11 de fevereiro de 2026

A teoria da inteligência


A especulação em si

É notável como o entendimento coloquial de “inteligência” e “intelecto” é de certa forma o oposto de como os antigos entendiam esses termos. A inteligência, por influência kantiana, nos últimos séculos foi cada vez mais sendo reduzida a mera “cognição”, ou seja, a mera formulação artificiosa da “razão pura”. O que quer que o intelecto intelija, ele sempre o fará contaminado pelas formas a priori, em especial pelo tempo e pelo espaço. Assim, qualquer verdade metafísica não passaria, em última instância, de especulação imaginosa, de ficções travestidas de conhecimento filosófico. A metafísica só se justifica mediante a razão prática, que por sua vez só se justifica pelo entendimento dos homens, o que por sua vez só se justifica pela pressão da opinião pública.

Por isso resgatar a inteligência faz-se necessário para de certa forma resgatar o próprio ser humano. E resgatar a inteligência significa que “todo o valor, toda a intensidade da vida e a própria essência do bem” está no ato da inteligência. O papel da inteligência é captar seres. Diferentemente dos seres separados, a abstração e o juízo humano, misturados aos sentidos, é uma simulação da intuição direta do real. É um expediente humano que dá realidade espiritual às aparências. A inteligência humana apreende as entidades supremas do ser e da essência e, por isso mesmo, tem valor absoluto. De onde vêm as essências e os seres senão do próprio Ser, que é essência? É verdade que a intelecção não é perfeita e pura, mas também não é verdade que ela não guarda nenhuma participação com a intelectualidade dos seres separados. Sim, há algo de fingimento no espírito humano, mas somente como figura de linguagem quando o comparamos com os seres separados.

Se as coisas fossem apenas “matéria”, então cada coisa seria apenas o que é. Mas como as coisas são também “imateriais”, então uma coisa não é somente o que é, mas é outros seres também. Esta pedra não é só “esta” pedra. A intelecção é a união do inteligível com o intelecto, e é precisamente quando a inteligência atinge um inteligível que ela se torna inteligível. A natureza da inteligência é tornar-se o ser que atinge porque ela não apena “toma nota” do ser que atinge, mas “o toma”, o segura. A vida se intensifica na medida em que se expande possuindo o outro, ou seja, quanto mais imanente a vida menos intensa será.

Aqui cabe uma observação interessante. Entendemos a ação (tornar-se ato, não mero movimento locomotivo) como a passagem de um ser a outro (ser-em-potência -> ser-em-ato). Se é assim, a ação será mais perfeita, mais plena, mais intensa, quanto mais plenamente atingir o outro, isto é, na intimidade, na totalidade, na unidade de seu ser. E esta observação é interessante porque a ação material não é “concreta”, mas, pelo contrário, é abstrativa porque atinge apenas uma parte do ser: ela é mais impotente e mais limitada. É necessário aprofundar a imanência para diminuir a abstração. É necessário possuir o outro para possuir-se a si mesmo; quanto mais compreendemos uma coisa, mais ela será íntima à nossa inteligência e mais unificado estará com ela.

A operação intelectual não ocorre no conceito nem no juízo, mas na captação real de um ser à maneira de ideias ou princípios. A velha fórmula da “adequação do espírito às coisas” é melhor entendida como “união do espírito com as coisas”, mas no sentido de que tal união, devido a seus infinitos graus de imanência, pode crescer em “limpidez”, “clareza” e “penetração”. Mas não é assim com a substâncias separadas (ou “seres separados”, ou ainda “formas simples”), tradicionalmente associados aos “anjos”: como sua natureza não implica em elementos materiais e, portanto, compreendem toda a perfeição de sua espécie (aliás, não comportam seres que lhe sejam especificamente semelhantes), não há neles a distinção entre ser e ideia que se apresenta à raça humana. Em outras palavras, não há espaço neles para o “discurso racional”, mas somente pura inteligência. Em termos práticos, os seres separados não lidam com leis, axiomas e princípios porque tudo isso são enunciáveis, ou seja, são recursos relativos a nossos meios vocais, típicos da apreensão espaço-temporal humana. Como bem afirma Rousselot: a idolatria do enunciável é o suicídio do intelectualismo.

A teoria tomista da finalidade do mundo é bastante conhecida. Afinal, o Ato Puro é a causa final do todo; em outras palavras, Deus é o fim das coisas, mas sendo Deus mesmo adquirido pelas coisas. Como é dito de maneira um tanto críptica na Suma Contra os Gentios, “As coisas são ordenadas a Deus para adquiri-Lo a Ele mesmo dEle mesmo”. Em outras palavras, as substâncias separadas e os homens adquirem o Ser infinito, mas também todas as substâncias assimilam a Deus: a visão de Deus é a aquisição, enquanto a participação em Deus é a assimilação. As visões de Deus, no entanto, correspondem ao aperfeiçoamento entitativo das substâncias separadas e dos homens, e assim podemos concluir que as assimilações são multiplicadas com as visões [o que é óbvio, porque o intelecto “absorve” e “cresce”]. Assim por isso ensina Tomás que as perfeiçoes do mundo consistem nas substâncias separadas, e como tais perfeições superam em muito a quantidade de espécies terrestres, mas também supera em muito a multidão das coisas materiais, então as substâncias separadas superam em muito em número as coisas materiais. Uma comparação seria a superação do mundo sideral em relação ao mundo sublunar. O mundo material não passa de um apêndice do mundo dos espíritos.

Se o intelecto apreende, a vontade tende, ou seja, a vontade tende a adquirir o bem e, depois, ao prazer. Aqui cabe não confundir movimento com ação: o ato perfeito é imóvel. Talvez aí caiba a crítica aos voluntaristas, já que não faz sentido que alguma coisa “tenda a tender”, isto é, que o dinamismo encontre sentido em si mesmo. Vejamos esta bela explicação de Rousselot:

Onde aliás se pode encontrar o ato imóvel e o prazer sem mudança senão na operação intelectual? Examinemos o movimento humano, ou seja, a história das ações dos seres cujo espírito é encerrado na matéria, e encontraremos que a multiplicidade quantitativa dos atos tende à unidade singular de um fim, que é a reconquista da unidade qualitativa do semelhante. A matéria é o ser em que o um é absolutamente impenetrável ao outro; o espírito é o que, permanecendo o um, pode tomar-se todo o outro. Os intuitivos puros possuem desde o começo, cada um segundo sua natureza, essa unidade totalizante; os homens tendem a ela, multiplicando atos laboriosos: seu fim universal é realizar neles a potência do espírito, chegar ao máximo de consciência, tornar-se mônada que a tudo reflita (ut in ea describatur totus ordo universi). É a unidade desse fim que põe a unidade inteligível na série complexa de seus movimentos. Tudo o que neles é tendência está essencialmente ordenado a emergir da regio dissimilitudinis [“região da dessemelhança”, segundo Santo Agostinho, referindo-se ao mundo material como um estado de exílio longe de Deus] para a pátria luminosa do espírito. Enquanto ainda existirem dois espíritos ou dois grupos de espíritos que não entraram em comunhão, que não se apreenderam mutuamente, que não se enriqueceram um do outro, ainda há uma potencialidade que chama um movimento. Quando, no termo do último movimento, a última potencialidade é atuada, o movimento não é mais concebível, e o ato de vontade que permanece não pode ser outro que consentimento e prazer. Qualquer outro estado é ainda movimento; este somente é ao mesmo tempo ato e repouso.

Eis que o amor é superior à intelecção, mas há que se entender que o amor só é superior na medida em que cumpre o que a intelecção “viu”. O intelecto vê (adquire) algo superior a si e a vontade tende (ama) a adquirir esse algo.

A especulação em ação

A inteligência humana é diferente da inteligência das substâncias separadas. Nós homens precisamos ser instruídos com a ajuda de exemplos sensíveis, enquanto as substâncias separadas conhecem a partir das ideias perfeitas recebidas de Deus. Nós homens recebemos separadamente a impressão das diversas essências, enquanto as substâncias separadas captam as coisas por condensação a priori [ou seja, a despeito de não possuir experiências sensíveis]. Em nós homens a intelecção simples acaba sendo muito limitada, o que nos impele a lançar mão do discurso: é a diferença entre intellectus e ratio. A intelecção é perfeita, a razão é imperfeita. A intelecção vê uma simples e única verdade e toma conhecimento de uma multidão, enquanto a razão se espalha em uma multidão para delas reunir um conhecimento simples. Embora a certeza da razão venha do intelecto, a razão não deixa de ser uma falta de inteligência.

O chamado “discurso” tem esse nome porque as inteligências humanas estão imersas no espaço e, precisamente por isso, precisam ir “de um ponto a outro”, ou seja, um curso entre dois pontos (“discurso”). O espaço constrange a inteligência e o preço a pagar por essa imperfeição no progresso da inteligência é o tempo. Por isso, aliás, a formação de hábitos virtuosos é importante: eles dispensam, à medida que se estabelecem, reflexões já não mais necessárias e, assim, a inteligência pode se dedicar a ideias superiores. Eis por que, ensina Rousselot, que um moralista possui apenas uma ideia manejável, comunicável, mas o virtuoso, por outro lado, tem uma intuição real; o moralista tem um abstrato de sensações humanas, enquanto o virtuoso tem uma parte de uma ideia “angélica”.

O conceito

O conceito é a intelecção simples. No entanto, apesar do ser total ser o objeto da inteligência, ocorre que aqui na terra seu objeto proporcional é a essência da coisa sensível. Por isso dizemos que o conceito que atingimos é um conceito impróprio e analógico. Ele é formado em três momentos:

(1) Possuir a ideia de uma perfeição submetida a condições corporais. Essa ideia é heterogênea ao objeto que apreendemos, o que não quer dizer que seja “vaga” ou “geral”.

(2) Negar-lhe uma nota a partir de nosso conhecimento dessa perfeição. O objetivo aqui é que esta reflexão racional condene a atitude intelectiva do momento (1) para que, assim, possamos isolar a ideia apreendida. Por exemplo, se apreendemos a ideia de que as coisas são relativas a Deus, ato contínuo somos levados a negar que haja uma relação de Deus com as criaturas. A razão tem de negar essa falsa concepção. O que condenamos ou “purificamos” aqui é a condição corporal da intelecção: quando apreendemos uma substância separada, por exemplo, tendemos necessariamente a concretizá-la, tal como concretizamos a humanidade dos homens; para eliminar esse dualismo, temos de lançar mão de reflexões sutis “a que a maior parte dos homens não chega”. Nosso conceito de Deus mais ainda, já que nem mesmo o conjunto de conceitos negativos que atribuímos a Deus bastam: Deus é apofático, não meramente negativo. A intuição humana é escrava do “um”, do “princípio do número” [da quantidade].

(3) Declarar possível ou existente um ser que verifica o complexo ideia possuída/nota negada. Aqui o momento é de encontrar uma palavra, mas atentando-se ao fato de que a palavra não muda a ideia. Acreditar que uma palavra unifica a ideia com a nota é tão tolo quanto acreditar que “uma pilha de malas sobre a qual se joga uma mala se torna, de repente, uma mala só”.

A ideia a que chegamos pouco a pouco aproxima-se da essência da coisa. Mas note que a essência inclui os princípios de forma e matéria, apenas deixando de fora esta matéria e forma físicas. Eis a concretude do que inteligimos: é o objeto concreto, embora não o objeto singular. Eis o conceito (de algo “concebido”, não tão-somente “percebido”). Eis por que o intelecto agente é intelecto agente, e não “sentido” agente. Eis que conceptualizamos somente substâncias naturais (que têm essência) tais como são, como homem, boi, oliveira, substância separada etc., e assim as definimos, mas jamais conseguimos conceptualizar e definir Deus, Gabriel, Rafael (espíritos puros), Platão, Sócrates (homens individuais) etc. É pelos acidentes, pois, que chegamos a ser capazes de pronunciar um juízo geral sobre o valor de uma coisa. Pela atividade do espírito chegamos às notas íntimas e substanciais da essência das coisas.

Isso não significa, no entanto, que tudo possamos entender, ou seja, que o universo seja inteligível. Existe o acaso, ou seja, há coincidências de efeitos a respeito das quais a inteligência fica muda. O exemplo de Rousselot é ilustrativo: sei por que alguém cava um buraco, e sei por que encontra ali um tesouro, mas ignoro por que cavando seu campo encontra um tesouro. Já vimos que em Maritain e outros autores que, “aqui embaixo”, no campo das ocorrências, nem tudo é causado, mas há inúmeros acasos. A própria razão nos ensina que os detalhes do mundo nos escapam. Por mais perfeitas que sejam as abstrações de uma coisa, mesmo assim essa coisa não seria esgotada. Falta o análogo intelectual daquilo que os sentidos veem na coisa. Veja que a coisa, ela mesma, a matéria individuada, tem seu tipo em Deus. É como se o individuo fosse também, ele mesmo, uma essência. Eis por que é importante meditarmos sobre as substâncias separadas, os seres formais: sua essência é sua forma, porém os objetos sensíveis possuem princípios formais e matérias e, por isso, conhecê-los concretamente implica em conhecê-los assim, essencialmente forma e matéria, e não apenas enquanto espécies. Eis que a inteligência humana é cega para o singular.

Mas isso não significa que a espécie materialmente individuada não nos diga nada. Ora, se fosse assim, a matéria individuada seria o mesmo que a matéria comum. Mas fato é que a multiplicidade da matéria individuada me diz algo sobre o objeto que este, e apenas este, singular não me diria. Com as substâncias separadas não é assim: elas são simples, e nelas atuam simultaneamente todas as suas determinações; em outras palavras, suas determinações não atuam sucessivamente. Mas nas espécies terrestres não é assim: elas, e nós, são potenciais, isto é, não são “fixas”. Mesmo que houvesse uma ciência humanamente perfeita, haveria mesmo assim uma distância incomensurável entre os homens e o mais inferior dos seres separados: tal ciência perfeita seria irremediavelmente um conjunto de peças encaixadas, ou seja, um mero sistema de abstrações, e não uma intuição.

A ciência

A ciência é um corpo inteligível de enunciados unificados pelo princípio da dedução, que descendem de princípios gerais até a espécie mais “especialíssima”. Essa subordinação silogística não é pouca coisa: é ela que garante o valor da especulação, que é derivada da concatenação essencial que advém da metafísica. Se não houver esta cadeia silogística que une a ciência à metafísica, então não teremos um sábio, mas um crente.

E não deixa de ser curioso o papel da metafísica: ao mesmo tempo que a metafísica é o que se aprende depois de tudo o mais (porque partimos dos acidentes dos entes), ela também prova tudo o mais (uma vez estabelecidos seus princípios, é a metafísica que, a partir do topo, garantirá a prova de tudo o que a ciência deduzir). Mas nem sempre a ciência é perfeita, ou seja, nem sempre ela demonstra os porquês, mas apenas os fatos (quando age de maneira indutiva ou por constatação reiterada a partir dos efeitos). No entanto, quando é imperfeita a esse ponto, ou seja, de demonstrar puros fatos, a ciência deve ser reduzida ao que os antigos chamavam de “indústria”, ou o que hoje chamaríamos de tecnologia, engenharia etc. Ela perde sua condição formal de ciência. Para Tomás, o que chamamos modernamente de “ciência” é mera arte, mera indústria sistematizada.

Os símbolos

Quando o espírito enfrenta enunciados propter quid (explicações pelas causas) mesclados com enunciados quia (explicações pelos efeitos), os sentidos tentam comprimi-los em símbolos sensíveis, que se acrescentam aos sistemas para unificar o universo conhecido. Abandonamos o rigor pelo amor à unidade.

Quando o sensível e a opinião são introduzidos, não se tem mais uma complexidade racional para imitar a ideia pura, mas uma complexidade artística para imitar a racional. O sistema e o símbolo [lógica artística], frutos dessa colaboração de um novo gênero em que a imaginação tem seu lugar, são pois sucedâneos da ciência total.

Três exemplos: astrologia, a teoria dos seres separados (a ideia de que o mundo sensível é governado por eles), teodiceia (atributos como onipotência e providência divinas são objetos de fé, e não de demonstração; aqui excluem-se os atributos divinos que são, sim, demonstráveis, como a incorporeidade, a inteligência, a incorruptibilidade, a imobilidade, a vontade, a unidade e ser causa final). Assim, Tomás negava-se em erigir a teologia à condição de cânon absoluto (a Trindade e a Encarnação, por exemplo). Pouco importa se falamos de símbolos (imagens materiais e coloridas) ou sistemas (construções lógicas), trata-se de semelhanças da verdade, de ensaios de reconstrução. Diz Rousselot que “Santo Tomás teve a consciência, por vezes obscurecida, mas sempre persistente, da vaidade dos arranjos sistemáticos”.

Trechos de interesse

Eis alguns trechos que chamaram minha atenção, com destaque para os argumentos centrais.

Santo Tomás aceita, às vezes, pôr-se em presença da hipótese de que o homem teria sido deixado à sua natureza, sem que aprouvesse a Deus chamá-lo à comunicação de sua consciência divina. Então a bem-aventurança não teria sido sobrenatural: e, não obstante, teria sido intelectual, permanecendo sempre o espírito nossa melhor parte. É mister acrescentar que esse conhecimento não teria ficado exclusivamente abstrativo, mesmo para as intelecções que atingem outra coisa que o eu atual [ou seja, aquelas pessoas que vão além da mera intuição de sua autoconsciência]: contudo, a teoria da felicidade natural leva a desprezar menos essas ideias abstratas que a promessa de um melhor ideal faz olhar tão de cima. Os princípios entusiastas que expusemos chegam desse modo a conciliar-se com essa felicidade relativamente suficiente.

A bem-aventurança natural, tal como Santo Tomás a concebe, só teria sido completa na vida imortal. Depois de um período terrestre de preparação intelectual e moral, em que “pelo estudo, mas sobretudo pelo mérito” a alma se teria disposto [se inclinado, se predisposto] a conhecer as substâncias separadas, a morte a teria introduzido no mundo destas. Ali, não só teria recebido a influência de sua luz mais abundante do que podia suportar nesta vida, mas Deus também lhe teria fornecido ideias infusas, para enriquecer e condensar seus conhecimentos adquiridos. As noções singulares de que teria feito provisão na terra teriam podido ajudá-la a aplicar ou a precisar essas contemplações novas. Talvez, depois de um certo tempo, o corpo lhe fosse restituído, para ser completa sua perfeição natural. A ideia de Deus, simplificada, depurada, por ter desaparecido a opacidade dos fantasmas, teria contudo permanecido obscura e analógica. A alma teria negado de Deus mais coisas, e coisas mais belas do que podem fazer os que vivem na terra.

Eis a bem-aventurança extraterrestre. Mas Santo Tomás fala mais vezes, e segundo os princípios de Aristóteles tais como os interpreta, da felicidade que a contemplação desinteressada pode proporcionar ao sábio desde esta vida. Essa contemplação é sempre abstrativa, excetuando a intuição do eu atual; mas não deixa de ser preciosa e deliciosa para quem não ultrapassa o horizonte humano. Porque uma vaga noção das coisas nobres é preferível a uma ciência minuciosa de objetos vis, essa felicidade consiste, antes de tudo, em um certo conhecimento de Deus e das substâncias separadas, como a que se pode obter pelos princípios da filosofia — portanto, bastante pobre, como sabemos, e nada intuitiva — em que pese a Alexandre e Averróis. Eis a suprema felicidade a que o homem “pode chegar pelos meios naturais”. Em outra passagem, em vez das substâncias espirituais, Santo Tomás, referindo-se à opinião dos “filósofos”, fala vagamente das “coisas divinas”; e em outra ainda acrescenta uma certa visão panorâmica da ordem universal. As virtudes adquiridas levam a essa felicidade, mas não a constituem propriamente, embora ela comporte, com a contemplação, o exercício do intelecto prático. O bem-estar do corpo é necessário, assim como a presença dos amigos; numa palavra, encontram-se aqui as ideias bem conhecidas de Aristóteles.

Nessa hipótese, o que nos interessa é o valor que tomam, à sua luz, as especulações aqui na terra. Quando se limita a vista ao horizonte terrestre, elas são parcelas da felicidade, e não meios para alcançá-la. E vemos Santo Tomás, consequente com essa teoria, reconhecer à intuição isolada as propriedades do ato essencialmente bom em si, o que quer dizer duas coisas: primeiro, que esse ato, como tal, não pode ser mau; depois, que ele apresenta os caracteres do ultimum volitum [supremamente querido], da coisa que se deseja por si mesma, sem a referir a nenhuma outra, de “fim”.

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A especulação é tão eminentemente boa e conveniente que basta isolá-la de seus entornos fenomenais que a inserem na vida prática para aperceber-se de que agrada sempre.

Assim, as intelecções puras são muito dignas em si mesmas de seduzir a vontade. “Não se encontra ação humana que não seja ordenada a um fim extrínseco, exceto a consideração especulativa. O jogo parece não ter finalidade: e contudo tem uma... porque, se as pessoas jogassem por jogar, haveriam de jogar sempre, o que é inadmissível”. “Joga-se por um fim racional, pois se joga para recrear-se o espírito e pôr-se em condições de aplicar-se depois ainda mais fortemente a ações sérias”. Ora, a melhor das ações sérias é a de pensar: assim a própria omissão do pensar na ordem do exercício prepara o pensamento ulterior mais perfeito, como o exigiam os princípios.

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A visão intuitiva é postulada de alguma maneira pela natureza do intelecto. Parece que somos tais que não podemos ter paz enquanto não apreendemos a Deus, o que se faz pelo espírito.

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Tudo o que é em potência quer passar ao ato. Enquanto não passou ao ato, não tem seu fim último. Esta razão é aduzida para provar que o intelecto humano não tem seu fim nesta vida e nas ciências especulativas.

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Quer seja o apego demasiado dócil às classificações tradicionais, ou então o desejo de não admitir demasiadas exceções aos axiomas de Aristóteles, Santo Tomás só faz raras e fugidias alusões às intelecções sobre-humanas, e seria preciso violentar seus escritos para deles tirar uma teoria expressa da “oração mística”. Pode-se lamentar essa lacuna. Mas não se deveria fazer disso ocasião para rebaixar, em sua doutrina teológica, o lugar da vida contemplativa.

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Santo Tomás se opõe a todos os que subordinam o conhecer ao coração ou à vontade. “O motivo próprio da inteligência é a verdade infalível; todas as vezes que se deixa mover por um sinal que pode enganar, há uma desordem”.

Fonte: Pierre Rousselot, A teoria da inteligência segundo Tomás de Aquino, Edições Loyola, São Paulo, SP, Brasil, 1999.