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Eros é, em
primeiro lugar, amor de algo e, portanto, amor daquilo de que se carece.
Portanto, Eros está carente de beleza e não a tem. Se Eros está carente de
coisas belas, e as coisas boas são belas, então Eros também está carente de
coisas boas. [Aqui não devemos nos esquecer que o belo é a manifestação do bem].
Se uma
coisa não é bela não significa que seja feia. Existe algo intermediário.
Trata-se do opinar retamente. A reta opinião é uma espécie de estado
intermediário entre o bom juízo e a ignorância.
Ora, não pode
ser um deus quem não participa das coisas belas e boas. Eros é um intermediário
entre mortal e imortal. Um grande daímon [um “deus inferior”] é algo
intermediário entre o divino e o mortal. A divindade não entra em contato com o
homem, mas é por meio deste daímon que ocorre todas as relações e diálogos
entre deuses e homens.
A sabedoria
é precisamente uma das coisas mais belas, e Eros é amor com respeito ao belo,
de maneira que somos forçados a concluir que Eros seja amante da sabedoria, e,
dado que é amante da sabedoria, se encontra a meio caminho entre sábio e
ignorante.
Os
afortunados são afortunados pela simples posse das coisas boas, e por isso não é
preciso perguntar “para que quer ser afortunado aquele que quer sê-lo?”. É algo
comum a todos os homens que queiram que as coisas boas sejam sempre suas.
Em geral, o
desejo por coisas boas e de ser feliz é para todo mundo “um amor grandíssimo e
enganoso”. Mas há aqueles que se consagram ao amor de muitas maneiras
diferentes, pelos negócios, pela ginástica ou pela sabedoria, e não se diz que
amam nem que sejam amantes; por outro lado, as pessoas que se dedicam
completamente a uma só espécie, e que a ela se encaminham e a ela se afanam,
recebem o nome do todo, amor, e dizem que amam e que são amantes.
Então
podemos dizer que os homens amam o bem e que também amam possuir o bem para
sempre. Mas de que maneira o amor deve ser perseguido para que esse esforço possa
se chamado realmente de amor?
A união do
homem com a mulher é procriação, que é uma obra divina porque é imortal. E é impossível
que isso ocorra em algo inadequado, e o feio é inadequado ao divino, enquanto o
belo é adequado ao divino. Portanto, o amor não é amor ao belo, mas amor à geração
e procriação no belo. Consequentemente, é forçoso dizer que o amor é amor
à imortalidade.
Para
alcançar uma virtude imortal e uma fama tão celebrada o homem faz qualquer
coisa. Os homens férteis de corpo sentem especial inclinação pelas mulheres. Os
homens férteis de alma sentem especial atração ao juízo prudente e às virtudes
em geral. Portanto, na medida em que está cheio dessas qualidades na alma, o
homem sente afeto pelos corpos belos mais do que pelos feios, e se encontra em
seu caminho uma alma bela, nobre e naturalmente bem-dotada, sente então grande
afeto por esse conjunto.
Efetivamente
este é o caminho correto para dirigir-se às questões relativas ao amor: com a atenção
posta naquela beleza, começa pelas coisas belas deste mundo e, servindo-se
delas como degraus, ascende de um só corpo a dois, e de dois a todos os corpos
belos, e dos corpos belos às normas de conduta e aos belos conhecimentos, e dos
conhecimentos acabar naquele que é o conhecimento não de uma coisa, mas daquela
beleza absoluta, para que conheça por fim o que é a beleza em si. Nesse instante da vida vale a pena
o viver do homem: quando contempla a beleza em si.
Fonte: Platão, El banquete, Alianza Editorial, Madrid, Espanha, 1989, trechos selecionados e adaptados.
