13 de dezembro de 2007

Arcebispo Leôncio do Chile

Poucos conhecem a vida do Arcebispo Leôncio do Chile (1904-1971) e do papel que desempenhou no crescimento do Cristianismo Ortodoxo na América do Sul. Embora o continente sul-americano seja tão carente de figuras místicas e religiosas de valor, quando elas surgem, ao invés de serem propriamente louvadas e popularizadas, são olimpicamente ignoradas. Parte disso se explica pelo tamanho diminuto da comunidade cristã ortodoxa sul-americana, mas creio que parte se explica também pela consciência geral da elevada improbabilidade de tais figuras florescerem em um território tão hostil à prática religiosa tradicional.

O fato é que o Arcebispo Leôncio é considerado um homem santo pelo seu rebanho e por aqueles que o conheceram pessoalmente, embora ainda não tenha sido glorificado pela Igreja. Sua vida ascética, a influência espiritual de São João (Maximovitch) de Shanghai e San Francisco, os milagres, seu zelo martirizante: tudo isso faz deste santo homem um verdadeiro confessor da Ortodoxia do coração.

Para sorte dos sul-americanos, o Arcebispo Leôncio está enterrado em Santiago do Chile. Portanto, quem visita a capital chilena não deve perder a oportunidade de rezar no túmulo do Arcebispo Leôncio e pedir suas orações intercessoras. Para encontrar seu túmulo, contei com a inestimável ajuda do Padre Alex Vilugrón, da Paróquia de São Nectário de Pentápolis e da Missão de São Siluan do Monte Athos (Igreja Ortodoxa Russa no Exterior), bem como da secretária das paróquias, a Sra. Elizabeth Jurlow.

Para chegar lá, tome a linha 4 do Metrô até seu extremo sul, isto é, até a estação Plaza de Puente Alto. Lá, tome um táxi ou ônibus até a Avenida Eyzeguirre, 2.395, na própria comuna (bairro) de Puente Alto, onde está localizado o Cemitério Ortodoxo Russo. O táxi lhe custará 2.000 pesos chilenos (aproximadamente US$ 4,00) enquanto a tarifa do ônibus é de apenas 380 pesos por pessoa. Várias linhas passam pela Avenida Eyzeguirre, bastando perguntar a alguém que esteja no ponto de ônibus em frente à estação de metrô qual delas poderá ser tomada. Caso se decida pelo ônibus, não se esqueça de levar dinheiro contado, pois em Santiago não há cobradores e, portanto, não haverá troco.

Uma vez no cemitério, informe-se pelo túmulo do Arcebispo Leôncio. Quando estive lá, o funcionário local – na verdade uma família que mora numa casa anexa ao cemitério – não soube informar exatamente onde estava o túmulo, então tive de procurá-lo um por um. Por fim, não foi difícil encontrá-lo, pois o túmulo do Arcebispo é o maior e mais imponente, ao final do corredor central.

Aproveito este post para publicar minha tradução da biografia do Arcebispo Leôncio, publicada na revista The Orthodox Word em 1981.

Pelas orações do Arcebispo Leôncio do Chile, que nosso Senhor e Deus e Salvador Jesus Cristo tenha piedade e dê a vitória ao todos nós, cristãos ortodoxos da América do Sul. Amém.

* * *

ARCEBISPO LEÔNCIO DO CHILE:
CONFESSOR DA ORTODOXIA DO CORAÇÃO

Apesar do evidente desvanecimento da influência do Cristianismo em nossa civilização e da notória ausência de heróis cristãos em nosso meio, Deus não abandonou Sua Igreja perseguida. Ele fez surgir extraordinários hierarcas ortodoxos cujo heroísmo, de proporções históricas, apenas aumenta com o passar do tempo. Infelizmente, tais heróis não chegam ao conhecimento da maioria na Igreja.

Um desses hierarcas, morto há dez anos sem que praticamente ninguém soubesse, foi o Arcebispo Leôncio do Chile, um destemido pregador do Cristianismo Ortodoxo, primeiramente na Rússia e, depois, no exterior. Seu papel histórico é de um confessor do verdadeiro Cristianismo do coração.

Quando ele morreu, em 19 de junho/2 de julho de 1971 – precisamente no quinto aniversário do repouso de seu querido Arcebispo João Maximovitch, outro extraordinário hierarca do século XX – o Arquimandrita Constantino de Jordanville afirmou: “Há pessoas cuja morte preenche com luz o coração das pessoas. Em todos os contatos que tiveram, essas pessoas viveram pelo seu grande coração. O que significa isso? Significa que, para elas, cada pessoa com quem mantiveram contato, mesmo que por breves instantes, era uma personalidade de natureza espiritual... Pode-se dizer que, apesar de nos ter deixado, ele está mais próximo de nós, mas não de maneira mundana”.

O Arcebispo Leôncio nasceu em 6 de agosto de 1904, numa piedosa família russa (Filipovich). Um de seus parentes distantes foi Santo Atanásio de Brest, que morreu martirizado por católicos romanos, no século XVII.

Desde a tenra infância, o Arcebispo Leôncio demonstrou forte inclinação para a Igreja, desejando dedicar sua vida a ela. Sua educação primária deu-se numa escola privada, onde seu imenso talento musical permitiu-lhe assumir no coral a posição de solista. Ele se lembrava, com grande emoção, quando o Imperador Nicolau II visitou sua cidade e que ali vira, num relance celestial, o futuro Tsar-mártir. Quando a revolução chegou a Kiev, ele já se encontrava espiritualmente próximo do Mosteiro das Cavernas de Kiev, mas foi preso assim mesmo. No entanto, quando descobriram que ele era de família “proletária”, foi libertado. Além disso, como o governo soviético precisava de um grande tenor, foi-lhe oferecida uma bolsa de estudos e um treinamento para óperas. Embora essa grande carreira musical estivesse à sua disposição, ele a declinou, decidindo servir à Santa Igreja Ortodoxa.

E que caminho pesaroso ele escolheu para si! Um caminho de perpétuas privações, sofrimentos, e de testemunha de intermináveis tragédias pessoais durante os anos soviéticos, até a chegada dos alemães em 1941. Ele tornou-se noviço do Mosteiro exatamente no período em que foi brutalmente liquidado. Seus monges foram torturados e entregues às mais variadas privações, e muitos foram mortos. É a partir destes sofrimentos que ele se tornou um confortador dos clérigos expulsos, lavando as feridas dos hierarcas que foram soltos e buscaram refúgio no Mosteiro. Ele salvou a vida do Bispo Partênio ao puxá-lo de uma sarjeta, afastando-o de uma matilha de cães raivosos e entregando-o a uma velha senhora, que então o tratou e recuperou.

Após a liquidação final do Mosteiro das Cavernas de Kiev, ele foi a Moscou, onde, sob terríveis condições, conseguiu completar o curso de teologia na Academia; as aulas na época tinham de ser conduzidas nos apartamentos particulares dos professores. Lá, ele novamente conheceu vários bispos e serviu de ponto de contato entre eles e os demais clérigos.

Como ele possuía um documento que o declarava membro do “proletariado”, ele se aproveitou dessa situação para viajar e visitar diversos locais santos e mosteiros na Rússia, logo antes ou mesmo logo depois de serem liquidados. Assim, ele visitou Sarov, Diveyevo, vários mosteiros da região de Novgorod e outras mais. Ele viu o grande mosteiro de Rostov vandalizado, suas relíquias profanadas e seus clérigos humilhados. Tudo o que viu registrou em seus diários, trechos dos quais foram preservados em forma de manuscritos.

Ele testemunhou os mortais sofrimentos da Santa Rússia. Ele ouviu as vozes dos santos hierarcas se lamentando, dos santos loucos profetizando e das mães chorando; mas tudo isso não foi capaz de lançá-lo ao desespero mas, pelo contrário, encheu seu coração com o santo zelo, pois compreendeu que estava vivendo numa nova era de mártires.

Como era muito próximo de diversas figures importantes da Igreja, ele conseguiu se tornar uma testemunha viva dos confessores de Cristo, o que mais tarde acabou lhe permitindo testemunhar, no mundo livre, seus sofrimentos inocentes, infligidos pela atrocidade bestial do governo soviético. Boa parte dos três volumes da obra do Padre Miguel Polsky sobre os Novos Mártires da Rússia foi baseada em materiais enviados pelo Arcebispo Leôncio.

Mas o próprio Arcebispo Leôncio não foi poupado de severas perseguições, nos anos anteriores ao advento da Segunda Guerra Mundial. Ele foi preso três vezes e, mais tarde, se lembrava de como, na prisão, os bispos e padres celebravam a Divina Liturgia enquanto fingiam jogar cartas numa mesa.

As condições prisionais, nos anos 1930, eram tão ruins que a maioria dos presidiários estava preparada para morrer nas mais desumanas condições. Alguns ministravam a Eucaristia no corpo de um sofredor moribundo, reconhecido como mártir, já que a Divina Liturgia é sempre celebrada sobre as relíquias de mártires.

O Arcebispo Leôncio conseguiu escapar da prisão, ficando por algum tempo escondido num sótão, suspenso num saco em forma de rede para que suas pegadas não fossem reveladas; o único período em que conseguia se exercitar era na calada da noite, enquanto os guardas dormiam no andar de baixo. Essas condições persecutórias dos cristãos soviéticos parecem inacreditáveis para nós, do mundo livre, porque vivemos nossa fé ortodoxa com indiferença. Mas se vivêssemos pelo calendário ortodoxo, onde a cada dia há leituras das Escrituras e comemorações de santos e mártires, entenderíamos melhor.

Quando os alemães chegaram ao oeste russo em 1941, a liberdade religiosa foi restaurada e um grande campo de atuação se abriu aos clérigos sobreviventes. Nessa época, o então Arquimandrita Leôncio se encontrava na Bielo-Rússia, onde logo teria sido consagrado bispo no renomado Mosteiro de Pochaev, que até então estava em território polonês e, portanto, escapara da destruição soviética. Entre 1941, quando foi ordenado, e novembro de 1943, quando partiu para o Ocidente, ele foi bispo de Zhitomir, ordenando 300 padres e diversos bispos, além de ter aberto centenas de igrejas. Seu entusiasmo e profundo carinho pelo povo fez dele um extraordinário pastor que, quando celebrava as Liturgias, era transportado para outro mundo. Sua voz de tenor parecia sobrepujar todo tumulto mundano, mas sua mente afiada nunca se ausentava da realidade humana. Ele prosseguiu sua atuação eclesiástica no mesmo espírito, tanto na Áustria e na Alemanha Ocidental quanto no Paraguai e no Chile, onde foi apontado bispo (a Argentina tornou-se parte de sua diocese longe antes de sua morte).

No Chile, ele fundou uma comunidade monástica, sendo que um de seus membros foi o Bispo Savva de Edmonton, Canadá. O Arcebispo Leôncio o trouxe para sua comunidade monástica, inspirando-o a seu ideal monástico, tonsurando-o e apontando-o como pastor independente que, mais tarde, mostrou-se ser um zeloso bispo, iniciando uma renovação espiritual na Igreja Russa; hoje, ele é conhecido como o cronista da miraculosa vida do Abençoado Arcebispo João Maximovitch.

Durante suas viagens pelo mundo livre, o Arcebispo Leôncio fez um estudo da situação lamentável de seus irmãos ortodoxos na Grécia, enfraquecidos pelas influências modernistas na vida ortodoxa, simbolizada pelo novo calendário papal forçado sobre eles nos anos 1920. Em seu zelo martirizante, ele foi à Grécia e ordenou bispos aos fiéis que seguiam o Antigo Calendário, estabelecendo assim um contato entre eles e a Igreja Ortodoxa Russa no Exterior.

Logo depois, ele foi elevado a Arcebispo, fundando o Convento da Dormição, cujas monjas foram trazidas da Terra Santa; hoje, nesse convento, funciona um orfanato e uma escola paroquial, de nome São João de Kronstadt. Essas monjas, lideradas pela Abadessa Alexia, foram originalmente abençoadas pelo Ancião Nectário de Optina, hoje um santo glorificado, cujas tradições eles aderiram com firmeza nos seus treinamentos monásticos de noviças.

O Arcebispo Leôncio foi um defensor da verdade, levantando-se sem medo, em todos os seus desafios espirituais, contra qualquer manifestação de injustiça. No seu primeiro encontro com o Arcebispo João Maximovitch, em Paris, ele imediatamente o reconheceu como um santo vivo, exatamente como aqueles que haviam visto e com quem havia vivido na sofrida Rússia. Com coração amoroso, ele se curvou perante a autoridade espiritual do Abençoado João, auxiliando-o sempre que era difamado por aqueles a quem faltava a experiência do contato vivo com os genuínos santos de Deus. Quando esses difamadores se levantaram contra o Arcebispo João, processando-o em San Francisco nos anos 1960 por corrupção nas finanças da igreja, o Arcebispo Leôncio imediatamente foi até lá para defendê-lo, sentando-se a seu lado, juntamente com os Bispos Savva e Nectário, no banco dos acusados. Obviamente, o Arcebispo João foi declarado inocente, e o monumento de sua vitória está hoje simbolizado na magnífica catedral ortodoxa de San Francisco, sob a qual repousam as relíquias de São João.

Quando o Arcebispo Leôncio foi informado da súbita morte do Arcebispo João, ele, juntamente com outro justo e perseguido hierarca, Arcebispo Averky de Jordanville, dirigiram por todo os Estados Unidos para estarem presentes em seu funeral. Lá, ele derramou lágrimas amargas sobre o corpo do Arcebispo João, a quem ele tanto amava que seu desejo era estar próximo de seu túmulo, talvez como Arcebispo de San Francisco. Deus, porém, não lhe concedeu tal dádiva e, exatamente no quinto ano da morte do Arcebispo João, após ter rezado pelo repouso de sua alma na catedral de Buenos Aires, ele entregou sua alma a Deus, juntando-se a seu amado Abba.

A súbita morte do Arcebispo Leôncio, que estava se recuperando de uma doença cardíaca, provocou grande pesar em seu rebanho. Eles o enterraram no cemitério que ele mesmo fundou. A criança doente de uma mulher chilena foi colocada sobre seu túmulo, tendo sido miraculosamente curada. Houve outros casos de intervenções celestiais por meio das orações do Arcebispo Leôncio. Mas o relato mais tocante vem de um venerador de sua memória, a quem foi concedida uma série de visões, um trecho das quais apresentamos aqui:

"A visão se deu exatamente no dia de 1971 em que o Concílio de Bispos decidiu iniciar as preparações para a canonização dos Novos Mártires da Rússia. Era um domingo. Num sono rápido, meu pai espiritual (que ainda está vivo em Buenos Aires) apareceu a mim em espírito, me confessou e perdoou meus pecados.

“No começo deste sonho, vi a mim mesmo num gigantesco templo, que não era feito por mãos humanas. No kliros da direita, havia uma enorme multidão vestida de branco: não pude reconhecer seus rostos. Ao meu redor havia uma cantoria calma, tocante, embora eu não pudesse ver ninguém. Então, as duas portas laterais do altas se abriram e delas saíam santos hierarcas e monges, completamente vestidos de azul; entre eles, só pude reconhecer São Nicolau, o Taumaturgo, de Myra em Lycia. Da porta próxima a mim, entre os bispos que passavam, o Arcebispo Leôncio parou ao meu lado, e disse: ‘Você, irmão Basílio, foi chamado e veio. Você sabia que temos uma grande celebração hoje!’ ‘Que tipo de celebração, Vladika?’, perguntei. E ele disse: ‘A glorificação celestial do Tsar-mártir!’ E tendo feito uma leve reverência a mim, continuou no seu caminho à kathedra (no centro da igreja).

“Por fim, as portas reais se abriram, e delas saiu o Tsar-mártir, parecendo-se exatamente como era nos retratos oficiais, durante seus primeiros anos de reinado, ou seja, muito jovem. Ele estava vestido com o manto real do Tsar, como na sua coroação, e levava a coroa do imperador em sua cabeça. Em suas mãos, uma grande cruz, e em sua pálida face notei uma pequena ferida, seja de bala ou golpe. Ele passou por mim em passos uniformes, e quando seu pé tocou a kathedra, o volume ficou tão alto que parecia que o mundo inteiro estava cantando a uma só voz.

“Então eu acordei, estremecido, com uma pequena ferida no meu olho direito. Era aproximadamente quatro horas da madrugada. Por muito tempo, ficou em mim a impressão do que eu acabara de experimentar”.

O mesmo homem viu o Arcebispo Leôncio em sonho, logo antes do quadragésimo dia após seu repouso: “No 37º dia após o repouso do Arcebispo Çeôncio, tive uma visão em sonho. Vi-o em paramentos eclesiásticos e um indivíduo mitrado liderando o ritual solene na igreja. Quando me viu, imediatamente se levantou para me cumprimentar. Ele me abraçou e me beijou, dizendo: ‘Como estou feliz em te ver, irmão Basílio. Estou muito bem agora. Não sinto dor, e aqui sou muito feliz. Em poucos dias, receberei novos aposentos com todos os confortos, como dizem na terra; isso já me foi prometido’.

“Um mês depois, vi outro sonho, indicando-me que a ele foi concedido uma morada celestial. Ouvi belas canções e vi milhões de estrelas cintilantes, e eu já estava num barco que me levava à margem onde ele estava. Isto é o que Deus preparou para seus fiéis servos das catacumbas, e mais tarde à nossa Igreja no Exterior”. (Orthodox Life, 1971, Dezembro, pág 18-20).

Pelas orações do justo Arcebispo Leôncio, confessor da Ortodoxia do coração, que nosso Senhor tenha piedade de todos nós. Amém.

4 de dezembro de 2007

Fé e ciência I: A ciência tem de ser materialista?

Creio que as grandes questões culturais e filosóficas de nosso tempo devam ser analisadas e entendidas a partir de uma mentalidade devidamente fundada na Tradição e na autoridade mística e dogmática dos Santos Padres. O podcast de Clark Carlton procura fazer exatamente isso, especialmente na série Faith and Science, já citada anteriormente, e cujas transcrições o autor gentilmente me encaminhou e que passo a publicá-las aqui.

Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra (Isaías 1:18-19).

Olá. Bem-vindos de volta ao programa Faith and Philosophy [Fé e Filosofia]. O assunto de hoje é Fé e Ciência.

Gostaria de novamente tocar num assunto do qual falei no começo deste ano, numa série sobre Ortodoxia e a cultura moderna. Já que a relação entre fé e ciência é um assunto sempre conflituoso neste país, achei que fosse uma boa idéia tentar dar meus pitacos a respeito.

Hoje, pretendo me focar especificamente na definição e no escopo da ciência, e, em particular, na sua relação com a doutrina filosófica do materialismo, que afirma que a matéria (acho que tenho que emendar essa fórmula um pouquinho, dizendo: matéria mais energia) é a única realidade.

Estou levantando essa questão porque uma das críticas mais comuns que os evangélicos fazem contra a ciência moderna é que ela é materialista. Isso parece ser algo ruim. Seria preciso uma abordagem científica que não estivesse comprometida com o materialismo. Uma que estivesse aberta a coisas como design e criação inteligentes.

Todavia, tais críticas, que encontramos nas obras de Philip Johnson, entre outros, tendem a fazer vista grossa a uma distinção crucial. Há uma diferença enorme entre materialismo enquanto pressuposição metodológica e materialismo enquanto pressuposição metafísica.

O que quero dizer é o seguinte: A ciência estuda o mundo material. Seu método básico é o da observação empírica. A razão e a matemática são invocadas para que tais observações façam sentido, mas isso não muda o fato de que a fundação de toda a ciência moderna é a observação. A ciência lida exclusivamente com o que pode ser experimentado e/ou medido.

Portanto, a ciência é metodologicamente materialista, pois lida exclusivamente com o mundo material. Quando um fato ou evento material é observado, os cientistas tentam encontrar uma causa para ele. É isso o que os cientistas fazem. Por isso, “ciência criacionista” é algo que não faz sentido. A ciência não tem como avaliar a afirmação de que algo na natureza (ou a natureza em si) foi causado por algo fora da natureza.

Nem mesmo a ciência do “design inteligente” faz sentido. Tudo bem, admito que certos aspectos do design inteligente tenham implicações filosóficas: por exemplo, o conceito de Michael Behe da complexidade irredutível. Contudo, mesmo isso não é ciência, pois se trata de uma crítica filosófica ao método científico em si. Ele diz que há certas coisas em nosso mundo que a seleção natural não é capaz de explicar. A propósito, eu concordo com essa idéia. Mas ela não fornece um modelo alternativo porque um Designer inteligente não é algo testável.

Mas e se não houver nenhuma resposta materialista a determinado problema? E daí? Bem, é neste ponto que a ciência pára de atuar. Pois a ciência é metodologicamente materialista e, portanto, por definição, limitada ao universo material. A ciência pode perguntar “Como?” no sentido de quais circunstância e ações materiais provocaram este evento em particular, mas ela não consegue perguntar “Por quê?”, filosoficamente falando.

Mas nós sabemos muito bem que os cientistas raramente se contentam com esse horizonte limitado. Para muitos, a ciência deve perguntar “Por quê?”. Porém, é neste ponto que cruzamos a fronteira da ciência genuína e entramos no cientificismo, e a demarcação entre uma coisa e outra é exatamente a adoção, por parte do cientificismo, do materialismo enquanto pressuposição metafísica.

Gente como Carl Sagan e Richard Dawkins podem ser considerados como expoentes desse tipo de raciocínio. Toda sua abordagem científica é marcada pela suposição metafísica de que o mundo material é tudo o que existe ou pode existir. Assim, a teoria da seleção natural, por exemplo, não apenas descreveria o processo mecânico pelo qual os organismos mudam e evoluem, mas é também a chave para entender o sentido de toda a existência biológica.

Ora, não há absolutamente nada científico nesse tipo de suposição. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein ensinava que se você desenhasse uma linha e dissesse “A realidade termina aqui”, você estaria fazendo uma afirmação metafísica, mesmo que dissesse que do outro lado dela não houvesse nada.

A ciência, enquanto ciência, deve ser agnóstica nessas questões porque estão além do seu escopo.

Deixe-me ilustrar isso melhor, citando Tomás de Aquino. Muitos aprenderam na faculdade as “Cinco Provas” de Tomás de Aquino para a existência de Deus. A essência de seu argumento é algo que mais tarde foi chamado de argumento cosmológico para a existência de Deus. Embora associemos este argumento com Tomás de Aquino, o grosso veio integralmente de Aristóteles.

Vou dar aqui uma versão “Reader´s Digest” da coisa. Sabemos que um corpo em repouso permanecerá em repouso até que uma força externa atue sobre ele. Portanto, se um objeto físico for movido, ele teve que ser movido por outro objeto ou força física. Pense num dominó, por exemplo. Se esse dominó cair, deve ter havido uma razão ou causa para isso. Uma rajada de vento, isto é, ar em movimento, deve ter atingido o dominó, ou um objeto caiu sobre ele (outro dominó, talvez). Mas o ponto é: o que quer que tenha movido o dominó também estava se movendo pois, do contrário, não teria movido o dominó.

Digamos que o dominó A tenha caído, ocasionando a queda subseqüente do dominó B. Mas eis a questão: O que fez o dominó A cair? Teoricamente, poderíamos prosseguir com essas perguntas para sempre, mas Aristóteles diz que não. Ele ensinava que o movimento teve que ter um início, para além do qual não poderíamos prosseguir. Mas o Primeiro Motor tinha que ter uma característica bastante particular. O Primeiro Motor não poderia ser movido, senão teríamos de perguntar o que o moveu. Portanto, o Primeiro Motor é um Motor Imóvel, e isto, Tomás de Aquino acrescenta, meio afoito para meu gosto, todo mundo sabe que é Deus.

O maior problema nessa história é que nem todo mundo concorda com Aristóteles, ou seja, nem todo mundo concorda que uma regressão infinita é impossível. Muitos cosmólogos modernos propõem um universo infinito, e isso não lhes dá nem um pouco de insônia.

Porém, este argumento nos ajudará a esclarecer o tópico aqui em discussão. A maioria das pessoas despreza o fato de que no contexto da disputa na qual as Cinco Provas se inserem o argumento cosmológico desempenha um papel importante. Tomás de Aquino está lidando com a objeção de que a existência de Deus seria desnecessária porque poderíamos explicar o mundo sem Deus. Se pensarmos a respeito, veremos que é exatamente o que muitos ateístas modernos e devotos do cientificismo dizem.

Ora, o ponto crucial do argumento de Tomás de Aquino é demonstrar que nenhum sistema é auto-explicativo. As leis da física explicam os movimentos no interior do cosmos, mas elas não podem explicar a existência do próprio cosmos. Em outras palavras, este argumento levanta a seguinte questão: Por que há algo ao invés do nada? O ponto crucial deste argumento é mostrar que a questão não pode ser respondida de dentro do próprio sistema.

Assim, chegamos a uma dicotomia cabal. Ou o mundo teve um Início, que situa-se fora do mundo e é completamente distinto de qualquer coisa do Cosmos (um Motor que move sem ser movido), ou o cosmos de uma forma ou de outra sempre existiu e sempre existe.

Se a primeira hipótese for a verdadeira, então temos de buscar um sentido para nossa existência fora da ciência; conforme notara Wittgenstein, se houver algum sentido no mundo, ele tem de estar fora do mundo. Por outro lado, se o mundo não teve começo então não pode ter sentido também. É simplesmente assim. A pergunta “Por quê?” seria não apenas irrelevante, mas sem sentido. Ela não pode nem mesmo ser perguntada.

Portanto, voltamos aonde começamos. A ciência pode responder à pergunta “Como?”. Como os furacões se formam? Como os organismos se adaptam ao meio-ambiente? etc. Mas a ciência não pode perguntar, muito menos responder, questões como: Por que há algo ao invés do nada? Qual o sentido da vida humana?

Mas sinto que estou indo longe demais, então vou continuar esse assunto na próxima semana, quando abordarei a questão da evolução.

E que nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que criou o universo sem a ajuda de cientistas ou pseudo-teólogos, pelas intercessões de Santo Inocêncio do Alaska e do abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e conceda-nos uma entrada rica em Seu reino eterno.

Meu nome é Clark Carlton, falando para a Ancient Faith Radio.

3 de dezembro de 2007

O que os Santos Padres ensinam sobre as doenças

por Pe. Ambrósio (Alexey) Young

Este é o terceiro e último livreto da série "O que os Santos Padres ensinam sobre...", de autoria do Pe. Alexey Young, atual Hieromonge Ambrósio. Considerado pele seu pai espiritual, o Pe. Serafim Rose, como o melhor livreto da série, Pe. Ambrósio acompanhou de perto a trajetória do Mosteiro de São Germano do Alaska e seus monges. Ele é um convertido do catolicismo romano, tendo abraçado a fé cristã ortodoxa por influência dos monges desse mosteiro.

Introdução

Todas as pessoas, sejam cristãs ou não, sabem que cedo ou tarde serão acometidas por doenças e desconfortos físicos. A dor física é algo universal; ninguém escapa dela. Portanto, o que importa mesmo é nosso entendimento sobre as doenças, e não o sofrimento ou a intensidade delas. O entendimento é tudo.

Se acharmos que nossa vida deva ser encarada como se fossem longas e confortáveis “férias”, então qualquer sofrimento que surja nos parecerá insuportável. Mas, se enxergássmoes a vida como um tempo de aflição, correção e purificação, então o sofrimento se tornaria não apenas suportável, mas até mesmo útil.

Eis o que Santo Ambrósio de Milão ensina sobre a postura cristã diante das enfermidades: “Se a ocasião exigir, o homem sábio aceitará prontamente as enfermidades do corpo e até mesmo o oferecerá à morte, por amor a Cristo.... Este homem não é afetado em espírito nem sucumbe às dores do corpo caso sua saúde titubeie. Ele é consolado por sua batalha nas virtudes, rumo à perfeição” (Obras Exegéticas). Ao ouvir isto, o homem mundano provavelmente exclamará: “O quê?! Como pode um homem ‘aceitar prontamente’ as doenças e as enfermidades?”

Para um infiel, trata-se de algo realmente incompreensível. Ele é incapaz de conciliar o fato do sofrimento humano com seu próprio conceito de Deus. Para ele, a própria noção de que Deus permite a dor é repugnante; em geral, ele encara qualquer tipo de sofrimento como se fosse um mal no sentido absoluto.

Sem o auxílio da Revelação Divina, o homem é incapaz de compreender a origem e a causa da dor, muito menos seu propósito. Muitas pessoas, sem o devido auxílio do correto entendimento, são atormentadas pelo medo da dor, amedrontadas pelo pensamento de uma doença prolongada, e rapidamente saem em busca de alívio médico, pois crêem que a doença é fruto do acaso.

Se as enfermidades são apenas fruto do “azar” (o que até o bom senso afirma não ser assim, já que muitas doenças são resultado de uma vida imoderada), então é de fato permissível, e até mesmo desejável, utilizar de todos os meios disponíveis para evitar a dor proveniente da doença e mesmo a doença em si. Ademais, quando uma deonça se torna irreversível e terminal, a sabedoria mundana ensina que é aceitável acabar com a vida do paciente – a chamada eutanásia, ou “morte misericordiosa” – já que, segundo este ponto de vista, o sofrimento no leito de morte é inútil e cruel, e, portanto, “mau”.

Porém, mesmo em nosso dia-a-dia, sabemos que o sofrimento não é um “mal absoluto”. Por exemplo, quando nos submetemos ao bisturi do cirurgião para que uma parte enferma do corpo seja extirpada. A dor da operação é enorme, mas sabemos que ela é necessária para preservar a saúde e até mesmo a vida. Portanto, até sob um ponto de vsita estritamente materialístico, a dor pode servir a um bem maior.

Outra razão para que o sofrimento humano seja um mistério aos infiéis é o fato de que sua própria “idéia” de Deus é falsa. Eles ficam chocados quando lêem os Santos Padres dizerem: “Se Deus nos envia a fome, ou uma guerra, ou quaisquer calamidades, Ele o faz por causa de Seu imenso cuidado e bondade” (São João Crisóstomo, Homilia 7, Das Estátuas).

Eis o que o Ancião Macário de Optina escreveu a um amigo, na Rússia do século XIX: “Minha saúde está frágil como a tua, e não consigo deixar de sentir empatia por teu infortúnio. Mas a benevolente Providência não é apenas mais sábia do que nós: Ela também é sábia de uma maneira diferente. É este pensamento que nos dá sustento em todas as nossas provações, pois é um pensamento consolador como nenhum outro.”

Sábia de uma maneira diferente... É aqui que começamos a pereceber que o entendimento patrístico de Deus é contrário ao ponto de vista mundano. Na verdade, ele é único: não é especulativo, intelectual ou “acadêmico”. Conforme escreveu São Teófano, o Recluso: “O Cristianismo não é um sistema de doutrinas, mas sim uma via de restauração para o homem caído”. Portanto, o critério da fé – o conhecimento verdadeiro de Deus – não é intelectual. A medida da verdade, conforme escreveu o Professor Andreyev, “é a própria vida... Cristo falou a respeito disso de maneira clara, simples e definitiva: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14:6). Isto é, Eu sou o Caminho para se perceber a Verdade; Eu mesmo sou a Verdade encarnada (tudo o que digo é verdadeiro)... e Eu sou a Vida (sem Mim não pode haver vida)” (Apologética Cristã Ortodoxa). Isto tudo está muito longe da sabedoria deste mundo.

Podemos acreditar ou não nas palavras de Cristo a respeito de Si mesmo. Se acreditarmos, e agirmos segundo nossa fé, então poderemos começar a subir a escada do conhecimento vivo, de uma maneira como nenhum livro ou filósofo é capaz de ensinar: Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? (I Coríntios 1:20).

Uma das dificuldades de se compilar um manual dos ensinamentos patrísticos sobre as doenças é que elas não podem ser separadas da questão da dor (por exemplo: a dor e o sofrimento psicológico que resultam de guerras, fomes etc.). Alguns trechos do que dizem os Santos Padres a respeito das doenças também servem de alicerce para o ensinamento a respeito das adversidades, que será o assunto do quarto livro nesta série.

Outra dificuldade é que os Santos Padres às vezes utilizam palavras como “pecado,” “castigo” e “recompensa” sem se limitarem ao significado que nossa sociedade moderna lhes dá. Por exemplo, “pecado” é uma transgressão da Lei Divina. Mas, segundo o pensamento patrístico, também é algo mais do que isso: é um ato de “traição”, de infidelidade ao amor de Deus pelo homem e uma “violação arbitrária da união sagrada [do homem] com Deus” (Andreyev, Ibid.). O pecado não é algo que devemos entender dentro de um quadro estritamente legalista de “crime e castigo”; a infidelidade do homem é uma condição universal, não limitada a apenas esta ou aquela transgressão. Ele está sempre conosco, porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Romanos 3:23).

O relacionamento de Deus com o homem não está limitado às nossas idéias legalistas de recompensa e castigo. A salvação, que é o principal objetivo da vida cristã, não é uma “recompensa”, mas um dom dado livremente por Deus. Não podemos “adquiri-la” ou “merecê-la” por nada que façamos, não importa o quanto acharmos que somos piedosos ou modestos.

No dia-a-dia, é natural acreditamos que as boas ações devam ser recompensadas e os crimes punidos. Mas nosso Deus não “pune” com base nos padrões humanos. Ele nos corrige e castiga, da mesma maneira que um pai que ama seus filhos os corrige, ou seja, para lhes mostrar o caminho certo. Mas isso não é o mesmo que ser “condenado” a uma “pena” de dor e sofrimento por causa de algum crime cometido. Nosso Deus não é vingativo; Ele é a todo momento perfeitamente cheio de amor por nós, e Sua justiça nada tem a ver com os padrões de justiça humanos.

Ele sabe que não podemos nos aproximar dEle sem pureza de coração, e Ele também sabe que não podemos adquirir esta pureza a menos que estejamos livres de todas as coisas: livres do apego ao dinheiro e à propriedade, livres das paixões e do pecado, e até mesmo desapegados da súde corporal, se for este o obstáculo entre nós e uma verdadeira liberdade diante de Deus. Ele nos instrui, tanto através da Revelação quanto da correção, mostrando-nos como podemos adquirir esta liberdade, pois conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (João 8:32). Como ensina São João Cassiano:

Deus “te guia por um degrau ainda mais elevado, em direção àquele amor que é livre do medo. É através disto que tu começas a praticar naturalmente e sem esforço todas aquelas coisas que originalmente tu praticaras por temor a Deus e ao castigo, mas agora tu não mais as praticas por medo do castigo, mas por amor à própria Bondade, e ao deleite na virtude” (Institutos).

Tendo em mente este significado espiritual mais profundo de “pecado” e “castigo,” podemos continuar nosso estudo a respeito dos discursos divinamente sábios dos Santos Padres relativos às enfermidades, agradecendo a Deus, pois “nossa Fé foi feita segura por Santos sábios e inteligentes” (São Cosmas Aitolas), e “em verdade, conhecer a si mesmo é a coisa mais difícil de todas”, conforme ensinou São Basílio, o Grande. Os Santos Padres indicam o caminho. Suas vidas e escritos agem como um espelho através do qual podemos nos medir, oprimidos que estamos pelas paixões e enfermidades. As doenças são um dos meios pelos quais podemos aprender o que nós realmente somos.

I. A origem e a causa da dor

Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora.

Romanos 8:22



“O caminho da salvação que leva à vida eterna é estreito e apertado (Mateus 7:14). Ele é indicado tanto pelo exemplo santo de nosso Senhor como por Seu santo ensinamento. O Senhor profetizou a Seus discípulos e seguidores que no mundo, isto é, durante sua vida terrena, eles teriam tribulações (João 16:33; 15:18; 16:2-3).... Está claro que aflições e sofrimentos são lançados pelo próprio Senhor a Seus verdadeiros escravos e servos durante sua vida na terra” (Bispo Ignácio Brianchaninov, A Arena).

Mas por quê? Por que “aflições e sofrimentos”, juntamente com as doenças, são “lançados” a nós? O ensinamento dos Santos Padres mostra como o sofrimento deve ser compreendido no contexto do primeiro homem criado e sua subsequente queda em pecado.

No início não havia dor, nem sofrimento, nem enfermidades ou morte. O homem era “alheio ao pecado, às aflições, às preocupações e às grandes necessidades” (São Simeão, o Novo Teólogo, Homilia 45).

Se Adão e Eva não tivessem transgredido, “eles com o tempo teriam ascendido a mais perfeita glória e, devidamente mudados, teriam se aproximado de Deus...e da alegria e do júbilo com os quais, então, seríamos preenchidos através da irmandade um com o outro que, em verdade, seriam inefáveis e além do pensamento humano” (Ibid.). Portanto, não haveria sofrimento, não haveria doenças, e, consequentemente, não haveria necessidade de medicina.

“Mas quando o homem foi enganado e seduzido pelo perverso demônio...Deus veio ao homem como um médico vai a um homem doente” (São João Crisóstomo, Homilia 7, Das Estátuas). Deus desceu ao Éden à tardinha e perguntou a Adão, onde estás? (Gen. 3:9). Sua primeira manifestação ao homem após o pecado da desobediência não foi como a de um Juiz vingativo, “pois Deus, quando encontra um pecador, não pensa em fazê-lo pagar a pena, mas sim como corrigi-lo e melhorá-lo” (São João Crisóstomo, Ibid.).

O homem, a criatura, havia sucumbido à tentação de ser como Deus, o Criador – algo que vai de encotro a toda razão ou possibilidade. Este primeiro pecado não trouxe consigo a “divindade”, mas sim a dor, a doença e a morte – e não foi algo “por acaso”, mas sim por uma razão corretiva específica: para que o homem saiba, de uma vez por todas, que ele não é “como Deus”.

Portanto, o Médico Celestial “fez o corpo [do homem] sujeito a muitos sofrimentos e doenças, para que o homem pudesse aprender com sua própria natureza que ele não deve nunca mais pensar” que pode ser como Deus (São João Crisóstomo, Homilia 11, Das Estátuas). Deus disse a Eva: em dor darás à luz filhos (Gênesis 3:16); e a Adão: maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra (Gênesis 3:17,19).

É extremamente importante entender isto logo de início, pois se não compreendermos esta verdade a respeito da natureza do homem caído então nada mais do que os Santos Padres ensinam sobre este assunto fará sentido. Pelo contrário, “se pudermos entender isto, seremos capazes de aprender a respeito de nós mesmos e seremos capazes de conhecer a Deus e adorá-Lo como Criador” (São Basílio, o Grande, Hexaemeron). “O pecado gera o mal, e o mal gera o sofrimento”, escreveu o Professor Andreyev; “no entato, este mesmo sofrimento, que teve sua origem com Adão e Eva, é uma bênção para todos nós, pois nos obriga a compreendermos como nossa falta de fé em Deus é danosa para nossas almas, e até mesmo para nossos corpos” (Apologética Cristã Ortodoxa).

II. O Propósito das Enfermidades


E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.

Romanos 8:17


Nosso Salvador e os Santos Padres ensinam que a única procupação nesta vida deveria ser a salvação de nossas almas. O Bispo Ignácio ensinou: “A vida terrena – este breve período – é dado ao homem pela misericórdia do Criador para que o homem o utilize para sua salvação, isto é, para que se restaure da morte para a vida.” (A Arena). Portanto, devemos “olhar todas as coisas deste mundo como uma sombra passageira, e não nos apegarmos de coração a nada...pois não nos atentemos às coisas que se vêem, mas sim às que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, enquanto as que se não vêem são eternas” (São João de Kronstadt, Conselhos Espirituais). Para nós, cristãos ortodoxos, o centro das nossas vidas não é aqui, mas lá, no mundo eterno.

Quanto tempo viveremos, qual doença ou enfermidade precederá nossa morte – tais coisas não são preocupações adequadas a cristãos ortodoxos. Embora cantemos “muitos anos” uns aos outros nos nossos onomásticos e em outras celebrações, fazemos isso apenas porque a Igreja, em sua sabedoria, sabe que de fato precisamos de “muitos anos” para que nos arrependamos de nossos pecados e nos convertamos, e não porque ter uma vida longa tem algum valor em si. Deus não está interessado em nossa idade quando nos apresentarmos em Seu Julgamento, mas sim se nos arrependemos. Ele não está preocupado se morremos de ataque cardíaco ou de câncer, mas sim se nossa alma está saudável.

Portanto, “não devemos temer nenhum mal humano salvo o pecado; nem a pobreza, nem as doenças, nem os insultos, nem as malícias, nem a morte” (São João Crisóstomo, Das Estátuas), pois estes “males” são apenas palavras; eles não são reais para aqueles que vivem em função do Reino dos Céus. A única e verdadeira “calamidade” desta vida é ofender a Deus. Se tivermos esta compreensão básica do sentido da vida, então o significado espiritual das enfermidades físicas poderá se abrir para nós.

No capítulo anterior, aprendemos como o Deus Onisciente permitiu que o sofrimento entrasse no mundo de modo a nos mostrar que não passamos de criaturas. Esta é uma lição que ainda não foi aprendida pela raça de Adão, que, no seu orgulho, sempre busca ser como “deuses”: pois cada pecado é uma renovação do pecado dos primeiros homens, um afastamento voluntário de Deus para si próprio. Em verdade, nós nos colocamos no lugar de Deus, adorando a nós mesmo ao invés do Criador. Portanto, o sofrimento das doenças e enfermidades serve o mesmo propósito que tinha no começo: é, pois, um sinal da misericórdia e do amor de Deus. Como dizem os Santos Padres àqueles que estão enfermos: “Deus não vos esqueceu; Ele cuida de vós” (Santos Barsanúfio e João, Philokalia).

Ainda assim, é difícil aceitarmos que a doença possa ser um sinal do cuidado de Deus para conosco – isto é, a menos que compreendamos a relação que existe entre corpo e alma. O Ancião Ambrósio de Optina falou a respeito disso em uma carta à mãe de uma criança muito doente:

“Não devemos nos esquecer que em nossa era ‘sofisticada’, até mesmo as crianças pequenas são machucadas espiritualmente pelo que vêem e escutam. Por causa disso, a purificação é necessária, e isto apenas é realizado através do sofrimento físico... Você deve entender que a bem-aventurança do Paraíso não é concedida a ninguém sem sofrimento”.

São Nicodemos da Santa Montanha explicou que o homem é um ser dual, feito de corpo e alma, e que “há uma interação entre o corpo e a alma” (Conselhos), cada um agindo sobre o outro e, de fato, se comunicando um com o outro. “Quando a alma está enferma, nós geralmente não sentimos dor”, diz São João Crisóstomo. “Mas se o corpo sofre apenas um pouco, nós nos esforçamos ao máximo para nos livrarmos da enfermidade e sua dor. Portanto, Deus castiga o corpo em função dos pecados da alma, de modo que, castigando o corpo, a alma também possa receber alguma cura.... Cristo fez isto com o Paralítico quando disse: Eis que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior. O que aprendemos disto? Que a enfermidade do Paralítico havia sido produzida por seus pecados” (Homilia 38, Do Evangelho de São João).

Em certa ocasião uma mulher foi levada a São Serafim de Sarov. Ela estava terrivelmente debilitada, e não conseguia andar pois seus joelhos estavam dobrados até o seu peito. “Ela disse ao Ancião que havia nascido na Igreja Ortodoxa, mas após se casar com um dissidente, abandonara a Ortodoxia, e por sua infidelidade Deus a havia punido repentinamente... Ela não conseguia mover as mãos ou os pés. São Serafim perguntou à mulher enferma se agora ela acreditava em sua Mãe, nossa Santa Igreja Ortodoxa. Ao ouvir a resposta afirmativa, ele a mandou que fizesse o sinal da Cruz da maneira correta. Ela disse que não conseguia sequer levantar a mão. Mas quando o Santo orou e ungiu suas mãos e seu peito com óleo de uma lamparina de ícone, sua enfermidade imediatamente a deixou”. Eis que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior!

Este elo entre corpo e alma, pecado e enfermidade, é evidente: a dor nos diz que há algo de errado com a alma, que não apenas o corpo está enfermo, mas a alma também está. E é precisamente desta maneira que a alma comunica suas dores ao corpo, despertando o homem ao autoconhecimento e ao desejo de voltar-se a Deus. Lemos isto muitas e muitas vezes nas vidas dos santos, pois a enfermidade também nos ensina que o nosso “eu verdadeiro, aquilo que é principalmente o homem, não é o corpo visível, mas sim a alma invisível, o ‘homem interior’” (São Nicodemos da Santa Montanha, Moralidade Cristã).

Mas será que isto significa que o homem que continuamente goza de boa saúde está espiritualmente em “boa forma”? De modo algum, pois o sofrimento assume muitas formas, quer seja no corpo, na mente ou na alma. Quantas pessoas que possuem uma saúde excelente não lamentam que a vida “não vale a pena”? São João Crisóstomo descreve este tipo de sofrimento:

“Algumas pessoas pensam que gozar de boa saúde é uma fonte de prazer. Mas não é bem assim. Pois muitos que possuem boa saúde já desejaram mil vezes estarem mortos, não sendo capazes de suportar os insultos que lhes são infligidos... Pois mesmo que nos tornássemos reis e vivêssemos majestosamente, nos encontraríamos cercados por muitos problemas e tristezas... Por necessidade, os reis possuem tantas tristezas quanto há ondas no oceano. Portanto, se a realeza é incapaz de deixar a vida livre de tristezas, o que mais neste mundo poderia realizar isto? De fato, nada nesta vida” (Homilia 18, Das Estátuas).

Os protestantes frequentemente “determinam” saúde em “Nome de Jesus”. Eles consideram que saúde é algo do qual o cristão tem direito. Do seu ponto de vista, a enfermidade é resultado de falta de fé. Isto é exatamente o oposto do ensinamento ortodoxo, conforme ilustrado na vida de Jó no Velho Testamento. São João Crisóstomo diz que os santos servem a Deus não porque esperam receber qualquer tipo de recompensa, seja espiritual ou material, mas simplesmente porque amam Deus: “pois os santos sabem que a maior recompensa de todas é poder amar e servir a Deus.” Portanto, “Deus, desejando mostrar que não era por causa de alguma recompensa que Seus santos Lhe serviam, tirou de Jó toda sua riqueza, lançando-o à pobreza, e permitiu que lhe sobrecaíssem terríveis enfermidades”. E Jó, que não estava vivendo por nenhuma recompensa nesta vida, ainda assim permaneceu fiel a Deus (Homilia I, Das Estátuas).

Assim como as pessoas saudáveis não estão sem pecado, Deus também permite algumas vezes que os verdadeiros justos sofram, “enquanto modelo aos fracos” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores). Pois, como ensina São João Cassiano, “um homem é melhor instruído e formado por meio do exemplo alheio” (Institutos).

É o que constatamos no caso bíblico de Lázaro. “Embora sofresse de dolorosas feridas, ele nunca resmungou contra o Homem Rico nem nunca lhe pediu coisa alguma....Como resultado disto, ele encontrou repouso no Seio de Abraão, como alguém que aceitou humildemente os infortúnios da vida” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores).

Os Padres da Igreja também ensinam que a enfermidade é uma maneira pela qual os cristãos podem imitar o sofrimento dos mártires. Assim, nas vidas de muitos santos, sofrimentos físicos intensos lhes sobrevinham no fim de suas vidas para que, por seu justo sofrimento, eles pudessem atingir o martírio físico. Um bom exemplo disto pode ser encontrado na vida do grande defensor da Ortodoxia, São Marcos de Éfeso:

“Ele estava doente há quatorze dias, e a doença, como ele mesmo dissera, tinha sobre ele o mesmo efeito que aqueles instrumentos de tortura de ferro aplicados pelos carrascos aos santos mártires, como se rodeassem suas costelas e órgãos internos, pressionando-os e causando-lhe uma dor absolutamente insuportável; de modo que aquilo que os homens não conseguiram fazer com seu santo corpo de mártir acabou sendo realizado pela enfermidade, segundo o inefável juízo da Providência, de modo que este Confessor da Verdade e Mártir e Consquistador de todos os sofrimentos possíveis e Vencedor aparecesse diante de Deus após passar por todo tipo de sofrimento, e isto até seu último suspiro, como ouro provado na fornalha, e de modo que graças a isto ele possa receber honras e recompensas eternas ainda maiores do Justo Juiz” (The Orthodox Word, vol. 3, nº 3).

III. As Enfermidades e a Oração


Tu, que crês quando estás bem, cuidado para que não te afastes de Deus no tempo dos infortúnios.
São João de Kronstadt



Nosso Salvador nos ensinou: Pedí, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede, recebe (Mat. 7:7-8).

Portanto, quando estivermos doentes, devemos orar pedindo entendimento sobre nossa enfermidade, paciência para suportá-la e, se for a vontade de Deus, para sermos livres dela. Devemos também pedir as orações de outras pessoas e especialmente da Igreja, pois a súplica de um justo pode muito na sua atuação (Tiago 5:16).

“Qualquer pessoa que estiver doente deve pedir a oração de outras pessoas, para que sua saúde lhe seja restaurada; para que, através da intercessão de outros, nossos debilitados corpos e nossas titubeantes obras recuperem sua saúde.... Aprende, tu que estás enfermo, a adquirir a saúde através da oração. Busca as orações dos outros, roga à Igreja que ore por ti e Deus, por Sua consideração pela Igreja, dará aquilo que talvez Ele recusasse a ti” (Santo Ambrósio, Da Cura do Paralítico).

A maior oração pública da Igreja para aqueles que se encontram doentes é o Ofício da Santa Unção. Esse ofício, particularmente longo e repleto de trechos das Escrituras, e que contém diversas alusões a figuras bíblicas curadas pelo poder de Deus, fornece, de maneira concentrada, o ensinamento da Igreja sobre a cura.

Esse ofício chama a Cristo de “Médico e Ajudante do sofrimento”, invocando sobre a pessoa doente, por meio da unção, a graça do Espírito Santo, que cura tanto almas quanto corpos. Dado que Deus “misericordiamente nos deu ordens para desempenharmos a Santa Unção sobre seus servos doentes”, o próprio Cristo é tido como o “crisma incorruptível” que, nos velhos tempos, escolheu o ramo de oliva para mostrar a Noé que o Dilúvio havia terminado. (Desde os tempos antigos, o óleo de oliva era usado para produzir o Santo Óleo). Nos tempos do Dilúvio, o ramo de oliva simbolizava a tranquilidade e a segurança; é por isso que hoje o sacedote reza pedindo que o Salvador, por meio da “tranqüilidade do selo de Tua misericórdia [a unção com o óleo]”, cure o sofredor.

Reconhecendo que as doenças podem advir da atividade de poderes demoníacos, o sacerdote pede: “Que nenhuma interposição dos malignos demônios toque nos sentidos daquele que está marcado pela Tua divina unção”. Mostrando também que a Igreja admite a conexão entre pecado e sofrimento, o sacerdote roga para que, por meio dessa unção, o “sofrimento daquele que está sendo atormentado pela violência das paixões” possa ser eliminado.

Tal ofício explora diversos aspectos do pecado, do sofrimento e da cura; trata-se de um ofício profundo e muito exaltado de oração e intercessão. Há um ponto muito importante a ser ressaltado: durante a Santa Unção, imploramos a Deus para que remova a doença – mas, no lugar dela, pedimos que Ele dê “a alegria da satisfação” (ungir-se a si mesmo é chamado nos Salmos de óleo da satisfação), de maneira que a pessoa anteriormente doente possa agora “glorificar Teu divino poder”. Portanto, um dos propósitos da cura é permitir que o sofredor retorne ao serviço saudável e ativo a Deus. É dessa maneira que nosso Salvador curou a sogra de Pedro: imediatamente após a febre ter cessado, ela levantou-se e ministrou sobre eles. Trata-se de algo muito importante: quando nos livramos das tormentas das dores físicas, Deus espera que enchamos nossas bocas de louvor a Ele, que sirvamos a Ele corrigindo nossos pecados, que vivamos somente por Ele e pelo século porvir e que desprezemos este mundo.

Muitas pessoas só descobrem a oração quando estão doentes. E muitos participam piedosamente nas orações públicas da Igreja mas só descobrem, quando estão doentes, que desprezaram os tesouros da oração privada ou interior. São Gregório Nazianzo, um homem que rezava intensamente mesmo quando estava bem de saúde, durante sua última doença exclamou: “O tempo é ligeiro, a batalha é grande, e minha doença é severa, reduzindo-me quase à paralisia. O que mais me resta senão rezar a Deus?” (Cartas).

Na doença, a oração é capaz de reveler autênticos e duradouros tesouros, “pois se tu tens vigor corporal, a usurpação que a doença provoca interrompe qualquer alegria que possas ter desta fonte...porque tudo o que pertence a este mundo está sujeito à danação e é incapaz de nos dar prazer duradouro. Mas a piedade a as virtudes da alma são exatamente o contrário, pois sua alegria dura para sempre...Se tu verteres contínuas e fervorosas orações, nenhum homem será capaz de despojá-lo de seus frutos, pois tais frutos estão enraizados nos céus e protegidos de toda destruição porque estão além do alcance mortal” (São João Crisóstomo, Das Estátuas).

Dois acontecimentos das vidas dos santos mostram como a oração pode ser simples mas incorruptível. Na vida do Ancião Partênio, ficamos sabendo que, durante sua doença terminal, mesmo depois de ter recebido a Santa Unção, ele continuou a cumprir sua regra de orações, rezando todos os Salmos diariamente. No dia anterior a seu repouso, eis o que ele disse a seus filhos espirituais:

“Logo, logo partirei. Ontem eu já não consegui completar meus Salmos – só metade deles”.

“Quer dizer, Padre, que até ontem tu cumprias todas as orações como de costume?”

“Sim, o Senhor me ajudou; além disso, eu as rezo de memória; eu não consigo rezá-las com meus lábios; não consigo respirar; mas ontem eu não consigui rezá-las nem de memória, pois ela está falhando. Eu me apego apenas à Oração de Jesus e às orações à Mãe de Deus” (Orthodox Life, nº3, 1969).

E na vida de Santo Abba Dorotheus, lemos sobre a morte tocante de seu discípulo, São Dositheus, que permaneceu no mosteiro por apenas cinco anos, mas “morreu em obediência, jamais fazendo sua própria vontade e por apego”. Ele sempre praticava a Oração de Jesus, e quando sua doença tornou-se severa, Santo Abba Dorotheus disse-lhe:

“Dositheus, preste atenção à Oração; não deixe que se prive dela”.

“Muito bem, Padre”, respondeu o monge, “apenas reze por mim”.

Quando ele piorou ainda mais, Santo Abba Dorotheus disse-lhe:

“Bem, Dositheus, como está a Oração? Continua como antes?”

Ele respondeu-lhe: “Sim, Padre, pelas suas orações”.

Porém, quando a situação tornou-se extremamente difícil para ele e a doença ficou tão severa que teve de ser carregado numa maca, Santo Abba perguntou-lhe:

“Como está a Oração, Dositheus?”

Ele respondeu: “Perdoa-me, Padre, não consigo continuá-la”. Então, Santo Abba disse-lhe:

“Deixe a Oração, mantendo Deus em sua mente e representando-O a si mesmo como se Ele estivesse diante de ti” (The Orthodox Word, vol. 5, nº 3).

Um exemplo glorioso e inspirador a respeito do lugar que a oração deve ocupar em tempos de doença é o relato de São Gregório Nazianzo sobre a doença de seu próprio pai:

“Ele sofreu de doença e dor física, nos tempos da santa e ilustre Páscoa, a Rainha dos Dias, a brilhante noite que disspa as trevas do pecado. Explicarei rapidamente o tipo de doença que ele sofreu: todo seu corpo estava queimando em febre; suas forças lhe deixaram, ele não podia comer, seu sono o abandonara, e ele se encontrava muito perturbado. Sua boca tinha tantas úlceras que era difícil e até mesmo perigoso engolir água. O conhecimento dos médicos e a oração de seus amigos, por mais dedicadas e ardentes que fossem, bem como toda atenção possível, não lhe valeram de nada. Nesse estado desesperador, sua respiração era rápida e breve e ele não tinha percepção das coisas à sua volta.

“O horário da Divina Liturgia estava chegando, e a devida ordem e silêncio estavam sendo mantidos para os ofícios solenes. Neste momento, meu pai foi erguido por Aquele que ressuscita os mortos. Em princípio, ele se moveu lentamente, e depois de maneira mais confiante. Então, com voz débil e indistinta, ele chamou um servo pelo nome para que trouxesse suas roupas e o segurasse pelas mãos. O servo aproximou-se espantado e alegremente o acompanhou, enquanto ele, apoiando-se no servo como se fosse um cajado, imitou Moisés na montanha em oração...

“Ele retirou-se de volta à sua cama e, após comer e dormir um pouco, sua saúde lentamente foi se restaurando, de maneira que na primeira segunda-feira após a Páscoa ele já conseguia entrar na igreja...

“Durante sua doença, em nenhum momento ele estava livre da dor. Seu único alívio foi a Divina Liturgia, na qual sua dor cedeu, como que por decreto” (Da Morte de Seu Pai).

IV. A visão cristã sobre os remédios


Reconhecer-se como merecedor de castigo temporal e eterno precede o conhecimento do Salvador e leva ao conhecimento do Salvador.
Bispo Ignácio Brianchaninov



Quando perguntaram a São Basílio, o Grande, se ir ao médico e tomar remédios eram coisas compatíveis com a piedade, ele respondeu:

“Toda arte é um dom de Deus, feita para preencher aquilo que falta na natureza...Depois que fomos informados [nos tempos da Queda] que retornaríamos à terra de onde viemos – e fomos unidos a uma carne alvo de dor e destinada à morte, sujeita à doença por causa do pecado –, as ciências médicas nos foram dadas por Deus para aliviar a doença, mesmo que apenas um pouco” (As Regras Maiores).

Portanto, podemos recorrer a médicos e tomar remédios, pois essa ciência é um dom de Deus. “Deus nos deu as ervas da terra e suas drogas para a cura do corpo, ordenando que o corpo, que vem da terra, seja curado pelas diversas coisas da terra...Quando o homem caiu do Paraíso, ele imediatamente foi colocado sob a influência das desordens e enfermidados da carne...Deus, portanto, deu os remédios ao mundo para conforto, cura e cuidado do corpo, permitindo seu uso por aqueles que não conseguem confiar completamente em Deus” (São Macário, o Grande, Homilia 48).

Quando ir ao médico, e com qual freqüência, é uma questão de bom senso. Mas quando formos, não devemos “esquecer que ninguém pode ser curado sem Deus. Quem se entregar à arte da cura deve também submeter-se a Deus, e Deus então enviará ajuda. A arte da cura não é um obstáculo à piedade, mas tu deves praticá-la com temor a Deus” (São Barsanúfio e João, Philokalia).

“Depositar nossa esperança nas mãos mortais de um médico é ato digno de um animal irracional. Mas é precisamente assim que se comportam os infelizes que, sem hesitar, chamam seus médicos de ‘salvadores’...Por outro lado, é tolice rejeitar inteiramente os benefícios da arte médica” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores).

O Ancião Nectário de Optina aconselhava que devêssemos ir ao médico não para sermos “curados”, mas apenas para sermos “tratados” – reconhecendo assim que nesta vida jamais seremos perfeitamente “curados” ou “saudáveis”. E ao escrever a um amigo gravemente doente, o Ancião Macário de Optina disse:

“Dê-lhe [ao paciente] meus mais calorosos cumprimentos e desejos de que se recupere prontamente. Diga a ele também que mesmo que sua esperança e sua fé sejam fortes, ele não deve desprezar a ajuda de um médico. Deus é o Criador de todos os homens e de todas as coisas: não apenas do paciente, mas também do médico, da sabedoria do médico, das plantas medicinais e de seu poder curativo”.

São Basílio, o Grande, ensina que “definitivamente não devemos depositar nossas esperança de alívio da dor nos remédios, mas confiar que Deus não permitirá que sejamos provados além do que podemos suportar”. Ele se refere àquelas pessoas que correm ao médico por qualquer pretexto, e que se esquecem desta importante lição: “Façamos ou não uso das artes médicas, devemos nos apegar ao nosso objetivo de agradar a Deus e ajudar a alma, cumprindo este preceito: Quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus (I Coríntios 10:31)”.

Este Santo Padre explica também que “às vezes, quando Deus julga por bem, Ele nos cura em segredo, sem meios visíveis [tais como médicos e drogas]. Outras vezes, Ele quer o uso de remédios para nossas enfermidades”.

Portanto, “quando sofremos o golpe da doença nas mãos de Deus, devemos primeiro pedir a Ele entendimento, de maneira que possamos saber por que Ele nos infligiu tal golpe. Em segundo lugar, devemos pedir que ele nos livre de nossas dores ou, pelo menos, que nos dê paciência para aguentá-las”. De posse dessa postura, podemos de boa consciência buscar tratamento médico.

Porém, àquelas pessoas cuja confiança em Deus é muito forte e profunda, há um chamado maior: suas almas, percebendo seus pecados e o propósito da vida, “suportam todas as aflições que lhes são enviadas em silêncio e, se possível, sem recorrer aos remédios, cumprindo estas palavras: Sofrerei a ira do Senhor, porque pequei contra Ele (Miquéias 7:9)” (São Basílio, o Grande, As Regras Maiores).

Este caminho de total entrega à Providência divina é muito elevado e difícil, e não é algo dado a todos os homens. Mas devemos ao menos conhecê-lo, para que evitemos a auto-satisfação e o “contentamento” com nossas próprias atitudes. É nas vidas dos santos monges que aprendemos tal caminho de abnegação e suprema confiança na vontade de Deus. O seguinte episódio da vida do Ancião Macário do Eremitério do Mar Branco demonstra como esse monge justo desdenhou a medicina terrena em favor da medicina celestial:

Após vinte e oito anos de severas batalhas monásticas, a incansável força desse monge e pai espiritual começou a fraquejar. No final de 1839, já tendo experimentado ataques de intensas doenças, ele não reclamava nem procurava auxílio médico. Quando seus dentes doíam muito, Ancião Macário tinha o costume de sentar-se à mesa, onde havia uma cesta com sobras de pão do jantar. Dessa cesta, ele tomava as migalhas e comia até última parte macia delas. Uma vez o monge encarregado do refeitório compeliu-o a revelar porque ele roia as crostas. "Os Santos Padres, disse Macário, comeram essas crostas com oração, e eu, um pecador, tocando essas crostas com minha boca pecaminosa, peço ao Senhor, que Ele, por Sua misericórdia, cure meus dentes doloridos e pelas orações dos Santos Padres, meus dentes melhoraram" (Orthodox Life, n° 16, 1971).

Essa confiança simples em Deus é comum entre as grandes almas. Uma simplicidade similar pode ser encontrada na vida do monge Marcos de Sarov. "Perto do fim de sua vida, o Ancião Marcos sofria muito por conta de suas pernas: por longos períodos permanecidos em pé, em oração, e por laboriosas caminhadas pela floresta, as pernas do Ancião Marcos tornaram-se hidrópicas, inchadas e cobertas de feridas, de modo que por algum tempo ele esteve incapaz de andar. Alguns dos irmãos de Sarov, sentindo compaixão pelo Ancião, por seu incômodo, aconselharam-no a procurar auxílio de médicos terrenos. "O Ancião, no entanto, não prestou atenção nesse conselho, e entregou-se complemente ao Curador Celestial de almas e corpos. Com fé, ele pegou algum óleo da lamparina que queimava diante do ícone da Santíssima Mãe de Deus da Fonte Vivificante, localizada na catedral do Eremitério de Sarov, venerado como óleo milagroso e ungiu suas pernas doentes com esse óleo. Para espanto geral daqueles que sabiam de sua doença, logo ele estava complemente curado pelo auxílio da graça da Mãe de Deus, que não o fez envergonhar-se de sua esperança" (Orthodox Life, n° 6, 1970).

Logo depois que foi para o Mosteiro de Sarov, São Serafim de Sarov caiu doente. De acordo com o livro "A Vida de São Serafim de Sarov," seu corpo inteiro inchou e ele jazia paralisado com grande dor, na sua cama dura. Não havia médico, e a doença não respondia a nenhum tratamento. Aparentemente era hidropisia. Durou três anos, e metade desse tempo, o sofredor gastou na cama. Mas ele nunca murmurou: Ele havia entregue a si próprio, completamente, corpo e alma, ao Senhor, e orava a Ele sem cessar. Receoso que a doença pudesse se mostrar fatal, o abade, Anciã Pacômio, propôs-lhe firmemente enviá-lo a um médico. Mas o Santo, com firmeza ainda maior recusou auxílio médico: "Eu me entreguei complemente, Santo Ancião, ao verdadeiro médico de almas e corpos, Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Imaculada Mãe. Mas se o Seu amor achar correto dê-me, pelo amor do Senhor, o Remédio Celestial [a Santa Comunhão]." Logo depois desse episódio, ele foi curado pela Mãe de Deus, que lhe apareceu numa visão junto com os Apóstolos Pedro e João.

Vivendo só para Deus e para a vida que há de vir, arrependendo-se a cada dia, desafiando-se constantemente a adquirir o Espírito Santo de Deus, homens e mulheres justos são capazes de usar seu sofrimento para subir ainda mais alto na escada da virtude, como fez o Hieromonge Partênio das cavernas de Kiev:

"Uma tosse sufocante não lhe dava descanso, e todos os seus ossos doíam. Mas ele continuava deitado, como antes, no banco estreito e duro, com um bom e paciente coração, apesar da sua grande enfermidade, dando graças ao Senhor por sua doença. Freqüentemente dizia: o que darei em troca ao Senhor por Ele ter me dado uma doença, além de todas as Suas outras bênçãos?" (Orthodox Life, n° 3, 1969).

V. A doença e a obra para a perfeição


Uma vida terrena sem pesares é um sinal claro de que o Senhor apartou Seu olhar do homem, e que esse homem está desagradando a Deus, ainda que externamente ele possa parecer reverente e virtuoso.
Bispo Ignácio Bríanchaninov



O padre asceta do deserto Santo Abba Dorotheus exorta seus discípulos a "ter o trabalho de descobrir onde eles estão: se eles deixaram suas cidades, mas ainda permanecem às suas portas, na lixeira, ou se foram avançaram muito ou pouco, se estão na metade do caminho, se andaram dois quilômetros para frente e dois para trás, ou mesmo cinco para frente e cinco para trás, ou se chegaram tão longe, na Cidade Santa e entraram na própria Jerusalém, ou se por acaso se encontram do lado de fora, incapazes de entrar" (Da Vigilância e Sobriedade).

A doença nos ajuda a ver "onde estamos" na estrada da vida: "A doença é uma lição de Deus e serve para nos ajudar em nosso progresso, se nós dermos graças a Ele" (São Barsanúfio e São João, Philokalia); "pois a regra número um que devemos observar é suportar todo golpe da doença com gratidão; pois elas nos são mandadas por causa de nossos pecados" (São João Crisóstomo, Homilia 38, De São João).

Ninguém deve usar a doença como uma desculpa para descansar dos esforços da vida espiritual. "Talvez alguns pensem que as doenças e a ausência de forças corporais retardem o trabalho da perfeição, já que os trabalhos e o dia-a-dia não podem continuar. Mas isso não é um obstáculo" (Santo Ambrósio, Jacó e a Vida Feliz).

Mesmo quando estamos presos na cama, temos que continuar a lutar contra as paixões, produzindo valiosos frutos de arrependimento. Esse trabalho de perfeição requer que adquiramos paciência e resignação. Que melhor meio de conseguir isso do que quando estamos presos por uma doença, na cama? São Tikhon de Zadonsk diz que no sofrimento podemos descobrir se nossa fé é viva ou só "teórica". O teste da verdadeira fé é a paciência no meio do sofrimento, pois "paciência é a armadura dos cristãos." "O que é seguir a Cristo?" ele pergunta. É "suportar todas as coisas, olhando para Cristo que sofreu. Muitos querem ser glorificados com Cristo, mas poucos buscam permanecer com o Cristo sofredor. Não apenas com tribulação, mas com muita tribulação entra-se no Reino de Deus."

Para aqueles que supõem que só podem progredir na vida espiritual quando todo o resto está "bem," São João Cassiano replica: "Vós não deveis pensar que possais encontrar virtudes quando não estiverdes irritados, pois não está em vosso poder evitar que ocorram problemas. Deveríeis, ao invés, procurar com paciência o resultado de vossa humilhação e resignação, pois a paciência depende de vossa vontade própria" (Institutos). Próximo do final de sua vida, São Serafim de Sarov sofreu de ulceração nas pernas. "Mesmo assim", conforme está registrado em sua biografia, "sua aparência era sempre radiosa e alegre, pois em espírito ele sentia aquela paz e júbilo divinos, que são as riquezas da gloriosa herança dos santos".

"Vós sois atacados por essas doenças", dizem os Santos Padres, "para que não partais esterilmente a Deus. Se puderes suportar e agradecer a Deus, essas doenças serão contadas a vosso favor, como trabalhos espirituais" (São Barsanúfio e João, Philokalia). O Bispo Teófano, o Recluso, explica: "suportando coisas desagradáveis com alegria, vós vos aproximais um pouco dos mártires. Mas se vós vos queixais, não só perdereis vosso compartilhar com os mártires, mas ainda sereis responsáveis por mais queixas. Por isso, alegrai-vos".

Para que nosso coração não fraqueje quando cairmos doentes, devemos mentalmente "beijar os sofrimentos de Nosso Salvador e imaginar como se estivéssemos com Ele enquanto Ele sofre abusos, ferimentos, humilhações...vergonha, a dor dos cravos, o furo da lança, o escorrimento de sangue e água. Se agirmos assim, receberemos consolação em nossas doenças. Nosso Senhor não permitirá que esses esforços fiquem sem recompensa" (São Tikhon de Zadonsk).

O Ancião Macário de Optina escreveu sobre isso a alguém que estava doente: "Gostei muito de saber por seus parentes que estás bravamente suportando o cruel flagelo de tua grave doença. Na verdade, assim como o homem da carne perece, o homem espiritual é renovado."

E para outro ele escreveu: "Louvado seja o Senhor por tu aceitares a tua doença tão mansamente! Suportar a doença com paciência e gratidão é algo altamente reconhecido por Ele, que freqüentemente recompensa os sofredores com Seus dons não perecíveis".

Pondere essas palavras: "ainda que nosso homem externo pereça, o homem interno é renovado".

Santo Ambrósio de Milão comparou um corpo enfermo com um instrumento musical quebrado e explicou como o "músico" poderá ainda produzir "música" agradável a Deus, sem seu instrumento: "Se alguém costuma cantar acompanhado por uma harpa e encontra a harpa quebrada, com suas cordas partidas... ele põe de lado a harpa e ao invés de procurar por suas notas, ele se delicia com sua própria voz”.

"Da mesma maneira, um homem doente pode colocar seu corpo de lado. E, assim, encontrar prazer no coração e conforto no conhecimento de que sua consciência está limpa. Ele se sustenta com as palavras de Deus e com os escritos proféticos, e mantendo essa doçura e alegria na alma, ele as abraça com a mente. Nada pode acontecer a ele porque a presença cheia da graça de Deus sopra a favor dele... ele está preenchido com tranqüilidade espiritual" (Jacó e a Vida Feliz).

É muito freqüente que as "músicas" espirituais mais agradáveis a Deus sejam produzidas no anonimato, por santos desconhecidos ou quase desconhecidos, porque tais "melodias" são as mais doces, pois são ouvidas somente por Deus. Uma dessas sofredoras modernas que viveu uma vida angelical, apesar de avançada e terrível moléstia, foi a Santa Nova Mártir da Rússia, Madre Maria de Gatchina.

Madre Maria sofria de encefalite (inflamação do cérebro) e de Mal de Parkinson. "Seu corpo todo se tornou imóvel como se estivesse acorrentada, sua face anêmica como uma máscara; ela podia falar, mas começou a falar com a boca semi-fechada, entre dentes pronunciando vagarosa e monotonamente. Ela estava complemente inválida e com necessidade constante de ajuda e de cuidadosa atenção. Normalmente, essa doença desenvolve-se com profundas modificações psicológicas, de maneira que freqüentemente tais pacientes terminam em hospitais psiquiátricos. Mas Madre Maria, fisicamente inválida, não só não degenerou psiquicamente, como ainda revelou extraordinários aspectos de personalidade e caráter não característicos de tais pacientes: tornou-se extremamente mansa, humilde, submissa, não exigente, concentrada em si própria; ela entrou em oração constante, suportando sua difícil condição sem o mais leve murmúrio.


"Como se fosse uma recompensa por sua humildade e paciência, o Senhor concedeu-lhe um dom: consolação dos aflitos. Pessoas completamente estranhas e desconhecidas encontrando-se em aflição, desconsolo, depressão, desânimo e desespero começaram a visitá-la e conversar com ela. E todos saíram consolados, sentindo seus pesares iluminados, sua aflição pacificada, seus medos acalmados, sua depressão, desânimo e desespero afastados " (Orthodox Word,vol. 13, n°3).

"Assim Deus agiu. Como um Pai providencial e não como um seqüestrados, Ele primeiro nos envolveu em coisas pesarosas, dando-nos tribulações para que, sendo purificados e temperados por essas coisas, nós possamos, depois de mostrar paciência e aprendizado e rígida disciplina, herdar o Reino dos Céus" (São João Crisóstomo, Homilia 18, Das Estátuas).

VI. Oração de Nosso Santo Padre Ambrósio, Bispo de Milão

Santo Ambrósio atribuía essa oração ao Apóstolo Mateus, por ocasião de sua conversão.

Só a Ti eu sigo, Senhor Jesus, que cura minhas feridas. Pois o que poderá me separar do amor de Deus, que está em Ti? Será tribulação ou distração ou fome? Estou preso como que por pregos, e algemado pelas correntes da caridade. Remove de mim, ó Senhor Jesus, com Tua potente espada, a corrupção de meus pecados. Mantém-me preso às ataduras de Teu amor; corta fora o que é corrupto em mim. Vem rápido e dá um fim em minhas muitas, ocultas e secretas aflições. Abre a ferida para que o veneno maligno não se espalhe. Com Teu novo lavagem, limpa-me de tudo que está maculado. Ouvi-me, ó homens terrestres, que em nossos pecados criam pensamentos bêbados: eu encontrei um Médico. Ele habita no céu e distribui Suas curas na terra. Só Ele pode curar minhas dores, Ele que não tem nenhuma. Só Ele, que conhece o que está escondido, pode me livrar da aflição de meu coração e do medo de minha alma - Jesus Cristo. Cristo é graça, Cristo é vida, Cristo é Ressurreição! Amém.

27 de novembro de 2007

Santo Eduardo, Rei e Mártir

"O Rei Eduardo foi um jovem de grande devoção e excelente conduta. Ele era totalmente ortodoxo, bom e de vida santa. Acima de tudo, ele amava o Cristo e a Igreja. Ela era generoso com os pobres, um campeão da fé cristã, um vaso cheio de toda graça virtuosa".

Theodorico Paulus

Quando o Rei Edgar, bisneto de Alfredo, o Grande, ascendeu ao trono inglês no ano 957, a situação do país estava melhorando. Um novo senso de unidade, organização e confiança acabara de ser forjado, resultado de 100 anos de esforços. É neste período que a figura de São Dunstan, Arcebispo de Canterbury e conselheiro do Rei Edgar, faz-se notar.

Abade do mosteiro de Glastonbury, São Dunstan foi o principal responsável pela renovação religiosa e cultural de seu tempo, elevando o nível espiritual da nação. Seu grande objeto de restauração foram os mosteiros, privilegiando neles a vida ascética e a oração interior. No entanto, essa postura engendrou a ira daqueles que usavam a Igreja como mero instrumento para angariar riqueza e poder.

Tal ira intensificou-se ainda mais quando Eduardo, o filho mais velho do Rei Edgar, ascendeu ao trono em 975, após a morte do pai, tornando-se historicamente o Rei Eduardo II. Então com apenas 15 anos de idade, o jovem monarca continuou as políticas de seu pai, confiando em São Dunstan como conselheiro e dando-lhe total apoio em seus esforços para restaurar os mosteiros ingleses e a vida religiosa do povo em geral.

Todavia, sua madrasta, Alfreda, desejosa de ver seu filho Ethelred assumir o trono inglês, forjou uma aliança com membros da nobreza contrários às reformas religiosas e monásticas de São Dunstan. Portanto, de um lado encontravam-se a ex-rainha e seus aliados e, do outro, Rei Eduardo e seus conselheiros, entre os quais não somente São Dunstan mas também Oswald, Arcebispo de York e Bryhnoth, um nobre de Essex.

No dia 18 de março de 979, os partidários do Príncipe Ethelred finalmente decidiram agir. Convidado para a residência oficial do castelo de Corfe, em Dorset, onde o Príncipe Ethelred e sua madrasta já se encontravam hospedados, o Rei Eduardo aproximou-se dos serviçais de Alfreda, que vieram recebê-lo. O que era para ser uma simples recepção de boas-vindas transformou-se num terrível complô regicida. Alguns serviçais sacaram suas armas e um deles enterrou uma adaga no peito de Eduardo. Caindo da sela de seu cavalo, mas com o pé ainda preso ao estribo, a cena que se seguiu foi horripilante: um cavalo assustado, galopando em direção à floresta do castelo, arrastando pelo chão um rei mortalmente ferido a sangrar pelo caminho. Quando os homens do Rei finalmente conseguiram parar o cavalo, Eduardo já estava morto.

Por insistência de Alfreda, o corpo do Rei Eduardo foi enterrado sem cerimônias no cemitério de uma igreja em Wareham, a alguns quilômetros de onde fora assassinado. Embora ninguém tenha sido declarado culpado pelo crime, o regicídio foi levado a público de uma maneira bem diferente. Pois naquele mesmo instante, os milagres começaram.

Já naquela noite, uma senhora cega em cuja cabana o corpo do Rei Eduardo fora temporariamente depositado até ser movido para Wareham, de repente passou a enxergar. Em seguida, uma fonte começou a jorrar no túmulo do Rei Eduardo em Wareham, e inúmeros relatos dão conta de pessoas que foram milagrosamente curadas quando ali rezaram e se banharam. Como a santidade de Eduardo estava se tornando cada vez mais evidente, seu corpo foi transladado para o convento de Shaftesbury em 981. As curas continuaram mesmo durante a procissão.

Nos 20 anos que se seguiram, o túmulo do Rei Eduardo foi objeto de intensas venerações e peregrinações. No dia 20 de junho de 1001, o Rei Ethelred, ordenou que o corpo de Eduardo fosse transferido para um santuário no Mosteiro de Shaftesbury. No ano 1008, Alphege, Arcebispo de Canterbury, canonizou oficialmente Santo Eduardo, Rei e Mártir. De toda a Inglaterra, e até mesmo de outros países da Europa, peregrinos vinham venerar as relíquias de Santo Eduardo. O Mosteiro de Shaftesbury passou a ser conhecido como Mosteiro de Santo Eduardo. A própria cidade de Shaftesbury foi chamada de "Edwardstowe" por muitos anos.

Quanto a São Dunstan, após o assassinato de Eduardo, ele se recusou a tomar parte do reinado de Ethelred, preferindo cuidar de seu rebanho espiritual. Ele morreu em 988, exatamente no ano em que, do outro lado da Europa, a Cristandade adentrava as terras de Rus, onde o Príncipe Vladimir de Kiev foi batizado. Enquanto um país cristão entrava em declínio, perdendo sua identidade face ao assassinato de seu piedoso Rei, um outro país abria-se voluntariamente para a Santa Igreja e seus Mistérios. Mas este mesmo país, que em 1918 assassinava seu piedoso Tsar, conheceu sorte semelhante à dos ingleses. A Rússia do século XX, a exemplo da Inglaterra do século X, também perdera sua identidade cristã.

Qual o significado disso tudo? Deus é que sabe. Mas o que sabemos ao certo é que tamanha brutalidade e impiedade nos assassinatos do Rei Eduardo II e do Tsar Nicolau II serviram para produzir dois santos-mártires a quem, agora, podemos pedir suas intercessões por nós junto ao Cristo. Todos os dias, mas sobretudo no dia 18 de março, rezemos com fervor para que Santo Eduardo, Rei e Mártir, nos ajude e oriente em nossas provações e tentações.

GLÓRIA A DEUS POR TUDO!

Santa Tatiana, Virgem e Mártir

Santa Tatiana, Virgem e Mártir, nasceu de uma ilustre família romana, sendo que seu pai foi eleito cônsul três vezes. Ele era cristão em segredo, e criou sua filha de maneira que ela devotasse sua vida a Deus e à Igreja. Quando alcançou a idade da maturidade, Tatiana decidiu permanecer virgem, tornando-se noiva do Cristo. Desprezando as riquezas mundanas, ela, ao invés disso, buscou as riquezas imperecíveis do Céu. Ela foi ordenada diaconisa em uma das igrejas romanas e serviu a Deus em jejum e oração, recebendo os doentes e ajudando os necessitados.

Quando Roma foi governada pelo imperador Alexandre Severus (de 222 a 235), então com apenas dezesseis anos de idade, todo poder estava concentrado nas mãos do regente Ulpiano, um feroz inimigo dos cristãos. Sangue cristão jorrou como água. Tatiana também foi presa, e levaram-na ao templo de Apolo, obrigando-a a oferecer sacrifícios a esse ídolo. A santa começou a rezar e, de repente, começou um terremoto. O ídolo foi feito em pedaços, e parte do templo caiu sobre os sacerdotes pagãos e sobre muitos outros pagãos. O demônio que habitava o ídolo fugiu aos berros daquele lugar. As pessoas que estavam ali presentes viram sua sombra voando pelos ares.

Então, eles rasgaram os olhos da virgem com ganchos, mas ela suportou a tudo com bravura, rezando por seus algozes para que o Senhor abrisse seus olhos espirituais. E o Senhor ouviu as orações de Sua serva. Os algozes viram quarto anjos ao redor da santa, que os golpeavam. Um voz dos céus foi ouvida falando com a santa virgem. Oito homens creram no Cristo e caíram de joelhos diante de Santa Tatiana, implorando aos anjos que perdoassem seus pecados contra ela. Por confessarem-se cristãos, eles foram torturados e executados, recebendo o Batismo por sangue.

No dia seguinte, Santa Tatiana foi levada perante um severo juiz. Vendo que ela estava completamente curada de suas feridas, eles a despiram e surraram, talhando seu corpo com navalhas. Foi então que uma maravilhosa fragrância tomou conta do local. Depois, jogaram-na ao chão e a violentaram por tanto tempo que os torturadores tiveram de ser substituídos diversas vezes. Eles ficaram exaustos, alegando que uma força invisível estava lhes batendo com varas de ferro. De fato, os anjos impedíam que os golpes a atingissem, voltando-os contra os torturadores, fazendo com que nove deles caíssem mortos. Eles então jogaram a santa na prisão, onde ela rezou por toda a noite, cantando louvores ao Senhor junto com os anjos.

Na manhã seguinte, levaram Santa Tatiana novamente ao tribunal. Os torturadores ficaram estupefatos ao constatarem que, após tantos tormentos, ela estava completamente sã e até mesmo mais radiante e bela do que antes. Eles então a obrigaram a oferecer sacrifícios à deusa Diana. A santa pareceu concordar, e levaram-na ao templo pagão. Santa Tatiana fez o sinal da Cruz e começou a rezar. De repente, ouviu-se um trovão ensurdecedor, e um raio atingiu o ídolo, as oferendas e os sacerdotes pagãos.

Novamente, a mártir foi duramente torturada. Ela foi pendurada e lixada com garras de ferro, e seus seios foram cortados. Naquela noite, anjos apareceram a ela na prisão, curando-a de suas feridas. No dia seguinte, levaram Santa Tatiana ao circo, soltando um leão faminto sobre ela. A besta não machucou a santa mas, ao invés disso, mansamente lambeu seus pés.

Quando estavam levando o leão de volta a sua jaula, ele matou um dos torturadores. Atiraram Tatiana no fogo, mas o fogo não feriu a mártir. Os pagãos, julgando ser ela uma feiticeira, cortaram seus cabelos a fim de tolher seus poderes mágicos, e trancaram-na no templo de Zeus.

No terceiro dia, sacerdotes pagãos adentraram o templo, a fim de oferecer sacrifícios a Zeus. Eles encontraram o ídolo no chão, quebrado em pedaços, e a Santa Mártir Tatiana louvando alegremente ao Senhor Jesus Cristo. O juiz então condenou a valente sofredora a ser decapitada com uma espada. Seu pai também foi executado com ela, porque ele a havia educado a amar o Cristo.

21 de novembro de 2007

Por que os homens gostam da Igreja Ortodoxa

Frederica Mathewes-Green é relativamente famosa nos EUA. Ex-evangélica, convertida à Ortodoxia juntamente com seu marido, o Pe. Gregory Mathewes-Green, Frederica tem seus artigos publicados em diversos jornais e revistas americanos, e chegou a ser crítica de cinema para a National Review Online.

Seus pontos de vista nem sempre apreentam aquele frescor da Ortodoxia da qual falava o Pe. Serafim Rose. Muitas vezes, vêm acompanhados de cacoetes e raciocínios tipicamente ocidentais - frutos talvez de contaminação sofrida pelo seu passado evangélico - e faltam aos seus podcasts um tom mais sério. Mas valem a pena ser lidos e ouvidos assim mesmo.

O artigo abaixo, por exemplo, contém muitas verdades. O Cristianismo Ocidental, de fato, apresenta um grau de efeminação do qual eu não havia tomado ciência até então.

* * *

POR QUE OS HOMENS GOSTAM DA IGREJA ORTODOXA

por Frederica Mathewes-Green

Nesses tempos em que as igrejas sofrem da Síndrome dos Machos Ausentes, os homens comparecem às igrejas ortodoxas em quantidades que, se não são numericamente impressionantes, são ao menos proporcionalmente intrigantes. Talvez esta seja a única igreja que atraia homens na mesma quantidade que mulheres. Conforme observou Leon Podles em seu livro The Church Impotent: The Feminization of Christianity (A Igreja Impotente: a Efeminação do Cristianismo): “Os ortodoxos são os únicos cristãos que compõe, ou precisam compor, música litúrgica em basso profundo”.

Em vez de tentar descobrir o porquê disso, enviei emails a cem homens ortodoxos, a maioria dos quais entrou na Igreja já adultos. O que eles acham que torna esta igreja em particular atrativa aos homens? Suas respostas, que relato abaixo, podem dar algumas dicas aos líderes das demais igrejas, que tentam segurar os rapazes nos bancos.

Desafios. A palavra mais citada pelos homens é “desafio”. A Ortodoxia é “ativa, e não passiva”. “É a única igreja onde você tem que se adaptar a ela, e não ela se adaptar a você”. “Quanto mais tempo nela, mais a gente percebe como ela é exigente”.

A “postura austera dos ritos ortodoxos” é parte do apelo. Os dias de jejum de carne e derivados de leite, “ficar de pé por horas a fio, fazer prostrações, ficar sem comer e beber [antes da comunhão]...Quando chegamos ao fim, a gente fica com a impressão de que cumpriu um desafio”. “A Ortodoxia apela ao desejo do homem de se auto-educar pela disciplina”.

“Na Ortodoxia, a questão da luta espiritual está por toda parte; santos, inclusive santas, são guerreiros. Luta requer coragem, fortaleza e heroísmo. Somos chamados a sermos ‘lutadores’ contra o pecado, a sermos ‘atletas’, conforme disse São Paulo. E é dado um prêmio ao vitorioso. O fato de que você tem que ‘lutar’ durante a liturgia ficando de pé, em si, é um desafio que os homens estão dispostos a assumir”.

Um recém-convertido resumiu assim: “A Ortodoxia é séria. É difícil. É exigente. Ela tem a ver com misericórdia, mas também com superar-se a si próprio. Sou desafiado de maneira profunda, a ‘não me sentir bem comigo mesmo’, a me tornar santo. É rigorosa, e nesse rigor é que encontro libertação. E, sabe, minha esposa também”.

Regras claras. Muitos mencionaram o fato de que apreciam a clareza de conteúdo desses desafios, ou seja, o que eles são supostos a fazer. “A maioria dos homens se sentem mais confortáveis quando sabem o que é esperado deles”. “A Ortodoxia tem limites claros”. “É mais fácil aos homens se expressarem em adoração quando há regras sobre como as coisas funcionam – especialmente quando essas regras são tão simples e funcionais que a gente simplesmente pode começar a praticá-las desde já”.

“As orações da Igreja – as orações da manhã, da noite, antes e depois das refeições etc. – dão aos homens uma maneira de adentrar à espiritualidade sem que se sentam sob holofotes ou sem que se preocupem se estão parecendo estúpidos por não saberem o que falar”.

Eles apreciam as posturas físicas bem definidas que formarão o caráter e o entendimento. “As pessoas já começam a aprender os rituais e o simbolismo, por exemplo, fazendo o sinal da Cruz. O sistema disciplinar torna a pessoa ciente de sua relação com a Trindade, com a Igreja e com todos que encontra”.

Objetivo. Os homens apreciam o fato de que tal desafio tem um objetivo: a união com Deus. Eis o que uma pessoa disse a respeito de sua igreja anterior: “Eu sentia que não estava indo a lugar algum na minha vida espiritual (se é que tinha algum lugar a chegar – eu já estava lá, não é mesmo?). Mas algo, vai saber o quê, estava faltando. Será que não tem NADA que eu deveria estar fazendo, Senhor?”

A Ortodoxia preserva e transmite a antiga sabedoria cristã sobre como progredir a essa união, chamada de theosis. Cada sacramento, cada exercício espiritual, é feito para levar a pessoa – corpo e alma – adiante nessa contínua consciência da presença interna de Cristo, assim como em todos os seres humanos. Assim como um tecido fica saturado de tinta por osmose, ficamos saturados de Deus por theosis.

Um catecúmeno disse que acha os ícones úteis para resistir a pensamentos indesejados. “Se você fechar os olhos às tentações visuais, há várias imagens na memória que podem lhe causar problemas. Mas se a gente se cercar de ícones, então você terá a chance de olhar para algo tentador ou para algo santo”.

Um padre disse: “Os homens precisam de desafio, de objetivo, uma aventura talvez – em termos primitivos, uma caçada. O Cristianismo Ocidental perdeu o aspecto ascético, isto é, o aspecto atlético da vida cristã. Este é o propósito do monasticismo, que surgiu no Egito em grande parte como um movimento masculino. As mulheres também entraram na vida monástica, e nossos antigos hinos falam de mulheres mártires mostrando ‘coragem masculina’”.

“A Ortodoxia enfatiza o FAZER… Os homens são orientados a AÇÃO”.

Ausência de sentimentalismos. No livro Church Impotent acima citado (e recomendado por vários dos homens que consultei), Leon Podles apresenta sua teoria sobre como a piedade, no Cristianismo Ocidental, se efeminou. Nos séculos XII e XIII surgiu uma tendência particularmente frágil, até mesmo erótica, de devoção, segundo a qual o fiel deveria retratar a si próprio (ao invés da Igreja) como Noiva de Cristo. O “Misticismo de Noivado” foi entusiasticamente adotado por mulheres devotas, e deixou uma marca profunda no Cristianismo Ocidental. É compreensível que tenha menos apelo aos homens. No Ocidente, por séculos, os homens que escolhem o ministério têm sido estereotipados como sujeitos efeminados. Um fiel, ortodoxo de longa data, afirmou que, de fato, parece que o Cristianismo Ocidental é uma “história de amor escrita por mulheres para mulheres”.

A Igreja Oriental escapou desse Misticismo de Noivado porque o grande cisma entre Oriente e Ocidente já tinha acontecido. Os homens que consultei expressaram um profundo desgosto por esse frágil e gentil Jesus ocidental. “O Cristianismo americano, nos últimos dois séculos, tem se efeminado. Ele apresenta Jesus como um amigo, um namorado, alguém que ‘anda comigo e fala comigo’. Trata-se de uma imagem encantadora às mulheres, que necessitam de vida social. Ou aquela que retrata Jesus chicoteado, morto na cruz. Nenhuma delas é o modelo de Cristo que os homens típicos se identificam”.

Durante a Liturgia, “os homens não querem rezar à moda ocidental, com as mãozinhas abraçadas uma a outra, lábios apertados e expressão facial de serenidade forçada”. “É um tal de homem dando a mão para homem e cantando musiquetas de acampamento”. “Estrofes sobre ‘estender a mão para receber Seu abraço’, ‘querer tocar Sua face’, enquanto estiver sendo ‘inundado pelo poder de Seu amor’ – são canções difíceis para um homem cantar a outro Homem”.

“Um amigo meu me disse que a primeira coisa que ele observa quando entra numa igreja são as cortinas. Isto lhe mostra quem está dando as ordens naquela igreja, e que tipo de cristão quer atrair”.

“Os homens querem ser desafiados a lutar por uma causa gloriosa e honorável, e se sujarem no caminho, ou se jogar no sofá com muita cerveja, pizza e futebol. Mas a maioria de nossas igrejas quer que nos comportemos como cavalheiros, mantendo nossas mãos e bocas bonitas e limpas”.

Um dos homens me disse que os cultos em sua igreja pentecostal eram “meras experiências emotivas. Sentimentos. Lágrimas. Repetidas dedicações de sua vida a Cristo, em grandes e emotivos encontros. Cantar músicas emotivas, levantando e balançando as mãos. Até mesmo a leitura das Escrituras é feita para produzir experiências emotivas. Eu sou um homem prático, eu quero fazer as coisas, e não sair por aí falando e se emocionando com as coisas! Como homem de negócios, sei que nada acontece sem esforço, energia e investimento. Por que na vida espiritual seria diferente?

Uma pessoa que visitou diversas igrejas católicas me disse: “Elas eram convencionais, fáceis e modernas, enquanto eu e minha esposa procurávamos algo tradicional, difícil e contracultural, algo antigo e marcial”. Um catecúmeno me disse que em sua igreja não-denominacional o “[c]ulto era raso, casual, remendado com o que houvesse de mais atual; às vezes a gente sentava, às vezes ficava de pé, sem muito ritmo ou razão. Fiquei pensando como a tradição seria de grande ajuda nisso tudo”.

“Fiquei furioso na última quarta-feira de cinzas, quando o padre proferiu uma homilia dizendo que o verdadeiro significado da Quaresma é aprender a amarmos a nós mesmos. Isto me forçou a perceber que eu estava de saco cheio desse Cristianismo americano burguês”.

Um padre convertido disse que os homens são atraídos pelos elementos perigosos da Ortodoxia, que envolvem “a abnegação de um guerreiro, o risco aterrorizante de amar seus inimigos, as fronteiras desconhecidas para as quais a humildade nos chama. Elimine qualquer uma dessas qualidades e nos tornaremos uma fabriqueta de igrejas: cores bonitas e clientela empanada”.

“Os homens podem se tornar altamente cínicos quando percebem que alguém está tentando manipular suas emoções, especialmente em nome da religião. Eles apreciam a objetividade da adoração ortodoxa. Ela não é destinada a despertar emoções religiosas mas a desempenhar um dever objetivo”.

Apesar disso, há algo na Ortodoxia que oferece “um profundo romance masculino. Você sabe do que estou falando? A maioria dos nossos romances é rosa, mas este romance é feito de espadas e heroísmo”.

De um diácono: “As igrejas evangélicas chamam os homens a serem passivos e bonzinhos. As igrejas ortodoxas chamam os homens a serem corajosos e atuantes”.

Jesus Cristo. O que traz os homens à Ortodoxia não é apenas o desafio ou o mistério. O que os traz é o Senhor Jesus Cristo. Ele é o centro de tudo o que a Igreja faz ou diz.

Diferentemente das outras igrejas, “a Ortodoxia apresenta um Jesus robusto” (e até mesmo uma Virgem Maria robusta que, a propósito, é honrada em um hino como sendo “nossa Capitã, Rainha da Guerra”). Muitos utilizaram o termo “marcial” ou se referiram à Ortodoxia como os “fuzileiros navais” do Cristianismo. (A guerra é contra o pecado autodestrutivo e as potestades celestiais invisíveis, e não contra as pessoas, claro).

Contrastou-se essa qualidade “robusta” com o “retrato efeminado de Jesus com o qual eu fui criado. Nunca tive um amigo que não se esforçasse muito para evitar encontrar gente que fosse assim”. Embora atraído por Jesus Cristo quando adolescente, “sentia-me envergonhado dessa atração, como se fosse algo que um homem de verdade não levaria a sério, algo semelhante a brincar de boneca”.

Um padre disse: “Cristo, na Ortodoxia, é um militante, um Jesus forte, que toma o inferno como cativo. O Jesus ortodoxo lança fogo sobre a terra. No Santo Batismo, rezamos para que os recém-alistados combatentes de Cristo, homens e mulheres, possam “manter-se sempre combatentes invencíveis”.

Após anos na Ortodoxia, um homem achou os cânticos de Natal de uma igreja protestante “chocantes, até mesmo pavorosos”. Comparados aos hinos natalinos da Ortodoxia, “o pequeno Senhor Jesus adormecido sobre o feno não tem quase nada a ver com o Logos eterno que entra de maneira inexorável, silenciosa e heróica no tecido da realidade criada”.

Continuidade. Diversos ortodoxos intelectualmente convertidos começaram lendo a história da Igreja e os escritos dos primeiros cristãos. Com o tempo, eles tiveram de encarar a questão sobre qual das duas igrejas mais antigas, a Católica Romana ou a Ortodoxa, era a mais convincente quanto a ser a Igreja original dos Apóstolos.

Um ortodoxo de longa data afirmou que os homens gostam de “estabilidade: os homens podem confiar na Igreja Ortodoxa por causa da consistente e contínua tradição da fé, que se mantém pelos séculos”. Um convertido afirmou: “A Igreja Ortodoxa oferece o que as outras são incapazes: continuidade com os primeiros seguidores de Cristo”. Isto é continuidade, e não arqueologia; a igreja primitiva ainda existe e você pode fazer parte dela.

“O que me atraiu foi a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam sobre a Igreja – e a união ortodoxa de fé, adoração e doutrina com a devida continuidade histórica”.

Um sinônimo de continuidade é “tradição”. Um catecúmeno me disse que tentou aprender tudo o que fosse necessário para interpretar as Escrituras, inclusive línguas antigas. “Eu queria cavar fundo, até as fundações, e confirmar tudo o que haviam me ensinado. Ao invés disso, quando mais em descia, tanto mais fraco tudo o que aprendi parecia ser. Percebi que, na verdade, eu apenas havia aprendido a manipular a Bíblia de maneira que eu pudesse sustentar qualquer coisa que eu pensasse. O único antídoto para o cinismo era a tradição. Se a Bíblia quisesse dizer alguma coisa, tinha que ser dentro de uma comunidade, com uma tradição que guiasse a leitura. Foi na Ortodoxia que encontrei o que procurava”.

Homens equilibrados. Um padre me disse: “Há apenas dois modelos masculinos: ser ‘homem’ e forte, rude, cru, macho e provavelmente abusivo; ou ser sensível, bonzinho, reprimido e fracote. Mas na Ortodoxia, o masculino está unido ao feminino; é realista, ‘nem macho nem fêmea’, mas Cristo que ‘une as coisas no céu e as coisas na terra’”.

Outro padre comentou que, se um dos membros do casal é mais insistente em converter a família à Ortodoxia do que o outro, “quando ambos fazem confissões, com o tempo ambos se aprofundam e nenhum deles se torna tão dominante na relação espiritual”.

Homens na liderança. Goste-se disso ou não, os homens simplesmente preferem ser liderados por homens. Na Ortodoxia, as fiéis fazem tudo o que os fiéis fazem, inclusive pregar, ensinar e liderar a irmandade da paróquia. Mas, por trás do iconostase, em torno do altar, é só para os homens. Uma pessoa resumiu o que os homens gostam na Ortodoxia assim: “Barbas!”

“É o ultimo lugar do mundo onde os homens não são condenados por serem homens”. Em vez de toda aquela negatividade, os homens estão constantemente cercados por modelos positivos nos santos, nos ícones e no ciclo diário de hinos e histórias sobre a vida dos santos. Eis outro elemento concreto que os homens apreciam – há outros seres humanos a serem apreciados, e não apenas nuvens de termos etéreos. “A glória de Deus é um homem plenamente vivo”, disse Santo Irineu. Um respondente acrescentou que “a melhor maneira de atrair um homem à Igreja Ortodoxa é mostrando-lhe um homem ortodoxo”.

Mas nada que seja secundário, não importa o quanto seja bom, pode suplantar o principal. “Uma vida desafiadora não é o objetivo. Cristo é o objetivo. Um espírito livre não é o objetivo. Cristo é o objetivo. Ele é o expoente máximo da história, em torno do qual todos os homens e mulheres eventualmente se ajuntarão, a quem todos se curvarão, e quem toda língua confessará”.

9 de novembro de 2007

Deus e a ciência

Clark Carlton, professor de Filosofia e autor de livros de apologética da Igreja Ortodoxa, explica neste podcast que a ciência empírica pode e deve ser metodologicamente materialista e agnóstica, pois lida sempre com experiências e medidas, mas que muitos cientistas modernos inadvertidamente estendem o escopo da ciência e procuram aplicar essa metodologia agnóstica também à metafísica. É justamente neste ponto que cessa a ciência genuína e se inicia algo maligno: o cientismo (ou cientificismo), categoria na qual se enquadram Carl Sagan, Richard Dawkins etc. Há uma clara distinção entre o escopo da ciência e o escopo da religião, que não devem jamais se confundir nem mesmo precisam se harmonizar.

Em suma: as ciências podem explicar somente como os furacões se formam, como as borboletas se reproduzem etc., mas é incapaz, em si e por si, de explicar a si própria. Por exemplo, as leis da Física são capazes de explicar os movimentos que ocorrem no inteiror do cosmos, mas são incapazes de explicar a origem do próprio cosmos, que deve ser necessariamente algo exterior a si próprio).

6 de novembro de 2007

Conselhos do Pe. Dimítrio Dudko

Reproduzo abaixo alguns trechos do livro Our Hope (SVS, Crestwood NY, 1977). Trata-se de uma coletânea de conversas e palestras informais proferidas pelo Pe. Dimítrio Dudko, da Igreja Ortodoxa Russa, durante os anos de 1973 e 1974, em sua paróquia moscovita. Elas foram transcritas pelos seus paroquianos e mais tarde contrabandeadas para o ocidente.

Esses textos são uma amostra-grátis da situação espiritual e paroquial na qual viviam os cidadãos soviéticos, especialmente os cidadãos de Moscou. Naquele tempo, os comunistas já detectavam uma grande afluência de pessoas às igrejas, mesmo cercadas pela intensa propaganda ateísta e anti-religiosa e pela perseguição ativa àqueles que declaravam sua fé. Até mesmo fazer o sinal da Cruz em público poderia dar cadeia. No entanto, algumas vozes corajosas do Patriarcado de Moscou não se deixaram abater pela situação e, pelo contrário, enxergaram nela uma oportunidade divina para pregar às pessoas e confirmá-las na fé, cumprindo assim sua missão sem medo do martírio.

Uma dessas vozes foi a do Pe. Dimítrio Dudko, que, aproveitando-se do fato de que a lei soviética pelo menos permitia a discussão religiosa no interior dos templos, mantinha em sua paróquia, logo após à Liturgia, uma inspiradora sessão de perguntas e respostas com os paroquianos e visitantes (muitos ateus e pessoas de outras religiões vinham ouvi-lo). Seu desejo de insuflar a combalida e titubeante fé dos moscovitas da época, aliado à coragem de desafiar as autoridades soviéticas, chamaram a atenção de muitos ortodoxos ocidentais, em especial a do Pe. Serafim Rose.

Embora reconhecendo que cometia alguns erros teóricos, o que mais despertava o interesse do Pe. Serafim é o "tom", o "frescor" perfeitamente patrístico e ortodoxo que a mensagem do Pe. Dimítrio transparecia.

Os trechos que traduzi, tenho certeza, refletem não só algumas dúvidas e angústias daqueles soviéticos, mas também as nossas.

* * *

páginas 110 e 111

PERGUNTA: É comum a gente chegar em casa cansado, moralmente deprimido. A gente fica com dor de cabeça. E dá para entender. Um fiel vive em condições espirituais e morais que são hostis aos seus sentidos e às suas idéias. A gente tem que ter muita paciência para agüentar essas situações, para conservar a resistência, a força de vontade, o bom-humor e uma boa disposição. A gente fica sonhando acordado quando, finalmente, cruza o batente da porta de casa. Então, em casa, eis que estamos rodeados pelos nossos objetos espirituais: os ícones, os retratos, os livros. Mas é terrível. A gente olha para tudo aquilo com indiferença. É como se uma parede invisível se erguesse entre nós e eles, impedindo que a gente se aproxime, que os toque, que reze. A gente quer rezar. A gente sabe que tem que rezar. Mas esse desejo é sugado pela indiferença, pelo desleixo, pela fadiga espiritual. E acontece de muitos dias e semanas se passarem desse jeito. O que precisa ser feito? O que precisa acontecer?

RESPOSTA: Precisa que você seja confirmado na fé. Você ainda não entendeu o principal: que a vida terrena nos foi dada a título de batalha ascética, que uma verdadeira batalha está em andamento. O diabo luta contra Deus, e o campo de batalha é o coração do homem, conforme disse Dostoiévski. Não é por acaso que o cristão é chamado de lutador. Suas condecorações militares estão no Reino dos Céus. Imagine como deveríamos ser conscientes e altruístas. Mas nós estamos alienados. Assim que fazemos algo de bom, já queremos ser recompensados por isso. A gente não pensa muito sobre o Reino dos Céus. Você deve saber que o Reino dos Céus é a realização de tudo. Sem o Reino dos Céus, nada faz sentido. Isso tem que ser entendido de uma vez por todas. Além disso, saiba que o Reino dos Céus é conquistado por meio do trabalho. Somente aqueles que se esforçam o conquistarão. Siga a Cristo, tome sua Cruz. Comece, nem que seja com um pequeno suspiro a Deus: "Senhor, me ajude!" E vigie, pois em pouco tempo você não reconhecerá a si mesmo. Lembre-se também que Deus ouve primeiro àqueles cuja vida é suficientemente pura. Se sua vida não é muito diferente dos infiéis, isto é, se você bebe e vive em festas, então livre-se disso antes de mais nada. (Citei isto só a título de exemplo). Você tem que se tornar luz para o mundo. Você não deve se apoiar nos outros: são os outros que devem se apoiar em você. Lembre-se: se estiver com Deus, então conseguirá fazer tudo aquilo que milhares, talvez milhões, de pessoas juntas que não têm a Deus não conseguiriam. "Para o fiel, não existe o impossível" -- isso não foi dito à toa.

* * *

páginas 240 e 241

PERGUNTA: Parece que, do seu ponto de vista, o fiel faz o bem porque espera uma recompensa depois da morte. Mas o senhor não acha que isso é uma coisa repulsiva, mercenária e, no fim das contas, anti-cristã? Será que isso não passa de barganha -- uma espécie de egoísmo disfarçado? Cristo não mandou que a gente faça o bem de maneira que a mão direita não saiba o que a mão esquerda faz, isto é, de maneira desinteressada? O verdadeiro bem é sua própria recompensa. Não precisa da vara e da cenoura. E se o senhor entende o bem dessa maneira vulgar e comum, não estaria então introduzindo uma certa degradação na moralidade cristã? Isso não leva à hipocrisia?

RESPOSTA: [...] Fazer as coisas de maneira que sua mão esquerda não saiba o que sua mão direita está fazendo. Sim, de fato, Cristo disse isso(*). Mas Ele também disse: Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus (**). Vamos nos acalmar um pouco e pensar. Qual a diferença entre obter sua recompensa aqui e obtê-la lá no Reino dos Céus? A má-compreensão desse assunto sempre causa confusão. É verdade que obter sua recompensa aqui implica em inflar o interesse próprio, a ganância, o egoísmo e a hipocrisia. Quando a gente a obtém , tais sentimentos ruins não se desenvolvem porque a gente não pode ver nem sentir a recompensa. Será que a idéia de que no Reino dos Céus a ganância não será recompensada faria alguém se tornar interesseiro? Será que alguém vai se tornar egoísta se acreditar que o egoísmo não vai ser recompensado no Reino dos Céus? Desinteresse, altruísmo, humildade -- eis aí o que será recompensado lá. A recompensa no Reino dos Céus é totalmente diferente da recompensa aqui. A recompensa significa que você tem que desenvolver suas boas qualidades aqui. Fazer alguma coisa na expectativa de que será recompensado no Reino dos Céus significa fazer essa coisa com desinteresse, com altruísmo, com humildade -- ou seja, fazer sem ligar para a recompensa aqui. De acordo com o entendimento cristão, se você se considera bom, então isso significa que você não é bom.

(*) Mateus 6:3: Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita.

(**) Mateus 5:12.

27 de outubro de 2007

Ortodoxia no Ocidente

"Não tenhais receio de sua Ortodoxia, não tenhais receio porque, enquanto ortodoxos no Ocidente, vós frequentemente estareis isolados e em minoria. Não façais acordos mas também não atacais outros cristãos; não sejais defensivos nem agressivos; sejais simplesmente vós mesmos".
Ancião Anfilóquio de Patmos