1 de abril de 2010

O desenvolvimento emocional da alma


Hoje em dia, o principal ingrediente que falta [à harmonia entre as pessoas] é uma coisa que poderíamos chamar de desenvolvimento emocional da alma. Não é uma coisa exatamente espiritual, mas que frequentemente impede o desenvolvimento espiritual. A pessoa pode até achar que quer se dedicar à vida ascética e ao combate espiritual quando, na verdade, encontra-se num estado em que mal consegue expressar amizade e amor humano normais; se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? (I João 4:20).

Em algumas pessoas esse defeito manifesta-se de maneira extrema. Mas, enquanto tendência, é algo que está presente em todos nós, já que todos fomos criados e aculturados em uma atmosfera espiritual e emocional deteriorada.

Assim sendo, é comum que tenhamos de refrear nossos impulsos e combates supostamente espirituais para que saibamos se estamos realmente preparados, em termos humanos e emocionais, para esses combates. Às vezes, acontece de um pai espiritual negar a seu filho que leia livros espirituais para lhe dar, em vez disso, um romance de Dostoyevsky ou Dickens, ou ainda lhe encorajar para que se familiarize com determinados tipos de música clássica. Não que haja um propósito puramente estético nessas orientações -- pois é perfeitamente possível que alguém seja especialista nessas coisas e seja emocionalmente desenvolvido sem, no entanto, um pingo de interesse nas coisas espirituais, o que também é indício de desequilíbrio -- mas há, sim, o propósito de refinar e moldar a alma, tornando-a mais apta e receptiva a entender os textos genuinamente espirituais.

Fr. Seraphim Rose: His Life and Works, Saint Herman Press, Platina, EUA, 2003