14 de julho de 2018

Viktor Frankl e a logoterapia


Apesar da fraqueza física e mental imperantes em um campo de concentração, ainda se podia cultivar uma profunda vida espiritual. As pessoas de maior sensibilidade, acostumadas a uma ativa vida intelectual, certamente sofreram muitíssimo (frequentemente sua constituição física era frágil); no entanto, o dano infligido a seu ser íntimo foi menor pois eram capazes de se abster do terrível entorno e adentrar em seus espíritos, em um mundo interior mais rico e dotado de paz espiritual. Somente assim se explica o aparente paradoxo de que os menos dotados fisicamente suportaram melhor a vida do campo que os de constituição mais robusta.

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As tentativas de desenvolver um sentido de humor e ver a realidade sob uma luz humorística constituem uma epécie de truque que aprendemos na arte de viver. Inclusive é possível praticá-lo em um campo de concentração, embora o sofrimento humano seja onipresente. Isso se poderia explicar da seguinte forma: o sofrimento humano atua como um gás em uma câmara vazia; o gás se expande de maneira completa e uniforme no interior, independentemente do volume da câmara. De maneira análoga, o sofrimento, seja forte ou fraco, ocupa a alma e toda a consciência do homem. Daí se deduz que o "tamanho" do sofrimento humano é relativo. E, inversamente, o feito mais insignificante pode gerar as maiores alegrias.

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Esta tentativa de descrição psicológica e explicação psicopatológica das características do prisioneira do campo [de concentração] talvez induza o leitor a pensar que o homem seja um ser inevitavelmente dedterminado por seu entorno (neste caso, um entorno com uma estrutura insólita, com leis determinantes e repressivas intransponíveis, às quais se deveria submeter). Mas e quanto à liberdade humana? Não existe liberdade de ação frente ao entorno? Está correta a teoria segundo a qual o homem é um mero resultado de fatores condicionantes, sejam biológicos, psicológicos ou sociológicos? Será que o homem é realmente um produto acidental desses fatores? E, o mais importante aqui, as reações psicológicas dos reclusos no mundo do campo de concentração, demonstram que o homem pode escapar da influência do entorno? Será que o homem carece, em tais circunstâncias, de capacidade para escolher se limita ou anula sua liberdade de ação?

Podemos responder a estas perguntas sob a óptica da experiência e também apelando a certos princípios. A experiência da vida em um campo de concentração demonstra que o homem mantém sua capacidade de escolha. Os exemplos são abundantes, frequentemente heroicos, que provam que se pode superar a apatia e a irritabilidade. O homem pode conservar um reduto de liberdade espiritual, de independência mental, inclusive nos mais terríveis estados de tensão psíquica e física.

Nós, sobreviventes dos campos, ainda nos lembramos das pessoas que iam aos barracões consolar os demais, oferecendo-lhes seu último pedaço de pão. Talvez não fossem muitos, mas estes poucos são a prova irrefutável de que do homem tudo se pode extrair, menos uma coisa: a liberdade humana - a livre escolha de ação pessoal perante as circunstâncias - para escolher seu próprio caminho.

E lá sempre havia condições para escolher. Cada dia, cada hora, brindava a oportunidade de tomar uma decisão, decisão essa que estipulava se a pessoa se submeteria ou não à pressão que ameaçava arrebatar-lhe o último vestígio de sua personalidade: a liberdade interior. Uma decisão que prefixava se a pessoa se converteria - ao renunciar à liberdade e à dignidade - em joguete das circunstâncias do campo, deixando-se moldar por elas até que se convertesse em um prisioneiro ¨típico¨.

Vistas deste ângulo, as reações psicológicas dos prisioneiros de um campo de concentração vão muito além da mera expressão de determinadas condições físicas e sociológicas. Por mais que elas todas - a falta de sono, a escassíssima alimentação e as múltiplas tensões psíquicas - nos induzam a supor um comportamento estereotipado dos reclusos, se notava, em uma análise mais profunda, que o tipo de pessoa que se convertia cada prisioneira era mais o resultado de uma decisão pessoal que o produto da tirania do Lager. Assim que cada homem, inclusive em condições trágicas, pode decidir quem quer ser - espiritual e mentalmente - e conservar sua dignidade humana.

Disse Dostoyevsky: ¨Só temo uma coisa: não ser digno de meus sofrimentos¨. Estas palavras visitavam constantemente minha mente ao conhecer esses mártires cuja conduta, sofrimento e morte no campo supunham um testemunho vivo de que o reduto íntimo da liberdade nunca se perde. Eles foram dignos de seu sofrimento; a maneira em que suportaram supõe uma verdadeira façanha interior. Preciasmente esta liberdade interior, que ninguém pode arrebatar, confere à vida intenção e sentido.

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O homem que se deixava vencer pela ausência de futuro ocupava sua mente com pensamentos retrospectivos. Já mencionei aqui a tendência de refugiar-se no passado para apaziguar o horror do presente tornando-o menos real. Mas despojar o presente de sua realidade acarreta certos riscos. Aplacado por esta irrealidade, o prisioneiro deixava de ralizar ações positivas no campo de concentração, e essas oportunidades eram reais, existiam de verdade. Considerar a ¨vida provisional¨ como algo irreal constituía em si um fator primordial para que os prisioneiros desinteressassem de suas vidas, já que tudo carecia de sentido. Estas pessoas se esqueciam que, muitas vezes, as circunstâncias excepcionalmente adversas outorgam ao homem a oportunidade de crescer espiritualmente além de si mesmo. Em vez de aproveitar as dificuldades do campo para testar sua inteireza, julgavam sua situação errônea, como um parênteses inconsistente do destino. Preferiam fechar os olhos e refugiar-se no passado. Para essas pessoas a vida perdia todo seu sentido.

Evidentemente eram poucos os que conseguiam alcançar estes cumes de desenvolvimento espiritual. Mas os que os alcançavam conquistavam a grandeza humana, apesar de seu aparente fracasso ou morte; uma façanha que talvez nunca houvessem conseguido em circunstâncias ordinárias. Aos demais, os medíocres e pusilânimes, se poderia afirmar que acreditavam que as verdadeiras condições de autorrealização já haviam passado, quando na verdade consisitiam precisamente no desafio de escolher o que fazer da vida no Lager: converter esta tremenda experiência em uma vitória, transformá-la em um triunfo interior, ou desdenhar a experiência e limitar-se a vegetar, como o fizeram quase todos os prisioneiros.

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O que é urgentemente necessário em tais situações é uma mudança radical de nossa atitude frente à vida. Devemos aprender por nós mesmos, e mostrar aos homens desesperados, que na realidade não importa o que esperamos da vida, mas o que importa é o que a vida espera de nós.

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Transmitir ao leitor em um espaço tão reduzido o conteúdo da logoterapia é uma tarefa que desanima a qualquer um. Lembro-me de um colega americano que, em miha clínica em Viena, me perguntou:

-- Diga-me, doutor, o senhor é psicanalista?
-- Não exatamente, na verdade sou psicoterapeuta. -- respondi.
-- A que escola pertence?
-- Sigo minha própria teoria; se chama logoterapia.
-- O senhor poderia descrever em poucas palavras em que consiste a logoterapia?
-- Sim -- lhe disse -- mas antes o senhor poderia definir o que entende por psicanálise?

Eis sua resposta:

-- Na psicanálise o paciente se deita em um divã e conta coisas que são agradáveis de dizer.

Seu enunciado me deu oportunidade para improvisar:

-- Na logoterapia o paciente fica sentado, bem ereto, e tem que ouvir coisas que não são agradáveis de escutar.

Comparada com a psicanálise, a logoterapia é um método menos introspectivo e menos retrospectivo. A logoterapia se propõe a romper o círculo vicioso dos mecanismos de retroalimentação que tanta importância têm no desenvolvimento da neurose. Desta forma não se alimenta o típico egocentrismo do neurótico, mas o rompe.

Aquela definição improvisada é válida, pois o neurótico pretende evadir sua responsabilidade vital; por outro lado a logoterapia desperta sua consciência para que entenda que o sentido da vida é o fundamento para superar a neurose.

De acordo com a logoterapia, a primeira força motivadora do homem é a luta para encontrar un sentido em sua vida. Por isso faço alusão à vontade de sentido, em contraste tanto com o princípio do prazer (vontade de prazer) da psicanálise freudiana como com a vontade de poder que enfatiza a psicologia de Alfred Adler.

O homem é capaz de perder sua vontade de sentido, e neste caso a logoterapia fala de ¨frustração existencial¨. A frustração existencial também pode traduzir-se em neurose. A este tipo de neurose a logoterapia chama de ¨neurose noógena¨ em contraposição à neurose em sentido estrito: a neurose psicógena. A neurose noógena tem sua origem na dimensão noológica (do grego noûs, que significa ¨mente¨) da dimensão humana, não em sua dimensão psicológica. Este termo logoterápico denota sua vinculação com o núcleo ¨espiritual¨ da personalidade humana.

As neuroses noógenas não surgem do conflito entre impulsos e instintos, mas de problemas existenciais. É evidente, portanto, que a terapia mais apropriada para as neuroses noógenas não é a psicoterapia tradicional, mas a logoterapia: uma psicoterapia que adentra na dimensão espiritual.

Nego taxativamente que a busca de um sentido, ou a dúvida se existe esse sentido, proceda ou seja o resultado de uma enfermidade. A frustração existencial em si mesma não é patológica nem patogênica. A preocupação, ou a desesperação, por encontrar na vida um sentido valioso revela uma angústia espiritual, mas de modo algum supõe uma enfermidade.

A logoterapia entende que sua função é ajudar o paciente a encontrar o sentido de sua vida; portanto procede de uma modo analítico a ativar na consciência o logos oculto de sua existência.

Me atreveria a afirmar que, mesmo nas piores condições, nada no mundo ajuda a sobreviver como a consciência de que a vida esconde um sentido. Há muita sabedoria nas palavras de Nietzsche: ¨Quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como¨.

A saúde psíquica precisa de certo grau de tensão interior, a tensão entre o que se conseguiu e o que se há de conseguir; ou a distância entre o que se é e o que se deveria chegar. Esta tensão é inerente ao ser humano e, portanto, indispensável para o bem-estar psíquico. Considero errôneo e perigoso para a higiene psíquica tomar por verdade que o homem necessita antes de mais nada de equilíbrio interior ou, como se denomina em biologia, ¨homeostase¨: um estado sem tensões, em equilíbrio biológico interno. O que o homem necessita não é viver sem tensão, mas esforçar-se e lutar por uma meta que valha a pena.

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Duvido que exista algum médico que possa fornecer o sentido da vida com noções gerais, pois o sentido da vida difere de um homem a outro, de um dia a outro, de uma hora a outra. Postular a questão em termos gerais equivale à pergunta que se fez a um campeão de xadrez: ¨Qual a melhor jogada de xadrez?¨ Simplesmente não existe resposta possível; nunca existirá uma boa jogada, ou a melhor jogada, sem referência a uma determinada partida e à personalidade do oponente. Assim também acontece com a existência humana; não deveríamos buscar um sentido abstrato à vida, pois cada um tem uma missão ou um objetivo a cumprir.

Em última instância o homem não deveria questionar-se sobre o sentido da vida, mas compreender que é a ele a quem a vida interroga. Em outras palavras, a vida pergunta pelo homem, questiona ao homem, e este responde de uma única maneira: respondendo de sua própria vida e com sua própria vida. Somente com a responsabilidade pessoal se pode responder à vida.

Por isso que o logoterapeuta seja o menos indicado, entre os psicoterapeutas, para impor ao paciente algum juízo de valor, pois nunca deixará que o paciente transfira a ele a responsabilidade por julgar sua vida.

Tentarei explicar com uma ilustração. O papel do logoterapeuta é mais parecido com o de um oftalmologista do que de um pintor. O pintor oferece uma imagem ao mundo tal qual ele o vê; o oftalmologista, por outro lado, quer que vejamos o mundo tal qual ele realmente é. A função do logoterapeuta consiste em alargar o campo visual do paciente até que visualize responsavelmente o amplo espectro de valor e de sentido de seu horizonte existencial.

Quero destacar aqui que o sentido da vida se deve buscar no mundo, não dentro do ser humano ou da psique, como se fosse um mundo fechado. Por isso mesmo a verdadeira meta da existência humana não se reduz à autorrealização. A autorrealização por si mesma não pode ser uma meta. Não se deve considerar o mundo como expressão de si mesmo, nem como instrumento, nem como meio para a autorrealização.

Fonte: El Hombre en Busca de Sentido, Viktor Frankl, Herder Editorial, Barcelona, Espanha, 2016, trechos selecionados.

30 de junho de 2018

Comunismo e tolerância

Um dos lugares-comuns mais difundidos do comentário político moderno é o que define o nazismo como doutrina de ódio de raça, para distingui-lo do comunismo, que seria uma doutrina de ódio de classe. De fato, o comunismo não exerce seus ressentimentos segundo critérios de classe. Todas as classes sociais são potencialmente inimigas,  inclusive a classe proletária. Aquilo a que o comunismo visa são as elites: as elites boiardas, mas também a elite camponesa. Até a elite contrafeita que o partido impinge diante de nós, em função do governo, é liquidada sem preconceitos, no momento em que se manifesta como elite com tendência de independência. O comunismo é uma teoria de luta de classes, mas uma prática de usurpação das elites. Que assim estão as coisas, prova-o a população das prisões comunistas, onde políticos, professores universitários e grandes proprietários convivem e sofrem ao lado de camponeses anlfabetos, trabalhadores de todas as idades, padres, guardas e estudantes. O universo concentracionário não é a expressão de um martírio de classe; é um resumo perfeito do mundo. Aqueles 100 milhões de mortos que parecem ser o balanço provisório do comunismo mundial não são 100 milhões de burgueses. O título escolhido por Nicolas Werth para o primeiro capítulo de O Livro Negro do Comunismo, o que se refere à União Soviética, é exato a não mais poder: "Um Estado contra seu povo". Não contra uma classe ou ideia. Contra todo um povo. Tudo o que tem valor de identidade para o indivíduo humano, tudo o que lhe confere autoridade dentro de sua classe, tem de ser anulado.

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Uma primeira observação seria que vivemos num mundo de globalização, em que as distâncias espaciais e culturais diminuem visivelmente, mas isto não exclui a ignorância dos fundamentos intelectuais e sociais do outro; ao contrário, amplia o aspecto irracional desta ignorância. Você pode chegar relativamente rápido a Bangkok, pode ter relações políticas ou comerciais com Bangkok, mas pode fazê-lo sem passar, espistemologicamente, além do pitoresco turístico. Entre a globalização e a "cultura geral" instala-se, de maneira paradoxal, uma relação de proporcionalidade inversa. Quanto mais facilmente nos encontramos tanto menos nos conheccemos. Uma segunda obervação seria que a ignorância não esclui a cordialidade. Você pode ter boas relações com alguém acerca de cujo background cultural nada sabe. À primeira vista, temos de fazer um benefício de civilização: a comunicação é possível na ausência do conhecimento. Mas, estando assim as coias, pode-se ainda falar de comunicação de fato, ou temos que ver com um simples problema de etiqueta, com uma coreografia agradável de superfície? Assistimos, de fato, a uma modificação substancial de sentido do conceito de "tolerância". Ele já não designa aceitação do "outro", da opinião diferente, mas pura e seimplesmente ignorância (amável) da opinião diferente, a suspensão da diferença como diferença. Disso resulta que: 1. não tenho necessidade de te entender para te aceitar; 2. não tenho necessidade de discutir contigo para te dar razão. Dito de outro modo, estou de acordo com as coisas que não entendo e etou, em princípio, de acordo com as coisas com que não estou de acordo. A tolerância recíproca termina numa mudez universal, sorridente, pacífica, uma mudez porque o diálogo é uma interferência radiofônica indesejável. Nessas condições, a tolerância tem efeitos mais do que discutíveis: ela amputa o apetite de conhecimento, de compreensão real da alteridade, e dinamita a necessidade de debater. Para que negociarmos mais, se o resultado é, de qualquer modo, o consentimento mútuo ao direito do outro? Num mundo governado por tais regras Sócrates ficaria desempregado. Não se encontra nenhuma verdade, não se faz nenhum raciocício. Não se exige senão que respeitemos, educados, as convicções do interlocutor.

De uma necessidade estrita de boa convivência a tolerância se torna um habitus de neutralidade, um molho de anestesia lógica e axiológica, sintoma de uma alegre paralisia interior. Quero apenas chamar a atenção para a necessidade imperativa de acresentar à tolerância o discernimento, de não confundir o respeito à diferença com a ética dissolvente do "anything goes".

Fonte: Andrei Pleșu, Da Alegria no Leste Europeu e na Europa Ocidental, É Realizações Editora, trechos selecionados, São Paulo, Brasil, 2013.

26 de junho de 2018

Breves conselhos de Louis Lavelle

A atitude geral

Nunca se dedicar senão a grandes coisas, ou às pequenas em função das grandes e jamais por si mesmas. E as grandes são as que interessam à minha vida inteira e que contribuem para determinar o sentido de meu destino.

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Regras fundamentais

Mais vale entregar-se à espontaneidade e ao gosto mesmo do prazer do que escutar esse falso raciocínio que nos desvia do presente e procura sempre no futuro o caminho do interesse. Nunca se deve falar nem agir como um mercenário. O egoísmo e a espontaneidade não devem ser confundidos.

Não há egoísmo que não comporte algum cálculo, não há espontaneidade que não comporte alguma nobreza. E o próprio gosto do prazer não é sem desinteresse. Resistir ao egoísmo é encontrar em si uma espontaneidade nativa, anterior a todos os cálculos, e fora de si um contato direto com a realidade que o interesse nunca permite.

Esse laço imediato entre a espontaneidade e a realidade, tal é a própria essência da sinceridade. A partir do momento em que a reflexão se interpõe entre elas e em que o indivíduo pensa em seu próprio bem, a sinceridade começa a se alterar.

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Regras de comportamente com relação aos outros homens

Há palavras que são pronunciadas com a simples intenção de agir sobre os outros homens e de produzir algum efeito: o que sucede também quando se escreve. Elas não têm valor: as únicas palavras que contam são as pronunciadas tendo em vista a verdade e não o resultado.

Elas excluem qualquer intenção de enganar, mesmo por bondade. Elas não produzem nada que não seja excelente, pois respeitam a ordem do mundo e convocam todos os homens a tomar lugar nele.

Há duas máximas que parecem contraditórias e que, no entanto, constituem apenas uma.

A primeira é jamais pensar no público, pois a verdade nos escapa se não pensamos nela, mas na opinião que os outros possam ter dela.

A segunda é não pensar senão no público, pois a verdade só vale por sua eficácia espiritual, ou seja, por esse ato que há nela e que, produzindo minha própria comunicação com o todo, produz também uma comunicação entre todos os seres.

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Ser inteiro no que se faz

Há uma luz que vem de Deus e que é semelhante à luz do dia, e outra que vem do homem e que é semelhante à de nossas lâmpadas. Quem vê a primeira não tem necessidade da outra, mas quem crê dispor da segunda pensa que não há outra.

Fonte: Louis Lavelle, Regras da Vida Cotidiana, É Realizações Editora, São Paulo, Brasil, 2011.

23 de janeiro de 2018

Regras de pronúncia russa


Fontes: 
Thomas R. Beyer Jr., Pronounce It Perfectly in Russian, Barrons Educational Series, 1994.
Gabriel Wyner, Fluent Forever, Harmony Books, Nova York, EUA, 2014
IPA for Russian, Russian Phonology, IPA for Portuguese, Portuguese Phonology - Wikipedia

11 de janeiro de 2018

Os princípios de uma vida de oração



As correntes que escravizam o homem se tornaram tão comuns, tão “normais”, que já nem mais nos damos conta delas. As paixões se tornaram inimigos tão familiares e banais que o homem já não sabe mais quais são os traços característicos desses inimigos, sua natureza opressora, e daí os passa a tratar como amigos. O inimigo, que trava uma guerra incessante contra o homem, passa a fazer “parte da estrutura” e portanto já não é mais detectado; sua existência passa a ser até mesmo negada, a ser “racionalizada” em um contexto psicológico de maneira que se torna algo irreal, distante, remoto. Desta maneira, a batalha espiritual se transforma em uma não-batalha, ou seja, em derrota; ora, se não admitimos nosso estado então não nos preparamos para a luta com a devida seriedade e vigor – e eis que nossas paixões triunfam, o pecado triunfa, e o pleito do diabo torna-se cada vez mais fundamentado.

A tarefa que temos pela frente é grande: olhar para dentro, para as profundezas de nosso coração, e aí descobrir as âncoras que nos mantêm preso às partes mais profundas do mar, e pela graça de Cristo lutar contra elas. Somos chamados a trabalhar, mediante o poder redentor do Senhor encarnado, para derrotar aquilo que busca nossa destruição.

O mundo porém nos chama a uma tarefa radicalmente diferente, pois o mantra da sociedade é o da autossatisfação. Esse chamado assume diferentes formas no mundo moderno, mas em essência pode ser reduzido a duas. A primeira seria a crença simplista de que se pode, e se deve, ser o que se quiser ser, do jeito que se quiser ser, desde que o próximo não saia prejudicado.

Existe uma forma mais sutil e refinada, que é encontrada nos vários movimentos tipo “new age”e de “autoajuda”. Frequentemente esses movimentos implicam chamados a uma mudança, a uma transformação – até mesmo uma transformação do eu. Tais movimentos defendem uma distinção: a distinção entre o amor próprio falso e o amor próprio verdadeiro, sendo o falso vinculado a problemas e imperfeições, e o verdadeiro sendo autêntico e elevado.

No entanto, o “verdadeiro eu” que se ambiciona descobrir e amar ainda é auto-definido pela vontade e pelos desejos da própria pessoa. Como é grande essa tentação, e como é penetrante e universal essa visão de mundo!

O Cristianismo é a vida enraizada na vida do próprio Cristo. O fardo da vida não é vivê-la para o eu, mas para Cristo; e seu objetivo não é satisfação, mas transformação. O cristão é chamado para tornar-se, para entrar em uma vida nova, que é a de outroa vida de Cristo. Ele tem de descobrir o “eu” de sua existência atual exatamente para que possa transformá-lo em uma vida que não seja definida por sua vontade, mas definida e tornada real por outro – pelo próprio Deus.

O cristão ouve dois chamados: o de Deus e o do mundo. A tentação mais persistente é a de responder a ambos, como se tivessem igual valor, ou como se tivessem valores que pudessem andar lado a lado; mas isso seria ignorar as palavras do Senhor. Deixa os mortos sepultar os seus mortos não foi uma frase pronunciada por Cristo com o objetivo de rejeitar o mundo de maneira fria e despreocupada, mas com o objetivo de ensinar a Seus discípulos que o chamado de um mundo que leva à morte deve ser deixado por si mesmo. O chamado do Reino deve ser o único foco do coração cristão.

Ora, então como deveríamos responder de maneira autêntica ao chamado celestial da Santíssima Trindade? Como devemos proceder? A única maneira é por meio da renovação em nós mesmos da visão ascética a nós transmitida pela Igreja, e por meio da nossa conformação à vida que nos vincula à fonte da vida, ou seja, a Jesus Cristo. Em termos práticos, isso tudo pode ser realizado mediante a renovação da atenção aos contornos verdadeiras da batalha ascética: em primeiro lugar, devemos reconcentrar nossa visão no Reino. Em segundo lugar, devemos redesenvolver em nós a consciência a respeito de nossos inimigos: o diabo e os demônios. Em terceiro lugar, devemos entender de maneira mais direta a natureza das paixões. Em quarto lugar, devemos reaprender continuamente a natureza e a prática da obediência. E em quinto lugar, devemos trabalhar para prestarmos um testemunho melhor e mais forte perante o mundo.

Reconcentrando nossa visão no Reino de Deus

Embora os cristãos reconheçam a existência do Reino, e talvez até manifestem verbalmente a necessidade de obtê-lo, qual seria sua natureza etc., o fato é que o Reino de Deus frequentemente é visto como uma espécie de “pano de fundo” através do qual se possa dar um certo aroma cristão à vida cotidiana. “Eu deveria fazer isso e isso, porque este é um ato de amor e o Reino de Deus é um reino de amor”. Ou, “Eu deveria buscar este bem, e não aquele, porque o Reino de Deus tem a ver com esse tipo de coisa”. Não que não haja alguma nobreza em tais reflexões (sem dúvida são melhores do que uma visão que absolutamente não leve em conta o Reino); mas a vida cristã exige muito mais do que isso. Cristo não disse “Quando vocês refletirem sobre esta vida, lembrem-se do Reino e então deixe que ele tome parte naquilo que estiverem buscando”; ao invés disso, Ele disse: Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça. Somente depois de haver fornecido este foco único e primaz ao esforço cristão, Ele acrescenta: e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

O chamado de Cristo não é para que o homem de vez em quando se lembre do Reino ao qual ambiciona, e que essa lembrança dê forma à sua vida cotidiana. Seu chamado é para que o homem seja totalmente moldado e formado pela busca do Reino. O foco de cada deliberação, de cada ação, de cada pensamento, de cada movimento do coração, é a justiça de Deus, a qual anuncia e torna acessível este Reino. Como ensina São João Crisóstomo: “A vocês as coisas mais importantes não são estas que estão aqui presentes. Portanto, visto que as coisas aqui são secundárias a nosso labor, que sejam elas também secundárias em suas orações”.

Ao invés de enxergarmos o contexto de nossos comportamentos, ações e decisões como sendo a vida eterna do Reino permanente de Deus, o enxergamos como o curto espaço desta vida e ajustamos nossa percepção e visão de mundo de acordo com ele.

Quando fazemos planos para o futuro, é muito comum que miremos os anos da velhice. Almejamos coisas e ações saudáveis que possam alongar, nem que seja por alguns dias, nossa vida, pois na realidade consideramos a morte como o fim de tudo. Mesmo que reconheçamos – talvez – a existência do Reino, o fazemos de tal maneira que o estabelecemos como uma “segunda coisa”, depois dos afazeres e negócios da era presente.

Ora, nesse sentido a renúncia autêntica, o verdadeiro asceticismo, auto-humilhação e o verdadeiro sacrifício não “fazem sentido”, pois não se conformam a uma visão de mundo primordialmente voltada à vida presente.

Redesenvolvendo a consciência a respeito de nossos inimigos

Que existe o diabo, que existem demônios, e que esses seres travam guerra constante contra a humanidade e sua salvação é um testemunho tão fundamental da Igreja que é chocante que isso tenha de ser explicado a cristãos. A obra de  Cristo neste mundo, durante o período de sua primeira estadia  como homem (pois Ele verá novamente como homem para julgar os vivos e os mortos), centrou-se no combate a Satanás e suas forças demoníacas. Ora, se esta é a obra de Cristo na vida humana, será que a obra dos cristãos deveria ser outra?

Se, e quando, a existência do diabo é admitida, ela o é como uma personificação genérica do mal, mas raramente se confessa que ele é um ser com identidade, vontade, intenção e que se ocupa ativamente das vidas dos seres humanos.

Eles são ativos na batalha espiritual, travam verdadeiras guerras contra aqueles que levam a vida cristã a sério. É impossível entrar na guerra se não reconhecemos a existência do inimigo. Portanto, nossa escolha não é entre “lutar e não lutar”, ou entre admitir ou não admitir sua realidade; nossa é entre lutar ou ser derrotado.

Entendendo a natureza das paixões

A orientação correta em direção ao Reino de Deus não apenas permite que o coração enxergue mais diretamente seu adversário – ou seja, o reino espiritual externo que trava batalhas contra  os justos – mas também fornece a perspectiva que permite entender suas próprias batalhas interiores.

A alma vem a ser dominada por experiências que podem, de outras formas, ter um aspecto positivo (como o amor, que pode ser divino; ou a raiva, que pode ser justa).

No entanto, “paixão” se refere especificamente à dominação passiva da pessoa pelos impulsos mal dirigidos do corpo e da alma. O pecado opera de maneira destrutiva exatamente mediante o mau uso daquilo que é bom. É o entregar-se ao domínio das nossas potências emocionais, aliado a seu mau uso, que é o mal, que é aquilo que deve ser combatido. Na visão cristão do homem, aquilo que o mundo frequentemente chama de “bom” em seu estado emocional são na verdade os engodos, armadilhas e ciladas da batalha espiritual.

Ao sucumbir aos desejos sensuais, ao invés de reinar sobre os domínios de Deus, o coração do homem se “distrai” de sua verdadeira orientação a Deus e Seu Reino. Então aquilo que parece como sendo a condição natural do homem nesta vida é, na verdade, seu estado passional: a “norma” é a dominação, a escravização, o aviltamento. A Igreja entende que esta condição “normal” da existência passional permeia-se facilmente exatamente por causa de sua aparente normalidade. No dia a dia o homem mal nota suas paixões de tão acostumado a elas que está. Isso começa a mudar quando ele começa a levar sua vida espiritual a sério. Quanto mais a sério levar esta vida, esta batalha, tanto mais as paixões serão despertas.

Nesta ascese, nesta batalha, as paixões deixam de fazer parte de um contexto completamente familiares e, portanto, praticamente despercebido, e passam a manifestações específicas da rebelião da alma e do corpo. O fato de o homem passar a focar-se no Reino tem por efeito a correspondente concentração de suas paixões. Mas isso também é condicionado pelo inimigo do  homem, o qual faz uso dessa concentração das paixões que surge em função de levar a sério a batalha espiritual como fundação a partir da qual constrói novos obstáculos ao crescimento autêntico.

Reaprendendo a natureza e a prática da obediência

Dado que o estado passional do homem é fruto da rebelião, então um guia seguro e indubitável é necessário se o homem quiser ser salvo de seu estado triste e pesaroso e renascer na vida da Santíssima Trindade.

Como as paixões são perversões dos impulsos naturais, é compreensível que tenham uma raiz nítida. Os Padres identificam esta raiz como sendo uma perversão específica da vontade: arrogância, orgulho. As demais paixões que reinam tão livremente sobre o coração humano têm sua fonte aqui. E eis por que os Padres também identificam a virtude principal para o combate desta paixão principal: a obediência, que por sua vez engendra a humildade que conquista o orgulho.

A obediência é a virtude de uma vida na qual a vontade própria é sacrificado no altar da Cruz, e a pessoa humana une-se à vontade de Deus. A vontade voluntariamente entrega-se à vontade da Igreja (que é a vontade de Cristo) por meio de suas doutrinas, pastores, professores e pais espirituais, de maneira que a pessoa possa crescer acostumando-se à obediência que a une à verdadeira Fonte da Vida.

Até que o coração venha a treinar sua vontade a conformar-se à vontade de Cristo, seus confortos definem as ações e crenças que considerarão aceitáveis. Seus pensamentos sobre verdade e sentido definem sua realidade.

Tal escravidão à vontade, no mistério da profundeza e extensão do pecado, faz do homem um demônio para si mesmo.

Quando a obediência não forma a vontade, a vontade transforma-se em ídolo de si mesma, e daí tiraniza o homem à maneira dos demônios. Se às vezes os demônios parecerem distantes, inativos, frequentemente é porque já internalizamos sua obra por meio da escravidão passional de nossas vidas. Há pouca coisa que necessitam fazer para que sua obra se cumpra.

Antes de tudo, a obediência molda-se e desenvolve-se mediante a correta relação do cristão com o ciclo litúrgico dos ofícios divinos. Depois, a Igreja promove a obediência por meio da aderência do cristão a seus cânones: confissão, comunhão, ações e posturas físicas, orações e comemorações. Frequentemente os tomamos como meras orientações” das quais extraímos aquilo que nos parece mais palatável e razoável. Mas evidentemente não é assim que o cânones terão espaço na transfiguração de nossos corações. Em terceiro lugar, a Igreja promove a obediência mediante a relação do cristão com seu pai espiritual.

Testemunho para o mundo

A batalha cristã é travada no coração. Assim que qualquer batalha que procure cristianizar o cosmos, se não começar no coração humano, opera com coisas secundárias, não primárias. Tal ação é análoga àquela que tenta consertar uma casa desmoronada reformando o madeiramento externo, enquanto suas fundações permanecem em estado de decomposição.

É exatamente mediante nossa atenção e dedicação a esta batalha e seus sadios contornos, que temos o poder de falar ao mundo a mensagem verdadeira de Cristo, do Espírito, e do Pai.

Viver a missão cristã no mundo exige uma ousadia renovada. É necessário ousadia para viver autenticamente a Vida em Cristo em um mundo que não exatamente a combate, mas a ridiculariza. É necessário ousadia para pensar, falar, agir, e orientar sua própria vida ao Reino, para reconhecer a realidade dos demônios, para buscar e proclamar a obediência.

Fonte: Archimandrite Irenei, The Beginnings of a Life of Prayer, St. Herman of Alaska Brotherhood, 2012, Platina, CA, EUA.

28 de dezembro de 2017

A morte de Aleksey Khomyakov




O famoso escritor de assuntos religiosos, Aleksey Stepanovich Khomyakov, faleceu em 25 de setembro de 1860, de cólera, longe de sua família, em sua quinta em Ryazan, Rússia. No entanto, há um interessante relato de sua morte deixado por um proprietário rural vizinho chamado Leonid Matveyevich Murometsev. Eis um trecho de seu relato. Quando Murometsev entrou na casa de Khomyakov e lhe perguntou o que estava acontecendo, este lhe repondeu: “Oh, nada especial, é hora de morrer. Isso é muito ruim. Que coisa estranha! Quantas pessoas curei mas eu mesmo sou incapaz de curar-me”. Segundo as palavras de Murometsev não se detectava em sua voz absolutamente nenhum pesar ou medo, mas uma profunda convicção de que não havia saída. “À uma hora da tarde mais ou menos, percebendo que as forças do doente lhe estavam deixando, eu”, diz Murometsev, “perguntei-lhe se queria receber as últimas unções. Ele aceitou minha oferta com um sorriso cheio de alegria e disse ‘Eu ficaria muito, muito grato’. Durante todo o tempo que durou o sacramento ele segurou em suas mãos uma vela, e aos sussurros orava e fazia o sinal da cruz”. Logo em seguida pareceu a Murometsev que Khomyakov se sentia melhor, fato este que desejava transmitir a sua. Faites vous responsable de cette bonne nouvelle; je n'en prend pas la responsabilité [*], disse Khomyakov a Murometsev, em tom quase jocoso. “É claro que você está melhor, veja como está mais quente e seus olhos agora brilham”, observou Murometsev. “E amanhã brilharão ainda mais!” respondeu Khomyakov. “Essas foram suas últimas palavras”, disse Murometsev. “Ele viu com muita clareza que todos aqueles sinais de aparente recuperação nada mais eram que os últimos esforços de sua vida. Alguns segundos antes de seu fim ele persignou-se com firmeza e de plena consciência. Aleksey Stepanovich Khomyakov morreu em paz”. Ele morreu assim porque seu coração sentiu o toque vivo do poder divino ao qual ambicionava – o toque do poder que vence a morte, que dá às pessoas a certeza de uma vida futura rejubilante e pessoal. E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, disse o Salvador do mundo.

[*] Seja responsável por esta boa notícia; eu não me responsabilizo.

Fonte: Mitrofan Lodyzhensky, Light Invisible, Holy Trinity Publications, Jordanville, NY, EUA, 2011. pág. 177.

São Justino, o Filósofo




Antes de sua conversão, Justino (+165) era um proeminente acadêmico. Ao estudar as escolas modernas de filosofia – estoicos, pitagóricos entre outros – deteve-se no neoplatonismo, cuja filosofia supostamente percebia a Divindade. Porém esta filosofia tampouco o satisfez. Foi então que interessou-se pelo Cristianismo. As acusações que os pagãos lançavam contra o Cristianismo nas quais em princípio ele acreditava provaram ser meras calúnias, enquanto os cristãos morriam tão corajosamente por sua fé. E eis que nesta época, exatamente quando despertava em Justino uma simpatia pelo Cristianismo perseguido, ele encontrou por acaso, à beira-mar, um mestre cristão – um ancião – cuja conversa influenciou sua decisão em converter-se ao Cristianismo. A conversa com o ancião foi longa, e sua substância foi puramente filosófica. Citaremos aqui apenas os momentos mais marcantes para Justino.

Eis como tudo aconteceu. Um dia, Justino, que vivia em uma cidade próxima ao mar (provavelmente Éfeso), estando ocupado na ocasião com pensamentos e questões sérias, saiu para caminhar em uma campina não muito distante da costa a fim de entregar-se às suas reflexões em solidão. Ele queria ficar a sós com seus pensamentos, mas conforme vagueava à beira-mar, notou que estava sendo seguido por um velho desconhecido, muito belo, que portava-se de maneira majestosa. Surpreso, Justino olhou em torno e, de maneira um tanto suspeitosa, fitou-lhe os olhos.

“Você me conhece?”, perguntou de repente o velho a Justino.

“Não”, respondeu Justino.

“Então por que você está olhando para mim?”

“Não esperava encontrar alguém aqui neste lugar quieto e tranquilo”, respondeu Justino.

Após estas palavras iniciais, travou-se uma conversa entre ambos. E esta conversa versou sobre questões filosóficas.

“Diga-me”, perguntou o velho a Justino a certa altura da conversa, “o que é filosofia e no que consiste sua felicidade?”

“A filosofia”, respondeu Justino, “é o entendimento de tudo o que existe e o conhecimento da verdade; a felicidade transmitida pela filosofia consiste na posse deste entendimento”.

Observe que o pagão Justino, o Filósofo, em essência disse exatamente a mesma coisa que encontramos hoje nos livros de nossa intelligentsia. Notamos que nada mudou nestas definições ao longo dos últimos dezoito séculos. A mente filosófica inquisitiva, naqueles tempos bem como hoje, encontram a felicidade no conhecimento. Todavia, o coração cristão, conforme aprendemos na Philokalia e na vida de Serafim de Sarov, encontra a felicidade antes de tudo na aquisição do Espírito Santo. E o conhecimento surge apenas depois, em função da consecução deste objetivo principal.

Bem, retornemos à conversa de Justino com o ancião cristão. Da filosofia o assunto da conversa mudou para o entendimento da Divindade, e eis que lhe pergunta o ancião a Justino: “Como podem seus filósofos helênicos raciocinarem corretamente acerca de Deus e afirmarem alguma verdade a Seu respeito se eles nunca viram a Deus, nunca ouviram a Deus e, portanto, nunca obtiveram conhecimento algum acerca dEle?”

Respondeu Justino: “O poder da Divindade não é visto com os olhos corporais. . . . Somente com a mente pode-se perceber a Deus. É isto o que ensina Platão, a cujos ensinamentos eu sigo”.

Dizendo isso, Justino foi levado por este assunto tão interessante. Ele começou a desenvolver perante o ancião a explicação de como, segundo a doutrina de Platão, a Divindade é percebida. Por fim, o ancião asseverou a Justino: “A mente do homem, se não for dirigida pelo Espírito Santo e iluminada pela fé (isto é, se não adquirir o Espírito Santo), é totalmente incapaz de conhecer e entender a Deus”.

E eis que o ancião começou a falar-lhe sobre o Espírito Santo, sobre o Salvador do mundo, sobre os profetas; e assim concluiu sua dissertação: “Em primeiro lugar, reze diligentemente ao Deus verdadeiro para que Ele lhe abra as portas da luz, pois somente aquele a quem o próprio Deus considerou digno de revelação pode contemplar e entender as coisas divinas; e Ele abre a todos que buscam a Ele em oração e dEle se aproximam com amor”. Dito isto, o ancião partiu.

Justino foi deixado a sós à beira-mar com seus pensamentos. Nunca mais encontraria o ancião, mas as palavras do ancião muito impressionaram ao filósofo. Justino expressou os sentimentos da ocasião desta forma:

“Uma espécie de chama explodiu dentro de mim, inflamando minha alma a esforçar-se em busca de Deus e aumentando em mim o amor pelo santos profetas e pelos amigos de Cristo. Ao ponderar sobre as palavras do [ancião], dei-me conta que a filosofia proclamada por ele era a única verdade; comecei então a ler os livros dos profetas e apóstolos e a partir daí tornei-me um verdadeiro filósofo, ou seja, uma verdadeiro cristão.”

Contudo, Justino só pôde ser tocado pelas palavras do mestre cristão porque seu coração já estava próximo de sentir a Deus. A razão superior de Justino, apesar de sua vida pagã, não estava completamente sufocada. O instinto desta razão foi despertado pelas inspiradoras palavras do ancião.

Fonte: Mitrofan Lodyzhensky, Light Invisible, Holy Trinity Publications, Jordanville, NY, EUA, 2011. Pág. 107-109. Trechos selecionados.