14 de outubro de 2010

Dialética


Poucos estudantes do filósofo americano Mortimer J. Adler leram seu primeiro livro, publicado quando o autor contava com apenas 25 anos de idade. Em Dialectic, Adler pretende estabelecer as bases daquilo que entende ser a dialética e, mais ousadamente, daquilo que entende ser a atividade essencial da filosofia. É este livro, como muitos anos mais tarde confessou, que contém os princípios e as motivações que levaram Adler a fundar o Institute for Philosophical Research, a criar o Syntopicon e a reunir os Great Books em uma abrangente coleção. No entanto, também em sua autobiografia, Adler menciona rapidamente por que discorda da conclusão fundamental de Dialectic. Ao final deste artigo, vou procurar explicar quais seriam os motivos que fizeram o Adler Sr. discordar do Adler Jr., segundo meu próprio entendimento do pensamento deste autor.

Introdução

Alguns conceitos populares a respeito do que vem a ser "pensamento" precisam ser revisados antes de adentrarmos no assunto dialética.

A literatura popular acerca da dialética apresenta, em linhas gerais, quatro postulados fundamentais. Vamos enunciá-los para que, em seqüência, façamos alguns comentários corretivos.

(1) "O pensamento é um processo que se resume a possuir e lidar com idéias".

Segundo este ponto de vista, as idéias seriam imagens mentais, proposições, julgamentos ou mesmo pensamentos sem imagens. No entanto, duas correntes científicas recentes sofisticaram estas noções: o behaviorismo e a lingüística. Em linhas gerais, o que estas correntes científicas nos ensinam é que a linguagem desempenha um papel fundamental no processo de pensamento. Portanto, a tese deve ser reescrita da seguinte forma: o pensamento é um processo que se resume a possuir e lidar com idéias mediante a linguagem. Infelizmente, a partir do século XVI, a teoria do pensamento começou a desprezar a relevância da linguagem, da gramática e da retórica.

(2) "O pensamento é um processo empreendido individualmente".

Não é verdade, pois o pensamento também pode ser empreendido pelo processo interativo de duas mentes. Este processo interativo não segue necessariamente a estrutura canônica formal do pensamento lógico indutivo e dedutivo.  Platão foi quem originalmente cunhou o termo "dialética", que é precisamente o termo que designa esse pensamento discursivo e conversacional. Ademais, cabe observar que a criança, ao longo de seu processo de desenvolvimento mental e linguístico, aprende, em primeiro lugar, a usar a linguagem para comunicar seus desejos e necessidades ao ambiente social que a envolve. Somente mais tarde é que esta criança começará a utilizar seu vocabulário para propósitos a-sociais e inteligentes. Isso significa dizer que, embora o pensamento a-social seja mais sofisticado e, neste sentido, superior, a comunicação verbal é um tipo próprio de pensamento, a qual a dialética, mais tarde, procurará torná-la mais elaborada e precisa. Vê-se, assim, que o pensamento lógico não é uma sofisticação da comunicação verbal, mas um tipo diferente de pensamento. A dialética, conforme Hegel deixou claro, não exige uma dualidade de mentes, mas apenas uma oposição, um conflito, que pode perfeitamente existir dentro de uma só mente.

(3) "O pensamento é uma atividade racional, indepente de propósitos e desejos irracionais".

Na verdade, as recentes pesquisas em psicologia dizem precisamente o contrário: o pensamento é uma atividade muito mais ligada à racionalização do que ao raciocínio. Racionalizar significa enxertar razões às conclusões, crenças e opiniões já previamente sustentadas pela pessoa. É a isto que chamamos de preconceito, complexo emocional, desejo inconsciente. Há três fontes de irracionalidade que se escondem por trás das racionalizações: (a) o desejo de convencer o oponente, cuja polêmica sempre envolve partidarismos, (b) fontes supra-cognitivas, como fé, intuição ou outra forma de insight cujas proposições não possam ser submetidas ao escrutínio da razão, e (c) falta de insight, ou seja, bloqueios emocionais que compelem a pessoa a rejeitar determinada proposição. No entanto, a psicologia não é o único campo de conhecimento que rejeita a tese de que o pensamento é uma atividade puramente racional. Platão ensinava que o argumento, seja ele qual for, sempre se move dentro dos limites estabelecidos por hipóteses e definições que, por sua vez, não podem ser submetidas ao escrutínio do próprio argumento. Isso significa dizer que toda demonstração lógica, seja um argumento ou um sistema, depende de uma série de premissas -- postulados, definições e indefiníveis -- que não podem, por princípio, ser submetidas ao processo de demonstração. Tais premissas são os equivalentes, no campo da psicologia, aos preconceitos e wishful thinkings, ou seja, são elementos escolhidos, selecionados, e não elementos intelectualmente obrigatórios e racionalmente inevitáveis; são "proposições intuitivas", no sentido de que são proposições escolhidas como sendo verdadeiras, mas não necessariamente verdadeiras.

(4) "O objetivo do pensamento é o conhecimento, ou seja, o pensamento busca sempre a verdade".

Há, genericamente falando, três grandes tipos de pensamento: o pensamento empírico, o pensamento matemático-geométrico e o pensamento dialético. A diferença entre o pensamento empírico e o pensamento matemático-geométrico é que o pensamento empírico submete seus processos racionais ao julgamento de critérios extrínsecos, isto é, de fatos e experiências, enquanto o pensamento matemático-geométrico submete seus processos racionais ao julgamento de critérios intrínsecos, isto é, de consistência, demonstração etc. No caso do pensamento empírico, a veracidade é controlada por entidades que estão para além do processo, enquanto no pensamento matemático-geométrico a veracidade é controlada por entidades que se encontram dentro dos limites do próprio pensamento. O pensamento matemático-geométrico bem poderia ser chamado de "pensamento se-então", já que seu processo obedece a um padrão do tipo "se isso, então aquilo", ou seja, dadas estes postulados, então aquelas proposições são verdadeiras: a veracidade dos postulados é meramente hipotética, enquanto a veracidade das proposições depende das regras de demonstração e inferência e, claro, supondo-se que essas regras sejam, em si, verdadeiras, o que, a rigor, é impossível de se demonstrar. Ora, se o pensamento empírico não é capaz, por si só, de alcançar a verdade, e o pensamento matemático-geométrico, mesmo sendo "consistente", também não poderia fazê-lo, menos ainda o pensamento dialético o será. O pensamento dialético não busca a verdade, mas a concórdia. Os lados podem estar de acordo, após uma disputa argumentativa, mas isso não significa que possamos dizer que alcançaram a verdade -- bem poderá ter ocorrido o contrário, ou seja, ambos poderão estar terrivelmente engandos em meio à sua concórdia. Os fatos interrompem a dialética, pois introduzem um elemento estranho a ela. Por isso, de certa maneira, podemos dizer que o pensamento dialético é mais semelhante ao pensamento matemático-geométrico, pois sua veracidade também está mais ligada a elemetos de consistência e demonstração.

Conceitos importantes

Vamos, então, procurar expandir e elaborar melhor as controvérsias que mencionamos. O pensamento empírico e o pensamento matemático-geométrico já foram suficientemente elucidados ao longo dos últimos séculos. É o pensamento dialético que precisa ser melhor elaborado. A Antiguidade e a Idade Média bem que apreciaram a importância da dialética, mas é importante agora, nos tempos modernos, retomá-la à luz dos comentários mais recentes da ciência e da experiência.

Mas, antes de elaborá-las, vamos enunciar, de maneira mais ou menos arbitrária, quais são as principais características da dialética:

(1) A dialética surge a partir da confusão e da contradição de significados em um discurso.

(2) A dialética é uma forma de pensamento que não pode ser completamente caracterizada pelas regras da indução e da dedução. Isso significa que a dialética depende de uma situação intelectual na qual os processos de indução e dedução são irrelevantes, que, em verdade, são técnicas de investigação e demonstração mais apropriadas para as ciências naturais e para a geometria, respectivamente. A situação intelectual de interesse da dialética é a resolução de oposição de opiniões.

(3) As controvérsias dialéticas nunca são puramente racionais ou intelectuais. A persuasão emocional, as limitações e excentricidades de entendimento e interpretação e os propósitos que controlam a vida prática e teórica são também responsáveis pela geração das disputas e dificuldades que gravitam em torno das opiniões e convicções das pessoas.

(4) Nenhum argumento é capaz de definir todos os seus termos, ou seja, os argumentos sempre fazem suposições implícitas e/ou explícitas. É por isso que a dialética preocupa-se com a exposição mais exata possível dos postulados e com as definições dos termos do discurso.

(5) O partidarismo é algo inevitável mesmo quando estão disponíveis opções genuinamente intelectuais. No entanto, se o praticante da dialética perceber que a disputa surgiu porque as definições e suposições foram arbitrariamente escolhidas, deve renunciar a seu partidarismo e adotar uma postura imparcial.

(6) A dialética é uma atividade ligada ao discurso, à controvérsia, ao argumento. A dialética ocupa-se somente dos significados das entidades de discurso e, portanto, não pode estabelecer verdades que dependam da relação entre o discurso e itens que não estejam no discurso. Portanto, fatos jamais devem ser introduzidos no processo. Disputar um "fato" significa que houve um mal-entendido quanto à realidade desse fato ou significa que houve uma diferença de opinião quanto ao significado deste fato no argumento em questão -- neste último caso, o pensamento discursivo se aplica, pois aí a realidade do fato é assumida como verdadeira.

(7) A dialética não busca a verdade, nem é capaz de alcançá-la. O partidarismo e a imparcialidade exigidos no processo dialético impedem que o praticante da dialética assuma a postura de que tenha alcançado uma "verdade".

Após observarmos os discursos, as controvérsia e as "conversas" que ocorrem entre as pessoas, podemos enunciar as seguintes observações:

(1) A dialética é, em parte, um processo de definição; por meio da definição, a dialética procura esclarecer a controvérsia.

(2) A dialética é, em parte, um processo de detecção de oposição entre suposições e definições; a dialética procura resolver esta oposição formulando uma terceira série de proposições que inclua as proposições conflitantes.

(3) A resolução do conflito só é possível dentro de um mesmo universo de discurso; a resolução ocorre quando dois universos de discurso díspares são unificados, ou seja, quando é possível a tradução entre eles.

(4) Os conflitos dialéticos resumem-se a oposições discursivas, sejam proposições dentro de um mesmo universo de discurso, sejam entre universos de discurso distintos. Em outras palavras, o fato da oposição engendra a dialética.

(5) A controvérsia termina em um acordo entre as partes. No entanto, isso não significa que o acordo seja uma resolução dialética, embora devesse sê-lo.

(6) Os fatos são elementos não-discursivos e, portanto, não exercem função determinativa em um discurso dialético. No entanto, não somente fatos, mas emoções, desejos, propósitos, circunstâncias econômicas, orientações religiosas, excentricidades pessoais etc. freqüentemente são fatores causais de controvérsias e disputas, quando não determinam as escolhas feitas pelo indivíduo no decurso do desenvolvimento argumentativo. Tais fatores impedem que dois indivíduos operem dentro de um mesmo universo de discurso. Em suma, na dialética, os fatos possuem status causal, mas não possuem status lógico.

(7) No decurso de qualquer desenvolvimento argumentativo, a dialética depara-se com dilemas ou alternativas. Em última instância, tais alternativas são determinadas pelas proposições que estabelecem a contradição original. A escolha de uma das alternativas implica necessariamente na determinação das escolhas subseqüentes. Por isso, a dialética também pode ser descrita como o processo que lida com dilemas ou alternativas co-implicadas.

A dialética na prática

Neste ponto, talvez seja interessante fazermos algumas digressões empíricas acerca da dialética.

Comecemos pela linguagem. A linguagem é o meio através do qual os homens discursam e, ao mesmo tempo, é o meio que limita o discurso dos homens. Isso significa que a linguagem apresenta condições limitantes para a realização dos valores lógicos do discurso.

O primeiro fator lingüístico que manifesta tal limitação encontra-se na diferença entre os significados denotativo e conotativo das palavras. O significado denotativo refere-se aos objetos, enquanto o significado conotativo é determinado pela relação com as outras entidades de mesmo tipo. As propriedades conotativas são as responsáveis pelas inúmeras e elaboradas ramificações das definições e distinções da linguagem. Se essa riqueza é uma benesse, não deixa de ser também um problema. As dificuldades de definição que surgem dessa riqueza é precisamente o escopo da dialética. As palavras não são como símbolos matemáticos, cujos significados são precisos e padronizados. As palavras do vocabulário discursivo são criaturas orgânicas, cuja longa história de variações semânticas é evidência de sua capacidade para a ambiguidade verbal. O dicionário não é uma sistematização de definições, mas apenas uma coleção de definições; a definição de qualquer termo implica necessariamente em uma regressão infinita para outros termos, o que torna a quantidade de definições virtualmente infinita.

A única maneira de interrompermos essa regressão é por meio de uma denotação, que tem a capacidade de satisfazer o desejo de explicar o significado de um termo. Afinal, os fatos nunca contradizem a si próprios, mas as afirmações acerca deles é que se contradizem. Fatos são criaturas mudas, cujo poder reside em sua posição e movimento. As opiniões também são, a rigor, fatos: elas não se desafiam mutuamente, nem mesmo tornam-se necessariamente significantes. Elas só se contradizem quando perguntamos: "O que significa dizer que...?" Esta é a pergunta-chave da dialética. A competição entre as opiniões é, na verdade, um processo de apropriação: a opinião deixa de ser amorfa para que, motivada pela pergunta, busque apropriar-se de fatos que lhe dêem interpretação. No entanto, quase nunca é possível apontar para um objeto quando somos questionados acerca do significado de alguma palavra ou opinião. Assim, cabe-nos aumentar a força denotativa de uma opinião refinando a conotabilidade dos termos envolvidos. A definição é um processo cumulativo, plástico, que requer movimento dentro do universo de discurso no qual está inserida.

O segundo fator lingüístico é a dupla referência verbal, conotativa e denotativa. Ocorre que essas duas dimensões apresentam um certo grau de independência entre si. Assim, além das usuais contradições conotativas, uma mesma palavra pode adquirir uma conotação em desacordo com a denotação original (por exemplo, quando chamamos o rabo de uma mula de "perna", estamos procedendo exatamente desta forma, pois, a rigor, nada poderia nos impedir de fazer isso). Psicologicamente, isso se explica pela relação entre razão e sentido. O mundo exterior, o qual percebemos por meio dos sentidos, depende do tamanho do vocabulário e do grau de refinamento da linguagem da pessoa; por outro lado, a linguagem cresce na medida em que os objetos são perceptualmente descobertos e suas partes são imaginativamente recombinadas. Ambas as reações -- sensoriais e verbais -- ocorrem simultaneamente e influenciam-se mutuamente.

O terceiro fator lingüístico é a qualidade metafórica. Os poetas dizem que a Lua é a rainha da noite, enquanto os cientistas dizem que ela é o satélite natural da Terra. Aprendemos que os poetas adotam uma linguagem metafórica, enquanto os cientistas adotariam uma linguagem literal. Mas não é bem assim. A linguagem científica é tão metafórica quanto a poética, pois a linguagem é sempre metafórica, a despeito se seus valores imaginativos sejam abstratos ou concretos. "Todas as nossas percepções e pensamentos são símbolos acessórios aos objetos, e jamais cópias daquilo que materialmente existe nas profundezas da natureza", dizia Santayana.  Vaihinger, por sua vez, dizia que Kant não era o maior dos metafísicos, mas o maior dos "metafóricos". Todo pensamento é uma comparação. É por isso que as afirmações, isoladamente, não podem ser julgadas. É necessário dar-lhes contextos que, mesmo sendo eles também metafóricos, auxiliarão no processo de tornar os significados das afirmações mais claros. A impressão de literalidade da ciência advém do grau de precisão e uniformidade de seus termos, do fato de seus termos formarem um sistema metafórico mais bem organizado.

Esta qualidade metafórica confere à linguagem uma conseqüência interessante. A oposição ou conflito entre opiniões só poderá ser inteligível se elas forem definidas de maneira que pertençam ao mesmo modo metafórico, ou seja, às mesmas convenções lingüísticas. [Por exemplo, na Divina Comédia, Dante alerta quanto aos quatro modos metafóricos que podem ser aplicados na leitura: literal, alegórico, moral e anagógico.] É somente desta forma que suas contradições podem ser entendidas e tratadas.

Portanto, esses três fatores lingüísticos explicam as ambiguidades no discurso verbal, e não raro são tais ambiguidades que engendram os conflitos e contradições que a dialética procurará solucionar, seja esclarecendo o uso das palvras, seja resolvendo as dificuldades lógicas do discurso.

Mas a linguagem não é o único aspecto empírico sobre o qual devemos nos debruçar. Há também aspectos psicológicos a serem considerados para o exercício da dialética. Há três aspectos psicológicos:

(a) Ócio. No contexto da dialética, "ócio" não significa exoneração econômica, mas exoneração de toda e qualquer obrigação prática, uma postura deliberada de impraticabilidade. Isso não significa dizer que a atividade intelectual não tenha conseqüências práticas, mas significa que a atividade intelectual deve ser exercida independentemente de quaisquer questões práticas que porventura possam existir. Lembre-se de que a conversação, para ser dialética, deve referir-se ao universo de discurso e, portanto, deve ser totalmente teórica. Em outras palavras, a dialética situa-se fora do âmbito dos fatos e expressa-se existencialmente no nível conotativo da linguagem. É verdade que uma discussão pode ser encerrada mediante a alusão a fatos, mas isso, dialeticamente falando, não tem a menor importância. O pensamento dialético é inconcluso, exigindo uma postura totalmente teórica, ou seja, o dialético deve estar imbuído do espírito do ócio o mais que possível. A dialética não possui um objetivo intelectual, no sentido de que deva resolver um problema ou completar um sistema; aliás, poderíamos mesmo dizer que a dialética ocupa-se precisamente em demonstrar e entender que os problemas não podem ser resolvidos e nenhum sistema pode ser absolutamente completado, em termos puramente intelectuais. As pessoas comuns precipitam-se em uma miríade de fatos e argumentos enquanto conversam, às vezes até mesmo discutindo fatos ou defendendo determinadas conclusões como sendo absolutamente verdadeiras. Tratam-se de grande erros de conversação.

(b) Inteligência. Pensar é uma habilidade que varia de pessoa para pessoa. No entanto, não se trata apenas de diferenças de hábito, mas de dom natural e de circunstâncias vigentes. Não há dúvida de que é necessário um mínimo de capacidade intelectual para levar a cabo uma atividade como a dialética. A arte da conversação filosófica não é para qualquer um. Porém, mesmo entre as pessoas intelctualmente dotadas, os obstáculos conversacionais podem ser explicados pela discrepâncias entre as inteligências envolvidas. William James ensinava que "antes de mais nada, é imprescindível que o crítico apreenda imaginativamente o centro de visão do autor a ser criticado". A incapacidade para empreender tais insights é uma das principais causas das confusões e conflitos entre as pessoas. A imaginação intelectual é o elemento que torna possível a tradução entre os universos de discurso. Dialética é encontrar o universo de discurso comum a ambos os lados; o acordo entre as partes reside nisso, e não em uma mera concórdia mútua que encerre a discussão.

(c) Temperamento. As fraquezas emocionais também explicam as aberrações de entendimento que as pessoas freqüentemente apresentam. O problema com o louco que pensa ser Napoleão não está no personagem emulado, que em geral apresenta traços incrivelmente bem sistematizados e organizados, mas nos limites impostos por duas ou três suposições básicas, de natureza emocional. É partir delas que o sujeito desencadeia sua ilusão. Embora o exemplo possa ser exagerado, o fato é que uma grande quantidade de argumentos são defendidos pelas pessoas comuns exatamente desta forma. A diferença entre o pseudo-Napoleão e as pessoas comuns é de grau, e não de tipo. Ambos são iludidos, dialeticamente e pragmaticamente falando. A falta de insight, ou seja, a incapacidade para a autocrítica, é um fenômeno comum dentro e fora dos hospícios. Ambos são incapazes de contemplar as suposições e premissas que compõem seu dogmatismo. O objetivo da dialética é disciplinar essa inclinação natural para o dogmatismo. A discussão, a disputa consersacional, assemelha-se muito mais à situação de conflito entre dois neuróticos do que a oposição entre sistemas geométricos distintos. A dialética é um tipo de psicanálise, pois procura substituir os fatores que engendram o dogmatismo por posturas dialéticas. No que tange seu exercício, eis algumas regras fundamentais de "etiqueta dialética":

    (i) Exibir a emoção. É humanamente impossível discutir e, ao mesmo tempo, manter-se neutro. Se o amor é um componente inseparável da lógica, é muito melhor confessá-lo do que ocultá-lo. A idéia é que os argumentadores exponham qualquer suspeita de motivação emocional e viés temperamental quando entrarem em discussão. O resultado é que o argumento será purificado desse tipo de confusão. Lembre-se: os fatores emocionais não são razões e, portanto, não devem ser tratados como tal.

    (ii) Postulação explícita. O argumento não deve ser crítico somente em suas influências emocionais, mas também o deve ser em nível intelectual. Isso significa que as premissas, conforme ensinava Platão, são hipóteses, e o valor da conclusão consiste justamente na explicação adequada do significado das premissas. O indivíduo deve se esforçar para tornar explícitas as proposições intuitivas que compõem seu insight, pois, do contrário, será incapaz de reconhecer os fundamentos de seu próprio pensamento e de perceber as fontes das afirmações do oponente. Muitas vezes, a crítica intelectual não é feita por motivos emocionais; por isso, esta regra e a anterior são, na verdade, a mesma.

    (iii) Imparcialidade. A imparcialidade é resultado de um certo "partidarismo esclarecido". Em outras palavras, caso uma contenda tenha sido encerrada em um acordo, os dois lados devem encarar este acordo como algo totalmente relativo ao universo de discurso dentro do qual se deu a contenda. Muitas pessoas não entendem como é possível ser imparcial e, ao mesmo tempo, partidário. Esse paradoxo psicológico se explica quando entendemos que a disputa é dividida em dois estágios: enquanto a participação ativa na argumentação é algo necessariamente partidário, é necessária também a adoção de uma postura imparcial no que tange as oposições e contradições intelectuais. O indivíduo imbuído de um espírito verdadeiramente dialético conseguirá emular os dois estágios alternadamente, ao longo da própria contenda.

    (iv) Impraticalidade. Freqüentemente, as barreiras emocionais, a ocultação de postulados e a parcialidade intelectual ocorrem porque as pessoas levam as contendas a sério demais. Por "demais", quero dizer que as pessoas se apegam demais às questões práticas e circunstanciais do mundo da ação humana. As questões práticas, que obviamente são importantes, têm o revés de obstaculizar a imaginação intelectual necessária para o exercício da dialética, escravizando inconscientemente os participantes aos ditames das circustâncias vigentes.

A estrutura lógica da dialética

Um dos aspectos mais importantes da dialética, para além dos aspectos empíricos, é sua estruturação lógica fundamental.

A dialética é um conjunto de actos lógicos. Acto lógico é a actualização de uma relação potencial que existe entre as entidades de um universo de discurso. As relações potenciais e seus respectivos actos lógicos são as seguintes:

Relação potencial     |   Acto lógico
-----------------------------------------
oposição                   |  definição
implicação                |  análise
ordem sistemática    |  análise e síntese (sistematização)
ordem hierárquica     |  análise e síntese (hierarquização)

O acto lógico, por sua vez, é algo explicitamente afirmado em uma proposição. As proposições podem assumir as seguintes formas: definição, postulado e teorema. A diferença entre elas está em suas funções sistemáticas. Sistema é um conjunto de proposições relacionadas entre si por implicação. As implicações são engendradas pelo conjunto de postulados, os quais formam o que chamamos de doutrina do sistema, ou seja, as definições e suposições; os teoremas, por sua vez, explicitam essas implicações. A doutrina, isto é, as definições e postulados, constitui o que poderíamos chamar de proposições intuídas ou aceitas, enquanto os teoremas constituem as proposições demonstradas. A dialética não se interessa pelos sistemas em si, como seria o caso da lógico matemática, mas pelas relações entre os sistemas em conflito; a oposição é, portanto, o tema fundamental da lógica da dialética. Ademais, a dialética interessa-se pela coordenação da fase descritiva da doutrina abstrata dentro de uma estrutura lógica; assim sendo, a dialética também difere da simples lógica de inferência dedutiva-indutiva.

As implicações não apenas organizam as proposições de maneira sistemática, mas lhes conferem ordem hierárquica. A hierarquia organiza as entidades de acordo com os níveis determiandos pela análise de suas relações todo-parte.

(i)

O discurso possui dois tipos de componentes: os termos e as proposições. Proposição é uma relação entre termos. Os termos, por sua vez, são classes. ou seja, são um conjunto de condições de identidade que determinam a correlação dos itens do discurso. Os itens que porventura satisfaçam esse conjunto de condições farão parte da classe; os itens que não satisfizerem tais condições estarão fora da classe.

As classes relacionam-se por relações de parte-parte, todo-parte e parte-todo. Essas relações são chamadas de implicações. A parte é uma classe que necessariamente implica a existência de outras partes, que as exclui e é por elas excluída. A parte está incluída no todo, mas não implica este todo; em vez disso, a parte pressupõe o todo, o que equivale a dizer que o todo, ao qual a parte pertence, implica a parte. O todo é uma classe que inclui todas as partes. Ademais, no momento que é definido, o todo implica a existência de outras classes distintas de si próprio, pelas quais é excluído. Portanto, verificamos que o todo também é parte, tanto em relação a outras partes quanto em relação aos todos que incluem essas partes, as quais são implicadas por eles. Toda classe é um todo quando implica partes, e toda classe é uma parte quando é implicada por um todo. Há uma relação de reciprocidade simétrica, de relação filial e parternal. Verifica-se, portanto, que há uma relação hierárquica regulada pelas relações todo-parte, a qual independe da natureza material ou abstrata dos itens ordenados.

Termos, proposições e sistemas são níveis distintos na ordem hierárquica das relações entre todos e partes. Um termo é parte de uma proposição; uma proposição é parte de um sistema. Essas relações existem no discurso em potência. São necessários actos lógicos para torná-las explícitas, e são precisamente esses actos lógicos que constituem a dialética, ou seja, a dialética pretende exibir as relações hierárquicas parte-todo que existem em um discurso.

Conforme dissemos acima, as proposições, sistematicamente falando, são classificadas em definições, postulados e teoremas. As definições possuem três propriedades: (a) a definição indica a natureza intensiva de um todo e o conjunto de condições que limitam a membrazia de classes subordinadas e esse todo; tais classes subordinadas são as partes desse todo; (b) já que a definição determina uma classe como sendo um todo, ela também determina outras classes exatamente pela exclusão de suas propriedades; (c) as classes determinadas e excluídas pelas definições são coordenadas, ou seja, elas se implicam mutuamente e se excluam mutuamente; em outras palavras, por serem classes coordenadas, elas necessariamente relacionam-se enquanto partes de um todo de ordem superior, ou seja, elas pressupõem tal classe superior, a qual, por sua vez, as implicará quando for definida, e assim por diante, indefinidamente.

Os postulados e teoremas são proposições analíticas, ou seja, não determinam as condições de identidade de uma classe como um todo, ou seja, elas não definem. Elas expressam a relação de um todo com suas partes ou a relação das partes coordenadas entre si. Em suma, os postulados e teoremas servem para analisar a natureza de um todo e determinar a ordem das partes nesse todo, isto é, seus níveis hierárquicos. Os postulados são de ordem superior, pois os teoremas analisam as implicações subordinadas dos postulados. Em outras palavras, os postulados implicam os teoremas, enquanto os teoremas pressupõem os postulados. Assim, primeiramente temos as definições, depois os postulados, cuja função é exibir as implicações subordinadas das definições, e depois os teoremas, cuja função é exibir as implicações dos postulados. Os teoremas completam a explicação analítica da ordem sistemática implicada pelas definições e postulados.

As definições e os postulados formam a doutrina do sistema e devem ser independentes entre si, ou seja, não devem se implicar mutuamente. Por exemplo, um postulado que é implicado por outro postulado é, portanto, demonstrável, o que faz dele, na verdade, um teorema, e não um postulado. Em suma, a doutrina do sistema é declarada como verdadeira por suposição, sendo que o status das proposições é de caráter intuitivo -- são proposições intuídas; os teoremas do sistema são declarados como verdadeiros por implicação, sendo que o status desses teoremas é de proposições demonstradas.

Há duas fases em qualquer procedimento dialético: (a) a origem e elaboração de conflitos; (b) a resolução dos conflitos e a tradução dos universos parciais de discurso. Os conflitos surgem por causa de oposições entre sistemas, mas nunca por causa de oposições entre proposições isoladas ou sistemas isolados.

(ii)

Oposição não é contradição. Oposição é uma declaração de alteridade, enquanto contradição é uma declaração de rejeição. A oposição surge porque há, em qualquer definição, uma força ou inclinação que necessariamente diferencia as classes; ora, definir uma classe -- declará-la um todo -- não contradiz todas as demais classes que não foram assim definidas, mas apenas as nega no sentido de que as declara como outras classes, daí portar o sentido de alteridade.

O primeiro estágio da dialética é precisamente a definição, melhor dizendo, a oposição entre definições. Esta oposição é declarada mediante a afirmação das duas proposições opostas. Lembre-se de que a mera afirmação de oposição não implica em rejeição.

O segundo estágio da dialética é a análise. Os todos estabelecidos pelas definições são passíveis de análise, pois há, dentro de cada definição, uma ordem hierárquica de relações parte-todo; a esta ordem hierárquica chamamos de "sistema dedutivo", ou seja, é um sistema de proposições que formam a doutrina do sistema (definição + postulados), bem como seus teoremas. As definições e postulados são um conjunto de proposições sistemáticas, pois só são compreendidas por suas implicações mútuas; os teoremas, por sua vez, explicam essas proposições e só podem ser entendidos pelos termos da doutrina. Portanto, toda proposição é compreendida ou no âmbito de uma fonte doutrinal de um sistema de proposições ou no âmbito de uma proposição implicada por um sistemas de proposições.

O terceiro estágio da dialética é a síntese. Ao contrária da análise, que é composta por actos lógicos, a síntese exige imaginação intelectual, isto é, insight, intuição, inferência. Neste estágio, procuramos resolver o problema dialético mediante a detecção dos postulados de um sistema, mas não mediante a dedução dos teoremas de um sistema a partir dos postulados. As regras da análise são a implicação e a dedução; no entanto, não há regras para a síntese. A idéia, na síntese, é encontrar a classe supra-ordinada que seja pressuposta pelos sistemas coordenados, isto é, em oposição. Uma vez encontrada, nova análise deverá ser empreendida para estabelecer, com mais critério e cuidado, o sistema que abarca ambos sistemas coordenados.

Este processo dialético deixa claro um aspecto importante: não há oposição absoluta entre sistemas, mas apenas oposição parcial. A oposição contém, em si mesma, a fonte de sua própria resolução. Os sistemas opostos serão sempre partes de um sistema supra-ordinado, e assim por diante, indefinidamente. Além disso, o novo sistema jamais representará uma resolução absoluta, pois algumas proposições necessariamente terão de ser excluídas dele para que abarque os sistemas anteriormente em oposição. Novamente, há um processo a-lógico de escolha entre dilemas, ou seja, entre dois ou mais sistemas supra-ordinados que satisfazem as condições de resolução da oposição mas, cada um a seu jeito, inclui e exclui proposições dos sistemas originais.

Fica claro, portanto, que há uma inevitável frustração inerente ao processo dialético, e que essa frustração é fruto da estrutura hierárquica infinita do universo de discurso. Ademais, o fim da dialética, conforme mencionamos anteriormente, não pode ser a verdade, já que há somente três tipos de verdades, proposicionalmente falando: (a) as verdades factuais, que naturalmente não são dialéticas; (b) as verdades intuitivas, as quais apenas presume-se que sejam verdadeiras; (c) as verdades demonstradas, cuja veracidade depende de outras proposições. Vê-se, portanto, que as proposições podem estar em contradição uma com a outra, mas apenas factualmente falando, ou nos casos em que tais proposições estejam descoladas de seus respectivos sistemas/universos de discurso/modos metafóricos. Caso contrário, o que o dialético deve fazer é introduzir a proposição dentro de seu sistema, e o resultado será necessariamente uma oposição entre os sistemas, mas não uma contradição. Não existe contradições, em termos dialéticos, porque, se existissem, poderíamos identificá-las como estando dentro de um mesmo sistema, o que, por si só, imediatamente as descaracterizariam enquanto contradições. Isso equivale a dizer que as definições são incapazes de proceder a uma exclusão total e absoluta. Em suma, contradições só existem em proposições isoladas, mas proposições isoladas não são de interesse da dialética. Se duas proposições encontram-se em "contradição", isoladamente falando, seus termos têm apenas identidade verbal, mas não têm identidade definitória.

A metafísica da dialética

E eis que chegamos a uma conclusão metafísica quanto à dialética. Se o universo de discurso não contém, de maneira alguma, contradições; se as entidades discursivas podem ou não ser verdadeiras; se o universo de discurso é um ordem hierárquica infinita, cujos elementos encontram-se em infinita oposição, e cada oposição pode ser apenas parcial e inconclusivamente resolvida, então o universo de disurso é algo que se encontra dentro do campo da possibilidade. A possibilidade constitui, portanto, a própria descrição metafísica da dialética.

Uma doutrina metafísica pretende definir e descrever um todo-último (ultimate whole). O todo-último transcenderia toda e qualquer oposição, atingindo, portanto, o status de finalidade.

O todo-último é infinito, pois possui uma relação infinita de hierarquias, e determinado, pois é um todo. Assim, a característica determinadora insere o todo-último no campo da possibilidade. Por outro lado, a actualidade (o campo dos fatos) necessariamente impossibilita que todas as possibilidades se manifestem, já que isso necessariamente implicaria em contradições. As contradições se manifestam em declarações factuais, mas quanto a isso a dialética nada tem a dizer, permanecendo necessariamente em silêncio.

Assim, podemos resumir a metafísica da dialética nos seguintes postulados:

I. O universo de discurso é um todo-último (ultimate whole), infinito, mas determinado.

II. A determinação do universo de discurso é a relação parte-todo de suas entidades em uma ordem hierárquica de implicação.

III. Toda entidade do discurso está internamente relacionada a todas as outras entidades, mas em variados graus de proximidade.

IV. A dialética define-se, potencialmente falando, como sendo a estrutura formal do universo de discurso, e, actualmente falando, como sendo a atividade que exibe essa estrutura com certo grau de limitação, ou seja, o lado empírico da dialética (linguagem) limita o aspecto lógico dela.

Podemos extrair alguns teoremas importantes da descrição acima:

1. Não há relação de contradição no universo de discurso.

2. O universo de discurso está, portanto, ontologicamente inserido no campo da possibilidade.

3. A dialética está, portanto, inteiramente restrita ao universo de discurso.

4. A dialética, portanto, é incapaz de lidar com a relação entre os campos ontológicos do discurso e da existência.

5. Todas as oposições no discurso podem ser resolvidas.

6. Todas as resoluções dialéticas são parciais e inconclusivas.

7. Potencialmente falando, a dialética é absolutamente inconclusiva.

8. Actualmente falando, a dialética é relativamente inconclusiva.

9. A dialética é capaz de manifestar apenas verdades intrínsecas, sendo que tais verdades jamais podem ser finais.

10. Nenhuma proposição isolada é verdadeira ou falsa; em algum sistema, todas as proposições poderão ser verdadeiras.

Adler conclui que filosofia e dialética são a mesma coisa. Para ele, a filosofia é a atividade da controvérsia intelectual, ou seja, da oposição de opiniões e teorias. A filosofia, pela própria natureza da dialética, ocupa-se exclusivamente com sistemas de possibilidades. A ciência, por outro lado, ocupa-se de actualidades, de fatos brutos; os problemas científicos são resolvidos pelo método da investigação e da experimentação. Assim sendo, podemos dizer que os fatos possuem três ordens: (1) a primeira ordem dos fatos brutos; (2) a segunda ordem dos fatos, que são as afirmações acerca da primeira ordem (ciência); (3) a terceira ordem dos fatos, que são as proposições e opiniões acerca da segunda ordem (filosofia). Os objetos dos universos parciais de discurso da ciência são actualidades, enquanto os objetos dos universos parciais de discurso da filosofia são outros universos parciais de discurso.

As verdades filosóficas, portanto, só podem existir entre as entidades do discurso, seja por implicação ou pressuposição. Assim, não existem verdades factuais, filosoficamente falando, pois essas pertencem ao âmbito da ciência. A filosofia não é como a teologia, que elege um universo parcial de discurso como sendo dogmaticamente verdadeiro. A filosofia é incompatível com a parcialidaade da teologia. Neste sentido, teologia e ciência são profundamente semelhantes, não por causa de seus objetos, mas porque elegem universos de discurso como verdadeiros: a ciência o faz mediante as actualidades, enquanto a teologia o faz mediante os dogmas e "artigos de fé". É por isso que a história da filosofia nada mais é do que tentativas de transformá-la em uma religião: ora os filósofos não foram verdadeiramente dialéticos, ora eles confundiram a filosofia com ciência ou teologia.

A filosofia deve permancer livre de dogmatismos, e pouquíssimos filósofos seguiram esta regra à risca. Adler acredita que Platão talvez seja o único autêntico filósofo que já existiu. A filosofia parece que progride hoje em dia porque há uma tradição européia de pensamento e um vocabulário relativamente bem estabelecido, mas isso é pura ilusão. A filosofia é fútil e frustrante, pois jamais chegará a nenhuma conclusão intelectual, a nenhum sistema teórico final. A postura científica é dogmática e pragmática, enquanto a postura filosófico-dialética é imparcial e imprática. O único aspecto "prático" da dialética é impor ao pensamento sua própria irrelevância no que tange as questões práticas.

Portanto, a filosofia é a atividade típica das pessoas que, além de desfrutarem de liberdade intelectual, o fazem não sem certo espírito cômico. Se a condição de infinita possibilidade confere um caráter trágico ao intelecto humano, as limitações que a actualidade impõe ao pensamento também são trágicas. A filosofia é a emancipação do intelecto e o cultivo desse espírito cômico. A filosofia é apenas uma atividade para que o praticante se torne sensível à vida e às diferenças e oposições que pervadem o mundo dos homens.

Adler vs. Adler

Como dissemos no início do artigo, Adler discordou das conclusões a que chegou na medida em que amadurecia os estudos que empreendia, e mesmo durante as discussões que mantinha em suas aulas sobre os Great Books. Adler percebeu que a filosofia é capaz, sim, de alcançar a verdade. Mas qual o erro fundamental que cometeu?

Em Dialectic, Adler situa a filosofia entre a ciência e a teologia. A ciência, ocupando-se dos fatos brutos, que são elementos extrínsecos, lida com aspectos denotativos. A teologia, procedendo de forma intuitiva ou mediante insights, também alega portar certeza extrínseca. E a filosofia? Será que ela é apenas uma atividade para tagarelas pretensiosos? Um passatempo de crianças crescidas?

Adler percebeu que a filosofia também possui seu aspecto extrínseco, o que faz dela um tipo de ciência. Ocorre que o objeto da filosofia não é como o objeto das ciências. As ciências recortam um campo particular da realidade e o estudam com um método adequado a aquele campo. É o caso da biologia, da física, da química, da astronomia. Mas o campo particular da realidade que é objeto da filosofia é a realidade considerada em seu aspecto geral, ou seja, é um campo ao qual todo ser humano está imerso e nele vive e convive. Há certas experiências que não são exclusivas de determinados cientistas, mas que são comuns a todos. Em suma, na filosofia, todos os homens são "cientistas".

Este é o erro fundamental de Dialectic. Embora a descrição empírica, lógica e metafísica da dialética estejam corretas, o erro está em identificá-la com a filosofia, ou seja, em reduzir a filosofia à dialética. A dialética é um instrumento da filosofia, mas a filosofia é mais do que dialética: ela freqüentemente apela aos fatos, interrompendo o processo dialético e invocando a imaginação intelectual para além do jogo de definições, postulados e teoremas.

Exemplos de ciência filosófica são a ética, a estética, a política, a epistemologia. São aspectos da realidade acessíveis a todos, são fatos aos quais todos têm acesso, mas sobre os quais nem cientistas nem teólogos se debruçam detidamente. Este é o habitat dos filósofos. Isso não quer dizer que teólogos não tenham nada a dizer sobre ética, estética, política etc. Adler ensina que os três elementos da alta cultura se distribuem de maneira hierárquica. A teologia vem primeiro, pois trata de questões últimas, superiores, máximas, para além do mundo natural. A filosofia vem em seguida, imitando de certa forma a teologia, mas apegando-se a questões últimas mas naturais. E, por fim, a ciência, que reduz-se aqui e ali a aspectos empíricos e mais limitados. Assim, é evidente que a teologia deve "informar" a filosofia, como se aquela fosse um universo de discurso mais amplo, dentro do qual universos filosóficos parciais devem se inserir e do qual devem partir. Similarmente, a teologia e a filosofia devem "informar" as ciências naquilo que lhes cabem cada universo de discurso parcial. É como se os teoremas teológicos formassem a doutrina filosófica, e os postulados filosóficos formassem a doutrina científica. Contrariamente, por inferência (ou "pressuposição", no linguajar adleriano), é como se descobríssemos os postulados filosóficos mediante a doutrina científica, ou os postulados teológicos mediante a doutrina filosófica.

Resta saber se a metafísica é um dos objetos da filosofia. Este é um assunto importantíssimo, sobre o qual pretendo versar em breve.

1 de outubro de 2010

Educação secular


Os homens de bom-senso admitem que a maior de nossas vantagens é a educação; não somente esta nossa forma mais nobre de educação, que despreza a glória e os ornamentos retóricos e apega-se à salvação e à beleza dos objetos que são alvo de nossa contemplação, mas também a cultura exterior, a qual muitos cristãos consideram abominável, maliciosa e perigosa e que, segundo eles, nos afasta de Deus. Pois não devemos rejeitar os céus, a terra, o ar e todas essas coisas só porque algumas pessoas se apoderaram impropriamente delas e honram as obras de Deus ao invés de honrar o próprio Deus; mas devemos colher delas as vantagens que estiverem ao nosso alcance para benefício de nossas vidas e para nossa fruição, ao mesmo tempo que devemos evitar seus perigos; não devemos usar a criação, como os tolos o fazem, em levantes contra o Criador, mas, a partir das obras da natureza, devemos apreender o Criador, e, como ensina o santo Apóstolo, levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo. Repito que, assim como nem fogo, nem alimento, nem ferro, nem quaisquer elementos sejam proveitosos ou danosos exceto pela vontade de quem os faz uso, assim como formulamos remédios úteis a partir de elementos que se encontram até mesmo em répteis, assim também a literatura secular fornece-nos princípios para a investigação e a especulação, ao mesmo tempo em que rejeitamos sua idolatria, terror e destruição. Ora, até mesmo essas coisas auxiliam em nossa religião, pois percebemos o contraste entre o pior e o melhor e reforçamos nossa doutrina a partir da fraqueza da doutrina deles. Assim sendo, não devemos desacreditar a educação só porque algumas pessoas gostam de fazer isso, mas devemos, isso sim, considerar estas pessoas como sendo rudes, grosseiras e incultas, pois desejam que todos os homens sejam como elas, para que então possam se diluir em meio ao público e sua falta de cultura não seja detectada. Mas vinde agora, e após este breve esboço de nosso assunto e estas considerações, contemplemos a vida de Basílio.

Fonte: São Gregório, o Teólogo (+391), Discurso XLIII sobre a vida de São Basílio, o Grande, §11

28 de setembro de 2010

Sonhos não são revelações


Imaginar que teus sonhos sejam revelações é uma coisa perigosa: essa postura leva ao orgulho espiritual. Pensa comigo: será possível que um coração e uma mente que estejam sob influência de paixões selvagens realmente possam ter revelações divinas? Será que tu não estás excessivamente confiante em tua própria dignidade? Pois quem se estimaria tanto a ponto de se achar digno de tal graça?

23 de setembro de 2010

Inimigos risonhos: a história do polvo


Phótios Kóntoglou

Hoje em dia, presenciamos o surgimento de muitas religiões que representam os céticos e os ateus. Uma delas é o turismo, fruto da curiosidade mórbida das pessoas que querem xeretar e descobrir, mas sem dar a mais mínima importância para aquilo que vêem ou ouvem. A maioria dos turistas é composta de gente entediada com suas próprias vidas e que querem passar seu tempo sem se importar com os monumentos ou com as lições de história que os guias lhes contam, os quais agem como se estivessem preparando um banquete para pessoas que sofrem de anorexia. Tudo o que o guia lhes diz entra por um ouvido e sai pelo outro.

Porém, quem tem coragem de rejeitar essa nova divindade que é a indústria do turismo, que traz consigo um grande dote? Pois hoje em dia as coisas que trazem dinheiro são santas. Como você se atreve a falar mal dessas coisas? Você insultou Maomé, você insultou Mamon.

Como se não bastasse o turismo entupir os museus com gente de todas as raças, de folders em mãos e câmeras pendurada nos ombros, e como se não bastasse toda e qualquer montanha isolada que tenha duas colunas quebradas ou pedaços de mármore esculpidos ser emporcalhada, e como se não bastasse que nenhum mistério das civilizações antigas reste oculto, que nenhuma tumba não tenha sido aberta para que turistas exaustos pudessem olhar, eles também entram nas igrejas e em capelas remotas, onde nosso povo reza, e ficam ali, com as mãos cruzadas para trás, sem fazer o sinal da Cruz, sem se perguntar o que essa gente infeliz está fazendo ali de pé ou onde estão.

O turismo tomou conta de tudo. Em sua presença real, todas as portas têm de estar abertas para recebê-lo, portas de castelos que jamais foram conquistados por guerreiro algum, portas de mosteiros que permaneceram trancadas por milhares de anos, celas, cavernas e eremitérios nos quais homens santos viveram em reclusão. Altares, cestos para o santo pão, taças de comunhão, relicários: tudo é despudoradamente trazido a público para que turistas possam vê-los.

Por fim, a maior fortaleza da Ortodoxia, o Monte Atos, a Santa Montanha, também se rendeu ao turismo. No jardim da Virgem Maria que é o Monte Atos, onde, por sua vontade, nenhuma presença feminina, seja humana ou animal, jamais pisou, agora é freqüentado por milhares de homens de todas as raças, alguns de cigarro na boca, outros com calças apertadas, outros semi-nus, tagarelando, rindo, pois estão indo para se divertir, para fugir de seus trabalhos tediosos, de seus negócios, da tecnologia, dos trens, dos aviões, dos navios, dos carros, teatros, saunas, hotéis e tudo o que lhes cerca quando retornarem a seus países. Mas, mesmo quando estão aqui, carregam consigo o cheiro fétido dessas coisas, incapazes que são de sentir qualquer coisa, incapazes de qualquer contrição, totalmente alienados dos antigos mistérios ocultos da Santa Montanha.

Ora, como é possível transmitir fragrância espiritual a quem não tem olfato espiritual? Como podem sentir o que vêem e ouvem se essas coisas são frutos supersubstanciais e revelações de misericórdia, de oração, de teoria divina? Não que essas pessoas sejam culpadas -- algumas são inocentes e humildes --, mas estão tão distantes das condições de entender que este não é um lugar para recreio, para caminhadas, para se divertirem, nem mesmo para aprenderem, mas um lugar que carrega sobre si esta inscrição: "Este é um lugar de respeito! Não sou nada menos do que a casa de Deus e os portões do céu". Essa gente infeliz não sabe o que vê e ouve, pois estas não são coisas que se possam compreender mentalmente. Como poderiam supor que nem mesmo seus guias são capazes de perceber o verdadeiro significado, e que, apesar do conhecimento que possuem sobre as coisas santas, trata-se de um conhecimento superficial, mecânico, insípido, pois "a relação com Deus só se dá mediante a memória espiritual, as bênçãos da oração e o sacrifício".

Este não é o lugar para se encontrar respostas à mórbida curiosidade humana, mas um lugar onde as pessoas esquecem o mundo, onde se esforçam espiritualmente, com o sofrimento do corpo, entregando-se completamente nas mãos de Deus, com jejuns, com as mãos erguidas ao céu, caladas por anos a fio, com seus corações fechados a todo e qualquer contato exterior. É apenas por acaso que vocês, turistas, chegam aqui. O objetivo de vocês é agradar a seus sentidos e corpos, mas aqui, onde seus guias lhes trouxeram, é um local de alegria enlutada, onde ninguém que tenha morado ou ainda more aqui vai lhes alegrar, pois aqui eles vivem com dor no coração, aquecidos pelo calor do zelo pela salvação de suas almas. Como se atrevem a vir aqui, como se estivessem vindo a uma festa de casamento, quando este é um lugar de lembrança constante da morte, um chamado triste a Deus?

Os inimigos de nossa religião e de nossa nação são mais perigosos do que os velhos inimigos, pois eles agem de maneira dissimulada, aparentemente pacífica, parecendo inocentes e incapazes de fazer qualquer mal. Refiro-me precisamente às chamadas "benesses da civilização moderna", às facilidades que tornam a vida mais fácil e que são, na verdade, armadilhas venenosas, refiro-me aos espetáculos, às diversas formas de entretenimento, ao turismo etc. Estes inimigos parecem inocentes, incapazes de nos fazer mal, pois não se apresentam como selvagens e não revelam suas intenções sub-reptícias, pois mal são notados. Dos inimigos conseguimos nos proteger, mas não desses novos inimigos, como procurarei ilustrar na seguinte história:

Era uma vez uma mamãe-polvo, que descansava tranqüilamente no fundo do mar com seu filho. Um dia, o polvinho foi fisgado e começou a ser levado para cima. Ele começou a gritar por sua mãe: "Eles me pegaram, mamãe!" Ela lhe garantiu: "Não se preocupe, filho!" O polvinho começou a gritar de novo: "Eles estão me tirando da água, mamãe!" "Não se preocupe, meu filho!" -- "Eles estão me fritando, mamãe!" -- "Não se preocupe, meu filho!" -- "Eles estão me cortando com uma faca!" -- "Não se preocupe!" -- "Eles estão me colocando em uma panela quente!" -- "Não se preocupe!" -- "Eles estão me comendo, eles estão me mastigando!" -- "Não se preocupe, meu filho!" -- "Eles estão me engolindo!" -- "Não se preocupe!" -- "Eles estão bebendo vinho, mamãe!" "Oh! Eu te perdi, meu filho!"

A moral da história é que todas as aflições sofridas pelo polvo não chegaram a matá-lo: fisgar, fritar, cozinhar, mastigar, nada disso o matou. Mas quando a mãe ouviu que as pessoas que o capturaram e comeram estavam bebendo vinho para digeri-lo, clamou: "Eu te perdi, meu filho!" O vinho, que à primeira vista é a coisa mais suave da história em comparação com a faca e a mastigação, é na realidade o maior inimigo do polvo.

É exatamente assim que as coisas se passam com nós, gregos. Muitos turbilhões já passaram por nossa terra, toda sorte de gente selvagem, assassinos impiedosos, espadas, lanças, todo tipo de arma. Persas, germânicos, francos, árabes, turcos e outros. Eles mataram, cortaram em pedaços, enforcaram, cozinharam em espetos, mas não morremos, pois a luta nos deixou mais fortes, sólidos como o aço, e combatemos o fogo com o fogo. Mas hoje em dia, os inimigos mudaram de aparência, tornaram-se sub-reptícios, risonhos, são falsos amigos, pois parecem inofensivos e até mesmo benfeitores, cheios de boas intenções. São essas as benesses que acompanham os dispositivos tecnológicos, as máquinas de lavar, os aviões, cinema, rádio, nudez e tudo o mais que nos paralisa, que tira de nós a religião, a tradição, a família, tudo o que é realmente importante.

Uma dessas benesses sub-reptícias é o turismo, o vinho inocente que mata o polvo, que não é nem faca, nem dente.

Fonte: NOCTOC

Foto: Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

14 de setembro de 2010

Os efeitos medicinais do sinal da Cruz e da Oração do Senhor


Cientistas provaram experimentalmente que o sinal da Cruz e a oração possuem propriedades miraculosas.

"Constatamos que o velho costume de fazer o sinal da Cruz sobre os alimentos e bebidas antes das refeições possui um profundo significado místico. Mas, além disso, há uma função prática: o alimento purifica-se instantaneamente. Trata-se de um grande milagre, que acontece literalmente todos os dias", disse a física Angelina Malakhovskaya ao jornal Zhizn nesta sexta-feira.

Malakhovskaya estudo o poder do sinal da Cruz há quase dez anos, com a bênção da Igreja. Ela conduziu inúmeras pesquisas, fazendo questão de repeti-las a fim de certificar-se de seus resultados antes de torná-los públicos.

Uma das descobertas mais incríveis foi que a água adquire propriedades bactericidas depois de ser abençoada por uma oração ortodoxa e por um sinal da Cruz. Segundo o jornal, o estudo também revelou uma propriedade nova e desconhecida do Verbo de Deus, que é transformar a estrutura da água ao aumentar consideravelmente a densidade óptica na região espectral ultravioleta.

Os cientistas constataram o impacto que a Oração do Senhor [Pai-Nosso] e o sinal da Cruz ortodoxo têm sobre as bactérias patogênicas. Amostras de água foram coletadas de várias fontes -- poços, rios, lagos -- e levadas ao laboratório. Todos as amostras continham staphylococcus aureus, uma bactéria intestinal. Observou-se que se a Oração do Senhor fosse rezada e o sinal da Cruz fosse feito sobre as amostras de água, o número de bactérias diminuía sete, dez, cem, e às vezes mais de mil vezes.

As experiências foram feitas de maneira a excluir qualquer tipo de influência por sugestão mental. A oração era rezada tanto por fiéis quanto por céticos, mas o número de bactérias patogênicas nos diversos ambientes ainda assim diminuia se comparado aos padrões de referência.

Os cientistas também constataram os impactos benéficos da oração e do sinal da Cruz sobre as pessoas. A pressão arterial de todos os participantes estabilizou-se e os índices dos exames de sangue melhoraram. O mais surpreendente é que os índices sempre oscilavam para os padrões de saúde necessários: a pressão arterial das pessoas hipotensas aumentava e a das pessoas hipertensas diminuía.

Observou-se também que se o sinal da Cruz fosse feito de maneira displicente, com os três dedos posicionados de maneira incorreta ou tocados fora dos locais corretos do corpo -- meio da testa, centro do plexo solar [região abdominal] e os rebaixos dos ombros direito e esquerdo -- os resultados positivos diminuíam ou até mesmo cessavam.

Fonte: Interfax

13 de setembro de 2010

Todas as criaturas vivas aspiram a Deus


Todo ser vivo aspira ao amor: homem, animais e plantas. Todos as pessoas aspiram a Deus e buscam a Deus, a despeito de serem religiosas ou não. Algumas se dizem ateístas, mas elas não sabem que seus corações buscam a Deus. Pois quando uma pessoa busca a justiça, o amor e a verdade, ela está, no fundo, buscando a Deus. Todos as pessoas aspiram ao amor imutável e à justiça que permanece sempre a mesma... A única diferença é que algumas pessoas se opõem a Deus, enquanto outras não; algumas aspiram a Deus conscientemente, enquanto outras não sabem que aquilo a que aspiram é, na verdade, Deus.

8 de setembro de 2010

A raiva


A vitória sobre a raiva é uma das maiores vitórias de um soldado de Cristo. Geralmente ficamos com raiva daqueles que desejamos que renunciem ao pecado e dos que nos caluniam. Entretanto, agindo desta maneira, esquecemo-nos que a raiva é um pecado mortal e, desejando a salvação dos outros, perdemos a nossa própria salvação, segundo São Macário. A raiva contra os inimigos é freqüentemente ligada a outro impulso maligno: o desejo de vingança. Santo Eupisíquio subjugou a paixão da raiva em si mesmo, tanto é que ele entregou uma parte de sua enorme riqueza aos pobres e outra aos seus caluniadores, por quem ele estava sendo torturado e morreria. Ele tinha seus caluniadores por benfeitores. São João Crisóstomo disse: "Cortemos fora as asas da raiva, e o mal não voará tão alto. A raiva é uma doença demoníaca que pode destruir nossas almas... A raiva é um fogo terrível que engole tudo... Se um homem irado pudesse ver a si mesmo no momento em que está com raiva, jamais necessitaria de outro conselho nem se irritaria, pois não há nada mais desagradável que uma face raivosa." Abba Amon confessou sobre si mesmo: "Passei catorze anos em Scetis, orando a Deus dia e noite, para que me concedesse vitória sobre a raiva."

Fonte: Prólogo de Ochrid, São Nicolau Velimirovich

Leitura espiritual: mudança vs. prazer


Hoje em dia, as pessoas lêem tanto que acabam se transformando em gravadores, preenchendo suas fitas cassete com coisas supérfluas. Porém, segundo Abba Isaque, se a sabedoria não se fundar sobre a retidão prática, torna-se um depósito de desgraça. Observem que as pessoas que se interessam por esportes lêem jornais e revistas esportivas enquanto estão sentadas. Elas podem até se parecer com bois gordos, mas mesmo assim se deslumbram com os atletas...elas não aproveitam nada...o mesmo ocorre com as pessoas que lêem livros espirituais. Elas passam a noite inteira se concnetrando em livros espirituais, e ficam contentes com isso. Elas pegam um livro espiritual, sentam confortavelmente e começam a ler. "Oh, sim, eu me beneficiei com a leitura", dizem elas. Na verdade, elas deveriam dizer: "Eu gostei da leitura. Foi uma leitura muito prazerosa". Mas isto não é tirar proveito da leitura. Nós realmente aproveitamos a leitura quando entendemos o que lemos, quando nos auto-censuramos e auto-disciplinamos ao aplicar o que lemos: "O que isto significa? Onde me encontro em relação a esta verdade espiritual? O que devo fazer agora?"

"Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus"


A incredulidade é, evidentemente, o fruto maligno de um coração maligno; pois as pessoas sinceras e puras de coração descobrem Deus em toda parte, discernem Deus em tudo e acreditam na existência de Deus em todos os momentos, sem hesitar.

Quando o homem puro de coração contempla o mundo natural, isto é, o céu, a terra, o mar e todas as coisas que neles há, e observa os sistemas que os constituem, a multidão infinita de estrelas no céu, os inúmeros pássaros e quadrúpedes e todo tipo de animal terrestre, a variedade de plantas, a abundância dos peixes no mar, ele imediatamente se espanta e exclama, como o Profeta David: "Quão grandes são as tuas obras, Senhor! Todas as coisas fizeste com sabedoria".

O homem, impelido por seu coração puro, também descobre Deus no mundo da graça da Igreja, da qual o homem maligno procura se distanciar. O homem puro de coração acredita na Igreja, admira seu sistema espiritual, descobre Deus nos mistérios, nos píncaros da teologia, na luz das revelações divinas, nas verdades das doutrinas, nos mandamentos da Lei, nas realizações dos santos, em toda boa obra, em todo dom perfeito, em toda a criação.

É por isso que o Senhor disse, nas Beatitudes: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus".

3 de setembro de 2010

Ícone da Mãe de Deus de Vladimir


O Ícone da Mãe de Deus de Vladimir foi escrito pelo Apóstolo Lucas numa prancha sobre a qual o Salvador alimentou-se, juntamente com Sua Puríssima Mãe e com o Justo José. A Mãe de Deus, ao contemplar a imagem, exclamou: "De agora em diante, todas as gerações me chamarão de abençoada. Que a graça do meu Filho e a minha esteja com este ícone". Em 1131, o ícone foi enviado de Constantinopla para Rus´, aos cuidados do Príncipe Mstislav (+1132, comemorado em 15 de abril), tendo sido guardado no Mosteiro Devichi, em Vyshgorod, a antiga cidade da Princesa Santa Olga, a Igual-aos-Apóstolos.

O filho de Yuri Dolgoruky, Santo André Bogoliubsky, levou o ícone à cidade de Vladimir, em 1155, guardando-o na famosa Catedral da Dormição, que fora contruída por ele mesmo. Foi nesta época que o ícone ganhou o epíteto de "Ícone de Vladimir". Em 1395, o ícone foi levado pela primeira vez a Moscou. Dessa maneira, a bênção da Mãe de Deus uniu em laços espirituais Bizâncio e Rus´, via Kiev, Vladimir e Moscou.

A comemoração do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir acontece várias vezes ao longo do ano (21 de maio, 23 de junho e 26 de agosto). A celebração mais solene é a de 26 de agosto, que é o dia marcado para comemorar a transferência do ícone da cidade de Vladimir para Moscou. Em 1395, o temível conquistador Khan Tamerlane alcançou as fronteiras de Ryaza, tomou a cidade de Elets e, avançando em direção a Moscou, chegou nas proximidades do Rio Don. O Grão-Príncipe Vasilii Dimitrievich acompanhou seu exército a Koloma, pousando às margend do Rio Oka. Ele rezou aos santos hierarcas de Moscou e ao Monge Sérgio pela libertação da terra-natal, e escreveu ao Metropolita de Moscou, São Cipriano (comemorado em 16 de semtembro) para que o Jejum da Dormição, que estava próximo, fosse dedicado a orações piedosas por misericórdia e arrependimento. Sacerdotes foram enviados a Vladimir, onde se encontrava o famoso Ícone de Vladimir. Após a Divina Liturgia e o molieben da festa da Dormição, os sacerdotes levaram o ícone em procissão até Moscou. Ao longo do percurso, os dois lados da estrada estavam abarrotados de pessoas que, ajoelhadas, rezavam: "Ó Mãe de Deus, salve a Rússia!" Nesta mesma hora, quando a população de Moscou saiu ao encontro do Ícone de Vladimir no Campo Kuchkov, Tamerlane estava dormindo em sua tenda. De repente, ele teve um sonho: no topo de uma grande montanha se encontravam santos hierarcas que portavam bastões dourados, e sobre eles, em uma luz incrivelmente radiante, brilhava uma Mulher Majestosa. Ela lhe ordenou que deixasse os domínios da Rússia. Ao acordar, muito assustado, Tamerlane perguntou qual era o significado daquela aparição. Os especialistas lhe disseram que a Senhora Radiante era a Mãe de Deus, a grande Protetora dos cristãos. Tamerlane ordenou que suas tropas dessem meia-volta. Em memória a este libertação miraculosa, que ocorreu no Campo Kuchkov, onde se deu o Encontro da Ícone da Mãe de Deus de Vladimir, foi construído o Mosteiro do Encontro (Sretensky). O dia 26 de agosto foi escolhido como o dia em que os russos celebram o encontro do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir.

Muitos eventos importantes ocorreram em frente do Ícone da Mãe de Deus de Vladimir: a eleição e elevação de São Jonas, o defensor da autocefalia da Igreja Ortodoxa Russa (1448), de São Jó, primeiro patriarca de Moscou e Toda-a-Rússia (1589) e do Patriarca Ticônio (1917). Além disso, o entronamento de Sua Santidade Pímen, Patriarca de Moscou e Toda-a-Rússia, ocorreu exatamente em um dia em que se celebra o Ícone da Mãe de Deus de Vladimir (21 de maio/3 de junho de 1971).

Os dias 21 de maio, 23 de junho e 26 de agosto tornaram-se, portanto, dias muito especiais para a Igreja Ortodoxa, em especial para a Igreja Ortodoxa Russa.

11 de agosto de 2010

A influência das belas artes nas Grandes Idéias


O objetivo de Mortimer J. Adler em Art, the Arts, and the Great Ideas é responder a seguinte pergunta: a música, a pintura, o balé, enfim, todas as artes que não estejam associadas com palavras, podem ensinar ou adicionar conhecimento às Grandes Idéias?

A título de introdução, Adler lembra que, no livro VI de Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue cinco virtudes intelectuais:

A) Saber para saber (virtudes especulativas)

1) Noûs (insight)
2) Episteme (em latim, scientia)
3) Sophia (sabedoria especulativa ou filosófica)

B) Saber para agir (virtudes práticas)

4) Phronesis (prudência ou sabedoria prática) -> praxis (conduta moral ou política)
5) Techné (arte, técnica, habilidade -> poiesis (fazer algo, produzir, desempenhar)

Na esfera da poiesis, que é a que nos interessa, Platão distingue entre artes cooperativas (agricultor, médico, professor) e artes operativas (todas as demais). Ainda na esfera da poiesis, Aristóteles distingue entre as artes liberais (operadas com o intelecto, ou seja, o artista opera com símbolos e pode existir em qualquer lugar) e as artes servis (operada com materiais e só existe em um lugar). Neste caso, observa-se que há uma diferença ontológica, e não social, entre estas artes.

Há ainda outra distinção identificada por Aristóteles: (1) narrativa poética, que opera na região do provável e do possível e, portanto, não é exclusivista (verdade poética) e (2) narrativa histórica, que opera na região do factual e do actual e, portanto, é exclusivista (verdade lógica).

Em seguida, Adler afirma que a intenção do artista e de quem contempla a obra de arte não têm relevância para as belas-artes. Isso significa que por mais que o artista afirme que a obra de arte se conforma à idéia criativa que está em sua mente, ele terá manifestado uma verdade ontológica entre a obra de arte e si próprio. Ocorre que nosso interesse reside apenas na verdade lógica (factual) e na verdade poética (possível) das obras de arte, pois somente elas podem conter alguma instrução útil às Grandes Idéias.

Adler continua sua explanação relembrando o leitor sua doutrina dos signos. Há dois tipos de signos: os signos verbais (palavras) e os não-verbais. As palavras podem ser designadoras ou signais. Enquanto designadoras, elas dão nome às coisas; enquanto signais, elas elicitam comportamentos (como a palavra "fogo", quando gritada no interior de um cinema lotado, faz todos saírem correndo). Os signos não-verbais, por sua vez, também podem ser designadores (as representações simbólicas de banheiro masculino e feminino, por exemplo) ou signais (como as nuvens no céu, que signalizam chuva iminente).

A notação, por sua vez, é uma marca visível ou um som audível. As notações, embora perceptíveis, não possuem em si nenhum significado. Então, cabe a pergunta: de onde vem o significado que transforma uma notação em uma palavra? As palavras designam objetos, assim como trazem à mente determinado conteúdo. Elas funcionam, portanto, como signos instrumentais. No entanto, existem signos designativos cuja única função é de significação. São os signos formais. Assim, os signos instrumentais são objetos que apreendemos, mas os signos formais não: eles são os conteúdos mentais cognitivos, são os atos da imaginação (ou "imaginação intelectual"). As palavras que empregamos só têm significado como signos instrumentais quando se associam a signos formais.

Ora, os atos mentais são apreensões de percepções, memórias e imaginações, que combinam a ação das potências sensitivas e intelectivas, ou então são atos puramente intelectivos. Assim sendo, as obras de arte nunca carregam pensamentos puramente intelectuais, pois sempre dependem das potências sensitivas. A exceção a esta regra cabe à literatura, que pode perfeitamente carregar conceitos puramente intelectuais.

Por fim, cabe lembrar que as Grandes Idéias não fazem parte do conteúdo cognitivo de nenhuma mente humana, ou seja, elas não são memórias, nem imaginações, nem constructos teóricos, nem os conceitos que estão em nossas mentes. Elas também não são signos formais, ou seja, também não são as intenções mentais que são significados e que servem para colocar os objetos significados diante da mente. Em suma, elas não são id quo (aquilo por meio do que) pensamos, mas são id quod (aquilo que) pensamos: são, pois, objetos de pensamento.

As obras musicais e as obras de arte visuais não contribuem significativamente para as Grandes Idéias, pois o meio em que são produzidas é próprio dos sentidos. Sua linguagem consiste em símbolos não-verbais, e por isso atuam no pensamento perceptual, e não no pensamento conceitual.

A conclusão é que estas obras de arte têm função emocional, sentimental, pois impactam e influenciam a imaginação. É somente neste sentido, deveras limitado, que elas influenciam as Grandes Idéias. Claro que, além disso, elas também transmitem prazer estético. As obras literárias, antes de nos mover emocionalmente, têm de ser interpretadas intelectualmente. Por isso, no caso delas, podem, sim, contribuir para as Grandes Idéias.

Ilustração: trecho inicial da Sinfonia nº 36 em Dó Maior, K. 425, "Linz", de Wolfgang Amadeus Mozart.

Dez erros filosóficos


Em Ten Philosophical Mistakes, Mortimer J. Adler apresenta os assuntos mais importantes nos quais a filosofia moderna comete erros crassos. Lembre-se que os livros de Adler, por serem muito introdutórios e "mastigadinhos", são também necessariamente superficiais. São úteis como ponto de partida, mas só para isso.

Erro nº1: subjetivismo

O que você comeu ontem no almoço? Digamos que você tenha pensado em arroz e feijão. Este arroz e feijão existia na realidade, ou o que você lembrou era apenas a imagem daquilo que surgiu em sua mente como arroz e feijão? Em outras palavras, o que surgiu em sua mente é a única realidade a qual você tem acesso, ou existe uma outra realidade para a qual aquilo que lhe surgiu na mente aponta?

Instintivamente, sabemos que existiu um arroz e feijão à parte de sua mente, e que sua memória do arroz e feijão de ontem pode corresponder mais ou menos perfeitamente ao arroz e feijão "de verdade".

Mas pense de novo. Como você sabe que há algo para além de suas sensações, percepções, memórias e imaginações? Como você sabe que o conteúdo de sua mente possui uma relação com as coisas na realidade?

Estas dúvidas, segundo Adler, são fruto de um common sense deteurpado. Adler acredita que um common sense normal, íntegro, jamais duvidaria da existência real das coisas.

Adler explica que, para John Locke, as idéias são totalmente subjetivas. Eu tenho as minhas idéias, você tem as suas idéias. Mas Locke falhou ao não distinguir idéias de sensações, sentimentos e emoções. De fato, as percepções, memórias, imaginações e conceitos são idéias. No entanto, as emoções, sentimentos e sensações corporais não são idéias, pois as apreendemos diretamente. Além disso, outro erro de Locke era acreditar que todas as idéias são aquilo que apreendemos quando estamos conscientes. A visão oposta, defendida por Adler, é de que as idéias cognitivas são aquilo por meio do que apreendemos os objetos quando estamos conscientes. Por exemplo, quando lembramos de algum objeto, estamos lembrando dele, e não da memória do objeto. [Atenção: Adler não usa aqui a palavra "idéia" da mesma maneira que o faz na expressão "grandes idéias" (great ideas)].

Os que adotam a postura de Locke (aquilo que) acabam se fechando em seus mundos, negando a realidade objetiva ou negando que possamos ter acesso mesmo que indireto a ela. Alguns filósofos tentaram corrigir essa postura, mas apenas intensificaram o erro, pois afirmaram que as idéias seriam representações das coisas objetivas. Mesmo as representações jamais serão os objetos em si, e isso não resolve o problemas, mas apenas o esconde, "enrolando" sua solução. Essa postura separa a realidade em dois mundos, e detona qualquer ponte que porventura possa conectá-los.

Em suma, as pessoas estão diretamente conscientes dos conteúdos mentais somente nos casos em que sentem dores e prazeres. Os demais eventos mentais, as chamadas "idéias", são os meios pelos quais apreendemos os objetos, mas nunca as apreendemos diretamente.

Erro nº 2: nominalismo

O segundo erro é supor que a inteligência não existe e, portanto, os conceitos ou idéias abstratas também não existem.

Adler descreve a inteligência como o meio pelo qual os organismos aprendem com a experiência e modificam seu comportamento de acordo com ela. Dado que os insetos, por exemplo, não modificam seu comportamento, conclui-se que eles não têm inteligência, mas apenas instintos. Quanto mais superior for o animal, tanto mais inteligência terá. Adler acredita que, a rigor, os homens não têm instintos, pois são desprovidos de um padrão inato de comportamento e estão constantemente mudando seu comportamento ao longo da história. Ele não nega que o homem possua inclinações e tendências natas, mas acredita que o homem é capaz de superá-las e agir a despeito delas.

A idéia de que a mente humana é puramente sensorial é defendida por Locke, Berkeley e Hume, enquanto o ponto de vista de que a mente possui um elemento intelectivo, e não apenas sensorial, é defendido por Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Hegel. Este ponto de vista tradicional, também defendido por Adler, é de que os sentidos são responsáveis por imaginar, lembrar e perceber, enquanto o intelecto é responsável por entender, julgar e raciocinar.

Afinal, temos ou não temos idéias abstratas (conceitos) para além da percepção sensorial?

Os nominalistas afirmam que palavras como "cão" são nomes gerais, pois aplicamos a vários particulares de maneira um tanto indiferente. Adler acredita que os nominalistas estão errados no momento mesmo em que enunciam sua hipótese: ora, se somos capazes de distinguir algo nos múltiplos entes e damos a todos o nome de "cão", isso significa que aí mesmo a própria premissa de que não há conceitos abstratos foi podada.

Por outro lado, Adler acredita que Platão exagerou ao propor que os conceitos possuem existência à parte de seus objetos e da mente humana: os chamados arquétipos universais. Tal explicação não é necessária para rejeitar o nominalismo ou explicar a realidade das coisas e, portanto, é descartável.

Hobbes, Hume e Darwin achavam que, por causa da inexistência da inteligência, os homens diferem-se dos animais apenas em grau, não em tipo. Algumas pesquisas psicológicas modernas afirmam que os animais também apreendem conceitos. É uma conclusão errada, pois "conceito" implica em saber diferenciar certos tipos de objetos de outros tipos de objetos, e não um objeto de outro objeto. Portanto, a inteligência animal é totalmente sensorial, perceptual. O conceito está na cabeça do pesquisador, e não no animal.

Erro nº3: subjetivismo e nominalismo lingüísticos

O terceiro erro é derivado dos dois erros acima e afetam o campo da lingüística.

Adler explica que um signo instrumental pode tanto ser um signal (como nuvens carregadas no céu, prevendo uma tempestade, por exemplo) quanto um designador (a palavra "cão", por exemplo), ou mesmo ambos ao mesmo tempo (a palavra "fogo" quando berrada no interior de um cinema lotado). Os signos instrumentais sempre possuem existência perceptual própria. Um signo formal (ou signo puro), por outro lado, é aquele do qual não temos nenhuma percepção sensorial.

Neste contexto, Locke foi incapaz de explicar como nos comunicamos com palavras, pois ele achava que as palavras não podem designar coisas que, afinal, não somos capazes de conhecer. Lembre-se dos erros nº 1 e 2 acima. O erro de Locke é corrigido sabendo que as idéias abstratas são signos formais, ou seja, elas não têm significado ou adquirem significado ou ganham ou perdem significado. As idéias são significados. A comunicação se dá, portanto, por meio da associação de signos instrumentais com signos formais. Quando digo "cão", esta palavra não apenas designa um objeto real, mas desperta no interlocutor o signo formal que também tenho em minha mente.

Os animais se expressam apenas por meio de signais, e nunca por designadores. Os cientistas que acham que os animais têm conceitos ignoram a diferença entre pensamento perceptual e pensamento conceitual. Os "conceitos animais" têm apenas aparência conceitual.

Os lingüistas modernos deixaram-se levar pelo erro de que as palavras designam apenas e tão-somente os existentes fisicamente presentes no mundo. É por isso que a lingüística moderna em geral limita-se a pesquisar os usos das palavras, em vez de procurar explicar o significado léxico delas.

Erro nº4: positivismo e idealismo

O quarto erro é achar que a filosofia não alcança conhecimento genuíno, ou seja, que a filosofia é um exercício sofisticado de emissão de opiniões pessoais.

Adler explica que o conhecimento é algo sempre verdadeiro. O critério para sua identificação é triplo: certitude, incorrigibilidade e imutabilidade. A opinião, por outro lado, pode ser verdadeira ou falsa. A rigor, apenas as verdades auto-evidentes são conhecimento; por exemplo, declarações auto-evidentes como "o todo é maior do que as partes" ou "um triângulo tem três lados". A opinião somente será conhecimento se relaxarmos um pouco o critério triplo e incluirmos as opiniões cujas evidências são tão fortes que as chamamos de conhecimento "momentâneo". Por fim, restam as "meras opiniões", que são todos os preconceitos, gostos etc., ou seja, tudo aquilo que não possui evidências e/ou razões.

Hume entendia que conhecimento genuíno são somente (1) as abstrações desprovidas de julgamento quanto à sua existência real (matemática e lógica) e (2) os fatos particulares (história e geografia) e os fatos gerais (física e química). Nos séculos XIX e XX, esta postura ganhou o nome de cientificismo ou positivismo.

O julgamento sintético, segundo Kant, é aquele que versa sobre questões de fatos e existências reais, enquanto o julgamento analítico versa sobre definições. Para Hume, os julgamentos sintéticos a priori não existem, pois dependem de uma experiência sensório-perceptual anterior. Mas Kant, de maneira revolucionária, julgava que, sim, tais julgamentos existem, e para tanto dotou a mente humana de formas transcendentais de apreensão sensorial, ou seja, de intuições, e de categorias transcedentais de entendimento. São essas formas e categorias que moldariam a experiência que temos. Kant achava que elas explicam a certitude e a incorrigibilidade da geometria euclidiana e da física newtoniana, o que se mostrou posteriormente falso. Kant chegou a um extremo que Locke e Hume não chegaram: substituir o realismo pelo idealismo. A única coisa, segundo Kant, que é independente da mente é a Ding an sich (a coisa-em-si), mas essas coisas-em-si seriam incognoscíveis. Em outras palavras, a verdade é incognoscível.

Para Adler, as teorias científicas e filosóficas devem ser refutáveis de três maneiras: (1) pela experiência, (2) pela argumentação racional e (3) pela combinação dos fatores (1) e (2). Se nenhuma dessas maneiras se aplicarem, então a opinião não deve ser promovida a conhecimento, mas deve permanecer no estágio de "mera opinião".

Erro nº5: hedonismo e imperativo categórico

O quinto erro é considerar que todas as regras morais são opiniões pessoais.

Os hedonistas igualam bem com prazer. Fica claro o relativismo e o subjetivismo que isso implica. Amizade, saúde, riqueza, conhecimento, sabedoria etc., nesse contexto, não seriam bens. Os hedonistas, entre os quais Epicuro e John Stuart Mill, erram ao não distinguir entre prazer sensual e a satisfação de termos nossos desejos atendidos.

Hume estava certo quando afirmava que uma conclusão prescritiva não pode ser derivada de uma premissa descritiva. No entanto, como ele não conseguiu descobrir a saída para esse dilema, acabou tornando-se um dos maiores responsáveis pelo ceticismo moderno.

A solução de Kant foi em uma direção radicalmente oposta: ele tentou transformar as obrigações morais em coisas totalmente independentes dos desejos e totalmente desprovidas de referências ao mundo real, sobretudo à natureza humana. O imperativo categórico é, no final das contas, uma lei moral a qual a razão deve se conformar, como se o imperativo categórico fosse uma verdade auto-evidente. Mas ele, na verdade, (1) não é auto-evidente e (2) resume-se à regra de ouro, que é uma recomendação vazia; afinal, o que deveríamos desejar que os outros fizessem conosco?

Adler ensina que o mandamento prescritivo é correto quando se conforma ao desejo correto. Mas o que devemos desejar? Há dois tipos de desejo: (1) desejos naturais (needs) e (2) desejos adquiridos (wants). Portanto, "devemos desejar aquilo que é realmente bom para nós, e nada mais". Trata-se de uma verdade auto-evidente, pois não podemos pensar o contrário disso.

Por fim, Adler entende que alguns bens realmente bons não são tão bons quanto outros. Por exemplo: prazer sensual e riqueza são bons com moderação, enquanto o conhecimento nunca existe em excesso.

Erro nº6: relativismo moral

O sexto erro consiste em considerar a felicidade como um estado psicológico, como mero "estar contente", e não um estado ético da "vida bem vivida". Essa postura acarreta o relativismo moral, ou seja, a recusa de que haja uma filosofia moral possível.

Felicidade é um fim último, que deve ser almejado em prol de mais nada. A felicidade é o bem completo, a soma de todos os bens, o bem total. Neste contexto, devemos entender que os desejos não podem se resumir a desejos do tipo wants, senão a felicidade seria apenas um bem passageiro.

Concebida como a qualidade moral de uma vida íntegra, as pessoas encontram dificuldade em aceitar que a felicidade não é algo desfrutável. A felicidade não é algo que se alcança e, depois, descansa-se nela por um tempo. Os filósofos modernos se esquecem da seguinte distinção:
  • Objetivo terminal: tem término (por exemplo, uma escultura).
  • Objetivo normativo: existe somente em um todo temporal (por exemplo, a excelência de um compositor).

Erro nº7: determinismo

O sétimo erro consiste na recusa em admitir que a vontade humana é livre.

A livre vontade consiste na possibilidade de poder escolher outra coisa ou outro curso de ação, a despeito do que tenha sido escolhido no momento.

Os defensores do livre arbítrio situam a ação da vontade fora do domínio físico. É isso que os deterministas não entendem. A vontade é um apetite (ou potência) intelectual, e não sensorial. O intelecto e a vontade são imateriais.

Os atos do intelecto são (1) necessitados, no sentido de que são necessários e incontornáveis quando confrontados com conhecimento genuíno, como as verdades auto-evidentes e as proposições além da dúvida razoável, ou são (2) arbitrários, no sentido de que são contingentes e contornáveis quando confrontados com as meras opiniões. Similarmente, os atos da vontade são necessitados (buscar a felicidade enquanto totum bonum) ou arbitrários (os demais bens). O fato da livre vontade ter sua causa indeterminada não significa que a vontade aja por acaso. Mas os defensores da livre vontade precisam entender que ipso facto a realidade não se resume ao mundo físico.

Erro nº8: igualitarismo

Os membros da espécie humana não têm uma natureza comum da mesma maneira que as espécies animais têm uma natureza comum. Os homens têm a mesma potencialidade. Por exemplo, o discurso sintático é uma potencialidade actualizada de maneiras distintas nos diversos subgrupos humanos. As diferenças entre as línguas são superficiais se comparadas à potencialidade de aprender e falar aquela língua. nas demais espécies. As diferenças são características determinadas, sejam elas fisiológicas, anatômicas, comportamentais etc.

Em suma, os homens possuem uma potencialidade inata e determinável; enquanto os animais são determinados.

Como todos os homens têm a mesma natureza, não há como um homem ser inferior a outro por natureza, mas apenas por privação familiar, educacional e/ou cultural. Isso evita os diversos preconceitos.

Erro nº9: contrato social

Homens e animais são naturalmente gregários. Mas os animais são gregários no sentido de que são geneticamente determinados. Os homens não, pois suas sociedades, neste caso, seriam rigorosamente iguais.

O maior erro político é o contrato social. Há dois mitos fundamentais a esse respeito: (1) o "estado natural" anárquico, de completa autonomia, (2) os homens, insatisfeitos com esse estado, resolveram de comum acordo fundar formas de governo. Trata-se de um absurdo, e basta pensarmos nos recém-nascidos, que jamais conseguiriam cuidar de si próprios. O erro, portanto, se corrige sabendo que as famílias e tribos se formam naturalmente para a preservação da vida (need) e que governos se formam naturalmente para viver uma boa vida (need), ou seja, uma vida moralmente boa.

Neste contexto, há dois erros modernos: (1) assumir que viver em um governo implica em preservar a mesma liberdade que havia antes, no estado natural (tal afirmação é evidentemente contraditória), o que pode levar a (2) achar que os homens podem viver harmoniosamente sem governo (Kropotkin, Bakunin, Marx, Lênin).

Erro nº10: materialismo metafísico

Quando uma coisa muda, não importa de que maneira se dê essa mudança, ela deve permanecer a mesma coisa durante esse processo de mudança. Caso contrário, como poderíamos falar que esta coisa está mudando? Sem esta identidade identificável, o ser humano, que obviamente também muda, não poderia ser responsável por seus atos, moralmente falando.

O que acontece com nossa identidade, se não passamos de um amontoado de partículas físicas mutantes? Trata-se do erro do reducionismo, segundo o qual as partículas são a maior e verdadeira realidade.

Werner Heisenberg reconhece que há diferentes graus de realidade. Para ele, "os átomos e partículas elementares não são tão reais; elas formam um mundo de potencialidades ou possibilidades ao invés de um mundo de coisas e fatos". Portanto, enquanto a cadeira existe, suas partículas existem apenas virtualmente. A existência virtual não significa que sua capacidade de existência actual esteja anulada. Se explodíssemos uma cadeira em seus elementos constituintes, essas partículas elementares assumiriam o modo de existência actual, como ocorre em um cíclotron.

Portanto, as coisas individuais e perceptíveis de nosso cotidiano têm um grau de realidade actual superior.

9 de agosto de 2010

Inteligência e conhecimento


Somente as pessoas santas são, por causa de sua pureza, espiritualmente inteligentes. Esta era a inteligência natural do homem antes da Queda. O mero exercício intelectual não basta para que as pessoas purifiquem sua inteligência, pois, desde a Queda, a inteligência humana encontra-se corrompida por pensamentos malignos. O espírito materialista e verborrágico da sabedoria deste mundo permite que versemos sobre as mais diversas esferas de conhecimento, mas também acaba tornando nossos pensamentos cada vez mais toscos e grosseiros. A combinação da dialética bem-intencionada com os pensamentos toscos não chega nem perto da verdadeira sabedoria e da verdadeira contemplação, muito menos do conhecimento indiviso e unificado.

A expressão "conhecimento da verdade" significa, acima de tudo, a apreensão da verdade mediante a graça. Os outros tipos de conhecimento devem ser considerados como sendo meras imagens de intelecções ou demonstrações racionais de fatos.

Fonte: São Gregório do Sinai, Philokalia, On Commandments and Doctrines, Warnings and Promises; on Thoughts, Passions and Virtues, and also on Stillness and Prayer: One Hundred and Thirty-Seven Texts

2 de agosto de 2010

Justificar o pecado é pior do que cometê-lo


No verão de 2003, o Diácono Rados Mladenovic relatou um encontro recente que havia tido com o primaz da Igreja Ortodoxa Sérvia, o Patriarca Pavle. Eis o que ele contou:

Nosso santo patriarca Pavle (1914-2009) visitou recentemente a cidade de Vrnjačka Banja, e fui até lá para cumprimentá-lo. Perguntei-lhe: "Como vai, Sua Santidade?"

"Muito bem", respondeu-me, e, voltando-se para as monjas, disse-lhes: "Sirvam o diácono e tragam o lanche".

As monjas de Zica sabiam que o Bispo Estêvão sempre me concedia o privilégio de tomar uma dose de conhaque quando eu o visitava em seu gabinete. Elas então trouxeram o café e perguntaram: "Sua Santidade, podemos servir uma dose de conhaque ao diácono?" O patriarca ficou em silêncio. "Sua Santidade, podemos trazer o conhaque para o diácono?" O patriarca continuou mudo.

Para quebrar o gelo, disse: "Sua Santidade, na minha cidade, dizem que um café sem conhaque é como um homem morto sem vela".

"Este é o problema, meu caro diácono", disse-me o patriarca, "o maior pecado não é quando o cometemos, mas quando tentamos justificá-lo!"

1 de agosto de 2010

O demônio da distração



O autor defende a idéia de que uma das características mais marcantes da modernidade é a distração crônica. É como se o próprio objetivo de vida das pessoas fosse distrair-se incessantemente, pulando de programas de TV a músicas pop a internet a leituras superficiais a video games e novamente a programas de TV etc. Esse tipo de comportamento produz o vício da distração (distractedness), cujo efeito é dissipar as energias mentais, reduzindo abruptamente a capacidade de concentração do indivíduo.

Ocorre que a falta de concentração não implica apenas em incapacidade para concentrar-se em problemas teóricos ou práticos, sejam questões filosóficas ou problemas mais ligados à vida profissional e familiar, mas implica, acima de tudo, em uma certa insensibilidade perceptiva para as coisas que transcendem o mundo psicofísico que cerca o indivíduo. E essa insensibilidade porta conseqüências que vão muito além de  prejudicar a vida de "sucesso" profissional ou social. Na verdade, as conseqüências acompanham o indivíduo depois da morte. Este assunto é tão importante que Smith não deixa de expressar grande surpresa ao constatar que as autoridades eclesiásticas raramente ou nunca versam sobre ele.

Os leitores cristãos ortodoxos certamente já ouviram falar da expressão "dispersão do noûs". Há diversas passagens das Sagradas Escrituras que indiretamente lidam com esta questão. Por exemplo, em Mateus 12:30, Jesus Cristo afirma que quem comigo não ajunta, espalha. Embora tradicionalmente aquele que não ajunta é Satanás, quem comigo não ajunta pode ser o próprio homem, enquanto espalha pode ser as múltiplas potências da alma do homem. Em Mateus 7:13-14, Cristo também diz: Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem. A porta estreita e o caminho apertado podem ser entendidos como sugestões à concentração.

Lembre-se de que a concentração mencionada não se refere apenas à concentração racional, filosófica, mas à concentração espiritual, ao recolhimento do noûs de volta ao coração místico, ao verdadeiro centro do homem. Este recolhimento é mencionado por Jesus Cristo: Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto (Mateus 6:6). Ademais, a literatura patrística deixa claro que o aposento não é apenas um lugar fisicamente isolado e afastado, embora tal conotação também esteja implícita, mas significa também o coração humano, o olho da alma, a consciência superior. É por isso que a vida espiritualmente sadia é inversamente proporcional ao grau de distração no qual se encontra o noûs humano. Quanto mais disperso o noûs, menos apegado estará à sua verdadeira identidade espiritual.

Desde a Queda, a raça humana apresenta um tipo de tendência pecaminosa que é muito mais sutil do que, por exemplo, os pecados ligados à concupiscência da carne. A natureza sensorial humana, aliada à imaginação, tagarela em voz alta dia e noite, sem parar, causando grande agitação e distúrbio à alma e ao espírito. É uma espécie de herança infernal, um verdadeiro "demônio da distração", ao qual, mais do que nunca, o homem moderno está sujeito.