26 de janeiro de 2015

A subclasse


Um espectro assombra o mundo ocidental: a “subclasse”.

Essa subclasse não é pobre, ao menos pelos padrões que prevaleceram ao longo de grande parte da história humana. Existe, em graus variados, em todas as sociedades ocidentais. Como todas as outras classes sociais, beneficiou-se enormemente do grande aumento geral da riqueza dos últimos cem anos. Em certos aspectos, de fato, desfruta de comodidades e confortos que dariam inveja a um imperador romano ou a um monarca absolutista. Também não é politicamente oprimida: não teme dizer o que pensa nem tem medo de ser surpreendida por forças de segurança durante a madrugada. Sua existência, no entanto, é miserável, de um modo especial de miserabilidade que lhe é próprio.

Por ter trabalhado anteriormente como médico em alguns dos países mais pobres da África, bem como em comunidades pobres do Pacífico e na América Latina, não hesito em dizer que o empobrecimento mental, cultural, emocional e espiritual da subclasse pobre ocidental é maior que o de qualquer outro grande grupo de pessoas que já tenha conhecido em qualquer outro lugar.

O comportamento humano não pode ser explicado sem fazer referência ao significado e às intenções que as pessoas dão aos próprios atos e omissões; e todos possuem um Weltanschauung, uma visão de mundo, saibam ou não disso.

A ideia de que a pessoa não é agente, mas uma vitima indefesa das circunstâncias, ou de grandes forças ocultas sociológicas ou econômicas, foi propagada incessantemente por intelectuais e acadêmicos que não acreditam nisso no que diz respeito a eles mesmos, é claro, mas somente no que concerne a outros em posições menos afortunadas. Há nisso um elemento considerável de condescendência: algumas pessoas não chegam à condição plena de humanos.

Na verdade, a maioria das patologias sociais apresentadas pela subclasse tem origem em ideias filtradas da intelligentzia. O clima de relativismo moral, cultural e intelectual – um relativismo que começa como um modismo de intelectuais – foi comunicado de maneira exitosa para aqueles menos capazes de resistir aos seus devastadores efeitos práticos. O relativismo linguístico e educacional ajuda a transformar uma classe em casta – quase em uma casta de intocáveis.

Os intelectuais dizem não existir alta ou baixa cultura: a própria diferença é a única distinção reconhecível. Esse é um ponto de vista disseminado pelos intelectuais ávidos por demonstrar entre si opiniões abertas e democráticas.

A falta de sinceridade dos elogios que os intelectuais fazem à baixa cultura é óbvia para qualquer pessoa que tenha um conhecimento mínimo da grandiosidade dos feitos humanos. O fato é que a cultura aviltada recebe tamanha atenção e elogios sérios que ilude seus consumidores, levando-os a supor que não existe nada melhor que aquilo que já conhecem e de que gostam. Tal adulação é, portanto, a morte da aspiração, e a falta de aspiração é, certamente, uma das causas da passividade.

Será que o destino dessa subclasse importa? Se a miséria de milhões de pessoas importa, então, certamente, a resposta é sim. Mesmo se estivermos satisfeitos em confiar o destino de tantos cidadãos ao purgatório da vida nos bairros pobres, esse não seria o fim da questão.

No mundo moderno, más ideias e suas consequências não podem ficar confinadas ao gueto. O relativismo cultural se alastra muito facilmente. Os gostos, a conduta e os costumes da subclasse estão se infiltrando na escala social com surpreendente rapidez. No que diz respeito à moda do vestuário, dos adornos corporais e da música, é a subclasse quem, de modo crescente, imprime o ritmo. Nunca antes aspirou-se alcançar níveis culturais tão baixos.

O padrão desastroso de relações humanas que existe na subclasse também tem se tornado comum na escala social mais alta. A violência e posterior abandono são, em geral, muito previsíveis dados o histórico e a personalidade dos homens da subclasse, mas as mulheres que foram tratadas dessa maneira dizem que se abstiveram de julgar o companheiro porque é errado fazer juízos de valor. Se, contudo, não forem capazes de emitir um juízo sobre o homem com quem viverão e com que terão filhos, sobre o que emitirão juízos? “Não deu certo”, dizem, e o que não deu certo foi o relacionamento, que concebem como algo possuidor de existência independente das duas pessoas que o compõem, e que exerce uma influência nas suas vidas como se fosse uma conjunção astral.

Para a subclasse, a vida é sorte.

Fonte: Theodore Dalrymple, A Vida na Sarjeta, É Realizações Editora, São Paulo, 2014, p. 16-23, adaptado.

20 de janeiro de 2015

O inconsciente espiritual


Nos séculos XIX e XX, a noção de inconsciente psíquico foi objeto de teorias desenvolvidas e poderosamente estruturadas (Freud, Jung, Adler etc.) que podem levar a acreditar que se trata de uma descoberta recente.

Na realidade, a existência de um inconsciente psíquico é um fato conhecido desde a mais remota Antiguidade. Platão, por exemplo, faz alusão a isso, pondo em relação o sonho com os desejos insatisfeitos ou a agressividade não expressa e apresentando uma concepção que antecipa a do recalque.

Podemos dizer que existe também um inconsciente corporal que é constituído por tudo o que existe, age ou se produz em nosso corpo mas não tem intensidade suficiente para que o percebamos e dele tomemos uma consciência clara (Leibniz chamava isso de “pequenas percepções”).

Do mesmo modo existe um inconsciente espiritual.

A noção de inconsciente espiritual foi evocada principalmente pela psicanálise existencial, cujos principais representantes foram Igor Caruso, Wilfried Daim e Viktor Frankl. Viktor Frankl consagra ao inconsciente espiritual um breve capítulo em seu livro O Deus inconsciente; mas no que se refere à espiritualidade ele fica em generalidades, o que sem dúvida lhe era imposto por seu projeto de elaborar uma psicoterapia que fosse aplicável aos seres humanos de todas as crenças. Sua tese principal é que toda neurose resulta de uma perda do sentido da existência, e que a única terapêutica adequada é a “logoterapia”, que visa a encontrar o sentido perdido, que reside em Deus. Quanto a Igor Caruso, ele considera que toda neurose resulta de uma absolutização (e portanto de uma deificação) de valores relativos, e que a terapêutica consistirá pois em dar de novo aos valores da existência sua justa dimensão. Seu discípulo Wilfried Daim retomou esta concepção. Segundo ele, o ser humano, constituído por uma relação vital com o Absoluto, desencadeia em si conflitos psíquicos cada vez que confere um caráter absoluto a seres relativos e substitui por ídolos o único absoluto que é Deus.

Como vemos, esses autores permanecem no quadro da psicopatologia, isto é, da parte da psicologia que se interessa pela origem, pela forma, pela evolução e pelo tratamento das doenças psíquicas. Sua referência a Deus, ainda que reivindique judaica no caso de Frankl e cristã no caso de Daim e Caruso, permanece muito geral.

Podemos por isso dizer que o inconsciente espiritual é uma noção que, no próprio quadro da espiritualidade cristã, não chegou até hoje a ser objeto de nenhum estudo sistemático. Entretanto, as referências ou as alusões ao que podemos designar como um “inconsciente espiritual” são suficientemente numerosas nas fontes tradicionais (especialmente nos escritos patrísticos) para que possamos considerar que há na espiritualidade cristã oriental uma concepção subjacente do inconsciente espiritual e que ela pode servir para compreender uma grande parte não somente da vida espiritual, mas ainda, por via de consequência, da psicologia e do comportamento humanos que lhe são relativos, inclusive naqueles que não entendem seu ser e seu modo de existência em relação a Deus ou em relação a uma espiritualidade definida.

Notamos que a relação do ser humano com Deus pode ser positiva ou negativa. A esta distinção correspondem duas dimensões do inconsciente espiritual.

A dimensão positiva do inconsciente espiritual é constituída por tudo o que no ser humano o liga, o une a Deus e o orienta para Ele, sem que ele esteja consciente; por estas razões podemos qualifica-lo de “inconsciente teófilo”. Sua dimensão negativa é constituída por tudo o que desprende, separa, afasta o ser humano de Deus e o orienta em um sentido oposto a Ele, sem que ele esteja consciente; podemos assim qualifica-lo de “inconsciente deífugo”.

Essas duas dimensões do inconsciente espiritual moram juntas em todos os seres humanos, segundo proporções variáveis, relativas a cada um, no grau de consciência que ele tem de uma e de outra, mas também na sua história pessoal pela parte de inconsciente relativa a esta história.

No homem decaído que vive longe de Deus e de toda preocupação espiritual o inconsciente atinge o mais alto grau.

No cristão que leva uma vida espiritual, a vida ascética (no sentido amplo em que a entendemos) permite uma tomada de consciência progressiva e, em consequência, uma redução do inconsciente espiritual em suas duas dimensões. No asceta que atinge a impassibilidade, a dimensão negativa do inconsciente espiritual desaparece, do mesmo modo que sua dimensão positiva, em proveito de uma plena consciência do que ele é em sua relação com Deus.

As duas dimensões do inconsciente espiritual não devem ser concebidas como realidades estáticas, mas como realidade dinâmicas, não somente no sentido de que são suscetíveis de um aumento ou de uma redução em relação à consciência que a pessoa tem, mas igualmente no sentido de que têm uma atividade e um dinamismo próprios quanto à sua forma e ao seu conteúdo.

Essa atividade tem uma influência sobre a vida espiritual da pessoa, mas também sobre sua vida psíquica, na medida em que está é relativa àquela.

O inconsciente teófilo

O inconsciente teófilo pode ser compreendido, de maneira geral, sob quatro aspectos.

a)      A díade logos-tropos

A dimensão positiva do inconsciente espiritual é constituída fundamentalmente, em cada ser humano, pelo logos de sua natureza.

O “logos da natureza” do ser humano é a definição da natureza humana segundo o projeto divino, tal como Deus a concebeu e quis antes dos séculos em Seu Desígnio, e portanto também como Ele a realizou criando-a.

Portanto, é o que define fundamentalmente, caracteriza essencialmente o ser humano ao sair das “mãos de Deus”. É também a natureza humana em sua qualidade de criação ‘boa”, em sua (relativa) perfeição original.

Mas o logos da natureza define também sua finalidade, isto é, o fim que Deus lhe determinou, fim já pontencialmente ou idealmente realizado segundo a ideia-vontade de Deus, que corresponde, pois, para a natureza à norma de sua perfeição, a um ideal de realização ou de acabamento de si mesma, da qual é portadora e para a qual ela tende. Assim, o “logos da natureza” é ao mesmo tempo “uma lei natural e divina”.

Entre todas as faculdades do ser humano dinamicamente orientadas para Deus, o intelecto (noûs) vem em primeiro lugar. Máximo evoca o impulso natural do intelecto para Deus e observa que ele tende, por esse impulso natural, a procurar Deus, sublinhando também a capacidade natural desta faculdade de gozar espiritualmente de Deus no fim desse impulso. De acordo com um modo que corresponde À sua natureza, a razão tem a mesma tendência.

Em segundo lugar vem o desejo. Máximo Confessor observa que temos “um desejo natural de Deus”. E associando as faculdades de conhecer e de desejar ele escreve: “Deus, que fundou com sabedoria toda natureza e que, secretamente, inseriu em cada uma das essências racionais  como faculdade primeira o conhecimento dEle mesmo, deu-nos também, a nós humildes seres humanos, como Mestre generoso, segundo a natureza, o desejo voltado para Ele e o amor [dEle], tendo-lhe associado naturalmente o poder da razão, pela qual nos é possível conhecer facilmente os modos de realização [desse] desejo e de não deixar escapar por erro o que nos esforçamos para obter”.

Em terceiro lugar vem o poder irascível, que Máximo associa à razão e ao desejo, para lhe reconhecer Deus como finalidade de seu uso: “O fim da operação raciocinante da alma é o verdadeiro conhecimento; o fim da operação desejante, o amor, o fim da operação irascível, a paz [...] Daí vem que, naturalmente, tenhamos a capacidade de raciocinar para buscar Deus, que tomemos a faculdade desejante (epithumia) para desejá-lo, só a Ele, e que o poder irascível (thumos) nos seja concedido, a fim de lutar por Ele só”.

A estas faculdades principais que desempenham um papel essencial na orientação dinâmica da natureza humana para Deus, é necessário acrescentar a vontade (thelema, thelesis), que depende, como sublinhou Máximo, da essência ou da natureza e não da hipóstase. Segundo Máximo, a vontade é “uma orientação geral da natureza racional comum para o bem conforme esta natureza, uma harmonia com o que lhe dará seu ser acabado”, isto é, Deus. “Enquanto natural”, a vontade humana não somente “não é contrária a Deus”, mas “quando ela é típica e movida nativamente [isto é, segundo a sua natureza] está em sintonia [com Deus]” e tende para Ele como Aquele em quem a natureza encontrará sua realização. Podemos, pois, dizer que “a deificação [é] o fim supremo ao qual tende a vontade humana”, do mesmo modo que a deificação corresponde à “plena satisfação do desejo profundo do ser humano pelo retorno a seu princípio”.

É aí que intervém, no pensamento de São Máximo, em relação com a de logos, a noção de tropos.

Enquanto o logos refere-se À essência ou à natureza, o tropos é relativo à hipóstase ou à pessoa.

Enquanto o logos define a natureza, os poderes (ou faculdades) desta e as atividades (ou operações) destes poderes, o tropos define a maneira pela qual essa natureza existe e a maneira (ou o modo) pela qual suas faculdades se exercem ou operam. Enquanto o logos é imutável, o tropos varia segundo as pessoas. Ele depende da disposição da vontade (gnome) [7] assim como da escolha (proaireses) de cada um, e as expressa em uma maneira de ser ou em um comportamento (é o sentido elementar da palavra tropos) que toma seu sentido relativamente ao logos; este, como vimos anteriormente, define a norma daquilo que o ser humano é segundo a sua natureza verdadeira, tanto quanto À constituição essencial desta quanto a seu fim ou à sua realização de acordo com a ideia-vontade de Deus. Para São Máximo, é pelo modo de realização da operação natural que “é conhecida a diferença daqueles que agem e das coisas que são efetuadas, a favor ou contra a natureza”, e que é segundo o tropos que “se é justo ou injusto, mais ou menos, como isto ou como aquilo, segundo nos prendemos mais à natureza ou nos afastamos mais dela”.

Enquanto a pessoa leva um modo de existência que contradiz o logos de sua natureza, este logos continua a existir nela e a orientar dinamicamente sua natureza para Deus. Ele constitui um inconsciente espiritual que possui, de algum modo, sua vida e seu dinamismo próprios, continuando a orientar a natureza para Deus, mesmo quando um modo de existência contrário a Deus é levado pela pessoa que vide no pecado, nas paixões e no esquecimento de Deus.

Podemos dizer que o estar mal constitui um recalque ativo e permanente das tendências da natureza por um modo de existência contrário a essas tendências.

Produz-se então, no fundo do ser humano decaído, um conflito, igualmente inconsciente, por um lado entre ao que a natureza aspira profundamente e tende através de todas as suas faculdades e, por outro lado, a atividade que a pessoa dá a estas faculdades, fazendo uso delas em um sentido contrário ao logos da natureza.

Daí que o ser humano se torno assim inimigo de si mesmo, como sublinharam vários Padres, inclusive São Máximo, alimentando pelo pecado e pelo modo de vida que lhe está ligado um conflito entre o que ele quer ser em sua natureza profunda e o que ele escolhe ser em seu modo de existência decaído.

No ser humano que vive no pecado e nas paixões, o livre-arbítrio contradiz e recalca em permanência a vontade de sua natureza. Esta não pode se impor, porque ela depende do livre-arbítrio da pessoa para que possa ou não se expressar e se realizar.

O logos da natureza se expressa, entretanto, por um lado, nas tendências positivas e boas do ser humano, como por exemplo num certo sentido do bem e do mal ou da justiça e da injustiça, no amor experimentado por seus pais, por seus filhos ou por seu cônjuge, na amizade, nos sentimentos de piedade e de compaixão, nas manifestações de ajuda mútua ou de solidariedade, na busca da justiça e da paz etc. Mas, mais frequentemente, essas tendências, não estando mais ligadas conscientemente a seu princípio e a seu fim em Deus, perdem sua qualidade espiritual.

O logos da natureza se expressa, por outro lado, de uma maneira desviada nas atitudes, nos cultos e nos ritos pseudo-religiosos aos quais se entregam, em graus diversos e de uma maneira muitas vezes inconsciente, todos os seres humanos, sem exceção. Poderíamos falar aqui de um “retorno do recalcado”, na medida em que a orientação dinâmica para Deus, que caracteriza fundamentalmente o logos da natureza humana e é, portanto, ativa em todo ser humano, assim mesmo chega a se expressar no nível consciente, mas em uma forma desviada, travestida, deformada, faltando à sua finalidade verdadeira.

b)      A díade imagem-semelhança

A díade logos-tropos, analisada sobretudo por São Máximo Confessor, corresponde , nele e em muitos outros Padres gregos, a uma díade mais conhecida: a imagem (eikon) e a semelhança (omoiosis) de Deus.

Geralmente os Padres consideram que é fundamentalmente por sua alma intelectiva e racional que o ser humano é criado à imagem de Deus.

O ser humano é criado igualmente à imagem de Deus por sua capacidade de autodeterminação, que, como vimos, se identifica, para São Máximo, com a vontade natural.

Entre as propriedade constitutivas da natureza do ser humano que são participações naturais nas propriedades divinas e fazem dele um ser à imagem de Deus figuram, pois, o fato de ser inteligente e razoável, assim como a independência (autodespoton) e a autodeterminação (autexousion).

Algumas dessas propriedades constitutivas da imagem de Deus referem-se ao começo, outras ao fim do ser humano. São Máximo Confesor considera ser a imagem de Deus o logos do ser humano, o qual, como vimos, define as características essenciais do ser humano, mas também o que ele é, ideal e potencialmente, segundo a vontade de Deus, seu fim assim como a tendência a este fim. Figuram igualmente como componentes da imagem de Deus propriedades que da mesma forma permitem ao ser humano realizar seu fim. É assim que Máximo une à imagem o movimento em direção ao ser, a capacidade de buscar Deus e de tender a Ele. São Máximo tem, pois, uma concepção da imagem de Deus no ser humano eminentemente dinâmica. Para ele, mas também para outros Padres gregos, a imagem é um conjunto de capacidades que permitem ao ser humano realizar a semelhança, e ela o orienta já dinamicamente para essa realização.

A semelhança, mesmo que não conheça solução de continuidade em relação à imagem, é de uma outra natureza. Enquanto a imagem refere-se à natureza, a semelhança é relativa à hipóstase. Enquanto a imagem faz parte da constituição natural do ser humano e lhe é dada de imediato pelo Criador, não supondo nenhuma intervenção de sua parte, a semelhança no início só é potencial; ela pede sua participação pessoal para ser realizada e é, neste sentido, tributária de seu livre-arbítrio. De acordo com São Máximo, enquanto a imagem dependo do logos de sua natureza, a semelhança depende de seu gênero de vida, em outras palavras do modo (tropos) de sua existência.

Enquanto Deus possui por natureza as qualidades que correspondem às virtudes, o ser humano é chamado a possuí-las pela participação. Cabe-lhe por disposição querer e por escolha adquiri-las, e isto fazendo-se pessoalmente o imitador de Deus. Enquanto a posse da imagem é imediata, a posse da semelhança é o fruto de um devir, não pode ser adquirida senão no final de um esforço ascético constante pelo qual o ser humano procura se conformar ao Arquétipo divino, e em consequência de um modo de vida habitual conforme às virtudes que a constituem. De fato, pela vida segundo as virtudes, ligada à prática dos mandamentos divinos, o ser humano se torna semelhante a Deus.

c)       A alma naturalmente cristã

Um terceiro aspecto do inconsciente teófilo fará aparecer o caráter não somente religioso mas propriamente cristão da concepção do inconsciente que desenvolvemos.

Muitos Padres afirmam que é à própria imagem do Logos, do Verbo de Deus, que Adão foi criado, e que o próprio mistério da criação do ser humano à imagem do Logos liga-se ao mistério da deificação do ser humano no Verbo encarnado. Não há para o ser humano, desde a sua criação, a não ser um fim normal: a semelhança com Cristo, norma da realização de sua natureza, plena e claramente revelada na Encarnação de Jesus. O ser humano foi criado como ser “lógico” (logikos), isto é, racional, mas mais fundamentalmente como um ser cristológico, significando logikos para os Padres conforme ao Logos, ao Verbo de Deus. E os Padres chegam mesmo a afirmar que o ser humano foi criado não somente à imagem do Logos enquanto Deus, mas mesmo à imagem do Logos encarnado, do Cristo Deus e homem, e que ele tem por destino, desde a sua criação, por causa de sua própria natureza, tender com todo o seu ser a se assimilar ativamente a Cristo. São Nicolau Cabasilas escreve assim: “A natureza humana foi criada desde a origem em vista do Homem Novo, a inteligência e o desejo do ser humano são criados para o Cristo: recebemos a inteligência para conhecer o Cristo, o desejo para que sejamos atraídos para Ele e a memória para carregá-lo em nós. E isto ainda mais que Ele serviu de modelo à nossa criação. De fato, não foi o velho Adão o modelo (paradeigma) do Novo, mas o Novo do antigo (cf. Rm 5,14). Para nós, que o reconhecemos como nosso ancestral, o primeiro Adão passa como sendo o arquétipo da natureza humana; mas para Aquele que tem diante dos olhos todos os seres, antes mesmo que eles existissem, o ancestral é apenas a imitação do novo Adão. Ele foi criado à imagem e semelhança deste último”. Podemos pois dizer que “o ser humano tende ao Cristo não somente por causa da divindade de Nosso Senhor, mas também por causa desta outra natureza [a humana] que Ele possui”. São Gregório Palamás ensina no mesmo sentido: “Já a própria formação do ser humano desde a origem, criado à imagem de Deus, foi em vista do Cristo, a fim de que o ser humano possa, no tempo preciso, compreender nele o Arquétipo”.

(d) A graça

Uma outra dimensão do insconsciente teófilo no ser humano consiste na graça divina da qual ele participa. Esta graça está presente em diferentes graus e sob diferentes formas, se bem que se trata sempre da mesma graça, divina em sua natureza e em sua origem.

A presença ativa de Deus nos logoi dos seres corresponde ao que a teologia ortodoxa chama de energias divinas. Assim, São Máximo Confessor observa que o intelecto, na multidão dos logoi que pode perceber nos seres, se tiver as disposições requeridas, “contempla as energias de Deus”. De fato, explica ele, “em cada logos de cada coisa particular, e semelhantemente em todos os logoi segundo os quais todas as coisas existem, é Deus”, que entretanto não é nenhum dos seres e está acima de todos. “Toda energia divina significa Deus todo inteiro indivisivelmente através dessa energia”; mas, tudo “sendo todo inteiro e comumente em todos e particularmente em cada um dos seres, Deus o é sem parte nem partilha, não estando nem separado diversamente nas diferenças infinitas dos seres nos quais Ele está inerente, portanto nem contraído segundo a existência particular de um só, nem contraindo as diferenças dos seres segundo a única totalidade de todos, mas Ele é verdadeiramente tudo em todos, Ele que não sai nunca de Sua própria e indivisível simplicidade”.

As energias divinas, enquanto são comunicadas, dadas por Deus às criaturas, são comumente chamadas de “graça”.

Essas energias divinas que se manifestam em todos os seres da criação em graus diversos estão presentes no ser humano em um grau eminente, visto que ele ocupa a primeira fila entre as criaturas e é a única das criaturas feita à imagem de Deus. Essas energias divinas estão presentes no logos da natureza humana, mas também, bem entendido, na imagem de Deus no ser humano, que caracteriza fundamentalmente esse logos, e igualmente nas virtudes, que estão presentes na natureza de uma certa forma.

O inconsciente deífugo

São Macário nota o caráter inconsciente, para a maioria dos seres humanos, dos efeitos neles do pecado ancestral: “O pecado que se introduziu [pela desobediência de Adão] e que corresponde a um certo poder espiritual de Satanás e a uma realidade semeou todos os males. Sem ser descoberto, ele age no homem interior e nos seu espírito, e introduz a guerra nos pensamentos. Mas o ser humano ignora que ele age por instigação de uma força estranha. Ele imagina que tudo isso é natural e que se trata de suas próprias reflexões”. João o Solitário, ao ser questionado por Eusébio por que razão os seres humanos cuidam das doenças de seu corpo mas não se preocupam com as doenças de sua alma, responde que, sob o efeito do pecado, “eles se tornam incapazes de ver e de ouvir, mas [são] parecidos com mortos que não sentem nenhuma piedade por seu estado interior”. “Doentes que somos”, constata São João Clímaco, “não podemos diagnosticar [as doenças espirituais que estão em nós], ou por causa de nossa fraqueza, ou porque elas estão muito profundamente enraizadas”.

O ser humano decaído, na medida em que não tem consciência de seu estado doentio, negligencia deixar-se cuidar e afirma que não tem necessidade da cura que lhe propõem. Numerosos são aqueles “incapazes de sentir suas paixões. E como eles não as sentem não se empenham também em curá-las”, constata Santo Isaque. Eles resistem à medicina espiritual. “De fato, como aceitaria ser cuidado aquele que não se deixa convencer de que vive doente ou ferido?”, pergunta São Simeão. Ora, ficando inconsciente de seu estado, ele só o agrava. “A pior das doenças é aquela que consome um paciente sem que ele suspeite disso”, observa São João Crisóstomo, que aliás observa no mesmo sentido que “ignorar a si mesmo é a pior das loucuras e dos frenesis”.

A esse respeito, há assim uma distância considerável entre o pecador que é como um cego a seu respeito e aquele que progride na ascese. Enquanto este as desaloja nos recônditos mais escondidos de sua alma, aquele se crê isento delas desde que não atinjam proporções extraordinárias em relação ao estado de decadência médio da humanidade ambiente. É assim que São Macário observa: “Tanto tempo quanto um ser humano é retido nas coisas visíveis deste mundo, cercado das diversas cadeias da terra, arrastado pelas más paixões, ele não sabem nem mesmo que há um outro combate, uma outra luta, uma outra guerra dentro dele. De fato, só quando um ser humano levanta-se para combater e se libertar de todos os laços visíveis deste mundo [...] e começa a permanecer com perseverança diante do Senhor, esvaziando-se deste mundo, só assim ele pode conhecer o combate interior das paixões que se ergue nele, a guerra interior e os pensamentos maus. Como dissemos, tão longo tempo quanto alguém não luta, não renuncia ao mundo, não se desprende de todo o seu coração da cobiça terrestre, não quer se unir inteiramente e sem reserva ao Senhor, ele não conhece sem as astúcias secretas dos espíritos de malícia, nem as paixões escondidas nele. Mas ele é estranho a si mesmo, não sabendo que traz em si as chagas das paixões secretas”. Notemos que, de todas as paixões, é o orgulho que obnubila mais a consciência do ser humano e o leva a ser inconsciente de suas doenças, tanto das menores ou mais sutis como das mais importantes. “O orgulho”, diz São João Clímaco, “produz um total esquecimento dos pecados”. “A maioria dos orgulhosos”, constata ele ainda, “ignoram a si mesmos e acreditam ser impassivos; somente na hora da morte eles descobrem a sua pobreza”. Aliás, ao orgulho está ligado o que os Padres chamam de “mania de se justificar”, atitude pela qual o ser humano, em presença de seu pecado, recusa-se a reconhecê-lo como seu, recalca a consciência.

Não é apenas por não ser suficientemente desperto espiritualmente que explica o fato do ser humano ser total ou parcialmente inconsciente das paixões que o habitam. Frequentemente, como observa São Máximo Confessor, as paixões estão em um estado de anergesia (anergesia), em outras palavras, de inativação ou de sono. Tal estado pode durar mais ou menos tempo e fazer o próprio espiritual acreditar que está isento ou liberto desta ou daquela paixão, que faz algum tempo não se manifestou ou até mesmo nunca se revelou. Assim, pode se estabelecer na alma um estado de paz na verdade ilusório.

De fato, ao lado do estado de paz autêntico que resulta da impassibilidade (estado que atinge o ser humano no cume da práxis, quando ele está realmente liberto de toda paixão), pode existir, como assinala Evágrio, um falso estado de paz que resulta da retirada dos demônios, sobretudo quando eles estão seguros de possuir mesmo sua vítima, com um outro ponto de vista. É o caso por exemplo quando a vaidade ou o orgulho vêm tomar na alma o lugar de todas as outras paixões.

Pode acontecer também que o ser humano tenha a consciência abafada pelas atividades mundanas múltiplas e febris às quais ele se entrega, que suas paixões lhe sejam veladas por suas preocupações cotidianas que o impedem de considerar seu estado. “Graças a seu corpo”, nota neste contexto São Doroteu de Gaza, “a alma é distraída e aliviada de suas paixões. Mas “que venha um de vocês e que eu o feche em uma cela escura, que ele passe somente três dias sem comer, sem beber, sem dormir, sem ver ninguém, sem salmodiar, sem rezar, sem nunca se lembrar de Deus, e ele verá o que lhe farão as paixões”.

Quando o ser humano renuncia à vida mundana para se comprometer profundamente com a vida espiritual, é normal igualmente que paixões das quais ignorava a existência nele ou que lhe pareciam até então pouco desenvolvidas despertem e revelem-se então com toda a sua intensidade. “Não nos admiremos”, escreve São João Clímaco, “de nos ver mais sujeitos às paixões nos começos de nossa vida monástica do que o estávamos quando vivíamos no mundo. [...] De fato, os animais ferozes já estavam lá, escondidos, mas não se mostravam”. E Santo Talássio observa: “As piores paixões estão escondidas nas almas. Mas aparecem quando as coisas são repelidas”.

Este ensinamento de São João Clímaco evidencia o fato de que a paixão, enquanto não tiver sido totalmente extirpada, não somente subsiste na alma, mas nela se desenvolve sem que a pessoa tenha consciência disso; tomando incremento, ela adquire uma força que exerce uma pressão e a revelará com violência, assim que um objeto que lhe seja conveniente lhe der a ocasião de se expressar, todavia com a condição de que o ser humano esteja bastante desatento para lhe deixar o caminho livre e não a dominar pela força da graça.

É evidente , desde este momento, que uma das primeiras funções da terapêutica posta em prática para curar o ser humano decaído de suas paixões será fazer aparecê-las bem claramente, torná-lo plenamente consciente delas.

Fonte: Jean-Claude Larchet, O Inconsciente Espiritual, Edições Loyola, São Paulo, 2009, trechos selecionados.

7 de janeiro de 2015

"Eu me amo e quero você"


Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. (Mateus 5:29-30)

Isso não significa que devamos nos mutilar fisicamente, mas que devamos, isso sim, estar dispostos a abrir mão do que quer que nos conduza ao pecado, mesmo aquilo que em si aparente ser perfeitamente bom. Em outras palavras, temos de fazer alguns sacrifícios em prol de nosso bem-estar espiritual. Não existe atalho para a santidade.

Todo esse sacrifício é em última instância feito visando o amor. A autonegação deve ser exercida visando o amor a Deus e ao próximo. Desnecessário dizer que esse tipo de amor não tem a ver com emoções ou sentimentos, mas trata-se de uma doação dinâmica de nossas vidas ao próximo. Jesus disse: "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos" (João 15:13). Precisamente este é o amor de Deus por nós:

Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou Seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o Seu amor. (I João 4:10-12)

Hoje em dia muito se fala sobre o "amor". Todavia, a ideia secular de amor tem a ver com auto-satisfação, não com auto-sacrifício. No mais das vezes, "eu te amo" significa "eu me amo e quero você". Isso não é amor, mas uma paródia demoníaca de amor. Quem quer que pregue um sistema ético baseado num amor que não envolva autonegação e auto-sacrifício prega a doutrina do Anticristo. Não se deixe enganar pelos lobos em pele de cordeiro. O amor que não exige a entrega total de si não é amor. Conforme ensinou São Tiago:

E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? (Tiago 2:15-16)

Portanto, o caminho do Cristo é o caminho da Cruz. Não há caminho alternativo à vida eterna que não seja através do sacrifício do amor sofredor.

Fonte: The Faith, Clark Carlton, Regina Orthodox Press,Salisbury, EUA,  1997, pág. 131-132.

Nota: um exemplo de falso sistema ético de amor é o apresentado por José Ortega y Gasset aqui.

14 de março de 2014

Somos como o jumento que carrega o Cristo


Quando o Cristo entrou em Jerusalém montado em um jumento, as pessoas O receberam com flores e saudações. O jumento achou que tudo aquilo era para ele. Somos como o jumento que carrega o Cristo. Tenho muitos talentos, mas será que os tenho porque sou digno deles? Foi uma mão generosa que os semeou...e vivo com ela. Procuro não esquecê-la e não traí-la. Não tenho orgasmos com meu "ego". Compreendo que eu, Pyotr Mamónov, não fiz nada pelas minhas próprias forças. Não tenho nada do que me gabar. A quem Deus dá, Ele pede de volta. Devemos viver da maneira mais pura possível. Tudo é tão frágil, desprotegido.

Fonte: trecho do discurso de Pyotr Mamónov na premier do filme "Óstrov" (A Ilha).

11 de março de 2014

Quem aplaca o orgulho exalta a humildade: a importância do perdão


“Quem – eu? – eu tenho de ir primeiro pedir perdão?! Por que eu deveria me humilhar e me rebaixar para ele? Quem ele pensa que é? E onde fica minha dignidade?” etc. Quem nunca disse coisas parecidas antes? Provavelmente todos nós, mas o fato é que Jesus Cristo nunca disse que deveríamos perdoar somente quando nossos oponentes viessem pedir perdão primeiro. Ele jamais ensinou que o menor deveria pedir perdão primeiro. Todos devem perdoar seus inimigos pessoais sempre que qualquer coisa tenha ferido seu orgulho. Se quem começou a briga resolver humildemente pedir desculpas a seu oponente, ser-lhe-á apagada a culpa de sua alma; se o inocente permanecer irreconciliável em seu orgulho, tornar-se-á ainda mais culpado do que quem começou a briga.

Os Santos Padres ensinam que quem perdoa sempre vence. A despeito das circunstâncias, se você perdoar, sua alma imediatamente será limpa e tornar-se-á digna do Paraíso. Se perdoar quem armou uma cilada para assassiná-lo, terá se tornado igual a um mártir. Quem aplaca o orgulho exalta a humildade.

Suponha que você tenha discutido com vizinho porque ele lhe tomou dinheiro emprestado e acabou não honrando sua dívida com você, e também não quer mais pagar-lhe de volta o que deve. O que devemos fazer para não pecar? Jesus Cristo disse que devemos perdoar! É claro que podemos gentilmente pedir-lhe que pague o que deve. Se o devedor perceber que é pecado roubar dinheiro dos outros e acabar por lhe devolvendo a soma emprestada, isso será bom para ele e para você. Mas se ele não lhe devolver, você deve deixar tudo nas mãos de Deus e perdoá-lo. Uma só prioridade você deve ter em mente – espantar o pecado! É melhor ser trapaceado do que levar o caso ao tribunal (cf. I Coríntios 6:7)!

É verdade que, agindo dessa forma, você perderá algo importante para o corpo, mas ao mesmo tempo ganhará algo muito mais precioso para a alma: você mostrará que estima o amor ao próximo mais do que o dinheiro e, assim, cortará as raízes do ódio de sua alma! É exatamente para ensinar essa verdade que Jesus Cristo deixou-lhe este mandamento: E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. (Mateus 5:40)

O ladrão rouba a propriedade, mas Deus vê tudo. Se perdoar, Ele lhe recompensará mil vezes no céu e considerará a propriedade roubada como esmola. Então seu inimigo, contra a vontade dele, tornar-se-á seu benfeitor, e com sua ajuda você será salvo mais facilmente.

Perdendo o que é temporal você ganha o que é eterno. Como os Santos Padres tinham razão! Você consegue perceber isso, caro leitor? Se sim, bom para sua alma, mas se ao lembrar de seus inimigos e devedores você balança a cabeça em desaprovação é porque ainda não consegue imaginar como perdoar os malfeitores que lhe roubaram nem como se reconciliar com aquele que lhe insultou. Nesse caso, você não está no caminho certo – ora, são precisamente a esses inimigos odiosos que lhe é mandado perdoar. Se sua alma ainda é atormentada por pensamentos negativos, então é porque você ainda não experimentou o doce sabor do perdão; seus interesses carnais ainda falam mais alto do que os interesses espirituais. Você, todo preso na rede das coisas mundanas, não consegue alçar voo até os horizontes do espírito onde Jesus Cristo prepara uma grande bênção a Seus seguidores. Se, porém, você percebe que o conselho dos Santos Padres está certo, mesmo que eles desconheçam os interesses materiais e temporais que lhe afligem e que de qualquer forma devemos perdoar nossos inimigos, se você percebeu que há algo de profundamente verdadeiro no que acabou de ler, por mais tolo que possa parecer aos olhos do mundo, sorte a sua – pois você acaba de encontrar o caminho que leva ao Reino dos Céus.

A pessoa vingativa permanece irreconciliável. São Tikhon de Zadonsk disse muito claramente: “As portas da misericórdia de Deus estão abertas aos ladrões, aos assassinos, aos fornicadores, aos publicanos e todos os pecadores, mas estão fechadas aos vingativos”.

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, Strife and Reconciliation, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.

28 de fevereiro de 2014

Quanto mais escura a noite, mais brilham as estrelas


Os sofrimentos dos infiéis são como as tempestades que tudo destroem, mas as lágrimas dos fiéis são como as chuvas finas e graciosas que fazem florescer as belas flores da virtude na alma. Eis uma das mais extraordinárias características de nossa fé cristã: ela traz a paz mesmo em meio ao sofrimento. Ela transforma os sofrimentos em júbilo.

[...]

Devemos então nos lamentar quando Deus nos manda os sofrimentos? Não, não devemos, mas devemos, isso sim, beijar a Mão que nos pune. Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, diz o Apóstolo Paulo, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. (Hebreus 12:6-8)

Não há um santo sequer que não tenha trilhado o caminho do sofrimento. São João Crisóstomo afirma: "Quando as tribulações [sofrimentos] vierem, não permitamos que esses sinais de Deus sejam tomados como abandono, mas devemos considerá-los como sinais de que o Senhor se preocupa conosco, pois, ao permitir que as tribulações recaiam sobre nós, Ele limpa nossos pecados". Deus não abandona a quem envia os sofrimentos e tribulações, mas, pelo contrário, Ele demonstra Sua proximidade. Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito. Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas. (Salmos 34:18-19) Quanto maior a angústia, mais próximo Deus está; quanto mais escura a noite, mais brilham as estrelas.

Cristão, sê confortado na angústia que sofres. Saibas que Deus não pune apenas os que vendem sua alma ao diabo para desfrutarem de alegrias e prazeres terrenos. Deus não castiga apenas aqueles que não são Seus. Como bom Pai, Ele não está preocupado com a correção e a educação dos filhos dos outros; todo pai castiga seus próprios filhos. Se Deus te manda tribulações e castigos, não fiques desconsolado, mas alegra-te, pois tu és um de Seus filhos e Ele ocupa-se de tua salvação! Lamenta-te um pouco. Isso não é pecado. Mas lamenta-te com fé!

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, The Meaning of Suffering, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.

Imagem: Sofrimento Inconsolável, Ivan Kramskoy, 1884, Rússia.

25 de fevereiro de 2014

"Não cometi nenhum pecado importante"


Caros leitores, nós fomos criados para Deus, e somente nEle encontramos a felicidade suprema a qual nossos corações aspiram. Somente Deus pode nos fazer felizes! Dê ao homem o que quiser. Ele o desfrutará por uns tempos, mas depois se tornará indiferente à coisa porque sentirá que algo mais, algo mais elevado, está faltando. Ora, não é exatamente assim que as crianças se comportam, se divertindo com um brinquedo novo até que comecem a sentir fome? Elas deixam o brinquedo de lado e vão atrás de comida. Uma espécie de fome interior por verdade, alegria e paz no Espírito Santo (cf. Romanos 14:17) tormenta a alma e não nos deixa em paz, mesmo entre os maiores prazeres da vida e entre as realizações mais invejáveis do mundo.

É em vão que algumas pessoas não esclarecidas tentam situar os maiores males da humanidade em outra parte que não no pecado. Alguns consideram a doença com o maior dos males, outras a pobreza, outras ainda a morte. Mas nem a doença, nem a pobreza, nem a morte, nem qualquer outro desastre terreno é tão maligno quanto o pecado. Essas desgraças terrenas não nos separam de Deus se O estivermos buscando com sinceridade, mas, pelo contrário, aproximam-nos dEle.

[...]

“Não cometi nenhum pecado importante”. Não mesmo? Quando alguém fica num quarto fechado por muito tempo acaba se acostumando ao ar impuro e nem percebe como ele está desagradável. Mas se alguém de fora entra no quarto não aguentará o fedor e fugirá.

Os Santos Padres ensinam que é muito difícil para o homem enxergar seus próprios pecados. Dizem eles que essa cegueira é causada pelo diabo. Abba Isaías afirma: “Quando o homem se aparta daquele que está à sua esquerda, isto é, da comunhão com os demônios e de suas sugestões, então enxergará plenamente seus pecados contra Deus; então ele conhecerá Jesus. Mas o homem será incapaz de enxergar seus pecados até que se aparte deles mediante esforços e sofrimentos. Quem conseguiu alcançar essa condição encontrou lágrimas e orações; à medida que se recordam da amizade dissimulada com as paixões, não se acanham em olhar à Deus e viver constantemente com o espírito aquebrantado”.

Se fosse fácil enxergar nossos pecados Santo Efraim, o Sírio, não teria rezado assim: “Senhor, permita que eu enxergue minhas transgressões”. Nem teria São João de Kronstadt dito: “Eis um autêntico dom de Deus: poder enxergar seus pecados em sua multidão e em toda sua repugnância”.

No fim das contas, quem acha que não tem pecados importantes está verdadeiramente cego.

Normalmente, os pecados menores são mais perigosos do que os maiores crimes, pois estes pesam muito na consciência e insistem em serem expiados, confessados, resolvidos, apagados, enquanto os pecados menores, embora não pesem tanto na alma, possuem aquela característica perigosa de a tornarem insensível à graça de Deus e indiferente à salvação. Poucas pessoas perecem por conta de animais ferozes, mas muitas morrem por causa da ação de minúsculos micróbios, invisíveis a olho nu. Por serem considerados insignificantes, os pecados pequenos normalmente passam desapercebidos. Embora sejam facilmente esquecidos, eles criam em nós o pior dos hábitos – o hábito de pecar, de embotar a consciência moral. Assim, o miserável pecador acaba enganando-se a si próprio, concluindo que não é pecador coisa nenhuma, que tudo está bem, quando na verdade ele não passa de um escravo abjeto do pecado.


Os pecados menores engendram uma verdadeira estagnação na vida espiritual da pessoa. Assim como o relógio de parede para de funcionar por causa do acúmulo de poeira, assim também o pulso espiritual do homem gradualmente desaparece sob a camada grossa de pecados acumulados. Para que o relógio volte a funcionar, a poeira tem de ser eliminada. Para que o homem restaure sua vida espiritual, ele tem de confessar até mesmo o menor dos pecados.

Fonte: Arquimandrita Seraphim Aleksiev, The Forgotten Medicine, St. Xenia Skete, Wildwood, CA, EUA, 1994.

Imagem: O anjo da guarda indica o caminho dizendo: "Vá, confessa teus pecados a teu pai espiritual". O demônio, porém, opondo-lhe, diz: "Tu és ainda jovem, e o que quer que tenhas pecado poderás confessar no teu leito de morte". - Gravura do livro Instruções Espirituais ao Penitente, séc. XIX.

18 de fevereiro de 2014

O mecanismo do bode expiatório


Falo aqui apenas das perseguições coletivas ou com ressonâncias coletivas. Por perseguições coletivas entendo as violências cometidas diretamente por multidões assassinas, como o massacre dos judeus durante a peste negra. Por perseguições com ressonâncias coletivas entendo as violências tipo caça às bruxas, legais em suas formas, mas geralmente encorajadas por uma opinião pública superexcitada.

(1) O primeiro estereótipo da perseguição é o cultural, que de algum modo se eclipsa, tornando-se indiferenciado. Compreendendo isso, apreendemos melhor a coerência do processo persecutório e a espécie de lógica que liga entre si todos os estereótipos de que ele se compõe.

Não temos de nos preocupar com as causas últimas dessa crença, como, por exemplo, os desejos inconscientes de que nos falam os psicanalistas, ou a vontade secreta de oprimir de que nos falam os marxistas. Situamo-nos aquém disso. Nossa preocupação é mais elementar: interessa-nos apenas a mecânica da acusação e o entrelaçamento das representações e das ações persecutórias. Temos aí um sistema e, caso sejam absolutamente necessárias causas para compreendê-lo, bastar-nos-á a mais imediata e a mais evidente. O terror inspirado aos homens pelo eclipse cultural, a confusão universal que se traduz pelo surgimento da multidão; esta, no limite, torna-se uma com a comunidade literalmente não diferenciada, privada de tudo aquilo que difere os homens uns dos outros no tempo e no espaço: eis, com efeito, que eles se reúnem de modo desordenado em um só e mesmo lugar e momento.

A multidão tende sempre à perseguição, pois as causas naturais daquilo que a perturba, daquilo que a transforma em turba, não podem interessá-la. A multidão, por definição, procura a ação, mas não consegue agir sobre as causas naturais. Procura, então, uma causa acessível e que satisfaça seu apetite de violência.

(2) Todas as acusações estereotipadas circulavam a respeito dos judeus e de outros bodes expiatórios coletivos durante a peste negra. Guillaume de Machaut, todavia, não os menciona. Como vimos, ele acusa os judeus de envenenar os rios. Deixa de lado as acusações mais incríveis, e sua relativa moderação se deve talvez à sua qualidade de “intelectual”. Quiçá ela também tenha uma significação mais geral, ligada à evolução das mentalidades no fim da Idade Média.

A finalidade da operação permanece a mesma. A acusação de envenenamento permite lançar a responsabilidade de desastres perfeitamente reais sobre pessoas das quais de fato não foram encontradas as atividades criminais.

Nada acrescento quanto às acusações estereotipadas. Vemos sem dificuldade que há sempre o mesmo estereótipo e sobretudo aquilo que o une ao primeiro, ou seja, o da crise indiferenciada.

(3) Passo agora ao terceiro estereótipo. As minorias étnicas tendem a polarizar com as maiorias. Temos aí um critério de seleção vitimaria, relativo a cada sociedade, sem dúvida, mas que é transcultural em seu princípio.

Ao lado dos critérios culturais e religiosos, há os puramente físicos. Há, por exemplo, uma anormalidade social; aqui é a média que define a norma. Quanto mais a pessoa se distancia do status social mais comum, em um ou outro meio, mais crescem os riscos de perseguição. Vemos isso sem dificuldade para aqueles que se situam na parte baixa da escala.

Vemos menos bem, ao contrário, que à marginalidade dos miseráveis, ou marginalidade de fora, é preciso acrescentar uma segunda, a marginalidade de dentro, a dos ricos e dos poderosos. O monarca e sua corte frequentemente fazem pensar no olho de um ciclone. Esta dupla marginalidade sugere uma organização social em redemoinho. Em tempo normal, sem dúvida, os ricos e os poderosos gozam de todos os tipos de proteções e de privilégios que faltam aos deserdados. Todavia, não são as circunstâncias normais que aqui nos interessam, e sim os períodos de crise. O mais breve olhar sobre a história universal revela que os riscos de morte violenta nas mãos de uma multidão descontrolada são estatisticamente mais elevados para os privilegiados do que para qualquer outra categoria.

Não há cultura no interior da qual cada um não se sinta “diferente” dos outros e não pense as “diferenças” como legítimas e necessárias.

Não é a diferença no seio do sistema que significam as marcas da seleção vitimaria, mas a diferença fora do sistema, é a possibilidade para o sistema de diferir de sua própria diferença, ou, em outras palavras, de não diferir do todo, de cessar de existir como sistema.

Os estrangeiros são incapazes de respeitar as “verdadeiras” diferenças; eles não têm costumes ou não têm gosto conforme os casos; apreendem mal o diferencial enquanto tal. O barbaros não é aquele que fala outra língua, mas aquele que mistura as únicas distinções verdadeiramente significativas, as da língua grega.

Contrariamente ao que se repete a nosso redor, não é nunca a diferença que aborrece os perseguidores, e sim seu contrário indizível, a indiferenciação. [Ou seja, a minoria é perseguida porque desperta na maioria a consciência da indiferenciação. A maioria se atina para o fato de que sua cultura não é realmente diferente].

(4) Há um quarto estereótipo, que é a própria violência; dela trataremos mais adiante.

Fonte: René Girard, O Bode Expiatório, Paulus, São Paulo, 2004.

Imagem: William Hollman Hunt, The Scapegoat, 1856.

17 de fevereiro de 2014

Conhecimento e familiaridade


Sob a ótica do senso comum, conhecimento tem a ver com familiaridade. O conhecido, diz a linguagem comum, é o familiar. Se você está acostumado com alguma coisa, se você lida e se relaciona habitualmente com ela, então você pode dizer que a conhece. O desconhecido, por oposição, é o estranho. O grau de conhecimento, nessa perspectiva, é função do grau de familiaridade: quanto mais familiar, mais conhecido. Daí a fórmula: “eu sei = eu estou familiarizado com isso como algo certo”. Mas se o objeto revela alguma anormalidade, se ele ganha um aspecto distinto ou se comporta de modo diferente daquele a que estou habituado, perco a segurança que tinha e percebo que não o conhecia tão bem quanto imaginava. Urge domá-lo, reapaziguar a imaginação. Ao reajustar minha expectativa e ao familiarizar-me com o novo aspecto ou o novo comportamento, recupero a sensação de conhecê-lo.

Sob a ótica da abordagem científica, contudo, a familiaridade é não só falha como critério de conhecimento como ela é inimiga do esforço de conhecer. A sensação subjetiva de conhecimento associada à familiaridade é ilusória e inibidora da curiosidade interrogante de onde brota o saber. O familiar não tem o dom de se tornar conhecido só porque estamos habituados a ele. Aquilo a que estamos acostumados, ao contrário, revela-se com frequência o mais difícil de conhecer verdadeiramente.

Não é por estar absolutamente familiarizado om a faculdade da visão, por exemplo, que eu conheço algo sobre os processos e mecanismos intrincados que me levam a enxergar as coisas. A humanidade, de fato, conviveu durante centenas de milhares de anos com a experiência subjetiva da visão – a sensação de se estar vendo o que se vê –, sem que ninguém se desse conta de que nada sabia a respeito. Foi só a partir do momento em que alguns homens perderam a familiaridade com a visão e passaram a encará-la como problema – como algo estranho e alheio demandando algum tipo de explicação – que o conhecimento do fenômeno começou a sair do chão. A familiaridade cega.

Na abordagem científica, a objetividade substitui a familiaridade e a sensação pré-reflexiva de conhecimento como critério de saber. O grau de conhecimento é função do grau de objetividade: quanto mais objetivo, mais verdadeiro. O grau zero do conhecimento, nessa perspectiva, consiste no vale-tudo permissivo e relativista do “assim é se lhe parece”. O grau máximo é a verdade objetiva que se mantém soberana mesmo que nela não creiam: “A verdade é o que é, e segue sendo verdade, ainda que se pense o revés”.

* * *

Vivemos de modo indelével, imersos em subjetividade. As perguntas fundamentais do autoconhecimento – quem sou? o que realmente desejo? o que devo fazer de minha vida? qual o sentido de tudo isso? – estão fora do escopo e do projeto constitutivo da ciência. Imaginar que ela será algum dia capaz de atender à nossa demanda por autoconhecimento, valores e inteligibilidade é como esperar que um transmissor de fax interprete o sentido de um texto ou que um cego de nascença nos ilumine sobre a natureza das cores.

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A percepção interna que temos dos nossos processos e estados mentais e do tipo de pessoa que somos não se dá por meio de órgãos sensoriais, como é o caso na apreensão da realidade externa, mas por meio de um processo mental reflexivo que é parte integrante de nossa própria mente e que, ao ser acionado, termina modificando e criando uma nova realidade interna. Por mais que eu busque sair de mim e encontrar um ponto de vista externo, que me permita um saber isento e fidedigno de minha vida mental/emocional ou de meu caráter, não tenho como deixar de sujeitar o objeto de minha introspecção à minha própria subjetividade. A observação de si interage e funde-se rudemente com o observado. A interpretação é o texto.

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Ao ouvirmos uma voz gravada, qualquer que ela seja, a eletricidade conduzida pela pele aumenta. Ao ouvirmos nossa própria voz gravada, a condutividade dérmica aumenta ainda mais, e isso é objetivamente registrado e medido por um instrumento chamado polígrafo. O surpreendente é que quando somos convidados a identificar uma voz gravada, dizendo se ela é ou não a nossa própria voz, nossas respostas são em média menos certas do que as registradas pelo polígrafo. O que se verificou a partir de testes exaustivos é que os erros de identificação não são aleatórios, mas estão estreitamente relacionados com o estado mental do sujeito. Enquanto estados depressivos e de baixa autoestima tendem a nos fazer errar pelo não-reconhecimento da voz, mesmo quando ela é nossa, estados eufóricos e de elevada autoestima tendem, ao contrário, a nos fazer reconhecer erroneamente, como nossas, vozes que não nos pertencem.

A interferência da subjetividade aparece aqui nas variações da capacidade de identificar corretamente a própria voz gravada. O autoengano está na inconsistência entre as respostas oferecidas pela condutividade dérmica e medidas pelo polígrafo, de um lado, e as respostas dadas oralmente pelo sujeito, de outro. É como se o corpo soubesse corretamente, embora ignorando saber, aquilo que a mente ignora, embora acreditando saber.

No experimento, contudo, a voz, apesar de nossa, está vindo de fora. Imagine agora o que acontecesse quando se trata de reconhecer e procurar entender não alguma coisa unívoca e externa, como a própria voz gravada, mas a cacofonia de vozes silenciosas que povoam a nossa mente; quando o que está em jogo é a miríade caleidoscópica de estados e processos mentais/emocionais cuja simples designação linguística é problemática. Escolha o seu próprio caminho: pecado original, alienação, inconsciente, gene egoísta. Os mapas diferem, as metáforas se alternam e as soluções teóricas se multiplicam na história das ideias, mas a experiência do labirinto interno é essencialmente a mesma: “O coração humano possui tantos interstícios nos quais a vaidade se esconde, tantos orifícios nos quais a falsidade espreita, e está tão ornado de hipocrisia enganosa que ele com frequência trapaceia a si próprio”.

* * *

O autoengano é incompatível com a intenção consciente de enganar-se a si próprio. Pela sua própria natureza reflexiva e autorreferente, ele não pode ser deliberado ou planejado de forma calculada, como são os exemplos mais notórios de blefe, trapaça, fraude e engano de terceiros. A noção de autoengano voluntário e deliberado – no sentido em que o mentiroso trama e calcula sua próxima mentira – é uma contradição lógica.

O hipócrita interior que nos habita em segredo é um animal distinto do hipócrita social que nos ronda e assedia. Como um sedutor sutil e insinuante, mas astuciosamente dissimulado e oblíquo, ele sabe que “a melhor maneira de persuadir consiste em não persuadir”. A mentira que constamos em silêncio para nós mesmos não mente, seduz. Ela se reveste do semblante da verdade para melhor mentir.

O autoengano é, por natureza, uma ocorrência passiva, ou seja, fechada à atenção consciente e sujeita a uma lógica peculiar. Nele não há lugar para a deliberação, a má-fé e o cálculo frio característicos dos casos mais claros de logro e tapeação interpessoal. Se a luz da atenção consciente é o farol do hipócrita social – uma mentira puxa outra e todo cuidado é pouco para não ser pilhado no pulo –, ela é fatal para o trabalho subterrâneo e anônimo do hipócrita interior.

Dois caminhos básicos se oferecem para chegar lá [i.e. deflagrar processos físicos e mentais involuntários]: o transporte situacional e o mergulho introspectivo. A candidata mais óbvia para nos propiciar o transporte situacional pretendido é sem dúvida a arte. Livros, peças, filmes, rituais religiosos e canções com frequência nos conduzem à vizinhança de emoções mais absorventes, e por aí a coisa pode acontecer. O caminho das pedras é o mergulho introspectivo. A condição sine qua non do sucesso da operação é conseguir sinceramente esquecer o que estou tentando fazer. O efeito líquido dependerá crucialmente da minha capacidade de abstrair a artificialidade do projeto e embarcar sem reservas na emoção do momento. A arte tem o dom não só de nos fazer esquecer e sentir, mas de nos fazer esquecer que estamos esquecendo e de nos fazer não sentir que sentimos sem sentir. É este segundo elemento – o enquadramento do círculo implícito em esquecer que estamos esquecendo e não sentir que sentimos o que não sentimos – que a consciência intermitente da premeditação bloqueia. Quando, por qualquer motivo, o interruptor da atenção consciente não desliga e as luzes internas da mente alerta teimam em ciscar e zunir, o transporte e o mergulho são anêmicos ou não convencem. O vento não sopra, o periscópio enguiçado não desce. O interruptor mental da entrega e do abandono é um bicho arisco. A posição da chave não pode ser livremente escolhida. Mais que impotente, o dedo intrusivo da vontade consciente é, com frequência, contraproducente. Nosso repertório de ações propiciatórias é diversificado, mas sujeito a restrições inibidoras. O uso e abuso de agentes químicos e ficcionais externos está intimamente ligado à delicadeza e dificuldade de operações desse tipo. “É uma exigência da natureza”, reconhece Goethe com argúcia, “que o homem, de tempos em tempos, se anestesie sem dormir; daí o gosto de fumar tabaco, beber aguardente ou fumar ópio”. Alguns, é certo, parecem bastar-se a si mesmos. “Três quartos das demandas existentes no mundo”, observou o crítico social inglês John Ruskin em 1870, “são românticas – baseadas em visões, idealismos, esperanças e afetos; e a regulação da carteira é, na sua essência, a regulação da imaginação e do coração”. A imaginação engole o estômago. A escalada do recurso a catalisadores químicos e ficcionais no mundo contemporâneo – a busca frenética e insaciável de situações e estados mentais que tragam o alívio da anestesia desperta do duplo esquecer – é uma evidência avassaladora da demanda por processos que nos permitam a um só tempo dirigir e soltar, controlar e largar as rédeas sobre nós mesmos. Na prática, o que torna as mentiras que contamos para nós mesmos mais palatáveis e fáceis de digerir é o fato de que existem mentiras e mentiras. A mentira simples, como a que faz do círculo um quadrado, é um caso limite. O passado é dotado de maior ou menor plasticidade na memória humana, mas ele não pode ser diferente do que foi. Mas, quando se trata do futuro, a história é outra. Se existe alguma coisa irremediavelmente fechado quando contemplamos o passado, existe algo curiosamente aberto quando vislumbramos o futuro. A indeterminação lógica de crenças e afirmações acerca do que está por acontecer é um trapézio que nos convida a inacreditáveis e silenciosas proezas. Existem dois poderosos núcleos de interesse, entretanto, para os quais converge uma parte expressiva das ações e expectativas humanas: o apetite por sexo e amor na vida privada e o apetite por poder, riqueza e proeminência na vida pública. Ao redor desses dois vetores gravitam vigorosas e obstinadas paixões na dinâmica de qualquer sociedade. Não surpreender, portanto, que também sejam, cada um a seu modo, espaços privilegiados para a fixação involuntária de crenças e o exercício do prometer autoenganado. Sonhar e acreditar no sonho são o sal da vida. Não há nada de errado, em princípio, em apostar alto na vida privada ou na vida pública, correr o risco no amor, na política, nos negócios, na arte ou no que for o caso. O problema não está em sonhar e apostar, mas na qualidade do sonho e na natureza da aposta. O melhor dos mundos seria combinar o ideal prático da coragem das nossas convicções, quando se trata de agir, com o ideal epistêmico da máxima frieza e distanciamento para atacar e rever as nossas convicções, quando se trata de pensar. A dificuldade reside em viver à altura dessa exigência simultânea de entrega e autocontrole. A quadratura do círculo é insidiosa e segue um padrão bem definido. Duvidar dói. Se a certeza que me toma é tão íntima, veemente e arrebatadora, então ela só pode ser verdadeira. Se o meu entusiasmo pela causa é tão intenso e as convicções que me movem à frente são tão fortes, então elas não podem ser falsas. Seria exagero supor que quanto maior a intensidade de uma crença, menor a probabilidade de que ela seja verdadeira. Mas o envolvimento de emoções poderosas no processo de formação de crenças é razão de sobra para que se proceda com a máxima cautela. Todo cuidado é pouco. O brilho intenso ofusca e o calor é inimigo da luz. Crenças saturadas de desejo podem ser verdadeiras, falsas ou indecidíveis. Mas o simples fato de que estão saturadas de desejo é sinal de que temos um enorme interesse – e ínfima isenção – na determinação do seu valor de verdade. Está aberta a porta dos fundos para a inocência culpada de resultados que escarnecem brutalmente de nossas intenções.

* * *

A subjetividade humana abriga duas forças paralelas e simétricas. De um lado está a nossa resistência a uma visão radicalmente imparcial – neutra, isenta e externa – de nós mesmos: ninguém consegue pisar fora do círculo de sua individualidade e ser efetivamente o outro para si próprio. É possível afastar-se um pouco, buscar um ponto de vista externo, abordar criticamente a nossa natural parcialidade, mas existem limites lógicos e psicológicos ao impulso de se olhar de fora para si mesmo.

No outro extremo, no entanto, encontramos uma resistência surda e arraigada ao que nos afronta como sendo o efeito de uma parcialidade excessiva por nós mesmos: ninguém suporta conviver com uma imagem repugnante de si próprio e estamos permanentemente ocupados em corrigir, pelo menos em alguma medida, o viés abusivo de nossa sensibilidade espontânea por tudo aquilo que nos toca e afeta mais de perto. Se a imparcialidade levada ao limite fere e sufoca o animal humano, os excessos de parcialidade por nós mesmos, quando se tornam explícitos e abertamente reconhecidos, ofendem, agridem e envergonham a nossa humanidade.

Ninguém nasce com ela, mas alguma faculdade de ordem moral, assim como a competência para o uso da linguagem, faz parte do equipamento básico do homem para a vida em sociedade. Essa capacidade se manifesta, entre outras coisas, no sentimento de vergonha diante dos outros e de nós mesmos, e no exercício de alguma forma de discernimento entre o certo e o errado em situações envolvendo escolha moral.

Fonte: Eduardo Gianetti, Auto-engano, Companhia das Letras, São Paulo, 2005.

13 de fevereiro de 2014

Arte e pseudoarte


Numa impressionante obra publicada um século atrás, o filósofo italiano Benedetto Croce se referiu à distinção, para ele radical, entre a arte propriamente dita e a pseudoarte, cujo objetivo era entreter, atiçar ou distrair. Essa distinção foi adotada pelo filósofo inglês R. G. Collingwood, discípulo de Croce, que raciocinou da seguinte forma: quando me deparo com uma obra de arte verdadeira, não são as minhas reações o que interessa, e sim o significado e conteúdo daquele objeto. É a experiência o que a mim se apresenta, a qual se incorpora de modo singular naquela forma sensorial específica. Quando, porém, o que busco é entretenimento, não estou interessado na causa, mas no efeito. Tudo aquilo que tenha o efeito certo me parece bom, não existindo qualquer espaço para o juízo, seja ele estético ou não.

A questão que Croce e Collingwood levantam é exagerada: por que não posso me interessar por uma obra de arte e, ao mesmo tempo, sentir-me entretido por ela? Não nos distraímos por causa da distração, e sim da graça. A distração não se opõe ao interesse estético, visto já representar uma forma dele. Assim, não surpreenderá perceber que, ao desprezarem com tamanho exagero as artes que buscam o entretenimento, tanto Croce como Collingwood esboçaram mais uma teoria estética implausível na história da literatura.

Não obstante, ambos estavam corretos ao achar que há uma grande diferença entre o tratamento artístico de um tema e a mera promoção do efeito. Em certa medida, a imagem fotográfica nos insensibilizou para este contraste. Se, a exemplo da moldura de um quadro, o palco teatral impede a entrada do mundo, a câmera deixa o mundo entrar – espalhando a mesma ratificação serena sobre o ator que finge morrer sobre a calçada e o balão que acidentalmente paira por sobre a rua, em segundo plano. Além disso, vemo-nos tentados a fazer desse defeito um encanto, encorajando uma espécie de “vício pela realidade” no observador. Trata-se da tentação de concentrarmo-nos nos aspectos da realidade que nos chamam a atenção ou instigam, independentemente de seu significado dramático. A arte genuína também nos entretém; no entanto, ela o faz ao nos afastar das cenas que retrata, distanciando-nos o bastante para engendrar uma simpatia desinteressada pelos personagens, e não emoções vicárias de nossa parte.

[...]

Essa distinção [entre o interesse estético e o efeito puro e simples] pode ser reformulada como a distinção entre imaginação e fantasia. A verdadeira arte encanta a imaginação, ao passo que os efeitos instigam a fantasia. As coisas imaginárias são ponderadas; as fantasias, desempenhadas. Tanto a fantasia como a imaginação dizem respeito a irrealidades; no entanto, enquanto as irrealidades da fantasia penetram e poluem nosso mundo, as irrealidades da imaginação existem num mundo que lhes é próprio e no qual vagueamos livremente com um complacente desapego.

A sociedade moderna está repleta de objetos fantasiosos, visto que as imagens realistas da fotografia, do cinema e da TV oferecem uma satisfação substituta a nossos desejos proibidos, legitimando-os, portanto, dessa forma. Um desejo fantasioso não busca nem uma descrição literária, nem a pintura delicada de um objeto, e sim um simulacro – uma imagem em que todos os véus da hesitação foram rasgados. Esse desejo se abstém do estilo e da convenção porque ambos impedem a formação do substituto e o submetem a um julgamento. A fantasia ideal é perfeitamente realizada e perfeitamente irreal – um objeto imaginário que nada deixa a cargo da imaginação. As propagandas comercializam tais objetos, os quais pairam no pano de fundo da vida moderna e a todo momento nos instigam a realizar nossos sonhos em vez de buscar as realidades.

As cenas imaginadas, por sua vez, não são realizadas, mas representadas; elas se apresentam imbuídas de pensamento e estão longe de serem substitutos colocados no lugar do inalcançável. Antes, são deliberadamente postas à distância, num mundo próprio. A convenção, o enquadramento e a coibição são partes integrantes do processo imaginativo. Nós só adentramos uma pintura por meio da moldura que afasta dela o mundo em que vivemos. A convenção e o estilo são mais importantes que a realização; e, quando os pintores adornam suas imagens com um trompe-l´oeil realista, muitas vezes questionamos o resultado, declarando-os insípidos ou kitsch.

Fonte: Roger Scruton, Beleza, É Realizações, São Paulo, 2013, p. 111-115.

Imagem: Sandro Botticelli, O Nascimento de Vênus, c. 1485, Galleria degli Uffizi, Florença.

6 de fevereiro de 2014

Luto


Ninguém me disse que o luto se parecia tanto com o medo. Não estou com medo, mas a sensação é a mesma. [...] Quando falo do medo, quero referir-me ao medo puramente animal, ao recuo do organismo diante da possível destruição, ao sentimento asfixiante, à sensação de ser um rato numa ratoeira. Esse sentimento é intrasferível. A mente pode até compreender; já o corpo menos. (p. 29 e 37).

No momento seguinte [ao golpe repentino de lembranças acaloradas], passa-se às lágrimas e à autopiedade. Lágrimas piegas. Quase prefiro os momentos de agonia. Pelo menos, eles são puros e honestos; mas o banho de autopiedade, o afundar-se nela, o prazer repugnante de entregar-se a ela – isso me enoja. Se eu der rédea solta e esse estado de espírito, em poucos minutos terei substituído a mulher real [Joy Davidman, a recém-falecida esposa de C. S. Lewis] por uma simples boneca pela qual vou chorar desesperadamente. (p. 30).

Enquanto isso, onde está Deus? Esse é um dos sintomas mais inquietantes. Quando você está feliz, muito feliz, não faz nenhuma ideia de vir a necessitar dEle, tão feliz, que se vê tentado a sentir suas reivindicações como uma interrupção; se se lembrar e voltar a Ele com gratidão e louvor, você será – ou assim parece – recebido de braços abertos. Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas. Talvez seja uma casa vazia. Será que, algum dia, chegou a ser habitada? Assim pareceu, certa vez. E essa semelhança era tão forte quanto agora. O que isso pode significar? Por que em tempos prósperos Ele mais parece um comandante e em tempos conturbados Sua ajuda é tão ausente?

Não que eu esteja (suponho) correndo o risco de deixar de acreditar em Deus. O perigo real é o de vir a acreditar em coisas tão horríveis sobre Ele. A conclusão a que tenho horror de chegar não é “então, apesar de tudo, Deus não existe”, mas “então é assim que Deus é realmente. Não se iluda”. (p. 31-32).

É difícil ter paciência com pessoas que dizem: “A morte não existe”, ou “A morte não importa”. A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece tem consequências, e tanto a morte quanto as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto. Em todos os tempos e espaços, se me fosse dado sondá-los, não encontraria em lugar algum o rosto dela, sua voz, seu toque. Ela morreu. Está morta. Será que a palavra é tão difícil de se aprender?

Não tenho nenhuma boa fotografia dela. Não posso sequer lhe ver o rosto claramente em minha imaginação. Não resta dúvida: a explicação é por demais simples. Vimos o rosto dos que mais conhecemos de modo tão variado, de tantos ângulos, sob tantas luzes, com expressões tão diversas – acordando, dormindo, rindo, chorando, comendo, conversando, pensando –, que todas as impressões preenchem nossa memória ao mesmo tempo e se anulam num simples borrão; mas sua voz ainda é vívida. A voz lembrada – que é capaz de transformar-me a qualquer momento num menino chorão. (p.39).

Fala-me acerca da verdade da religião e ouvirei de bom grado. Fale-me acerca do dever da religião e ouvirei resignadamente; mas não me venha falar sobre as formas de consolo que a religião fornece, caso contrário desconfiarei que você não sabe do que está falando.

A não ser, claro, que você seja daqueles que acreditam literalmente em tudo que se diz nas reuniões típicas de família a respeito “do outro lado do rio”, retratando uma perspectiva completamente irreal e terrena; mas nada disso é bíblico e não passa de hinos e litografias ruins. Não há na Bíblia uma palavra sequer sobre o mundo vindouro. Além disso, soa falso. Sabemos que não poderia ser assim. A realidade nunca se repete. Não existe nada que seja tirado de nós e, depois, é-nos devolvido do mesmo jeito que se apresentava. Como os espíritas sabem fisgar as pessoas! “As coisas deste lado não são tão diferentes, afinal de contas”. Há charutos no Céu. Pois é isso que todos nós apreciaremos. Um passado feliz reconquistado.

E é por isso, só por isso, que grito, enlouquecido, no meio da madrugada, lançando súplicas vazias no ar.

E o pobre C. [um conhecido de Lewis] faz-me a seguinte citação: “(...) não se entristeçam como os outros que não têm esperança.” (I Ts 4:13). Espanta-me o modo pelo qual somos convidados a pôr em prática palavras endereçadas de maneira tão óbvia aos que são superiores a nós. O que o Apóstolo Paulo diz só pode consolar os que amam a Deus mais do que aos mortos, e aos mortos mais do que a si mesmos. Se uma mãe se lamenta não por aquilo que ela perdeu, mas por aquilo que seu filho morto perdeu, é um consolo acreditar que o filho não perdeu o objetivo para o qual foi criado. E é um consolo acreditar que ela mesma, ao perder sua principal ou única felicidade natural, não perdeu algo maior – que ela ainda pode esperar “glorificar a Deus e usufruí-lo para sempre”. Um consolo para o espírito voltado para Deus, espírito eterno que há dentro dela. Mas não para sua condição de mãe. A felicidade propriamente materna deve ser anulada. Nunca, em nenhum lugar, em tempo algum, ela terá o filho em seu colo, nem lhe dará um banho, nem lhe contará uma história, nem fará planos para o seu futuro, tampouco verá o filho de seu filho.

Dizem-me que H. [Joy Davidman] agora é feliz, que está em paz. O que faz essas pessoas terem tanta certeza disso? Como essas pessoas têm tanta certeza de que toda a angústia termina com a morte? Mais da metade do mundo cristão e milhões no Oriente têm uma crença diferente. Como podem saber que ela está agora “descansando”? Por que deveria a separação (se nada mais o puder), que tanto angustia a pessoa que ama e ficou para trás, ser indolor para a pessoa a quem amou e agora parte?

“Porque ela está nas mãos de Deus”; mas, se assim for, ela estava nas mãos de Deus durante todo o tempo, e vi o que lhe fizeram aqui. Será que de repente as pessoas se tornam mais gentis conosco no momento em que deixamos o corpo? E, se for dessa maneira, por quê? Se a bondade de Deus não é coerente com o ato de nos ferir, então, ou Deus não é bom, ou não há Deus algum: pois, na única vida que O conhecemos, Ele nos fere de um modo tal, além de nossos piores pavores, acima de tudo o que podemos imaginar. Se essa bondade for condizente com o ato de nos ferir, então Ele pode muito bem fazer isso depois da morte de maneira tão intolerável quanto antes dela. (p. 47-50).

Sentimentos, e sentimentos e sentimentos. Em vez disso, vamos tentar pensar. Do ponto de vista racional, que novo fato a morte de H. trouxe ao problema do universo? Que bases me concedeu para duvidar de tudo aquilo que acredito? Eu já sabia que essas coisas, e coisas piores, aconteciam diariamente. Eu teria dito que as havia levado em consideração. Eu fora alertado – eu alertara a mim mesmo – quanto a não contar com a felicidade terrena. Tínhamos, até mesmo, a promessa de sofrimentos. Eles faziam parte do programa. Até mesmo nos disseram: “Bem-aventurados os que choram...”,  e eu aceitava isso. Não há nada que eu não tivesse considerado. É claro que é diferente quando as coisas acontecem conosco, não com os outros, e na realidade, não na imaginação. Sim, mas deveria, para um homem são, fazer tanta diferença assim? Não, e não faria para um homem cuja fé houvesse sido a fé verdadeira, e cuja preocupação com as tristezas dos outros fosse preocupação real. O caso é muito comum. Se meu castelo ruiu com uma tacada, é porque era um castelo de cartas. A fé que “levou essas coisas em consideração” não era fé, mas imaginação. Levá-las em conta não era compaixão verdadeira. Se houvesse realmente me preocupado, como achei que havia, com as tristezas do mundo, não deveria estar tão assoberbado quando minha própria tristeza chegou. Foi uma fé imaginária, que jogava com fichas inofensivas, rotuladas de “Doença”, “Dor”, “Morte” e “Solidão”. Achei que havia confiado na corda até que se tornou importante saber se ela suportaria o meu peso. Agora que isso importa percebo que não confiava nela.

Jogadores de bridge explicam-me que deve haver um pouco de dinheiro no jogo “ou, então, as pessoas não vão levá-lo a sério”. Aparentemente é assim. Sua aposta – Deus ou nenhum Deus, um bom Deus ou o Sádico Cósmico, a vida eterna ou a não-entidade – não vai ser levada a sério se nela nada de valor estiver em jogo. E você nunca perceberá como ela era séria enquanto as apostas não estiverem muitíssimo altas, enquanto você não descobrir que está jogando não pelas fichas, nem pelos seis centavos, mas por todo centavo que há no mundo. Nada menos que isso abalará um homem – ou, pelo menos, um homem como eu – e seu pensamento puramente verbal e suas crenças meramente conceituais. O homem deve ficar fora do ar antes que recobre os sentidos. Só a tortura trará a verdade à luz. Só sob tortura é que o homem a descobrirá. (p. 58-59).

Quanto mais acreditamos que Deus fere apenas para curar, menos nos é dado crer que haja alguma utilidade em suplicar por ternura. Um homem cruel pode ser subornado – pode cansar-se de seu esporte imoral – pode ter um acesso temporário de bondade, como os alcoólatras têm acessos de sobriedade; mas suponha que aquilo com que você se bate seja um cirurgião cujas intenções são inteiramente boas. Quanto mais gentil e consciente ele for, mais impiedosamente prosseguirá cortando. Se ele desistir diante de suas súplicas, se ele se detiver antes que a operação chegue ao fim, toda a dor até àquele ponto terá sido inútil; porém é crível que semelhantes extremos de tortura sejam necessários? Bem, faça sua escolha. As torturas ocorrem. Se elas são desnecessárias, então não há Deus nenhum, tampouco um Deus mau. Se há um Deus bom, então essas torturas são necessárias. Pois nenhum Ser que fosse bom, mesmo de maneira comedida, provavelmente seria capaz de infligi-las ou de permiti-las caso elas não fossem necessárias.

Seja o que for, não há como escapar.

O que as pessoas querem dizer quando afirmam: “Não tenho medo de Deus porque sei que Ele é bom”? Será que nunca foram ao dentista? (p. 63-64).

Pode um mortal fazer perguntas que Deus não considera passíveis de resposta? Absolutamente, sim. Todas as perguntas sem sentido não são passíveis de resposta. Quantas horas há num quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? Provavelmente, metade das perguntas que fazemos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – pertencem a essa categoria. (p.85).

Fonte: A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação (A Grief Observed) – C. S. Lewis – Editora Vida – 2006 – São Paulo.