4 de abril de 2010

C.S. Lewis sobre o Cristianismo


Em seu livro Mere Christianity (Cristianismo Puro e Simples, Martins Fontes, São Paulo, 2005), encontrei alguns trechos interessantes de C. S. Lewis sobre o Cristianismo.

A autoconsciência como via para se inferir a existência de Deus (pág. 32-34):
No universo inteiro, existe uma coisa, e somente uma, que nós conhecemos melhor do que conheceríamos se contássemos somente com a observação externa. Essa coisa é o Ser Humano. Nós não nos limitamos a observar o ser humano, nós somos seres humanos. Nesse caso, podemos dizer que as informações que possuímos vêm “de dentro”. Estamos a par do assunto. Por causa disto, sabemos que os seres humanos estão sujeitos a uma lei moral que não foi criada por eles, que não conseguem tirar do seu horizonte mesmo quando tentam e à qual sabem que devem obedecer. Alguém que estudasse o homem “de fora”, da maneira como estudamos a eletricidade ou os repolhos, sem conhecer a nossa língua e, portanto, impossibilitado de obter conhecimento do nosso interior, não teria a mais vaga idéia da existência desta lei moral a partir da observação de nossos atos. Como poderia ter? Suas observações se resumiriam ao que fazemos, ao passo que essa lei diz respeito ao que deveríamos fazer. Do mesmo modo, se existe algo acima ou por trás dos fatos observados sobre as pedras ou sobre o clima, nós, estudando-os de fora, não temos a menor esperança de descobrir o que ele é.
A natureza da questão é a seguinte: queremos saber se o universo simplesmente é o que é, sem nenhuma razão especial, ou se existe por trás dele um poder que o produziu tal como o conhecemos. Uma vez que esse poder, se ele existe, não seria um dos fatos observados, mas a realidade que os produziu, a mera observação dos fenômenos não pode encontrá-lo. Existe apenas um caso no qual podemos saber se esse “algo mais” existe; a saber, o nosso caso. E, nesse caso, constatamos que existe. Ou examinemos a questão de outro ângulo. Se existisse um poder exterior que controlasse o universo, ele não poderia se revelar para nós como um dos fatos do próprio universo – da mesma forma que o arquiteto de uma casa não pode ser uma de suas escadas, paredes ou lareira. A única maneira pela qual podemos esperar que esta força se manifeste é dentro de nós mesmos. Como uma influência ou voz de comando que tente nos levar a adotar uma determinada conduta. É justamente isso que descobrimos dentro de nós. Já não deveríamos ficar com a pulga atrás da orelha? No único caso em que podemos encontrar uma resposta, ela é positiva; nos outros, em que não há respostas, entendemos por que não podemos encontrá-las. Suponha que alguém me perguntasse, acerca de um homem de uniforme azul que passa de casa em casa depositando envelopes de papel em cada uma delas, por que, afinal, eu concluo que dentro dos envelopes existem cartas. Eu responderia: “Porque sempre que ele deixa envelopes parecidos na minha casa, dentro deles há uma carta para mim.” Se o interlocutor objetasse: “Mas você nunca viu as cartas que supõe que as outras pessoas recebam”, eu diria: “É claro que não, e nem quero vê-las, porque não foram endereçadas a mim. Eu imagino o conteúdo dos envelopes que não posso abrir pelo dos envelopes que posso.” O mesmo se dá aqui. O único envelope que posso abrir é o Ser Humano. Quando o faço, e especialmente quando abro o Ser Humano chamado “Eu”, descubro que não existo por mim mesmo, mas que vivo sob uma lei, que algo ou alguém quer que eu me comporte de determinada forma.


A imprevisibilidade da realidade criada sugere a imprevisibilidade da realidade incriada (pág. 55):
A experiência me diz que a realidade, além de complicada, é quase sempre estranha. Não é precisa, nem óbvia, nem previsível. Por exemplo, quando você descobre que a Terra e os outros planetas giram em torno do Sol, pensa naturalmente que todos os planetas devem se comportar da mesma maneira, que são separados por distâncias iguais ou distâncias que aumentam, proporcionalmente, ou que devem aumentar ou diminuir de tamanho à medida que se afastam do Sol. No entanto, não encontramos nem métrica nem método (que possamos compreender) nos tamanhos ou distâncias. Além disso, alguns planetas possuem uma lua; outros, quatro; alguns, nenhuma; e um planeta tem um anel.
A realidade, com efeito, é algo que ninguém poderia adivinhar. Este é um dos motivos pelo qual acredito no cristianismo. É uma religião que ninguém poderia adivinhar. Se ela nos oferecesse o tipo de universo que esperaríamos encontrar, eu acharia que ela havia sido inventada pelo homem. Porém, a religião cristã não é nada daquilo que esperávamos; apresenta todas as mudanças inesperadas que as coisas reais possuem.


As palavras de Cristo não admitem meio termo entre ser Filho de Deus e ser um sujeito presunçoso (pág. 68-70):
O que diríamos de um homem que, sem ter sido pisado ou roubado, anunciasse o perdão dos pisões e dos roubos cometidos contra os outros? Presunção asinina é a descrição mais gentil que podemos dar da sua conduta. (...) Nos lábios de qualquer pessoa que não Deus, essas palavras implicam algo que só posso chamar de uma imbecilidade e uma vaidade não superadas por nenhum outro personagem da história. (...) Cristo afirma ser “humilde e manso”, e acreditamos nele, sem nos dar conta de que, se ele fosse somente um homem, a humildade e a mansidão seriam as últimas qualidades que poderíamos atribuir a alguns de seus ditos. (...) Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático – no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido – ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior.

Moral não é mera questão social, pois há um objetivo comum à frota em si, e não apenas aos barcos individualmente (pág. 95-96):
Há homens que, falando de seus projetos, dizem que eles “não podem estar errados, pois não farão mal a ninguém”. (...) No seu modo de pensar, não importa como o navio está por dentro, desde que não colida com a embarcação ao lado. E, quando começamos a pensar sobre a moral, é muito natural partirmos do primeiro fator, que são as relações sociais. De que vale dar instruções precisas de navegação aos barcos se eles não passam de embarcações velhas e enferrujadas, que não obedecem aos comandos?

O juro é anti-cristão (pág. 112-113):
Há um conselho, dado pelos gregos pagãos da Antiguidade, pelos judeus do Velho Testamento e pelos grandes mestres cristãos da Idade Média, que foi completamente desobedecido pelo sistema econômico moderno. Todos eles disseram que não se deve emprestar dinheiro a juros; e o empréstimo a juros – o que chamamos de investimentos – é a base de todo o nosso sistema. Não se pode, no entanto, concluir com absoluta certeza que estejamos errados. Alguns dizem que, quando Moisés, Aristóteles e os cristãos concordam em proibir o juro (ou “usura”, como diriam), eles não podia prever as sociedades acionárias e pensavam apenas no agiota particular, e que, portanto, não devemos nos preocupar com o que disseram. Essa é uma questão sobre a qual não cabe a mim opinar. Não sou economista e simplesmente não sei se foi o sistema de investimentos o responsável pelo estado de coisas em que nos encontramos. Por isso é que precisamos de economistas cristãos. Entretanto, eu não estaria sendo honesto se não dissesse que três grandes civilizações concordaram (pelo menos é o que parece à primeira vista) em condenar o próprio fundamento em que se baseia toda a nossa vida.

O esforço moral leva ao conhecimento do mal (pág.123):
A caminhada na direção certa leva não só à paz, mas também ao conhecimento. Quando um homem melhora, torna-se cada vez mais capaz de perceber o mal que ainda existe dentro de si. Quando um homem piora, torna-se cada vez menos capaz de captar a própria maldade. Um homem moderadamente mau sabe que não é muito bom; um homem completamente mau acha que está coberto de razão. Nós sabemos disso intuitivamente. Entendemos o sono quando estamos acordados, não quando adormecidos. Percebemos os erros de aritmética quando nossa mente está funcionando direito, não no momento em que os cometemos. Compreendemos a natureza da embriaguez quando estamos sóbrios, não quando bêbados. As pessoas boas conhecem tanto o bem quanto o mal; as pessoas más não conhecem nenhum dos dois.

O alicerce do casamento é o amor sereno, e não a paixão (pág. 143-145):
O que chamamos de “estar apaixonado” é um estado maravilhoso e, sob diversos aspectos, benéfico para nós. Ajuda-nos a ser mais generosos e corajosos, abre nossos olhos não apenas para a beleza do objeto amado, mas para toda a beleza, e subordina (especialmente no início) nossa sexualidade animal; nesse sentido, o amor é o grande subjugador do desejo. Ninguém que tenha o uso perfeito da razão negaria que estar apaixonado e melhor do que a sensualidade ordinária ou o frio egocentrismo. Mas, com eu disse antes, “a coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um certo impulso de nossa natureza como padrão a ser seguido custe o que custar”. Estar apaixonado é muito bom, mas não é a melhor coisa do mundo. Existem muitas coisas abaixo, mas também muitas outras acima disso. A paixão amorosa não pode ser a base de uma vida inteira. É um sentimento nobre, mas, mesmo assim, é apenas um sentimento. Não podemos nos fiar em que um sentimento vá conservar para sempre sua intensidade total, ou mesmo que vá perdurar. O conhecimento perdura, como também os princípios e os hábitos, mas os sentimentos vêm e vão. E, o que quer que as pessoas digam, a verdade é que o estado de paixão amorosa normalmente não dura. Se o velho final dos contos de fadas: “E viveram felizes para sempre”, quisesse dizer que “pelos cinqüenta anos seguintes sentiram-se atraídos um pelo outros como no dia anterior ao casamento”, estaria se referindo a algo que não acontece na realidade, que não pode acontecer e que, mesmo que pudesse, seria pouquíssimo recomendável. Quem conseguiria viver nesse estado de excitação mesmo por cinco anos? Que seria do trabalho, do apetite, do sono, das amizades? É claro, porém, que o fim da paixão amorosa não significa o fim do amor. O amor nesse segundo sentido – distinto da “paixão amorosa” – não é um mero sentimento. É uma unidade profunda, mantida pela vontade e deliberadamente reforçada pelo hábito; é fortalecida ainda (no casamento cristão) pela graça que ambos os cônjuges pedem a Deus e dele recebem. Eles podem fruir desse amor um pelo outro mesmo nos momentos em que se desgostam, da mesma forma que amamos a nós mesmos mesmo quando não gostamos da nossa pessoa. Conseguem manter vivo esse amor mesmo nas situações em que, caso se descuidassem, poderiam ficar “apaixonados” por outra pessoa. Foi a “paixão amorosa” que primeiro os moveu a jurar fidelidade recíproca. O amor sereno permite que cumpram o juramento. É através desse amor que a máquina do casamento funciona: a paixão amorosa foi a fagulha que a pôs em funcionamento.
Se você discorda de mim, é claro que vai dizer: “Ele não sabe do que está falando. Ele nem é casado.” Talvez você tenha razão. Antes de dizer isso, porém, tome o cuidado de embasar seu julgamento nas coisas que você conhece por experiência pessoal ou pela observação de seus amigos, e não em idéias derivadas de romances ou de filmes. Isso não é tão fácil quanto as pessoas pensam. Nossa experiência é preenchida pelas cores dos livros, peças de teatro e filmes do cinema, e é necessário ter paciência para delas desentranhar e para separar o que aprendemos da vida por nós mesmos.
As pessoas tiram dos livros a idéia de que, se você casou com a pessoa certa, viverá “apaixonado” para sempre. Como resultado, quando se dão conta de que não é isso o que ocorre, chegam à conclusão de que cometeram um erro, o que lhes daria o direito de mudar – não percebem que, da mesma fora que a antiga paixão se desvaneceu, a nova também se desvanecerá.

O homem é mais justo nas relações públicas do que a mulher (pág. 150):
As relações da família com o mundo exterior devem depender, em última análise, do homem, porque ele deve ser, e normalmente é, mais justo em relação às pessoas de fora. A mulher luta prioritariamente pelos filhos e pelo marido contra o resto do mudo. Naturalmente e, em certo sentido, quase com razão, as necessidades deles são priorizadas em detrimento de todas as outras necessidades. A mulher é a curadora especial dos interesses da família. A função do marido é garantir que essa predisposição natural da mulher não chegue a predominar. Ele tem a última palavra para proteger as outras pessoas do intenso patriotismo familiar da esposa.

O orgulho é o ego em competição (pág. 162-167):
Se quer descobrir o quão orgulhoso você é, a maneira mais fácil é perguntar-se: “Quanto me desagrada que os outros me tratem como inferior, ou não notem minha presença, ou interfiram nos meus negócios, ou me tratem com condescendência, ou se exibam na minha frente?” (...) O que quero deixar claro é que o orgulho é essencialmente competitivo – por sua própria natureza –, ao passo que os outros vícios só o são acidentalmente, por assim dizer. O prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado. Dizemos que uma pessoa é orgulhosa por ser rica, inteligente ou bonita, mas isso não é verdade. As pessoas são orgulhosas por serem mais ricas, mais inteligentes e mais bonitas que as outras. Se todos fossem igualmente ricos, inteligentes e bonitos, não haveria do que se orgulhar. É a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres. (...) Mais de um homem conseguiu superar a covardia, a luxúria ou o mau humor pela crença inculcada de que tudo isso estava abaixo da sua dignidade. Ou seja, venceram pelo orgulho. O diabo ri às gargalhadas. Fica satisfeitíssimo de nos ver castos, corajosos e controlados desde que, em troca, prepare para nós uma Ditadura do Orgulho. Do mesmo modo, ele ficaria contente de curar as fieiras dos nossos pés se pudesse, em troca, nos deixar com câncer. O orgulho é um câncer espiritual: ele corrói a possibilidade mesma do amor, do contentamento e até do bom senso.

Amor é um estado da vontade, e não um estado sentimental (pág. 173):
O amor no sentido cristão não é uma emoção. Não é um estado do sentimento, mas da vontade: aquele estado da vontade que temos naturalmente com a nossa pessoa, mas devemos aprender a ter com as outras pessoas.

Na teologia cristã, Deus está além do “Deus pessoal” e do “Deus impessoal” (pág. 213-216):
Hoje em dia, um bom número de pessoas diz : “Acredito em Deus, mas não num Deus pessoal.” Elas pressentem que o mistério por trás de todas as coisas deve ser maior que uma pessoa. Os cristãos concordam com isso. Porém, os cristãos são os únicos que oferecem uma idéia de como seria esse ser que está além da personalidade. Todas as outras pessoas, apesar de dizerem que Deus está além da personalidade, na verdade concebem-no como um ser impessoal: melhor dizendo, como algo aquém do pessoal. Se você está em busca de algo suprapessoal, algo que seja mais que uma pessoa, não se verá obrigado a escolher entre a idéia cristã e as outras idéias, pois a idéia cristã é a única existente no mercado. (...) No nível divino, ainda existem personalidades; nele, porém, as encontramos combinadas de maneiras novas, maneiras que nós, que não vivemos nesse nível, não podemos imaginar. Na dimensão de Deus, por assim dizer, encontramos um Ser que são três pessoas sem deixar de ser um único Ser, da mesma forma que um cubo são seis quadrados sem deixar de ser um único cubo. É claro que não conseguimos conceber plenamente um Ser como esse. Do mesmo modo, se percebêssemos apenas duas dimensões do espaço, não poderíamos jamais imaginar um cubo. Mesmo assim podemos ter dele uma noção vaga. Quando isso acontece, nós conseguimos ter, pela primeira vez na vida, uma idéia positiva, mesmo que tênue, de algo suprapessoal – algo maior que uma pessoa.
Todos os que crêem em Deus acreditam que ele sabe o que eu e você faremos amanhã. Mas, se ele sabe que farei isto ou aquilo, onde está a minha liberdade de fazer o contrario? Bem, mais uma vez a dificuldade está em pensar que Deus progride como nós numa seqüência temporal, com a única diferença de que ele consegue enxergar o futuro e nós, não. Bem, se isso é verdade, se Deus prevê os nossos atos, fica difícil entender nossa liberdade de não fazer algo. Suponha, no entanto, que Deus esteja fora e acima da linha do tempo. Nesse caso, isso que chamamos “ama nhã” é visível para ele da mesma forma que o que chamamos “hoje”. Todos os dias são “agora” aos olhos de Deus. Ele não se lembra de que ontem você fez isto e aquilo; simplesmente vê você fazendo essas coisas, porque, embora você tenha perdido para sempre o dia de ontem, ele não perdeu. Ele não “antevê” você fazendo isto e aquilo amanhã; simplesmente vê você fazendo essas coisas, pois, embora o amanhã ainda não exista para você, já existe para ele. Você nunca pensou que os atos que faz agora são menos livres só porque Deus sabe o que você está fazendo. Bem, ele conhece suas ações de amanhã exatamente da mesma maneira – pois já está no amanhã e pode simplesmente observá-lo. Num certo sentido, ele não conhece nossas ações até que elas tenham acontecido; no entanto, o momento em que elas acontecem já é “agora” para ele.

1 de abril de 2010

O desenvolvimento emocional da alma


Hoje em dia, o principal ingrediente que falta [à harmonia entre as pessoas] é uma coisa que poderíamos chamar de desenvolvimento emocional da alma. Não é uma coisa exatamente espiritual, mas que frequentemente impede o desenvolvimento espiritual. A pessoa pode até achar que quer se dedicar à vida ascética e ao combate espiritual quando, na verdade, encontra-se num estado em que mal consegue expressar amizade e amor humano normais; se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? (I João 4:20).

Em algumas pessoas esse defeito manifesta-se de maneira extrema. Mas, enquanto tendência, é algo que está presente em todos nós, já que todos fomos criados e aculturados em uma atmosfera espiritual e emocional deteriorada.

Assim sendo, é comum que tenhamos de refrear nossos impulsos e combates supostamente espirituais para que saibamos se estamos realmente preparados, em termos humanos e emocionais, para esses combates. Às vezes, acontece de um pai espiritual negar a seu filho que leia livros espirituais para lhe dar, em vez disso, um romance de Dostoyevsky ou Dickens, ou ainda lhe encorajar para que se familiarize com determinados tipos de música clássica. Não que haja um propósito puramente estético nessas orientações -- pois é perfeitamente possível que alguém seja especialista nessas coisas e seja emocionalmente desenvolvido sem, no entanto, um pingo de interesse nas coisas espirituais, o que também é indício de desequilíbrio -- mas há, sim, o propósito de refinar e moldar a alma, tornando-a mais apta e receptiva a entender os textos genuinamente espirituais.

Fr. Seraphim Rose: His Life and Works, Saint Herman Press, Platina, EUA, 2003

O monge que não julgava


Havia um monge preguiçoso, desleixado e que orava muito pouco; mas, em toda sua vida, ele nunca julgou ninguém. Em seu leito de morte, encontrava-se contente. Quando um dos irmãos lhe perguntou por que, afinal, estava contente em morrer, uma vez que tinha cometido tantos pecados, ele respondeu: "Vejo agora anjos mostrando-me uma carta, e nela constam meus inúmeros pecados. Eu lhes disse, 'Nosso Senhor disse: não julgueis, e não sereis julgados (Lucas 6:37). Eu nunca julguei ninguém, e creio, pela misericórdia de Deus, que Ele não me julgará' ". Os anjos, então, destruíram o papel. Ao ouvirem isso, os monges espantaram-se e aprenderam muito com esse relato.

São Nicolau (Velimirovich), o Novo Crisóstomo, The Prologue from Ochrid: Lives of the Saints and Homilies for Every Day in the Year -- Volume 1, Lazarica Press, Birmingham, Inglaterra, 1986

27 de fevereiro de 2010

O Quarto Hierarca

A importância de São Gregório Palamás para os cristãos ortodoxos é tão grande que há uma tradição que atribui a ele o título de "Quarto Hierarca", ao lado de São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, e São João Crisóstomo. No Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos, onde São Gregório viveu como monge por alguns anos, há um ícone dele ao lado dos Três Hierarcas no apse do altar. No Mosteiro de Vlatadon, fundado por discípulos de São Gregório em Tessalônica, a mesma tradição lá se encontra na porta do santuário.

Nesse mesmo mosteiro, no domo da capela situada ao sul da igreja principal, nos três triângulos esféricos está São Gregório Palamás ao lado dos três teólogos da Igreja: São João, o Teólogo, São Gregório, o Teólogo, e São Simeão, o Novo Teólogo.

Mas não é apenas na iconografia que esta tradição está presente. São Filoteu Kokkinos compôs um ofício no qual São Gregório Palamás é louvado como Quarto Hierarca e Quarto Teólogo da Igreja.

* * *

Irmos:

Pai, suplico inspiração mediante Ti
que és da Trindade para louvar em odes
a harmonia e a unissonância
dos três teólogos,
e agora também as palavras que tu,
abençoado hierarca Gregório,
pronunciste em harmonia com eles.

Como teólogos, sábios,
oradores e santos escritores,
e como os três melhores teóforos e arautos
de santas palavras e doutrinas,
vós também tendes
vosso ilustre co-iniciador
de mesmo nome entoando hinos
em uníssono convosco.

Retendo as leis da amizade
e os caminhos do alto, portando o Cristo
em seu meio, conforme Ele previra,
vós agora estais enriquecidos também pelo quarto,
de mesma natureza e modos.

Louvemos em santos hinos
essas santas musas, vozes da Trindade,
trompetes da santa teologia:
Basílio, Gregório e João, os grandes,
com Gregório, que respira com eles
a graça do Espírito Santo.

Apolitikion:

Luminar da Ortodoxia, pilar e doutor da Igreja,
ornamento dos monges e campeão irrefutável dos teólogos,
ó São Gregório taumaturgo, glória de Tessalônica e pregador da Graça,
roga sem cessar pela salvação de nossas almas!

* * *

São Gregório Palamás, teólogo da Igreja e hierarca de todos os cristãos ortodoxos, interceda por nós junto ao Cristo para que nos arrependamos de nossos pecados e nos convertamos à fé revelada pelo Espírito mediante os profetas, apóstolos e santos. Ensine-nos a rezar, a perdoar e a amar.

Mais informações:

A filosofia não salva: São Gregório Palamás explica que a sabedoria secular tem de ser previamente purificada e extirpada do orgulho, das "opiniões erradas sobre as coisas inteligíveis, divinas e primordiais" e das "fábulas que se contam sobre as coisas criadas". Depois, deve-se "separar as idéias inúteis por meio da faculdade do exame e da inspeção que a alma possui, da mesma maneira que os farmacêuticos purificam a carne da serpente com fogo e água". O que sobrar, por fim, não fará mal ao cristão. O santo conclui: "Quanto trabalho e circunspeção serão necessários para executar essa tarefa!"

Orai sem cessar: a oração incessante para leigos: São Gregório Palamás explica que a oração incessante, isto é, a oração que se repete silenciosamente no coração daqueles que atingiram a iluminação do noûs, deve ser uma meta não apenas para os monges, mas para todos os cristãos ortodoxos que vivem no mundo, de acordo com a capacidade de cada um e com orientação de um pai espiritual experiente.

Espistemologia ortodoxa: O Metropolita Hieroteu de Náfpaktos descreve a explicação de São Gregório Palamás sobre os graus de ascese espiritual e sobre a aquisição de conhecimento teológico mediante a gnosis  alcançada na união com as energias incriadas.

21 de janeiro de 2010

As seis coisas que os demônios mais temem


Os demônios têm grande temor pelas seguintes seis virtudes: 1) fome, 2) sede, 3) a Oração de Jesus, 4) o sinal da Cruz, isto é, quando o sinal da Cruz é feito corretamente em si próprio, 5) a comunhão frequente dos puríssimos mistérios de Cristo, desde que sejam comungados com retidão e 6) fé inabalável em Deus. Não há arma mais aterradora contra os demônios do que esta.

(São Paísio Velichkovsky, Field Flowers, pág. 119.)

* * *

No diabo não há verdade. Ele é a fonte de toda forma de mentira. "Porque o diabo peca desde o princípio" e desencaminha a humanidade para o pecado. Satanás não é apenas um conceito negativo de mal, mas, pelo contrário, é um poder real. Ele tem livre arbítrio, "ardis" e "ciladas". O diabo é uma força pessoal capaz de perceber, mesmo antes da Ressurreição, que Cristo é o Filho de Deus. Sob seu comando, ele possui legiões inteiras de demônios e poderes invisíveis, sendo que alguns são mais malignos que outros. O diabo e seu exército de demônios têm as mesmas doutrinas. Portanto, existe "sabedoria diabólica", "a sabedoria dos príncipes deste mundo". Os demônios sabem que existe apenas um Deus, e por meio de seus ataques contra Cristo eles perceberam Sua divindade. Eles sabem quem são os verdadeiros seguidores de Cristo. Mas os cristãos também conhecem os "ardis" do diabo. Os demônios instigaram a Crucificação de Cristo. Porém, eles não conhecem a sabedoria de Deus pois, do contrário, não o teriam crucificado. Satanás, como Deus, possui fiéis e seguidores. A idéia de que Satanás seja um instrumento da ira divina (o que é típico da teologia ocidental pós-Agostinho) ou de que o poder e a energia do diabo sejam apenas uma ilusão está em total desacordo com os testemunhos bíblicos e patrísticos.

(Pe. John Romanides, The Ancestral Sin, pág.75-76.)

[O ícone acima mostra o diabo disfarçando-se de anjo de luz na tentativa de dissuadir São Pedro, o Atonita, (+734) a continuar na vida monástica. São Pedro foi o primeiro monge a habitar o Monte Athos e sua história foi contada em detalhes por São Gregório Palamás.]

18 de janeiro de 2010

As cinco chaves para a leitura da Bíblia

Segundo o Pe. John Romanides (de abençoada memória), a única maneira de compreendermos adequadamente os fatos históricos acerca da Igreja Ortodoxa, sobretudo em seus primeiros séculos, é não permitir que as crenças particulares do historiador ou do teólogo sejam injetadas nos eventos históricos. A única historiografia válida é aquela na qual as descrições dos próprios Padres da Igreja sejam levadas em conta, pois, afinal, ela incorpora as próprias descrições e intenções dos Apóstolos e do próprio Cristo.

Para isso, o Pe. John julgava indispensável que os estudiosos da Bíblia se livrassem das premissas da tradição franco-latina agostiniana e adotassem as seguintes "chaves" (ou premissas) patrísticas:

1) O fundamento, o núcleo mesmo, da tradição bíblica é que a religião é uma doença específica que precisa de uma cura específica. É isto que "não há Deus exceto Yahweh" quer dizer. Ignorar esta primeira chave fundamental significa ignorar também a segunda chave.

2) Há uma clara distinção entre os termos bíblicos que denotam aquilo que é "incriado" e aquilo que é "criado". Sem este contexto, a terceira chave bíblica é incompreensível.

3) "É impossível expressar Deus, e ainda mais impossível concebê-Lo" [1]. Em outras palavras, não há qualquer similaridade "entre o criado e o incriado". Quem quer que imagine que as expressões bíblicas transmitam conceitos acerca de Deus está redondamente enganado. Quando usadas corretamente, as palavras e conceitos bíblicos conduzem à purificação e iluminação do coração, que por sua vez conduzem à glorificação; mas elas mesmas não são a glorificação. A quarta chave é parte integrante e essencial das três chaves anteriores.

4) A cura da doença da religião, em todos os seus estágios, envolve "a transformação do amor egoísta, que busca sua própria felicidade" no "amor desinteressado da sua própria crucificação, o qual é glorificação". Esta glorificação, portanto, não é apenas a glorificação do Senhor da Glória encarnado, "mas também é a glorificação de todos os profetas e apóstolos enviados antes e depois da Encarnação do Senhor da Glória" [2]. Estas quatro chaves bíblicas dão o contexto para a quinta.

5) As expressões bíblicas sobre Deus não foram feitas para transmitir conceitos acerca de Deus. Elas existem apenas como guiamento para a purificação e iluminação do coração e, por fim, para a glorificação mediante o Senhor (Yahweh) de Glória Pré-Encarnado e Encarnado. Esta glorificação é a visão de Deus por meio de Sua glória ou reinado incriado. As expressões bíblicas não são, de maneira alguma, símbolos efêmeros criados e conceitos acerca de Deus, como no caso da tradição agostiniana.

Notas:

[1] St. Gregory the Theologian, Theological Orations, 2.4.

[2] John S. Romanides, "Pecado Ancestral" (em grego), Atenas, 1957, pág. 82, nota 7, na qual São Gregório Palamás explica que é impossível se reconciliar com Deus sem participar nos mistérios da Cruz, a qual opera em todos que alcançaram a glorificação, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, até hoje.

17 de janeiro de 2010

Diálogo entre um teólogo ortodoxo e um teólogo escolástico


Este pequeno diálogo foi criado por John Sanidopoulos e resume as divergências fundamentais entre as teologias ortodoxa e escolástica. Ele já havia sido traduzido anteriormente, mas resolvi republicá-lo com pequenas alterações por julgar ser uma síntese genial e uma introdução segura à teologia da Igreja Ortodoxa. O autor inspirou-se no Pe. John Romanides (de abençoada memória), este grande expositor e confessor da fé cristã ortodoxa.

* * *

Uma refutação ortodoxa do fundamento da teologia ocidental conforme exposta por Tomás de Aquino. (O = teólogo ortodoxo; E = teólogo escolástico)

O – Deus é imutável?
E – Sim.
O – Deus é pura simplicidade (actus purus)?
E – Sim.
O – A pura simplicidade de Deus serve para proteger a imutabilidade de Deus?
E – Sim.
O – Se Deus é pura simplicidade sem qualquer complexidade, então você diria que não há potencialidade em Deus?
E – Sim.
O – Se não há potencialidade em Deus, então essência, existência e energia divinas são coisas idênticas?
E – Sim.
O – Se essência, existência e energia divinas são coisas idênticas, então Deus está apenas em estado de plena atividade (energia)?
E – Sim.
O – Então você concordaria que se Deus está em estado de plena atividade, isso se dá por necessidade?
E – Sim.
O – E não há distinção entre a ação e poder de Deus de Sua essência?
E – Não, Deus é pura energia.
O – Você distingue as energias de Deus dos atos de Deus?
E – Não, ambos são a mesma obra criada de Deus.

A teologia ortodoxa difere da teologia escolástica no núcleo mesmo de sua doutrina. Os Padres gregos são claros ao ensinarem que Deus não é actus purus, mas que Ele possui muitas energias e poderes (potencialidades), os quais estão intrinsecamente unidos – nem separados nem confundindo-se uns com os outros – na essência intrinsecamente, incorruptivelmente e inconcebivelmente simples da divindade una e triádica. A imutabilidade de Deus não tem necessidade de ser protegida pelo actus purus. Não há necessidade alguma de actus purus. Ao contrário, ela é protegida pela incompreensível e incomunicável essência de Deus.

Tomás de Aquino insere a energia divina na essência divina a pretexto de necessidade. A Igreja Ortodoxa consideraria uma blasfêmia que Deus tivesse que agir por imposição de uma necessidade, pois Deus existe em Sua essência e em Suas três hipóstases. Deus não é um Ser regido por Sua energia, mas Ele mesmo regula Sua energia. Deus não é pura energia, mas é o próprio energizador.

Os Padres da Igreja ensinam que Deus é o energizador, enquanto a energia é a atividade incriada de Deus, e a obra manifestada (ou criatura) é o ato de Deus. O Ocidente, entretanto, não distingue a energia de Deus dos atos (obras) de Deus. A energia de Deus é melhor traduzida como atividade do que como ato. O ato final, de fato, é criado, mas a atividade em si é incriada. A atividade é também conhecida como graça, e se é incriada então é divina.

Inferir que a graça (energia) de Deus é criada é uma heresia, a qual logicamente implica em total ateísmo e/ou em mitologia grega. De acordo com os Padres da Igreja, a energia criada sempre implica em uma natureza criada; uma energia incriada implica em uma essência incriada.

12 de janeiro de 2010

Calculando o Natal


por William J. Tighe

Muitos cristãos pensam que celebramos o nascimento de Cristo em 25 de dezembro porque os Padres da Igreja se apropriaram da data de um festival pagão. Praticamente ninguém se importa com isso, exceto por alguns grupos extremistas de evangélicos norte-americanos, que crêem que isto faz do Natal uma festa pagã. Mas é importante saber que a escolha do 25 de dezembro é resultado de várias tentativas dos primeiros cristãos de descobrir a data do nascimento de Jesus, baseadas em cálculos que não tinham relação com festividades pagãs.

Pelo contrário, ao instituir o festival pagão do "Nascimento do Sol Invicto" em 25 de dezembro de 274, o imperador romano Aureliano certamente tentou criar uma festividade pagã para competir com uma data que já possuía certa importância para os cristãos romanos. Portanto, o mito das "origens pagãs do Natal" é totalmente desprovido de bases históricas.

Um erro

Devemos a idéia de que a data foi apropriada dos pagãos a dois estudiosos do final do século XVII e início do século XVIII: Paul Ernst Jablonsky, um protestante alemão que desejava mostrar que a celebração do nascimento de Cristo em 25 de dezembro era apenas uma das inúmeras "influências" pagãs adotadas pela Igreja a partir do século IV e que transformara o cristianismo apostólico puro no catolicismo romano; e Dom Jean Hardoiun, um monge beneditino que tentou mostrar que a Igreja Católica Romana adotara festivais pagãos para cristianizá-los sem, no entanto, corromper o evangelho com influências pagãs.

No calendário juliano, criado em 45 a.C. pelo imperador Júlio César, o solstício de inverno caía em 25 de dezembro e, portanto, parecia óbvio a Jablonsky e Hardoiun que a data fora importante para os pagãos. Mas, na verdade, tal data não possuía importância religiosa no calendário de festividades pagãs romanas antes da época de Aureliano, tampouco o culto ao sol fora importante em Roma antes de seu governo.

Havia dois templos solares em Roma: um deles, mantido pelo clã ao qual Aureliano pertencera, e que celebrava seu festival em 9 de agosto; e outro que celebrava seu festival em 28 de agosto. Mas ambos os cultos caíram em decadência por volta do século II, quando cultos solares orientais, como o mitraísmo, tornaram-se populares em Roma. De qualquer modo, nenhum destes cultos, novos ou antigos, celebravam festivais relacionados a solstícios ou equinócios.

O que realmente ocorreu é que Aureliano, que governou de 270 até seu assassinato em 275, era hostil ao Cristianismo, e aparentemente promoveu e estabeleceu o festival do "Nascimento do Sol Invicto" como um meio de unificar diversos cultos pagãos do Império Romano através do "renascimento" anual do sol. Durante seu governo o império parecia desmoronar devido à desordem interna, rebeliões nas províncias, decadência econômica e ataques contínuos das tribos germânicas ao norte, e dos persas à leste.

Com a criação da nova festividade o imperador pretendia que o 25 de dezembro – que iniciava o período do ano em que os dias eram mais longos e as noites mais curtas – se tornasse um símbolo do esperado "renascimento" ou renovação perpétua do Império Romano, resultado da retomada do culto a deuses que, no passado, haviam levado Roma à grandeza – segundo criam os romanos. Se a data coincidisse com uma festa cristã, melhor ainda.

Uma conseqüência

É certo que a primeira evidência que temos da celebração da festa cristã do Natal do Senhor em 25 de dezembro data de 336 d.C., anos após o fim do governo de Aureliano. Mas há evidências de que, já nos século II e III, tanto no Oriente grego quanto no Ocidente latino, os cristãos tentavam descobrir a data do nascimento de Cristo antes mesmo dela tornar-se uma celebração litúrgica. Evidências indicam que, na verdade, a escolha da data de 25 de dezembro foi uma conseqüência de tentativas de se determinar a celebração da Páscoa.

Como isso ocorreu? Há uma contradição aparente entre a data da morte do Senhor segundo os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. Os sinópticos marcam sua morte na Festa da Passagem, após o Senhor celebrar da Ceia na noite anterior. João marca sua morte na véspera da Festa da Passagem, quando os cordeiros eram sacrificados no templo de Jerusalém para a festa que teria início após o sol se pôr naquele dia.

Para solucionarmos esse problema devemos responder se a Última Ceia do Senhor foi uma ceia celebrada na Festa da Passagem, ou uma refeição ocorrida na véspera. A questão é muita longa para abordamos aqui, mas basta dizer que a Igreja primitiva seguia a data de São João, e portanto cria que a morte de Cristo ocorrera em 14 de Nissan, segundo o calendário lunar judaico.

Aliás, muitos estudiosos contemporâneos postulam que a morte de Cristo só poderia ter ocorrido em 30 ou 33 d.C., já que somente nestes dois anos a véspera da Festa da Passagem caíra em uma sexta-feira, sendo os possíveis dias de sua morte 7 de abril do ano 30, ou 3 de abril do ano 33.

Porém, com sua forçosa separação do Judaísmo, a Igreja passou a adotar calendários distintos, e teve de obter meios próprios para determinar a celebração da Paixão de Cristo de modo independente dos cálculos feitos pelos rabinos judeus que determinavam a data da Festa da Passagem. Além disso, como o calendário judaico era um calendário lunar composto de doze meses de trinta dias, de tempos em tempos o Sinédrio decretava a adição de um 13º mês para que o calendário acompanhasse os equinócios e solstícios, e as estações do ano caíssem na época apropriada do calendário.

Além da dificuldade que os cristãos teriam em seguir, ou mesmo saber com precisão, a data da Festa da Passagem a cada ano, seguir um calendário lunar próprio lhes causaria problemas com os judeus e pagãos, e muito provavelmente causaria disputas internas – como as disputas do século II sobre se a Páscoa deveria sempre ser celebrada em um domingo ou em qualquer dia da semana que caísse dois dias depois do dia 14 de Nissan. Seguir um calendário lunar pioraria ainda mais tal situação.

Tais dificuldades foram solucionadas de modo diferente entre os cristãos gregos da porção oriental do império e os cristãos latinos da parte ocidental. Os gregos aparentemente desejavam encontrar uma data equivalente ao 14 de Nissan em seu calendário solar, e como o mês de Nissan coincidia com o equinócio de primavera, ele escolheram o 14º dia de Artemísion, mês do equinócio de primavera em seu próprio calendário. Por volta de 300 d.C., o calendário grego foi substituído pelo calendário romano, e como as datas de início e fim dos meses em ambos os calendários não coincidiam entre si, o 14 de Artemísion tornou-se 6 de abril.

Por sua vez, os cristãos latinos de Roma e do norte da África do século II aparentemente desejavam estabelecer uma data histórica para a morte de Nosso Senhor. Na época de Tertuliano (c. +230), eles decidiram estabelecer que a data da sua morte fora em uma sexta-feira, 25 de março do ano 29 (é importante notar que esta data estava errada; 25 de março de 29 não era uma sexta-feira, e naquele ano a véspera da Festa da Passagem não caíra em uma sexta-feira, tampouco em 25 de março).

Era de Integração

Portanto no Oriente tínhamos o 6 de abril, e no ocidente o 25 de março. Aqui devemos explanar uma crença que era corrente no Judaísmo na época de Cristo, mas que como não se encontra na Bíblia, é desconhecida dos cristãos: a idéia de uma "era de integração" dos grandes profetas judaicos, a idéia de que os profetas de Israel morreram na mesma data de sua concepção.

Esse conceito é um fator chave para compreendermos como alguns cristãos primitivos vieram a crer que 25 de dezembro é a data do nascimento de Cristo – eles aplicaram esta idéia a Jesus, de modo que 6 de abril e 25 de março não eram apenas as supostas datas da morte de Cristo, mas também de sua concepção ou nascimento. Há evidência fugaz de que alguns cristãos dos séculos I e II criam que o nascimento de Cristo era 25 de março ou 6 de abril, mas a data de 25 de março logo ganhou aceitação entre os cristãos como a data da Concepção do Senhor.

Ainda hoje esta data é comemorada pela maioria dos cristãos como a Festa da Anunciação, quando o Arcanjo Gabriel trouxe a Boa-nova do Salvador à Virgem Maria, que por seu consentimento possibilitou que o Eterno Verbo de Deus ("Nascido do Pai antes de todos os séculos: Luz de Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro") se encarnasse em seu ventre. E quanto tempo dura uma gravidez? Nove meses. Se contarmos nove meses a partir de 25 de março, chegamos a 25 de dezembro; fazendo o mesmo com o 6 de abril, temos 6 de janeiro. Em 25 de dezembro celebramos o Natal, e em 6 de janeiro, a Epifania.

O Natal (25 de dezembro) é uma festa originária do Ocidente cristão, que foi introduzida em Constantinopla por volta de 379 ou 380. Em um sermão de São João Crisóstomo, que na época era um renomado asceta e pregador em Antioquia, vemos que a festa foi celebrada pela primeira vez em sua cidade natal em 25 de dezembro de 386. A partir dos grandes centros urbanos, a festa se difundiu em todo o Oriente cristão, sendo instituída em Alexandria no ano 432, e em Jerusalém por volta de um século depois. Somente a Igreja da Armênia não adotou esta tradição, e até hoje celebra o Natal de Cristo, a adoração dos Reis Magos e o Batismo do Senhor em 6 de janeiro.

As igrejas ocidentais, por sua vez, adotaram posteriormente a Festa da Epifania, celebrada no oriente em 6 de janeiro, entre os anos 366 e 394. Mas no ocidente a festa era celebrada geralmente como a visita dos Reis Magos ao menino Jesus, e como tal, era uma festa importante, mas não pertencia às grandes festas da Igreja – um visível contraste com o Oriente, onde a Epifania ainda é, depois da Páscoa, a festa mais importante do calendário litúrgico.

No Oriente cristão, a Festa da Epifania é mais popular que o Natal. O motivo é que esta festa celebra o Batismo de Cristo no Rio Jordão, quando a Voz do Pai e a descida do Espírito Santo manifestaram aos homens, pela primeira vez, a divindade do Cristo Encarnado e a Trindade Divina.

Uma festa cristã

Portanto a escolha do 25 de dezembro como data do nascimento de Cristo não possui relação alguma com supostas influências pagãs que adentraram a Igreja durante ou após o reinado de Constantino. É altamente improvável que esta seja a verdadeira data do nascimento de Cristo [o autor não explica o porquê de tal improbabilidade, uma vez que há uma linha historiográfica que confirma o nascimento de Cristo em 25 de dezembro - N. do E.], mas deve suas origens aos esforços dos cristãos latinos dos primeiros séculos em determinar a data precisa da morte de Cristo.

E a festa pagã instituída pelo imperador Aureliano em 274 foi não somente uma tentativa de utilizar o solstício de inverno para fins políticos, mas também uma tentativa de dar um significado pagão a uma data que já era importante aos cristãos romanos. Estes, por sua vez, posteriormente fizeram uso da coincidência com a festa pagã do "Nascimento do Sol Invicto" para se referir ao nascimento de Cristo como o nascimento do "Sol da Salvação" ou "Sol da Justiça".

William J. Tighe, correspondente da Touchstone, é professor de História da Faculdade Muhlemberg. Ele indica aos leitores interessados o livro The Origins of the Liturgical Year, de Thomas J. Talley, publicado pela editora The Liturgical Press.


Tradução: Ricardo Williams

17 de outubro de 2009

Orações às margens do Lago Ohrid

São Nicolau de Ohrid e Zhicha, o Novo Crisóstomo, (+1956) compôs belíssimas orações às margens do Lago Ohrid, onde hoje é a atual República da Macedônia. Entre elas, há algumas orações que fazem alusões e comparações com outras religiões. Em uma curiosa oração, de número XLVIII, Lao-Tsé, Krishna, Buda, Zoroastro e Isaías são chamados de "profetas", os quais antecederam e foram "destinados a teu Filho", isto é, ao Cristo. Há também as orações XIII e LXVIII, nas quais outras alusões são feitas com o Islã e o Hinduísmo.

A tradução e as notas se basearam na tradução do Arquimandrita Todor Mika e do Pe. Stevan Scott.

São Nicolau é comemorado no dia 5/18 de março. A foto acima é do Lago Ohrid.

* * *

Oração XIII

Tu não pedes muito de mim, meu Amor. Na verdade, as pessoas pedem mais.

Estou embalado em uma grossa camada de não-existência, que cobre os olhos da minha alma. Tu pedes apenas que minha alma se dispa de sua embalagem nebulosa e abra seus olhos a Ti, meu Poder e minha Verdade. As pessoas pedem que minha alma se embale mais e mais com embalagens mais e mais grossas e pesadas.

Ó, ajuda-me, ajuda-me! Ajuda minha alma a conquistar a liberdade e a luz, a conquistar a luz e asas aéreas, a conquistar asas aéreas e rodas de fogo ardente.

Histórias são longas, longas demais; a moral é curta -- uma palavra. Histórias derramam-se em mais histórias, assim como a superfície suave do meu lago derrama-se de cor em cor. Onde o derramar colorido da água sob o sol terminará, e onde o derramar de histórias em histórias terminará?

Histórias são longas, longas demais; a moral é uma palavra só. Tu és essa palavra, ó Verbo de Deus. Tu és a moral de todas as histórias.

O que as estrelas escrevem no céu, a relva sussurra na terra. O que a água gorgulha no mar, o fogo ruge sob o mar. O que um anjo diz com seus olhos, o imam brada de seu minarete. O que o passado disse e deixou, o presente está dizendo e deixando.

Há uma essência para todas as coisas; há uma moral para todas as histórias. As coisas são contos do céu. Tu és o sentido de todos os contos. As histórias têm Tua extensão e amplitude. Tu és a brevidade de todas as histórias. Tu és a pepita de ouro em um outeiro de pedra.

Quando digo Teu nome, disse tudo e mais do que tudo.

Ó meu Amor, tem piedade de mim!

Ó meu Poder e Verdade, tem piedade de mim!

Oração XLVIII

Todos os profetas, desde o princípio, têm clamado à minha alma, implorando-lhe para que se torne virgem e se prepare para receber o Filho divino em seu ventre imaculado;

Implorando-lhe para que se torne uma escada pela qual desça Deus ao mundo e pela qual suba o homem a Deus (1);

Implorando-lhe para drenar de si o mar vermelho das paixões sanguinárias, a fim de que o escravo homem possa alcançar a terra prometida, a terra da liberdade (2).

O mago da China adverte minha alma para que fique calma e tranquila, e aguarde o Tao para nela agir. Glória à memória de Lao-Tsé, o mestre e profeta de seu povo!

O mago da Índia ensina minha alma a não temer o sofrimento, pois mediante a sondagem árdua e inexorável em purificação e oração, ela se elevará ao Altíssimo, que a receberá e lhe manifestará Sua face e Seu poder. Glória à memória de Krishna, o mestre e profeta de seu povo!

O príncipe da Índia ensina minha alma a esvaziar-se completamente de toda semente e fruto do mundo, a abandonar todas as tortuosas seduções da matéria caduca e ilusória, para então -- em vacuidade, tranquilidade, pureza e glória -- aguardar o nirvana. Bendita seja a memória de Buda, o príncipe e mestre inexorável de seu povo!

O estrondeante mago da Pérsia diz à minha alma que não há nada no mundo exceto luz e trevas, e que a alma deve livrar-se das trevas como o dia se livra da noite. Pois os filhos da luz são concebidos da luz, e os filhos das trevas são concebidos das trevas. Glória à memória de Zoroastro, o grande profeta de seu povo!

O profeta de Israel clama à minha alma: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome -- o Deus-homem (3). Glória à memória de Isaías, o profeta clarividente da minha alma!

Ó Senhor celestial, abra os ouvidos da minha alma para que ela não se torne surda aos conselhos do Teu mensageiro.

Não mates os profetas que te foram enviados (4), alma minha, pois suas sepulturas não contêm a eles, mas àqueles que os mataram.

Lava-te e purifica-te; torna-te tranquila em meio ao mar turbulento do mundo, e guarda em ti os conselhos dos profetas que lhe foram enviados. Entrega-te completamente ao Altíssimo e dize ao mundo: "Não tenho nada para ti".

Até mesmo os mais justos dos filhos dos homens que crêem em ti são meras sombras débeis as quais, como o justo José, andam em tua sombra. Pois mortalidade gera mortalidade, e não vida. Em verdade te digo: os maridos mundanos erram quando dizem que dão vida. Eles não dão vida, mas a matam. Eles empurram a vida para o mar vermelho e a afundam, não sem antes envolvê-la em trevas e transformando-a em ilusão diabólica. Não há vida, ó alma minha, a não ser aquela que vem do Espírito Santo. Não há realidade alguma no mundo, a não ser aquela que vem do céu.

Não mates os profetas que lhe foram enviados, alma minha, pois a morte é uma ilusão das sombras. Não mates, pois tu não podes matar ninguém a não ser a ti mesma.

Sê virgem, alma minha, pois a virgindade da alma é a única semi-realidade neste mundo de sombras. Uma semi-realidade, até que Deus nasça nela. Então a alma se tornará plena realidade.

Sê sábia, virgem minha, e recebe cordialmente os dons preciosos dos magos do Oriente destinados a teu Filho. Não te voltes ao Ocidente, onde se põe o sol, e não almejes falsos dons.

Notas:

(1) Cf. Gênesis 28:12: E eis uma escada posta na terra, cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela, e João 1:51: Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem.

(2) Cf. Êxodo 14.

(3) Cf. Isaías 7:14: Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.

(4) Cf. Mateus 23:37: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!

Oração LXVIII

O hindu amaldiçoa o karma. O muçulmano amaldiçoa o kismet. O cristão amaldiçoa o pecado.

Todos eles amaldiçoam suas maldições; em verdade, todas as formas de maldição são uma privação de liberdade.

Todos eles amaldiçoam suas maldições -- a única bendita maldição. Todos eles murmuram contra as cinzas, as quais os mantêm presos a elas e estão certas de vencer.

Em verdade, os jogadores não gostam daquele cuja vitória é certa em um jogo com pessoas mais ineptas.

O hindu não amaldiçoa a privação de liberdade, mas sua vassalagem àquilo que é pior que si próprio. Nem o muçulmano amaldiçoa a privação de liberdade, mas sua vassalagem àquilo que é pior do que si próprio. Nem o cristão amaldiçoa a privação de liberdade, mas sua vassalagem àquilo que é pior do que si próprio. Nenhum deles murmura contra seu mestre como se ele fosse seu mestre, mas como se fosse um mestre inferior a si próprios.

O mundo procura mestres. Ao experimentar os mestres, o mundo submete-se ao papel de servo e, alimentando-se de cinzas, tenta preservar sua dignidade com murmúrios.

Pensei comigo mesmo e perguntei-me: "Tu consegues lançar o karma para trás de ti -- essa montanha enorme, tão antiga quanto o mundo, tão pesada quanto o mundo -- tu consegues lançá-la para trás de ti?

"Pode uma gota d´água realmente encontrar seu caminho na luz? Pode o fogo no coração da montanha conduzir-se até o topo, onde o sol o aguarda?"

Ainda outra vez pensei comigo mesmo e perguntei-me: "Tu consegues criar um kismet para o kismet? Pode um condutor de camelos salvar-se a si próprio e a seu camelo de uma tempestade de areia e ainda chegar a tempo vindo de uma rota sem oásis?

"Pode um filho registrar no seu patrimônio um pai plenipotenciário?

"Pode o legislado tornar-se o legislador?"

Ainda outra vez pensei comigo mesmo e perguntei-me: "Tu podes escapar deste campo de pecados, onde uma simples semente gera cem colheitas?

"Pode alguém que tenha encontrado um campo melhor realmente conseguir abandonar um campo pior?

"Pode alguém que descobriu que seu companheiro de viagem é um malfeitor, virar as costas e se afastar dele?"

Mas o medo em mim retorque: "E se não houver outro campo? E se não houver outro companheiro de viagem?"

Mas o Eu mais corajoso em mim responde: "Quando eu falo de Brahma, não estou falando de outro campo? Quando eu falo de Allah, não estou falando de outro companheiro de viagem? Quando eu falo de Cristo, não estou falando de salvação?"

Ó Rei Celestial, aceita minha alma como Tua serva. Eis que minha única liberdade é servir alguém melhor do que eu mesmo.

19 de julho de 2009

São Sisoé, o Grande

Nascido no Egito, São Sisoé viveu primeiramente em Cetis e, após a morte de Santo Antônio, transferiu-se para a montanha do deserto na qual Santo Antônio vivera em asceticismo e que posteriormente recebeu seu nome. Ele adquiriu a humildade mediante intensos combates contra si próprio, tornando-se manso e inocente como um cordeiro. Por causa disso, Deus concedeu a Sisoé os inestimáveis dons da cura, do exorcismo de espíritos impuros e da ressurreição de mortos. Sisoé viveu no deserto por sessenta anos, tornando-se fonte viva de sabedoria para todos aqueles que vinham lhe pedir conselhos, sejam monges ou leigos. No leito de morte, o rosto de Sisoé brihou como o sol. Os monges que se encontravam em torno dele se maravilharam deste feito e, quando o santo entregou seu espírito, o recinto inteiro encheu-se de uma fragrância maravilhosa. Ele repousou em idade avançada, no ano de 429. São Sisoé ensinara a seus monges: "Quando vier a tentação, o homem deve entregar-se à vontade de Deus, reconhecendo que as tentações surgem por causa de seus pecados. Se algo bom terminar, o homem deve reconhecer que esse algo terminou pela providência de Deus". Um monge lhe perguntou: "Como agradar a Deus e ser salvo?" O santo respondeu: "Se tu desejas agradar a Deus, retira-te do mundo, aparta-te das coisas terrenas, deixa para trás a criação e junta-te ao Criador, une-te a Deus com orações e lágrimas e, assim, encontrarás repouso neste mundo e no próximo". Um monge perguntou a Sisoé: "Como adquirir a humildade?" O santo respondeu: "Quando o homem aprende a considerar todos os demais melhores que si próprio, então terá adquirido a humildade". Certa vez, Ammon queixou-se a Sisoé porque não conseguia memorizar as sábias palavras que lia, de maneira que não conseguia citá-las em suas conversas. O santo respondeu-lhe: "Isso não é necessário. O que é necessário é adquirir a pureza da mente e falar a partir dessa pureza, depositando tuas esperanças em Deus".

[The Prologue from Ochrid: Lives of the Saints and Homilies for Every Day in the Year -- Parte 3, Bishop Nicholas Velimirovich, Lazarica Press, Birmingham, Inglaterra, 1986]

As riquezas não sobrevivem; a glória não acompanha ninguém ao outro mundo; a beleza se modifica; a juventude passa e a velhice chega; a saúde se desvanece; a doença desponta; a sepultura desintegra tudo em nada.

Quando visitamos nossa morada perpétua, nosso túmulo, veremos com nossos próprios olhos toda a futilidade do homem, conforme disse São Sisoé quando viu o túmulo de Alexandre, o Grande, e gritou: "Ah, morte! O mundo inteiro não foi grande o bastante para ti, Alexandre. Como então tu estás contido agora em dois metros de terra?"

[...]

Um padre estava levando um irmão monge para julgamento, ou melhor, para acusá-lo. Dirigindo-se ao Pe. Sisoé, disse-lhe:

"Padre, quero prestar queixa contra meu irmão porque ele fez isso e isso de ruim contra mim".

"Desculpe-o. Perdoa-o".

"Não", respondeu ele, "se eu o perdoar, ele fará a mesma coisa contra mim novamente. Este homem precisa ser punido".

"Ora, tudo bem, meu filho. Então vamos rezar uma oração e partir".

Eles se ajoelharam e o Pe. Sisoé começou a rezar: "Pai nosso...e não perdoa as nossas dívidas assim como nós não perdoamos aos nossos devedores..."

"Não, padre, está errado", disse ele, "tu cometeste um erro".

"Já que tu queres levar teu irmão a julgamento, então é assim que rezaremos".

Foi então que o monge percebeu seu erro, arrependeu-se e não mais denunciou seu irmão.

[Counsels from the Holy Mountain, Elder Ephraim, Saint Anthony's Greek Orthodox Monastery, Florence, Arizona, Estados Unidos, 2000]

22 de maio de 2009

O noûs segundo o Apóstolo Paulo

Há alguns meses, encontrei uma aparente discordância entre a explicação do Pe. John Romanides e a do Pe. Damascene Christiansen sobre o sentido que o Apóstolo Paulo atribuiu à palavra noûs.

Segundo o Pe. John Romanides:
É importante notar que há uma diferença terminológica entre o Apóstolo Paulo e os Padres [da Igreja]. O que São Paulo chama de noûs é o que os Padres chamam de dianoia. Quando o Apóstolo Paulo afirma Orarei com o espírito (I Coríntios 14:15), ele quer dizer o mesmo que os Padres quando dizem Orarei com o noûs. E quando ele afirma Orarei com o noûs, ele quer dizer Orarei com o intelecto (dianoia).
No entanto, segundo o Pe. Damascene Christiansen:
Do ponto de vista teológico, é importante ressaltar que a “renovação da mente” [Romanos 12:2] da qual fala São Paulo é, na verdade, a “renovação do noûs”. No original grego, a palavra mente é noûs. Na teologia ortodoxa, noûs é a faculdade ou poder mais elevado da alma humana. É a faculdade que conhece a Deus diretamente; é o centro de nossa personalidade, a qual tem experiência com a Pessoa de Deus em comunhão de amor. São Gregório Palamás e outros Santos Padres afirmam que é o noûs que melhor define qual a “imagem de Deus” em nós.
Portanto, segundo o Pe. John Romanides, para o Apóstolo Paulo, o noûs seria o intelecto, isto é, a faculdade racional do homem, enquanto que, segundo o Pe. Damascene Christiansen, o noûs seria para o Apóstolo Paulo o coração ou mente, isto é, a faculdade mais elevada da alma humana, que conhece a Deus diretamente.

Intrigado com essa aparente incoerência, pedi ao Pe. Damascene que me explicasse essa confusão, e ele teve a gentileza de me ensinar que, na verdade, não há confusão alguma. Compartilho com os leitores deste blog a explicação do sábio hieromonge.
Creio que o argumento do Pe. John Romanides é válido, especialmente no que se refere ao versículo que ele citou (I Coríntios 14:15). Por outro lado, não creio que São Paulo esteja se referindo somente ao intelecto (dianoia) em Romanos 12:2. Isso fica mais claro quando comparamos este versículo com Efésios, capítulo 4: "Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; e vos renoveis no espírito da vossa mente (to pneumati tou noos umon)" (Efésios 4:22-23). No primeiro versículo, São Paulo fala da renovação da mente, e neste versículo ele fala da renovação do espírito da mente. Creio que podemos dizer com segurança que ele está falando, nos dois casos, do mesmo tipo de renovação. Ao dizer "espírito da vossa mente", no último versículo, São Paulo está expressando seu pensamento de maneira mais ampla, de acordo com a terminologia que comumente emprega em suas epístolas.

4 de maio de 2009

Capitalismo e a metafísica ocidental

Na parte VI do livro Γέννημα και θρέμμα Ρωμηοί (Nascido e criado como romano), o Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos, da Igreja Ortodoxa Grega, faz uma interessante digressão sobre o capitalismo e sua relação com a metafísica. O capítulo está disponível em inglês e se chama Capitalism as the offspring of Western Metaphysics (O capitalismo enquanto descendência da metafísica ocidental), mas infelizmente não há uma tradução portuguesa. O autor faz uso extensivo da obra de Max Weber, mas sem lastrear-se nela integralmente. Vou fornecer aqui um breve resumo.

* * *

1) O Ocidente adota a metafísica.
Ao contrário do que o título poderia sugerir, o Metropolita Hierotheos não se refere a uma "metafísica ocidental", mas ao fato do Ocidente adotar uma metafísica, isto é, de ter introduzido uma disciplina filosófica chamada metafísica em seu seio.

2) A metafísica sugere a predestinação.
Como a metafísica pretende ser uma explicação racional para a estrutura da realidade e do Incriado, a soteriologia também precisa acompanhar esse "racionalismo metafísico".

3) A predestinação implica em adquirir autoconfiança na salvação.
Segundo a teoria da predestinação, inventada por Santo Agostinho e posteriormente desenvolvida por Calvino e seus seguidores, Deus seleciona algumas pessoas para serem salvas, enquanto as outras estão fadadas à danação. Não há nada que possam fazer para mudar a predestinação divina, seja praticando virtudes ou vícios. Como eleitos e condenados não se distinguem externamente, a única coisa que a religião pode fazer é ajudar as pessoas a superar essa opressão pscicológica, essa solidão dramática individualista (uma vez que nem a Igreja, nem os mistérios, nem os sacerdotes, nem ninguém pode ajudá-las); em suma, a religião tem de ajudar o fiel a adquirir autoconfiança na sua salvação.

4) Adquirir a autoconfiança na salvação engendra o moralismo profissional.
Para expulsar as dúvidas e tentações que o diabo tenta imprimir nas pessoas a fim de extrair-lhes a autoconfiança, o cristão deve dedicar-se sobretudo à sua atividade profissional, de maneira diligente e perseverante.

5) O moralismo profissional implica na racionalização da vida social.
O moralismo profissional engendrou fraternidades protestantes que, para além de sua atividade missionária, eram verdadeiras empresas, sistematizando todas as atividades profissionais e sociais.

6) Por fim, a racionalização da vida social e a solidão individualista são os componentes fundamentais do asceticismo protestante, isto é, do capitalismo.

22 de fevereiro de 2009

O dom de falar em línguas

O livro In Peace Let Us Pray to the Lord: An Orthodox Interpretation of the Gifts of the Spirit, do Pe. Alexis Trader, esclarece a questão da "oração em línguas", de acordo com os Santos Padres da Igreja.

O Pe. Alexis nasceu em 1965, nos Estados Unidos, e foi criado em uma família metodista fervorosa. Anos mais tarde, converteu-se à Igreja, estudou teologia ortodoxa e mudou-se em 1995 para a Grécia, a fim de estudar grego moderno em Tessalônica. Lá, tomando contato constante com os monges do Monte Athos, tomou a decisão de tornar-se monge. Hoje, ele mora no Mosteiro de Karakallou, no próprio Monte Athos.

A obra do Pe. Alexis é toda dedicada ao leitor evangélico pentecostal (ou "carismático") que, desconfiado das demonstrações bizarras da presença do "Espírito Santo" em seu meio, busca um esclarecimento mais ponderado a respeito dos dons do Espírito.

No entanto, a obra também é dedicada aos ortodoxos, pois, como veremos, há uma enorme incompreensão a respeito do que vem a ser os dons do Espírito, em especial o dom das "línguas".

O autor faz uso intenso das obras dos Santos Padres contidas na Philokalia, do Pe. John Romanides, de alguns autores e teólogos ortodoxos gregos (cujas obras só existem em idioma grego) e do Pe. Seraphim Rose. A parte que me interessa aqui é a primeira, dedicada a explicar o que vem a ser o dom de línguas. A segunda parte, voltada sobretudo aos evangélicos, procura esclarecer o que é uma experiência espiritual autêntica, como as experiências falsas são produzidas, como o movimento evangélico deixa-se enganar pelo desejo ardente de "ter experiências espirituais" etc. Esta parte, para quem leu as obras do Pe. Seraphim Rose, não será novidade.

* * *

Em primeiro lugar, o Pe. Alexis esclarece que qualquer leitura da Bíblia tem de ser feita supondo-se que o leitor esteja em vias de deificação. Isso se explica da seguinte forma: se, para lermos uma obra de Matemática, é necessário ser minimamente experiente nessa ciência, por que para a leitura da Bíblia não se exige uma experiência equivalente? Se a experiência dos autores dos diversos livros da Bíblia era a visão divina (theosis) a partir do esforço ascético espiritual, por que não é exigido do leitor a mesma experiência? Por conseguinte, conclui-se que este é o primeiro grande erro cometido pelos "teólogos" e "especialistas" em Bíblia: eles não estão capacitados minimamente na mesma ciência que os profetas e santos autores da Bíblia estavam capacitados.

Em segundo lugar, o Pe. Alexis ensina como lidar com as aparentes divergências entre os Santos Padres a respeito de um determinado assunto. Por exemplo, quanto à natureza das "línguas", os Padres divergem em suas opiniões. Ocorre que, apesar de todos os Padres possuírem grande entendimento sobre as Sagradas Escrituras, o público para o qual dirigiam suas obras e homilias nem sempre era igualmente receptivo e capacitado, o que os forçava a adaptar um discurso adequado. Muitos Padres eram obrigados a adotar um discurso mais superficial, mais "fácil", simplório, já que o público mal se encontrava em vias de purificação do coração. Exemplos desse tipo de adaptação são, segundo o Pe. Alexis, São João Crisóstomo, São João Damasceno e, em menor grau, São Nicomedos da Santa Montanha. Assim sendo, para obtermos um esclarecimento mais preciso e profundo, é necessário que voltemo-nos aos Padres cujas obras eram dedicadas às pessoas já iluminadas ou em vias de iluminação. Estas obras encontram-se sobretudo na coletânea que hoje conhecemos pelo nome de Philokalia. São Pedro Damasceno, por exemplo, adverte a seus leitores que não fiquem chocados ou escandalizados caso encontrem divergências nas interpretações dos Santos Padres, mas exorta-os a perceberem que um tipo de interpretação é dado àqueles cujo noûs funciona adequadamente, enquanto outro tipo de interpretação é dado àqueles cujo noûs não funciona apropriadamente.

* * *

As línguas são explicitamente mencionadas em dois livros da Bíblia: nos Atos dos Apóstolos e em I Coríntios.

ATOS 2:1-17

E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, e Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto. Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos. (Atos 2:1-17).

Há, neste trecho, três manifestações da graça que, para o leitor desatento, poderão passar despercebidas ou confundidas. São elas:

1) "E todos [isto é, os Apóstolos]...começaram a falar noutras línguas". Este trecho refere-se às palavras das súplicas comuns que não eram simplesmente palavras expressas mentalmente ou racionalmente, mas palavras faladas no coração pelo Espírito Santo.

2) "...conforme o Espírito Santo lhes concedia [isto é, aos Apóstolos] que falassem". Este trecho refere-se ao dom da profecia, ou seja, à capacidade de esclarecer as Escrituras, assim como Cristo esclareceu as Escrituras aos Apóstolos na estrada de Emaús.

3) "...cada um os ouvia falar na sua própria língua". Este trecho refere-se ao fato das palavras dos Apóstolos terem sido compreendidas por aqueles cuja língua materna não era o hebraico. Aqui, a explicação de São Gregório de Nissa é mais convincente e coerente do que a explicação de São Gregório, o Teólogo. Segundo São Gregório de Nissa, os Apóstolos falaram em hebraico, enquanto os ouvintes entenderam em suas próprias línguas -- neste caso, o Espírito teria "traduzido" as palavras de São Pedro nos corações de cada ouvinte para suas próprias línguas. Mas, segundo São Gregório, o Teólogo, os Apóstolos teriam falado eles mesmos em diversas línguas estrangeiras, e os ouvintes apenas seguiram ouvindo o que lhes era dito -- porém, segundo o Pe. Alexis, São Gregório, o Teólogo, teria preferido esta versão para "incrementar" o milagre, fazendo-o operar do lado dos Apóstolos, e não dos ímpios judeus (o que atesta o que falamos acima, isto é, que os Santos Padres eventualmente tinham de adaptar as explicações teológicas a fim de buscar o efeito correto nos ouvintes). No entanto, o próprio São Gregório, o Teólogo, confessa que há uma interpretação alternativa, que é, justamente, a oferecida por São Gregório de Nissa. Se levarmos em conta questões práticas, a interpretação de São Gregório de Nissa é a que faz sentido. Não há porque supormos que os Apóstolos falaram simultaneamente em línguas diferentes, pois esse tipo de comportamento desordenado não é característico de homens modestos e equilibrados como os Apóstolos. De acordo com o Ancião Porfírio (+1991), a interpretação de São Gregório de Nissa é a correta, dado que o próprio Ancião Porfírio passou por uma experiência idêntica no Monte Athos: ele falava em grego, enquanto uma mulher o entendia em francês (sendo que a mulher não sabia absolutamente nada do idioma grego). Ainda segundo o Pe. Porfírio, os Santos Padres estavam cientes do milagre da compreensibilidade, mas o mistério era tão fabuloso que preferiam até mesmo evitar comentar sobre ele.

Em suma: as "línguas" do Pentecostes não têm nada a ver com os vários idiomas compreendidos no local, mas às palavras ouvidas pelos Apóstolos expressas pelo Espírito em seus corações. Os vários idiomas compreendidos são outro milagre, uma outra instância do que ali se passou.


I CORÍNTIOS 14:1-33

Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar. Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios. Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação. O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja. E eu quero que todos vós faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis; porque o que profetiza é maior do que o que fala em línguas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação. E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas, que vos aproveitaria, se não vos falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina? Da mesma sorte, se as coisas inanimadas, que fazem som, seja flauta, seja cítara, não formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca com a flauta ou com a cítara? Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha? Assim também vós, se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? porque estareis como que falando ao ar. Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação. Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim. Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja. Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a possa interpretar. Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. De outra maneira, se tu bendisseres com o espírito, como dirá o que ocupa o lugar de indouto, o Amém, sobre a tua ação de graças, visto que não sabe o que dizes? Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado. Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos. Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida. Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento. Está escrito na lei: Por gente de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos? Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Portanto, os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós. Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos. (I Coríntios 14:1-33).

1) "Falar em línguas" não é uma questão de línguas estrangeiras muito menos de balbuciar coisas sem sentido, mas trata-se da oração incessante no coração pelo Espírito. É uma interpretação dada por Orígenes (185-255), a qual os Padres Capadócios não rejeitaram. Infelizmente, nos tempos de São João Crisóstomo (+407), começou a circular a opinião de que o "dom das línguas" era a capacidade (dom) dos Apóstolos em falar nos idiomas das pessoas a quem proclamavam o Evangelho. Em seus comentários sobre essa epístola de São Paulo, São João Crisóstomo identifica as variedades de línguas com o dom apostólico da compreensibilidade no Pentecostes, mas confessa que "todo este trecho é extremamente obscuro". No entanto, São Nikitas Stithatos, sem alegar qualquer obscuridade, identifica as variedades de línguas com a oração incessante e silenciosa no coração pelo Espírito.

2) Ademais, as traduções modernas da Bíblia são péssimas, e só ajudam a piorar a situação. O trecho que colei acima é da Bíblia "Almeida Corrigida e Fiel" (ACF), uma espécie de "King James Version" portuguesa. O autor identifica uma série de erros de tradução na KJV que, não sem surpresa, são repetidos na ACF. Isso ocorre porque os tradutores, assumindo que as "línguas" são idiomas, interpretaram e traduziram a Bíblia de acordo com essa crença.

=> Versículo 2: "Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende". A tradução correta é: "Porque o que fala com uma língua não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o ouve".

=> Versículo 10: "Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação". A tradução correta é: "Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é muda". (O original grego é a phonon, isto é, sem voz).

=> Versículo 8: "Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?". A tradução correta é: "Porque, se a trombeta não manifestar seu som, quem se preparará para a batalha?".

=> Versículo 11: "Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim". A tradução correta é: "Mas, se eu ignorar a intensidade da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala seerá bárbaro para mim". (O original grego é dynamin, isto é, intensidade, volume, força, poder).

3) Outros trechos das epístolas do Novo Testamento que se referem à oração incessante no coração:

=> Orai sem cessar. (I Tessalonicenses 5:17).

=> Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração. (Efésios 5:19).

=> E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. (Gálatas 4:6).

=> E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos. (Romanos 8:26-27).

4) Por fim, vale lembrar que as exortações de São Paulo aos coríntios são até hoje seguidas em algumas comunidades monásticas do Monte Athos. Após os ofícios, se não há peregrinos no local, os monges rezam silenciosamente com seus cordões de oração. Mas, se há forasteiros presentes, mesmo que seja somente uma pessoa, os monges seguem a exortação de São Paulo e lêem os livros dos ofícios, assim como nas demais igrejas e mosteiros, para que os peregrinos (os "indoutos") possam dizer o seu "Amém" e serem edificados e instruídos.