26 de maio de 2011

Filosofia bizantina IV


Há entre os estudiosos da filosofia bizantina uma tendência muito natural de desprezar a influência latina no pensamento dos grandes autores do Império Bizantino. Embora parte desta postura seja justificável pelo simples fato de que as influências gregas no pensamento latino tenham sido muito maiores do que o contrário, é também fato que os autores latinos chegaram a exercer alguma influência sobre a filosofia desenvolvida pelos bizantinos.

Sten Ebbesen presta um papel importante ao resumir as influências gregas no mundo latino em “ondas”, facilitando assim o entendimento geral. Por outro lado, delineia brevemente as influências latinas no mundo grego.

Influências gregas na filosofia latina

A primeira onda situa-se nos séculos I a.C. e I d.C., quando Cícero, Varro, Lucrécio e Sêneca eram os responsáveis pelos maiores feitos filosóficos da época. As principais influências gregas situam-se no campo educacional, pois a virtual ausência de traduções latinas dos clássicos gregas – honrosa exceção feita ao Timeu, traduzido por Cícero – formava um obstáculo de difícil transposição. Esta primeira onda ainda não foi capaz de formar uma tradição filosófica latina, mas foi importante para introduzir elementos da filosofia grega na língua latina, como a ética estóica, por exemplo.

A segunda onda situa-se entre os anos 350 e 525. Novas traduções e adaptações foram feitas, sobretudo o Organon de Aristóteles, entre outras obras do Estagirita: Boécio foi o tradutor mais importante, que se considerava uma espécie de “segundo Cícero”. Prisciano esteve em Constantinopla para compor uma ampla gramática latina. Ademais, elementos do pensamento neoplatônico foram introduzidos no pensamento latino por Santo Agostinho, o qual foi responsável direto pela criação de uma tradição filosófica viva entre os latinos.

A terceira onda forma-se quando a educação superior começou a ganhar novo ímpeto no Ocidente nos dias de Carlos Magno. No século X, a onda ganhou ainda mais força, quando uma tradição genuinamente latina finalmente tomou forma. O Ars Vetus, as monografias de Boécio, a gramática de Prisciano e muitas outras obras foram fundamentais para o despontamento do então jovem escolasticismo. As principais características desta onda foram: (1) análise minuciosa de proposições e conceitos, frases e termos, (2) filosofia da linguagem e pesquisa lingüística, (3) formulação de regras lógicas que fundamentem uma estrutura argumentativa, (4) teste de hipóteses mediante a imaginação e (5) a noção de que a filosofia era uma empresa distinta da teologia. A maturidade deste período foi alcançada no século XII, com pensadores como Pedro Abelardo, Alberico de Paris, Adam Balsham Parvipontanus e Gilberto de Poitiers. É neste século que podemos dizer que a filosofia latina emancipou-se definitivamente, já que, além das razões acima, também é este o período em que Constantinopla e Tessalônica eram os únicos centros bizantinos que restaram, enquanto o mundo latino crescia por toda a Europa Meridional e Central. Curiosamente, até onde consta, ninguém no mundo bizantino interessava-se em estudar latim.

A quarta onda é uma continuação da terceira, na qual novas traduções do Corpus Aristotelicum foram disponibilizadas, bem como comentários latinos originais. Ebbesen identifica certa esquizofrenia no meio latino, já que em muitos meios a atenção voltou-se dos particulares para os universais, para as hierarquias ontológicas, para a possibilidade de mergulhar o intelecto pessoal no mar de um “intelecto universal”.

A quinta e última onda é o movimento que comumente chamamos de “Renascença”, entre 1400 e 1500, inaugurado por uma nova injeção de platonismo. O cenário tornou-se ainda mais confuso, pois todo tipo de pensamento grego estava agora disponível. Uma profusão de filósofos incompetentes e pseudofilósofos tomou subiram à superfície. Bessarion pode ser considerado um dos destaques deste período.

Influências latinas na filosofia grega

A partir da Quarta Cruzada (1202-1204), ficou cada vez mais difícil os intelectuais gregos ignorarem a academia ocidental. Já no século XIII, alguns textos latinos foram traduzidos para o grego, como Boécio, Macróbio, Donato, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e outros. No século XIV, Barlaão da Calábria e mesmo São Gregório Palamás citaram ou aludiram a Santo Agostinho. São Gregório teria feito uso da distinção entre signos indicativos e signos comemorativos de Sexto Empírico. Ebbesen afirma, porém, que o contexto geral de tais influências eram muito modestas e pontuais.

Mais tarde, Demétrio (c. 1324-1397/8) e Prochoro Kydones (c. 1333-1369/70) traduziram importantes textos latinos para o idioma grego. Os imãos Kydones traduziram Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Hervaeus Natalis e outros. Jorge Scholarios (c. 1400-1472/4), também conhecido como Gennadios, traduziu outras obras de Tomás de Aquino, além de Pedro da Espanha e comentários acerca do Ars Vetus, sobretudo de Radulphus Brito.

A influência latina prosseguiu durante o período otomano. Theophilos Korydaleos (1572-1646) foi um dos responsáveis por trazer o pensamento aristotélico ao mundo grego.

Conclusão

Em verdade, somente na Itália do século XV foi possível verificar uma quantidade razoável de intelectuais dos dois grupos lingüísticos travando conversações e lendo os livros uns dos outros. Nos demais períodos, as influências deram-se de maneira unidirecional, em momentos de fraqueza de um dos lados, e por isso mesmo prejudicial, pois desacompanhadas da devida elaboração e adaptação.

22 de maio de 2011

As estratégias de poder nas empresas


Bastam alguns poucos meses de experiência profissional para que uma realidade geralmente menosprezada nos cursos de formação técnica e superior se torne evidente. Os recém-ingressos no mercado de trabalho rapidamente percebem que as empresas privadas não são guiadas exclusivamente pelo cálculo econômico racional, ou seja, elas não tomam suas decisões baseando-se em considerações que estejam direta e indiretamente ligadas à otimização do lucro e redução de custos. Quem quer que observe com atenção a dinâmica de relações em uma empresa logo concluirá que há muitos outros elementos que são levados em consideração pelos gerentes em suas tomadas de decisão. Amizades, afeições, ambições, ciúmes, invejas, temores, ameaças – estes e outros são componentes perenes da ação humana que também fazem parte das empresas e que também desempenham um papel importante na vida organizacional. A ação humana possui uma dimensão social, e as organizações, por fazerem parte da sociedade, não estão isentas da ação destes elementos essencialmente humanos.

O organograma geralmente é entendido como sendo a síntese das relações de convencionais de autoridade entre estes elementos. Todavia, sabe-se, conforme mencionado acima, que há inúmeras relações que não são convencionais e que, mesmo assim, precisam ser levadas em conta pelo gerente-geral, pelos gerentes e pelos funcionários.

De que outras maneiras além das convencionais os funcionários de uma empresa, ao longo de seu desenvolvimento e maturidade, procurarão influenciar as decisões de seus superiores? Quais estratégias políticas a direção da empresa poderá adotar para se relacionar com órgãos reguladores e fiscalizadores? De que maneira os sócios poderão se beneficiar pessoalmente de sua posição privilegiada? Como os sócios poderão agir para influenciar-se mutuamente a fim de que a empresa tome a direção desejada por um ou alguns deles?

Visão geral

As “estratégias de poder” – assim chamadas em uma das obras mais importantes sobre estratégias empresarias (MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, 1998) – são aquelas que têm por objetivo explícito influenciar politicamente pessoas e empresas. Por “politicamente” entende-se influenciar por meios que não sejam exclusivamente econômicos e mercadológicos, ou seja, por relações que vão além das atividades típicas da função empresarial. A formação de alianças é uma das estratégias políticas que vêm à mente quando se fala de poder, mas nem sempre as estratégias de poder restringem-se a meios legais; neste sentido, podemos pensar também na formação de cartéis que, embora formalmente ilegais, também devem ser classificados dentro da categoria de estratégia de poder. Portanto, as expressões “estratégia de poder” e “estratégia política” são intercambiáveis, embora etimologicamente a segunda expressão sugira um uso mais governamental e partidário do que propriamente empresarial, o que naturalmente acaba conferindo às estratégias políticas certo perfil antiético, o qual, veremos, é um tanto injusto.

No meio acadêmico, empresarial e midiático, costuma-se dar grande destaque à estratégia posicional (PORTER, 1998a), cuja característica precípua é fazer avançar a empresa mediante técnicas mercadológicas, administrativas e financeiras, ou seja, mediante técnicas que se situem dentro dos limites da atividade empresarial clássica. Por outro lado, a estratégia política, conforme dissemos acima, procura precisamente descrever e fornecer meios através dos quais o empresário, o grupo gestor, os gerentes ou mesmo os funcionários sejam capazes de afetar e manipular os principais agentes de influência que gravitam em torno da unidade empresarial, departamental ou funcional. É verdade que esta divisão não é estanque: Michael Porter também sugere em sua obra (PORTER, 1998b, p. 220) movimentos que possam ser classificados como políticos, e nem sempre toda estratégia política deixa de ser também, sob certos aspectos, econômica. Por isso, verificamos que há na realidade um continuum entre as duas estratégias.

Assim, as relações de poder podem ser divididas em duas grandes classes, dentro das quais a literatura pertinente também se dividirá respectivamente. A primeira é o micropoder, ou seja, as relações de poder intraorganizacionais. A segunda é o macropoder, ou seja, as relações de poder organizacionais. Em outras palavras, o micropoder é a relação de poder de indivíduos dentro de uma empresa, enquanto o macropoder é a relação de poder da própria empresa, ou seja, da própria unidade organizacional.

A literatura de ambas as classes é relativamente diminuta. Verifica-se que pouca atenção tem sido dada às estratégias de poder, embora curiosamente elas sejam onipresentes nas empresas. Mas como se explica esse fenômeno? Talvez a divisão de temperamentos (KEIRSEY, 1995) ajude a explicar esta situação. Enquanto empresários, empreendedores e líderes em geral tendem a ser “idealistas” e “artesãos” (nomenclatura do próprio autor), os estudiosos e formuladores de estratégias tendem a ser “racionais”. Naturalmente avessos ao ambiente disforme e irracional das relações empresariais e pessoais, os estudiosos das estratégias empresariais menosprezam muito facilmente estes aspectos, procurando apegar-se ao ambiente racional e controlado das relações econômicas e mercadológicas. Em outras palavras, as estratégias posicionais, com sua ênfase em questões de liderança em custo e diferenciação, são elevadas à condição de “relações éticas”, superiores, honrosas, enquanto as relações de poder, influência e alianças são rebaixadas a algo menos do que antiético, desprezível e mesquinho. Assim, um curioso paradoxo se forma neste âmbito: acadêmicos e pesquisadores devem aprender a observar as relações empresariais para além de suas interfaces econômicas e mercadológicas, enquanto empresários e CEOs precisam aprender a valorizar as pesquisas que lhes ajudem a compreender a ampla natureza de sua atividade e, conseqüentemente, a tornarem suas organizações mais sólidas, duradouras e lucrativas.

Micropoder

As organizações são compostas por indivíduos, isto é, são compostas pelos sonhos, esperanças, invejas, ciúmes, interesses e temores destes indivíduos. Ingênuos são aqueles que imaginam que os gerentes são seres perfeitamente racionais, ou pelo menos exclusivamente racionais, que, ao adentrarem em suas organizações, deixam para trás os aspectos a-racionais de sua psique. Similarmente, ingênuos são aqueles que imaginam que as estratégias e táticas empresariais não levam em conta estes aspectos a-racionais.

É impossível formular estratégias ótimas. Os objetivos dos indivíduos e as coalizões que são engendradas a partir da relação entre eles torna impossível que a estratégia pretendida não seja perturbada e distorcida ao longo do caminho, o que significa que toda uma gama de “jogos políticos” é desempenhada no interior das organizações, os quais desvirtuam a estratégia original.

Em um clássico artigo acerca dos movimentos sociais nas organizações (ZALD, BERGER, 1978) – a expressão “movimentos sociais” não tem a mesma acepção que a tomamos coloquialmente, ou seja, não se refere a ONGs, sindicatos e instituições similares –, três desses “jogos” são descritos:

(1) Golpes: é a tomada de poder, engendrada quando os golpistas substituem os donos do poder por si próprios, mas mantém a estrutura de poder intacta.

(2) Insurgências: não há substituição da liderança, mas apenas uma mudança de algum aspecto da função organizacional que se dê fora dos canais políticos convencionais.

(3) Movimentos de massa: meras expressões de descontentamento ou resistência a mudanças; são mais visíveis e envolvem mais pessoas do que os dois “jogos” acima.

Os “movimentos sociais” nas empresas são, na verdade, fenômenos que lembram os movimentos sociais classicamente estudados nas ciências políticas e sociais. Se guardarmos as devidas proporções, eles também ocorrem nas empresas. Trata-se de um fato facilmente verificável, mas dificilmente versado na literatura sobre estratégias empresariais.

Movimento social é aquele em que há uma expressão por uma preferência de mudança entre membros de uma sociedade. Os movimentos sociais diferem-se entre si no que tange (a) a amplitude de apoio dentro da sociedade, (b) os objetivos, (c) as estratégias e táticas e (d) a localização dos partidários na estrutura social. Há ainda dois componentes que regem a participação de partidários em movimentos sociais: a relação risco/recomepensa e a alocação de recursos.

Assim como os processos políticos da sociedade são caracterizados em termos de direitos, deveres e privilégios dos diferentes indivíduos e grupos entre si, assim também a organização define direitos e deveres dos membros e líderes em relação às decisões e comportamentos. Dentro destes limites estabelecidos é que ocorrem as políticas convencionais. As políticas anticonvencionais procuram precisamente afetar as decisões e alocações de recursos por maneiras "ilegais", ou pelo menos neutras, do ponto de vista da constituição organizacional. Os movimentos sociais são, portanto, formas de política anticonvencional.

As empresas corporativas, ou seja, as empresas que possuem um centro bem estabelecido que "possui" a empresa de maneira claramente hierarquizada são menos suscetíveis a movimentos políticos do que empresas federadas, ou seja, empresas que possuem centros decisórios difusos em diversas unidades de negócio relativamente autônomas. Nas empresas corporativas, as políticas anticonvencionais se dão em sua maior parte de maneira conspiratória e flagrante, enquanto nas empresas federadas elas se dão de maneira mais constante e permeada. Neste trabalho, dado que o interesse é mais concentrado em empresas corporativas, delinearemos três dos processos mais comuns de conspiração dentro delas.

Os movimentos sociais nas organizações são exatamente o local nos quais surgem as questões e debates políticos das mudanças sociais. As organizações não estão inseridas apenas em "ambientes", mas na sociedade como um todo. O argumento central aqui é que os conflitos nas organizações ocorrem fora dos canais normais. Trata-se, portanto, de uma "oposição anticonvencional". Assim como nos Estados-nações, nos quais os conflitos ocorrem fora dos canais institucionalizados, assim também ocorre nas organizações: a maior parte das oposições anticonvencionais podem ser analisadas com as mesmas ferramentas utilizadas pelas análises dos movimentos sociais.

Retomando-se o que foi dito acima, os três tipos de movimento social são o golpe organizacional, a insurgência burocrática e os movimentos de massa. Estes três tipos são análogos aos encontrados na literatura dos movimentos sociais. As condições internas de cada organização promovem ou inibem cada um dos três tipos, segundo as características vigentes. Ademais, estas formas de oposição ocorrem em diferentes instâncias na estrutura social, usam diferentes táticas e seus efeitos também são variados.

(a) Golpes organizacionais

Em LUTTWAK (1979), argumenta-se que os golpes não são perpetrados de fora, mas são uma tomada de poder perpetrada desde dentro do sistema. Ademais, os golpes costumam ser politicamente neutros, cujo objetivo é a mera tomada do poder. Qual política será implementada é uma questão a ser tratada depois do golpe. Por fim, LUTTWAK (1979) também ensina que os golpes nunca confrontam diretamente o adversário, mas atuam mais semelhantemente a técnicas de judô, fazendo uso do peso e do equilíbrio do adversário contra ele mesmo.

Por analogia, os golpes organizacionais são definidos como sendo infiltrações de grupos pequenos, mas críticos, desde dentro da estrutura organizacional, com o objetivo de sucederem o poder vigente. Infiltração implica em secretude, que é uma das características principais do golpe organizacional.

Há algumas condições que precisam estar vigentes para que seja possível a ocorrência de um golpe.

(1) Os subordinados devem ser muito dependentes de seus superiores. Em outras palavras, a estrutura organogramática tem de ser bem hierarquizada.

(2) Os CEOs da empresa devem tradicionalmente ser escolhidos de dentro. Um golpe pode até demover um CEO, mas sem a garantia de que um dos golpistas será eleito o novo CEO, a relação risco/recompensa torna-se alta demais.

(3) Os conspiradores têm de ter acesso ao conselho administrativo, ou seja, aos votos ou aos membros que detêm mais votos.

(4) Os CEOs incompetentes, indecisos e fracos são vítimas prováveis de tentativas de golpe.

O golpe pode resultar de duas formas: (a) o golpe deu errado, e o CEO isola ou demite os conspiradores; (b) o golpe deu certo, ou parcialmente certo, e mudanças se seguem a ele. Em geral, os golpes raramente afetam os membros dos níveis abaixo da elite.

(b) Insurgência burocrática

A insurgência burocrática não procura substituir o CEO, mas alterar algum aspecto específico da função organizacional, como as prioridades da empresa, especificações de produtos, denúncias etc. Em geral, os insurgentes são gerentes de nível médio e até mesmo profissionais qualificados. Se alguma mudança proposta for negada, estará dada a possibilidade de uma insurgência burocrática conspiracional. Como a insurgência pede apenas por reformas, as conseqüências pelo fato de ter sido descoberta não necessariamente levam à demissão, mas reduzem-se a medidas de repressão.

Um dos principais aspectos da organização que permite a insurgência é o controle deficiente do fluxo de informações e do status quo por parte das autoridades centrais. Assim, quanto maior a empresa, mais autônomas suas estruturas, mais imprecisos os relatórios e mais provável o surgimento de uma insurgência. Por outro lado, como as insurgências situam-se em um nível inferior da organização, é necessário que haja um suporte externo maior do que nos golpes. Por exemplo, os insurgentes podem procurar influenciar clientes e fornecedores e forçar a organização a se adaptar a demandas artificialmente criadas.

O resultado da insurgência depende diretamente da intensidade com que os insurgentes ameaçam a autoridade vigente e dos custos que as autoridades têm de despender para reprimir a insurgência.

(c) Movimentos de massa

Os movimentos de massa surgem quando as duas conspirações acima tomam proporções tais que comitês e mesmo convenções são formados. O objetivo é expressar ressentimentos, descontentamentos e/ou promover resistências a mudanças.

Enquanto os golpes e insurgências só se revelam claramente no fim de suas histórias, os movimentos de massa são mais evidentes. Por exemplo: operações-padrão, greves, motins, secessões, deserções em massa e protestos.

Em termos gerais, quanto maior a organização, mais ela estará exposta a movimentos de massa. Ademais, quanto mais homogêneo for o grupo de subordinados, tanto maior a probabilidade de desafiarem os superordinados. Por fim, quanto mais verticalizada a empresa, maior as chances dos canais de ressentimento e comunicação serem bloqueados. E, claro, os custos de demissão são diretamente proporcionais às chances de movimentos sociais se formarem, além da presença de membros sindicalizados intensificar a presença de tais movimentos.

As causas dos movimentos de massa variam desde a qualidade da comida no refeitório até as práticas e procedimentos de produção e ideologização dos membros do movimento.

Outra abordagem interessando do micropoder encontra-se em BOLMAN; DEAL (2008). Segundo os autores, em tempos de dificuldade, quando as condições são desfavoráveis para a empresa, as batalhas políticas podem se reconfigurar de maneiras imprevisíveis, transformando o ambiente que outrora era saudável em um atmosfera perigosamente confusa e indiscernível aos olhos da liderança.

No entanto, embora as manobras políticas possam prejudicar ou mesmo destruir as estratégias, também é verdade que estratégias possam surgir precisamente dos processos políticos. Quando as estratégias surgem desta forma, tendem a ser mais emergentes do que deliberadas, ou seja, tendem a ser menos intencionadas, a ponto de se tornarem praticamente invisíveis. Alguns atores podem agir de maneira deliberada, mas ninguém, ou praticamente ninguém, enxerga a estratégia geral que tais manobras possam estar seguindo ou produzindo. Daí serem “emergentes”, no sentido de serem efeitos de muitas e difusas causas.

Assim, embora a política possa ter efeitos evidentemente disfuncionais, divisivos e custosos, também é verdade que a política pode e deve desempenhar um papel funcional nas organizações. Há três fontes ou situações convencionais nas quais o poder é oficialmente reconhecido: a autoridade formal, a cultura consagrada e a qualificação (expertise) técnica. Porém, há uma quarta fonte, a política propriamente dita, na qual os meios não são legítimos, ou “anticonvencionais” (ZALD, BERGER, 1978), ou pelo menos não formalmente reconhecidos, mas cujos fins são perfeitamente legítimos e desejados:

(a) A política pode exercer um papel semelhante à seleção natural, isto é, permitir que os membros mais fortes de uma organização sejam trazidos para as posições de liderança que naturalmente lhes cabem.

(b) A política pode garantir que todos os lados de uma questão sejam obrigatoriamente debatidos, enquanto as demais fontes de poder podem não promover um debate assim tão profícuo.

(c) A política pode despertar mudanças necessárias que outrora permaneceriam bloqueadas pelas demais fontes convencionais de poder.

(d) A política pode facilitar a execução destas mudanças necessárias.

Interdependência, divergência de interesses, escassez e relações de poder inevitavelmente geram atividades políticas. Românticos são aqueles que desejam que a política seja eliminada das organizações. Eliminar a política significa eliminar as pessoas, eis algo que os românticos jamais admitiriam.

(1) As empresas são coalizões de indivíduos e grupos de interesse.

(2) Há diferenças permanentes de valores, crenças, informações, interesses e percepções da realidade entre os membros das coalizões.

(3) As decisões mais importantes implicam na alocação de recursos escassos.

(4) Os recursos escassos e as diferenças permanentes conferem ao conflito um papel central na dinâmica organizacional e faz do poder o recurso mais importante.

(5) Os objetivos e decisões surgem da barganha, da negociação e da manipulação entre os diversos stakeholders.

As diferenças permanentes implicam que a atividade política é mais visível e dominante sob condições de diversidade, e não de homogeneidade. O conceito de escassez sugere que a política será mais saliente e intensa em tempos difíceis. As diferenças e os recursos escassos fazem do poder um recurso essencial. O poder nas organizações define-se como sendo a capacidade de fazer as coisas acontecerem. PFEFFER (1992, p. 30) define o poder como sendo “a capacidade potencial de influenciar comportamentos, mudar o curso das ações, superar as resistências e fazer com que as pessoas façam aquilo que de outra forma não fariam”.

A proposição final da política empresarial deixa claro que os objetivos não são formulados por decreto, mas mediante um processo contínuo de negociações e barganhas. Pouquíssimas organizações possuem um vértice unitário. Quem, por exemplo, é o líder de uma empresa? O CEO? Mas o CEO responde ao conselho. O conselho é eleito e responde aos acionistas. E os acionistas são um grupo amplo de pessoas que se encontram espalhadas e ausentes, ocupadas demais para influenciar a organização da qual cada uma detém um pedaço.

Nas empresas, todos são membros de uma grande coalizão. Todos fazem exigências por recursos e todos barganham a fim de obtê-los.

A autoridade é apenas uma das muitas formas de poder. A força da política reside na maneira como os concorrentes articulam preferências a fim de mobilizar poder para obter o que querem. Neste sentido, o poder não é algo maligno.

Os dois grandes antagonistas dos jogos políticos são as “autoridades” e os “partidários”. Toda e qualquer pessoa da coalizão que deseja exercer pressão de baixo para cima é um partidário em potencial. Enquanto as autoridades são receptoras de influência e agentes de controle político, os partidários são receptores de controle político e agentes de influência. As autoridades só são capazes de exercer controle sobre os partidários na medida em que estes respeitem ou temam a autoridade de maneira que seu poder mantenha-se intacto.

As fontes de poder, conforme dissemos acima, transcendem as fontes clássicas. Elas incluem a posição de poder (autoridade), o controle de recompensas, o poder coercitivo, conhecimento técnico, reputação, poder pessoal (“carisma”), redes de alianças, controle de projetos, controle de significados e símbolos etc.

Os gerentes que confiam somente na posição de poder, ou seja, na autoridade clássica, estarão fadados a ser flanqueados, superados e esquecidos por aqueles mais capacitados ao exercício do poder e da política. Raramente a posição de poder é suficiente para o bom desempenho de um gerente. O poder de um presidente, por exemplo, reside nas zonas de indiferença, ou seja, na sensibilidade de captar qual o terreno no qual é capaz de se mover e tomar decisões e ações sem sofrer grande oposição.

ALDERFER (1972) classifica as empresas como sendo hipercoesas ou hipocoesas, ou seja, empresas cujo poder é concentrado ou empresas cujo poder é difuso. Nas empresas hipercoesas, as atividades políticas costumam ocorrer em segredo.

Do ponto de vista político, os conflitos não são necessariamente ruins ou condenáveis. Os conflitos podem ser altamente benéficos: “uma organização tranqüila e harmoniosa pode muito bem ser um lugar apático, estagnado, inflexível e indiferente. Os conflitos desafiam o status quo e estimulam o interesse e a curiosidade. Os conflitos são a raiz da mudança pessoal e social, da criatividade e da inovação. Os conflitos encorajam novas idéias e abordagens para velhos problemas, estimulando, assim, a inovação” (HEFFRON, 1989, p. 185).

Muitos acreditam que a gestão empresarial e a política são contrárias. Trata-se de uma idéia absurda: a política é uma das dimensões da vida social e, portanto, não pode ser simplesmente “desligada”.

Neste contexto, muitos gerentes acabam atuando em um dos extremos: ou são ingênuos, ou são cínicos. Os ingênuos vêem as pessoas como boas, cordiais e confiáveis. Os cínicos, ao contrario, enxergam egoísmo em tudo e em todos. No entanto, as organizações precisam mais do que nunca de “políticos benevolentes”, de gerentes que se situem entre a ingenuidade e o cinismo. No mundo da escassez crônica, os gerentes inteligentes andam na corda bamba: desenvolvem uma base de apoio e costuram relações com aliados e oponentes.

Portanto, os gerentes devem exercer quatro habilidades:

(a) Estabelecer um projeto (“agenda”). Politicamente, o projeto (em inglês, agenda) é composto de uma declaração de interesses e um cenário para a obtenção de bens. Dois elementos são fundamentais: uma visão que harmonize os interesses de longo prazo dos membros e uma estratégia para chegar à visão ao mesmo tempo em que leve em consideração os concorrentes internos e externos.

(b) Mapear o terreno político. Quatro passos são fundamentais: determinar os canais de comunicação informal, identificar os principais agentes de influência política, analisar as possibilidades de mobilizar membros interna e externamente, antecipar possíveis contraestratégias.

(c) Formar coalizões e networking. Os gerentes não devem confiar demais na razão e confiar de menos nos relacionamentos. Há quatro etapas fundamentais para o exercício da influência política: identificar os relacionamentos relevantes, avaliar quem pode resistir e por quê, desenvolver laços com oponentes em potencial a fim de facilitar a comunicação e a negociação, e caso o passo anterior fracasse, selecionar e implantar métodos sutis e contundentes.

(d) Barganhar e negociar. O objetivo nas negociações é “criar valor”, e não “exigir valor”. Os criadores de valor têm de ser inventivos e cooperativos, enquanto aqueles que exigem valor fazem tudo o que podem para extrair do oponente o que precisam. Há quatro estratégias básicas para negociar como um criador de valor: separar as pessoas dos problemas, concentrar-se nos interesses (não nas posições), inventar opções de ganho mútuo ao invés de confiar na primeira alternativa que vier à mente, e insistir em critérios objetivos (padrões de justiça aplicáveis às substâncias e aos processos).

O bom gerente-político deve apegar-se a quatro princípios éticos básicos:

(a) Reciprocidade. Todos os lados devem conhecer as regras do jogo.

(b) Generalidade. Os princípios básicos da moralidade também devem se aplicar ao caso em questão.

(c) Abertura. As decisões devem poder ser públicas e confrontáveis.

(d) Assistência. A ação política também deve se ocupar dos interesses e sentimentos legítimos dos oponentes.

Infelizmente, a maioria dos grandes gerentes e diretores raramente versa sobre questões morais. “O isolamento das pessoas – o tabu de falar sobre questões espirituais em público – lhes tolhe a coragem e o ímpeto para fazerem aquilo que, no fundo, acham que é certo”. (PORTER, 1998b, p. 144).

Macropoder

No âmbito do macropoder, que é o tipo de influência política exercida pela organização em relação ao mercado como um todo, o grande desafio é gerenciar as trocas e as relações com os diversos interesses afetados pelas suas ações. Neste sentido, as organizações podem seguir três estratégias básicas:

(a) Lidar com as demandas na medida em que surgem.

(b) Reter e revelar informações de maneira conveniente.

(c) Jogar um grupo contra o outro.

Em outras palavras, as organizações podem tentar reduzir sua dependência de relacionamentos externos, ou podem tentar se acomodar a esses relacionamentos externos. As estratégias que tentam reduzir tal dependência são amplamente conhecidas: fusões, lobby junto ao governo, aquisições, cartéis etc. De qualquer forma, o objetivo do macropoder é precisamente fechar-se às influências externas, garantindo uma sobrevivência duradoura e tranqüila. Observa-se que a estratégia política em sua dimensão macro é menos uma “posição” e mais uma “trama”. Enquanto na estratégia posicional (PORTER, 1998a) as atividades centrais são a análise sistemática, a avaliação de dados quantitativos e a elaboração cuidadosa de estratégias, a estratégia de macropoder depende de impressões, ações rápidas e intuições acerca do que os adversários possam fazer. Em suma, o macropoder tende a neutralizar a competição mediante a colaboração: é o que BRADENBURGER; NALEBUFF (1997) chamam de “coopetição”.

Conforme dissemos no início, uma das definições de política empresarial diz que todas as influências que não se concentram no âmbito econômico são políticas. Assim, uma empresa que procura formar um cartel ou que suborna funcionários públicos está tomando uma ação política. Embora tenhamos situado este tipo de influência sob o âmbito do macropoder, fato é que este tipo de comportamento, uma vez que se torna predominante em uma organização, projeta em sua estrutura conseqüências que também afetam o micropoder.

MISES (1944, p. 14) realizou um estudo muito interessante deste tipo de conseqüência.
A direção geral de uma empresa é exercida pelos acionistas [stockholders] e seus mandatários eleitos, os diretores. Os diretores indicam e demitem os gerentes. Nas empresas menores, e às vezes até mesmo nas grandes, as funções de diretor e gerente estão reunidas na mesma pessoa. Em última instância, uma empresa bem-sucedida nunca é controlada por gerentes assalariados. A emergência de uma classe gerencial onipotente não é um fenômeno do livre funcionamento do mercado. Muito pelo contrário, decorre de políticas intervencionistas que visam conscientemente a eliminação da influência dos acionistas e virtualmente a expropriação deles.
Em seguida, no contexto da intervenção estatal da economia, MISES (1944, p. 36) faz uma distinção entre “gestão burocrática” e “gestão lucrativa”. Vejamos o que ele diz para, em seguida, sintetizarmos as conseqüências da macropolitização das empresas na esfera do micropoder empresarial.
A gestão burocrática, diferentemente da gestão lucrativa, é o método usado na condução dos assuntos administrativos, cujos efeitos não têm valor em dinheiro no mercado. O bom desempenho no cumprimento dos deveres confiados a um departamento de polícia é da maior importância para a preservação da cooperação social e beneficia todos os membros da sociedade. Mas não tem preço no mercado; não pode ser vendida nem comparada. Assim sendo, não se pode confrontar o resultado obtido com as despesas incorridas. É benéfica, resulta em ganhos, mas esses ganhos não podem ser expressos em termos monetários, como é o caso dos lucros. Os métodos de cálculo econômico e, especialmente, a contabilidade de partidas dobradas não lhe são aplicáveis. O sucesso ou o fracasso das atividades de um departamento de polícia não pode ser apurado pelos procedimentos aritméticos utilizados pelas atividades com fins lucrativos. Nenhum contador pode informar se um departamento de polícia ou uma de suas subdivisões é rentável ou não.
Nos negócios com objetivo de lucro, a liberdade de ação dos gerentes e subgerentes é limitada por considerações de lucro e prejuízo. A motivação pelo lucro é a diretriz necessária e suficiente para submetê-los aos desejos dos consumidores. Não há necessidade de limitar sua liberdade de ação por instruções detalhadas e minuciosas. Se forem eficientes, essa ingerência seria no mínimo supérflua, senão perniciosa por lhes atar as mãos. Se forem ineficientes, ela não contribuiria para melhorar o seu desempenho. Tal ingerência somente lhes proporcionaria a desculpa pouco convincente de que seu fracasso foi causado por regulamentos inadequados. A única instrução necessária é evidente em si mesma e nem precisa ser explicitada: lucre.
Na administração pública, na condução dos negócios do governo, as coisas são diferentes. Neste campo, a liberdade de ação dos governantes e de seus auxiliares não é limitada por considerações de lucro e prejuízo. Se seu chefe supremo – seja ele o povo soberano ou um déspota soberano – deixar-lhes as mãos livres, estará renunciando à sua própria soberania. Esses governantes se converteriam em agentes que não precisariam prestar contas a ninguém e seu poder suplantaria o do povo ou o do déspota. Fariam o que quisessem e não o que seu chefe esperava que fizessem. Para evitar esse resultado e para submetê-los à vontade do chefe, é necessário dar-lhes instruções detalhadas de como devem proceder em cada caso. Ficam assim obrigados a cuidar de suas tarefas, obedecendo estritamente a essas regras e regulamentos. Sua liberdade para ajustar seus atos ao que lhes parece a solução mais apropriada de um problema concreto é limitada por essas normas. São burocratas, isto é, pessoas que em qualquer circunstância devem observar um conjunto de regras inflexíveis.
A gestão burocrática é uma conduta fadada a cumprir regras e regulamentos detalhados, fixados por uma autoridade superior. É a única alternativa à gestão lucrativa.
Pode-se concluir, a partir das considerações acima, que a politização da empresa, do ponto de vista do macropoder, leva necessariamente à burocratização interna dessa mesma empresa. Isso significa que quanto mais coopetitiva (e portanto menos competitiva) a empresa, menos sujeita estará às variações e flutuações de mercado. Conseqüentemente, os diretores e gerentes da empresa passarão a ser menos cobrados pelo desempenho financeiro de seus departamentos. Em outras palavras, num ambiente de pouca concorrência, o faturamento da empresa será menos suscetível às incertezas ligadas a questões como oferta, demanda e redução de custos. O faturamento de uma empresa altamente coopetitiva depende mais de suas relações e alianças com os agentes que possam garantir seu conforto mercadológico – políticos, cartéis, monopólios, oligopólios, conchavos, sociedades secretas, leis etc. – do que de seu desempenho baseado na satisfação de consumidores.

Dessa forma, os gerentes passam a exercer uma gestão muito mais burocratizada do que lucrativa, já que o controle sobre eles mesmos se dará de maneira mais relatorial, informativa e detalhista. Mas por quê? A resposta já foi dada acima: se a empresa como um todo não se lastreia em questões de lucro e prejuízo, uma vez que o lucro estaria bem garantido, tampouco as ações de diretores e gerentes se dará por estes critérios. Assim, o relaxamento natural das ações de presidente, diretores e gerentes deve ser contrabalançado por medidas que garantam que atuem dentro de limites bem estabelecidos, para que sua liberdade não resulte em desperdícios. Em outras palavras, as diretrizes top-down pensadas dentro do binômio lucro/prejuízo dão lugar a diretrizes top-down pensadas dentro do binômio regras/controles. Curiosamente, observa-se uma inversão aqui: a busca pelo lucro por parte do CEO já é o “controle” dentro da qual o restante da empresa trabalhará, tornando desnecessários muitos outros controles e relatórios; por outro lado, a ausência deste “controle” nas empresas politizadas exige medidas burocráticas rígidas que a substituam.

Em suma, a ausência do cálculo econômico implica na intensificação da burocratização.

Conclusão

As relações de poder em uma empresa transcendem as relações convencionais. Não é apenas na relação chefe-subordinado ou no acúmulo de conhecimento técnico que reside o poder. As alianças, o poder de barganha, o networking, as relações privilegiadas com fornecedores e clientes, as coalizões formadas por elementos homogêneos ou que tenham o mesmo objetivo, os contatos exclusivos com órgãos governamentais, o acesso a informações confidenciais, o carisma pessoal, a presença física privilegiada, a retenção ou distorção de informações – tudo isso são elementos que, combinados das mais diversas formas, desempenham um papel tão ou mais importante que a autoridade formal de cargos em um organograma.

Assim, a saúde de uma empresa dependerá da capacidade e da disposição de seus líderes, sobretudo daquele que ocupará a cadeira de CEO, em reconhecer todos os elementos que afetam seu quadro decisório. Viu-se, por exemplo, como é importante que ele saiba mapear o terreno político, formar um networking eficaz e dominar técnicas de negociação.

Também se verificou que quanto maior a dependência da empresa de favores governamentais, ou seja, quanto mais oligopolizado e mesmo monopolizado o mercado, tanto mais burocratizada será a estrutura organizacional, uma vez que o cálculo econômico deixa pouco a pouco de existir. Então se a empresa conseguir monopolizar ou pelo menos dificultar legalmente, através de normas e portarias, que competidores concorram pelo mesmo mercado, inicia-se a partir daí um processo inevitável de burocratização.

Referências

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BRADENBURGER, Adam; NALEBUFF, Barry. Co-Opetition. 1ª edição. Nova York, Doubleday. 1996.

HEFFRON, Florence. Organization Theory and Public Organizations: The Political Connection. 1ª edição. Upper Saddle River, Prentice Hall. 1989.

MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Strategy Safari: A Guide Throughout the Wilds of Strategic Management. 1ª edição. Nova York: The Free Press, 1998.

KEIRSEY, David. Portraits of Temperament. 3ª edição. Del Mar, Prometheus Nemesis Book Company, 1995.

LUTTWAK, Edward. Coup d'État: A Practical Handbook. 1ª edição. Cambridge, Harvard University Press, 1979.

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PORTER, Michael. Competitive Strategy: Techniques for Analyzing Industries and Competitors. 1ª edição. Nova York. The Free Press, 1998a.

PORTER, Michael. Competitive Advantage: Creating and Sustaining Superior Performance. 1ª edição. Nova York, The Free Press, 1998b.

ZALD, Mayer; BERGER, Michael. Social Movements in Organizations: Coup d´Etat, Insurgency, and Mass Movements. The American Journal of Sociology. Chicago, v. 83, nº 4, Jan. 1978.

19 de maio de 2011

Filosofia bizantina III


O objetivo da terceira parte da série "Filosofia bizantina" é descrever como o conceito de livre arbítrio é analisado por São João Damasceno (+780). Esta avaliação baseia-se no capítulo 4, de autoria de Michael Frede, publicado em Byzantine Philosophy and Its Ancient Sources, editado por Katerina Ierodiakonou.

Michael Frede inicialmente traça um panorama das principais questões acerca do livre arbítrio para, em seguida, delinear o processo da vontade em passos simples.

A compreensão da ação humana exige necessariamente que compreendamos o exercício da vontade. Curiosamente, observa-se que o uso da vontade afeta a própria vontade. A vontade será livre, e por conseguinte a pessoa será livre, se a vontade não for reduzida ou restringida – se a capacidade de fazer as escolhas certas não for reduzida, por exemplo, pelo fato de habitualmente ter-se feito escolhas erradas em determinadas situações.

Aristóteles ensinava que a pessoa que chegasse à conclusão de que algo é bom ou é um bem naturalmente a quereria. No entanto, Aristóteles nunca especificou que o homem, para querer algo, possui uma capacidade especial para isso, ou seja, nunca deixou claro que o homem possui uma faculdade como a vontade. No entanto, a partir do século I d.C., a capacidade de querer coisas passou a ser pensada como uma capacidade distinta. Ademais, São João Damasceno também não advogou nada neste sentido que possa ser encontrado no pensamento antigo. Porém, os escritos de São João sobre o assunto são um excelente exemplo de filosofia bizantina que se apóia na Antiguidade, pois, apesar de diferenciar-se dela, não deixa de contar com fontes antigas como Nemésio de Emesa e Aristóteles. Assim, o que São João procura fazer é injetar a noção de vontade na psicologia moral e na teoria da ação de Aristóteles.

O termo que São João usa para “vontade” é θέλησις. Os termos que os antigos usavam eram προαίρεσις e βούλεσις. Βούλεσις significa, desde os tempos de Platão, “desejar racionalmente”, bem como a capacidade para ter e formar tais desejos. Προαίρεσις significa “escolher”, bem como a capacidade para fazer tais escolhas. Θέλησις significa um querer ou um desejar particulares, bem como a capacidade para querer coisas genericamente falando. O fato de Deus possuir uma vontade, mas não fazer escolhas, torna o termo προαίρεσις inadequado. O fato de que as criaturas racionais não apenas desejam coisas, mas possuem a capacidade de fazer escolhas que satisfaçam esses desejos racionais, torna o termo βούλεσις igualmente inadequado. Portanto, São João lançou mão do termo θέλησις, não por motivos puramente coloquiais, nem por causa da autoridade do Novo Testamento. Ele o usa porque este é o termo que julga mais adequado para expressar o conceito que tem em mente – a vontade – que não deve ser identificada meramente como a capacidade de escolher. Vejamos como isso funciona.

São João segue a velha tradição platônica de dividir a realidade em dois mundos: inteligível e sensível. O mundo inteligível é habitado por intelectos, o mundo sensível por corpos. Porém, São João ensina que os intelectos possuem vontade. Isto soa um tanto estranho para nós, filhos que somos da modernidade, pois estamos acostumados com uma visão “intelectualística” do intelecto e da razão. Pensamos na razão em termos puramente cognitivos, o que é um erro um tanto grosseiro.

Há, porém, segundo São João, uma divisão anterior e mais radical do que a platônica: a divisão entre Deus e as criaturas, ou seja, entre o Incriado e o criado. Ele enaltece esta divisão chamando os seres que detêm intelectos criados de “racionais” (λογικόν), e não propriamente “intelectuais” (νοέρον). Um ser, pelo fato de ser intelectual, possui uma vontade; um ser, pelo fato de ser racional, possui certo tipo de vontade, a saber, uma vontade capaz de fazer escolhas, escolhas essas que um ser racional tem de fazer. Eis como São João distingue racional de intelectual (Expos 2. 27):
A razão consiste em um aspecto teorético (θεωρητικόν) e outro prático (πρακτικόν); o aspecto teorético é aquele que entende como as coisas são, enquanto o aspecto prático é aquele que delibera (βουλευτικόν), que determina como devem ser as coisas a serem feitas. Chamamos o aspecto teorético de intelecto (νους) e o aspecto prático de razão (λόγος).
Parte desta explicação baseia-se na noção platônica de que o intelecto contempla a verdade eterna; ocorre que a alma racional não apenas contempla a verdade mas ocupa-se em ordenar o mundo visível de maneira a refletir a verdade eterna, cuja atividade, no caso dos seres humanos, anjos e demônios, ou seja, de todos os intelectos criados, implica em λογισμοί e deliberações.

Enquanto os objetos físicos são passíveis de corrupção pelo fato de estarem sujeitos a mudanças físicas, os seres racionais são passíveis de corrupção pela maneira como fazem escolhas (κατά προαίρεσιν, Exp. 2. 27; 960C). Se fizerem a escolha errada, manifesta-se aí a corrupção. Uma escolha errada dá origem a outra escolha errada, e rapidamente a corrupção toma conta da capacidade de fazer escolhas. Dá-se, assim, ensejo à corruptibilidade “moral” da racionalidade. Se a mudança física dos objetos é neutra, a mudança na racionalidade pode sempre ser considerada para melhor ou para pior. Ademais, ao contrário dos objetos físicos, a racionalidade não muda pó si própria, mas pela maneira como fazemos uso dela, a ponto de o hábito de fazer escolhas certas tornar-se a segunda natureza da racionalidade.

São João conecta as duas características, quais sejam, de ser racional (λογικόν) e ser mutável (τρεπτόν), com a característica de ser αυτεξούσιον, ou seja, de autodeterminar-se o que se faz. É por causa da racionalidade que a pessoa é capaz de controlar o que está fazendo. Embora saibamos que a racionalidade é mutável, ocorre que temos controle sobre a maneira como ela muda. O quê pensamos não é uma questão da coisa que pensamos e da capacidade intelectual para pensá-la, mas também é uma questão do cuidado e da atenção que dispensamos ao pensá-la. É precisamente neste sentido que, por sermos racionais, somos αυτεξούσιοι.

No entanto, cabe aqui uma observação importante. Assim como Aristóteles, São João também atribui comportamento voluntário e involuntário aos animais. Isso significa dizer que a diferença entre o comportamento humano e o comportamento animal não reside na diferença entre o comportamento ser originado em suas próprias inclinações ou ser forçado exteriormente sobre o indivíduo/animal. A verdadeira diferença está no fato dos homens exercerem algum domínio sobre suas inclinações a-racionais, enquanto os animais não exercem tal domínio precisamente por não serem racionais. Observe a sutileza do raciocínio: o comportamento animal também pode ser voluntário; mas voluntário, aqui, significa agir segundo suas inclinações em oposição a ser forçado por circunstâncias exteriores. O homem também age voluntariamente, no sentido acima indicado, mas, além disso, também é capaz de dominar suas inclinações a-racionais.

O erro, portanto, é identificar a αυτεξούσιον com a liberdade de vontade (“livre arbítrio”) ou com a liberdade de escolha. Basta observar que São João também aplica o termo αυτεξούσιος a Deus. Ora, como Deus não faz “escolhas”, o sentido fundamental de αυτεξούσιον não pode ser livre arbítrio ou livre escolha. São João explica ainda que é da própria essência de Deus ser αυτεξούσιος, não de maneira que Ele seja apenas mais um a ser αυτεξούσιος, mas de maneira que Ele seja a própria fonte e paradigma de toda αυτεξουσιότης, à exemplo da bondade de Deus.

Os seres criados racionais, por não serem naturalmente bons, já que não são Deus, nem sempre fazem o bem. No entanto, por serem criaturas de Deus, também nem sempre fazem o mal. O mais importante é o fato de eles terem controle sobre suas ações, ou seja, de terem liberdade de ação. Sim, é verdade, a liberdade de ação implica liberdade de escolha. Mas há outras coisas que os seres racionais fazem que também estão de certa forma relacionadas à liberdade de escolha. Refiro-me ao pensamento. Antes de agir, antes mesmo de escolher, as criaturas racionais pensam sobre determinada situação de uma determinada maneira/atenção/cuidado, e, não fosse assim, não fariam esta ou aquela escolha.

É verdade que nos escritos de São João a liberdade de escolha tem certa posição de destaque. Mas isso se explica pelo fato de que é a escolha que diferencia os seres intelectuais criados dos animais e de Deus. Ademais, a ação nunca é tão livre quanto a escolha, já que a ação implica sempre em algum grau de cooperação divina. Por fim, tudo o que os seres racionais fazem, à parte a contemplação teorética, tem seu fim natural em alguma ação.

O fato dos homens escolherem o mal não advém da capacidade que lhes é inata, mas da dificuldade em exercê-la, da enorme atenção e esforço necessários para a tarefa, da racionalidade estar sujeita à corrupção e à mudança, da possibilidade de serem distraídos, e de muitos outros fatores. São João, ao contrário do que comumente se pensa, não ensina que a escolha se dá entre o certo e o errado, mas que a escolha é feita mediante a deliberação acerca de uma única opção a fim de decidir-se se ela é de nosso apreço ou desapreço. Se for suficientemente de nosso apreço, escolhemos agir da forma sugerida. Se não for de nosso apreço, não escolhemos agir da forma sugerida. Observe que isto não é o mesmo que escolher não agir da forma sugerida: ou escolhemos fazer, ou não escolhemos fazer; em outras palavras, ou isto é de nosso apreço, ou isto não é de nosso apreço. A explicação de São João não deixa margem para a possibilidade de considerarmos várias opções no decurso da deliberação. Porém, no momento em que escolhemos, as demais opções já foram eliminados por alguma outra atividade racional.

Assim, o “livre arbítrio” não é propriamente a liberdade de escolher entre o certo ou errado, ou de escolher entre isto e aquilo, mas a liberdade para escolher fazer aquilo que se está inclinado a fazer, dentro da esfera de ações possíveis. Esta capacidade para escolher fazer o que se está inclinado a fazer não é impedida pelo fato de que porventura sejamos forçados a não escolher fazer. Ora, a idéia de que o livre arbítrio significa a escolha entre o certo e o errado implica necessariamente que Deus nos garante a possibilidade de sabermos o que é certo e o errado no momento de alguma decisão, o que é falso.

Não existe “escolher” sem “querer”. Portanto, se se quer algo, será necessário pensar se algo pode ser feito para alcançar o que se almeja e, caso positivo, quais são as opções disponíveis, se há mais de uma, se são aceitáveis. É com base nestas considerações que se escolhe e se age sobre a escolha. O processo inteiro de desejo racional é descrito por São João Damasceno de maneira muito semelhante à de São Máximo, o Confessor.

(i) Considera-se se o que se quer é o tipo de coisa que está ao alcance do indivíduo. (ξήτησις ou σκέψις).

(ii) Caso positivo, passa-se à deliberação (βούλευσις) se aquilo que está ao alcance deve ser perseguido.

(iii) Forma-se um julgamento (κρίσις) sobre qual das opções é a melhor.

(iv) Não é este julgamento que decide a escolha ou a ação. Para isso é necessário a γνώμη, isto é, uma disposição favorável à ação almejada. Em outras palavras, temos de amá-la. Freqüentemente julgamos determinado curso de ação como o melhor, mas não o apreciamos. Não por acaso, Burgúndio de Pisa traduziu γνώμη como sententia, no sentido de “consentimento”.

(v) Escolhe-se (προαίρεσις) adotar o curso de ação ou não se escolhe adotar o curso de ação. Os termos “seleção” e “eleição” também cabem aqui.

(vi) Feita a escolha, o indivíduo é impelido em favor da ação. Chama-se a isso de “impulso” (ορμή).

(vii) No decurso da ação, faz-se uso (χρήσις ) da capacidade de desejar coisas, como por exemplo a capacidade de ter um apetite a-racional por algo, ou a capacidade de ter aversão a algo. Assim, a ação pode aliar-se a bom ou mau uso das capacidades desiderativas.

São João ensina que a alma é dotada da capacidade de desejar aquilo que é apropriado à natureza do ser, da capacidade de ocupar-se da integridade do ser. Em suma, a vontade é a capacidade de inclinar-se para a promoção da existência e da integridade e contra o que é prejudicial à existência e à integridade, contra aquilo que leva à corrupção e à destruição. São João sugere que naturalmente desejaríamos o que é bom ser desejado. A fonte desta capacidade reside na capacidade de formar desejos racionais corretos, ou seja de formar βουλήσεις corretos. São João estava convicto de que os homens foram criados já com certa sabedoria e virtude, que foram criados já com certa inclinação para a perfeição, na qual podem prosseguir, mas também podem regredir.

Por fim, cabe reforçar que a escolha errada pode ensejar, com a repetição, uma deficiência nos βουλήσεις, o que engendrará racionalizações dos erros e fraquezas perante os desejos a-racionais. Escolhas são moldadas pelos hábitos. Mas, conforme dissemos acima, os homens permanecem αυτεξούσιος. Frede conclui que, para São João, diferentemente de Aristóteles, a ação nunca é tomada sem uma escolha anterior. A ação até pode se basear em um desejo a-racional, mas nunca sem uma escolha.

3 de maio de 2011

Os elementos essenciais da vida espiritual


Santo Hesíquio deu os seguintes conselhos para a superação das paixões:
Aquele que está empenhado na batalha espiritual precisa apresentar, em todos os momentos, as seguintes características: humildade, extrema atenção, refutação (de pensamentos) e oração.
Humildade, para que o combatente tenha sempre próxima a ajuda de Cristo em seu coração (o Senhor resiste aos soberbos - Tiago 4:6; I Pedro 5:5), dado que os adversários nesta batalha são os demônios do orgulho.
Atenção, para que o coração não abrigue nenhum pensamento, por melhor que seja.
Refutação, para que todo pensamento que eventualmente surgir seja imediatamente repelido com raiva.
Oração, para que, depois de refutado o pensamento, o asceta possa clamar a Cristo com gemidos inexprimíveis (Romanos 8:26). Então, ele verá o inimigo ser preso ou acorrentado pelo honorável nome de Jesus, como o pó pelo vento ou como a fumaça que se desvanece com seus sonhos.
Santo Hesíquio também versou sobre a importância da oração.
Aquele cuja oração não esteja isenta de pensamentos não possui a arma certa para a batalha. A oração, conforme a entendo, é rezada incessantemente nas profundezas da alma, de maneira que o inimigo, que combate em silêncio, seja exterminado pela invocação de Cristo. Pois é necessário que tu enxergues com os olhos afiados da mente, a fim de que percebas o que entrou nela e imediatamente extermine a cabeça da serpente mediante a refutação, ao mesmo tempo em que clama a Cristo com gemidos. Com tempo e experiência, conhecerás a ajuda invisível de Deus; então, verás com clareza a verdadeira condição do coração.
Eis o que São Teófano aconselha a respeito dos ensinamentos de Santo Hesíquio:
Aquele cuja decisão de pertencer ao Senhor é sincera não se desviará do caminho descrito. Ele até pode fazer boas obras e contornar as situações das mais variadas formas, mas até que adentre neste caminho, de nada servirá. Eu estou te posicionando no caminho para que não vagueies por aí em busca de outras coisas. Sê mais diligente no teu compromisso e obterás sucesso. Porém, tu deves labutar com todas as tuas forças, pois sem esforço nada obterás.

Não existe descanso neste mundo


"Não existe descanso neste mundo para quem quer ser salvo", ensinou Santo Efraim, o Sírio. A batalha nunca acaba, seja interna ou externa. Às vezes o adversário age visivelmente através de pessoas e coisas, e às vezes invisivelmente através de pensamentos. Às vezes o adversário aparece de maneira explícita, agindo com crueldade e brutalidade, como um verdadeiro inimigo, mas às vezes age sob o manto lisonjeiro de um amigo sedutor e sagaz. As coisas que acontecem em um campo de batalha entre dois exércitos inimigos também acontecem individualmente na batalha das paixões do mundo. De fato, "não existe descanso para quem quer ser salvo". Quando a salvação vier, o descanso também virá.

Fonte: Prólogos de Ochrid, São Nicolau (Velimirovich), o Novo Crisóstomo

9 de abril de 2011

O mistério do pecado no mistério da salvação



Arquimandrita Touma (Bitar)

7/nov/2010

No próximo sábado, 13 de novembro, com a permissão de Deus, celebraremos a festa de São João Crisóstomo.

São João foi um daqueles bons pastores enviados pelo Bom Pastor. O Senhor Deus provê pastores notáveis para que os homens possam ser confortados e fortalecidos, e também para que possam aprender. Mas nem sempre é assim. Apesar de tudo, o verdadeiro pastor continua sendo o Senhor Jesus Cristo, que estará conosco todos os dias, até o fim dos tempos. Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre, o Pastor de Seu rebanho. A despeito de quem sejam os pastores que guiam o rebanho de Cristo, Jesus continua sendo pessoalmente o Pastor eterno que cuida individualmente de Seu rebanho, com ou sem Seus pastores. Há pastores que vêm do alto; quando eles cuidam de nós, é como se o Bom Pastor que está no alto estivesse cuidando de nós através deles. Mas há também os pastores que não vêm do alto, que não se inclinam para as coisas do alto, que são escolhidos pelas paixões humanas e comportam-se segundo suas próprias paixões. Esses também guiam o rebanho de Cristo em Seu nome e com Sua permissão, mesmo que se pareçam mais com servos malignos ou lobos do que com pastores. Eles obstruem a obra de Jesus por certo período de tempo, mas são incapazes de anulá-la por completo. O que quer que aconteça de ruim, o que quer que seja feito contra a obra de Deus, o Bom Pastor fará com que tudo seja transmutado para o bem daqueles que buscam a face do Senhor, não importa se por meios que nos sejam conhecidos ou desconhecidos. Mas por que o Senhor Deus permite que pessoas como essas governem Seu rebanho?! É precisamente aqui que se oculta o mistério: como o mal opera em prol do mistério da salvação?

No que tange a salvação, o mistério está na maneira através da qual o Senhor Deus opera, a qual está além da percepção humana. No que tange o pecado, o mistério está na maneira através da qual o diabo opera, algo deveras misterioso aos olhos humanos, mas revelado aos olhos de Deus. O pecado não ocorre se o Senhor Deus não o permitir, pois Ele é o Mestre de tudo e de todos. Deus coloca o pecado a serviço da salvação, em consideração ao estado decaído da humanidade pós-Queda, transformando-a em remédio, assim como os venenos das serpentes são transformados em remédio pelos bons médicos.

Não restam dúvidas de que o Senhor Deus não erradicou o pecado do mundo mediante Sua morte e ressurreição. Se Ele tivesse feito isso, então não haveria sentido em pecar, pois a fonte do pecado, além de Satanás, é o coração humano, e se o coração não renunciar ao pecado, então o pecado não o deixará, e muito menos deixará o mundo. É assim que o Senhor Deus criou o homem: suscetível ao pecado, pois não haveria sentido em aceitar o amor de Deus se o homem não fosse capaz de pecar.

Por isso, a salvação é uma graça que vem do alto, mas não sem a prévia aceitação do homem, ou seja, de sua vontade e cooperação. Ou o homem aceita a palavra da salvação e anda nos caminhos da graça de Deus, de maneira que a graça ative nele e cause nele o ímpeto para imitar o exemplo de seu Senhor, ou o pecado deixará o homem por conta da vontade de seu coração, gentilmente estimulado pela dor, arrependendo-se porque conhece o mal do pecado, seu vazio, sua falsidade, sua feiúra, e por autopreservação volta-se, com a ajuda de Deus, contra os pecados, de maneira que não morra desesperado por causa deles.

A graça é aquilo que auxilia o homem a abrir seus olhos e a tornar-se disposto a essa mudança. A graça também faz com que ele sinta e veja seus próprios pecados e o caráter pecaminoso de seu estilo de vida. O sofrimento interior que advém deste processo, mesmo que por um período curto de tempo, faz com que o homem ganhe ímpeto em purificar-se, humilhar-se e arrepender-se, tremendo diante de seu Senhor, com modéstia e dor. Se a dor não o detém, então restar-lhe-á somente alguns poucos momentos antes da morte. A extrema fraqueza é a oportunidade final para incitar o coração. O Senhor ouve o despertar interior, ou então o homem morrerá em seus pecados.

O pecado estava e ainda está presente e ativo neste mundo, e permanecerá assim até que o Senhor envie seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os Seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus (Mateus 24:31). É por isso que Judas Iscariotes fazia parte do círculo dos discípulos de Jesus Cristo. Jesus sabia perfeitamente o que estava no coração de Judas, o que ele estava tramando e o que lhe faltava. Jesus também o escolheu por respeito à liberdade que Ele deu à natureza humana. A liberdade, mesmo que engendre pecado, também pode engendrar o amor.

As coisas mais preciosas também correm o risco de se impurificarem, pois, se não fosse assim, não seriam preciosas. Judas Iscariotes foi necessário porque, não fosse por ele, não teria havido Cruz nem Ressurreição. Supõe-se que ele teria sido apóstolo e pastor caso tivesse aceitado ser assim, e teria aceitado ser assim caso tivesse desejado. Naturalmente, nós queremos que todos os pastores da Igreja de Cristo, em todo tempo e em todo lugar, sejam bons, mas isso é ilusão pura e simples. A verdade e que sempre haverá pastores corruptos. Porém, de uma maneira que eles mesmos não desejam e não conhecem, eles invocam a graça sobre o rebanho de Deus em abundância, pois onde o pecado abundou, superabundou a graça (Romanos 5:20). Assim, o rebanho permanece seguro, apesar de tudo. A graça abunda sobre a graça pois ela precisa de um pastor de almas e corpos. O Senhor Deus não deseja que confiemos nas pessoas. Ele não quer que tratemos os bons pastores como ídolos e os pastores corruptos com desespero. “Eis o homem!” Ele não quer que dependamos de ninguém que não seja Ele mesmo. Cristo está ativo mediante a condução pastoral do homem e mediante a condução pastoral de Seus pastores, assim como mediante suas paixões e crueldades!

Naturalmente, os fracos caem. Por isso os fortes sempre devem fortalecê-los para que a face do Altíssimo permaneça sendo a única coisa digna de ser buscada. Sê vigilante, e confirma os restantes (Apocalipse 3:2). E tu, quando te converteres, confirma teus irmãos (Lucas 22:32). Com paciência e humildade, com dor e sofrimento, com a cruz a alegria virá ao mundo. O Senhor conforta as almas e fortalece os fracos. Eles acham que os pastores iludidos, os lobos, corrompem a Igreja de Cristo, que a prejudicam, mas eles são incapazes de uma coisa dessas. O Senhor Deus permite que os maus pastores corrompam no seio da Igreja, mas somente por um tempo e por economia, pois o propósito espiritual é muito mais amplo e profundo. Por que o Altíssimo permite que o diabo cause o tropeço das pessoas? Ora, não é porque Ele abandonou Seu rebanho. É por eles que Ele derramou Seu sangue! Deus é zeloso para com Seu rebanho, por cada fio de cabelo da cabeça de Seus amados. Ele é o Mestre de Todos, ninguém os arrebatará de Suas mãos (João 10:28), não importa o que pensam ou o quanto tentem. Cristo é aquele que nos preserva, que pega o esperto em seus truques! O que quero dizer é que aquilo as pessoas malignas acreditam terem feito por suas paixões é, sem dúvida, um meio para a purificação da Igreja, a fim de santificar seus fiéis. Se Satanás não nos tentasse, então nenhuma alma seria salva. Se não fossem os pastores maus, o rebanho não se apegaria a seu único e verdadeiro Pastor.

O Senhor Deus nos guia das mais variadas formas: Ele cuida diretamente das almas, consolando-as quando estão feridas e ulceradas, quando não se firmam na fé. Mas Ele também as guia em silêncio, nas circunstâncias acidentais da vida, de maneira que clamem a Ele, que sejam pacientes e firmes, que sejam purificadas. Cristo quer que combatamos em todas as situações. Assim também o Senhor Deus nos guia entregando-nos a pastores que mais parecem o Faraó, o qual nos molesta, nos envergonha, nos deixa com fome e sede, para que entendamos que a salvação que vem dos homens é vã, para que voltemos nossos corações para o alto, depositando no Pastor das almas toda nossa esperança. Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito (Romanos 8:28). Nunca somos deixados para trás. Cristo vem até nós quando não esperamos. As mesas serão viradas! Ele vai mudar a situação! “Conheci um homem soberbo e altivo como um cedro do Líbano; ele foi golpeado e caiu”.

A Igreja de Cristo não teme aqueles que entram furtivamente nela, tornando-a um veículo para suas paixões. Deus jamais será zombado! Eles lamberão seu próprio sangue e não mancharão o corpo de Cristo, contanto que os fiéis invoquem a Deus com paciência, lágrimas e regularidade! Os tempos de dificuldade são melhores do que os tempos de bonança, pois, mesmo que a bonança traga conforto, sempre traz também o perigo da lassidão da alma. Mas a dificuldade, por mais dolorosa que seja, fortalece aqueles que confiam no Senhor e não O abandonam. O Senhor Deus conhece aqueles que são Seus. E aqueles que não são Seus, Ele lhes envia a seca pois Ele quer justamente que eles sejam dissecados. Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada (Mateus 15:13). Deus é exigente. O amor é exigente. A fé é exigente! Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hebreus 10:31). Ele é um Deus ciumento! Ele chama todo coração e toda pessoa. Ele não precisa de nada dos homens. Por isso, Ele fortalece aqueles que precisam ser fortalecidos, e os que caem Ele os sujeita ao flagelo do pecado de maneira que vençam sua preguiça...ou pereçam! Tem de haver uma Babel, tem de haver o sofrimento!

Porém, não abandonemos a Igreja de Cristo por causa das tribulações. Prestemos testemunho da verdade e permaneçamos na Igreja. Não sejamos complacentes, mas ao mesmo tempo não nos entreguemos ao medo e ao desespero. Se a Igreja dependesse da sabedoria dos sábios deste mundo que governam a Igreja, a Igreja simplesmente não subsistiria. Nosso primeiro e último suporte é a sabedoria de Deus, a qual é considerada tola por este mundo. É ela que nos guia em todas as situações nos caminhos de Cristo. Os caminhos de Cristo não são os nossos caminhos. Não é importante que compreendamos plenamente este ponto. O mais importante é aceitar. Nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lucas 23:46).

Em suma, não vos desespereis. Satanás é quem nos leva ao desespero! Porém, quando seu jugo nos sufocar, a salvação em Jesus Cristo estará próxima! Que ninguém faça mal à sua alma entregando-se ao medo, à tristeza, à morte, desesperança. Quando o nó se vos apertar, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima (Lucas 21:28). A cruz é necessária em todos os dias de nossa vida para que sejamos renovados. Mas Nosso Senhor envia-nos consolações em tempo hábil, de maneira que não caiamos em desespero. Porém, não é nas consolações que crescemos, mas na cruz! Sem a cruz, todas as coisas entram em estado de estagnação, apodrecendo em seguida. A dor e o sofrimento são necessários à purificação. O fruto virá em grande alegria. “Ponha tua mente no inferno, e não te desesperes”. Deus é glorificado na Sua economia da salvação!

Fonte: Notes on Arab Orthodoxy

5 de março de 2011

Filosofia bizantina II


O objetivo de Jaroslav Pelikan em Christianity and Classical Culture é descrever a teologia natural dos Quatro Capadócios – São Gregório, o Teólogo, e os irmãos São Gregório de Nissa, São Basílio, o Grande, e Santa Macrina. Há, segundo Pelikan, uma diferença enorme entre o platonismo e o platonismo cristão dos Capadócios, e ele procura mostrar em quais instâncias e com qual especificidade os Capadócios fizeram uso das obras dos filósofos gregos clássicos. A teologia natural do Império Bizantino é fruto direto dos encontros do pensamento patrístico com a literatura clássica grega. Veremos aqui, assim como nas demais postagens da série Filosofia bizantina, de que maneira os primeiros filósofos bizantinos fizeram uso criativo dessa literatura.

Dos Quatro Capadócios, Pelikan considera São Gregório de Nissa como teologicamente superior aos demais, embora todos sejam de importância crucial para o desenvolvimento do pensamento bizantino. Por isso, Pelikan não os analisa de maneira individual, isolada, mas coletivamente.

Esta postagem é dividida de acordo com os capítulos do livro, que é, em verdade, escrito duas vezes sob aspectos distintos: a primeira parte descreve a função apologética da teologia natural, ou seja, a função de despertar no ouvinte/leitor o ímpeto para adentrar e aprofundar-se na fé cristã ortodoxa; a segunda parte descreve a função dogmática da teologia natural, ou seja, a função de aproveitar-se de explicações previamente existentes para auxiliar na descrição da teologia revelada cristã. O leitor verá que muitas idéias são repetidas, tendência esta que procurei suprimir, já que é ainda mais intensa no original. Parte da explicação para isso provém do fato de que o texto é um conjunto de transcrições de palestras, e não foi originalmente pensado como livro.

Parte A: A função apologética da teologia natural
1) Cultura clássica e teologia cristã

De acordo com os Capadócios, o cristão pode beneficiar-se e muito da cultura pagã. Isto não significa que tal cultura esteja isenta de críticas: as Escrituras são infinitamente superiores às “discussões investigatórias dos filósofos”, segundo São Basílio. São Gregório, o Teólogo, insistia que os chamados “filósofos” [philosophoi] não eram “sábios [sophoi] de maneira alguma”, e até mesmo o mais comum dos cristãos é superior à sabedoria dos filósofos gregos.

À época, um dos recursos intelectuais mais utilizados era a retórica. Os Capadócios eram muito bem versados nela, porém repreendiam as pessoas que se orgulhassem de suas habilidades oratórias. São Gregório de Nissa contou que o jovem São Basílio era um exemplo disso, e teria sido sua irmã, Santa Macrina, que o conduziu “à marca da philosophia”, termo este que, note-se bem, designa o asceticismo cristão. No entanto, é inegável que a retórica tenha desempenhado um papel importante na exegese bíblica.

A literatura clássica também foi importante para o desenvolvimento do pensamento dos Capadócios. Embora fossem críticos dos “poetas e fabricantes de mitologia”, ridicularizassem os mitos como sendo “divertimentos para crianças gregas” e os acusassem de conter “extravagâncias chocantes”, o fato é que, quando se comunicavam com cristãos, tratavam a literatura grega com a devida importância e seriedade.

Os Capadócios também tratavam a filosofia clássica com certa ambivalência. Ao mesmo tempo em que acusavam a filosofia pagã de ser fonte de heresias, faziam uso intenso de silogismos disjuntivos [diazeuktikos], um recurso explicitamente derivado da lógica e da dialética clássica, a fim de as refutarem. Santa Macrina resumiu com grande eloqüência esta ambivalência: “A dialética é um recurso sutil, cuja força pode ser utilizada das duas maneiras – subverter a verdade ou detectar a falsidade. [...] Começamos a suspeitar da própria verdade no momento em que ela é defendida com esse tipo de recurso; sua própria engenhosidade procura enviesar o julgamento e subverter a verdade”.

2) A função apologética da teologia natural

Os Capadócios sempre foram duros e críticos a respeito da antiga religião grega. Por outro lado, não deixa de ser interessante notar que eles não deixaram de fazer uso de algumas expressões típicas dessa religião para explicarem a teologia litúrgica cristã; por exemplo, panegyrizein [celebrar] e heortazein [festejar], que se encontram até mesmo no Novo Testamento. Ademais, São Gregório, o Teólogo, chamava a Crucificação de Jesus Cristo de “drama maravilhosamente elaborado”, assim como a crucificação dos mártires também era vista como um “drama”: isso implicava em certa comparação com a performance das tragédias gregas.

No entanto, o tom geral no que diz respeito aos “mitos” da antiga religião e da literatura gregas era muito negativo. São Gregório, o Teólogo, fazia uma distinção muito clara entre esses elementos e a “teologia natural” dos pensadores gregos. É sobre esta teologia natural que os primeiros cristãos debruçaram-se com interesse e afinco. Santa Macrina afirmava que a fé deveria basear-se tanto na “opinião vigente” quando na “tradição das Escrituras”.

O caso de Eunômio de Cízico é exemplar. Sua insistência no monoteísmo fundava-se, segundo São Basílio, no “conhecimento natural e na doutrina dos Padres”. No entanto, quando São Basílio procurou enquadrar a linguagem do Novo Testamento a respeito de Jesus Cristo invocando a distinção entre a teologia da Divindade em si e por si e a economia da Divindade em sua relação com a história, Eunômio atacou São Basílio afirmando que “a própria natureza das coisas” eram repugnante a tal harmonização, assim como as Escrituras. [O Pe. John Romanides tratou desta questão em Patristic Theology, no qual condenou a tentativa de fazer uso da enteléquia aristotélica baseada em observações naturais para caracterizar a Divindade]. Porém, São Gregório de Nissa rejeitava esta postura, ensinando que “a natureza não é confiável para instrução no que tange o processo divino de geração [no interior da Trindade], nem mesmo se o universo como um todo for levado em conta a título de ilustração argumentativa”.

O método teológico e apologético de São Gregório de Nissa é “juntar as declarações que pareçam se opor, ou seja, as declarações baseadas na explicação da Escritura e as declarações baseadas na explicação racional, de maneira que sejam consistentes em série [de pensamento] e em ordem”. É mais conveniente apresentar uma doutrina “para as pessoas treinadas somente pelos métodos técnicos da prova”, por meio de “meras demonstrações, que sejam suficientes para o convencimento” dentro dos limites da razão, e somente depois, dado que “as doutrinas da Sagrada Escritura” seriam “mais confiáveis do que as conclusões artificiais”, investigar se tudo o que fora provado pela razão pode também ser harmonizado com as doutrinas da Escritura. Esta seqüência funda-se no famoso axioma de São Gregório de Nissa: “Fé é aquilo que dá plenitude ao raciocínio”. A utilidade “instrumental” da razão a serviço da teologia ajudou, por exemplo, a explicar as distinções metafísicas do interior da natureza divina, a qual está em conflito com a idéia convencional da “simplicidade divina”.

Embora nunca tivessem desprezado o conhecimento acadêmico – os Capadócios freqüentemente se congratulavam mutuamente por sua eminência acadêmica –, a teologia natural dos Capadócios era restrita “à filosofia moral e à filosofia natural, mas que precisavam ser unidas a uma vida mais sublime” (São Gregório de Nissa). São Basílio ensina que há uma “racionalidade natural implantada em nós, que exorta a nos identificar com o que há de bom e evitar as coisas prejudiciais”; o medo da punição, a esperança de salvação e glória, a prática das aretai [virtudes, excelências] são exemplos de princípios implantados naturalmente no coração humano. Neste sentido, o Apóstolo Paulo não teria ensinado nada de novo, mas apenas reforçado as contenções morais clássicas, conforme ensinadas por Jesus Cristo no Sermão da Montanha. Digna de nota, porém, é a diferença entre a teoria clássica e teoria cristã no que tange a moralidade sexual.

No entanto, o método de traçar paralelos entre a teoria cristã e a teoria clássica, e daí trazer à tona a verdade, serviu não apenas ao campo ético, mas também ao campo doutrinal. Quatro doutrinas se destacam neste sentido: (a) a imortalidade da alma, da qual foi extraída a idéia falsa da metempsicose; (b) a doutrina de Deus, corrompida pelo hábito de “observar as coisas visíveis e fazer delas um deus”; (c) a doutrina da criação, maculada pela idéia da coexistência da matéria com Deus; (d) a doutrina da boa e poderosa providência divina, a qual torna-se viciada se imbuída da noção da “ananke [necessidade] da heimarmene [destino]”, ou seja, do determinismo. Quanto à doutrina de Deus (item (b)), os Capadócios eram especialmente cautelosos contra “tomar as coisas de baixo e estimar as coisas do alto” [artifício típico da teologia natural], mas isso não significa que não se imiscuíam em questões especulativas e apologéticas.

Em seu leito de morte, Santa Macrina afirmou que “nosso dever é não deixar nenhum argumento lançado contra nós sem ser examinado”. No entanto, os intérpretes da fé não devem se relacionar com os infiéis “mestres da onisciência”, os quais nada querem aprender, mas “com as pessoas mais cultas, com aqueles que detêm olhos capazes de penetrar na natureza perecível e efêmera”. Estas são as pessoas realmente preparadas, pois não adotam o método falho dos “mestres da onisciência”, que alegam compreender o mistério da natureza divina fazendo declarações afirmativas sobre ela ao “compararem as coisas eternas com as coisas temporais e perecíveis”, mas adotam o método da linguagem apofática da negação.

Pelikan entende que São Gregório, o Teólogo, foi quem contrastou com melhor eloqüência e maestria, com perfeito equilíbrio e harmonia, a distinção entre “as verdades dadas pela fé e as verdades dadas também ao raciocínio”. Ele evidentemente fazia uso da teologia natural, mas apenas de maneira ad hoc, cuja abrangência apologética jamais operava apartada da fé. Por exemplo, o fato de o Filho ter uma natureza divina é uma doutrina; tudo o mais que daí se depreende representa os primeiros princípios da teologia natural. Eis portanto que a aplicação apologética da teologia natural é aquela em que a razão fornece a base da religião, sendo apropriada para estranhos, não-iniciados. No entanto, melhor aplicação da teologia natural é enquanto pré-requisito da fé, ou seja, quando ela se soma à fé na tentativa de explicá-la e interpretá-la racionalmente. É a esta última que os Capadócios rendiam seus maiores elogios, embora não dispensassem a aplicação apologética da teologia natural. Assim, além de teólogos no sentido tradicional [ver Espiritualidade ortodoxa: uma breve introdução], os Capadócios tinham de ser também filósofos.

3) A linguagem da negação

São Gregório de Nissa explica que os termos negativos – inocente, indolor, ingênuo, imperturbado, desapaixonado, impassível etc. – ensinam “sob quais condições é permissível conceber Deus enquanto existente”. Segundo o principal oponente de São Gregório, Eunômio, a idéia de que é impossível definir termos que expressem as coisas espirituais é sinal de pura ignorância.

No entanto, dado que o objeto da teologia é “inexprimível pela voz humana” (São Basílio), a teologia apofática tornou-se uma teoria da linguagem, cujo axioma universal é: “O pensamento humano é fraco, mas a linguagem humana é mais fraca ainda”. Neste sentido, e de maneira não pouco curiosa, os Capadócios puderam ao mesmo tempo defender o uso exclusivo da terminologia bíblica e a introdução de termos como homoousion no Credo. Esta aparente inconsistência só pode ser compreendida quando a enxergamos através das lentes da linguagem negativa: toda linguagem que se refira ao divino é inadequada, seja ela apostólica ou pagã ou ortodoxa. “Como não temos outras palavras para empregar, empregamos as que temos”, disse um resignado São Gregório de Nazianzo. Os termos “Logos” e “luz”, por exemplo, ilustram bem como a linguagem metafórica e analógica pode ser indispensável e enganosa. A linguagem negativa é essencial para controlar as metáforas e analogias. As analogias e metáforas, neste contexto, são como provérbios, ou seja, como “formas de discurso que, através de idéias conjuntamente apresentadas, apontam para o oculto” ou “formas de discurso que não mostram diretamente a intenção do pensamento, mas fornecem sua indicação através de significações indiretas”. É assim que analogias como “Pai e Filho” devem ser compreendidas: são metáforas cujo sentido é muito mais profundo do que a simples relação natural “pai e filho” poderia transparecer. A despeito de serem catafáticos ou apofáticos, os nomes usados para Deus referem-se a qualidades e atributos que são blasfemos quando aplicados a Ele (ver a interessante proposta de apofaticismo radical de Philip Sherrard).

São Gregório de Nissa achava perdoável o “erro de argumentar sobre o incompreensível a partir dos fenômenos naturais” desde que se utilizassem as devidas limitações apofáticas. O emprego de “exemplos compreensíveis, voltados para formular conceitos apropriados” é compreensível, desde que tais ilustrações não sejam levadas a sério demais. São Basílio insistia que “não há denominador comum entre a natureza humana e a natureza divina, pois suas propriedades são totalmente distintas uma das outras”. Até mesmo o termo “Deus” é um “nome relativo”, e não absoluto, ensinava São Gregório, o Teólogo; quando Jesus Cristo mandou que se batizasse “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, Cristo evidentemente se referia ao “nome inominável”.

Neste ponto, é importante salientar que a apophasis refere-se não apenas aos termos da linguagem humana, mas ao próprio pensamento humano. No entanto, ao contrário de Eunômio, que entendia que a teologia negativa seria necessária por causa do pecado – opinião esta que os Capadócios achavam metafisicamente ingênua e teologicamente rasteira –, eles ensinavam que a teologia negativa é necessária por causa da divisão ontológica que separa Deus, “Criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis”, e as criaturas visíveis (corpos humanos, insetos, pedras) e invisíveis (anjos, almas humanas e formas platônicas).

A análise apofática não deve limitar-se apenas às questões metafísicas, mas deve estender-se também a todo conhecimento natural, ou seja, às realidades criadas: por serem “tão sublimes”, elas “tornam o conhecimento do mais minúsculo dos fenômenos mundanos algo inabarcável mesmo para a mais arguta das mentes humanas”.

Não seria tais posturas apofáticas um convite ao niilismo? São Basílio explica que não. Em primeiro lugar, a palavra “conhecer” admite diversos sentidos: conhecemos a grandeza de Deus, o poder de Deus, a sabedoria de Deus, a bondade de Deus, a providência de Deus, a justiça de Deus – mas nunca a ousia de Deus. Em segundo lugar, e por causa mesmo do fato da essência divina não ter sido revelada aos seres criados, tal conhecimento não é necessário: o que é realmente necessário é a memória humana apreender e reter todos estes vários nomes sob os quais o conhecimento do divino foi entregue. De maneira alguma o cristão deve desesperar-se por causa da incompreensibilidade divina; pelo contrário, quanto melhor a razão humana compreende a grandeza do Objeto de seu amor, tanto mais deve elevar e excitar seus pensamentos a fim de não perder a participação em Deus. A apophasis não deve engendrar o niilismo, mas, pelo contrário, deve por em marcha outras modos de conhecimento.

4) Modos de conhecimento

A epistemologia dos Capadócios possui um aspecto subjetivo: o autoconhecimento. Isso significa que o conhecimento objetivo, exterior, exige uma preparação prévia por parte do agente. O primeiro passo para o conhecimento é superar a ignorância acerca de si próprio e substituí-la por um autoconhecimento preciso e julgamental. O conhecimento subjetivo constitui uma espécie de norma ou pré-requisito para a posterior avaliação dos conceitos que possam ser aplicados ao divino.

A partir deste autoconhecimento é possível, então, passar às considerações acerca daquilo que é trazido pelos sentidos, ao conhecimento “dos fatos que nos são transmitidos pela experiência sensorial” (São Gregório de Nissa).

É necessário reconhecer que “o mundo das realidades” abarca não apenas os fatos sensoriais, mas “a contemplação do mundo inteligível, que transcende a apreensão dos sentidos”. A mente precisa aprender a limpar os empecilhos criados pelos sentidos para ascender ao invisível.

 No entanto, as verdades obtidas pela razão ainda exigem que o pensamento humano e a linguagem humana as expressem “com base em metáforas”. Mas o estudo acadêmico e intelectual não é perda de tempo. São Basílio ensina que “o julgamento da mente é bom e foi-nos dado para nosso bem, qual seja, para a percepção de Deus; mas ela só consegue operar dentro de seus próprios limites”.

Os métodos objetivos-subjetivos são tão importantes na apologética dos Capadócios que podem ser considerados como sendo verdadeiras contrapartes da revelação trinitária revelada. Todavia, os Capadócios são ambíguos no que tange as provas da teologia natural. Por exemplo, ao comentar Romanos 1:20 [Porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis], São Basílio afirma que “através da visão das realidades visíveis e empíricas” a mente humana “é levada, como que pela mão, à contemplação das realidades invisíveis”. Logo em seguida, São Basílio acrescenta que “é impossível que o universo como um todo forneça uma idéia correta da grandeza de Deus”. São Gregório de Nissa faz algo semelhante ao corroborar o Salmo 18:2 [Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos]. Mas ele também diz a respeito deste mesmo verso que os céus são não são bons arautos da dignidade de Deus, pois a majestade de Deus não é exaltada na medida dos céus, mas “para muito além dos céus”; assim, o que os céus estariam declarando é, na verdade, a incognoscibilidade e a incontemplabilidade de Deus. Semelhantemente, os demais argumentos filosóficos, como o argumento do movimento e o argumento da causa, ambos aristotélicos, ou o argumento do design, devem ser compreendidos da mesma forma: quem quer que os negue são “alminhas” (Santa Macrina) de “julgamento deficiente” (São Basílio); contudo, “o que quer que tenha sido imaginado ou simbolizado não é a realidade de Deus”. Todo argumento apologético deve obrigatoriamente ser qualificado pela teologia apofática. Toda bondade e toda formosura do cosmo nada mais é do que “uma mão que nos conduz à beleza suprema”. “Não buscamos a glória nas analogias e nomes que usamos, mas buscamos guiar a mente com a ajuda destes termos para a compreensão das coisas que estão ocultas” (São Gregório de Nissa). A função apologética da teologia natural é preparar o fiel para a mensagem da fé cristã. “O conhecimento estimula a superação de si próprio”, nas palavras de Basil Tatakis. Portanto, todas as analogias são falhas, e isso inclui as analogias da Escritura e dos dogmas.

5) Muitos e um

São Gregório de Nissa admitia a necessidade de múltiplos modos de conhecimento, dependendo dos atributos divinos a serem aspirados. No entanto, este fato poderia sugerir que “a cisão de tais atributos” implicaria “na cisão do Sujeito dos atributos”. “Ao perceber que os pagãos, com sua inteligência estreita e imatura, estavam inclinados a enxergar as belezas da natureza com admiração e a não empregá-las como condutores e guias para as belezas da natureza divina, que transcende estas coisas, eles acabaram paralisando-se nos objetos de sua apreensão, maravilhando-se em cada porção da criação separadamente. Por isso, eles são incapazes de desenvolver seu conceito de Divindade em uma única coisa, mas acham que todas as coisas que observam na criação são dignas de serem divinas”. No exato instante em que supõem que a natureza não é una, nada os impede de “progredir através da criação”, atribuindo e distribuindo a divindade aos múltiplos objetos de sua admiração. E assim nasceu o politeísmo. A idolatria do politeísmo é a perversão do desejo por Deus.

Outros elementos das críticas pagãs ao politeísmo também foram considerados pela crítica dos Capadócios. Uma delas era a idéia dos filósofos de que o politeísmo fosse talvez um monoteísmo disfarçado. Em alusão a esta idéia, São Gregório de Nissa atribuía a Platão a doutrina da “existência no alto de um Criador dos deuses subordinados”.

São Basílio admitia três alternativas gerais para o problema de Deus: politeísmo, ateísmo e monoteísmo. Para ele, a adesão ao politeísmo ou ao ateísmo eram “superstições igualmente ímpias e igualmente irrazoáveis”. Havia ainda outras três alternativas: o sincretismo (esposado por Juliano, o Apóstata), o dualismo e o panteísmo.

Para os Capadócios, o dualismo resumia-se em fazer de Satanás um segundo deus. Conforme admitia São Basílio, o segundo versículo da Bíblia [e havia trevas sobre a face do abismo] tornou-se “uma nova fonte para fábulas e para as mais ímpias imaginações” dos maniqueístas dualistas. Sim, é verdade que há alguma plausibilidade superficial nas teorias dualistas. Afinal, a vida perecível e dolorosa explica-se facilmente se acrescentarmos ao mundo uma segunda força que seja responsável pela miséria de nossa natureza. Ocorre que este segundo deus, esta segunda força, destrói a doutrina da criação e, pior ainda, destrói a própria doutrina da unicidade de Deus.

O panteísmo, por sua vez, obscurece a divisão ontológica entre criação e Criador. A idéia de que Deus possui uma “natureza” significa dizer que Deus não se assemelha à natureza do universo, mas a transcende. O termo natureza (physis) é equívoco, não se refere a “Deus” e ao “cosmo” como se fossem modos alternativos de falar da mesma realidade. Observe que este tipo de panteísmo não tem nada a ver com a idéia de que o cosmo é um “todo completo”.

A rejeição racional a todos estes “ismos” filosófico-teológicos – politeísmo, ateísmo, sincretismo, dualismo e panteísmo – conduz naturalmente ao monoteísmo. Nada, nem mesmo a doutrina ortodoxa da Trindade, pode comprometer o alcance absoluto do monoteísmo, embora os Capadócios com o tempo tenham redefinido a unicidade de Deus.

6) Ordem cósmica

São Gregório, o Teólogo, identificou as três opiniões mais antigas acerca de Deus: “anarquia”, “poliarquia” e “monarquia”. Anarquia e poliarquia tendem ambas para a desordem. Somente a monarquia é capaz de salvaguardar a ordem no mundo. Assim, os Capadócios postularam uma conexão filosófica fundamental entre a doutrina correta do ser divino e a busca pela ordem cósmica. Quem se imbuísse “de uma perspectiva filosófica” e estudasse as ciências “possuiria a intuição psíquica” para apreender “a harmonia do todo” (São Basílio).

Todas as teorias cosmológicas e metafísicas que foram refutadas pelos Capadócios têm sua origem nas fontes clássicas. Platão e Aristóteles, por exemplo, postulavam a preexistência eterna da matéria, a partir da qual o Criador, que coexistia com ela, formou o cosmo. Mas é de Platão que os Capadócios extraem a maior parte das palavras, mas não necessariamente dos termos, que usam para explicar sua cosmologia. Por exemplo, São Basílio faz uso da palavra demiourgia, retirada do diálogo Timeu.

A doutrina platônica das idéias é certamente a doutrina mais importante, e que mais vêm à mente, dos Capadócios. Eles ensinam que a criação da humanidade procedeu “através de uma série de avanços graduais e ordenados” a partir de criaturas anteriores e inferiores, conforme narrado em Gênesis e evidente na própria natureza da criação (Santa Macrina). Além deste aspecto, também se verifica um “avanço gradual e ordenado” mais inclusivo, no que tange o desenvolvimento de cada criatura: das idéias para os fenômenos particulares, dos fenômenos particulares para a harmonia cósmica de todos os fenômenos. Primeiro veio “a forma que Deus quis dar” a cada criatura; depois, Deus “criou a matéria em harmonia” com a forma; “finalmente, Deus uniu todas as diversas partes do universo por elos indissolúveis, estabelecendo entre elas uma sociedade tão perfeita e harmônica que mesmo a mais distante das partes está unida em uma única simpatia universal” (São Basílio). Em Gênesis, quando Deus colocou o homem no Paraíso “para ser um lavrador”, São Gregório, o Teólogo, ensina que isto é uma alegoria para o homem ser um “lavrador das concepções divinas, das mais simples às mais perfeitas”. Isto também é um tipo de “preexistência”, tais como as teorias cosmogônicas clássicas; mas, na verdade, trata-se de uma “preexistência no poder presciente de Deus”, e não um fator independente do Criador. [Deus eterno, tu conheces todos os segredos e antevê todas as coisas. Susana 42 (Daniel)]. Deus é o “Criador do céu e da terra”, ou seja, Ele também é o Criador das essências dos seres, e não apenas um inventor de figuras, mas o Criador da “ousia com a forma”. Em outras palavras, Deus é a essência das essências.

No entanto, a apophasis também deve obrigatoriamente ser aplicada a esta doutrina, já que ela é “inconcebível à nossa mente, mas situa-se para além de todas as palavras, sublime demais para os iniciantes e os bebês em conhecimento”. Por este processo, a matéria foi criada em harmonia com a forma que Deus quis lhe dar. O arranjo sistemático do cosmo foi predeterminado pela vontade livre e soberana de Deus “antes mesmo do nascimento do mundo”. Platão estava errado ao extrair analogias das artes humanas, nas quais a techne toma a matéria [hylé] preexistente e impõe uma forma [morphe] sobre ela. Deus criou as idéias antes da matéria particular, criando o ser a partir do não-ser.

A observação científica às vezes ilustra, e às vezes até mesmo confirma, as conclusões alcançadas pela razão. A matemática era a ciência preferida. O valor apologético da geometria, segundo Santa Macrina, reside em sua capacidade de “conduzir-nos passo a passo através das delineações visíveis para as verdades supravisíveis”. Porém, nunca devemos nos esquecer que os números também são parte constituinte da ordem criada e, portanto, não devem ser levados mais a sério do que isso. Os hereges cristãos freqüentemente abusam do conhecimento racional e da teologia natural, extraindo conclusões acerca do divino a partir de analogias numéricas. O caso da Trindade é provavelmente o mais conhecido.

A medicina e a fisiologia também eram muito usadas neste sentido. Os mistérios da digestão humana, por exemplo, eram tomados por São Gregório de Nissa como analogias dos mistérios da mutação do pão e vinho em Corpo e Sangue de Jesus Cristo na Eucaristia. A metafísica da luz também é fartamente utilizada pelos Capadócios [“Luz de Luz”] e muitos outros Santos Padres, embora aqui, assim como no caso da medicina e outras analogias, as devidas correções apofáticas se aplicam obrigatoriamente.

Em suma, é absolutamente essencial que compreendamos que o cosmo não se ordena por sua própria iniciativa ou ananke [necessidade], mas contingencialmente, em função da liberdade e da vontade soberana de Deus. A “palavra” de Deus, a “vontade” de Deus e a “ação” de Deus devem ser compreendidas dentro do contexto apofático, ou seja, de maneira fundamentalmente diferente das aplicações que estes termos possuem nas palavras, vontades e ações humanas. Nunca é demais frisar que a teologia natural dos Capadócios possui dupla função: apologética – encontrar no pensamento clássico as antecipações da verdade revelada – e apontar para além de tudo isso a verdade revelada em si.

7) Espaço, Tempo e Divindade

Os Capadócios afirmavam que não é necessário ter acesso à revelação divina, mas somente “ter um insight, por mais moderado que seja, sobre a natureza das coisas”, para reconhecer que o espaço e o tempo representam “uma espécie de receptáculo” para todas as realidades materiais e visíveis do universo. Portanto, quando alguém cometia o erro de “atribuir lugar às coisas incorpóreas” isso era sinal de “ignorância” e “absurdidade”.

Mas será que a teologia natural e a teologia revelada não cometem esse erro? Por exemplo, o Novo Testamento diz em Filipenses 2:10: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra”. Santa Macrina diz que este versículo refere-se na verdade a três estados possíveis para uma natureza racional: o termo “nos céus” refere-se ao estado angélico, “na terra” ao estado humano e “debaixo da terra” às almas das pessoas falecidas puras e simples, temporariamente desligadas de seus corpos até a ressurreição dos corpos.

Ademais, o fato dos cristãos voltarem-se para o Oriente não ocorre porque eles  acreditem que Deus esteja lá, ou apenas lá, mas por causa da honra à profecia de que Cristo, o Verdadeiro Sol, “brotará do Oriente”. Inúmeras outras metáforas têm de ser entendidas desta forma, ou seja, não devem ser tomadas em sentido material: “Pai nosso que estás nos céus” (Mateus 6:9), “porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1:19), os “dias” mencionados em Gênesis etc. São Gregório de Nissa ensinava que a natureza divina transcendente está para além de qualquer limite, infinita portanto, e para além de qualquer espaço e para além “da medida expressa pelo tempo”, pois arche e telos são “termos para coisas que têm extensão”. A natureza divina não está no tempo nem no espaço, esquivando-se de toda limitação e toda forma de definição.

Os Capadócios, como sempre, nunca se esquecem de aderir a apophasis quando falavam das coisas eternas, atemporais. O tempo, assim, também é um elemento criado, ao lado de todas as demais criaturas. Isso não quer dizer que o tempo não tenha um papel a desempenhar no que tange a Providência divina. O tempo é um receptáculo do mundo natural: a Encarnação do Logos e outros eventos divinos mostram que o tempo também faz parte da ordem divina e, portanto, da economia divina. A materialidade e a temporalidade da Encarnação pressupõe a bondade intrínseca da matéria e do tempo, pois são capazes de receber o Logos divino.

8) A imagem de Deus

Santa Macrina se referia ao homem como um “microcosmo”, ou seja, ele se encontra na fronteira entre o mundo inteligível [noetos] e o mundo empírico [aisthetos], feito de uma combinação de alma e corpo. No entanto, diferentemente dos autores clássicos, Santa Macrina não conferia um perfil puramente materialista ao termo “microcosmo”, pois a alma humana transcende sua existência material e a transitoriedade deste mundo, tornando-se algo semelhante à transcendência de Deus sobre o cosmo, desde que tal similaridade confine-se obviamente à teologia apofática. São Gregório de Nissa insistia que se nem a própria essência humana é atingível pela mente humana a minori ad maius a essência divina menos ainda. Assim, se o conhecimento do mundo está para o conhecimento de Deus apofaticamente, o conhecimento da mente humana também deve ser entendido apofaticamente.

Desta mistura de fontes cristãs e clássicas também se engendra a interpretação da postura ereta do homem, que seria uma evidência da dignidade e do status especial do homem em relação às demais criaturas. Assim, a teologia natural e a teologia revelada eram alternadamente invocadas: por exemplo, por um lado, todas as coisas foram produzidas pela essência divina – uma proposição da teologia natural cuja prova seria supérflua por ser inegável a “quem quer que tenha um mínimo de insight sobre as verdades das coisas” –, por outro, a criação da humanidade “de fontes heterogêneas” foi subseqüente à criação das demais coisas – uma informação que vem da teologia revelada. Portanto, nenhuma criatura existente é digna do título de “imagem de Deus”.

No entanto, Santa Macrina foi clara ao fazer a distinção entre “o fato” [hoti] da imagem de Deus ser cognoscível e “o processo como” [pos] se deu a imagem de Deus não ser cognoscível. Assim, o “como” da imagem de Deus é algo conhecido apenas para a própria Verdade. Porém, o “fato” do homem ser a imagem de Deus é o suficiente para o telos da vida humana e para servir de base para exortações morais.

As qualidades humanas repreensíveis, segundo os Capadócios, são principalmente a ira, a covardia e a ganância. As propriedades da natureza divina que são dignas de louvor quando encontradas na alma do homem são pureza, apatheia, bem-aventurança, alienação de todo o mal, amor, inteligência para apreender as coisas pela visão e pela audição e investigá-las. No entanto, conforme São Gregório de Nissa alertara, a metodologia da teologia apofática tem de ser aplicada nestes casos, uma vez que é impossível que “através de analogias ou semelhanças” a doutrina da essência divina seja construída. A teologia apofática significa que Deus não pode ser separado em distintas faculdades, como visão, audição, conhecimento etc., mas que é “ao mesmo tempo visão, audição, conhecimento” e quaisquer outras faculdades divinas e atributos divinos que existam. Mas será Deus apenas uma grande metáfora vazia? São Gregório insiste que não. “Quanto ouvires que a majestade divina é exaltada acima dos céus, que sua glória é inexprimível, sua beleza inefável e sua natureza inacessível, não te desesperes achando que jamais contemplarás o que deseja. Em verdade, está dentro de teu alcance; tu tens em ti o padrão pelo qual apreender o divino..., a semelhança das glórias da própria natureza de Deus, como se fosse a fôrma de entalhar cera”.

Três qualidades humanas são essenciais para compreender a imagem de Deus: razão, livre arbítrio e imortalidade.

A razão é, segundo São Gregório de Nissa, “a maior das faculdades”. Neste caso, a teologia natural e a revelada estão de acordo. Ademais, ambas também estão de acordo no que tange à exortação da alma racional elevar-se acima das paixões e emoções. Platão assim ensinou em Fedro e na República, e São Gregório de Nissa fez o mesmo em De vita Mosis. As emoções são compartilhadas com as criaturas irracionais; porém, é exatamente pelo fato do homem possuir uma alma racional que as paixões sejam consideradas pecaminosas, mas não sejam consideradas vícios no caso das bestas. Por outro lado, quando a razão domina as emoções, estas podem se transformar em aretai: a ira transforma-se em coragem, o terror em precaução, o medo em obediência, o ódio em aversão ao vício, o poder do amor em desejo pelo verdadeiramente belo etc.

A racionalidade leva necessariamente à conclusão que a natureza humana é dotada de liberdade. Em outras palavras, Deus deseja que o exercício da razão seja feito de maneira livre, e não sob a necessidade de um Deus soberano. O livre arbítrio é ensinado pela teologia revelada e pela teologia natural.

Quanto à imortalidade, a teologia natural chega à conclusão de que está presente no homem, pois explica o desejo humano pela imortalidade de Deus. Ademais, como ensina Santa Macrina, a crença na imortalidade é a chave para uma vida de arete, pois sem ela “o prazer do momento” prevaleceria; além disso, a santa também exortara os que estavam à sua volta para temerem a morte. Ela citou as palavras do Apóstolo – Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança (I Tessalonicenses 4:13) – para lembrar que é dever de todos não se entristecer pelos adormecidos, já que isto seria típico da humanidade “que não tem esperança”. Logo em seguida, Santa Macrina deixou claro fazendo uso da parábola do joio e do trigo contada por Jesus Cristo que a teologia revelada é superior e transcende a teologia natural e a especulação filosófica:

O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: “Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio?” E ele lhes disse: “Um inimigo é quem fez isso”. E os servos lhe disseram: “Queres pois que vamos arrancá-lo?” Ele, porém, lhes disse: “Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: ‘Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro’”. (Mateus 13:24-30).

Referindo-se a Aristóteles de maneira um tanto desdenhosa como “aquele que veio depois de Platão”, mas sem chamá-lo pelo nome, ela rejeitou sua doutrina da alma mortal. A definição da imagem de Deus serve para enaltecer a diferença metafísica fundamental entre o homem feito à imagem e o Arquétipo em si.

9) A fonte de todo o bem

Todos os Capadócios aspiraram a articular uma teologia natural, que a ela se referiam pela expressão genérica “filosofia moral e natural”. O primeiro princípio da teologia natural de São Gregório de Nissa é identificar “o Deus do universo” como sendo “o único absoluto, o primordial, a pureza e kalon kai agathon”. Porém, tal identidade deve ser prefaciada com o devido qualificador apofático: não há bem que não seja inerente à natureza divina, ou seja, ela não necessita de nenhum tipo de aperfeiçoamento.

O intuito da teologia apofática não é desqualificar as investigações especulativas, mas justificá-las. “Nem mesmo a admiração pela beleza dos céus, pelos deslumbrantes raios solares, por todo e qualquer fenômeno, nada disso cessará. A beleza assim notada será usada como uma mão que conduz ao amor à beleza celestial, cuja glória os céus e o firmamento declaram e cujo mistério toda a criação entoa”, escreve São Gregório de Nissa.

Em tom pesaroso, São Gregório notou que “não é fácil – na verdade, é quase impossível – preferir o bem invisível aos prazeres visíveis desta vida”. A inclinação congênere ao desejo de contemplar o bem é o “horror natural ao mal”. A razão para esta “aversão natural” é que embora o desejo natural pelo bem seja um desejo pelo ser e pela realidade, “não há realidade no mal, exceto como privação do bem”. O mal não pode vir de Deus. Deus às vezes permite que o mal alcance certo “escopo” na história humana, o que de certa forma é uma negação de sua irrealidade. Santa Macrina expressou este paradoxo eloqüentemente: “o mal possui existência em sua não-existência”. A realidade existencial do mal reside na própria ausência de realidade metafísica.

As aretai clássicas da “boa ordem e decência” também são consideradas virtudes cristãs. O respeito aos pais, por exemplo, é uma exortação comum entre os clássicos e os cristãos. No entanto, essa correspondência não se verifica em todo o campo da moral. Os epicureanos, por exemplo, achavam que a moral não passava de uma palavra. A arete clássica não é a genuína arete: “A união da justiça com a sabedoria é o que constitui a arete, pois, separadas e tomadas isoladamente, justiça não é bondade”, e também não a seria em Deus.

Assim, o conhecimento da moralidade natural, a exemplo da teologia natural, baseia-se “nos fatos apreendidos pela experiência sensorial”. Todavia, a vida da genuína arete é o caminho da perfeição e, enquanto tal, requer a própria “visão de Deus”. A idéia de beleza, a idéia de grandeza etc. são elementos essenciais à teologia natural, mas são inadequadas: toda idéia divorciada de exemplos vivos e concretos são constructos artificiais, são “estátuas mortas”. Não há piedade que consista apenas de doutrinas.

No que tange sua doutrina política e social, os Capadócios discordavam da idéia aristotélica de que os membros da raça humana são naturalmente e permanentemente segregados em categorias. As diferenças de aptidão existem, porém não se tratam de predeterminações, mas a razão é que as produz. “Não é a natureza que divide a raça humana em servos e mestres, mas o poder. [...] Quem quer que esteja submisso a ti por costume ou lei é apesar disso igual a ti em dignidade natural. É um mandamento do Senhor do universo que somente a natureza irracional dos animais e das coisas inanimadas seja naturalmente inferior à natureza humana, pois nesta todos foram criados iguais”.

O patriotismo e o dever cívico são virtudes, pois “assim como é um dever religioso honrar o pai e a mãe”, o país é “a mão comum a todos”. Quanto ao governante, ele deve tomar suas decisões baseado em princípios naturais e racionais: a paz e a ordem são os princípios maiores, segundo São Gregório, o Teólogo.

10) De tyche a telos

Disse Santa Macrina: “Se a vida começa por causa de tyche [sorte, acaso], todo seu conteúdo torna-se um capítulo dos acidentes de tyche”. É a tirania da sorte e do acaso. “O mundo não foi concebido por tyche e sem razão, mas para um fim útil e de grande proveito para todos os seres. [...] O mundo é uma escola para as almas racionais exercitarem-se, o campo de treinamento onde aprendem a conhecer Deus”, escreveu São Basílio. Estas conclusões podem ser alcançadas pela teologia natural, e não apenas pela teologia revelada. Qualquer um que perceba que Deus é razão, sabedoria, virtude e verdade em pessoa poderá concluir que tyche não está no comando do cosmo.

São Gregório, o Teólogo, considerava o tyche aleatório e o ananke determinístico do destino e das estrelas como os principais rivais da doutrina cristã de Deus e da teleologia da providência divina. São Gregório de Nissa também condenava os “malabarismos astrológicos”: “Deus não governa com violência, Ele não é um ditador tirânico, nem governa pela força intimidatória da ananke”.

Apesar disso, os Capadócios identificavam nas teorias determinísticas uma intuição válida: por trás das mudanças e acasos da vida mortal há um “objetivo” para o qual todos os eventos concorrem. Este objetivo é o “telos útil” embutido na criação e na ordem natural pela “razão inteligente que preside sobre a ordem das coisas visíveis”. Este telos nada mais é do que a participação em Deus.

A marcha da história humana avança indubitavelmente, embora instavelmente, em direção ao objetivo final: na criação, insistia São Basílio, nada existe sem razão. Mesmo nos eventos mais trágicos, como mortes de crianças, há “um plano que porta a marca da sabedoria divina”. Santa Macrina celebrava a techne de Deus, a “regularidade e ordem de acordo com o plano artístico do autor”. Porém, “as razões por trás dos eventos ordenados por Deus” estão para além da mente humana, baseando-se em “razões incompreensíveis ao entendimento humano”. No entanto, mesmo na presença de questões inefáveis, o exercício do julgamento humano sobre tudo e, portanto, especular sobre quais seriam os planos e objetivos da providência de Deus, é um exercício permissível. Isto não anula a presença nos seres humanos de uma vontade autenticamente livre.

O verdadeiro teste das doutrinas acerca da providência divina reside nas experiências da vida. Santa Macrina usou a morte de seu irmão como uma ocasião para uma “filosofia sublime”, versando sobre a “economia divina oculta nos desastres”. Mas as almas menos heróicas que Santa Macrina (a maioria das almas, pagãs ou cristãs) tendem a encarar eventos como desastres agrícolas como ameaças à sua fé.

Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Filipenses 3:13-14). Isso significa que é impossível “elevar-se a Deus exceto inclinando-se perpetuamente para as coisas do alto”. Este desejo incessante dá dinamismo à vida. Os apetites sexuais e alimentares alcançam certa saciedade de prazer para então começar a definhar: a vida em Deus, contudo, uma vez que a arete estabelece-se firmemente, não se circunscreve pelo tempo nem é limitada pela saciedade.

Parte B: A função dogmática da teologia natural

11) Teologia cristã e cultura clássica

Segundo os Capadócios, a maior glória de Constantinopla não era sua grandeza, seu poder militar ou sua riqueza, mas “a integridade de suas doutrinas [...] pois nada é mais magnífico aos olhos de Deus do que a doutrina pura e uma alma perfeita em todos os dogmas da verdade” (São Gregório, o Teólogo). Assim, o maior triunfo da teologia do século IV não foi apenas a apropriação da cultura clássica, mas a vitória da “doutrina pura” e dos “dogmas da verdade”.

A teologia, portanto, não é objeto apenas de estudos acadêmicos, mas de uma vida dedicada à contemplação espiritual.  Os Capadócios condenavam aqueles que abandonavam a fé em prol do conhecimento acadêmico. São Basílio, por exemplo, acusava as doutrinas pagãs de corromperem a pureza das doutrinas da fé cristã. No entanto, ele também admitia que os cristãos precisam de todos os “suprimentos de viagem” de que necessitassem para a jornada rumo ao Céu e, portanto, deveriam voltar-se para todas as fontes possivelmente benéficas neste sentido, o que incluía os autores clássicos, seus métodos lógicos, sua retórica, sua literatura e filosofia. São Gregório Nazianzo concordava que desprezar a educação clássica seria “mau julgamento” por parte dos cristãos.

Os contrastes entre as doutrinas clássicas e as cristãs faziam parte do plano apologético dos Padres Capadócios; porém, a educação clássica possui outra e mais importante função: ajudar a apresentar e explicar a doutrina cristã.

Todavia, ocorre que a filosofia precisa reconhecer que sem a “autêntica devoção religiosa” ela é incompleta (ver A filosofia esotérica). É esta devoção que produz os “verdadeiros amantes da sabedoria e de Deus”. Neste sentido, a filosofia é idêntica ao conhecimento de Deus. Na Igreja, segundo São Gregório de Nissa, há “milhares de pessoas favorecidas com o dom divino da sophia”, ou seja, com habilidade filosófica. Muitos destes cristãos, pessoas comuns e monges, eram filosoficamente superiores a Platão e Aristóteles.

A filosofia pode ser “teórica” ou “prática”, segundo Aristóteles. De fato, a filosofia cristã teórica pode ser vislumbrada em textos como “A Exposição Exata do Cântico dos Cânticos”, de São Gregório de Nissa, a Sabedoria de Salomão, o Livro de Eclesiastes etc. A filosofia cristã prática reside sobretudo na prática da disciplina cristã, especialmente as disciplinas ascéticas da virgindade e da temperança. Filosofia é, do ponto de vista cristão, sinônimo de teologia.

12) A função dogmática da teologia natural

Apesar das muitas declarações de desapreço pela filosofia natural, fato é que os Capadócios jamais manifestaram desprezo completo por ela. Em verdade, São Gregório de Nissa faz uso de Êxodo 12:35-36 para ilustrar o uso do helenismo como “compensação”: Fizeram, pois, os filhos de Israel conforme à palavra de Moisés, e pediram aos egípcios jóias de prata, e jóias de ouro, e roupas. E o Senhor deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, e estes lhe davam o que pediam; e despojaram aos egípcios.

Ora, quando os Capadócios interpretam Deus, o mundo e o homem como tópicos da dogmática ortodoxa, eles podiam e de fato tomavam como pré-requisitos óbvios as visões acerca de Deus, do mundo e do homem herdadas da cultura clássica. Evidentemente, a autoridade maior cabe às Escrituras. Na doutrina de Deus, por exemplo, a Encarnação do Logos não veio para suplementar, mas para corrigir as pressuposições existentes sobre a natureza divina.

Todos os Capadócios ensinavam a necessidade de se partir dos primeiros princípios para então se atingir conclusões válidas. “Se os primeiros princípios permanecerem não-provados, é inútil deter-se nos princípios secundários” (São Gregório de Nissa). A característica principal das heresias é justamente partir de premissas falsas e, mediante passos perfeitamente lógicos, atingir conclusões perfeitamente falsas. Por exemplo, a doutrina pagã da metempsicose (ou “transmigração das almas”) tem por premissa a doutrina da preexistência das almas. Para derrubar a doutrina trinitária, muitos hereges lançam mão desta aparente verdade autoevidente: “as coisas de mesma ousia são contadas juntas, mas coisas que não são homoousios são contadas uma por uma”. Ora, se Pai, Filho e Espírito são contados um por um, separadamente, então se conclui (falsamente) que eles não podem ser de mesma ousia. Ocorre, porém, que a premissa é falsa: “a função do número é apenas expressar a quantidade de tudo o que está incluído nele, e não a natureza das coisas”.

Em suma, todas as falácias teológicas, por mais que suas premissas sejam “válidas”, “universais” e “úteis”, são necessariamente inadequadas para o correto entendimento de Deus. Assim, chegamos a uma conclusão importante: a teologia natural é suficiente em sua função apologética, mas insuficiente em sua função dogmática/explicativa. O conhecimento do Alto não apenas confirma o conhecimento natural, mas o suplementa, corrige e transcende. Ademais, a linguagem apofática é a chave para a resolução da aparente contradição entre a negação paradóxica (típica da teologia revelada) e a rejeição da contradição lógica (típica da teologia natural).

13) O léxico da transcendência

Os estudantes da teologia dos Capadócios não devem imaginar que a linguagem apofática aplica-se apenas à cultura clássica ou à teologia heterodoxa, mas não à teologia ortodoxa. O raciocínio válido tanto para a teologia natural quanto para a teologia ortodoxa é partir dos princípios gerais da teologia negativa e, por implicações logicamente necessárias, chegar aos vários corolários doutrinais.

No entanto, se a teologia apofática explica a teologia, como ela explica a economia divina, ou seja, como ela explica doutrinas como a Encarnação, a morada do Espírito no coração humano, a visão de Deus etc.? Em suma, a explicação dos Capadócios é que os títulos apofáticos informam apenas a privação dos dados óbvios da experiência sensório-perceptual humana, mas "eles não interpretam em si e por si a verdadeira natureza daquilo que foi removido destas condições abomináveis" (São Gregório de Nissa).

Isso não significa que a linguagem empregada acerca de Deus seja desimportante, e que apenas a atitude perante Deus é que importe. A linguagem catafática é, sim, importante, pois ela "aproxima" ou "aponta" para Deus, mas somente quando cuidadosamente controlada pela linguagem apofática. Somente assim a linguagem torna-se "símbolo" da realidade transcendente, passando a conter um sentido mais profundo do que o literal. O fato de não haver um nome que designe o Inominável é responsável pela existência de inúmeros nomes para Deus, mas todos entendidos sob o signo apofático. A fonte desta diversidade de nomes divinos é a diversidade das "ações" (energeiai) de Deus. E disse Manoá ao anjo do Senhor: Qual é o teu nome, para que, quando se cumprir a tua palavra, te honremos? E o anjo do Senhor lhe disse: Por que perguntas assim pelo meu nome, visto que é maravilhoso? (Juízes 13:17-18). "Maravilhoso" não é o nome de Deus em essência, mas uma referência à "maravilha inexprimivelmente despertada em nossos corações acerca dela". A partir deste senso de maravilha é que surgem os "nomes teológicos" de Deus, como sábio, poderoso, bom, santo, eterno etc.

Há três passagens muito importantes na Bíblia que são tomadas como a revelação da essência de Deus mediante nomes divinos: Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. (Mateus 28:19-20); Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. (Filipenses 2:6-11); E disse Deus a Moisés: EU SOU AQUELE QUE É. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. (Êxodo 3:14).

A fórmula batismal ensina que os cristãos devem aplicar igualmente a Pai, Filho e Espírito "o nome que a inteligência humana conseguir encontrar para indicar a transcendência divina mediante esforços piedosos". Estes nomes -- Pai, Filho, Espírito -- não são nomes da ousia, mas nomes da relação de Deus com os homens e das relações mútuas das hipóstases divinas. O "nome sobre todo o nome" é evidentemente um paradoxo para a inominabilidade de Deus. Quanto à revelação dada a Moisés, a palavra "é" ou "ser" significa precisamente que somente Deus "é", afirmando categoricamente a distinção insolúvel entre o Incriado e o criado. Estes paradoxos são bem simbolizados pela sarça ardente, que ardia no fogo, mas não se consumia (Êxodo 3:2).

14) A fé é a plenitude da razão

As afirmações positivas não apenas eram permitidas, mas necessárias. Santa Macrina, por exemplo, citou trechos do Novo Testamento no qual o Apóstolo Paulo faz uso de ambos os métodos catafático e apofático: A fé é a substância das coisas que se esperam, e a evidência das coisas que se não vêem (Hebreus 11:1); Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio (Atos 17:23).

No entanto, São Gregório de Nissa diz que “para a fé, o divino é precisamente aquilo que o pensamento não alcança”. São Gregório Nazianzo, em uma de seus discursos, diz: “Vós, filósofos, vós, trovoadas da terra! Faltam-vos até mesmo o brilho que as pequenas faíscas da verdade poderiam vos dar”.

A maior das igrejas do Cristianismo Oriental é a Hagia Sophia, não a “Hagios Logos”. O rei Salomão era tido como homem de grande Sophia, mas Jesus Cristo é a Sophia em pessoa. A fé põe a razão humana em contato com as “coisas celestiais” ao ensiná-la a “reconhecer as coisas que superam a razão”. É exatamente isto que significa a definição axiomática de fé de são Gregório Nazianzo: “Fé é a plenitude do raciocínio”.

Uma das habilidades dos Capadócios era empreender análises filológicas, seja da Escritura seja de Homero. São Gregório de Nissa nunca se cansava de alertar que a interpretação literal do texto bíblico é uma postura altamente perigosa. Ocorre que “a intenção divina freqüentemente se oculta por detrás das palavras da Escritura, como em um véu, pois as representações jurídicas e as narrativas históricas são depositadas sobre as verdades a serem contempladas pela mente. [...] Freqüentemente, as interpretações mais óbvias, se despidas de seu sentido mais profundo, engendrarão o efeito contrário apontado pelo Espírito”. O método correto para a interpretação dos textos é “tomar as palavras alegoricamente, e penetrar no sentido interior da história, mas sem perder de vista a verdade dos fatos” – ou seja, um não deve ser considerado sem o outro: a história bíblica e a alegoria bíblica são interdependentes. Evidentemente, este método não deve ser aplicado igualmente e indiscriminadamente a toda a Escritura.

Como as alegorias pertencem a um “círculo fechado”, São Gregório orientava seus ouvintes a “não transmitir [as alegorias] aos de fora” e “a maior parte de nossos mistérios não deve ser transmitida àqueles que estão de fora”. Ademais, a Ortodoxia, ainda segundo São Gregório, para manter-se fiel às Escrituras, tem de recorrer a algo mais do que apenas as Escrituras: as tradições da Igreja, “a nós entregues ‘oculta em mistério’ pela tradição dos Apóstolos” (São Basílio).

Em suma, os Capadócios não encaravam a teologia natural e a tradição religiosa como instâncias contrárias, mas mutuamente complementares. Porém, não há estudo bíblico que baste para a correta compreensão das Escrituras: a fé e a contemplação espiritual são indispensáveis.

15) O Um e o Três

A apophasis também vale para a doutrina da Trindade. Assim, o Filho compartilha plenamente a transcendência do Pai, pois “não há afinidade entre o mundo criado e as coisas que a doutrina ortodoxa assume acerca de Deus”. Similarmente, o Espírito é um ser plenamente transcendente, situando-se para além da compreensão da mente humana. A “geração do Filho”, “processão do Espírito” e a comunhão e a distinção no interior da Trindade são processos inefáveis, inconcebíveis e transcendentes, bem como a harmonia e a liberdade de conflito compartilhadas pelas hipóstases. “Todas as doutrinas acerca da natureza inefável são apenas uma cópia do ouro, e não o ouro em si” (São Gregório de Nissa).

Os gregos cometiam o erro de colocar a criação na eternidade (quando assumem que a matéria possui existência eterna à parte de Deus), enquanto os hereges põem a Trindade no tempo (quando procuram projetar nela relações naturais).

Outro conceito que faz parte da Trindade é o da causalidade. São Gregório de Nissa explica que “a única maneira de distinguir [uma hipóstase da Trindade] de outra é compreender que uma [o Pai] é a causa e a outra [o Filho] depende da causa”. No entanto, “causa” só deve ser legitimamente empregada apofaticamente, ou seja, apenas metaforicamente e “analogicamente” para descrever a realidade divina.

Ser “um” no que tange a Trindade, segundo São Gregório, o Teólogo, é ser um em ousia. Deus não é um em número, mas em ousia. São Basílio explica: “O que quero dizer com isso é o seguinte. Dizemos que o mundo é um em número, mas não um em natureza, nem mesmo simples; pois dividimos o mundo em seus stoicheia constituintes, fogo, água, ar e terra”. A unidade de Deus é exatamente o contrário: unicidade em natureza, mas não em número. A Ortodoxia cristã é cega à “aritmética de ignorantes”, mas prega um monoteísmo que não é limitado por uma prosopon (“pessoa”), no qual não há distinção numérica nem cisão de ousia. Assim é a doutrina metafísica do Cristianismo: a rejeição do politeísmo e a afirmação da Trindade contra o “monoteísmo aritmético”.

Pelikan observa, ademais, que os três Padres Capadócios concordavam em condenar o Filioque, embora este tema não tenha sido especialmente preocupante para eles. No entanto, a partir de suas obras, fica evidente que faziam a devida distinção entre a teologia da Trindade e a economia da Trindade no mundo. Teologicamente, o Espírito procede do Pai; economicamente, o Espírito procede do Pai através do Filho.

16) O mundo é uma criação contingente

O trecho inicial do Credo niceno-constantinopolitano é uma declaração sucinta dos princípios metafísicos e cosmológicos dos Capadócios: “Creio em um só Deus, Pai onipotente, criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Os Capadócios não defendiam ou pleiteavam teorias cosmológico-filosóficas ou cosmovisões científicas.

A conclusão ortodoxa é traçar uma linha divisória metafísica entre o Logos e as criaturas. Enquanto Logos Criador, o Filho de Deus está para o Pai assim como o verbo está para a mente, “existindo inerentemente em todas as coisas” (São Gregório Nazianzo). O princípio apofático, no entanto, estabelece que Deus não fala à moda humana. A existência do Espírito, a exemplo do Pai e do Filho, também pode ser intuída a partir da teologia natural grega; por exemplo, a “mente do universo” de Platão (Fedro 97c-d).

A harmonia e a afinidade das coisas criadas é conseqüência direta do fato de “terem sido igualmente procedido do não-ser para o ser”. No entanto, essa harmonia não deve servir de impedância à doutrina cosmológica central dos Capadócios: a contingência do mundo criado. Um dos fundamentos desta doutrina encontra-se, curiosamente, no conceito cristão de milagre. Os milagres são fruto da soberania da natureza divina sobre o mundo criado contingente. “Tu és incapaz de crer no milagre? Eu simpatizo com tua incredulidade. Pois na tua própria confissão de que o que dissemos transcende a crença, tu reconheces que os milagres transcendem a natureza” (São Gregório de Nissa). Em Deus não há diferença entre vontade e ação; e porque “Deus fez todas as coisas por um ato de vontade”, a vontade de Deus permanece soberana sobre elas e elas, por sua vez, permanecem contingentes. Nesta economia divina, a Encarnação do Logos é uma evidência ainda maior da soberania divina do que os milagres.

Portanto, o Logos é a natureza das coisas criadas, ou seja, “a palavra falada [phoné] de Deus faz a natureza [de uma coisa]”. Tudo o que hoje existe sobre a terra continua existindo por causa da transmissão de sua semente desde a primeira criação. Isso acontece porque a techne e o poder divinos foram implantados na própria natureza das coisas criadas. Porém, nada disso implica em panteísmo, pois, em total contraste com a eternidade da Trindade, não há nada que impeça que a criação, totalmente distinta do Criador, tenha uma arche própria. O conhecimento e a soberania de Deus estende-se não apenas ao cosmo como um todo, mas a todas as minúsculas partículas que constituem o cosmo. “Os movimentos da vontade de Deus tornam-se fatos a qualquer momento que Deus desejar, e a intenção torna-se imediatamente manifestada na natureza” (Santa Macrina). O fundamento metafísico deste estado de coisas é que “os olhos de toda a criação estejam voltados para Ele [Jesus Cristo]; Ele é o centro e a harmonia da criação”. A propósito, os anjos também fazem parte de “todas as coisas visíveis e invisíveis” que foram criadas por Deus.

17) A economia da salvação

Quando Cristo disse a seus discípulos Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus (João 20:17), a distinção entre teologia e economia torna-se fundamental para compreender Suas palavras: “Deus” para aquele que é visível, “Pai” para aquele que é o Logos.

A Encarnação do Cristo obrigou os Padres Capadócios a voltarem sua atenção da eternidade para a temporalidade. Em suma, foi uma metamorphosis fundamental da teologia natural. A teologia natural, enquanto teologia, sempre teve de lidar com a eternidade; mas, agora, a teologia natural, enquanto economia, tem de lidar com a temporalidade.

Há duas teorias expiatórias que são contrárias à interpretação dos Capadócios da economia da salvação: a famosa teoria ocidental anselmiana da “satisfação legal” e a teoria de que Cristo poderia ter efetivado a economia da cruz mediante uma anistia tipo fiat. A primeira é “humilhante”, a segunda foi rejeitada in limine. Mas por que Cristo disse Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mateus 27:46) Somente as pessoas “de pensamento desordenado” seriam capazes de atribuir sentimentos à Divindade em função da Encarnação e Paixão. Toda e qualquer “mudança” ou “devir” que afete o Filho deve ser atribuído à sua humanidade, e não à sua divindade. Porque eu, o Senhor, não mudo (Malaquias 3:6); qualquer alternativa a esta ontologia é blasfêmia: o Filho de Deus é digno de ser chamado de Filho do Homem, não por causa do que era, mas por causa daquilo que assumiu. (São Gregório de Nissa)

Deus se fez homem por causa da revolta da humanidade contra Deus, da escravidão ao pecado, da alienação humana da vida eterna e verdadeira. O Logos assumiu na Encarnação, e portanto salvou, precisamente os três componentes da imagem de Deus no homem: racionalidade, livre arbítrio e imortalidade. Todavia, em última instância, a Encarnação do Logos é um milagre que transcende não apenas a realização humana, mas a compreensão humana.

18) A metamorphosis da natureza humana

“Da primeira vez, [Deus Logos] tomou o pó da terra e formou a humanidade; desta vez, Ele tomou o pó da Virgem e não fez somente a humanidade, mas formou a humanidade em torno de Si próprio. Da primeira vez, Ele criou; desta vez, Ele foi criado. Da primeira vez, o Logos fez a carne; desta vez, o Logos se fez carne a fim de mudar nossa carne em espírito, tornando-Se participante conosco na carne e no sangue. Desta nova ordem em Cristo, portanto, a qual Ele mesmo iniciou, Ele é chamado de Primogênito”. (São Gregório de Nissa). “[Cristo] comunica uma segunda comunidade [com Deus] muito mais maravilhosa do que a primeira. Pois outrora Ele comunicou a melhor natureza (à humanidade], enquanto agora Ele mesmo participa na pior natureza [da humanidade]. Isto é mais divino do que a ação anterior, mais sublime aos olhos de todos aqueles que a entendem”. (São Gregório, o Teólogo)

As três qualidades da imagem de Deus são elaboradas e refinadas agora, transformando-se em ressurreição (imortalidade), apatheia (livre arbítrio) e iluminação da razão (racionalidade).

A ressurreição é a apocatastasis (restauração) da natureza humana à sua forma original. O conceito de apocatastasis deriva muito provavelmente de Platão (Symposium 193d). A combinação de argumentos filosóficos, paralelos científicos e analogias artísticas constituem, na opinião de Santa Macrina, “uma defesa excelente da fé na ressurreição”. A idéia é levar os oponentes da ressurreição a refletirem acerca da possibilidade de átomos se aglutinarem e formarem o mesmo ser humano de antes. Um dos argumentos dos Capadócios é que o ser humano não é puramente constituído de “fluxo e mudança”, já que uma natureza sem algum tipo de continuidade seria incompreensível. Tal combinação de fluxo e continuidade constitui uma das bases dos Capadócios em favor da ressurreição.

A verdadeira liberdade e autodeterminação é a liberdade das paixões, a liberdade da razão exercer controle sobre o prazer. Um dos elementos da paixão – conforme o uso cotidiano desta palavra denota – é a sexualidade. E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gênesis 1:27). São Gregório de Nissa explica que, no princípio, Deus não criou a humanidade unida à própria essência da natureza divina, mas a criou dupla: à imagem de Deus e dividida segundo a distinção entre homem e mulher. Contudo, o elemento divino, racional e inteligente não admite a distinção entre homem e mulher: esta pertence ao elemento “irracional, à estrutura e forma corporais”. Trata-se, aqui também, de um axioma da teologia natural: a superioridade da alma racional sobre as paixões, a superioridade do nous, a “faculdade superior da humanidade”, segundo os gregos clássicos.

19) A adoração das criaturas racionais

Ambos São Gregórios afirmam que o mistério eucarístico é o “sacrifício exterior, o antítipo dos grandes mistérios”, o que denota uma ligação indissolúvel entre os sacramentos da Igreja e a economia histórica da salvação nos eventos da encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Estes eventos da economia divina são precisamente os grandes mistérios, dos quais os mistérios sacramentais como a eucaristia, o batismo e demais ofícios litúrgicos exteriores derivam sua eficácia enquanto atítipos. Por extensão, os sacerdotes e leigos devem tornar suas “mãos perfeitas para as santas obras”, ou seja, a adoração não deve ser meramente exterior, mas acompanhada de santidade interior.

Os Capadócios fizeram uso de vários termos da cultura grega clássica ao explicarem os mistérios sacramentais, como transelementação [metastoicheiosis] e transfiguração [metamorphosis]. Embora os mistérios gregos fossem considerados “idolomania” [eidolomania], isso não os impediu que domesticarem o conceito grego de stoicheia e morphe. Por sua vez, a palavra adoração [proskynesis], quando aplicada a Deus, sempre carrega certa acepção apofática: os mistérios interiores da Trindade devem ser honrados com um “silêncio reverencial” (São Gregório de Nissa); a natureza divina é inescrutável, mas falar dela é possível através da adoração silenciosa do inefável e do inacessível.

20) A vida do aeon futuro

A vida do aeon futuro é o ápice da relação entre teologia natural e revelada. São Gregório de Nazianzo escreve que a unidade da raça humana é descrita no Evangelho, como em Mateus 5:45: Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Há somente um céu e uma distribuição uniforme e igual da “chuva”. Cristo é o único juiz, e toda a humanidade estará diante dEle para ser julgada; o corolário deste raciocínio é a idéia monoteísta, expressada vagamente na filosofia teológica de Platão (Timeu 39c-41a). Deus não foi conhecido apenas na Judéia, mas entre caldeus, egípcios e babilônios, sobretudo entre os gregos.

Uma das grandes críticas dos Capadócios contra a filosofia grega é a falta de uma doutrina que dê conta da direção em que a natureza e a história se dirigem. As doutrinas típicas da teologia natural da ananke e da tyche são inaceitáveis. Por outro lado, doutrinas excessivamente descritivas e catafáticas fracassam ao procurarem descrever aquilo que está para além de qualquer descrição. A promessa do Paraíso só pode ser descrita em termos apofáticos, e somente por aqueles que atingiram o “terceiro céu”. Platão foi claro (Fedro 240c) ao atribuir saciedade somente aos prazeres terrenos, enquanto a vida de arete não encontra limites ou saciedade.

O universo, explica Santa Macrina, está destinada a “ser transformado em outro estado”. Este é o escopo de todas as economias do universo, que são guiadas pela sophia e pela techne de seu Autor. No entanto, ninguém sabe o propósito da vontade divina, ninguém sabe como exatamente o universo é ordenado por Ele. Todos os eventos da história humana são instrumentos da vontade divina para com a raça humana. O mundo é, em verdade, “uma escola para as almas racionais exercitarem-se, o campo de treinamento para aprenderem a conhecer Deus”. Contudo, somente no último evento da história humana, quando o ciclo histórico finalmente se completar, o cosmo fará sentido por completo.