5 de junho de 2024

Entre capelas e tabernas


Como forçar a linguagem humana, esse pobre instrumento de cera - plástico mas limitado -, a espichar-se até o infinito, para nele imprimir a harmonia das esferas ou então a compactar-se até que vire um átomo, até que desapareça do universo visível, de modo que consiga captar a intensidade de uma paixão, de um susto ou da aparente eternidade de uma dor de dente? Como decalcar no papel sem relevo a densidade multidimensional de um arbusto, de um pé sujo ou do cansaço? Infinitos Homeros cairiam prostrados, exânimes, derrotados pela absoluta realidade de um soluço.

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Realmente, quando estamos atrapalhados, a melhor coisa - ou pelo menos a primeira; a mais urgente - que podemos fazer é contar uma história. A história de uma confusão é já um princípio de ordem.

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"Mas há mistérios e mistérios, meu filho. Há mistérios que não são para nós." Ele [o Padre Marrone] falava de modo muito calmo. "O que posso dizer com certeza é o seguinte: a vida do espírito não é algo que merecemos, ou conquistamos; é algo que recebemos de graça, como um presente. Não é como recordar algo; é como ganhar algo. O caminho é pedir a Deus essa graça; e não agir como se já a tivéssemos por direito próprio, e apenas a tivéssemos esquecido; como se ela não viesse de Deus, mas de nós - o que, na verdade, implica dispensá-la. Que tragédia: recusar um presente por achar que já o temos. Que engano terrível!"

Fonte: Daniel Scherer, Entre capelas e tabernas, Edições Santo Tomás, Formosa, Brasil, 2023.