Se nós nos habituamos a ler somente livros de
filosofia, ciências sociais etc., nós não estamos conscientes do elemento
ficcional ali dentro. O que significa que nós tomaremos tudo num sentido
literal, plano e raso, e acreditaremos que o capitalismo de Karl Marx realmente
existe, que a tal da ética protestante [de Max Weber] realmente existe, e vamos
tratar como “coisas” essas criações da imaginação humana, perdendo
justamente a tensão entre essas formas e a realidade. Mas, na análise da
realidade, tudo está nessa tensão. É por isso mesmo que nenhuma fórmula
tomada linearmente jamais funciona.
Você vê esse mesmo problema na pintura. Se você
vai pintar um retrato, você tem que dar ao personagem retratado uma forma. Essa
forma certamente não é a dele na realidade. O retrato, evidentemente, não é a
pessoa; ele tem algo da pessoa, mas tem algo dele próprio.
Do mesmo modo, em qualquer raciocínio
científico, se você vai delimitar um campo para estudo, você tem que saber
distinguir entre o campo do seu estudo e um outro campo. A ciência impõe à
realidade os limites da sua abordagem, aquilo que os escolásticos chamavam de
seu “objeto formal”. Você tem o “objeto material”, que é aquele objeto que você
encontrou na realidade, e você tem o “objeto formal”, que é o que você vai
estudar dele. Se você fosse ser fiel ao objeto material cem por cento, todas as
abordagens do mundo não seriam suficientes. Você vai estudar uma vaca? Você vai
estudar a vaca do ponto de vista biológico, zoológico, físico-químico, econômico,
estético... não termina mais. Então, você tem que fixar um ponto de vista. Esse
ponto de vista não está na vaca, está em você. É um negócio totalmente
subjetivo que você está impondo à vaca, mas você vai impor essa perspectiva sem
deformar o objeto. Existe aí a tensão entre o elemento ficcional e o elemento
real. Isso existe em todas as ciências.
Se o sujeito não tem prática de literatura, ele
simplesmente não sabe fazer isso, porque ele vai acreditar piamente que o
ponto de vista da ciência dele é a realidade. Mas, se o ponto de vista da
sua ciência fosse a realidade, não existiriam outras ciências e, sobretudo, não
haveria conhecimentos científicos irredutíveis uns aos outros. Isto é uma das
coisas mais lindas que tem nas Investigações Lógicas de Edmund Husserl:
ele diz que os objetos reais se compõem de aspectos que são irredutíveis a
princípios comuns. Ele usa a frase: "não existe uma embriologia dos
triângulos, nem uma trigonometria dos leões". Ou seja, não tem jeito de
você reduzir o leão a princípios trigonométricos, nem de pesquisar a gestação
de um triângulo no ventre da mãe dele.
Essas duas dimensões, esses dois aspectos
ontológicos, estão definitivamente separados; eles não são fungíveis. Hoje em
dia se fala muito de interdisciplina, mas tudo isso aí é um idealismo.
Interdisciplina significa que você vai juntar vários pontos de vista e vai
filosofar em cima. Não é possível reduzir todos os conhecimentos científicos a
princípios comuns. A famosa teoria geral da física não existe e, na verdade,
nunca vai existir. E se ela existir, ela não vai explicar absolutamente nada.
A tendência unificante do ser humano nasce pelo
fato de que nós estamos num universo ilimitado, onde os processos
todos sucedem ao mesmo tempo e fora do nosso controle. Para podermos ter
algum controle sobre o curso das coisas, precisamos isolar, porque nossa
ação é limitada. Portanto, a esfera de ação em que você vai atuar
também tem de ser limitada. Em todas as ciências, artes e ações humanas, você
tem o mesmo problema do ficcionista: você tem que criar uma forma para isolar o
objeto e torná-lo pensável, dominável de algum modo, mas, por outro lado, você
não pode violar a complexidade da coisa impondo sobre ele a forma inventada.
Existe alguma outra atividade humana na qual
você possa treinar isso? Existem as artes, a pintura, mas a pintura só vai
pegar o lado estático das coisas. Se você fizer cinema, está limitado às
possibilidades técnicas da câmera, que vai determinar em grande parte o que
você vai filmar. Na verdade, a única atividade humana que ao longo dos
tempos desenvolveu essa tecnologia, desse equilíbrio entre forma e matéria,
entre o objeto formal e o objeto material, é a literatura. Não há outra que
tenha levado isso a tal ponto. Se o sujeito não tem este treino, ele vai
coisificar todos os conceitos da sua ciência ou da sua área de atuação; ele
está prostrado dentro desses conceitos como se eles fossem realidades. É
uma crença ingênua. O indivíduo não sabe a ambiguidade, os limites do seu
aparato conceitual, então ele os usa de uma maneira idolátrica.
Existe um segundo motivo [a favor da literatura
de ficção], ligado ao primeiro.
Ora, ainda que você aprenda muitas palavras, você
pode passar a vida agindo como se as palavras correspondessem realmente às
coisas. A maior parte das pessoas usa a linguagem como se entre as
palavras, coisas e situações existisse uma correspondência biunívoca, onde cada
palavra só significa uma coisa e significa sempre a mesma coisa. Isso não é
linguagem, é um vocabulário técnico convencional. O que sai da convenção, o
sujeito não entende e, para ele, não existe.
Como vencer essa limitação? Só existe a
literatura de ficção, porque ela é a atividade que melhor dá ao indivíduo a
noção da complexidade e riqueza da linguagem, justamente porque se compõe de
histórias imaginárias. Se pudéssemos narrar apenas fatos acontecidos, tudo
estaria limitado à nossa experiência pessoal; não poderíamos ir além dela e,
portanto, não poderíamos nos comunicar com outras pessoas. É só através do
imaginário que podemos sondar outras situações, outras possibilidades, outros
estados de coisas e outros dramas.
O escritor usa uma linguagem na qual cada
palavra se carrega de novos sentidos, que existem somente naquele contexto.
Para cada obra de ficção, a palavra usada tem um novo sentido que só pode ser
apreendido ali. Um exemplo extremo são os poemas de Stéphane Mallarmé: eles não
querem dizer nada no sentido de referência a objetos concretos — quando ele
fala de cisne ou nuvem, você não sabe se é o objeto real —, e, no entanto,
produzem uma emoção profunda. Isso quer dizer que todas aquelas palavras
adquiriram, naquele momento, um significado afetivo que só existe naquela
leitura, mas que, graças a obras maravilhosas, se incorpora à linguagem geral. Veja
o exemplo da palavra "chá" nos romances de Dostoiévski: ela está
ligada àquela atividade verbal e debatedora dos personagens, à imaginação
deles. O chá passa a significar algo que não pode significar enquanto apenas
vegetal.
Todos os objetos designados pelas palavras
podem ter diferentes valores e pesos semânticos, em número ilimitado. Na literatura de ficção, poesia,
teatro e romance, o escritor não está travado pelas denotações dicionarizadas;
ele usa quantas conotações quiser, e você precisa adquirir esses novos sentidos
que só existem naquele texto. Se não temos a experiência da literatura
de ficção, estamos presos a uma noção rasa, plana e chata da linguagem,
tornando-nos escravos dela. Isso torna as pessoas imensamente crédulas, pois
permitem que as palavras tenham um efeito direto sobre elas, sem passar pela
representação do objeto. O sujeito sem prática literária simplesmente não sabe
falar nem ouvir.
Não adianta estudar autores como Max Weber,
pois eles buscam sentidos fixos para fins científicos específicos. Se você
tentar adquirir seu treinamento lendo apenas livros técnicos ou jurídicos, vai
ficar maluco e burro pelo resto da vida. Sem a experiência literária, você é um
escravo do dicionário. Não tem saída. Por isso digo: a formação de qualquer
inteligência começa com uma vasta, contínua e interminável experiência
literária.
Fonte: Olavo de Carvalho, Aula 412 do Curso
Online de Filosofia, 2017, trechos selecionados.
