6 de fevereiro de 2015

Confissões: trechos selecionados


Livro I – Do nascimento aos quinze anos

Tu amas e não Te apaixonas; Tu és cioso, porém tranquilo; Tu Te arrependes sem sofrer; entras em ira, mas és calmo; mudas as coisas sem mudar o Teu plano; recuperas o que encontras sem nunca teres perdido; nunca estás pobre, mas Te alegras com os lucros; não és avaro e exiges os juros; nós Te damos em excesso, para que sejas nosso devedor. Mas, quem possui alguma coisa que não seja Tua? Pagas as dívidas, sempre sem que devas a ninguém, e perdoas o que Te é devido, sem nada perderes.

Mas, que estamos dizendo, meu Deus, vida da minha vida, minha divina delícia? Que consegue dizer alguém quando fala de Ti? Mas ai dos que não querem falar de Ti, pois são mudos que falam.

* * *

Eu mesmo nada lembro daquele tempo [de criança pequena]. Pouco a pouco ia reconhecendo o lugar onde me encontrava, e queria manifestar meus desejos às pessoas que deviam satisfazê-los, mas não conseguia, porque eles estavam dentro de minha alma e elas estavam fora, e através de nenhuma percepção teriam podido penetrar no âmago de minha alma. E assim eu me debatia e gritava, exprimindo uns poucos sinais proporcionais aos meus desejos, como eu podia e de maneira inadequada. Se não me obedeciam, ou porque não me entendiam ou por medo de me fazerem mal, eu me indignava com essas pessoas grandes e insubmissas que, sendo livres, recusavam ser minhas escravas, chorando, eu me vingava delas. Assim são as crianças, como depois pude observar.

Quem me poderá lembrar os pecados cometidos na infância, já que ninguém há que diante de Ti seja imune ao pecado, nem mesmo o recém-nascido com um dia apenas de vida sobre a terra?

Ou seria justo, mesmo tendo em conta a idade, exigir chorando o que seria prejudicial, indignar-se com violência contra homens adultos e de condição livre, e contra os pais e outras pessoas sensatas que não aceitavam satisfazer a certos desejos? Seria justo fazer todo o possível para prejudicá-los, porque eles não se prestavam a obedecer a ordens que seriam nocivas? Portanto, a inocência das crianças reside na fragilidade dos membros, não na alma. Vi e observei bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada para seu irmão de leite. Sem dúvida não é inocente a criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um irmão, embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida. No entanto, tais fatos são tolerados com indulgência, não por serem de pouca ou nenhuma importância, mas porque desaparecerão ao correr dos anos. Prova disso é que nos irritamos contra tal procedimento quando o surpreendemos em pessoa de mais idade.

* * *

Rogo-Te, meu Deus, que me mostres por qual desígnio foi adiado o meu batismo: as rédeas do pecado me foram soltas, por assim dizer, para o meu bem, ou não? Por esse motivo é que ainda hoje ouvimos dizer deste ou daquele: “Deixe que ele faça o que quiser: ainda não foi batizado”! Mas, em relação à saúde do corpo, não dizemos: “Deixe que se fira mais, pois ainda não foi curado”! Quanto teria sido preferível ser logo curado e esforçar-me para conservar intacta a saúde da minha alma, sob a proteção que me terias dado! Sem dúvida teria sido melhor.

Eu não Te amava. Prevaricava longe de Ti. E, enquanto prevaricava, de toda parte ressoavam aplausos: Muito bem! Coragem! A amizade a este mundo é de fato adultério, prevaricação e infidelidade a Ti, e as palavras “Muito bem! Coragem” são proferidas para que o homem se envergonhe se não for como os outros. Eu era terra que tenha para a terra.

* * *

Nada é tão digno de censura como o vício; no entanto, para não ser censurado, eu mergulhava ainda mais no vício; quando não me podia igualar a meus companheiros corruptos, fingia ter praticado o que não praticara, para não parecer desprezível pela inocência ou ridículo por ser casto.

Livro II – Os dezesseis anos

E a ambição, o que procura senão honras e glórias, enquanto somente Tu és digno de ser honrado e glorificado eternamente?

A crueldade dos poderosos deseja ser temida; mas, quem deve ser temido, senão Tu, meu Deus? Ao Teu domínio nada pode fugir: quem o poderia fazer, e como, e quando?

Os carinhos dos voluptuosos buscam a reciprocidade do amor, mas nada é mais acariciante do que Tua caridade, e nada mais salutar para ser amado, que a Tua verdade, a mais bela e resplandecente de todas as coisas.

A curiosidade quer aparentar interesse pela ciência, mas só Tu conheces plenamente tudo.

Até a ignorância e insipiência cobrem-se com o manto da simplicidade e da inocência; mas nada é mais simples, nada é mais inocente do que Tu. As próprias obras que prejudicam os malvados.

A preguiça parece desejar apenas a tranquilidade, mas que repouso seguro existe fora de Ti, Senhor?

A luxúria quer ser chamada de saciedade e abundância; mas, só Tu és a plenitude, Tu és a fonte da suavidade inexaurível e incorruptível.

A prodigalidade cobre-se com a sombra da liberalidade; porém, és Tu o mais generoso doador de todos os bens.

A avareza quer possuir muito, mas Tu possuis todas as coisas.

A inveja pleiteia a primazia, mas quem mais excelente do que Tu?

A cólera procura a vingança; qual a vingança mais justa que a Tua?

O temor, enquanto zela pela segurança, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados, que ameaçam os objetos amados; mas, para Ti, que há de insólito ou inesperado? Quem pode separar-Te daquilo que amas? Onde se encontra segurança, senão a Teu lado?

A tristeza definha na perda dos bens, nos quais a cobiça se satisfaz, porque desejaria que nada, como a Ti, se lhe pudesse tirar.

É assim que o homem peca, quando se afasta de Ti e busca fora de Ti a pureza e a limpidez, que ele não pode encontrar senão voltando para Ti.

Todos aqueles que se afastam de Ti e contra Ti se rebelam, a Ti estão imitando de forma pervertida. Ainda que imitando-Te desse modo, mostram que és o criador do universo e, portanto, que não há para onde nos posamos afastar totalmente de Ti.

Livro III – Jovem estudante

Por que o homem procura no teatro o sofrimento, assistindo a acontecimentos trágicos e tristes, cuja experiência não desejaria sofrer na vida real? No entanto, o espectador busca aí o sofrimento dessas situações que, afinal, para ele constitui o seu prazer.

Que é isso senão deplorável loucura?

Com efeito, quanto mais alguém se comove com tais cenas, tanto menos imune se encontra das paixões apresentadas. Todavia, enquanto habitualmente chamamos de desgraça o sofrimento em si, a participação na dor alheia se chama compaixão. Mas, afinal, que compaixão é essa das cenas fictícias do teatro? O espectador não é solicitado a prestar auxilio, mas apenas convidado a afligir-se; e tanto mais aplaude o ator, quanto mais é levado a sofrer. E se essas tragédias humanas, remotas ou fictícias, são representadas de modo a não suscitar compaixão, o espectador retira-se aborrecido e cheio de críticas, se, pelo contrário, fazem sofrer, ele se mantém atento e chora de satisfação.

* * *

Eu, miserável, gostava de sofrer e buscava motivos de dor; no sofrimento alheio, imaginário, teatral, os gestos do ator, quanto mais me faziam chorar, mais me agradavam e mais me seduziam. Portanto, não é de admirar que eu, ovelha infeliz, erando longe do Teu rebanho e me opondo à Tua guarda, fosse atingido por essa tão vergonhosa corrupção. Daí o meu amor pelos sofrimentos, mas não pelos que me atingissem profundamente, pois eu não desejava suportar as dores que amava contemplar; as ficções que eu via e ouvia tocavam-me a superfície da alma.

* * *

Há certos atos que se assemelham a pecados e crimes; contudo, não o são, porque não ofendem nem a Ti, Senhor nosso Deus, nem à sociedade humana. Tal é o caso de quem procura alcançar algum bem para usá-lo na vida em tempo oportuno, sem que se possa afirmar se é por desejo desregrado de possuir; ou o caso de legítima autoridade, quando pune com intuito de corrigir o culpado, e não se sabe se ela sentiu prazer em fazê-lo sofrer. Portanto, muitas ações que aos homens pareciam reprováveis, na realidade são aprovadas por Ti, enquanto outras que os homens elogiam, Tu as condenas. De fato, sucede muitas vezes que a aparência de um ato não corresponde à intenção de quem o pratica ou às circunstâncias desconhecidas no momento.

Livro IV – O professor

Perguntei-lhe [a um homem sagaz, ótimo e famoso médico, que abandonara o estudo dos livros de horóscopo] por qual motivo muitos presságios se realizavam. Respondeu-me, como pôde, que era pela força do acaso, presente por toda parte na natureza. Se alguém, explicava ele, consultando por acaso qualquer poeta que canta e pensa uma coisa totalmente diversa, muitas vezes depara um verso extraordinariamente adequado à preocupação do momento. Assim, não é para admirar que, em virtude de alguma inspiração superior, venha a soar, na alma humana, embora inconsciente do que lhe está acontecendo, alguma palavra que se harmonize, não por arte, mas por acaso, com a situação e os atos da pessoa que interroga.

* * *

Na época em que eu começava a ensinar na cidade em que nasci, travei relações com um amigo que, tendo os mesmos interesses de estudo, veio a ser muito querido. Era da minha idade e estava, como eu, na flor da juventude. Crescemos juntos desde meninos, fomos colegas de escola e de folguedos; mas só então tornou-se verdadeiramente meu amigo, embora não fosse essa a verdadeira amizade, pois a amizade só é verdadeira quando une pessoas ligadas a Ti pelo “amor derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. [Rm 5,5]

* * *

Eu era infeliz, como infeliz é o espírito subjugado pelo amor às coisas mortais, cuja perda o dilacera, e então deixa perceber a extensão da infelicidade que já o oprimia antes de perdê-las. Parecia-me estranho que a vida continuasse para os outros mortais, já que estava morta a pessoa que eu tinha amado como se ela não devesse morrer nunca [Santo Agostinho refere-se a um grande amigo]. Que loucura não saber amar os homens como eles são! Tolo de quem não sabe suportar a condição humana. Assim eram meus sentimentos de então, e por isso me inquietava, gemia, chorava e me agitava, sem encontrar paz, sem saber o que fazer. Como poderia tão facilmente ter atingido o mais íntimo do meu ser aquele sofrimento, senão por haver eu derramado a alma na areia, amando uma criatura mortal, como se imortal fosse?

As conversas e risadas em comum, a troca de afetuosas gentilezas, a leitura em comum de livros agradáveis, o desempenho de tarefas em conjunto, ora insignificantes, ora importantes, contradições passageiras, sem rancor, como acontece a cada um até consigo mesmo, e com tais contradições, assim mesmo bastante raras, tornar mais agradável a habitual concordância de pontos de vista, o ensino recíproco de novidades, o sentir intensamente a nostalgia dos ausentes e o alegre acolhimento no retorno: eis o que amamos nos amigos, o que amamos de tal modo que sentimos a consciência culpada quando não pagamos amor com amor, sem nada esperar de outro senão sinais de afeto. Daí o luto quando morre um amigo, daí as trevas da dor, a doçura que se transforma em amargura, o coração inundado de pranto e a morte dos vivos pela vida perdida dos que morrem.

Feliz aquele que Te ama, e que, por Teu amor, ama o amigo e o inimigo! Somente não perde nenhum ente querido aquele para quem todos são queridos, aquele que nunca perdemos. E quem é ele senão o nosso Deus, o Deus que criou o céu e a terra e que lhe confere plenitude, pois foi plenificando-os que os fez?

Para qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em Ti, se agarra À dor, ainda que se detenha nas belezas que estão fora de Ti e fora de si mesma. Estas nada teriam de belo, se não proviessem de Ti. Nascem e morrem: nascendo, começam a existir e a crescer para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem.

Que minha alma te louve por tudo isso, ó meu Deus, criador de todas as coisas, mas a elas não se deixe apegar por amor aos sentidos. Elas caminham para o seu destino, para deixarem de existir e dilaceram a alma com paixões pestilentas, porque o desejo da alma é existir e repousar no objeto que ama. Mas ele não encontra lugar de repouso nas coisas, porque não são estáveis: fogem.

* * *

Mas sendo escravo das piores paixões, de que me servia ter lido e compreendido por mim mesmo todos os livros que pude ler sobre as artes chamadas liberais? Tu sabes, Senhor meu Deus, quantas noções de arte e dialética, de geometria e aritmética eu aprendi sem grande dificuldade e sem auxílio humano, já que a agilidade da inteligência e a perspicácia crítica são dons Teus. No entanto, eu não os oferecia a Ti. E assim, longe de me serem úteis, causavam-me dano ainda maior.

Que me adiantava então possuir talento tão ágil para entender as ciências humanas, e deslindar, sem ajuda de ensino humano, tantos livros intrincados, se depois errava de modo tão monstruoso e sacrílego na doutrina religiosa? E que prejuízo sofriam Teus humildes filhos por terem menos inteligência, se de Ti não se afastavam, se no ninho da Tua Igreja lhe cresciam as penas, nutrindo as asas da caridade com o alimento de uma fé sadia?

Livro V – Da África à Itália

Investigando esses mistérios [das ciências mais nobres] com a inteligência e a perspicácia de Ti recebidas, fizeram [os filósofos] muitas descobertas: predisseram com antecipação de muitos anos os eclipses do sol e da lua, precisando o dia, a hora e o modo de cada evento, sem erro de cálculo. E tudo sucedeu conforme tinham previsto. De suas descobertas resultaram as leis até hoje consultadas e usadas para predizer o ano, o mês, o dia, a hora dos eclipses totais ou parciais do sol e da lua; e o fenômeno se realiza segundo as previsões. O povo se admira, os ignorantes ficam estupefatos, os sábios cientistas exultam e se orgulham, mas, afastados e eclipsados de tua luz por sua vã soberba, preveem com tanta antecipação o eclipse do sol e enxergam o seu próprio, já presente, porque não procuram indagar, com espírito religioso, Aquele de quem receberam a inteligência que usam em tais pesquisas. Como se fossem seus próprios criadores, não se oferecem a Ti; não sacrificam as próprias ambições, como se abatem os pássaros que voam; não sufocam as próprias curiosidades que, como peixes do mar, perscrutam os segredos do abismo; nem extirpam as luxúrias como se caçam os animais do campo, a fim de que Tu, meu Deus, fogo devorador, possas recriar suas pessoas para uma vida nova, destruindo nelas os desejos mortais.

Perdem-se em vãs reflexões. Proclamam-se sábios, atribuindo a si dons que são Teus; e se empenham, cegos e perversos, em atribuir-Te o que propriamente pertence a eles: transferem suas falsidades a Ti, que és a Verdade, e assim “trocam a glória de Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis; trocam a verdade de Deus pela mentira, e adoram e servem a criatura em lugar do Criador”. (Rm 1,23ss.)

Senhor, Deus da verdade, será suficiente conhecer essas coisas para Te agradar? Infeliz o homem que conhece tudo isso e não Te conhece. Feliz aquele que Te conhece, ainda que ignore o resto. De fato, aquele que se reconhece possuidor de uma árvore e Te é grato pelo uso que dela pode fazer, ainda que não saiba qual a altura ou largura dela, é melhor do que aquele que a mede, lhe conta os galhos, mas não a possui e não conhece nem ama o criador dela. Do mesmo modo, a pessoa de fé possui todas as riquezas do mundo e, mesmo que nada tenha, é como quem tudo possui, pois está unida a Ti, Senhor, de todas as coisas, pouco importando se nada sabe sobre o percurso da Ursa Maior!

Eu já havia aprendido de Ti que uma coisa não deve ser aceita como verdade apenas pelo fato de ser afirmada em belo estilo, e não deve ser tida por falsa porque as palavras saem dos lábios de modo confuso; por outro lado, não deve ser julgada verdadeira porque expressa sem cuidado, ou falsa porque apresentada com elegância. A sabedoria e a ignorância são mais ou menos como os alimentos úteis ou nocivos: podem ser apresentadas através de palavras polidas ou rudes, como os bons e maus alimentos podem ser servidos em pratos finos ou grosseiros.

Livro VI – Agostinho aos trinta anos

Mas, assim como acontece muitas vezes, depois de experimentar um médico mau, receia-se confiar num bom, o mesmo acontecia à saúde de minha alma, que somente poderia curar-se pela fé, mas, para não acabar novamente acreditando em coisas falsas, recusava a cura, resistindo a Ti que fabricaste o remédio da fé e, dotando-o de tão grande poder, o derramaste sobre todas as enfermidades da terra.

Eu aspirava às honras, à riqueza, ao matrimônio, e Tu rias de mim. Nesses desejos amargos eu sofria dissabores, e Tu me querias tanto mais bem quanto menos consentias que eu experimentasse consolação naquilo que não eras Tu.

Pereça tudo isso, abandonemos todas essas vãs frivolidades. Dediquemo-nos à busca da verdade. A vida é infelicidade, a hora da morte é incerta. Esta surge de repente: e eu, em que condições deixarei este mundo? Onde poderei aprender o que nesta vida negligenciei saber? Não terei antes que pagar com duras penas essa negligência?

E me indagava: se fôssemos imortais e vivêssemos num perpétuo prazer do corpo, sem temor de perdê-lo, por que não seríamos felizes? Que coisa mais seria preciso procurar? Eu não percebia que nisso consistia a minha miséria. Imerso no vício e cego como estava, não conseguia pensar no esplendor da luz e da beleza, desejáveis por si mesmas, invisíveis aos olhos do corpo e só percebidas no íntimo da alma.

Livro VII – A busca da verdade

Observando as outras coisas que estão abaixo de Ti, compreendi que absolutamente não existem, nem totalmente deixam de existir. Por um lado existem, pois provém de Ti; por outro não existem, pois não são aquilo que és. Só existe realmente aquilo que permanece imutável. “Bom para mim é apegar-me a Deus” (Sl 72,28), porque, se eu não permanecer nele, tampouco poderei permanecer em mim mesmo. “Ele, imutável em si mesmo, renova todas as coisas (Sb 7,27). Tu és o meu Senhor, porque não tens necessidade de meus bens” (Sl 16,2).

* * *

Depois de ter lido os livros dos platônicos, que me estimularam a procurar a verdade incorpórea, aprendi a descobrir Teus atributos invisíveis através das coisas criadas, e compreendi, à custa de derrotas, qual a verdade que eu, imerso nas trevas, não tinha conseguido contemplar.

Interiormente cheio do meu castigo, comecei a desejar que me considerassem como sábio. Eu não chorava: ao contrário, estava orgulhoso da minha ciência. Onde estava aquela caridade que edifica quando fundada sobre a humildade, isto é, sobre Jesus Cristo? Poderia acaso tê-la aprendido naqueles livros? No entanto, creio que tenhas desejado que eles [os livros platônicos] viessem cair em minhas mãos, antes de aplicar-me à meditação de Tuas Escrituras, para que se imprimissem na minha memória os sentimentos que nelas experimentei. Desse modo, quando Teus Livros me tivessem tornado humilde e as feridas me fossem curadas por Tuas mãos benfazejas, eu conseguiria finalmente notar e distinguir a diferença entre confiar em mim mesmo e confessar meus próprios limites entre aqueles que veem a meta a atingir, mas não enxergam o caminho que dá a ela acesso nem o caminho que leva à pátria bem-aventurada, que precisa ser não apenas contemplada, mas também habitada.

Começando a leitura, descobri que tudo o que de verdade tinha encontrado nos livros platônicos, aqui [na Bíblia] é dito com a garantia da Tua graça, para que não se ensoberbeça quem consegue ver, como se não tivesse recebido, não só aquilo que vê, mas até a própria faculdade de ver. De fato, que possui o homem que não tenha recebido? Além disso, ele não só é induzido a ver-Te, a Ti que és sempre o mesmo, mas também a curar-se para poder possuir-Te.

Nada disso é mencionado nos livros platônicos. Suas páginas não contêm a imagem de um amor tão grande, as lágrimas de confissão, o Teu sacrifício, “a alma abatida, o coração contrito e humilhado”, a salvação do povo, a cidade desposada, o penhor do Espírito Santo, o cálice da nossa redenção.

Livro VIII – A conversão

Ainda hesitava em converter-me. Dirigi-me portanto a Simpliciano, pai do bispo Ambrósio [Santo Ambrósio de Milão], segundo a graça. Na verdade, este o amava como a um pai. Narrei-lhe os labirintos do meu erro. Quando lhe contei ter lido alguns livros de filósofos platônicos traduzidos para o latim por Vitorino – outrora retórico em Roma e de quem ouvira dizer que tinha morrido cristão – ele me felicitou por não ter caído nos escritos de outros filósofos, cheios de erros e de mentiras “segundo os elementos do mundo” [Cl 2,8]. As obras platônicas insinuavam, de todos os modos, a ideia de Deus e de Seu Verbo.

Da vontade pervertida nasce a paixão; servindo à paixão, adquire-se o hábito e, não resistindo ao hábito, cria-se a necessidade. Com essa espécie de anéis entrelaçados, mantinha-me ligado à dura escravidão. Não podia mais invocar a desculpa habitual para me persuadir de que, se ainda não desprezava o mundo e não me decidia a servir-Te, era porque para mim a verdade ainda não estava clara. Pois agora ela era bem conhecida. Sentindo-me ainda ligado à terra, recusava combater em Tuas fileiras, e temia desligar-me dos laços, enquanto o que devia recear era permanecer preso a eles.

Os pensamentos e reflexões sobre Ti eram como os esforços daqueles que desejam despertar, mas, vencidos pela profundeza do sono, nele tornam a mergulhar. Eu não sabia como responder quando me dizias: “Ó tu que dormes, desperta e levanta-te de entre os mortos, que Cristo te iluminará” [Ef 5,14]. Tu me mostravas que estavas dizendo a verdade, e eu, que já estava convencido, nada tinha a responder senão palavras preguiçosas e sonolentas: “Um momento”, “daqui a pouco”, “espera um instante”. Mas esses “momentos” não tinham fim. Aquele “espera um instante” se prolongava. Quem me libertará deste corpo de morte, senão a Tua graça, mediante o Senhor nosso, Jesus Cristo?

Por que razão a vontade é ineficaz? A alma comanda o corpo, e este lhe obedece imediatamente; comanda-se a si mesma, e esta resiste. A alma ordena à mão que se mova, e a obediência é tão fácil, que mal se distingue a ordem da execução. No entanto, a alma é espírito, e a mão é matéria. A alma ordena que a alma queira; e, ainda que se trate da mesma alma, ela não obedece. Qual a origem dessa monstruosidade, e qual a sua razão? A alma ordena o querer; não ordenaria se não o quisesse; no entanto, não executa aquilo que ela mesma ordena. Mas, como ela não quer totalmente, também não ordena totalmente. Ela ordena na proporção do querer. De fato, não é a vontade plena que ordena, por isso ela não é o que ela mesma ordena. Se a vontade fosse plena, não ordenaria que fosse vontade, pois ela já o seria. Portanto, não é um absurdo querer em parte, e em parte não querer. É antes uma doença da alma, porque, embora sustentada pela verdade, a alma não consegue erguer-se totalmente, por estar abatida pelo peso do hábito. Trata-se portanto de duas vontades, mas nenhuma é completa: o que existe numa, falta na outra.

Sentia-me ainda preso ao passado, e por isso gritava desesperadamente: “Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?”

Livro IX – O batismo e a volta para a África

[Santa Mônica, mãe do Abençoado Agostinho] suportou infidelidades conjugais, sem jamais hostilizar, demonstrar ressentimento contra o marido por isso. Esperava que Tua misericórdia descesse sobre ele, para que tivesse fé em Ti e se tornasse casto. Embora de coração afetuoso, ele se encolerizava facilmente. Minha mãe havia aprendido a não o contrariar com atos ou palavras, quando o via irado. Depois que ele se refazia e acalmava, ela procurava o momento oportuno para mostrar-lhe como se tinha irritado sem refletir. Muitas senhoras, embora casadas com homens mais mansos, traziam sinais de pancadas que lhes desfiguravam o rosto e, nas conversas entre amigas, deploravam o comportamento dos maridos. Minha mãe, pelo contrário, ainda que com ar de brincadeira, lhes reprovava as conversas, lembrando-lhes que o contrato lido no casamento devia ser considerado como o documento da própria submissão, não tendo elas condição de assumirem atitudes de soberba contra seus senhores. Conhecendo o tipo de marido colérico que minha mãe suportava, muito se admiravam por nunca se ouvir dizer ou se revelar, por algum indício, que Patrício tivesse batido na mulher, nem que algum dia tivessem brigado em casa. As amigas perguntavam-lhe confidencialmente a razão disso, e ela explicava-lhes o comportamento que acabo de descrever. Algumas então adotavam o mesmo sistema e congratulavam-se por havê-lo experimentado. Aquelas que não o observavam continuavam a sofrer violências.

Ouvi também dizer que um dia, estando eu ausente de casa, quando já vivíamos em Óstia, ela [Santa Mônica], conversando com alguns amigos meus, falava com maternal confiança sobre o seu menosprezo por esta vida e sobre o grande bem que é a morte. Maravilhados diante da coragem dessa mulher – dádiva Tua – perguntaram-lhe se não tinha medo de deixar o corpo tão longe de sua cidade natal. E ela respondeu: “Para Deus nada é longe, nem devo temer que no fim dos séculos ele não reconheça o lugar onde me ressuscitará”.

Quando ela exalou o último suspiro, o jovem Adeodato prorrompeu em soluços, mas, instado por nós, calou-se. Assim também eu, naquele resto de infância que tendia a manifestar-se em lágrimas, também eu calava, vencido pela voz do adulto, pela voz do espírito. De fato, não nos parecia justo celebrar o funeral com lamentos e choros, pois essas demonstrações servem usualmente para deplorar a morte como infelicidade ou como aniquilamento total, ao passo que essa morte não era uma desgraça, nem era para sempre. Estávamos certos disso pelo testemunho de seus costumes, pela sinceridade de sua fé, e por outros motivos bem fundados.

Eu não chegava a romper em pranto, nem mudava a expressão, mas eu sabia o que estava sentindo no coração. Desagradava-me muito que essas fraquezas humanas, inevitáveis na ordem da natureza e em nossa condição humana, tivessem tão grande poder sobre mim; e uma nova dor vinha exacerbar a minha dor, e afligia-me assim com dupla tristeza.

Depois, pouco a pouco, voltava a recordar os primeiros pensamentos sobre Tua serva, seu comportamento piedoso para contigo, tão solícito e discreto para conosco, e do qual eu fora subitamente privado; e queria ainda chorar diante de Ti, a respeito dela e por ela, a respeito de mim e por mim. Afinal, não mais reprimi as lágrimas, que correram à vontade; e sobre elas pousei o coração que nelas encontrou repouso. Só Tu compreendias, e não qualquer pessoa, que teria interpretado com desdém o meu pranto.

Confesso-Te agora tudo isso, Senhor. Leia-o quem quiser, interprete-o como lhe aprouver. Se alguém julgar que pequei, ao chorar minha mãe por alguns instantes – arrancada momentaneamente aos meus olhos aquela que por tantos anos havia chorado a fim de que eu vivesse em Tua presença – não se ria de mim; mas, se for dotado de suficiente caridade, chore também ele por meus pecados diante de Ti, ó Pai de todos os irmãos de Jesus Cristo.

Curado já o meu coração dessa ferida, pela qual podia ser repreendido por um apego demasiadamente carnal, derramo agora diante de Ti, meu Deus, por Tua serva, um tipo bem diferente de lágrimas, aquelas que brotam de um coração comovido pelos perigos que corre todo homem que deve morrer em Adão. É verdade que ela, regenerada em Cristo, ainda antes de ser libertada da carne, vivia de tal modo, que o Teu nome era glorificado na sua fé e nos seus bons costumes. Contudo, não ouso afirmar que desde o tempo em que a regeneraste pelo batismo não tenha escapado de sua boca alguma palavra contra a Tua Lei. Foi afirmado pela própria Verdade, que é Teu Filho: “Aquele que chamar a seu irmão: ‘louco’, terá de responder ao julgamento da geena de fogo”. E ai do homem, mesmo de vida irrepreensível, se Tu o julgares sem misericórdia! Mas, como não perscrutas nossas faltas com rigor, esperamos confiantemente um lugar junto a Ti. Quem quiser enumerar os próprios méritos diante de Ti, que poderá enumerar senão os Teus dons? Oh! Se os homens se reconhecessem como homens, e “aquele que se gloria, se glorie no Senhor”!

Por isso, “Deus do meu coração”, minha glória e minha vida, esquecendo por um momento as boas obras de minha mãe, pelas quais Te dou graças alegremente, peço-Te perdão por seus pecados. Ouve-me, pelos méritos daquele Médico das nossas férias, que foi suspenso no madeiro e que, sentado à Tua direita, intercede por nós. Sei que ela agiu sempre com misericórdia e que perdoou de coração as faltas contra ela cometidas. Perdoa-lhe também as suas faltas, se algumas cometeu em tantos anos de vida depois do batismo. Perdoa, Senhor, perdoa, eu Te suplico, e “não chames a juízo a Tua serva” [Sl 142,2]. Que a misericórdia triunfe sobre a justiça. Tuas palavras são verdadeiras, e prometeste misericórdia aos misericordiosos. Se alguém foi misericordioso, o foi por dom recebido de Ti, Tu que serás misericordioso com quem tiveres misericórdia e terás piedade de quem tiveres piedade.

Livro X – Santo Agostinho reflete não mais sobre o passado, mas sobre o presente

A Ti, Senhor, que conheces os abismos da consciência humana, poderia eu esconder algo, ainda que não quisesse confessar-Te? Eu poderia esconder-Te de mim, mas nunca esconder-me de Ti!

* * *

Grande é o poder da memória, Senhor; tem algo de terrível, uma infinita e profunda complexidade. Mas isto é o espírito, isto sou eu próprio. Que sou eu, então, ó meu Deus? Qual a minha natureza? Uma vida variada e multiforme, imensamente ampla.

Irei além dessa faculdade que se chama memória, para chegar a Ti, ó doce luz. Que me dizes? Subindo, através de minha alma a Ti, que estás acima de mim, transporei também essa minha faculdade que se chama memória, no desejo de alcançar-Te onde podes ser atingido e prender-me a Ti onde é possível fazê-lo. Portanto, ultrapassarei a memória para atingir Aquele que me fez diferente dos quadrúpedes, mas sábio que as aves do céu. Ultrapassarei a memória, para encontrar-Te. Mas onde, ó bondade verdadeira e suavidade segura? Encontrar-Te onde? Se Te encontro fora de minha memória, é porque me esqueci de Ti. E como poderei encontrar-Te, se não me lembro de Ti?

* * *

Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que Te servem por puro amor: essa alegria és Tu mesmo. É esta felicidade, e não outra. Quem acredita que exista outra felicidade, persegue uma alegria que não é a verdadeira.

Portanto, não podemos dizer com segurança que todos queiram ser felizes, pois aqueles que não querem alegrar-se em Ti – única felicidade – certamente não querem ser felizes. Ou talvez o queiram, mas “não fazem o que desejariam, porque a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne”. [Gl 5,17]

Por que a verdade gera o ódio, e o homem que anuncia a verdade em Teu nome se torna inimigo daqueles que amam a felicidade, a qual consiste exatamente na alegria oriunda da verdade? De fato, o amor da verdade é tal, que os que amam algo diferente querem que aquilo que amam seja a verdade. Como não admitem ser enganados, detestam ser convencidos do seu erro. Assim, odeiam a verdade porque amam aquilo que supõem ser a verdade. Amam-na quando ela brilha, e a odeiam quando ela os repreende. Não querendo ser enganados e desejando enganar, eles a amam quando se manifesta, e a odeiam quando os denuncia. Mas a verdade sabe retribuir: como eles não querem ser por ela revelados, ela os denunciará contra a vontade deles, e não mais se revelará a eles. Assim é o espírito humano: cego e preguiçoso, torpe e indecente; deseja permanecer escondido, mas não quer que nada lhe seja ocultado. E sucede-lhe o contrário: ele não se esconde da verdade, mas é esta que se lhe oculta. E apesar de tanta miséria, prefere encontrar alegria no que é verdadeiro, a encontrá-la no que é falso. Portanto, ele será feliz quando, sem obstáculos nem perturbações, puder gozar daquela única verdade, fonte de tudo o que é verdadeiro.

* * *

Fome e sede são sofrimentos, queimam e matam como a febre se não recebem o remédio do alimento. E como esse remédio está ao nosso alcance, graças ao conforto de Teus dons, através dos quais terra, água e céu são postos a serviço de nossa fraqueza, essa desgraça recebe o nome de prazer.

Ensinaste-me a considerar os alimentos como remédio. No entanto, quando passo da ânsia da fome ao repouso da saciedade, é nesta mesma passagem que me aguarda a cilada da concupiscência. De fato, passagem é um prazer, e não há outro por onde se possa chegar até onde nos obriga a necessidade. É pela saúde que como e bebo, mas acrescenta-se a isso o perigo do prazer, que na maioria das vezes procura tomar a dianteira, e, assim, o que digo querer fazer pela saúde, acabo fazendo pelo prazer. Ora, a medida não é igual para ambos os casos, pois, o que é suficiente para saúde, é pouco para o prazer. Muitas vezes, é pouco claro se é indispensável o cuidado corporal que pede o reforço do alimento, ou a enganadora satisfação da gula que deseja ser servida. Nossa pobre alma alegra-se com essa incerteza, encontrando aí a defesa de uma desculpa, e regozija-se por não poder determinar o que é suficiente para o cuidado com a saúde, e, sob o pretexto de conservá-la, encobre a busca do prazer. Procuro todos os dias resistir a essas tentações e invoco Tua destra para que me socorra. A Ti confio as minhas lutas, pois meu juízo neste ponto não é seguro ainda.

* * *

Além da concupiscência da carne, uma ânsia diferente se insinua pelos sentidos do corpo, não de prazer na carne, mas de tudo conhecer através da carne. Esse desejo se disfarça sob o nome de saber e ciência. Como nasce do desejo de conhecer, é chamado na Sagrada Escritura de “concupiscência dos olhos” [Sl 39,12]; por serem estes os sentidos mais aptos para o conhecimento. De fato, é aos olhos que compete ver, mas muitas vezes usamos este termo também para os outros sentidos, quando os empregamos para obter qualquer conhecimento. Assim, não dizemos: “Ouve como brilha”, ou “cheira como resplandece”, ou, ainda, “saboreia como reluz”, ou “apalpa como cintila”. Para tudo se usa dizer: “Veja”. Não só dizemos: “Veja como brilha”, o que somente os olhos podem perceber; mas também: “Veja como ressoa, como cheira, como tem sabor, como é duro”.

A curiosidade procura ter a satisfação de tudo experimentar e conhecer. Por causa dessa mórbida tendência da curiosidade, exibem-se tantas cenas estranhas nos espetáculos. É ela que nos impele a descobrir os segredos da natureza que estão longe de nós, que de nada nos servem, mas que os homens procuram só pelo gosto de conhecer.

E minha vida está repleta dessas misérias. Minha única esperança é a Tua imensa misericórdia. De fato, sendo o nosso coração o recipiente de todas essas misérias, e trazendo dentro de si grande quantidade dessas vaidades, nossas orações são muitas  vezes interrompidas e perturbadas.

Fonte: Santo Agostinho, Confissões, Paulus, São Paulo, 1997, trechos selecionados.

26 de janeiro de 2015

A subclasse


Um espectro assombra o mundo ocidental: a “subclasse”.

Essa subclasse não é pobre, ao menos pelos padrões que prevaleceram ao longo de grande parte da história humana. Existe, em graus variados, em todas as sociedades ocidentais. Como todas as outras classes sociais, beneficiou-se enormemente do grande aumento geral da riqueza dos últimos cem anos. Em certos aspectos, de fato, desfruta de comodidades e confortos que dariam inveja a um imperador romano ou a um monarca absolutista. Também não é politicamente oprimida: não teme dizer o que pensa nem tem medo de ser surpreendida por forças de segurança durante a madrugada. Sua existência, no entanto, é miserável, de um modo especial de miserabilidade que lhe é próprio.

Por ter trabalhado anteriormente como médico em alguns dos países mais pobres da África, bem como em comunidades pobres do Pacífico e na América Latina, não hesito em dizer que o empobrecimento mental, cultural, emocional e espiritual da subclasse pobre ocidental é maior que o de qualquer outro grande grupo de pessoas que já tenha conhecido em qualquer outro lugar.

O comportamento humano não pode ser explicado sem fazer referência ao significado e às intenções que as pessoas dão aos próprios atos e omissões; e todos possuem um Weltanschauung, uma visão de mundo, saibam ou não disso.

A ideia de que a pessoa não é agente, mas uma vitima indefesa das circunstâncias, ou de grandes forças ocultas sociológicas ou econômicas, foi propagada incessantemente por intelectuais e acadêmicos que não acreditam nisso no que diz respeito a eles mesmos, é claro, mas somente no que concerne a outros em posições menos afortunadas. Há nisso um elemento considerável de condescendência: algumas pessoas não chegam à condição plena de humanos.

Na verdade, a maioria das patologias sociais apresentadas pela subclasse tem origem em ideias filtradas da intelligentzia. O clima de relativismo moral, cultural e intelectual – um relativismo que começa como um modismo de intelectuais – foi comunicado de maneira exitosa para aqueles menos capazes de resistir aos seus devastadores efeitos práticos. O relativismo linguístico e educacional ajuda a transformar uma classe em casta – quase em uma casta de intocáveis.

Os intelectuais dizem não existir alta ou baixa cultura: a própria diferença é a única distinção reconhecível. Esse é um ponto de vista disseminado pelos intelectuais ávidos por demonstrar entre si opiniões abertas e democráticas.

A falta de sinceridade dos elogios que os intelectuais fazem à baixa cultura é óbvia para qualquer pessoa que tenha um conhecimento mínimo da grandiosidade dos feitos humanos. O fato é que a cultura aviltada recebe tamanha atenção e elogios sérios que ilude seus consumidores, levando-os a supor que não existe nada melhor que aquilo que já conhecem e de que gostam. Tal adulação é, portanto, a morte da aspiração, e a falta de aspiração é, certamente, uma das causas da passividade.

Será que o destino dessa subclasse importa? Se a miséria de milhões de pessoas importa, então, certamente, a resposta é sim. Mesmo se estivermos satisfeitos em confiar o destino de tantos cidadãos ao purgatório da vida nos bairros pobres, esse não seria o fim da questão.

No mundo moderno, más ideias e suas consequências não podem ficar confinadas ao gueto. O relativismo cultural se alastra muito facilmente. Os gostos, a conduta e os costumes da subclasse estão se infiltrando na escala social com surpreendente rapidez. No que diz respeito à moda do vestuário, dos adornos corporais e da música, é a subclasse quem, de modo crescente, imprime o ritmo. Nunca antes aspirou-se alcançar níveis culturais tão baixos.

O padrão desastroso de relações humanas que existe na subclasse também tem se tornado comum na escala social mais alta. A violência e posterior abandono são, em geral, muito previsíveis dados o histórico e a personalidade dos homens da subclasse, mas as mulheres que foram tratadas dessa maneira dizem que se abstiveram de julgar o companheiro porque é errado fazer juízos de valor. Se, contudo, não forem capazes de emitir um juízo sobre o homem com quem viverão e com que terão filhos, sobre o que emitirão juízos? “Não deu certo”, dizem, e o que não deu certo foi o relacionamento, que concebem como algo possuidor de existência independente das duas pessoas que o compõem, e que exerce uma influência nas suas vidas como se fosse uma conjunção astral.

Para a subclasse, a vida é sorte.

Fonte: Theodore Dalrymple, A Vida na Sarjeta, É Realizações Editora, São Paulo, 2014, p. 16-23, adaptado.

21 de janeiro de 2015

O inconsciente espiritual


Nos séculos XIX e XX, a noção de inconsciente psíquico foi objeto de teorias desenvolvidas e poderosamente estruturadas (Freud, Jung, Adler etc.) que podem levar a acreditar que se trata de uma descoberta recente.

Na realidade, a existência de um inconsciente psíquico é um fato conhecido desde a mais remota Antiguidade. Platão, por exemplo, faz alusão a isso, pondo em relação o sonho com os desejos insatisfeitos ou a agressividade não expressa e apresentando uma concepção que antecipa a do recalque.

Podemos dizer que existe também um inconsciente corporal que é constituído por tudo o que existe, age ou se produz em nosso corpo mas não tem intensidade suficiente para que o percebamos e dele tomemos uma consciência clara (Leibniz chamava isso de “pequenas percepções”).

Do mesmo modo existe um inconsciente espiritual.

A noção de inconsciente espiritual foi evocada principalmente pela psicanálise existencial, cujos principais representantes foram Igor Caruso, Wilfried Daim e Viktor Frankl. Viktor Frankl consagra ao inconsciente espiritual um breve capítulo em seu livro O Deus inconsciente; mas no que se refere à espiritualidade ele fica em generalidades, o que sem dúvida lhe era imposto por seu projeto de elaborar uma psicoterapia que fosse aplicável aos seres humanos de todas as crenças. Sua tese principal é que toda neurose resulta de uma perda do sentido da existência, e que a única terapêutica adequada é a “logoterapia”, que visa a encontrar o sentido perdido, que reside em Deus. Quanto a Igor Caruso, ele considera que toda neurose resulta de uma absolutização (e portanto de uma deificação) de valores relativos, e que a terapêutica consistirá pois em dar de novo aos valores da existência sua justa dimensão. Seu discípulo Wilfried Daim retomou esta concepção. Segundo ele, o ser humano, constituído por uma relação vital com o Absoluto, desencadeia em si conflitos psíquicos cada vez que confere um caráter absoluto a seres relativos e substitui por ídolos o único absoluto que é Deus.

Como vemos, esses autores permanecem no quadro da psicopatologia, isto é, da parte da psicologia que se interessa pela origem, pela forma, pela evolução e pelo tratamento das doenças psíquicas. Sua referência a Deus, ainda que reivindique judaica no caso de Frankl e cristã no caso de Daim e Caruso, permanece muito geral.

Podemos por isso dizer que o inconsciente espiritual é uma noção que, no próprio quadro da espiritualidade cristã, não chegou até hoje a ser objeto de nenhum estudo sistemático. Entretanto, as referências ou as alusões ao que podemos designar como um “inconsciente espiritual” são suficientemente numerosas nas fontes tradicionais (especialmente nos escritos patrísticos) para que possamos considerar que há na espiritualidade cristã oriental uma concepção subjacente do inconsciente espiritual e que ela pode servir para compreender uma grande parte não somente da vida espiritual, mas ainda, por via de consequência, da psicologia e do comportamento humanos que lhe são relativos, inclusive naqueles que não entendem seu ser e seu modo de existência em relação a Deus ou em relação a uma espiritualidade definida.

Notamos que a relação do ser humano com Deus pode ser positiva ou negativa. A esta distinção correspondem duas dimensões do inconsciente espiritual.

A dimensão positiva do inconsciente espiritual é constituída por tudo o que no ser humano o liga, o une a Deus e o orienta para Ele, sem que ele esteja consciente; por estas razões podemos qualifica-lo de “inconsciente teófilo”. Sua dimensão negativa é constituída por tudo o que desprende, separa, afasta o ser humano de Deus e o orienta em um sentido oposto a Ele, sem que ele esteja consciente; podemos assim qualifica-lo de “inconsciente deífugo”.

Essas duas dimensões do inconsciente espiritual moram juntas em todos os seres humanos, segundo proporções variáveis, relativas a cada um, no grau de consciência que ele tem de uma e de outra, mas também na sua história pessoal pela parte de inconsciente relativa a esta história.

No homem decaído que vive longe de Deus e de toda preocupação espiritual o inconsciente atinge o mais alto grau.

No cristão que leva uma vida espiritual, a vida ascética (no sentido amplo em que a entendemos) permite uma tomada de consciência progressiva e, em consequência, uma redução do inconsciente espiritual em suas duas dimensões. No asceta que atinge a impassibilidade, a dimensão negativa do inconsciente espiritual desaparece, do mesmo modo que sua dimensão positiva, em proveito de uma plena consciência do que ele é em sua relação com Deus.

As duas dimensões do inconsciente espiritual não devem ser concebidas como realidades estáticas, mas como realidade dinâmicas, não somente no sentido de que são suscetíveis de um aumento ou de uma redução em relação à consciência que a pessoa tem, mas igualmente no sentido de que têm uma atividade e um dinamismo próprios quanto à sua forma e ao seu conteúdo.

Essa atividade tem uma influência sobre a vida espiritual da pessoa, mas também sobre sua vida psíquica, na medida em que está é relativa àquela.

O inconsciente teófilo

O inconsciente teófilo pode ser compreendido, de maneira geral, sob quatro aspectos.

a)      A díade logos-tropos

A dimensão positiva do inconsciente espiritual é constituída fundamentalmente, em cada ser humano, pelo logos de sua natureza.

O “logos da natureza” do ser humano é a definição da natureza humana segundo o projeto divino, tal como Deus a concebeu e quis antes dos séculos em Seu Desígnio, e portanto também como Ele a realizou criando-a.

Portanto, é o que define fundamentalmente, caracteriza essencialmente o ser humano ao sair das “mãos de Deus”. É também a natureza humana em sua qualidade de criação ‘boa”, em sua (relativa) perfeição original.

Mas o logos da natureza define também sua finalidade, isto é, o fim que Deus lhe determinou, fim já pontencialmente ou idealmente realizado segundo a ideia-vontade de Deus, que corresponde, pois, para a natureza à norma de sua perfeição, a um ideal de realização ou de acabamento de si mesma, da qual é portadora e para a qual ela tende. Assim, o “logos da natureza” é ao mesmo tempo “uma lei natural e divina”.

Entre todas as faculdades do ser humano dinamicamente orientadas para Deus, o intelecto (noûs) vem em primeiro lugar. Máximo evoca o impulso natural do intelecto para Deus e observa que ele tende, por esse impulso natural, a procurar Deus, sublinhando também a capacidade natural desta faculdade de gozar espiritualmente de Deus no fim desse impulso. De acordo com um modo que corresponde À sua natureza, a razão tem a mesma tendência.

Em segundo lugar vem o desejo. Máximo Confessor observa que temos “um desejo natural de Deus”. E associando as faculdades de conhecer e de desejar ele escreve: “Deus, que fundou com sabedoria toda natureza e que, secretamente, inseriu em cada uma das essências racionais  como faculdade primeira o conhecimento dEle mesmo, deu-nos também, a nós humildes seres humanos, como Mestre generoso, segundo a natureza, o desejo voltado para Ele e o amor [dEle], tendo-lhe associado naturalmente o poder da razão, pela qual nos é possível conhecer facilmente os modos de realização [desse] desejo e de não deixar escapar por erro o que nos esforçamos para obter”.

Em terceiro lugar vem o poder irascível, que Máximo associa à razão e ao desejo, para lhe reconhecer Deus como finalidade de seu uso: “O fim da operação raciocinante da alma é o verdadeiro conhecimento; o fim da operação desejante, o amor, o fim da operação irascível, a paz [...] Daí vem que, naturalmente, tenhamos a capacidade de raciocinar para buscar Deus, que tomemos a faculdade desejante (epithumia) para desejá-lo, só a Ele, e que o poder irascível (thumos) nos seja concedido, a fim de lutar por Ele só”.

A estas faculdades principais que desempenham um papel essencial na orientação dinâmica da natureza humana para Deus, é necessário acrescentar a vontade (thelema, thelesis), que depende, como sublinhou Máximo, da essência ou da natureza e não da hipóstase. Segundo Máximo, a vontade é “uma orientação geral da natureza racional comum para o bem conforme esta natureza, uma harmonia com o que lhe dará seu ser acabado”, isto é, Deus. “Enquanto natural”, a vontade humana não somente “não é contrária a Deus”, mas “quando ela é típica e movida nativamente [isto é, segundo a sua natureza] está em sintonia [com Deus]” e tende para Ele como Aquele em quem a natureza encontrará sua realização. Podemos, pois, dizer que “a deificação [é] o fim supremo ao qual tende a vontade humana”, do mesmo modo que a deificação corresponde à “plena satisfação do desejo profundo do ser humano pelo retorno a seu princípio”.

É aí que intervém, no pensamento de São Máximo, em relação com a de logos, a noção de tropos.

Enquanto o logos refere-se À essência ou à natureza, o tropos é relativo à hipóstase ou à pessoa.

Enquanto o logos define a natureza, os poderes (ou faculdades) desta e as atividades (ou operações) destes poderes, o tropos define a maneira pela qual essa natureza existe e a maneira (ou o modo) pela qual suas faculdades se exercem ou operam. Enquanto o logos é imutável, o tropos varia segundo as pessoas. Ele depende da disposição da vontade (gnome) [7] assim como da escolha (proaireses) de cada um, e as expressa em uma maneira de ser ou em um comportamento (é o sentido elementar da palavra tropos) que toma seu sentido relativamente ao logos; este, como vimos anteriormente, define a norma daquilo que o ser humano é segundo a sua natureza verdadeira, tanto quanto À constituição essencial desta quanto a seu fim ou à sua realização de acordo com a ideia-vontade de Deus. Para São Máximo, é pelo modo de realização da operação natural que “é conhecida a diferença daqueles que agem e das coisas que são efetuadas, a favor ou contra a natureza”, e que é segundo o tropos que “se é justo ou injusto, mais ou menos, como isto ou como aquilo, segundo nos prendemos mais à natureza ou nos afastamos mais dela”.

Enquanto a pessoa leva um modo de existência que contradiz o logos de sua natureza, este logos continua a existir nela e a orientar dinamicamente sua natureza para Deus. Ele constitui um inconsciente espiritual que possui, de algum modo, sua vida e seu dinamismo próprios, continuando a orientar a natureza para Deus, mesmo quando um modo de existência contrário a Deus é levado pela pessoa que vide no pecado, nas paixões e no esquecimento de Deus.

Podemos dizer que o estar mal constitui um recalque ativo e permanente das tendências da natureza por um modo de existência contrário a essas tendências.

Produz-se então, no fundo do ser humano decaído, um conflito, igualmente inconsciente, por um lado entre ao que a natureza aspira profundamente e tende através de todas as suas faculdades e, por outro lado, a atividade que a pessoa dá a estas faculdades, fazendo uso delas em um sentido contrário ao logos da natureza.

Daí que o ser humano se torno assim inimigo de si mesmo, como sublinharam vários Padres, inclusive São Máximo, alimentando pelo pecado e pelo modo de vida que lhe está ligado um conflito entre o que ele quer ser em sua natureza profunda e o que ele escolhe ser em seu modo de existência decaído.

No ser humano que vive no pecado e nas paixões, o livre-arbítrio contradiz e recalca em permanência a vontade de sua natureza. Esta não pode se impor, porque ela depende do livre-arbítrio da pessoa para que possa ou não se expressar e se realizar.

O logos da natureza se expressa, entretanto, por um lado, nas tendências positivas e boas do ser humano, como por exemplo num certo sentido do bem e do mal ou da justiça e da injustiça, no amor experimentado por seus pais, por seus filhos ou por seu cônjuge, na amizade, nos sentimentos de piedade e de compaixão, nas manifestações de ajuda mútua ou de solidariedade, na busca da justiça e da paz etc. Mas, mais frequentemente, essas tendências, não estando mais ligadas conscientemente a seu princípio e a seu fim em Deus, perdem sua qualidade espiritual.

O logos da natureza se expressa, por outro lado, de uma maneira desviada nas atitudes, nos cultos e nos ritos pseudo-religiosos aos quais se entregam, em graus diversos e de uma maneira muitas vezes inconsciente, todos os seres humanos, sem exceção. Poderíamos falar aqui de um “retorno do recalcado”, na medida em que a orientação dinâmica para Deus, que caracteriza fundamentalmente o logos da natureza humana e é, portanto, ativa em todo ser humano, assim mesmo chega a se expressar no nível consciente, mas em uma forma desviada, travestida, deformada, faltando à sua finalidade verdadeira.

b)      A díade imagem-semelhança

A díade logos-tropos, analisada sobretudo por São Máximo Confessor, corresponde , nele e em muitos outros Padres gregos, a uma díade mais conhecida: a imagem (eikon) e a semelhança (omoiosis) de Deus.

Geralmente os Padres consideram que é fundamentalmente por sua alma intelectiva e racional que o ser humano é criado à imagem de Deus.

O ser humano é criado igualmente à imagem de Deus por sua capacidade de autodeterminação, que, como vimos, se identifica, para São Máximo, com a vontade natural.

Entre as propriedade constitutivas da natureza do ser humano que são participações naturais nas propriedades divinas e fazem dele um ser à imagem de Deus figuram, pois, o fato de ser inteligente e razoável, assim como a independência (autodespoton) e a autodeterminação (autexousion).

Algumas dessas propriedades constitutivas da imagem de Deus referem-se ao começo, outras ao fim do ser humano. São Máximo Confesor considera ser a imagem de Deus o logos do ser humano, o qual, como vimos, define as características essenciais do ser humano, mas também o que ele é, ideal e potencialmente, segundo a vontade de Deus, seu fim assim como a tendência a este fim. Figuram igualmente como componentes da imagem de Deus propriedades que da mesma forma permitem ao ser humano realizar seu fim. É assim que Máximo une à imagem o movimento em direção ao ser, a capacidade de buscar Deus e de tender a Ele. São Máximo tem, pois, uma concepção da imagem de Deus no ser humano eminentemente dinâmica. Para ele, mas também para outros Padres gregos, a imagem é um conjunto de capacidades que permitem ao ser humano realizar a semelhança, e ela o orienta já dinamicamente para essa realização.

A semelhança, mesmo que não conheça solução de continuidade em relação à imagem, é de uma outra natureza. Enquanto a imagem refere-se à natureza, a semelhança é relativa à hipóstase. Enquanto a imagem faz parte da constituição natural do ser humano e lhe é dada de imediato pelo Criador, não supondo nenhuma intervenção de sua parte, a semelhança no início só é potencial; ela pede sua participação pessoal para ser realizada e é, neste sentido, tributária de seu livre-arbítrio. De acordo com São Máximo, enquanto a imagem dependo do logos de sua natureza, a semelhança depende de seu gênero de vida, em outras palavras do modo (tropos) de sua existência.

Enquanto Deus possui por natureza as qualidades que correspondem às virtudes, o ser humano é chamado a possuí-las pela participação. Cabe-lhe por disposição querer e por escolha adquiri-las, e isto fazendo-se pessoalmente o imitador de Deus. Enquanto a posse da imagem é imediata, a posse da semelhança é o fruto de um devir, não pode ser adquirida senão no final de um esforço ascético constante pelo qual o ser humano procura se conformar ao Arquétipo divino, e em consequência de um modo de vida habitual conforme às virtudes que a constituem. De fato, pela vida segundo as virtudes, ligada à prática dos mandamentos divinos, o ser humano se torna semelhante a Deus.

c)       A alma naturalmente cristã

Um terceiro aspecto do inconsciente teófilo fará aparecer o caráter não somente religioso mas propriamente cristão da concepção do inconsciente que desenvolvemos.

Muitos Padres afirmam que é à própria imagem do Logos, do Verbo de Deus, que Adão foi criado, e que o próprio mistério da criação do ser humano à imagem do Logos liga-se ao mistério da deificação do ser humano no Verbo encarnado. Não há para o ser humano, desde a sua criação, a não ser um fim normal: a semelhança com Cristo, norma da realização de sua natureza, plena e claramente revelada na Encarnação de Jesus. O ser humano foi criado como ser “lógico” (logikos), isto é, racional, mas mais fundamentalmente como um ser cristológico, significando logikos para os Padres conforme ao Logos, ao Verbo de Deus. E os Padres chegam mesmo a afirmar que o ser humano foi criado não somente à imagem do Logos enquanto Deus, mas mesmo à imagem do Logos encarnado, do Cristo Deus e homem, e que ele tem por destino, desde a sua criação, por causa de sua própria natureza, tender com todo o seu ser a se assimilar ativamente a Cristo. São Nicolau Cabasilas escreve assim: “A natureza humana foi criada desde a origem em vista do Homem Novo, a inteligência e o desejo do ser humano são criados para o Cristo: recebemos a inteligência para conhecer o Cristo, o desejo para que sejamos atraídos para Ele e a memória para carregá-lo em nós. E isto ainda mais que Ele serviu de modelo à nossa criação. De fato, não foi o velho Adão o modelo (paradeigma) do Novo, mas o Novo do antigo (cf. Rm 5,14). Para nós, que o reconhecemos como nosso ancestral, o primeiro Adão passa como sendo o arquétipo da natureza humana; mas para Aquele que tem diante dos olhos todos os seres, antes mesmo que eles existissem, o ancestral é apenas a imitação do novo Adão. Ele foi criado à imagem e semelhança deste último”. Podemos pois dizer que “o ser humano tende ao Cristo não somente por causa da divindade de Nosso Senhor, mas também por causa desta outra natureza [a humana] que Ele possui”. São Gregório Palamás ensina no mesmo sentido: “Já a própria formação do ser humano desde a origem, criado à imagem de Deus, foi em vista do Cristo, a fim de que o ser humano possa, no tempo preciso, compreender nele o Arquétipo”.

(d) A graça

Uma outra dimensão do insconsciente teófilo no ser humano consiste na graça divina da qual ele participa. Esta graça está presente em diferentes graus e sob diferentes formas, se bem que se trata sempre da mesma graça, divina em sua natureza e em sua origem.

A presença ativa de Deus nos logoi dos seres corresponde ao que a teologia ortodoxa chama de energias divinas. Assim, São Máximo Confessor observa que o intelecto, na multidão dos logoi que pode perceber nos seres, se tiver as disposições requeridas, “contempla as energias de Deus”. De fato, explica ele, “em cada logos de cada coisa particular, e semelhantemente em todos os logoi segundo os quais todas as coisas existem, é Deus”, que entretanto não é nenhum dos seres e está acima de todos. “Toda energia divina significa Deus todo inteiro indivisivelmente através dessa energia”; mas, tudo “sendo todo inteiro e comumente em todos e particularmente em cada um dos seres, Deus o é sem parte nem partilha, não estando nem separado diversamente nas diferenças infinitas dos seres nos quais Ele está inerente, portanto nem contraído segundo a existência particular de um só, nem contraindo as diferenças dos seres segundo a única totalidade de todos, mas Ele é verdadeiramente tudo em todos, Ele que não sai nunca de Sua própria e indivisível simplicidade”.

As energias divinas, enquanto são comunicadas, dadas por Deus às criaturas, são comumente chamadas de “graça”.

Essas energias divinas que se manifestam em todos os seres da criação em graus diversos estão presentes no ser humano em um grau eminente, visto que ele ocupa a primeira fila entre as criaturas e é a única das criaturas feita à imagem de Deus. Essas energias divinas estão presentes no logos da natureza humana, mas também, bem entendido, na imagem de Deus no ser humano, que caracteriza fundamentalmente esse logos, e igualmente nas virtudes, que estão presentes na natureza de uma certa forma.

O inconsciente deífugo

São Macário nota o caráter inconsciente, para a maioria dos seres humanos, dos efeitos neles do pecado ancestral: “O pecado que se introduziu [pela desobediência de Adão] e que corresponde a um certo poder espiritual de Satanás e a uma realidade semeou todos os males. Sem ser descoberto, ele age no homem interior e nos seu espírito, e introduz a guerra nos pensamentos. Mas o ser humano ignora que ele age por instigação de uma força estranha. Ele imagina que tudo isso é natural e que se trata de suas próprias reflexões”. João o Solitário, ao ser questionado por Eusébio por que razão os seres humanos cuidam das doenças de seu corpo mas não se preocupam com as doenças de sua alma, responde que, sob o efeito do pecado, “eles se tornam incapazes de ver e de ouvir, mas [são] parecidos com mortos que não sentem nenhuma piedade por seu estado interior”. “Doentes que somos”, constata São João Clímaco, “não podemos diagnosticar [as doenças espirituais que estão em nós], ou por causa de nossa fraqueza, ou porque elas estão muito profundamente enraizadas”.

O ser humano decaído, na medida em que não tem consciência de seu estado doentio, negligencia deixar-se cuidar e afirma que não tem necessidade da cura que lhe propõem. Numerosos são aqueles “incapazes de sentir suas paixões. E como eles não as sentem não se empenham também em curá-las”, constata Santo Isaque. Eles resistem à medicina espiritual. “De fato, como aceitaria ser cuidado aquele que não se deixa convencer de que vive doente ou ferido?”, pergunta São Simeão. Ora, ficando inconsciente de seu estado, ele só o agrava. “A pior das doenças é aquela que consome um paciente sem que ele suspeite disso”, observa São João Crisóstomo, que aliás observa no mesmo sentido que “ignorar a si mesmo é a pior das loucuras e dos frenesis”.

A esse respeito, há assim uma distância considerável entre o pecador que é como um cego a seu respeito e aquele que progride na ascese. Enquanto este as desaloja nos recônditos mais escondidos de sua alma, aquele se crê isento delas desde que não atinjam proporções extraordinárias em relação ao estado de decadência médio da humanidade ambiente. É assim que São Macário observa: “Tanto tempo quanto um ser humano é retido nas coisas visíveis deste mundo, cercado das diversas cadeias da terra, arrastado pelas más paixões, ele não sabem nem mesmo que há um outro combate, uma outra luta, uma outra guerra dentro dele. De fato, só quando um ser humano levanta-se para combater e se libertar de todos os laços visíveis deste mundo [...] e começa a permanecer com perseverança diante do Senhor, esvaziando-se deste mundo, só assim ele pode conhecer o combate interior das paixões que se ergue nele, a guerra interior e os pensamentos maus. Como dissemos, tão longo tempo quanto alguém não luta, não renuncia ao mundo, não se desprende de todo o seu coração da cobiça terrestre, não quer se unir inteiramente e sem reserva ao Senhor, ele não conhece sem as astúcias secretas dos espíritos de malícia, nem as paixões escondidas nele. Mas ele é estranho a si mesmo, não sabendo que traz em si as chagas das paixões secretas”. Notemos que, de todas as paixões, é o orgulho que obnubila mais a consciência do ser humano e o leva a ser inconsciente de suas doenças, tanto das menores ou mais sutis como das mais importantes. “O orgulho”, diz São João Clímaco, “produz um total esquecimento dos pecados”. “A maioria dos orgulhosos”, constata ele ainda, “ignoram a si mesmos e acreditam ser impassivos; somente na hora da morte eles descobrem a sua pobreza”. Aliás, ao orgulho está ligado o que os Padres chamam de “mania de se justificar”, atitude pela qual o ser humano, em presença de seu pecado, recusa-se a reconhecê-lo como seu, recalca a consciência.

Não é apenas por não ser suficientemente desperto espiritualmente que explica o fato do ser humano ser total ou parcialmente inconsciente das paixões que o habitam. Frequentemente, como observa São Máximo Confessor, as paixões estão em um estado de anergesia (anergesia), em outras palavras, de inativação ou de sono. Tal estado pode durar mais ou menos tempo e fazer o próprio espiritual acreditar que está isento ou liberto desta ou daquela paixão, que faz algum tempo não se manifestou ou até mesmo nunca se revelou. Assim, pode se estabelecer na alma um estado de paz na verdade ilusório.

De fato, ao lado do estado de paz autêntico que resulta da impassibilidade (estado que atinge o ser humano no cume da práxis, quando ele está realmente liberto de toda paixão), pode existir, como assinala Evágrio, um falso estado de paz que resulta da retirada dos demônios, sobretudo quando eles estão seguros de possuir mesmo sua vítima, com um outro ponto de vista. É o caso por exemplo quando a vaidade ou o orgulho vêm tomar na alma o lugar de todas as outras paixões.

Pode acontecer também que o ser humano tenha a consciência abafada pelas atividades mundanas múltiplas e febris às quais ele se entrega, que suas paixões lhe sejam veladas por suas preocupações cotidianas que o impedem de considerar seu estado. “Graças a seu corpo”, nota neste contexto São Doroteu de Gaza, “a alma é distraída e aliviada de suas paixões. Mas “que venha um de vocês e que eu o feche em uma cela escura, que ele passe somente três dias sem comer, sem beber, sem dormir, sem ver ninguém, sem salmodiar, sem rezar, sem nunca se lembrar de Deus, e ele verá o que lhe farão as paixões”.

Quando o ser humano renuncia à vida mundana para se comprometer profundamente com a vida espiritual, é normal igualmente que paixões das quais ignorava a existência nele ou que lhe pareciam até então pouco desenvolvidas despertem e revelem-se então com toda a sua intensidade. “Não nos admiremos”, escreve São João Clímaco, “de nos ver mais sujeitos às paixões nos começos de nossa vida monástica do que o estávamos quando vivíamos no mundo. [...] De fato, os animais ferozes já estavam lá, escondidos, mas não se mostravam”. E Santo Talássio observa: “As piores paixões estão escondidas nas almas. Mas aparecem quando as coisas são repelidas”.

Este ensinamento de São João Clímaco evidencia o fato de que a paixão, enquanto não tiver sido totalmente extirpada, não somente subsiste na alma, mas nela se desenvolve sem que a pessoa tenha consciência disso; tomando incremento, ela adquire uma força que exerce uma pressão e a revelará com violência, assim que um objeto que lhe seja conveniente lhe der a ocasião de se expressar, todavia com a condição de que o ser humano esteja bastante desatento para lhe deixar o caminho livre e não a dominar pela força da graça.

É evidente , desde este momento, que uma das primeiras funções da terapêutica posta em prática para curar o ser humano decaído de suas paixões será fazer aparecê-las bem claramente, torná-lo plenamente consciente delas.

Fonte: Jean-Claude Larchet, O Inconsciente Espiritual, Edições Loyola, São Paulo, 2009, trechos selecionados.

7 de janeiro de 2015

"Eu me amo e quero você"


Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. (Mateus 5:29-30)

Isso não significa que devamos nos mutilar fisicamente, mas que devamos, isso sim, estar dispostos a abrir mão do que quer que nos conduza ao pecado, mesmo aquilo que em si aparente ser perfeitamente bom. Em outras palavras, temos de fazer alguns sacrifícios em prol de nosso bem-estar espiritual. Não existe atalho para a santidade.

Todo esse sacrifício é em última instância feito visando o amor. A autonegação deve ser exercida visando o amor a Deus e ao próximo. Desnecessário dizer que esse tipo de amor não tem a ver com emoções ou sentimentos, mas trata-se de uma doação dinâmica de nossas vidas ao próximo. Jesus disse: "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos" (João 15:13). Precisamente este é o amor de Deus por nós:

Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou Seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o Seu amor. (I João 4:10-12)

Hoje em dia muito se fala sobre o "amor". Todavia, a ideia secular de amor tem a ver com auto-satisfação, não com auto-sacrifício. No mais das vezes, "eu te amo" significa "eu me amo e quero você". Isso não é amor, mas uma paródia demoníaca de amor. Quem quer que pregue um sistema ético baseado num amor que não envolva autonegação e auto-sacrifício prega a doutrina do Anticristo. Não se deixe enganar pelos lobos em pele de cordeiro. O amor que não exige a entrega total de si não é amor. Conforme ensinou São Tiago:

E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? (Tiago 2:15-16)

Portanto, o caminho do Cristo é o caminho da Cruz. Não há caminho alternativo à vida eterna que não seja através do sacrifício do amor sofredor.

Fonte: The Faith, Clark Carlton, Regina Orthodox Press,Salisbury, EUA,  1997, pág. 131-132.

Nota: um exemplo de falso sistema ético de amor é o apresentado por José Ortega y Gasset aqui.

14 de março de 2014

Somos como o jumento que carrega o Cristo


Quando o Cristo entrou em Jerusalém montado em um jumento, as pessoas O receberam com flores e saudações. O jumento achou que tudo aquilo era para ele. Somos como o jumento que carrega o Cristo. Tenho muitos talentos, mas será que os tenho porque sou digno deles? Foi uma mão generosa que os semeou...e vivo com ela. Procuro não esquecê-la e não traí-la. Não tenho orgasmos com meu "ego". Compreendo que eu, Pyotr Mamónov, não fiz nada pelas minhas próprias forças. Não tenho nada do que me gabar. A quem Deus dá, Ele pede de volta. Devemos viver da maneira mais pura possível. Tudo é tão frágil, desprotegido.

Fonte: trecho do discurso de Pyotr Mamónov na premier do filme "Óstrov" (A Ilha).

11 de março de 2014

Quem aplaca o orgulho exalta a humildade: a importância do perdão


“Quem – eu? – eu tenho de ir primeiro pedir perdão?! Por que eu deveria me humilhar e me rebaixar para ele? Quem ele pensa que é? E onde fica minha dignidade?” etc. Quem nunca disse coisas parecidas antes? Provavelmente todos nós, mas o fato é que Jesus Cristo nunca disse que deveríamos perdoar somente quando nossos oponentes viessem pedir perdão primeiro. Ele jamais ensinou que o menor deveria pedir perdão primeiro. Todos devem perdoar seus inimigos pessoais sempre que qualquer coisa tenha ferido seu orgulho. Se quem começou a briga resolver humildemente pedir desculpas a seu oponente, ser-lhe-á apagada a culpa de sua alma; se o inocente permanecer irreconciliável em seu orgulho, tornar-se-á ainda mais culpado do que quem começou a briga.

Os Santos Padres ensinam que quem perdoa sempre vence. A despeito das circunstâncias, se você perdoar, sua alma imediatamente será limpa e tornar-se-á digna do Paraíso. Se perdoar quem armou uma cilada para assassiná-lo, terá se tornado igual a um mártir. Quem aplaca o orgulho exalta a humildade.

Suponha que você tenha discutido com vizinho porque ele lhe tomou dinheiro emprestado e acabou não honrando sua dívida com você, e também não quer mais pagar-lhe de volta o que deve. O que devemos fazer para não pecar? Jesus Cristo disse que devemos perdoar! É claro que podemos gentilmente pedir-lhe que pague o que deve. Se o devedor perceber que é pecado roubar dinheiro dos outros e acabar por lhe devolvendo a soma emprestada, isso será bom para ele e para você. Mas se ele não lhe devolver, você deve deixar tudo nas mãos de Deus e perdoá-lo. Uma só prioridade você deve ter em mente – espantar o pecado! É melhor ser trapaceado do que levar o caso ao tribunal (cf. I Coríntios 6:7)!

É verdade que, agindo dessa forma, você perderá algo importante para o corpo, mas ao mesmo tempo ganhará algo muito mais precioso para a alma: você mostrará que estima o amor ao próximo mais do que o dinheiro e, assim, cortará as raízes do ódio de sua alma! É exatamente para ensinar essa verdade que Jesus Cristo deixou-lhe este mandamento: E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. (Mateus 5:40)

O ladrão rouba a propriedade, mas Deus vê tudo. Se perdoar, Ele lhe recompensará mil vezes no céu e considerará a propriedade roubada como esmola. Então seu inimigo, contra a vontade dele, tornar-se-á seu benfeitor, e com sua ajuda você será salvo mais facilmente.

Perdendo o que é temporal você ganha o que é eterno. Como os Santos Padres tinham razão! Você consegue perceber isso, caro leitor? Se sim, bom para sua alma, mas se ao lembrar de seus inimigos e devedores você balança a cabeça em desaprovação é porque ainda não consegue imaginar como perdoar os malfeitores que lhe roubaram nem como se reconciliar com aquele que lhe insultou. Nesse caso, você não está no caminho certo – ora, são precisamente a esses inimigos odiosos que lhe é mandado perdoar. Se sua alma ainda é atormentada por pensamentos negativos, então é porque você ainda não experimentou o doce sabor do perdão; seus interesses carnais ainda falam mais alto do que os interesses espirituais. Você, todo preso na rede das coisas mundanas, não consegue alçar voo até os horizontes do espírito onde Jesus Cristo prepara uma grande bênção a Seus seguidores. Se, porém, você percebe que o conselho dos Santos Padres está certo, mesmo que eles desconheçam os interesses materiais e temporais que lhe afligem e que de qualquer forma devemos perdoar nossos inimigos, se você percebeu que há algo de profundamente verdadeiro no que acabou de ler, por mais tolo que possa parecer aos olhos do mundo, sorte a sua – pois você acaba de encontrar o caminho que leva ao Reino dos Céus.

A pessoa vingativa permanece irreconciliável. São Tikhon de Zadonsk disse muito claramente: “As portas da misericórdia de Deus estão abertas aos ladrões, aos assassinos, aos fornicadores, aos publicanos e todos os pecadores, mas estão fechadas aos vingativos”.

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, Strife and Reconciliation, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.