30 de julho de 2026

Ode à erudição


Há um preconceito contra a erudição que, em geral, vem associado com a ideia de que o erudito é aquele que finge ser sábio. O erudito, então, apenas exibiria fatos e citações avulsas de autores famosos sem conectá-las com a vida real. É um blefador. Tal preconceito também se aplica a qualquer um que assuma ser intelectual, estudioso, letrado, culto etc.

Mas tudo não passa de preconceito. O erudito é, sim, originalmente alguém que se dedica à vida intelectual, mas não apenas do ponto de vista “cognitivo”. É precisamente assim que Gilson descreve o erudito. O homem erudito é aquele cuja vida intelectual é parte de sua vida moral. Evidentemente que o esforço intelectual e o crescimento da inteligência são partes fundamentais da vida erudita. Mas o modo como o conhecimento é possuído vale ainda mais do que a quantidade de conhecimento em si.

A virtude número 1 do erudito é a honestidade intelectual. Em termos práticos, o erudito/intelectual tem um respeito escrupuloso pela verdade. Aqui, claro, está presente a humildade ou, como queiram, submissão à verdade. Por exemplo, alguns filósofos medievais aceitavam prima facie tudo o que liam de Aristóteles, enquanto alguns filósofos modernos, ao rejeitarem o pensamento medieval, rejeitaram prima facie tudo o que vinha de Aristóteles. É claro que ambas as posturas são condenáveis porque ambas atentam contra a virtude da honestidade intelectual.

Como diria Gilson, a verdade vos libertará, mas a submissão à verdade vos tornará grandiosos.

Fonte: Étienne Gilson, El amor a la sabiduría, Ediciones Rialp, Madrid, Espanha, 2015.