15 de dezembro de 2005

Não vos preocupeis

Em Não vos preocupeis -- uma obra apologética --, Leo J. Trese nos lembra que uma vida sem Deus é uma vida sem propósitos e, portanto, angustiosa e vazia. O sentido da vida nos é dado como uma resposta ao amor de Deus e, quando isso acontece, nossas posturas e atitudes diante das situações mudam radicalmente. Pois em cada capítulo, Trese analisa essas situações, apontando como o verdadeiro cristão se comportaria. Façamos então uma breve descrição do que nos ensina Leo Trese.



Assim como tudo o que fazemos tem um propósito, Deus também tem um propósito para a vida e, mais especificamente, para a nossa vida. Ora, a partir desta curta reflexão, podemos concluir que as preocupações vêm de nossa falta de confiança em Deus. Temos de fazer nosso melhor e deixar o resto para Deus. E uma das grandes preocupações que afligem os cristãos é: Amo a Deus o bastante? Meu amor a Deus é forte o suficiente? Quem assim se indaga esquece que o amor não é um sentimento, mas algo que radica na vontade; isso quer dizer que o amor a Deus se reflete em pensarmos e fazermos tudo com a convicção de que fazemos por Deus. Não se trata, portanto, de chorar ou gemer durante nossas orações ou a cada vez que louvarmos a Deus, na tentativa de demonstrarmos que realmente nos comovemos em estarmos na presença dEle. Embora as emoções podem, claro, estar presentes em nosso amor a Deus, elas não são absolutamente necessárias pois, como disse, a raiz do amor é a vontade (espírito), e não sentimentos e emoções (corpo).

Neste ponto, Trese lembra a importância das 4 virtudes (bons hábitos) cardeais: justiça, prudência, temperança e fortaleza. A prudência é a virtude principal, uma vez que é ela que nos faz escolher o melhor, o certo. Ela retifica nossos juízos. A fortaleza, por sua vez, age posteriormente à escolha, nos encorajando a fazer o que é bom, custe o que custar. Ambas são chamadas virtudes sobrenaturais, adquiridas no batismo pela graça de Deus, e se desenvolvem sobre as virtudes naturais, moldadas durante a formação do caráter do indivíduo (notadamente na infância). Se praticadas, as virtudes recompensam o homem com serenidade e paz de consciência.

Outra virtude a qual Trese deposita grande importância é a humildade. Humilde é aquele que conhece a si mesmo e sua posição na ordem da criação. Ele sabe que é apenas um pouco inferior aos anjos e, não obstante, sem nada de que possa orgulhar-se pessoalmente. Mesmo os mais humildes possuem defeitos e falhas de personalidade. O que se deve fazer é admiti-los desde já, pedindo a Deus que torne seus efeitos mínimos, e desenvolver os talentos dados por Ele.

E quanto à maldade? Como entendê-la? Trese explica que a maldade existe porque a "maldade original" existiu. Eliminar a maldade do mundo, portanto, implicaria em eliminar a todos nós, dado que todos somos maus em função do pecado original. Eis que temos de nos perguntar: A quem aborreci inutilmente hoje? Nos momentos de ira, lembremos que Jesus que nem ao menos a deixemos aflorar, e não que a represemos simplesmente. Mas de que maneira? Odiando o pecado e não o pecador. Esta é a ira boa, mais ou menos como um pai se zanga com o filho. A diferença é que a ira boa se insurge por amor ao próximo, enquanto a ira ruim se insurge por amor próprio.

E como o sexo deve ser encarado pelo cristão? O autor ensina que as partes genitais são cobertas assim como qualquer coisa santa deve ser coberta. Assim como a procriação é algo sumamente importante, o sexo e os órgãos genitais também são sumamente importantes. Daí conclui-se que fazer sexo indistintamente, fora do tempo e do espaço certos, constitui uma profanação. Observe que mesmo no casamento, o sexo não pode ser interposto (os chamados métodos contraceptivos) porque Deus é positivamente (no sentido de ativamente) excluído. E o sexo não deve ser visto apenas como o prazer imediato para a geração de uma nova vida, mas inserido no amplo contexto da criação do filho como um todo. Isso quer dizer que não se deve fazer sexo simplesmente para satisfação do desejo imediato, mas, além disso, compreender que se trata de uma nova vida, uma nova criação.

Ainda no ambiente familiar, Trese afirma que o segredo para a boa vida matrimonial é o casal reparar apenas no que há de bom no outro, suportando as faltas de ambos sabendo que a personalidade dificilmente é manipulável. Nas crises (Trese usa o termo "depressões"), antes de achar que a grama do quintal vizinho é mais verde, lembre-se que a vida de solteiro é muito mais solitária e, por isso, sofrida.

Trese também dá dicas sobre o trabalho. Devemos lembrar que todo trabalho é partícipe da obra criadora de Deus, exceto, claro, aqueles trabalhos que são positivamente destrutivos. O autor também alerta para a premência de alimentarmos nossas mentes com leituras formativas, que cultivem a inteligência, não perdendo muito tempo com TV, revistas, jornais etc.

Quanto à propriedade, somos informados de que ela é boa; caso contrário, Deus não teria feito o voto de pobreza algo penoso. Mas como freqüentemente somos desmedidos nas coisas, em função do pecado original -- a razão perdeu o domínio sobre as paixões --, temos de levar uma vida desprendida, juntando somente aquilo que é necessário para nosso sustento. Trese lembra muito apropriadamente que a vida secular tende a reduzir tudo ao utilitarismo imediatista, tornando difícil ao cristão seguir a Igreja e a Cristo, preferindo seguir a si próprio.

Levanta-se então uma questão muito pertinente: Como amar o próximo se esse próximo não nos parece digno de ser amado? A resposta é simples: Exercendo a virtude da caridade, infundida em nós pelo batismo. É ela que torna possível o amor além do amor natural; não custa lembrar, conforme dissemos acima, que o amor reside na vontade, e não nas emoções. Na prática, o que ocorre é que distinguimos entre a malícia e o malicioso, amando este e não aquele. Eis que urge sermos apóstolos da caridade em Cristo, perdoando falhas alheias, louvando o que há de bom nos outros etc.

Porém, fazer coisas boas não limitar-se a evitar pecados e rezar, mas também fazer coisas boas para os outros. Sermos afáveis, corteses, pacientes etc. robustecerá ainda mais nossa mente e nossa alma.

Trese chama a atenção dos leitores para a importância da oração. A oração é a elevação da mente e do coração para Deus. No entanto, ao contrário da definição, ainda tendemos a depositar a nossa confiança nas palavras, na multidão infindável das palavras. Ora, instruindo seus discípulos na prática da oração, Jesus disse-lhes: Quando orardes, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que, por falarem muito, serão ouvidos; mas vosso Pai sabe de que coisas necessitais, antes de que lhe peçais (Mateus 6:7-8). Um único momento que dediquemos exclusivamente a Deus em pensamento, em que pensemos nEle com amor, com gratidão, submetendo-nos aos seus desejos ou arrependendo-nos dos nossos pecados -- um único momento desses pode agradar mais a Deus do que uma oração de muitas palavras. São esses momentos que indicam um espírito permanente de oração, um amor a Deus duradouro. Na oração, além do mero palavreado, pode incrustar-nos nos nossos hábitos um outro defeito: o do egocentrismo. Na oração mais perfeita de todas, o Pai Nosso, somente uma curta frase intermédia é dedicada a um pedido de ordem material: "O pão nosso de cada dia nos dai hoje".

O maior problema com que a maioria de nós tropeça na oração é o das distrações. Mas quando dispomos a visitar a Deus, podemos consumir uma boa parte do tempo da oração -- talvez a maior parte -- correndo atrás dos nossos buliçosos e errantes pensamentos. De qualquer modo, Deus alegra-se com os nossos esforços, sente-se satisfeito com as nossas patentes intenções de falar com Ele.

Para encerrar, Trese lembra que no batismo, Deus nos deu uma vida sobrenatural, elevou-nos até o seu próprio nível. Optou por partilhar conosco a sua própria vida eterna. Unindo nossa alma a Ele, deu-nos um novo gênero de vida que chamamos graça santificante. Mas a nossa alma acha-se limitada nas suas atividades divinas por ter que desenvolver-se através de um corpo físico. Para que essa vida divina seja verdadeiramente completa na nossa alma, devemos aguardar o ato final pelo qual a glória divina chegará também a nós. E isso acontecerá quando Deus nos conferir aquilo que os teólogos chamam luz da glória. É um poder especial que, acrescentando à vida sobrenatural que já existe em nós, nos permitirá no Céu ver a Deus tal como é.

A ajuda que Deus nos concede dia a dia, momento a momento, é o que chamamos graça atual. Deus pode tratar que leiamos um livro que tenha um significado especial para nós, ou que ouçamos um sermão cuja mensagem nos seja especialmente necessária. A pessoa de boa vontade que, fortalecida pela graça santificante, se esforça mediante a oração por tomar as suas decisões e resolver os seus problemas da melhor maneira possível, está recebendo a todo momento as graças atuais. Com um pequeno empurrãozinho aqui e uma suave cotovelada acolá, Deus vai guiando-a continuamente para o Céu.

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Publicado originalmente em 1956 como More than many sparrows, tanto o título americano quanto o brasileiro foram inspirados em Mateus 10:29-31: "Porventura não se vendem dois passarinhos por um asse [antiga moeda romana de cobre]? E todavia nem um só deles cairá sobre a terra sem a permissão de vosso Pai. Até os próprios cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não vos preocupeis, pois; vós valeis mais do que muitos pássaros".