12 de novembro de 2010

A cosmovisão medieval


Como será viver em outro mundo? Não me refiro a outro planeta, mas a outro mundo. Se por “mundo” entendemos não apenas a totalidade do universo físico, mas também todas as criaturas imateriais que existem, então concluiríamos que é impossível viver em outro mundo. Não há outro mundo além deste e, se há, então também faz parte do mundo. Porém, viver em outro mundo pode significar viver em uma época na qual a maneira como o mundo é organizado – sua estrutura e a hierarquia entre os seres – seja vista de maneira radicalmente diferente.

Em The Discarded Image, C. S. Lewis explica como era a visão-de-mundo dos homens medievais, sobretudo dos grandes expoentes da literatura medieval. Eles acreditavam na terra plana? Em faunos e ogros? Na astrologia? Sem este conhecimento prévio, sem este “mapa” em mãos, a leitura dos autores medievais e dos primeiros renascentistas torna-se uma tarefa quase misteriosa, para não dizer inútil.

Neste artigo, omiti quase que por completo as inúmeras referências e citações usadas por Lewis, já que meu objetivo é apenas apresentar a estrutura da cosmovisão. Fica claro, portanto, que o leitor desejoso de estudar algum aspecto específico desta cosmovisão deve ter em mãos a obra original de Lewis.

A maneira como as crenças dos homens medievais se formaram não é igual à maneira como as crenças dos homens selvagens (ou “bárbaros” ou “incivilizados”) se formaram. Em linhas gerais, as crenças selvagens são fruto de respostas ao ambiente imediato; são, portanto, produto da imaginação. As crenças medievais, por outro lado, são fruto de longos períodos de estabilidade, nos quais o “ambiente” é feito de livros. Sim, isso mesmo: o medieval era um homem livresco, cujas crenças engendraram-se a partir de raciocínios éticos, filosóficos e científicos sobre livros antigos que se encontravam à sua disposição. Ao contrário do que a cultura popular ensina, os medievais não eram pessoas sonhadoras, que gostavam de pensar em assuntos bizarros e inúteis, mas um verdadeiro organizador, um construtor de sistemas. Tudo era codificado e organizado, desde o sexo até a guerra, a teologia, a ciência e a história. Todas estas questões, juntas, formam o que Lewis passa a chamar de Modelo do Universo, ou simplesmente Modelo. É este Modelo que o estudioso medievalista deve aprender para começar a compreender a mentalidade medieval.

Antes de apreciarmos os detalhes desse Modelo, cabe uma observação importante. Em primeiro lugar, modelos, sejam os modelos científicos modernos, seja o Modelo medieval, não são afirmações absolutamente factuais sobre a realidade. São esquemas provisórios que ajudam a explicar a realidade, ou seja, são esquemas que não devem ser defendidos como sendo os únicos universos de discurso (ver Dialectic) possíveis. Os Modelos, em si, não são a realidade bruta e factual. Daí decorre um fenômeno interessante: quanto mais ignorante for uma pessoa, tanto mais ela se apegará ao Modelo vigente. É por isso que as pessoas ignorantes levam tão a sério o homem das cavernas ou a teoria dos átomos, mas, ao mesmo tempo, não pensam duas vezes em duvidar da vida de Júlio César ou Shakespeare. O Modelo moderno lhes diz que o homem evoluiu desde um passado remoto, há milhões de anos, que os produtos químicos são organizados da maneira que a teoria atômica lhes diz, que os antigos cronistas inventavam estórias emplumadas para enganar o povo idiota. Não é ruim que seja assim, pois é natural que as pessoas simples e fáceis se apeguem a esquemas que por princípio são simples e fáceis. No entanto, quanto mais subirmos na escala do conhecimento e da inteligência, tanto mais o Modelo será questionado. Os homens de ponta, os homens verdadeiramente inteligentes, sabem que os Modelos são frágeis e, ademais, são estes os homens que constroem e aperfeiçoam os Modelos. É natural que não os levem a sério, ou pelo menos não o levem tão a sério. A propósito, isso ajuda a explicar por que os cientificistas não são realmente cientistas (ver Wolfgang Smith).

Mutatis mutandis, o raciocínio acima também vale para o Modelo medieval. As pessoas simples daquela época também levavam o Modelo a sério; no entanto, não devemos nos esquecer que poetas e literatos também são, neste sentido, pessoas simples. É por isso que, na medida que tomamos contato com as obras de filosofia e teologia medievais, o Modelo será cada vez menos usado e cada vez mais questionado. Os poetas, mais ligados aos sentimentos e às emoções, naturalmente se inclinam ao Modelo e buscam nele sua força e satisfação. Os teólogos e místicos praticamente o ignoravam – naturalmente não cooptavam com os elementos pagãos que contribuíam para sua composição –, mas compreendiam que as pessoas o adotassem.

Em segundo lugar, o Modelo medieval é um conjunto de concórdias ou linhas de intersecção entre filósofos, poetas e cientistas, em um longo espaço de tempo. Conforme dissemos acima, os medievais eram pessoas livrescas, ou seja, levavam muito a sério as doutrinas de filósofos e poetas pagãos. Assim, torna-se imprescindível que vislumbremos quais autores influenciaram os poetas medievais.

Lewis divide essa tarefa em dois períodos: o período clássico, anterior à Idade Média, e o período seminal, na aurora da Idade Média. Vejamos muito brevemente os exemplos que o autor utilizou.

Influências do período clássico

A República, de Cícero, foi escrita em 50 a.C., e contém alguns elementos que foram mais tarde aproveitados pelos autores medievais. (1) A tentativa de conferir verossimilhança a um sonho fictício atribuindo-lhe causas psicológicas é um aspecto aproveitado por Chaucer [Sir Geoffrey Chaucer (1340-1400), poeta inglês medieval]; (2) a esfera celeste mais alta, chamada de stellatum, foi mais tarde citada por Dante [Dante Alighieri (1265-1321), poeta italiano medieval] e Chaucer; (3) a previsão da futura carreira política do neto é um elemento aproveitado por Dante; (4) a idéia de que os homens são propriedade dos deuses e que, enquanto propriedade, não devem dispor de si próprios foi utilizada posteriormente por Spenser [Edmund Spenser (1552-1599), poeta inglês]; (5) a insignificância da Terra em relação ao restante do cosmos é uma perspectiva também comum aos medievais e, claro, ao pensamento moderno; (6) Cícero, bem como seus sucessores, faz da Lua o limite entre as coisas eternas e as coisas perecíveis, além de ensinar, um tanto vagamente, é verdade, que os planetas influenciam a sorte dos homens na Terra.

Marco Aneu Lucano foi um poeta romano que viveu de 34 d.C. a 65 d.C. Seus livros também contêm elementos que influenciaram os poetas medievais. (1) Dante aproveita uma prosaica história contada por Lucano em seu segundo livro: Márcia casou-se primeiramente com Cato e, sob suas ordens, posteriormente com Hortênsio; após a morte de Hortênsio, Márcia retorna a Cato, exigindo, com sucesso, seu re-casamento. Dante a transforma em uma alegoria: Márcia é la nobile anima; enquanto virgem, é l´adolescenza; enquanto esposa de Cato, é la gioventude; os filhos de Márcia com Cato são as virtudes próprias dessa idade; o casamento com Hortênsio é a senettude; os filhos de Márcia com Hortênsio são as virtudes próprias da idade; a morte de Hortênsio e a viuvez de Márcia são a transição para um período de idade muito avançada (senio); o retorno de Márcia a Cato é a alma nobre que retorna a Deus; Cato é o próprio Deus; (2) Lucano, em seu nono livro, conta a história da ascese da alma de Pompeu, desde a pira funerária até os céus; Pompeu passa pelo ar, pela fronteira entre o ar e o éter, ou seja, entre a ‘Natureza’ e o ‘Céu’ de Aristóteles, que é a órbita da Lua, e, de lá do alto, observa as zombarias feitas em seu próprio cadáver, em um funeral deveras bagunçado. Pompeu acha graça e ri. Boccaccio [Giovanni Boccaccio (1313-1375), escritor e poeta italiano medieval] aproveita esta história em seu Teseide, usando-a no espírito de Arcita. Chaucer faz algo semelhante em Knight´s Tale, usando-a no espírito de Troilus.

Públio Papínio Estácio (Statius) foi um poeta romano e viveu de 45 d.C. a 96 d.C. Um dos aspectos mais notáveis de sua obra é a citação breve mais interessante da Natura. Para ele, a Natura é a princeps (primeira) e creatrix (criadora) de todas as coisas, inclusive da própria paixão (Pietas) que se revolta contra ela; a Natura também é a dux (guia) daqueles que fazem guerra santa contra as coisas monstruosas e ‘inaturais’. Claudiano (Claudius Claudianus) (370-404) vai além, e ensina que a Natura é o demiurgo que reduz o caos primordial ao cosmos; ela também nomeia os deuses que servirão a Júpiter. No entanto, cabe lembrar que, para os medievais, a Natura não era tudo: seu lugar é abaixo da Lua e cumpre ordens de Deus enquanto vice-gerente desta região. É por isso que os medievais, tornando-a limitada e subordinada, puderam fazer uso mais livre e intenso da Natura em suas poesias.

Apuleio (Lucius Apuleius) (125-180), poeta romano, escreveu De Deo Socratis (Do deus de Sócrates), no qual cita implicitamente dois trechos de Platão: Apologia (31c-d) e Simpósio (202e-203e). Nestes trechos, conta-se que os demônios são criaturas intermediárias entre deuses e homens, e somente com eles os homens são capazes de se comunicar com os deuses. Apuleio ensina, por sua vez, que os demônios ou “espíritos intermediários” habitam uma região entre a Terra e o éter, ou seja, o ar, que se estende até a Lua. Afinal, a ratio determina que deve haver uma espécie genuinamente aérea, assim como os deuses são etéreos e os homens terrestres. Os demônios têm corpos de consistência mais delicada do que as nuvens, os quais não são visíveis aos homens. Apuleio afirma que os demônios são animais, mas não bestas: assim como há animais racionais terrestres (os homens), os demônios são animais racionais aéreos.

Apuleio introduz dois princípios que Lewis considera como capitais para a compreensão da cosmovisão medieval. (1) O Princípio da Tríade, que afirma que duas coisas não podem se unir sem o auxílio de uma terceira coisa. Este princípio encontra-se também em Platão (Timeu 31b-d). Entre Deus e os homens deve haver uma ponte, uma “terceira coisa”. Similarmente, entre a razão e os apetites, entre a alma e o corpo, entre os reis e os súditos etc. (2) O Princípio da Plenitude, que afirma que o universo deve ser plenamente explorado e habitado. Se há uma região entre o éter e a Terra – o ar –, então essa região deve necessariamente ser habitada. Nada existe superfluamente.

Influências do período seminal

O período seminal é situado por Lewis entre 205, ano em que nasceu Plotino, e 533, ano em que o autor acredita ser a primeira vez em que surge São Dionísio. Seus autores são pagãos, influenciados pelo neoplatonismo, mas influenciaram em muitos aspectos a mentalidade medieval.

A obra de Calcídio (Chalcidius), filósofo neoplatônico do século IV, resume-se a uma tradução incompleta do Timeu, de Platão, acompanhada de comentários. Sua obra é importante porque foi ela a principal responsável por traçar o perfil de Platão a ser conhecido pelos medievais. (1) Em Timeu 42b, Platão ensina que a alma dos homens perversos seria reencarnada como mulheres e, caso não se curasse, em bestas. Mas Calcídio acredita que, com isso, Platão quis dizer que quanto mais os homens se entregarem às paixões, tanto mais se parecerão com animais. (2) Em Timeu 40d-41a, Platão explica a criação dos deuses – não os deuses mitológicos, mas os deuses em que ele realmente acreditava, as estrelas animadas. No que tange o panteão de deuses, Platão os rebaixa ao grau de demônios para, em seguida, se recusar a versar sobre eles, dizendo ironicamente que seus antepassados, por serem seus descendentes, deveriam saber melhor do que ele sobre esses deuses. Calcídio leva a explicação platônica ao pé da letra, dizendo que, na verdade, Platão não quis explicar a origem desses deuses por ser um filósofo. (3) Calcídio escreve sete capítulos sobre os sonhos, inspirando-se em Timeu 45e. (4) Calcídio introduz algumas noções astrológicas: a Terra é infinitesimalmente pequena em relação ao universo como um todo; o movimento dos planetas é a fonte dos efeitos que se verificam na Terra, embora ele deixe claro que se trata de um epifenômeno, pois o verdadeiro motivo é os astros seguirem o curso apropriado à sua beatitude (o universo, portanto, é geocêntrico, mas não antropocêntrico); a Terra está no centro apenas para fornecer um centro em torno do qual os astros revolvem, ou seja, por conveniência estética, mas não antropocêntrica. (5) Inspirando-se em Timeu 47b, Calcídio afirma que o propósito da visão não é auxiliar a sobrevivência humana, mas motivar o homem a buscar a Deus ao contemplar o céu e as estrelas; similarmente, o propósito da audição é ouvir música – não a música vulgar, mas a música divina, que nunca abandona o entendimento e a razão –, pois a alma diz respeito a ritmos e melodias e, estando ligada ao corpo, tal relação acaba por se desvanecer. (6) Calcídio reforça os Princípios da Tríade e da Plenitude, a exemplo de Apuleio (por exemplo, a voz de Deus não pode ter vindo diretamente de Deus; a política é uma tríade de soberanos, executivos e súditos; os poderes estrelares comandam, os seres angélicos executam, os seres terrestres obedecem; a parte racional do homem situa-se no capitolium (a casta dos filósofos), a parte ‘vigorosa’ situa-se no peito (a casta dos guerreiros), a parte apetitiva situa-se no abdômen (a casta das pessoas comuns).

Macróbio (Ambrosius Theodosius Macrobius), filósofo neoplatônico do século V, escreveu, entre outras obras, um comentário ao Somnium Scipionis, de Cícero, o qual citamos acima. (1) O historiador Hecateu visita o Egito e descobre que os egípcios possuem muitas gerações mais de antepassados do que os gregos e, mesmo assim, não se encontra entre eles nenhum semideus. Isso leva Macróbio a concluir que o universo sempre existiu. (2) Macróbio afirma que a coisa mais pura e límpida (liquidissimum) eleva-se ao lugar mais alto e é chamada de éter; aquilo que é menos puro e possui algum grau de peso é o ar; o que é mais pesado e representa resistência ao tato (corpulentum), mas ainda conserva alguma fluidez, se junta em forma de água; o restante, o que vem do ‘tumulto da matéria’, o ‘irreclamável’ (vastum), reduz-se a terra. (3) Macróbio identifica cinco tipos de sonhos, sendo que três primeiros são verídicos e dois últimos não têm ‘divinização’ em si: (a) somnium, nos quais as verdades são reveladas de forma alegórica (a psicologia moderna classifica a maioria dos sonhos desta forma); (b) visio, previsão literal e direta do futuro; (c) oraculum, alguma pessoa venerável, talvez até um dos pais, declara o futuro ou dá conselhos; (d) insomnium, mera repetição de preocupações correntes; (e) visum, quando a pessoa não está ainda dormindo e crê que está acordada, ela pode ver formas que se atiram contra a pessoa ou brigam com ela; são os típicos pesadelos. (4) Macróbio descreve a criação da Mens e da Anima (os conceitos neoplatônicos do Noûs e da Alma do Mundo) de maneira repugnante à teologia cristã, pois são descritas como menores e distintas de Deus. (5) Macróbio formulou um sistema ético baseado no quaternion clássico de virtudes: prudência, temperança, fortaleza e justiça. Há quatro níveis em que estas virtudes devem ser avaliadas: político, purgatorial, das almas já purificadas, do Mens (ou Noûs). (6) Macróbio acreditava que a alma poderia retornar ao céu, pois teria vindo de lá; que o corpo é o túmulo da alma; que a alma é o homem; que todas as estrelas são maiores do que a Terra; que as estrelas não produzem eventos terrestres, embora sua posição relativa permita que possamos predizê-los.

Lewis acredita que São Dionísio, o Areopagita, foi o “Pseudo-Dionísio”, o qual escreveu seus famosos livros em algum ano anterior a 533. Sua principal contribuição ao Modelo foi a hierarquia angélica. A primeira hierarquia contém três espécies de anjos: serafins, querubins e tronos. A segunda hierarquia é composta de dominações, potestades e virtudes (não no sentido moral, mas no sentido eficiente, que produz um efeito, como nas ‘virtudes’ de um anel mágico ou planta medicinal). Essas duas hierarquias voltam-se para Deus. A terceira e mais inferior hierarquia ocupa-se dos homens, sendo composta de principados, arcanjos e anjos. Assim como Platão e Apuleio, Pseudo-Dionísio também defende o Princípio da Tríade, ou seja, que entre Deus e os homens há uma hierarquia intermediária, assim como entre as faculdades humanas governante e obediente deve haver uma intermediária.

Boécio (480-524) é o homem mais influente da Idade Média. Até uns duzentos anos atrás, era conhecido e lido por todas as pessoas cultas. Aprender a amá-lo é se naturalizar medieval. A consolação que Boécio busca na filosofia (De Consolatione Philosophiae) é limitada: ao mesmo tempo em que louva a Philosophia por suas provas "inatas e domésticas", a dispensa nas questões cujas "razões vêm de fora" (por exemplo, nas questões que tange o inferno e o purgatório). (1) É da natureza de sua atividade que os filósofos devam antecipar a calúnia; afinal, o propósito maior (maxime propositum) dos filósofos é desagradar a ralé, e não ser admirado. (2) Boécio não compreende por que Deus governa a Natureza com tanta regularidade e os assuntos humanos com tanta irregularidade. Este tema será posteriormente aproveitado por Alanus, Jean de Meung e Milton. (3) O Livro III contém sua famosa apologia à Fortuna. Boécio se recusa a aceitar a idéia de que pessoas más serão necessariamente punidas com castigos e pessoas boas serão necessariamente prósperas e ricas. Esse tipo de perspectiva, comum a pagãos vulgares e cristãos vulgares, é típico de “homens cruéis”. Os bens exteriores nunca são perdidos porque, na verdade, eles nunca foram nossos. A beleza dos campos e das pedras preciosas é delas, não nossa; a beleza das roupas é delas (ou da habilidade do tecelão), mas não nossa. Mesmo a fama não é nossa, porque a fama em um lugar pode ser a infâmia em outro. A nobreza também não é nossa, mas de nossos antepassados. A adversidade tem o mérito de nos mostrar quem são os nossos amigos verdadeiros e quem são os amigos simulados. (4) Todos os homens buscam a Felicidade, mas a maioria o faz por caminhos errados, como o homem bêbado que sabe que tem uma casa, mas não sabe como chegar lá. No entanto, mesmo os caminhos errados, como a riqueza e a glória, mostram que os homens portam alguma semelhança com a verdade, pois o verdadeiro bem é glorioso como a fama e auto-suficiente como a riqueza. (5) O Livro IV contém uma digressão sobre a justiça no contexto da Fortuna. A Philosophia apresenta duas visões: (a) tudo é justiça, pois o homem bom é sempre recompensado e homem iníquo é sempre punido, isto é, o poder maligno e as operações malignas são a própria punição da vontade maligna; (b) a Providência, espelhada na multiplicidade do tempo e do espaço, torna-se Destino. Como em uma roda, quanto mais próximo do centro, menos propensos ao Destino estaremos; toda sorte, vista do centro, é boa e medicinal. Assim, Boécio conclui que acima da ratio existe a intelligentia, e a ratio só é capaz de conceber o futuro como algo determinado. É necessário, portanto, elevar-se ao nível inteligencial para apreendermos o conhecimento que não envolve determinismo. A eternidade não é a mesma coisa que perpetuidade, o que significa que o tempo e apenas uma imagem, quase uma paródia, da plenitude da eternidade. Por isso, Deus sempre vê, jamais prevê.

Os Céus

Every kindly thing that is
Hath a kindly stede ther he
May best in hit conserved be;
Unto which place every thing
Through his kindly enclyning
Moveth for to come to
(Chaucer, Hous of Fame, II, 730 sq.)

a) O mundo

A ciência moderna explica os fenômenos naturais com base em leis e a obediência dos corpos a essas leis. A ciência medieval, por outro lado, faz uso dos conceitos fundamentais de simpatia, antipatia e aspiração. Em outras palavras, todas as coisas possuem seu lugar certo, a região que melhor lhes convém, um instinto residente. No entanto, os medievais não pensavam que as coisas e objetos eram sensíveis e que agiam propositadamente, a não ser no caso das estrelas, já que consideravam-nas seres orgânicos. Neste contexto, é curioso observar que o linguajar moderno é mais ingênuo e antropomórfico do que o linguajar medieval. Afinal, a idéia de que a matéria possui inclinações é mais “animal”, enquanto a idéia de que a matéria obedece a leis e regras é mais “humana”. Ambas as linguagens não devem ser tomadas literalmente, mas o ponto de vista medieval apela muito melhor à imaginação e às emoções, pois projeta sentimentos e desejos à matéria, enquanto o ponto de vista moderno projeta sistemas jurídicos e códigos de trânsito. No caso medieval, sugere-se uma continuidade entre os eventos físicos e nossas aspirações espirituais.

As propriedades simpáticas e antipáticas são os famosos quatro contrários: quente, frio, úmido e seco. Eles se combinam para formarem os quatro elementos: fogo (quente + seco), ar (quente + úmido), água (frio + úmido) e terra (frio + seco). Há ainda o quinto elemento ou quintessência, que é o éter. Porém, o éter só pode ser encontrado acima da Lua e, portanto, nós mortais não temos acesso a ele.

No mundo sublunar – o mundo da Natureza –, os quatro elementos se situam em seus lugares apropriados. A terra é o mais pesado e aglomera-se no centro; sobre ela está a água e, mais acima ainda, o ar. Por fim, o fogo, o mais leve dos elementos, procura sempre subir para o limite da circunferência da Natureza, formando uma esfera imediatamente abaixo da órbita da Lua.

No centro do universo situa-se a Terra, que é esférica. Ela é circundada por um conjunto de globos ocos e transparentes, um acima do outro, um maior do que o outro (do centro para fora). Estes globos são chamados de ‘esferas’, ‘céus’ ou, mais raramente, de ‘elementos’. Em cada uma das sete primeiras esferas há um corpo luminoso. A partir da Terra, a ordem é a seguinte: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Depois da esfera de Saturna há o Stellatum, ao qual pertencem todas as estrelas que ainda hoje chamamos de ‘estrelas fixas’, pois a posição relativa entre elas é invariável. Depois do Stellatum temos uma esfera chamada de Primeiro Móvel ou Primum Mobile. Como esta esfera não porta nenhum corpo luminoso, ela não dá nenhuma evidência aos sentidos humanos.

E depois do Primum Mobile? Para além dos céus há o Céu propriamente (caelum ipsum), que é “cheio de Deus”, como disse Bernardo (Bernardus Silvestris, poeta do século XII) em sua cosmografia. Lá não há espacialidade, nem temporalidade, mas “luz pura, luz intelectual, amor pleno” (Dante, Paradiso, XXX, 38).

As dimensões do universo medieval não são tão bem definidas quanto sua estrutura. Há claros indícios de que seria bem menor do que o universo moderno, mas, em termos imaginativos, a diferença entre mil e dez milhões de quilômetros é desprezível. Ambos podem ser concebidos (ou seja, podemos somar e subtrair seus números), mas ambos não podem ser imaginados. Uma característica importante, no entanto, é que o universo medieval é finito e esférico. Assim, quando o medieval olhava para o céu noturno ele contemplava um grande edifício, uma espécie de catedral; o homem moderno contempla o céu como um mar infinito, que se perde na névoa, ou mesmo como uma floresta desprovida de trilhas, totalmente isolada. O “espaço sideral” do homem moderno inspira terror, perplexidade; o espaço medieval apresenta ao observador algo sobre o qual a mente pode se assentar e se satisfazer em sua harmonia. O universo moderno é romântico, o universo medieval é clássico.

A arte medieval é orientada à ênfase que se quer dar ao objeto, ou seja, à sua importância, e não propriamente às suas dimensões físicas. A arte moderna, por outro lado, é mais uma ‘ilusão’, pois é orientada aos sentidos, isto é, tenta reproduzir como seria a perspectiva visual o mais ‘perfeitamente’ possível.

b) O movimento do mundo

O movimento do mundo vem de Deus. Ele causa o movimento do Primum Mobile no sentido oriente-ocidente, cuja rotação é concluída em 24 horas. A rotação do Primum Mobile causa a rotação do Stellatum, que por sua vez causa a rotação de Saturno, e assim por diante, até a Lua. Essas esferas inferiores rotacionam-se no sentido ocidente-oriente, mas como se contrapõem à ‘corrente’ do Primum Mobile, acabam rotacionando também no sentido oriente-ocidente, mas mais lentamente.

Além do movimento físico, as esferas também transmitem à Terra as chamadas ‘influências’. Muitas pessoas dizem que Igreja desaprovava essa idéia, mas a verdade é que os teólogos aceitavam a teoria de que os planetas influenciam os eventos e a psicologia e, mais ainda, as plantas e minerais. Na verdade, a Igreja não aceitava que (a) a astrologia fizesse uso lucrativo e político das previsões, (b) a astrologia se tornasse alvo de adoração planetária e (c) a astrologia chegasse a ponto de impor uma visão determinista, ou seja, de negar o livre arbítrio. A razão e a vontade se deixam influenciar, mas não de maneira necessária, pela matéria. Os astros influenciam o poder imaginativo do homem, mas tal influência situa-se no campo da propensão, e não da necessidade. A propensão pode ser resistida; daí a idéia de que os homens sábios se sobrepõem aos astros. No entanto, como a maioria dos homens não é sábia, a astrologia é capaz de fazer predições, a exemplo das predições atuariais.

Eis uma breve descrição das características dos sete planetas. Vale lembrar que, devido aos diferentes graus de dificuldade e aplicabilidade, as características planetárias devem ser compreendidas intuitivamente, e não conceitualmente.

· Saturno. Na Terra, sua influência produz o chumbo. No homem, o estado melancólico. Na história, eventos desastrosos. É chamado de Infortuna Major, por ser o mais terrível dos planetas.

· Júpiter. Produz o estanho. Chamado de “o Rei”, produz no homem um estado um tanto difícil de descrever, o qual poderíamos aproximadamente chamar de “jovial”: um temperamento alegre, festivo, mas equilibrado, tranqüilo, magnânimo. Dante situa em Júpiter os príncipes justos. É chamado de Fortuna Major, por ser o melhor dos planetas.

· Marte. Produz o ferro. No homem, produz um temperamento robusto, rígido, resistente, firme. No entanto, por causar a guerra, é chamado de Infortuna Minor. Em Dante, é o céu dos mártires.

· Sol. Produz o ouro, o mais nobre dos metais. O Sol é também o olho e a mente de todo o universo. Ele torna os homens sábios e liberais (no sentido medieval). Causa eventos auspiciosos. Dante faz do Sol o céu dos teólogos e filósofos.

· Vênus. Produz o cobre. No homem, a beleza e amorosidade. Na história, também eventos auspiciosos. Por este motivo, é chamado de Fortuna Minor. Em Dante, é o céu dos penitentes que, em vida, amaram ilegalmente.

· Mercúrio. Produz o mercúrio. No homem, produz um estado difícil de descrever; Lewis tenta algo como “diligência vivaz” ou “avidez versada”. Dante aloca na esfera de Mercúrio os homens beneficentes.

· Lua. Produz a prata. A Lua é a fronteira entre o éter e o ar, entre o "céu" e a "natureza", entre o reino dos deuses (ou anjos) e o reino dos demônios, entre o âmbito da necessidade e o âmbito da contingência, entre o incorruptível e o corruptível. No homem, produz um estado errante, que tanto pode se referir, em termos físicos, a pessoas viajantes, quanto, em termos psíquicos, a pessoas "errantes" de humor. Não à toa, as pessoas que apresentam insanidade periódica são chamadas de "lunáticas". Dante manda para a esfera lunar as pessoas que abandonaram a vida monástica por alguma razão boa ou perdoável.

De acordo com o princípio da transmissão, ou mediação, as influências não nos afetam diretamente, mas através da modificação do ar. É por isso que, quando um médico sentia-se incapaz de diagnosticar com precisão o que estaria causando a condição de um paciente, ele atribuía a causa a “alguma influência que está no ar”.

Para os medievais, os astros não se movem em um oceano negro e vazio, como em geral pensam os modernos. O sistema astrológico medieval é, em certo sentido, mais heliocêntrico do que o moderno. O Sol ilumina o universo inteiro. Nenhuma outra estrela tem luz própria, pois são iluminadas pelo Sol (mais ou menos como a "Lua moderna"). Cada milímetro cúbico do universo é iluminado pelo Sol. O que acontece durante o que chamamos de ‘noite’ nada mais é do que a sombra cônica projetada pela Terra. Segundo Dante (Paradiso, IX, 118), esta sombra se estende até Vênus. De noite, quando olhamos para o céu, não estamos olhando a escuridão, mas estamos olhando através da escuridão.

Por fim, cabe lembrar que, assim como o universo não é escuro, ele também não é silencioso. Cada planeta produz certos sons e harmonias.

c) Os habitantes do mundo

Deus causa o movimento do Primum Mobile, conforme vimos acima. Mas Ele não faz isso como um guerreiro que causa o movimento da espada ou como o vento que causa o movimento de um barco. Se fosse assim, explicaríamos um movimento pelo outro ad infinitum e concluiríamos que o universo é um sistema fechado, cujo movimento causa e é causado por outros movimentos dentro de si mesmo. Na realidade, Deus causa o movimento do Primum Mobile de uma maneira diferente: o Primum Mobile é movido por seu amor a Deus; ao se mover, ele comunica movimento ao restante do universo.

Os medievais explicam, ademais, que o movimento dos planetas é de rotação porque, incapazes de imitar a perfeita imobilidade de Deus, movimentam-se da maneira mais semelhante e perfeita possível, a saber, o movimento perfeitamente regular e ágil das circunferências. Isso significa que as esferas, ou pelo menos algo residente nelas, são seres intelectuais, que são movidos pelo ‘amor intelectual’ de Deus. Estas criaturas são chamadas de Inteligências. Na Antiguidade, dizia-se que as Inteligências estavam ‘nas’ esferas. Mais tarde, os escolásticos introduziram a idéia de que as almas das esferas não estão para as esferas assim como a alma humana está para o corpo humano. Em outras palavras, a alma das esferas e a alma dos homens são de tipo diferente, cuja relação não se dá por enteléquia, como no caso humano. Note, porém, que as Inteligências são uma pequena parte da população angélica que habita a região entre a Lua e o Primum Mobile.

Dissemos acima que há planetas “ruins”. Como isso é possível, se acima da Lua não há corruptibilidade? Isso se explica pelo fato dos temperamentos de cada planeta serem ruins em relação aos homens. Em outras palavras, a pessoa que nasce sob Saturno poderá ser uma pessoa estúpida e descontente ou um grande contemplativo. Sob Marte, um Átila ou um mártir. E assim por diante. A culpa não é da influência, mas da natureza terrestre que a recebe. Em nosso mundo caído e corruptível, os homens, a Terra e o ar podem responder de maneira desastrosa às influências que, em si, são sempre boas. O mau paciente torna “mau” o bom agente.

O ar, que está na região sublunar, é habitado por demônios. Na Antiguidade, os demônios podiam ser bons ou maus. Na Idade Média, porém, todos os demônios são maus. De fato, Tomás de Aquino chama os demônios de “diabos”. Não por acaso, o mau tempo era freqüentemente associado com atividades de bruxaria.

Quando os homens modernos olham para o céu, sobretudo à noite, tem a sensação de que estão olhando para fora. O Modelo medieval dava aos medievais precisamente a sensação oposta, ou seja, de que estavam olhando para dentro. A Terra situa-se "do lado de fora dos muros da cidade" e, portanto, olhar para o céu significa olhar para dentro da cidade. Quando o Sol se levanta de manhã, os homens são ofuscados por sua luz e não conseguem enxergar os seres supralunares. De noite, o véu ofuscante do Sol é retirado, e podemos vislumbrar um pouco das pompas e alegrias que ocorrem na parte de dentro dos muros da cidade. Os seres que habitam aquelas esferas exercem suas faculdades de maneira desimpedida, como alguém que se deleita ao beber, mas sem nunca matar sua sede. A cada momento, as Hierarquias e Inteligências aperfeiçoam-se na medida que suas naturezas lhes permitem, mas jamais atingem a perfeição que pertence somente a Ele.

Os Longevos

Os longaevi são criaturas marginais e fugidias. O habitat deles é ambíguo entre o ar e a Terra. Eles são os pans, faunos, sátiros, silvanos, ninfas, elfos etc. Lewis tomou emprestado o nome longaevi de Martinus Capella, pois vivem muito mais do que os homens, embora não sejam imortais. Eles são inocentes, de "conversação irrepreensível", e seus corpos apresentam pureza elemental.

A partir do século XVI e XVII, os longevos começaram a ganhar ares de seres malignos, que deveriam ser evitados. Acredita-se que esse fenômeno ocorreu porque se inaugurou, por esta época, uma temporada de caça às bruxas, a qual acabou caçando os longevos por extensão. No entanto, mesmo hoje em dia, Lewis acredita que as pessoas não sintam repulsa quando imaginam encontrar um tritão ou uma ninfa, o que ocorre quando imaginam bruxas ou “espíritos”.

Os elfos são menores do que os homens, embora a literatura não especifique exatamente o quão menores seriam. Lembre-se que a imaginação visual dos medievais não se ocupava das dimensões físicas. Na literatura medieval, os homens não fogem dos elfos, mas os elfos fogem dos homens assim que percebem que estão sendo observados. Observar os elfos era um prazer, pois eles são seres alegres e satisfeitos, já que não sofrem os pesares da laboriosa vida humana.

As donzelas ou fadas são encontradas na floresta. No entanto, o encontro nunca é acidental. São elas que procuram os homens, e suas intenções são quase sempre amorosas. Em geral, seu tamanho é semelhante ao dos seres humanos.

Há ainda longevos de grande esplendor, luxo e riqueza material, chamados por Lewis de High Fairies. No entanto, luxo e esplendor material, no mundo moderno, são características associadas ao dinheiro e quase sempre à feiúra. Quando um medieval observava o luxo das cortes reais e feudais e imaginava que deveria ser ainda maior entre os longevos (e maior ainda no Céu), ele não associava esse luxo ao dinheiro (muito menos à feiúra). A arquitetura, as armas, as coroas, as vestimentas, os cavalos e a música eram quase sempre belíssimos e de bom gosto. O luxo e a riqueza eram itens associados à santidade, à autoridade, ao valor, à nobreza, ou, na pior das hipóteses, ao poder. O luxo e a riqueza estão associados à graciosidade e à cortesia, algo totalmente fora de cogitação no contexto da modernidade. O esplendor era algo a ser admirado, sem denegrir o admirador. Os High Fairies são vivazes, energéticos, voluntariosos e passionais: eles não são “espíritos”, pois, como explicou William Blake, “o Espírito e a Visão não são, como supõe a filosofia moderna, uma nuvem de vapor ou um nada; eles são organizados e minuciosamente articulados em um nível superior ao que a natureza mortal e perecível é capaz de produzir”.

Lewis reuniu quatro hipóteses que explicariam o que são os longevos: (a) eles seriam uma terceira espécie racional, distinta de homens e anjos; (b) eles seriam anjos “rebaixados de posto”; (c) eles seriam mortos, ou um tipo especial de mortos; (d) eles seriam anjos caídos, ou seja, diabos.

A Terra e seus habitantes

a) A Terra

Dante ensinava que a Terra, assim como os demais planetas, também tem a sua Inteligência, a qual ele chamava de Fortuna. O papel da Fortuna é servir de guia das maravilhas mundanas, transferindo de tempos em tempos essas benesses ilusórias de uma nação para outra, sem que a sabedoria humana saiba como.

Em termos físicos, todos os autores da Alta Idade Média ensinavam que a Terra é um globo. Todos reconheciam a existência da gravitação. Além disso, os mapas medievais não são bons documentos do conhecimento geográfico da época (por exemplo, o mappemoude de Hereford, século XIII). Isso porque os cartógrafos não eram as pessoas que detinham os melhores conhecimentos geográficos, que era altamente difuso. O homem medieval era um viajante nato: reis, exércitos, prelados, diplomatas, mercadores e filósofos viajavam constantemente, e o conhecimento geográfico raramente era registrado em mapas, pois era cristalizado na forma de conhecimento tácito na memória dos capitães dos navios e caravanas. A cartografia medieval tinha uma função menos geográfica e mais artística, sendo, portanto, de caráter meramente romântico. Não tinha função prática.

Recentemente, surgiu no meio acadêmico a idéia de que os medievais tinham conhecimento da existência de ilhas no Oceano Atlântico e até mesmo do continente americano. Estes registros estariam ligados à lenda de São Brandão. Lewis acredita que, mesmo sendo verdade, tal hipótese não chegou a influenciar marcadamente a mente medieval. A única coisa que atraía os medievais no Ocidente era a perspectiva de encontrar o Catái (norte da China). Se soubessem que havia um enorme continente no meio do caminho, provavelmente desistiriam de navegar nessa direção.

b) As bestas

Assim como os mapas-múndi não são bons documentos da geografia medieval, os bestiários também não são bons documentos da zoologia medieval. A maioria das descrições ali contidas são histórias fantasiosas, escritas por pessoas que nunca viram aqueles animais.

Os medievais não foram os primeiros a acreditar nas fantasias bestiárias. Desde a Antiguidade, histórias imaginosas sobre as animais já circulavam entre os poetas e a população. Cavalos que pressentem a morte de seus mestres, unicórnios domados por virgens, baleias diabólicas, hidras fabulosas etc.; em geral, os autores medievais não faziam distinção de autoridade entre os auctores antigos, tomando tudo o que escreviam com o mesmo grau de veracidade.

No entanto, as pessoas que faziam circular os bestiários não estavam muito preocupadas com a precisão factual das descrições ali contidas. O que importava era a moralitas, isto é, o sentido moral era mais real e vivo do que a o sentido empírico.

c) A alma humana

O homem é um animal racional. Em outras palavras, ele é um ser combinado, sendo racional como os anjos e animal como as bestas.

A alma racional não é o único tipo de alma no homem. Há também a alma sensitiva e a alma vegetativa. As potências da alma vegetativa são a nutrição, o crescimento e a propagação. A alma sensitiva contém estas potências, além da sensação. A alma racional contém todas as potências vegetativas e sensitivas, além da razão. Todas estas almas são imateriais. Isso significa que a alma não é uma parte ou um elemento que possa ser fisicamente dissecado.

A doutrina da pré-existência da alma humana foi explicitamente rejeitada na era escolástica. No entanto, na Baixa Idade Média e no período seminal vigorava a idéia de que a alma humana vivia no ar antes de se encarnar na Terra. Na Renascença, a renovação do corpus platônico e do platonismo em geral restaurou a doutrina da pré-existência da alma.

d) A alma racional

A alma racional possui duas faculdades: o intellectus e a ratio. O intellectus é o que de mais próximo os homens têm em relação à intelligentia angélica. De fato, o intellectus é chamado de obumbrata intelligentia (inteligência obnubilada ou sombra de inteligência). Tomás de Aquino explica que “inteligir (intelligere) é a apreensão simples (indivisível, incombinada) de uma verdade inteligível, enquanto raciocinar (ratiocinari) é a progressão para uma verdade inteligível, a partir de um ponto previamente entendido (intellecto). A diferença entre inteligir e raciocinar é semelhante à diferença entre repouso e movimento ou entre possessão e aquisição” (Iª, LXXIX, art. 8). Em outras palavras, desfrutamos do intellectus quando “simplesmente vemos” uma verdade auto-evidente; exercemos a ratio quando provamos passo-a-passo uma verdade que não é auto-evidente. A vida cognitiva em que todas as verdades sejam “simplesmente vistas” seria a vida cognitiva de um intelligentia, de um anjo. No entanto, a vida cognitiva em que todas as verdades tenham de ser trabalhados pela ratio é uma vida cognitiva impossível, já que nenhuma verdade pode ser alcançada sem que haja uma verdade auto-evidente prévia de onde partir. A vida mental humana é constituída pelo esforço de conectar os flashes freqüentes, mas momentâneos, da intelligentia. Cabe lembrar, contudo, que a distinção entre intellectus e ratio é típica dos filósofos. A linguagem poética não fazia essa distinção. Mais tarde, sobretudo a partir do século XVIII, a palavra razão foi reduzida à mera atividade de deduzir uma proposição de outra.

Ademais, na Idade Média, reconhecer uma obrigação moral significava perceber uma verdade; em outras palavras, o julgamento moral não era algo associado a pessoas sensíveis, mas a seres intelectuais. Platão preservou a idéia socrática de que a moralidade está associada ao conhecimento: os homens maus eram maus porque não conheciam o bem. Aristóteles incrementou esta perspectiva com a noção de criação e habituação, mas também considerava a conduta moral uma questão de “razão reta” (orthos logos). Os estóicos acreditavam em uma Lei Natural, a qual todos os homens racionais, em virtude sua racionalidade, eram movidos a seguir. São Paulo, em Romanos 2:15, fala da “lei escrita em seus corações”. A palavra “corações” jamais tinha a conotação emotiva que hoje se lhe atribuem. Em latim, por exemplo, o homem cordatus não era um homem sensível, mas um homem de bom senso, o que chamaríamos hoje de “pessoa razoável”.

e) A alma sensitiva e a alma vegetativa

A alma sensitiva possui dez sentidos, divididos em cinco sentidos interiores e cinco sentidos exteriores. Os sentidos exteriores são: visão, audição, olfato, paladar e tato. Os sentidos interiores são: memória, estimativa, imaginação, fantasia e sentido comum. 

Não é necessário versarmos sobre a memória.

A estimativa é aproximadamente o que chamamos hoje de “instinto”. A estimativa ensina a vaca a identificar seu bezerro em um rebanho, por exemplo. A estimativa detecta as intentiones das coisas.

A fantasia é superior à imaginação. O papel da imaginação é de simplesmente reter o que foi percebido pelos sentidos, enquanto o papel da fantasia é manipular o conteúdo da imaginação mediante diferenciação e integração, separação e união. Aqui cabem duas observações: (a) a imaginação medieval é diferente da imaginação moderna, que é mais parecida com a fantasia medieval; (b) as “pessoas vulgares”, segundo Alberto Magno, confundem fantasia com pensamento, pois, quando dizem que estão pensando, na verdade, estão apenas brincando com imagens mentais.

O sentido comum não deve ser confundido com o “bom-senso” da língua portuguesa (racionalidade elementar) nem com o common sense da língua inglesa (opinião comum). Alberto Magno explica que o sentido comum apresenta duas funções: (a) julgar a operação de um sentido, de maneira que, quando vemos, sabemos que estamos vendo; (b) reunir os dados provenientes dos sentidos exteriores, de maneira que saibamos que a laranja é doce ou que esta laranja é mais doce do que aquela. Em suma, o sentido comum transforma a mera sensação em uma consciência coerente, ou seja, consciência da pessoa enquanto sujeito em um mundo de objetos.

A alma vegetativa não requer maiores explicações. Ela é responsável pelos processos inconscientes do organismo, como crescimento, secreção, nutrição e reprodução. Evidentemente, a alimentação e o ato sexual são ações conscientes, mas os processos involuntários despertados por estes atos pertencem à alma vegetativa.

f) Os espíritos

A atuação da alma no corpo pede, pelo Princípio da Tríade, um intermediário. Este tertium quid eram chamados de espíritos. Os espíritos apresentam uma característica dúbia: não são sutis o bastante para serem alma, nem materiais o bastante para serem matéria.

Os espíritos exalam do sangue, e fervem no fígado, surgindo daí uma "fumaça" pura. Esta fumaça é chamada de espírito natural. Ela é ainda mais purificada, tornando-se o espírito vital, operando os "pulsos da vida" nas artérias. Parte do espírito vital sobe para o cérebro, tornando-se ainda mais sutil e transformando-se no espírito animal. Parte deste espírito animal é distribuído pelos "limbos dos sentimentos" (os órgãos dos sentidos); parte permanece nas "covas" do cérebro, servindo de veículo para os sentidos interiores; ainda outra parte desce da parte traseira do crânio para a medula espinhal, sendo responsável pelos movimentos voluntários. O espírito animal é o órgão imediato da alma racional, e somente através desse órgão que a alma racional age quando se encarna. Os espíritos natural, vital e animal são às vezes chamados, respectivamente, de espíritos vital, animal e intelectual, mas mantêm exatamente as mesmas funções.

Os medievais nem sempre culpavam a alma racional pela insanidade, uma vez que o distúrbio poderia estar nos espíritos, deixando o corpo material fora de controle.

Se os espíritos estão situados em locais específicos do corpo, também é razoável supor que as funções da alma situem-se em locais específicos. A fantasia estaria na parte da frente da cabeça, a razão no meio e a memória na parte de trás.

g) O corpo

O leitor deve se lembrar dos quatro contrários e dos quatro elementos. No corpo humano, no entanto, os contrários produzem quatro humores: sangue (quente + úmido), cólera (quente + seco), fleuma (frio + úmido) e melancolia (frio + seco).

A proporção na qual estes humores encontram-se misturados formam seu complexio ou temperamentum. Embora as misturas nunca sejam iguais nas pessoas, é possível dizer que há sempre um humor que predomina em seu temperamento.

· O sangue é o humor predominante no temperamento sanguíneo. É o melhor dos quatro temperamentos, pois o sangue é "amigo da natureza". O homem sanguíneo é roliço, divertido e esperançoso. Um manuscrito do século XV ilustra o temperamento sanguíneo com um homem e uma mulher esplendidamente vestidos, tocando instrumentos de cordas em um campo florido.

· A cólera é o humor predominante no temperamento colérico. O homem colérico é alto e magro. Como o sanguíneo, o homem colérico fica bravo com facilidade, mas com a diferença que o colérico é vingativo. O manuscrito citado ilustra o temperamento colérico com um homem segurando uma mulher pelos cabelos e batendo-na com uma clava.

· A melancolia é o humor predominante no temperamento melancólico. Magro, dorme mal. Apega-se às suas opiniões e apresenta uma raiva prolongada e corrosiva. É o homem que hoje chamaríamos de neurótico, mas não o "melancólico" contemporâneo, que é triste, reflexivo, introvertido.

· A fleuma é o humor predominante no temperamento fleumático. É o pior dos quatro temperamentos. Gordo, branquelo, dorme excessivamente, sonha com coisas aquáticas ou peixes, lerdo, aprende com muita dificuldade, covarde.

Vale lembrar que determinados períodos do dia são preponderantes para temperamentos específicos: da meia-noite às 6h (sangue), das 6h ao meio-dia (cólera), do meio-dia às 18h (melancolia) e das 18h à meia-noite (fleuma).

h) A história

A historiografia medieval possui três funções primordiais: entreter a imaginação, gratificar a curiosidade e pagar a dívida que temos para com nossos antepassados. Em linhas gerais, a distinção moderna entre história e ficção não pode ser aplicada com precisão aos livros medievais nem ao espírito com que eram lidos. Os contemporâneos de Chaucer não acreditavam nos contos de Tróia ou Tebas da mesma maneira que acreditamos nas Guerras Napoleônicas, mas também não desacreditavam nelas como desacreditamos um romance.

O objetivo precípuo do leitor medieval não era aprender fatos, mas aprender a estória. Assim como em outros aspectos, a história medieval possui um objetivo mais elevado e importante do que contar fatos. A construção do caráter, a ênfase nas virtudes, na dignidade, na honra, tudo isso vale muito mais do que acumular fatos. Raramente o historiador medieval se ocupava de dados econômicos e sociais. As crônicas eram individuais, pessoais, concentravam-se no valor ou na vilania dos personagens, nos dizeres memoráveis, na boa ou má sorte.

Todavia, quem defende a história moderna não deve esquecer que ela também é seletiva, pois depende das inclinações imaginativas do historiador. Quem pensa que a história moderna é isenta, pura e perfeitamente objetiva engana-se terrivelmente.

Por fim, cabe lembrar que a linha de desenvolvimento da historiografia medieval é inversa à historiografia moderna: as eras passadas eram melhores do que a contemporânea, não havia “progresso”, a humanidade caminhava para períodos cada vez piores.

i) As artes liberais

As sete artes liberais atingiram um status de quase imutabilidade.

Eis o famoso mnemônico das artes liberais:

Gram loquitur, Dia verba docet, Rhet verba colorat, Mus canit, Ar numerat, Geo ponderat, Ast colit astra

A gramática é a arte da fala. Em outras palavras, ensinar gramática era ensinar latim.

A dialética "ensina palavras", ou seja, uma vez que a gramática ensinou a falar, a dialética ensinará a argumentar, a provar e a refutar.

A retórica era uma ferramenta indispensável nos tempos medievais, pois a oratória era uma necessidade para qualquer atividade pública ou atividade privada que envolvesse litígios. Geoffrey de Vinsauf escreveu a Nova Poetria (aprox. 1200), na qual ensinava a arte da amplificatio, ou seja, de como "amplificar" sua obra, como dizer muito quando se tem pouco a dizer. Esta arte consistia de três tipos de morae (prolongamentos): (a) Expolitio. Dizer a mesma coisa de maneiras diferentes. (b) Circumlocutio. Esticar uma obra chamando as coisas por outros nomes. (c) Diversia. Digressão. (d) Apostropha. (e) Descriptio. (f) Ornatus. Trocar as palavras de lugar na frase, pois o latim é uma língua que permite este tipo de recurso quase ao infinito.

28 de outubro de 2010

A psicoterapia na Igreja


Entre as pessoas que não estão espiritualmente saudáveis contam-se também certos sacerdotes que estudam psicologia para curar as almas das pessoas (com conhecimentos humanos). O mais estranho neste fenômeno é que seus mestres, os psicólogos, não acreditam em Deus nem aceitam a existência da alma; quando acreditam, o fazem à sua própria maneira (quase todos eles). Estes sacerdotes acabam revelando, pelas suas ações, que estão espiritualmente doentes e que precisam de exame patrístico. Após serem curados, eles mesmos conseguirão discernir este espírito maligno ao mesmo tempo em que chegarão ao conhecimento da graça divina. A partir daí, eles usarão a eneregia divina ao invés das artes humanas para curar as almas sofredoras.

19 de outubro de 2010

A arte da periagoge


Segundo John von Heyking, Gerhart Niemeyer e Eric Voegelin adotavam em suas aulas de filosofia política uma técnica para provocar em seus alunos a periagoge platônica, ou seja, o giro da alma em direção ao fundamento divino, afastando-a da indolência espiritual. Essa arte, que é a autêntica “educação liberal”, vem originalmente de Kierkegaard. A função não é apenas transmitir conceitos e descrições das sociedades e ideologias, os quais apelariam para uma porção pequena da alma do aluno, mas provocar uma verdadeira conversão existencial, algo mais amplo e profundo, que efetivamente desperte o aluno e faça-o voltar-se para a busca da verdade.

A arte da periagoge divide-se em três fases:

1) Fase estética. O professor procura despertar a conversão no aluno mediante a sátira e a ironia. Por exemplo, Voegelin, em Hitler e os Alemães, ironiza os expoentes da intelectualidade e da moralidade da sociedade alemã dos tempos nazistas tomando emprestadas algumas sátiras de Karl Kraus. A idéia não é intimidar os alunos ali presentes ou insultar gratuitamente os intelectuais mencionados, mas provocar uma mudança no senso estético dos alunos a fim de que enxerguem as pessoas pretensamente grandes como realmente são, ou seja, pequenas e desprezíveis.

2) Fase ética. O professor procura converter o aluno em duas perspectivas: (a) expressando indignação moral e (b) afirmando a ordem moral como sendo um elemento essencial para o entendimento científico da realidade política. Um dos exemplos utilizados por Voegelin é o do jornalista que critica um prisioneiro de Auschwitz por ter chamado um dos guardas de “assassino”, apesar de o guarda apenas o ter deixado aleijado. A indignação de Voegelin para com o jornalista é patente. Quer dizer que só devemos chamar alguém de “assassino”, mesmo após vê-lo matando alguém a frio, depois de o indivíduo ser julgado como tal em um tribunal? A mentalidade legalista do jornalista o impede de falar a verdade por receio de violar a letra da lei.

3) Fase religiosa. É a “conversão ao transcendente”. Se a fase anterior julgava moralmente as ações do indivíduo, nesta fase o indivíduo é julgado como um todo perante os padrões da ordem transcende. Isso significa que o professor deve apontar a perda de realidade, que invariavelmente encontra-se no desejo do indivíduo de ser o criador de sua própria existência e de seus próprios valores. Ao mesmo tempo, o professor tem de explicar ao aluno qual é o padrão empiricamente verdadeiro da ordem transcendente. A este respeito, em Hitler e os Alemães, Voegelin diz: “As experiências da razão e do espírito deixam claro que o homem experiencia-se como um ser que não existe de si mesmo. Ele existe em um mundo que lhe é dado de antemão. A existência deste mundo é um mistério, e o nome deste mistério, da causa do ser do mundo, do qual o homem é um componente, chama-se ‘Deus’. Portanto, a dependência da existência da causação divina da existência é, e sempre tem sido, a discussão básica da filosofia”. Trata-se de um chamado existencial profundo, e não apenas um chamado para sustentar opiniões e conceitos aprovados pela religião. É por isso que Voegelin criticou duramente o papel desempenhado pelas igrejas protestantes durante o período nazista: embora seus líderes se mantivessem fiéis aos dogmas e conceitos de suas igrejas, recusaram-se a prestar testemunho à verdade transcendente.

Por fim, Heyking explica que estas fases não são temporais, ou seja, elas ocorrem alternadamente e mesmo simultaneamente. Não devem, portanto, ser encaradas de maneira isolada.

16 de outubro de 2010

O filósofo-místico de Eric Voegelin


Das várias introduções ao pensamento de Eric Voegelin, a de Michael P. Federici é uma das mais interessantes e concisas, além de amplamente reconhecida por seu mais famoso discípulo, Ellis Sandoz. O objetivo deste artigo é delinear, em linhas bem gerais, as doutrinas de Voegelin sobre o papel civilizacional da filosofia e do filósofo, bem como alguns aspectos de sua filosofia da consciência.

Em termos simples, Voegelin entende que o colapso em que se encontra o mundo, sobretudo o Ocidente, é fruto da perda da consciência de experiências históricas vitais para a ordem política, social e existencial. São essas experiências históricas, juntamente com seus símbolos linguísticos correspondentes, que iluminam a verdade da realidade. Neste quadro desolador, as ideologias lograram êxito mediante a deturpação desses símbolos, usurpando-os e desconectando-os de suas experiências originais. A tarefa do filósofo é, portanto, reconquistar em sua própria consciência as "experiências desencadeantes" (engendering experiences), recapturando a verdade da realidade (o ground of being) que vive concentrada em símbolos. Isso significa que os símbolos linguísticos do mito, da revelação, da história e, acima de tudo, da filosofia, devem ser reativados antes de quaisquer debates políticos mais profundos. Em outras palavras, a tarefa do filósofo é reproduzir imaginativamente o significado dos símbolos mediante atos meditativos, criando, assim, "símbolos reflexos" que articulem a verdade contida nos "símbolos originais".

Há dois aspectos importantes no que acabo de dizer: (1) o objetivo da filosofia é muito mais ousado do que o mero estudo da realidade e das principais idéias que a descreveram ao longo da história, e (2) o filósofo voegeliniano não é um simples intelectual, mas um místico. Mas como é isso? Como opera exatamente esse filósofo?

A restauração da consciência às experiências da ordem exige por parte do filósofo uma abertura total para a busca existencial (zetema) da fonte divina dessa ordem. Trata-se de um processo de recordação (anamnesis) daquilo que permanece dormente na mente ocidental e que aguarda ser imaginativamente despertado pela alma espiritualmente sensível do filósofo. A exemplo de Platão, Voegelin acredita que somente "almas ordenadas" seriam capazes de restaurar a ordem política e social. Não se trata de mera recuperação dos símbolos e das experiências históricas da transcendência, mas uma reatuação meditativa, uma imitação mesmo, das experiências espiritualmente substanciosas que motivaram as evocações simbólicas do passado. Assim, a anmnesis não é uma restauração literária, ou seja, não se trata de estudar os Great Books, que é algo que pode ou não ser relevante. Portanto, a filosofia política não é o estudo da história das idéias políticas, pois isso seria uma deformação ideológica da realidade: a filosofia é a verdadeira "luz da sabedoria" que recompensa o esforço do filósofo em localizar as forças do mal e identificar sua natureza. O filósofo é um grande herói, um homem de extrema coragem, que luta em meio à sociedade desordenada a fim de restaurar a ordem. O estudo da história é relevante apenas enquanto alimento para estimular o filósofo na busca pela ordem. A educação, acredita Voegelin, é a arte platônica da periagoge, ou seja, é o giro da alma em direção ao fundamento divino ao mesmo tempo que a afasta da indolência espiritual e da desolação do mundo.

Voegelin segue o método aristotélico de ciência política. Tudo começa com o filósofo analisando os símbolos auto-interpretativos de sua sociedade em particular -- "justiça", "felicidade" e "cidadão", por exemplo. Uma vez que estes símbolos tenham sido compreendidos, o próximo passo é medi-los contra os símbolos linguísticos do próprio filósofo. Não raro, o filósofo perceberá que vive fora de sintonia, como que em tensão, com essa sociedade. Platão, por exemplo, seria um filósofo voegeliniano. Ele percebeu com clareza as fraquezas da sociedade ateniense, procurando retificá-las em sua própria alma. Cícero, por outro lado, é um contra-exemplo de filósofo voegeliniano. Ele não identificou as fraquezas de Roma porque a considerava o estado ideal. Assim, a tarefa precípua do filósofo é criar uma tensão entre a ordem da sociedade e a ordem de sua própria alma, sendo que a restauração da ordem depende da capacidade do filósofo em tocar as consciências das outras pessoas ao nível do pathos (apelo mediante a "ternura" ou "compaixão"). É por isso que Voegelin prescreve que recuperemos as experiências de ordem e transcendência. No nível da experiência, reside uma percepção da realidade que é muito mais difícil de ignorar do que a verdade contida em proposições e dogmas. Para que as almas movam-se em direção ao Agathon (ou summum bonum escolástico), o spoudaios (filósofo, o "homem maduro" aristotélico) tem de confrontar as almas desordenadas de forma a vencer sua resistência à busca pela realidade transcendente, ou seja, sua logophobia, e passem a cultivar o desejo de buscar a ordem e a verdade mediante sua participação no nous divino.

Além da filosofia, um dos instrumentos mais importantes para a restauração das experiências desencadeantes na consciência são os mitos. Os mitos ajudam a manter vivas e vibrantes as experiências com a realidade transcendente. É o caso dos mitos da Criação, de Noé e o Dilúvio e da Torre de Babel, nas quais o conteúdo das histórias não é o importante, mas as experiências ali simbolizadas. Os mitos são frequentemente resultado de experiências de revelação divina, como foi o caso com Moisés ou Isaás.

Esta observação nos leva a uma questão importante. Voegelin considera que a diferenciação que ocorre após a experiência desencadeadora, ou seja, os novos insights que se acumulam com o processo histórico, é um fenômeno que ocorre tanto com as revelações quanto com a filosofia. Isso significa, embora não o diga explicitamente, que os simbolismos da revelação e da filosofia são, de certa forma, equivalentes.

A filosofia da consciência é um importante elemento na compreensão do pensamento de Voegelin. A consciência é a área da realidade onde o intelecto divino (nous) move o intelecto humano (nous) a empenhar-se na busca pelo ground of being. Os seres humanos estão em busca (zetesis) do divino, e esta busca é engendrada por uma atração (kinesis) do divino. Este processo caracteriza-se pela mútua participação, a qual Aristóteles chama de metalepsis. Voegelin acredita que o desenrolar da história é precisamente o desenrolar da estrutura da consciência. No entanto, Voegelin sabe que uma sociedade corrompida por ideologias interporá inúmeros obstáculos para aceitar a história do filósofo; porém, todo ser humano possui, em sua consciência, a presença do divino, e é precisamente este elemento comum entre a consciência do ouvinte e o divino presente na história do filósofo que o filósofo buscará despertar.

* * *

É impossível que o leitor cristão ortodoxo não fique ressabiado com os ensinamentos e descobertas de Eric Voegelin. Sua doutrina da representação imaginativa de experiências passadas, a fim de reativar os símbolos originais mediante símbolos reflexos, é, no mínimo, suspeita. Um dos ensinamentos básicos dos Santos Padres, da Philokalia e demais autores místicos, é precisamente neutralizar e esvaziar a imaginação de elementos externos e internos a fim de se alcançar a theosis. Não é, claro, a única recomendação, mas é uma das recomendações centrais. Padres dedicaram capítulos e homilias inteiras apenas neste aspecto. A imaginação, segundo a doutrina cristã ortodoxa, é resultado da Queda, e o monge ou "filósofo" que busque a ascese em direção a Deus deve aprender a esvaziá-la dos logismoi. Do ponto de vista da Ortodoxia, Voegelin aponta um caminho perigosíssimo para seu ground of being.

Além disso, a filosofia parece ser elevada a uma condição quase fantástica. A Igreja nunca foi contra a filosofia. Pelo contrário, muitos Padres guardavam grande respeito por ela. São Gregório Palamás ensinava como utilizá-la para benefício do cristão. São Basílio, tido como mais inteligente que Aristóteles, fez uso intenso de conceitos platônicos, aristotélicos e estóicos. Recentemente, basta citar a grande admiração que São Nicolau Velimirovich nutria pela filosofia. Recomendo a leitura de Orthodoxy and Philosophy. No entanto, não há espaço na antropolgia e psicologia ortodoxas para o contato direto de filósofos, pelo exercício da consciência em atos imaginativos, com o incriado. Tal empresa, desprovida da purificação prévia segundo o método ortodoxo, abre o indivíduo, na melhor das hipóteses, para auto-ilusões, e na pior, para influências demoníacas.

Voegelin é mesmo um filósofo facinante. No entanto, creio ser prudente que o estudioso de suas obras analise-as à luz da tradição sempre que perceber que a filosofia está invadindo o campo próprio da teologia.

14 de outubro de 2010

Dialética


Poucos estudantes do filósofo americano Mortimer J. Adler leram seu primeiro livro, publicado quando o autor contava com apenas 25 anos de idade. Em Dialectic, Adler pretende estabelecer as bases daquilo que entende ser a dialética e, mais ousadamente, daquilo que entende ser a atividade essencial da filosofia. É este livro, como muitos anos mais tarde confessou, que contém os princípios e as motivações que levaram Adler a fundar o Institute for Philosophical Research, a criar o Syntopicon e a reunir os Great Books em uma abrangente coleção. No entanto, também em sua autobiografia, Adler menciona rapidamente por que discorda da conclusão fundamental de Dialectic. Ao final deste artigo, vou procurar explicar quais seriam os motivos que fizeram o Adler Sr. discordar do Adler Jr., segundo meu próprio entendimento do pensamento deste autor.

Introdução

Alguns conceitos populares a respeito do que vem a ser "pensamento" precisam ser revisados antes de adentrarmos no assunto dialética.

A literatura popular acerca da dialética apresenta, em linhas gerais, quatro postulados fundamentais. Vamos enunciá-los para que, em seqüência, façamos alguns comentários corretivos.

(1) "O pensamento é um processo que se resume a possuir e lidar com idéias".

Segundo este ponto de vista, as idéias seriam imagens mentais, proposições, julgamentos ou mesmo pensamentos sem imagens. No entanto, duas correntes científicas recentes sofisticaram estas noções: o behaviorismo e a lingüística. Em linhas gerais, o que estas correntes científicas nos ensinam é que a linguagem desempenha um papel fundamental no processo de pensamento. Portanto, a tese deve ser reescrita da seguinte forma: o pensamento é um processo que se resume a possuir e lidar com idéias mediante a linguagem. Infelizmente, a partir do século XVI, a teoria do pensamento começou a desprezar a relevância da linguagem, da gramática e da retórica.

(2) "O pensamento é um processo empreendido individualmente".

Não é verdade, pois o pensamento também pode ser empreendido pelo processo interativo de duas mentes. Este processo interativo não segue necessariamente a estrutura canônica formal do pensamento lógico indutivo e dedutivo.  Platão foi quem originalmente cunhou o termo "dialética", que é precisamente o termo que designa esse pensamento discursivo e conversacional. Ademais, cabe observar que a criança, ao longo de seu processo de desenvolvimento mental e linguístico, aprende, em primeiro lugar, a usar a linguagem para comunicar seus desejos e necessidades ao ambiente social que a envolve. Somente mais tarde é que esta criança começará a utilizar seu vocabulário para propósitos a-sociais e inteligentes. Isso significa dizer que, embora o pensamento a-social seja mais sofisticado e, neste sentido, superior, a comunicação verbal é um tipo próprio de pensamento, a qual a dialética, mais tarde, procurará torná-la mais elaborada e precisa. Vê-se, assim, que o pensamento lógico não é uma sofisticação da comunicação verbal, mas um tipo diferente de pensamento. A dialética, conforme Hegel deixou claro, não exige uma dualidade de mentes, mas apenas uma oposição, um conflito, que pode perfeitamente existir dentro de uma só mente.

(3) "O pensamento é uma atividade racional, indepente de propósitos e desejos irracionais".

Na verdade, as recentes pesquisas em psicologia dizem precisamente o contrário: o pensamento é uma atividade muito mais ligada à racionalização do que ao raciocínio. Racionalizar significa enxertar razões às conclusões, crenças e opiniões já previamente sustentadas pela pessoa. É a isto que chamamos de preconceito, complexo emocional, desejo inconsciente. Há três fontes de irracionalidade que se escondem por trás das racionalizações: (a) o desejo de convencer o oponente, cuja polêmica sempre envolve partidarismos, (b) fontes supra-cognitivas, como fé, intuição ou outra forma de insight cujas proposições não possam ser submetidas ao escrutínio da razão, e (c) falta de insight, ou seja, bloqueios emocionais que compelem a pessoa a rejeitar determinada proposição. No entanto, a psicologia não é o único campo de conhecimento que rejeita a tese de que o pensamento é uma atividade puramente racional. Platão ensinava que o argumento, seja ele qual for, sempre se move dentro dos limites estabelecidos por hipóteses e definições que, por sua vez, não podem ser submetidas ao escrutínio do próprio argumento. Isso significa dizer que toda demonstração lógica, seja um argumento ou um sistema, depende de uma série de premissas -- postulados, definições e indefiníveis -- que não podem, por princípio, ser submetidas ao processo de demonstração. Tais premissas são os equivalentes, no campo da psicologia, aos preconceitos e wishful thinkings, ou seja, são elementos escolhidos, selecionados, e não elementos intelectualmente obrigatórios e racionalmente inevitáveis; são "proposições intuitivas", no sentido de que são proposições escolhidas como sendo verdadeiras, mas não necessariamente verdadeiras.

(4) "O objetivo do pensamento é o conhecimento, ou seja, o pensamento busca sempre a verdade".

Há, genericamente falando, três grandes tipos de pensamento: o pensamento empírico, o pensamento matemático-geométrico e o pensamento dialético. A diferença entre o pensamento empírico e o pensamento matemático-geométrico é que o pensamento empírico submete seus processos racionais ao julgamento de critérios extrínsecos, isto é, de fatos e experiências, enquanto o pensamento matemático-geométrico submete seus processos racionais ao julgamento de critérios intrínsecos, isto é, de consistência, demonstração etc. No caso do pensamento empírico, a veracidade é controlada por entidades que estão para além do processo, enquanto no pensamento matemático-geométrico a veracidade é controlada por entidades que se encontram dentro dos limites do próprio pensamento. O pensamento matemático-geométrico bem poderia ser chamado de "pensamento se-então", já que seu processo obedece a um padrão do tipo "se isso, então aquilo", ou seja, dadas estes postulados, então aquelas proposições são verdadeiras: a veracidade dos postulados é meramente hipotética, enquanto a veracidade das proposições depende das regras de demonstração e inferência e, claro, supondo-se que essas regras sejam, em si, verdadeiras, o que, a rigor, é impossível de se demonstrar. Ora, se o pensamento empírico não é capaz, por si só, de alcançar a verdade, e o pensamento matemático-geométrico, mesmo sendo "consistente", também não poderia fazê-lo, menos ainda o pensamento dialético o será. O pensamento dialético não busca a verdade, mas a concórdia. Os lados podem estar de acordo, após uma disputa argumentativa, mas isso não significa que possamos dizer que alcançaram a verdade -- bem poderá ter ocorrido o contrário, ou seja, ambos poderão estar terrivelmente engandos em meio à sua concórdia. Os fatos interrompem a dialética, pois introduzem um elemento estranho a ela. Por isso, de certa maneira, podemos dizer que o pensamento dialético é mais semelhante ao pensamento matemático-geométrico, pois sua veracidade também está mais ligada a elemetos de consistência e demonstração.

Conceitos importantes

Vamos, então, procurar expandir e elaborar melhor as controvérsias que mencionamos. O pensamento empírico e o pensamento matemático-geométrico já foram suficientemente elucidados ao longo dos últimos séculos. É o pensamento dialético que precisa ser melhor elaborado. A Antiguidade e a Idade Média bem que apreciaram a importância da dialética, mas é importante agora, nos tempos modernos, retomá-la à luz dos comentários mais recentes da ciência e da experiência.

Mas, antes de elaborá-las, vamos enunciar, de maneira mais ou menos arbitrária, quais são as principais características da dialética:

(1) A dialética surge a partir da confusão e da contradição de significados em um discurso.

(2) A dialética é uma forma de pensamento que não pode ser completamente caracterizada pelas regras da indução e da dedução. Isso significa que a dialética depende de uma situação intelectual na qual os processos de indução e dedução são irrelevantes, que, em verdade, são técnicas de investigação e demonstração mais apropriadas para as ciências naturais e para a geometria, respectivamente. A situação intelectual de interesse da dialética é a resolução de oposição de opiniões.

(3) As controvérsias dialéticas nunca são puramente racionais ou intelectuais. A persuasão emocional, as limitações e excentricidades de entendimento e interpretação e os propósitos que controlam a vida prática e teórica são também responsáveis pela geração das disputas e dificuldades que gravitam em torno das opiniões e convicções das pessoas.

(4) Nenhum argumento é capaz de definir todos os seus termos, ou seja, os argumentos sempre fazem suposições implícitas e/ou explícitas. É por isso que a dialética preocupa-se com a exposição mais exata possível dos postulados e com as definições dos termos do discurso.

(5) O partidarismo é algo inevitável mesmo quando estão disponíveis opções genuinamente intelectuais. No entanto, se o praticante da dialética perceber que a disputa surgiu porque as definições e suposições foram arbitrariamente escolhidas, deve renunciar a seu partidarismo e adotar uma postura imparcial.

(6) A dialética é uma atividade ligada ao discurso, à controvérsia, ao argumento. A dialética ocupa-se somente dos significados das entidades de discurso e, portanto, não pode estabelecer verdades que dependam da relação entre o discurso e itens que não estejam no discurso. Portanto, fatos jamais devem ser introduzidos no processo. Disputar um "fato" significa que houve um mal-entendido quanto à realidade desse fato ou significa que houve uma diferença de opinião quanto ao significado deste fato no argumento em questão -- neste último caso, o pensamento discursivo se aplica, pois aí a realidade do fato é assumida como verdadeira.

(7) A dialética não busca a verdade, nem é capaz de alcançá-la. O partidarismo e a imparcialidade exigidos no processo dialético impedem que o praticante da dialética assuma a postura de que tenha alcançado uma "verdade".

Após observarmos os discursos, as controvérsia e as "conversas" que ocorrem entre as pessoas, podemos enunciar as seguintes observações:

(1) A dialética é, em parte, um processo de definição; por meio da definição, a dialética procura esclarecer a controvérsia.

(2) A dialética é, em parte, um processo de detecção de oposição entre suposições e definições; a dialética procura resolver esta oposição formulando uma terceira série de proposições que inclua as proposições conflitantes.

(3) A resolução do conflito só é possível dentro de um mesmo universo de discurso; a resolução ocorre quando dois universos de discurso díspares são unificados, ou seja, quando é possível a tradução entre eles.

(4) Os conflitos dialéticos resumem-se a oposições discursivas, sejam proposições dentro de um mesmo universo de discurso, sejam entre universos de discurso distintos. Em outras palavras, o fato da oposição engendra a dialética.

(5) A controvérsia termina em um acordo entre as partes. No entanto, isso não significa que o acordo seja uma resolução dialética, embora devesse sê-lo.

(6) Os fatos são elementos não-discursivos e, portanto, não exercem função determinativa em um discurso dialético. No entanto, não somente fatos, mas emoções, desejos, propósitos, circunstâncias econômicas, orientações religiosas, excentricidades pessoais etc. freqüentemente são fatores causais de controvérsias e disputas, quando não determinam as escolhas feitas pelo indivíduo no decurso do desenvolvimento argumentativo. Tais fatores impedem que dois indivíduos operem dentro de um mesmo universo de discurso. Em suma, na dialética, os fatos possuem status causal, mas não possuem status lógico.

(7) No decurso de qualquer desenvolvimento argumentativo, a dialética depara-se com dilemas ou alternativas. Em última instância, tais alternativas são determinadas pelas proposições que estabelecem a contradição original. A escolha de uma das alternativas implica necessariamente na determinação das escolhas subseqüentes. Por isso, a dialética também pode ser descrita como o processo que lida com dilemas ou alternativas co-implicadas.

A dialética na prática

Neste ponto, talvez seja interessante fazermos algumas digressões empíricas acerca da dialética.

Comecemos pela linguagem. A linguagem é o meio através do qual os homens discursam e, ao mesmo tempo, é o meio que limita o discurso dos homens. Isso significa que a linguagem apresenta condições limitantes para a realização dos valores lógicos do discurso.

O primeiro fator lingüístico que manifesta tal limitação encontra-se na diferença entre os significados denotativo e conotativo das palavras. O significado denotativo refere-se aos objetos, enquanto o significado conotativo é determinado pela relação com as outras entidades de mesmo tipo. As propriedades conotativas são as responsáveis pelas inúmeras e elaboradas ramificações das definições e distinções da linguagem. Se essa riqueza é uma benesse, não deixa de ser também um problema. As dificuldades de definição que surgem dessa riqueza é precisamente o escopo da dialética. As palavras não são como símbolos matemáticos, cujos significados são precisos e padronizados. As palavras do vocabulário discursivo são criaturas orgânicas, cuja longa história de variações semânticas é evidência de sua capacidade para a ambiguidade verbal. O dicionário não é uma sistematização de definições, mas apenas uma coleção de definições; a definição de qualquer termo implica necessariamente em uma regressão infinita para outros termos, o que torna a quantidade de definições virtualmente infinita.

A única maneira de interrompermos essa regressão é por meio de uma denotação, que tem a capacidade de satisfazer o desejo de explicar o significado de um termo. Afinal, os fatos nunca contradizem a si próprios, mas as afirmações acerca deles é que se contradizem. Fatos são criaturas mudas, cujo poder reside em sua posição e movimento. As opiniões também são, a rigor, fatos: elas não se desafiam mutuamente, nem mesmo tornam-se necessariamente significantes. Elas só se contradizem quando perguntamos: "O que significa dizer que...?" Esta é a pergunta-chave da dialética. A competição entre as opiniões é, na verdade, um processo de apropriação: a opinião deixa de ser amorfa para que, motivada pela pergunta, busque apropriar-se de fatos que lhe dêem interpretação. No entanto, quase nunca é possível apontar para um objeto quando somos questionados acerca do significado de alguma palavra ou opinião. Assim, cabe-nos aumentar a força denotativa de uma opinião refinando a conotabilidade dos termos envolvidos. A definição é um processo cumulativo, plástico, que requer movimento dentro do universo de discurso no qual está inserida.

O segundo fator lingüístico é a dupla referência verbal, conotativa e denotativa. Ocorre que essas duas dimensões apresentam um certo grau de independência entre si. Assim, além das usuais contradições conotativas, uma mesma palavra pode adquirir uma conotação em desacordo com a denotação original (por exemplo, quando chamamos o rabo de uma mula de "perna", estamos procedendo exatamente desta forma, pois, a rigor, nada poderia nos impedir de fazer isso). Psicologicamente, isso se explica pela relação entre razão e sentido. O mundo exterior, o qual percebemos por meio dos sentidos, depende do tamanho do vocabulário e do grau de refinamento da linguagem da pessoa; por outro lado, a linguagem cresce na medida em que os objetos são perceptualmente descobertos e suas partes são imaginativamente recombinadas. Ambas as reações -- sensoriais e verbais -- ocorrem simultaneamente e influenciam-se mutuamente.

O terceiro fator lingüístico é a qualidade metafórica. Os poetas dizem que a Lua é a rainha da noite, enquanto os cientistas dizem que ela é o satélite natural da Terra. Aprendemos que os poetas adotam uma linguagem metafórica, enquanto os cientistas adotariam uma linguagem literal. Mas não é bem assim. A linguagem científica é tão metafórica quanto a poética, pois a linguagem é sempre metafórica, a despeito se seus valores imaginativos sejam abstratos ou concretos. "Todas as nossas percepções e pensamentos são símbolos acessórios aos objetos, e jamais cópias daquilo que materialmente existe nas profundezas da natureza", dizia Santayana.  Vaihinger, por sua vez, dizia que Kant não era o maior dos metafísicos, mas o maior dos "metafóricos". Todo pensamento é uma comparação. É por isso que as afirmações, isoladamente, não podem ser julgadas. É necessário dar-lhes contextos que, mesmo sendo eles também metafóricos, auxiliarão no processo de tornar os significados das afirmações mais claros. A impressão de literalidade da ciência advém do grau de precisão e uniformidade de seus termos, do fato de seus termos formarem um sistema metafórico mais bem organizado.

Esta qualidade metafórica confere à linguagem uma conseqüência interessante. A oposição ou conflito entre opiniões só poderá ser inteligível se elas forem definidas de maneira que pertençam ao mesmo modo metafórico, ou seja, às mesmas convenções lingüísticas. [Por exemplo, na Divina Comédia, Dante alerta quanto aos quatro modos metafóricos que podem ser aplicados na leitura: literal, alegórico, moral e anagógico.] É somente desta forma que suas contradições podem ser entendidas e tratadas.

Portanto, esses três fatores lingüísticos explicam as ambiguidades no discurso verbal, e não raro são tais ambiguidades que engendram os conflitos e contradições que a dialética procurará solucionar, seja esclarecendo o uso das palvras, seja resolvendo as dificuldades lógicas do discurso.

Mas a linguagem não é o único aspecto empírico sobre o qual devemos nos debruçar. Há também aspectos psicológicos a serem considerados para o exercício da dialética. Há três aspectos psicológicos:

(a) Ócio. No contexto da dialética, "ócio" não significa exoneração econômica, mas exoneração de toda e qualquer obrigação prática, uma postura deliberada de impraticabilidade. Isso não significa dizer que a atividade intelectual não tenha conseqüências práticas, mas significa que a atividade intelectual deve ser exercida independentemente de quaisquer questões práticas que porventura possam existir. Lembre-se de que a conversação, para ser dialética, deve referir-se ao universo de discurso e, portanto, deve ser totalmente teórica. Em outras palavras, a dialética situa-se fora do âmbito dos fatos e expressa-se existencialmente no nível conotativo da linguagem. É verdade que uma discussão pode ser encerrada mediante a alusão a fatos, mas isso, dialeticamente falando, não tem a menor importância. O pensamento dialético é inconcluso, exigindo uma postura totalmente teórica, ou seja, o dialético deve estar imbuído do espírito do ócio o mais que possível. A dialética não possui um objetivo intelectual, no sentido de que deva resolver um problema ou completar um sistema; aliás, poderíamos mesmo dizer que a dialética ocupa-se precisamente em demonstrar e entender que os problemas não podem ser resolvidos e nenhum sistema pode ser absolutamente completado, em termos puramente intelectuais. As pessoas comuns precipitam-se em uma miríade de fatos e argumentos enquanto conversam, às vezes até mesmo discutindo fatos ou defendendo determinadas conclusões como sendo absolutamente verdadeiras. Tratam-se de grande erros de conversação.

(b) Inteligência. Pensar é uma habilidade que varia de pessoa para pessoa. No entanto, não se trata apenas de diferenças de hábito, mas de dom natural e de circunstâncias vigentes. Não há dúvida de que é necessário um mínimo de capacidade intelectual para levar a cabo uma atividade como a dialética. A arte da conversação filosófica não é para qualquer um. Porém, mesmo entre as pessoas intelctualmente dotadas, os obstáculos conversacionais podem ser explicados pela discrepâncias entre as inteligências envolvidas. William James ensinava que "antes de mais nada, é imprescindível que o crítico apreenda imaginativamente o centro de visão do autor a ser criticado". A incapacidade para empreender tais insights é uma das principais causas das confusões e conflitos entre as pessoas. A imaginação intelectual é o elemento que torna possível a tradução entre os universos de discurso. Dialética é encontrar o universo de discurso comum a ambos os lados; o acordo entre as partes reside nisso, e não em uma mera concórdia mútua que encerre a discussão.

(c) Temperamento. As fraquezas emocionais também explicam as aberrações de entendimento que as pessoas freqüentemente apresentam. O problema com o louco que pensa ser Napoleão não está no personagem emulado, que em geral apresenta traços incrivelmente bem sistematizados e organizados, mas nos limites impostos por duas ou três suposições básicas, de natureza emocional. É partir delas que o sujeito desencadeia sua ilusão. Embora o exemplo possa ser exagerado, o fato é que uma grande quantidade de argumentos são defendidos pelas pessoas comuns exatamente desta forma. A diferença entre o pseudo-Napoleão e as pessoas comuns é de grau, e não de tipo. Ambos são iludidos, dialeticamente e pragmaticamente falando. A falta de insight, ou seja, a incapacidade para a autocrítica, é um fenômeno comum dentro e fora dos hospícios. Ambos são incapazes de contemplar as suposições e premissas que compõem seu dogmatismo. O objetivo da dialética é disciplinar essa inclinação natural para o dogmatismo. A discussão, a disputa consersacional, assemelha-se muito mais à situação de conflito entre dois neuróticos do que a oposição entre sistemas geométricos distintos. A dialética é um tipo de psicanálise, pois procura substituir os fatores que engendram o dogmatismo por posturas dialéticas. No que tange seu exercício, eis algumas regras fundamentais de "etiqueta dialética":

    (i) Exibir a emoção. É humanamente impossível discutir e, ao mesmo tempo, manter-se neutro. Se o amor é um componente inseparável da lógica, é muito melhor confessá-lo do que ocultá-lo. A idéia é que os argumentadores exponham qualquer suspeita de motivação emocional e viés temperamental quando entrarem em discussão. O resultado é que o argumento será purificado desse tipo de confusão. Lembre-se: os fatores emocionais não são razões e, portanto, não devem ser tratados como tal.

    (ii) Postulação explícita. O argumento não deve ser crítico somente em suas influências emocionais, mas também o deve ser em nível intelectual. Isso significa que as premissas, conforme ensinava Platão, são hipóteses, e o valor da conclusão consiste justamente na explicação adequada do significado das premissas. O indivíduo deve se esforçar para tornar explícitas as proposições intuitivas que compõem seu insight, pois, do contrário, será incapaz de reconhecer os fundamentos de seu próprio pensamento e de perceber as fontes das afirmações do oponente. Muitas vezes, a crítica intelectual não é feita por motivos emocionais; por isso, esta regra e a anterior são, na verdade, a mesma.

    (iii) Imparcialidade. A imparcialidade é resultado de um certo "partidarismo esclarecido". Em outras palavras, caso uma contenda tenha sido encerrada em um acordo, os dois lados devem encarar este acordo como algo totalmente relativo ao universo de discurso dentro do qual se deu a contenda. Muitas pessoas não entendem como é possível ser imparcial e, ao mesmo tempo, partidário. Esse paradoxo psicológico se explica quando entendemos que a disputa é dividida em dois estágios: enquanto a participação ativa na argumentação é algo necessariamente partidário, é necessária também a adoção de uma postura imparcial no que tange as oposições e contradições intelectuais. O indivíduo imbuído de um espírito verdadeiramente dialético conseguirá emular os dois estágios alternadamente, ao longo da própria contenda.

    (iv) Impraticalidade. Freqüentemente, as barreiras emocionais, a ocultação de postulados e a parcialidade intelectual ocorrem porque as pessoas levam as contendas a sério demais. Por "demais", quero dizer que as pessoas se apegam demais às questões práticas e circunstanciais do mundo da ação humana. As questões práticas, que obviamente são importantes, têm o revés de obstaculizar a imaginação intelectual necessária para o exercício da dialética, escravizando inconscientemente os participantes aos ditames das circustâncias vigentes.

A estrutura lógica da dialética

Um dos aspectos mais importantes da dialética, para além dos aspectos empíricos, é sua estruturação lógica fundamental.

A dialética é um conjunto de actos lógicos. Acto lógico é a actualização de uma relação potencial que existe entre as entidades de um universo de discurso. As relações potenciais e seus respectivos actos lógicos são as seguintes:

Relação potencial     |   Acto lógico
-----------------------------------------
oposição                   |  definição
implicação                |  análise
ordem sistemática    |  análise e síntese (sistematização)
ordem hierárquica     |  análise e síntese (hierarquização)

O acto lógico, por sua vez, é algo explicitamente afirmado em uma proposição. As proposições podem assumir as seguintes formas: definição, postulado e teorema. A diferença entre elas está em suas funções sistemáticas. Sistema é um conjunto de proposições relacionadas entre si por implicação. As implicações são engendradas pelo conjunto de postulados, os quais formam o que chamamos de doutrina do sistema, ou seja, as definições e suposições; os teoremas, por sua vez, explicitam essas implicações. A doutrina, isto é, as definições e postulados, constitui o que poderíamos chamar de proposições intuídas ou aceitas, enquanto os teoremas constituem as proposições demonstradas. A dialética não se interessa pelos sistemas em si, como seria o caso da lógico matemática, mas pelas relações entre os sistemas em conflito; a oposição é, portanto, o tema fundamental da lógica da dialética. Ademais, a dialética interessa-se pela coordenação da fase descritiva da doutrina abstrata dentro de uma estrutura lógica; assim sendo, a dialética também difere da simples lógica de inferência dedutiva-indutiva.

As implicações não apenas organizam as proposições de maneira sistemática, mas lhes conferem ordem hierárquica. A hierarquia organiza as entidades de acordo com os níveis determiandos pela análise de suas relações todo-parte.

(i)

O discurso possui dois tipos de componentes: os termos e as proposições. Proposição é uma relação entre termos. Os termos, por sua vez, são classes. ou seja, são um conjunto de condições de identidade que determinam a correlação dos itens do discurso. Os itens que porventura satisfaçam esse conjunto de condições farão parte da classe; os itens que não satisfizerem tais condições estarão fora da classe.

As classes relacionam-se por relações de parte-parte, todo-parte e parte-todo. Essas relações são chamadas de implicações. A parte é uma classe que necessariamente implica a existência de outras partes, que as exclui e é por elas excluída. A parte está incluída no todo, mas não implica este todo; em vez disso, a parte pressupõe o todo, o que equivale a dizer que o todo, ao qual a parte pertence, implica a parte. O todo é uma classe que inclui todas as partes. Ademais, no momento que é definido, o todo implica a existência de outras classes distintas de si próprio, pelas quais é excluído. Portanto, verificamos que o todo também é parte, tanto em relação a outras partes quanto em relação aos todos que incluem essas partes, as quais são implicadas por eles. Toda classe é um todo quando implica partes, e toda classe é uma parte quando é implicada por um todo. Há uma relação de reciprocidade simétrica, de relação filial e parternal. Verifica-se, portanto, que há uma relação hierárquica regulada pelas relações todo-parte, a qual independe da natureza material ou abstrata dos itens ordenados.

Termos, proposições e sistemas são níveis distintos na ordem hierárquica das relações entre todos e partes. Um termo é parte de uma proposição; uma proposição é parte de um sistema. Essas relações existem no discurso em potência. São necessários actos lógicos para torná-las explícitas, e são precisamente esses actos lógicos que constituem a dialética, ou seja, a dialética pretende exibir as relações hierárquicas parte-todo que existem em um discurso.

Conforme dissemos acima, as proposições, sistematicamente falando, são classificadas em definições, postulados e teoremas. As definições possuem três propriedades: (a) a definição indica a natureza intensiva de um todo e o conjunto de condições que limitam a membrazia de classes subordinadas e esse todo; tais classes subordinadas são as partes desse todo; (b) já que a definição determina uma classe como sendo um todo, ela também determina outras classes exatamente pela exclusão de suas propriedades; (c) as classes determinadas e excluídas pelas definições são coordenadas, ou seja, elas se implicam mutuamente e se excluam mutuamente; em outras palavras, por serem classes coordenadas, elas necessariamente relacionam-se enquanto partes de um todo de ordem superior, ou seja, elas pressupõem tal classe superior, a qual, por sua vez, as implicará quando for definida, e assim por diante, indefinidamente.

Os postulados e teoremas são proposições analíticas, ou seja, não determinam as condições de identidade de uma classe como um todo, ou seja, elas não definem. Elas expressam a relação de um todo com suas partes ou a relação das partes coordenadas entre si. Em suma, os postulados e teoremas servem para analisar a natureza de um todo e determinar a ordem das partes nesse todo, isto é, seus níveis hierárquicos. Os postulados são de ordem superior, pois os teoremas analisam as implicações subordinadas dos postulados. Em outras palavras, os postulados implicam os teoremas, enquanto os teoremas pressupõem os postulados. Assim, primeiramente temos as definições, depois os postulados, cuja função é exibir as implicações subordinadas das definições, e depois os teoremas, cuja função é exibir as implicações dos postulados. Os teoremas completam a explicação analítica da ordem sistemática implicada pelas definições e postulados.

As definições e os postulados formam a doutrina do sistema e devem ser independentes entre si, ou seja, não devem se implicar mutuamente. Por exemplo, um postulado que é implicado por outro postulado é, portanto, demonstrável, o que faz dele, na verdade, um teorema, e não um postulado. Em suma, a doutrina do sistema é declarada como verdadeira por suposição, sendo que o status das proposições é de caráter intuitivo -- são proposições intuídas; os teoremas do sistema são declarados como verdadeiros por implicação, sendo que o status desses teoremas é de proposições demonstradas.

Há duas fases em qualquer procedimento dialético: (a) a origem e elaboração de conflitos; (b) a resolução dos conflitos e a tradução dos universos parciais de discurso. Os conflitos surgem por causa de oposições entre sistemas, mas nunca por causa de oposições entre proposições isoladas ou sistemas isolados.

(ii)

Oposição não é contradição. Oposição é uma declaração de alteridade, enquanto contradição é uma declaração de rejeição. A oposição surge porque há, em qualquer definição, uma força ou inclinação que necessariamente diferencia as classes; ora, definir uma classe -- declará-la um todo -- não contradiz todas as demais classes que não foram assim definidas, mas apenas as nega no sentido de que as declara como outras classes, daí portar o sentido de alteridade.

O primeiro estágio da dialética é precisamente a definição, melhor dizendo, a oposição entre definições. Esta oposição é declarada mediante a afirmação das duas proposições opostas. Lembre-se de que a mera afirmação de oposição não implica em rejeição.

O segundo estágio da dialética é a análise. Os todos estabelecidos pelas definições são passíveis de análise, pois há, dentro de cada definição, uma ordem hierárquica de relações parte-todo; a esta ordem hierárquica chamamos de "sistema dedutivo", ou seja, é um sistema de proposições que formam a doutrina do sistema (definição + postulados), bem como seus teoremas. As definições e postulados são um conjunto de proposições sistemáticas, pois só são compreendidas por suas implicações mútuas; os teoremas, por sua vez, explicam essas proposições e só podem ser entendidos pelos termos da doutrina. Portanto, toda proposição é compreendida ou no âmbito de uma fonte doutrinal de um sistema de proposições ou no âmbito de uma proposição implicada por um sistemas de proposições.

O terceiro estágio da dialética é a síntese. Ao contrária da análise, que é composta por actos lógicos, a síntese exige imaginação intelectual, isto é, insight, intuição, inferência. Neste estágio, procuramos resolver o problema dialético mediante a detecção dos postulados de um sistema, mas não mediante a dedução dos teoremas de um sistema a partir dos postulados. As regras da análise são a implicação e a dedução; no entanto, não há regras para a síntese. A idéia, na síntese, é encontrar a classe supra-ordinada que seja pressuposta pelos sistemas coordenados, isto é, em oposição. Uma vez encontrada, nova análise deverá ser empreendida para estabelecer, com mais critério e cuidado, o sistema que abarca ambos sistemas coordenados.

Este processo dialético deixa claro um aspecto importante: não há oposição absoluta entre sistemas, mas apenas oposição parcial. A oposição contém, em si mesma, a fonte de sua própria resolução. Os sistemas opostos serão sempre partes de um sistema supra-ordinado, e assim por diante, indefinidamente. Além disso, o novo sistema jamais representará uma resolução absoluta, pois algumas proposições necessariamente terão de ser excluídas dele para que abarque os sistemas anteriormente em oposição. Novamente, há um processo a-lógico de escolha entre dilemas, ou seja, entre dois ou mais sistemas supra-ordinados que satisfazem as condições de resolução da oposição mas, cada um a seu jeito, inclui e exclui proposições dos sistemas originais.

Fica claro, portanto, que há uma inevitável frustração inerente ao processo dialético, e que essa frustração é fruto da estrutura hierárquica infinita do universo de discurso. Ademais, o fim da dialética, conforme mencionamos anteriormente, não pode ser a verdade, já que há somente três tipos de verdades, proposicionalmente falando: (a) as verdades factuais, que naturalmente não são dialéticas; (b) as verdades intuitivas, as quais apenas presume-se que sejam verdadeiras; (c) as verdades demonstradas, cuja veracidade depende de outras proposições. Vê-se, portanto, que as proposições podem estar em contradição uma com a outra, mas apenas factualmente falando, ou nos casos em que tais proposições estejam descoladas de seus respectivos sistemas/universos de discurso/modos metafóricos. Caso contrário, o que o dialético deve fazer é introduzir a proposição dentro de seu sistema, e o resultado será necessariamente uma oposição entre os sistemas, mas não uma contradição. Não existe contradições, em termos dialéticos, porque, se existissem, poderíamos identificá-las como estando dentro de um mesmo sistema, o que, por si só, imediatamente as descaracterizariam enquanto contradições. Isso equivale a dizer que as definições são incapazes de proceder a uma exclusão total e absoluta. Em suma, contradições só existem em proposições isoladas, mas proposições isoladas não são de interesse da dialética. Se duas proposições encontram-se em "contradição", isoladamente falando, seus termos têm apenas identidade verbal, mas não têm identidade definitória.

A metafísica da dialética

E eis que chegamos a uma conclusão metafísica quanto à dialética. Se o universo de discurso não contém, de maneira alguma, contradições; se as entidades discursivas podem ou não ser verdadeiras; se o universo de discurso é um ordem hierárquica infinita, cujos elementos encontram-se em infinita oposição, e cada oposição pode ser apenas parcial e inconclusivamente resolvida, então o universo de disurso é algo que se encontra dentro do campo da possibilidade. A possibilidade constitui, portanto, a própria descrição metafísica da dialética.

Uma doutrina metafísica pretende definir e descrever um todo-último (ultimate whole). O todo-último transcenderia toda e qualquer oposição, atingindo, portanto, o status de finalidade.

O todo-último é infinito, pois possui uma relação infinita de hierarquias, e determinado, pois é um todo. Assim, a característica determinadora insere o todo-último no campo da possibilidade. Por outro lado, a actualidade (o campo dos fatos) necessariamente impossibilita que todas as possibilidades se manifestem, já que isso necessariamente implicaria em contradições. As contradições se manifestam em declarações factuais, mas quanto a isso a dialética nada tem a dizer, permanecendo necessariamente em silêncio.

Assim, podemos resumir a metafísica da dialética nos seguintes postulados:

I. O universo de discurso é um todo-último (ultimate whole), infinito, mas determinado.

II. A determinação do universo de discurso é a relação parte-todo de suas entidades em uma ordem hierárquica de implicação.

III. Toda entidade do discurso está internamente relacionada a todas as outras entidades, mas em variados graus de proximidade.

IV. A dialética define-se, potencialmente falando, como sendo a estrutura formal do universo de discurso, e, actualmente falando, como sendo a atividade que exibe essa estrutura com certo grau de limitação, ou seja, o lado empírico da dialética (linguagem) limita o aspecto lógico dela.

Podemos extrair alguns teoremas importantes da descrição acima:

1. Não há relação de contradição no universo de discurso.

2. O universo de discurso está, portanto, ontologicamente inserido no campo da possibilidade.

3. A dialética está, portanto, inteiramente restrita ao universo de discurso.

4. A dialética, portanto, é incapaz de lidar com a relação entre os campos ontológicos do discurso e da existência.

5. Todas as oposições no discurso podem ser resolvidas.

6. Todas as resoluções dialéticas são parciais e inconclusivas.

7. Potencialmente falando, a dialética é absolutamente inconclusiva.

8. Actualmente falando, a dialética é relativamente inconclusiva.

9. A dialética é capaz de manifestar apenas verdades intrínsecas, sendo que tais verdades jamais podem ser finais.

10. Nenhuma proposição isolada é verdadeira ou falsa; em algum sistema, todas as proposições poderão ser verdadeiras.

Adler conclui que filosofia e dialética são a mesma coisa. Para ele, a filosofia é a atividade da controvérsia intelectual, ou seja, da oposição de opiniões e teorias. A filosofia, pela própria natureza da dialética, ocupa-se exclusivamente com sistemas de possibilidades. A ciência, por outro lado, ocupa-se de actualidades, de fatos brutos; os problemas científicos são resolvidos pelo método da investigação e da experimentação. Assim sendo, podemos dizer que os fatos possuem três ordens: (1) a primeira ordem dos fatos brutos; (2) a segunda ordem dos fatos, que são as afirmações acerca da primeira ordem (ciência); (3) a terceira ordem dos fatos, que são as proposições e opiniões acerca da segunda ordem (filosofia). Os objetos dos universos parciais de discurso da ciência são actualidades, enquanto os objetos dos universos parciais de discurso da filosofia são outros universos parciais de discurso.

As verdades filosóficas, portanto, só podem existir entre as entidades do discurso, seja por implicação ou pressuposição. Assim, não existem verdades factuais, filosoficamente falando, pois essas pertencem ao âmbito da ciência. A filosofia não é como a teologia, que elege um universo parcial de discurso como sendo dogmaticamente verdadeiro. A filosofia é incompatível com a parcialidaade da teologia. Neste sentido, teologia e ciência são profundamente semelhantes, não por causa de seus objetos, mas porque elegem universos de discurso como verdadeiros: a ciência o faz mediante as actualidades, enquanto a teologia o faz mediante os dogmas e "artigos de fé". É por isso que a história da filosofia nada mais é do que tentativas de transformá-la em uma religião: ora os filósofos não foram verdadeiramente dialéticos, ora eles confundiram a filosofia com ciência ou teologia.

A filosofia deve permancer livre de dogmatismos, e pouquíssimos filósofos seguiram esta regra à risca. Adler acredita que Platão talvez seja o único autêntico filósofo que já existiu. A filosofia parece que progride hoje em dia porque há uma tradição européia de pensamento e um vocabulário relativamente bem estabelecido, mas isso é pura ilusão. A filosofia é fútil e frustrante, pois jamais chegará a nenhuma conclusão intelectual, a nenhum sistema teórico final. A postura científica é dogmática e pragmática, enquanto a postura filosófico-dialética é imparcial e imprática. O único aspecto "prático" da dialética é impor ao pensamento sua própria irrelevância no que tange as questões práticas.

Portanto, a filosofia é a atividade típica das pessoas que, além de desfrutarem de liberdade intelectual, o fazem não sem certo espírito cômico. Se a condição de infinita possibilidade confere um caráter trágico ao intelecto humano, as limitações que a actualidade impõe ao pensamento também são trágicas. A filosofia é a emancipação do intelecto e o cultivo desse espírito cômico. A filosofia é apenas uma atividade para que o praticante se torne sensível à vida e às diferenças e oposições que pervadem o mundo dos homens.

Adler vs. Adler

Como dissemos no início do artigo, Adler discordou das conclusões a que chegou na medida em que amadurecia os estudos que empreendia, e mesmo durante as discussões que mantinha em suas aulas sobre os Great Books. Adler percebeu que a filosofia é capaz, sim, de alcançar a verdade. Mas qual o erro fundamental que cometeu?

Em Dialectic, Adler situa a filosofia entre a ciência e a teologia. A ciência, ocupando-se dos fatos brutos, que são elementos extrínsecos, lida com aspectos denotativos. A teologia, procedendo de forma intuitiva ou mediante insights, também alega portar certeza extrínseca. E a filosofia? Será que ela é apenas uma atividade para tagarelas pretensiosos? Um passatempo de crianças crescidas?

Adler percebeu que a filosofia também possui seu aspecto extrínseco, o que faz dela um tipo de ciência. Ocorre que o objeto da filosofia não é como o objeto das ciências. As ciências recortam um campo particular da realidade e o estudam com um método adequado a aquele campo. É o caso da biologia, da física, da química, da astronomia. Mas o campo particular da realidade que é objeto da filosofia é a realidade considerada em seu aspecto geral, ou seja, é um campo ao qual todo ser humano está imerso e nele vive e convive. Há certas experiências que não são exclusivas de determinados cientistas, mas que são comuns a todos. Em suma, na filosofia, todos os homens são "cientistas".

Este é o erro fundamental de Dialectic. Embora a descrição empírica, lógica e metafísica da dialética estejam corretas, o erro está em identificá-la com a filosofia, ou seja, em reduzir a filosofia à dialética. A dialética é um instrumento da filosofia, mas a filosofia é mais do que dialética: ela freqüentemente apela aos fatos, interrompendo o processo dialético e invocando a imaginação intelectual para além do jogo de definições, postulados e teoremas.

Exemplos de ciência filosófica são a ética, a estética, a política, a epistemologia. São aspectos da realidade acessíveis a todos, são fatos aos quais todos têm acesso, mas sobre os quais nem cientistas nem teólogos se debruçam detidamente. Este é o habitat dos filósofos. Isso não quer dizer que teólogos não tenham nada a dizer sobre ética, estética, política etc. Adler ensina que os três elementos da alta cultura se distribuem de maneira hierárquica. A teologia vem primeiro, pois trata de questões últimas, superiores, máximas, para além do mundo natural. A filosofia vem em seguida, imitando de certa forma a teologia, mas apegando-se a questões últimas mas naturais. E, por fim, a ciência, que reduz-se aqui e ali a aspectos empíricos e mais limitados. Assim, é evidente que a teologia deve "informar" a filosofia, como se aquela fosse um universo de discurso mais amplo, dentro do qual universos filosóficos parciais devem se inserir e do qual devem partir. Similarmente, a teologia e a filosofia devem "informar" as ciências naquilo que lhes cabem cada universo de discurso parcial. É como se os teoremas teológicos formassem a doutrina filosófica, e os postulados filosóficos formassem a doutrina científica. Contrariamente, por inferência (ou "pressuposição", no linguajar adleriano), é como se descobríssemos os postulados filosóficos mediante a doutrina científica, ou os postulados teológicos mediante a doutrina filosófica.

Resta saber se a metafísica é um dos objetos da filosofia. Este é um assunto importantíssimo, sobre o qual pretendo versar em breve.

1 de outubro de 2010

Educação secular


Os homens de bom-senso admitem que a maior de nossas vantagens é a educação; não somente esta nossa forma mais nobre de educação, que despreza a glória e os ornamentos retóricos e apega-se à salvação e à beleza dos objetos que são alvo de nossa contemplação, mas também a cultura exterior, a qual muitos cristãos consideram abominável, maliciosa e perigosa e que, segundo eles, nos afasta de Deus. Pois não devemos rejeitar os céus, a terra, o ar e todas essas coisas só porque algumas pessoas se apoderaram impropriamente delas e honram as obras de Deus ao invés de honrar o próprio Deus; mas devemos colher delas as vantagens que estiverem ao nosso alcance para benefício de nossas vidas e para nossa fruição, ao mesmo tempo que devemos evitar seus perigos; não devemos usar a criação, como os tolos o fazem, em levantes contra o Criador, mas, a partir das obras da natureza, devemos apreender o Criador, e, como ensina o santo Apóstolo, levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo. Repito que, assim como nem fogo, nem alimento, nem ferro, nem quaisquer elementos sejam proveitosos ou danosos exceto pela vontade de quem os faz uso, assim como formulamos remédios úteis a partir de elementos que se encontram até mesmo em répteis, assim também a literatura secular fornece-nos princípios para a investigação e a especulação, ao mesmo tempo em que rejeitamos sua idolatria, terror e destruição. Ora, até mesmo essas coisas auxiliam em nossa religião, pois percebemos o contraste entre o pior e o melhor e reforçamos nossa doutrina a partir da fraqueza da doutrina deles. Assim sendo, não devemos desacreditar a educação só porque algumas pessoas gostam de fazer isso, mas devemos, isso sim, considerar estas pessoas como sendo rudes, grosseiras e incultas, pois desejam que todos os homens sejam como elas, para que então possam se diluir em meio ao público e sua falta de cultura não seja detectada. Mas vinde agora, e após este breve esboço de nosso assunto e estas considerações, contemplemos a vida de Basílio.

Fonte: São Gregório, o Teólogo (+391), Discurso XLIII sobre a vida de São Basílio, o Grande, §11

28 de setembro de 2010

Sonhos não são revelações


Imaginar que teus sonhos sejam revelações é uma coisa perigosa: essa postura leva ao orgulho espiritual. Pensa comigo: será possível que um coração e uma mente que estejam sob influência de paixões selvagens realmente possam ter revelações divinas? Será que tu não estás excessivamente confiante em tua própria dignidade? Pois quem se estimaria tanto a ponto de se achar digno de tal graça?

23 de setembro de 2010

Inimigos risonhos: a história do polvo


Phótios Kóntoglou

Hoje em dia, presenciamos o surgimento de muitas religiões que representam os céticos e os ateus. Uma delas é o turismo, fruto da curiosidade mórbida das pessoas que querem xeretar e descobrir, mas sem dar a mais mínima importância para aquilo que vêem ou ouvem. A maioria dos turistas é composta de gente entediada com suas próprias vidas e que querem passar seu tempo sem se importar com os monumentos ou com as lições de história que os guias lhes contam, os quais agem como se estivessem preparando um banquete para pessoas que sofrem de anorexia. Tudo o que o guia lhes diz entra por um ouvido e sai pelo outro.

Porém, quem tem coragem de rejeitar essa nova divindade que é a indústria do turismo, que traz consigo um grande dote? Pois hoje em dia as coisas que trazem dinheiro são santas. Como você se atreve a falar mal dessas coisas? Você insultou Maomé, você insultou Mamon.

Como se não bastasse o turismo entupir os museus com gente de todas as raças, de folders em mãos e câmeras pendurada nos ombros, e como se não bastasse toda e qualquer montanha isolada que tenha duas colunas quebradas ou pedaços de mármore esculpidos ser emporcalhada, e como se não bastasse que nenhum mistério das civilizações antigas reste oculto, que nenhuma tumba não tenha sido aberta para que turistas exaustos pudessem olhar, eles também entram nas igrejas e em capelas remotas, onde nosso povo reza, e ficam ali, com as mãos cruzadas para trás, sem fazer o sinal da Cruz, sem se perguntar o que essa gente infeliz está fazendo ali de pé ou onde estão.

O turismo tomou conta de tudo. Em sua presença real, todas as portas têm de estar abertas para recebê-lo, portas de castelos que jamais foram conquistados por guerreiro algum, portas de mosteiros que permaneceram trancadas por milhares de anos, celas, cavernas e eremitérios nos quais homens santos viveram em reclusão. Altares, cestos para o santo pão, taças de comunhão, relicários: tudo é despudoradamente trazido a público para que turistas possam vê-los.

Por fim, a maior fortaleza da Ortodoxia, o Monte Atos, a Santa Montanha, também se rendeu ao turismo. No jardim da Virgem Maria que é o Monte Atos, onde, por sua vontade, nenhuma presença feminina, seja humana ou animal, jamais pisou, agora é freqüentado por milhares de homens de todas as raças, alguns de cigarro na boca, outros com calças apertadas, outros semi-nus, tagarelando, rindo, pois estão indo para se divertir, para fugir de seus trabalhos tediosos, de seus negócios, da tecnologia, dos trens, dos aviões, dos navios, dos carros, teatros, saunas, hotéis e tudo o que lhes cerca quando retornarem a seus países. Mas, mesmo quando estão aqui, carregam consigo o cheiro fétido dessas coisas, incapazes que são de sentir qualquer coisa, incapazes de qualquer contrição, totalmente alienados dos antigos mistérios ocultos da Santa Montanha.

Ora, como é possível transmitir fragrância espiritual a quem não tem olfato espiritual? Como podem sentir o que vêem e ouvem se essas coisas são frutos supersubstanciais e revelações de misericórdia, de oração, de teoria divina? Não que essas pessoas sejam culpadas -- algumas são inocentes e humildes --, mas estão tão distantes das condições de entender que este não é um lugar para recreio, para caminhadas, para se divertirem, nem mesmo para aprenderem, mas um lugar que carrega sobre si esta inscrição: "Este é um lugar de respeito! Não sou nada menos do que a casa de Deus e os portões do céu". Essa gente infeliz não sabe o que vê e ouve, pois estas não são coisas que se possam compreender mentalmente. Como poderiam supor que nem mesmo seus guias são capazes de perceber o verdadeiro significado, e que, apesar do conhecimento que possuem sobre as coisas santas, trata-se de um conhecimento superficial, mecânico, insípido, pois "a relação com Deus só se dá mediante a memória espiritual, as bênçãos da oração e o sacrifício".

Este não é o lugar para se encontrar respostas à mórbida curiosidade humana, mas um lugar onde as pessoas esquecem o mundo, onde se esforçam espiritualmente, com o sofrimento do corpo, entregando-se completamente nas mãos de Deus, com jejuns, com as mãos erguidas ao céu, caladas por anos a fio, com seus corações fechados a todo e qualquer contato exterior. É apenas por acaso que vocês, turistas, chegam aqui. O objetivo de vocês é agradar a seus sentidos e corpos, mas aqui, onde seus guias lhes trouxeram, é um local de alegria enlutada, onde ninguém que tenha morado ou ainda more aqui vai lhes alegrar, pois aqui eles vivem com dor no coração, aquecidos pelo calor do zelo pela salvação de suas almas. Como se atrevem a vir aqui, como se estivessem vindo a uma festa de casamento, quando este é um lugar de lembrança constante da morte, um chamado triste a Deus?

Os inimigos de nossa religião e de nossa nação são mais perigosos do que os velhos inimigos, pois eles agem de maneira dissimulada, aparentemente pacífica, parecendo inocentes e incapazes de fazer qualquer mal. Refiro-me precisamente às chamadas "benesses da civilização moderna", às facilidades que tornam a vida mais fácil e que são, na verdade, armadilhas venenosas, refiro-me aos espetáculos, às diversas formas de entretenimento, ao turismo etc. Estes inimigos parecem inocentes, incapazes de nos fazer mal, pois não se apresentam como selvagens e não revelam suas intenções sub-reptícias, pois mal são notados. Dos inimigos conseguimos nos proteger, mas não desses novos inimigos, como procurarei ilustrar na seguinte história:

Era uma vez uma mamãe-polvo, que descansava tranqüilamente no fundo do mar com seu filho. Um dia, o polvinho foi fisgado e começou a ser levado para cima. Ele começou a gritar por sua mãe: "Eles me pegaram, mamãe!" Ela lhe garantiu: "Não se preocupe, filho!" O polvinho começou a gritar de novo: "Eles estão me tirando da água, mamãe!" "Não se preocupe, meu filho!" -- "Eles estão me fritando, mamãe!" -- "Não se preocupe, meu filho!" -- "Eles estão me cortando com uma faca!" -- "Não se preocupe!" -- "Eles estão me colocando em uma panela quente!" -- "Não se preocupe!" -- "Eles estão me comendo, eles estão me mastigando!" -- "Não se preocupe, meu filho!" -- "Eles estão me engolindo!" -- "Não se preocupe!" -- "Eles estão bebendo vinho, mamãe!" "Oh! Eu te perdi, meu filho!"

A moral da história é que todas as aflições sofridas pelo polvo não chegaram a matá-lo: fisgar, fritar, cozinhar, mastigar, nada disso o matou. Mas quando a mãe ouviu que as pessoas que o capturaram e comeram estavam bebendo vinho para digeri-lo, clamou: "Eu te perdi, meu filho!" O vinho, que à primeira vista é a coisa mais suave da história em comparação com a faca e a mastigação, é na realidade o maior inimigo do polvo.

É exatamente assim que as coisas se passam com nós, gregos. Muitos turbilhões já passaram por nossa terra, toda sorte de gente selvagem, assassinos impiedosos, espadas, lanças, todo tipo de arma. Persas, germânicos, francos, árabes, turcos e outros. Eles mataram, cortaram em pedaços, enforcaram, cozinharam em espetos, mas não morremos, pois a luta nos deixou mais fortes, sólidos como o aço, e combatemos o fogo com o fogo. Mas hoje em dia, os inimigos mudaram de aparência, tornaram-se sub-reptícios, risonhos, são falsos amigos, pois parecem inofensivos e até mesmo benfeitores, cheios de boas intenções. São essas as benesses que acompanham os dispositivos tecnológicos, as máquinas de lavar, os aviões, cinema, rádio, nudez e tudo o mais que nos paralisa, que tira de nós a religião, a tradição, a família, tudo o que é realmente importante.

Uma dessas benesses sub-reptícias é o turismo, o vinho inocente que mata o polvo, que não é nem faca, nem dente.

Fonte: NOCTOC

Foto: Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

14 de setembro de 2010

Os efeitos medicinais do sinal da Cruz e da Oração do Senhor


Cientistas provaram experimentalmente que o sinal da Cruz e a oração possuem propriedades miraculosas.

"Constatamos que o velho costume de fazer o sinal da Cruz sobre os alimentos e bebidas antes das refeições possui um profundo significado místico. Mas, além disso, há uma função prática: o alimento purifica-se instantaneamente. Trata-se de um grande milagre, que acontece literalmente todos os dias", disse a física Angelina Malakhovskaya ao jornal Zhizn nesta sexta-feira.

Malakhovskaya estudo o poder do sinal da Cruz há quase dez anos, com a bênção da Igreja. Ela conduziu inúmeras pesquisas, fazendo questão de repeti-las a fim de certificar-se de seus resultados antes de torná-los públicos.

Uma das descobertas mais incríveis foi que a água adquire propriedades bactericidas depois de ser abençoada por uma oração ortodoxa e por um sinal da Cruz. Segundo o jornal, o estudo também revelou uma propriedade nova e desconhecida do Verbo de Deus, que é transformar a estrutura da água ao aumentar consideravelmente a densidade óptica na região espectral ultravioleta.

Os cientistas constataram o impacto que a Oração do Senhor [Pai-Nosso] e o sinal da Cruz ortodoxo têm sobre as bactérias patogênicas. Amostras de água foram coletadas de várias fontes -- poços, rios, lagos -- e levadas ao laboratório. Todos as amostras continham staphylococcus aureus, uma bactéria intestinal. Observou-se que se a Oração do Senhor fosse rezada e o sinal da Cruz fosse feito sobre as amostras de água, o número de bactérias diminuía sete, dez, cem, e às vezes mais de mil vezes.

As experiências foram feitas de maneira a excluir qualquer tipo de influência por sugestão mental. A oração era rezada tanto por fiéis quanto por céticos, mas o número de bactérias patogênicas nos diversos ambientes ainda assim diminuia se comparado aos padrões de referência.

Os cientistas também constataram os impactos benéficos da oração e do sinal da Cruz sobre as pessoas. A pressão arterial de todos os participantes estabilizou-se e os índices dos exames de sangue melhoraram. O mais surpreendente é que os índices sempre oscilavam para os padrões de saúde necessários: a pressão arterial das pessoas hipotensas aumentava e a das pessoas hipertensas diminuía.

Observou-se também que se o sinal da Cruz fosse feito de maneira displicente, com os três dedos posicionados de maneira incorreta ou tocados fora dos locais corretos do corpo -- meio da testa, centro do plexo solar [região abdominal] e os rebaixos dos ombros direito e esquerdo -- os resultados positivos diminuíam ou até mesmo cessavam.

Fonte: Interfax

13 de setembro de 2010

Todas as criaturas vivas aspiram a Deus


Todo ser vivo aspira ao amor: homem, animais e plantas. Todos as pessoas aspiram a Deus e buscam a Deus, a despeito de serem religiosas ou não. Algumas se dizem ateístas, mas elas não sabem que seus corações buscam a Deus. Pois quando uma pessoa busca a justiça, o amor e a verdade, ela está, no fundo, buscando a Deus. Todos as pessoas aspiram ao amor imutável e à justiça que permanece sempre a mesma... A única diferença é que algumas pessoas se opõem a Deus, enquanto outras não; algumas aspiram a Deus conscientemente, enquanto outras não sabem que aquilo a que aspiram é, na verdade, Deus.

8 de setembro de 2010

A raiva


A vitória sobre a raiva é uma das maiores vitórias de um soldado de Cristo. Geralmente ficamos com raiva daqueles que desejamos que renunciem ao pecado e dos que nos caluniam. Entretanto, agindo desta maneira, esquecemo-nos que a raiva é um pecado mortal e, desejando a salvação dos outros, perdemos a nossa própria salvação, segundo São Macário. A raiva contra os inimigos é freqüentemente ligada a outro impulso maligno: o desejo de vingança. Santo Eupisíquio subjugou a paixão da raiva em si mesmo, tanto é que ele entregou uma parte de sua enorme riqueza aos pobres e outra aos seus caluniadores, por quem ele estava sendo torturado e morreria. Ele tinha seus caluniadores por benfeitores. São João Crisóstomo disse: "Cortemos fora as asas da raiva, e o mal não voará tão alto. A raiva é uma doença demoníaca que pode destruir nossas almas... A raiva é um fogo terrível que engole tudo... Se um homem irado pudesse ver a si mesmo no momento em que está com raiva, jamais necessitaria de outro conselho nem se irritaria, pois não há nada mais desagradável que uma face raivosa." Abba Amon confessou sobre si mesmo: "Passei catorze anos em Scetis, orando a Deus dia e noite, para que me concedesse vitória sobre a raiva."

Fonte: Prólogo de Ochrid, São Nicolau Velimirovich

Leitura espiritual: mudança vs. prazer


Hoje em dia, as pessoas lêem tanto que acabam se transformando em gravadores, preenchendo suas fitas cassete com coisas supérfluas. Porém, segundo Abba Isaque, se a sabedoria não se fundar sobre a retidão prática, torna-se um depósito de desgraça. Observem que as pessoas que se interessam por esportes lêem jornais e revistas esportivas enquanto estão sentadas. Elas podem até se parecer com bois gordos, mas mesmo assim se deslumbram com os atletas...elas não aproveitam nada...o mesmo ocorre com as pessoas que lêem livros espirituais. Elas passam a noite inteira se concnetrando em livros espirituais, e ficam contentes com isso. Elas pegam um livro espiritual, sentam confortavelmente e começam a ler. "Oh, sim, eu me beneficiei com a leitura", dizem elas. Na verdade, elas deveriam dizer: "Eu gostei da leitura. Foi uma leitura muito prazerosa". Mas isto não é tirar proveito da leitura. Nós realmente aproveitamos a leitura quando entendemos o que lemos, quando nos auto-censuramos e auto-disciplinamos ao aplicar o que lemos: "O que isto significa? Onde me encontro em relação a esta verdade espiritual? O que devo fazer agora?"

"Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus"


A incredulidade é, evidentemente, o fruto maligno de um coração maligno; pois as pessoas sinceras e puras de coração descobrem Deus em toda parte, discernem Deus em tudo e acreditam na existência de Deus em todos os momentos, sem hesitar.

Quando o homem puro de coração contempla o mundo natural, isto é, o céu, a terra, o mar e todas as coisas que neles há, e observa os sistemas que os constituem, a multidão infinita de estrelas no céu, os inúmeros pássaros e quadrúpedes e todo tipo de animal terrestre, a variedade de plantas, a abundância dos peixes no mar, ele imediatamente se espanta e exclama, como o Profeta David: "Quão grandes são as tuas obras, Senhor! Todas as coisas fizeste com sabedoria".

O homem, impelido por seu coração puro, também descobre Deus no mundo da graça da Igreja, da qual o homem maligno procura se distanciar. O homem puro de coração acredita na Igreja, admira seu sistema espiritual, descobre Deus nos mistérios, nos píncaros da teologia, na luz das revelações divinas, nas verdades das doutrinas, nos mandamentos da Lei, nas realizações dos santos, em toda boa obra, em todo dom perfeito, em toda a criação.

É por isso que o Senhor disse, nas Beatitudes: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus".

3 de setembro de 2010

Ícone da Mãe de Deus de Vladimir


O Ícone da Mãe de Deus de Vladimir foi escrito pelo Apóstolo Lucas numa prancha sobre a qual o Salvador alimentou-se, juntamente com Sua Puríssima Mãe e com o Justo José. A Mãe de Deus, ao contemplar a imagem, exclamou: "De agora em diante, todas as gerações me chamarão de abençoada. Que a graça do meu Filho e a minha esteja com este ícone". Em 1131, o ícone foi enviado de Constantinopla para Rus´, aos cuidados do Príncipe Mstislav (+1132, comemorado em 15 de abril), tendo sido guardado no Mosteiro Devichi, em Vyshgorod, a antiga cidade da Princesa Santa Olga, a Igual-aos-Apóstolos.

O filho de Yuri Dolgoruky, Santo André Bogoliubsky, levou o ícone à cidade de Vladimir, em 1155, guardando-o na famosa Catedral da Dormição, que fora contruída por ele mesmo. Foi nesta época que o ícone ganhou o epíteto de "Ícone de Vladimir". Em 1395, o ícone foi levado pela primeira vez a Moscou. Dessa maneira, a bênção da Mãe de Deus uniu em laços espirituais Bizâncio e Rus´, via Kiev, Vladimir e Moscou.

A comemoração do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir acontece várias vezes ao longo do ano (21 de maio, 23 de junho e 26 de agosto). A celebração mais solene é a de 26 de agosto, que é o dia marcado para comemorar a transferência do ícone da cidade de Vladimir para Moscou. Em 1395, o temível conquistador Khan Tamerlane alcançou as fronteiras de Ryaza, tomou a cidade de Elets e, avançando em direção a Moscou, chegou nas proximidades do Rio Don. O Grão-Príncipe Vasilii Dimitrievich acompanhou seu exército a Koloma, pousando às margend do Rio Oka. Ele rezou aos santos hierarcas de Moscou e ao Monge Sérgio pela libertação da terra-natal, e escreveu ao Metropolita de Moscou, São Cipriano (comemorado em 16 de semtembro) para que o Jejum da Dormição, que estava próximo, fosse dedicado a orações piedosas por misericórdia e arrependimento. Sacerdotes foram enviados a Vladimir, onde se encontrava o famoso Ícone de Vladimir. Após a Divina Liturgia e o molieben da festa da Dormição, os sacerdotes levaram o ícone em procissão até Moscou. Ao longo do percurso, os dois lados da estrada estavam abarrotados de pessoas que, ajoelhadas, rezavam: "Ó Mãe de Deus, salve a Rússia!" Nesta mesma hora, quando a população de Moscou saiu ao encontro do Ícone de Vladimir no Campo Kuchkov, Tamerlane estava dormindo em sua tenda. De repente, ele teve um sonho: no topo de uma grande montanha se encontravam santos hierarcas que portavam bastões dourados, e sobre eles, em uma luz incrivelmente radiante, brilhava uma Mulher Majestosa. Ela lhe ordenou que deixasse os domínios da Rússia. Ao acordar, muito assustado, Tamerlane perguntou qual era o significado daquela aparição. Os especialistas lhe disseram que a Senhora Radiante era a Mãe de Deus, a grande Protetora dos cristãos. Tamerlane ordenou que suas tropas dessem meia-volta. Em memória a este libertação miraculosa, que ocorreu no Campo Kuchkov, onde se deu o Encontro da Ícone da Mãe de Deus de Vladimir, foi construído o Mosteiro do Encontro (Sretensky). O dia 26 de agosto foi escolhido como o dia em que os russos celebram o encontro do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir.

Muitos eventos importantes ocorreram em frente do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir: a eleição e elevação de São Jonas, o defensor da autocefalia da Igreja Ortodoxa Russa (1448), de São Jó, primeiro patriarca de Moscou e Toda-a-Rússia (1589) e do Patriarca Ticônio (1917). Além disso, o entronamento de Sua Santidade Pímen, Patriarca de Moscou e Toda-a-Rússia, ocorreu exatamente em um dia em que se celebra o Ícone da Mãe de Deus de Vladimir (21 de maio/3 de junho de 1971).

Os dias 21 de maio, 23 de junho e 26 de agosto tornaram-se, portanto, dias muito especiais para a Igreja Ortodoxa, em especial para a Igreja Ortodoxa Russa.