão conscientes mais tarde. Pois tais são as consequências miseráveis do pecado ancestral. – Bispo Irineu de Ekaterinburg (+1994)

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A teimosia é tão contrária à Ortodoxia que acaba bloqueando o crescimento espiritual. É responsabilidade dos pais impor sua vontade sobre a criança, mesmo nos mínimos detalhes, mesmo nas áreas aparentemente mais insignificantes da vida da criança.

A vontade dos pais deve se impor em todos os passos da vida da criança – claro, de maneira geral. Do contrário, o comportamento da criança pode facilmente se corromper. Quando se acostuma a fazer sua própria vontade, a criança sempre teima em não obedecer aos pais, mesmo nas pequenas circunstâncias. O pescoço não vira, as mãos e os pés não se movem, e os olhos nem mesmo desejam olhar conforme lhes é ordenado.

A mãe deve ser forte e olhar para seu filho sob o ponto de vista do que é melhor para sua alma eterna. Ele deve:

(1) Insistir com firmeza que todas as ordens que der ao filho, mesmo as mais aparentemente insignificantes, sejam obedecidas. Se a obediência não vier, consequências imediatas e desagradáveis lhe sucederão.

(2) Ensinar a criança a respeitar a propriedade das outras pessoas. Isso não apenas lhe conferirá certa humildade (não sou o centro do universo, não é tudo que me pertence), mas tornará a criança mais confiável em situações onde não esteja sob supervisão.

(3) Ensinar a criança a pedir permissão para fazer as coisas.

Permissividade não é bondade. A criança que desde pequena convive com a mãe tende a querer lhe agradar. A tenacidade e a rebeldia não fazem a criança feliz, mas em verdade não passam de traços da humanidade decaída. – Presbítera Juliana Cownie

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Os pais cujos filhos apresentam retardamento mental não devem se sentir tristes por isso, pois suas almas já estão salvas. Na verdade, eles deveriam estar felizes, pois seus filhos, sem esforço algum, merecerão o paraíso. O que mais seus pais poderiam desejar a seus filhos? Se eles encararem o defeito de seus filhos sob um ponto de vista espiritual, verão que eles também foram beneficiados e recompensados por Deus. – Ancião Paísio, o Atonita (+1994)

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Cansada de lavar roupa? Cuidar dos filhos e da casa é um chamado de Deus. Os afazeres domésticos são uma bênção para nós e nossa família. Até mesmo lavar roupa é uma atividade abençoada – sem filhos, sem roupas. O que seria de nossas vidas sem eles? Portanto, na medida em que você lava e passa cada peça de roupa, reze “Senhor, tem piedade do (nome do dono da roupa)”. Isso vale para as roupas do seu marido, dos seus filhos e suas também. “Senhor, tem piedade de mim”. Isso acaba santificando nosso tempo e trabalho. Também ajuda a adquirir paz e oração incessante.

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As alegrias mundanas não confortam a pessoa espiritual. Na verdade, elas cansam. Se você colocar uma pessoa espiritual em uma casa mundana ela não se sentirá confortável. Mesmo uma pessoa secular não encontra descanso em uma casa assim. Na verdade, o que se sente é apenas prazeres superficiais, externos. No fundo, em seu coração, não há prazer, apenas sofrimento.

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É muito importante que haja uma pessoa na família que reze verdadeiramente. A oração atrai a graça de Deus e todos os membros da família a sentem, mesmo aqueles cujos corações se endureceram. Reze sempre. – Ancião Tadeu de Vitovnica (+2002)

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Certa vez queixei-me com uma abadessa que ser mãe e ter uma vida de oração é muito difícil. Ela disse: “Ora, é claro que é difícil! Você queria o quê? Que os demônios jogassem chocolate para você?!”

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O que entra nos ouvidos acaba no coração e na alma. A maioria das pessoas já ouviu falar que o rock não passa de música satânica e que faz mal para nossos filhos, mas e quanto às “músicas românticas”, essas que estão sempre nas “paradas de sucesso” e que falam como ele a ama, como ele a amou, como ele quer ser amado por ela, como ela partiu seu coração etc. etc. etc. Essas músicas parecem inocentes, mas na verdade elas rastejam sorrateiramente para dentro da mente do ouvinte e acaba fazendo com que a pessoa deseje esse tipo de amor passional, fantasioso e ilusório. O verdadeiro amor é aquilo que sobra depois que a paixão vai embora. Essas canções só servem para perturbar o curso natural do casamento. A música pop passa uma falsa imagem de “amor” e não deve ser programada nas mentes e corações de nossas inocentes crianças.

Fonte: Orthodox Christian Parenting, compilado por Marie Eliades, Zoë Press, EUA, 2013, trechos selecionados. Os trechos sem autoria são de Marie Eliades.