17 de agosto de 2007

Como salvar tua alma

São Teófano, o Recluso

O que responder a aquele que pergunta: “Como salvar minha alma?”

Isto: Arrependa-te e, fortalecido pelo poder da graça nos Santos Mistérios, trilha o caminho dos mandamentos de Deus sob a direção que a Santa Igreja te deu por meio de seus sacerdotes. Tudo isso deve ser feito com um espírito de fé sincera, sem reservas.

Mas o que é fé?

Fé é a confissão sincera de que Deus, adorado na Trindade e criador e provedor de tudo, salva a nós, os caídos, por meio do poder da morte na Cruz do Filho de Deus, pela graça do Espírito Santo em Sua Santa Igreja. Os princípios da renovação, estabelecidos nesta vida, surgirão em toda sua glória no século dos séculos, de uma maneira que a mente não consegue compreender nem a língua expressar.

Ó, Deus nosso, como são grandes Tuas promessas!

Como, então, trilhar o caminho dos mandamentos de maneira inabalável?

Não é possível responder a esta pergunta em poucas palavras, pois a vida é algo complexo. Eis o que é necessário:

a) Arrependa-te, e voltando-te ao Senhor, admita teus pecados, chora por eles com coração contrito, e confessa-os ao teu pai espiritual. Prometa em palavra e em coração, perante a face do Senhor, não mais ofendê-Lo com teus pecados.

b) Assim, obedecendo a Deus em mente e coração, esforça-te a cumprir corporalmente os deveres e questões que tua vida lhe impõe.

c) Acima de tudo, guarda teu coração dos maus pensamentos e sentimentos – orgulho, convencimento, raiva, julgamento, ódio, inveja, desdém, desânimo, apego a coisas e pessoas, pensamentos dispersos, ansiedade, todos os prazeres sensuais e tudo o que separa a mente e o coração de Deus.

d) Para que permaneças firme no caminho, decide, antes de mais nada, a não se negar àquilo que reconheces como necessário, mesmo que isto signifique a morte. Para conseguir isto, quando te resolveres a cumprir tal decisão, ofereça tua vida a Deus para que não vivas para ti, mas para Deus somente.

e) Viver assim é ofertar-te a Deus, e não depender de ti próprio; a arena espiritual desta vida é a paciência, ou seja, uma postura inabalável nas fileiras da vida redimida, esforçando-te alegremente em meio a todos os desconfortos e desprazeres a ela relacionados.

f) O sustento da paciência é a , ou a garantia de que, esforçando-te desta maneira para Deus, tu serás Seu servo e Ele será teu Mestre, que vê todos os teus esforços, regozija-Se neles e os valoriza; a esperança de que o sempre-protetor auxílio de Deus estará pronto e a te esperar, e descerá sobre ti quando precisares, de que Deus não te abandonará no fim da tua vida e, preservando-te enquanto fiel a Seus mandamentos, em meio às tentações, te guiará pela morte a Seu Reino eterno; o amor, que medita dia e noite no querido Senhor e em tudo procura agradá-Lo, evitando a todo custo ofendê-Lo em pensamento, palavras e obras.

g) As armas dessa vida são: a oração na igreja e em casa, especialmente a oração mental; o jejum, de acordo com as forças de cada um e as regras da Igreja; vigilância; solidão; trabalhos físicos; confissão freqüente de pecados; Santa Comunhão; leitura da Palavra de Deus e das obras dos Santos Padres; conversas com pessoas piedosas; consulta constante ao pai espiritual sobre todos os eventos externos e internos da vida. O fundamento de todos esses labores em medida, tempo e espaço é a sabedoria, aconselhando-te com aqueles que têm experiência.

h) Guarda-te com temor. Para isso, lembra-te do fim – morte, julgamento, inferno, o Reino Celestial. Acima de tudo, esteja atento a ti mesmo: preserve tua mente sóbria e teu coração despreocupado.

i) Estabeleça como objetivo o ardor do fogo do espírito, de maneira que arda em teu coração e, reunindo toda tua força, comece a edificar teu homem interior e, finalmente, queime as ervas daninhas de teus pecados e paixões.

Disponha tua vida desta maneira e, com a graça de Deus, tu serás salvo.

Orthodox Life, Vol. 27., No. 6 (Nov.-Dez., 1977), pág. 37-38.

13 de agosto de 2007

Como ler a Bíblia

Pe. Serafim (Rose) de Platina

Todos sabem que os protestantes dedicam grande parte de seu tempo lendo as Sagradas Escrituras, pois para eles isso é o que há de mais importante. Para nós, cristãos ortodoxos, as Escrituras também têm seu lugar. Porém, freqüentemente não tiramos vantagem desse fato e não percebemos a importância que elas têm para nós; ou, se percebemos, acabamos não lidando com elas com o espírito correto porque a abordagem e a literatura protestantes estão por toda a parte, ao passo que nossa abordagem ortodoxa é bem diferente.

O fato de as Escrituras serem parte essencial de nossa fé é algo que pode ser detectado em nossos ofícios. Há as leituras diárias do Novo Testamento, tanto das epístolas quanto dos evangelhos. No espaço de um ano lemos praticamente todo o Novo Testamento. Nos primeiros três dias da semana anterior à Páscoa – a festa da ressurreição de Cristo – os quatro evangelhos são lidos na igreja, e na noite de quinta-feira da Semana da Paixão são lidos doze longos trechos dos evangelhos sobre a Paixão de Nosso Senhor, com versos cantados entre cada trecho servindo de comentários. O Velho Testamento também é usado nos ofícios. Nas vesperais de cada grande dia santo são lidas três parábolas a título de prefiguração. E as Liturgias estão cheias de citações e alusões bíblicas inspiradas diretamente nas Sagradas Escrituras. Os cristãos ortodoxos também lêem a Bíblia fora dos ofícios. São Serafim, em sua vida monástica, lia semanalmente todo o Novo Testamento. Talvez porque tenhamos uma riqueza tão grande de trechos bíblicos em nossa tradição ortodoxa nos sintamos culpados de dá-las como certas, de não valorizá-las e não fazer o devido uso delas.

Um dos nossos maiores intérpretes das Sagradas Escrituras é São João Crisóstomo, um Santo Padre do século V. Ele escreveu comentários a praticamente todo o Novo Testamento, inclusive a todas as epístolas de São Paulo e a muitos livros do Velho Testamento. Em um dos sermões sobre as Escrituras, eis o que São João fala a seu rebanho:

"Exorto-vos, e não cessarei de vos exortar, a prestar atenção não apenas ao que aqui é dito, mas quando estiverdes em vossas casas também deveis vos ocupar com a leitura das Sagradas Escrituras. Que ninguém venha dizer-me palavras frias – dignas de condenação – como estas: 'Estou ocupado com um julgamento, tenho obrigações na cidade, tenho uma esposa, tenho de alimentar meus filhos, e não é minha obrigação ler as Escrituras, mas daqueles que a tudo renunciaram'. O que dizes?! Não é tua obrigação ler as Escrituras porque estás distraído com inúmeras preocupações? Ao contrário, é tua obrigação, mais do que aos outros, mais do que aos monges; eles não precisam tanto de ajuda quanto tu, que vives em meio a tais preocupações. Tu necessitas ainda mais de tratamento, pois estás constantemente sob ataque e fere-te com freqüência. A leitura das Escrituras é uma grande defesa contra o pecado. A ignorância das Escrituras é uma grande desgraça, um grande abismo. Nada saber da palavra de Deus é um desastre. Isso é o que despertou as heresias, a imoralidade; é o que virou tudo de cabeça para baixo".

Vemos aqui que a leitura das Sagradas Escrituras nos guarnece de uma poderosa arma contra as tentações mundanas que nos cercam – e não a utilizamos o bastante. A Igreja Ortodoxa, longe de desestimular a leitura das Escrituras, a encoraja. A Igreja apenas é contra a má-leitura das Escrituras, contra ler nelas suas próprias opiniões e paixões, até mesmo pecados. Quando vemos os protestantes ficarem excitados com algo que dizem estar nas Escrituras – o arrebatamento, por exemplo, ou o milênio – não somos contra sua leitura das Escrituras em si, mas contra a má-interpretação que fizeram das Escrituras. Para que nós mesmos evitemos essas ciladas, temos de entender o que é o texto sagrado e como devemos lidar com ele.

A Bíblia – as Sagradas Escrituras, o Velho e o Novo Testamento – não é um livro comum. Não é um livro que contém verdades humanas, mas verdades divinamente reveladas. É a palavra de Deus. Portanto, devemos abordá-la com reverência e coração contrito, não com mera curiosidade ou frieza acadêmica. Hoje em dia, ninguém deveria esperar que uma pessoa que não tenha simpatia pelo Cristianismo nem pelas Escrituras adote uma postura reverente. Há, porém, tamanho poder nas palavras das Escrituras – especialmente nos evangelhos – que elas podem converter uma pessoa mesmo que tal reverência esteja ausente. Ouvimos falar de casos assim em países comunistas; a polícia persegue os fiéis e interrompe suas reuniões; eles confiscam toda sua literatura: Bíblias, hinários, textos patrísticos – muitos escritos à mão. Eles os queimam, mas às vezes acontece da pessoa designada a queimá-los ou da pessoa que os recolhe ficar curiosa e começar a ler o material confiscado. E há casos em que a vida da pessoa muda. De repente, ela encontra Jesus Cristo. E fica chocada, já que foi criado com a noção de que tudo isso é um grande mal; e eis que descobre que não há mal algum, mas algo realmente fantástico.

Muitos estudiosos modernos abordam as Escrituras com espírito frio, acadêmico; eles não desejam salvar suas almas lendo as Escrituras: eles somente querem provar que são grandes acadêmicos, que são capazes de criar novas idéias; eles querem ficar famosos. Mas nós, cristãos ortodoxos, devemos nos imbuir da máxima reverência e contrição, isto é, devemos nos aproximar da palavra de Deus com o desejo de mudar nossos corações. Lemos as Escrituras para alcançar a salvação, não, como crêem alguns protestantes, porque temos certeza de que seremos salvos sem a possibilidade de cair; mas sim como aqueles que tentam manter desesperadamente a salvação que Cristo nos deu, cientes de nossa miséria espiritual. Para nós, ler as Escrituras é, literalmente, uma questão de vida ou morte. Conforme escreveu o Rei David nos Salmos: O meu coração temeu a tua palavra. Folgo com a tua palavra, como aquele que acha um grande despojo .1

A Bíblia contém a verdade, e nada mais. Portanto, é nosso dever estudar as Escrituras crendo em sua verdade, sem duvidar ou criticar. Se adotarmos uma postura crítica então não receberemos benefício algum da leitura das Escrituras, mas seremos apenas mais um entre os homens "sábios" que acham que sabem mais do que a revelação de Deus. Na verdade, os sábios deste mundo freqüentemente não captam o significado das Escrituras. Nosso Senhor assim rezou: Graças te dou, ó Pai...que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas (Lucas 10:21). Em nossa abordagem, não devemos ser sofisticados, complicados, acadêmicos; devemos ser simples. E se formos simples, as palavras terão significado para nós.

Para que a leitura da Bíblia seja proveitosa – para que ajude a salvar nossas almas – devemos levar uma vida espiritual de acordo com o Evangelho. As Escrituras são voltadas precisamente àqueles que estão tentando levar uma vida espiritual. Os demais em geral as lerão à toa, e nem mesmo conseguirão entender alguma coisa. São Paulo ensina: O homem natural [isto é, não-espiritual] não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (I Coríntios 2:14). Quando mais espiritual a vida do homem, mais ele será capaz de entender a Bíblia.

Uma segunda questão. Por sermos fracos e gabarmos em nossas enfermidades, temos de rezar a Deus pedindo para que Ele abra os olhos de nosso entendimento pela Sua graça. Mesmo os discípulos de Cristo, na estrada para Emaús, não entenderam as Escrituras; eles não entenderam que era Cristo diante deles interpretando as Escrituras, até que o próprio Cristo abriu-lhes a mente (Lucas 24:45). Portanto, até que tenhamos nossas mentes abertas – algo que vem da graça de Deus – leremos as Escrituras sem entendê-las; ouviremos sem entendê-las, veremos sem vê-las.

A inspiração da Bíblia

Por que dizemos que a Bíblia é a palavra inspirada de Deus? Entre ocultistas e espíritas, há um fenômeno conhecido por psicografia, no qual a pessoa literalmente é possuída por um espírito e escreve sem usar o livro arbítrio. De fato, a última moda desse tipo de ocultismo é sentar-se em frente a uma máquina de escrever e deixar o espírito se apossar de seus dedos, até que a "mensagem espiritual" surja. Não é assim que as Sagradas Escrituras são inspiradas. Esse é o jeito dos demônios operarem. São Basílio, em sua introdução aos comentários ao livro de Isaías, afirma:

"Algumas pessoas pensam que os profetas profetizavam em êxtase, de maneira que suas mentes humanas estivessem eclipsadas pelo Espírito. Mas é contra a promessa de Deus que a inspiração divina se dê em estado de êxtase, isto é, de maneira que a pessoa saia de seu estado normal e assim forneça ensinamentos divinos, e que beneficie os outros sem que ela mesma se beneficie de suas próprias palavras...E, no geral", São Basílio prossegue, "não é irrazoável que o espírito de sabedoria deixe uma pessoa fora de si e que o espírito do conhecimento aniquile seu poder racional? A luz não produz escuridão mas, ao contrário, desperta o poder natural da visão. E o Espírito não produz trevas nas almas mas, pelo contrário, desperta a visão mental ou contemplação naqueles purificados de máculas pecaminosas".

A revelação das Sagradas Escrituras é dada aos homens santos e puros em estado exaltado e inspirado, mas eles retêm controle total de suas faculdades mentais. Aqueles que desejam entender as Escrituras devem, a exemplo dos santos, lutar por uma vida santa e pura, recebendo a graça de Deus para entender o que o Espírito Santo revelou. São Basílio, na mesma introdução, escreve:

"O primeiro grande dom, que requer uma alma cuidadosamente purificada, é conter em si inspiração divina e profetizar os mistérios de Deus. [Ele se refere à pessoa que escreve as Escrituras]. E, em seguida, o segundo dom, que igualmente requer grande e assíduo cuidado, é prestar atenção às intenções do que foi declarado pelo Espírito, e não errar em seu entendimento, mas deixar-se conduzir a esse entendimento pelo Espírito". Ou seja, o segundo dom é entender o que esses profetas, os autores das Sagradas Escrituras, escreveram em seu estado inspirado. Portanto, nós também devemos lutar para receber a graça de Deus e a inspiração para entender as Escrituras; o trabalho de interpretar as Escrituras não é nada fácil. De fato, São Basílio ensina: "Há muitos trechos das Escrituras extremamente difíceis de entender". Como assim? Ele ensina:

"Nosso Criador não desejou que fôssemos como os animais e que todas as conveniências da vida nascessem conosco [isto é, peles para nos adornar, chifres para nos defender etc.] para que o uso da mente se tornasse algo necessário; assim também são as Escrituras. Ele permitiu nelas uma ausência de clareza para benefício da mente, para que nela despertasse sua atividade. Aquilo que se obtém pelo labor se adere a nós de alguma maneira, e aquilo que é produzido por um longo período é mais sólido, enquanto que aquilo que se obtém facilmente não é muito desfrutado". Ou seja, as Escrituras são explicitamente difíceis para que forcemos nossas mentes a se elevarem a certo estado de entendimento, e não simplesmente receber de bandeja um sentido óbvio.

Tudo isso mostra que a leitura da Bíblia não é para ser encarada de maneira superficial; não é uma questão de reunir e selecionar informações. Ao invés disso, é para salvação de nossas almas. E, à medida que lemos, temos de estar imersos num processo de mudança, pois este é o propósito da Bíblia. Se não somos convertidos, é para que nos convertamos. Se já somos convertidos, é para que lutemos ainda mais. Se já estivermos lutando, é para que nos humilhemos e não pensemos que somos grande coisa. Não há estado no qual as Escrituras não se apliquem.

Isso tudo é radicalmente diferente das doutrinas protestantes, que encaram as Escrituras como se fossem um oráculo infalível (o que, na verdade, não é muito deferente da crença na infalibilidade do Papa de Roma) e que o bom senso humano é capaz de entender seu significado. Se vocês observarem as inúmeras seitas protestantes, verificarão que cada uma delas tem interpretações peculiarmente diferentes das mesmas passagens, e todas dizem que é o sentido "obviamente" correto. Às vezes eles aprendem grego e dizem que é "obviamente" o que aquele trecho grego quer dizer, enquanto outros afirmam exatamente o oposto e acham que isso é igualmente "óbvio". Como saber o que realmente essas passagens querem dizer?

Como interpretar as Escrituras

Primeiramente, vejamos alguns exemplos de como não interpretar as Escrituras.

Há inúmeras passagens nas Escrituras que parecem se contradizer. Por exemplo, Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nEle; e não pode pecar, porque é nascido de Deus (I João 3:9). De acordo com o sentido literal, vocês pensariam que uma pessoa que se torna cristã cessa de pecar. Mas se fosse assim, então para que a confissão? Por que continuamente pecamos? Será que isso significa que não somos cristãos? Mas na mesma epístola lemos: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós (I João 1:8). Como o mesmo autor pôde escrever duas passagens tão aparentemente contraditórias? É óbvio que temos de encontrar um entendimento mais profundo nelas. Temos de entender que enquanto temos a graça de Deus, não pecamos; quando pecamos isso prova que perdemos a graça de Deus, e temos de lutar para reconquistá-la. Não devemos nos enganar achando que estamos constantemente em estado puro, sem pecado; em vez disso, estamos constantemente lutando para atingir tal estado, às vezes conseguindo, às vezes não. Eis nossa batalha cristã. Essas passagens devem ser lidas com a consciência do que significa lutar enquanto cristão ortodoxo.

São Mateus afirma: E a ninguém na terra chamais vosso pai (23:9). Muitos protestantes interpretam esse trecho literalmente, recusando-se assim a chamar qualquer sacerdote de "Padre". Mas o próprio livro de São Mateus chama a Abraão de nosso pai (3:9). Claro, esse trecho se refere a pais que estão mortos; é uma diferença. Em sua epístola aos Hebreus, São Paulo fala de pais e profetas do Velho Testamento; eles também estão mortos. Mas ele também fala de pais vivos: Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo (I Cor 4:15). Aqui ele afirma com clareza que "Eu sou teu pai espiritual". Ele não afirma isso com muitas palavras, então os protestantes fazem vista grossa. No entanto, ele está dizendo que você não tem muitos pais, portanto tem alguns, e eu sou um deles porque "vos gerei em Jesus Cristo". Esse trecho parece contradizer o Senhor, que diz E a ninguém na terra chamais vosso pai. Mas Nosso Senhor está falando dAquele Pai; há somente um Pai no sentido de que ninguém mais é Pai. Há outros pais em sentido limitado: há alguns pais espirituais, há pais na carne..., todos são pais, mas de tipos diferentes; assim como Ele diz: "Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo" (Mateus 23:10).

Literal vs. não-literal

Certa vez, recebemos a visita de um grupo de protestantes que diziam interpretar a Bíblia de maneira absolutamente literal. Questionei-lhes a respeito do trecho que diz "Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos" (João 6:53). A primeira coisa que disseram foi: "Bem, isto não é para ser tomado literalmente". Eles se contradisseram imediatamente. Eles acham que aceitam tudo literalmente, mas abrem exceções aos trechos que não concordam com suas crenças.

Muitos trechos das Escrituras só podem ser compreendidos em um contexto dogmático – que a pessoa recebe de outras escrituras ou de outra fonte, seja da autoridade da Igreja ou de opiniões pessoais de algum professor. Alguns adventistas, comentando a promessa do Senhor ao bom ladrão – Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso (Lucas 23:43) – defendem a idéia de que o trecho está mal traduzido; o correto seria Em verdade te digo hoje que estarás..., pois eles crêem que quando uma pessoa morre, sua alma adormece, e portanto o ladrão não poderia estar com Cristo no Paraíso hoje. Eis um exemplo de alteração do significado das Escrituras para que se conforme com suas próprias crenças. E como sua doutrina dogmática está incorreta neste ponto, sua interpretação das Escrituras também estará.

Questões assim surgem quando nos detemos em versículos da Bíblia de maneira isolada. Muitos protestantes discutem por horas, às vezes anos, em tais questões. É importante não nos deixarmos atolar nelas. Devemos entender os princípios para uma correta interpretação das Escrituras. Eis o que ensina São João Crisóstomo, em sua homilia sobre Filipenses:

"Não devemos nos apegar às palavras das Escrituras e arrancá-las de suas conexões e contextos. Não devemos tomar palavras isoladamente, desprovendo-as do apoio das palavras que a precedem e que a seguem, simplesmente para ridicularizá-las e fraudá-las. Pois se até mesmo nos tribunais, onde se examinam as questões mundanas, apresentamos tudo o que serve ao caso – lugar e tempo, causas, pessoas e muito mais – então não seria absurdo citar a esmo palavras das Escrituras quando temos diante de nós a luta pela vida eterna?"

É precisamente o que fazem muitos protestantes; como não dominam o contexto nem possuem o dogma teológico completo, eles citam as Escrituras a esmo: "É óbvio que isto significa aquilo". Mas as Escrituras devem ser inseridas no devido contexto, tanto no livro em que são citadas como no resto da Bíblia, e em todo ensinamento do Cristo conforme transmitido por Sua Igreja.

Uma questão espinhosa nas Sagradas Escrituras é saber o que deve ser interpretado literalmente e o que não deve ser interpretado literalmente. Não podemos responder essa questão na base do "bom senso" porque isso só fomentaria o surgimento de novas seitas. São Simeão, o Novo Teólogo, um grande Santo Padre do século XI, explica essa questão de forma concisa:

"Cristo, o Mestre de tudo, ensina diariamente por meio do Santo Evangelho, falando algumas coisas de maneira velada, quando Ele faz uso de parábolas, para que poucos possam entender. E algumas dessas coisas Ele explica mais tarde a seus discípulos, dizendo A vós vos é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros por parábolas (Lucas 8:10). Mas outras coisas Ele fala abertamente, para todos, conforme atestou o Apóstolo, Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma (João 16:29)... Portanto, é nosso dever investigar e descobrir quais palavras o Senhor ensinou de maneira clara e aberta e quais Ele ensinou de maneira velada, por parábolas".

São Simeão dá exemplos de quando Nosso Senhor fala abertamente. Por exemplo, Amai a vossos inimigos (Mateus 5:44). Devemos entender isso literalmente. Ou, nas beatitudes: Bem-aventurados os que choram pois serão consolados etc. Devemos entender da maneira como está escrito; é tempo de chorar. E mais, Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus (Mateus 3:2); ou Quem ama sua vida perdê-la-á (João 12:25); ou Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me (Mateus 16:24).

Algumas dessas coisas são difíceis de cumprir. Outras são dificílimas até mesmo para nossas mentes humanas captar. Mas, com o conhecimento do Reino dos Céus e a vida espiritual, elas se tornam claras e são interpretadas literalmente, mesmo que às vezes com o uso de metáforas.

Como exemplos de parábolas, São Simeão fala da fé enquanto grão de mostarda (Lucas 13:31), ou do Reino dos Céus enquanto pérola de grande valor (Mateus 13:45), ou fermento (Mateus 13:33). Continua São Simeão:

"Portanto, reflitam, eu vos imploro, sobre a grandeza da sabedoria de Deus, que por meio de tais exemplos sensoriais, aparentemente rasteiros, pinta para nós como um artista que esboça em nossa mente aquilo que é impensável e inacessível. Ele age assim para que os descrentes permaneçam cegos, desprovidos de conhecimento das boas coisas do céu, pois se tornaram indignos em função de sua descrença; e para que os crentes, por outro lado, ao ouvirem e receberem com fé a mensagem da parábola, possam enxergar a verdade e conhecer limpidamente a realidade nas coisas que são mostradas pelas parábolas, pois as parábolas são as imagens das coisas espirituais" (Homilia 53).

São Simeão também ensina que, além do que é dito abertamente, as epístolas dos Apóstolos contêm muitas coisas ocultas.

Há casos estreitamente relacionados com essa questão dos significados místicos vs. literais, nos quais objetos materiais são citados para que nossas mentes se elevem às realidades espirituais. Isso não quer dizer que devemos ficar procurando símbolos nas Escrituras, como se tudo ali tivesse um significado a mais; é uma questão de elevar-nos a um nível espiritual onde possamos começar a entender a realidade espiritual da qual os autores inspirados freqüentemente versavam. Assim, quando David diz, Soltaste as minhas ataduras (Salmos 115:16), ele não se refere apenas às ataduras físicas, mas trata-se de um símbolo para o livramento da corrupção e da morte. Este é o sentido místico. Mas ele não está usando a imagem mundana das "ataduras" somente para expressar o sentido místico, a ausência de corrupção ou a imortalidade; ele também versa, ao mesmo tempo, de um segundo nível de significado, usando a imagem física enquanto oportunidade para expressar a verdade espiritual da libertação da corrupção. Se já conhecemos o ensinamento cristão sobre a queda de Adão, a corrupção do mundo e nossa redenção por Jesus Cristo, e se já estamos lutando para elevar-nos a esse nível espiritual, não necessitamos de comentários que nos expliquem as palavras, isto é, os Santos Padres até nos ajudariam, mas não precisaríamos de um comentário deles simplesmente para nos informar que "x=y". As próprias palavras expressam esse sentido espiritual. Qualquer um que leia e reze com os Salmos já experimentou isso. Especialmente em tempos de aflição, as palavras dos Salmos adquirem um novo e mais profundo significado; descobrimos que as coisas físicas referem-se a nossas aflições e depressões, e a nossa necessidade de receber libertação de Cristo.

Os ofícios ortodoxos estão cheios desse tipo de linguagem, a qual chamamos de poesia sacra. A chave para entender essa poesia é viver uma vida espiritual, que é a respeito da qual versam as Escrituras.

Em suma, o entendimento das Escrituras requer a graça de Deus. São Simeão, o Novo Teólogo, dá uma excelente imagem disso:

"O conhecimento espiritual é como uma casa construída em meio à sabedoria grega e mundana, em cujo interior encontra-se o conhecimento das Sagradas Escrituras – como se fosse um cofre bem aferrolhado – e o inexprimível tesouro escondido nesse conhecimento, isto é, a graça divina. Aqueles que nela adentram não conseguem enxergar esse tesouro se o cofre não lhes for aberto, mas esse cofre não pode ser desaferrolhado pela sabedoria humana. Eis por que as pessoas que pensam de maneira mundana não conhecem o tesouro espiritual que se esconde por trás do cofre do conhecimento espiritual. E assim como aquele que carrega esse cofre nos ombros não consegue enxergar o tesouro que lá se encontra, assim também aquele que lê e decora as Escrituras, recitando-as todas como se fossem um simples salmo, é incapaz só por isso de adquirir a graça do Espírito Santo, que nelas se esconde. Pois assim como aquilo que se esconde no cofre não pode ser revelado pelo próprio cofre, assim também o que está oculto pelas Sagradas Escrituras não pode ser revelado pelas próprias Escrituras" (Homilia 39).

Essa passagem é muito interessante; ela mostra claramente como os protestantes estão errados – pois as Escrituras não revelam o significado das Escrituras. Em vez disso, é a graça de Deus que o revela. São Simeão prossegue:

"Quando Deus habita em nós e revela-Se a nós conscientemente, é então que despertamos para o conhecimento, isto é, passamos a entender na realidade aqueles mistérios ocultos nas divinas Escrituras. Mas é impossível conquistarmos isso de outra maneira. Aqueles que não sabem e não experimentaram o que estou falando ainda não saborearam a doçura da vida imortal que possuem as palavras divinas, e ostentam apenas seu próprio conhecimento; eles depositam a esperança de sua salvação somente no conhecimento das Escrituras e no fato de que as conhecem de cor. Após a morte, essas pessoas serão mais severamente julgadas do que as que nunca ouviram falar das Escrituras. Especialmente aqueles que se desviaram em sua ignorância, corrompendo o significado das divinas Escrituras e interpretando-as de acordo com suas paixões. Para eles, o poder das Escrituras é inacessível... Aquele que tem toda a Escritura nos lábios não consegue entender e conquistar a glória e o poder místicos nela ocultos se não cumprir os mandamentos de Deus e receber o Consolador, o Espírito da Verdade. É Ele que pode lhe abrir as palavras das Escrituras enquanto livro, e mostrar-lhe a glória mística que nelas se encontra e pode, ao mesmo tempo, mostrar-lhe o poder e a glória de Deus, as boas coisas nelas ocultas, juntamente com a vida eterna que delas abunda. Mas todas essas coisas estarão ocultas e desconhecidas para aqueles que tratam com descuido e desdém os mandamentos de Deus".

Portanto, para lermos e entendermos a Bíblia, devemos viver de acordo com os mandamentos, recebendo a graça do Espírito Santo, até mesmo da maneira que os autores dos livros sagrados viviam. E devemos ser ávidos e zelosos em nossa leitura. São João Damasceno, um grande Santo Padre ortodoxo do século VIII, que resumiu o ensinamento dos primeiros Padres em seu livro Da Fé Ortodoxa, disse: "Batamos casualmente, mas com avidez e persistência, e não desistamos, pois assim se nos abrirá. Se lermos uma e depois duas vezes e mesmo assim não entendermos o que lemos, não nos desencorajamos. Persistamos, reflitamos e investiguemos, pois está escrito Pergunta a teu pai, e ele te informará; aos teus anciãos, e eles te dirão (Deuteronômio 32:7). Pois nem todos têm conhecimento. Aproveitemos, da fonte do paraíso, toda água pura e corrente que brota vida eterna; alegremo-nos nelas; alegremo-nos gulosamente nelas para nossa própria saciedade, pois elas contêm a graça que jamais se exauri".

Outra questão importante referente à abordagem adequada ante as Escrituras é a humildade, isto é, não devemos esperar "entender" logo na primeira leitura, como se nosso bom senso fosse capaz disso; o que devemos ter é a idéia muito humilde de que provavelmente uma grande porção do entendimento do que acabamos de ler nos escapou, mesmo nos trechos mais "óbvios". Essa humildade é fundamental, pois a causa de todas as seitas protestantes, que se baseiam em diferentes interpretações bíblicas, é o orgulho. Eles lêem e pensam: "Eu entendi o que está escrito". E estão errados. Quando lemos as Escrituras, devemos pensar: "Entendi um pouquinho, meus padres me ensinaram, li comentários e ouvi sermões a respeito, meu entendimento está de acordo com o que a Tradição da Igreja me ensinou, mas, mesmo assim, não confio totalmente no que penso ter entendido". Não podemos simplesmente aceitar a primeira idéia que brota em nossas mentes – nem a segunda, nem a terceira; devemos nos aprofundar, verificando o que os Padres ensinam, o que a Igreja ensina, como ela se encaixa nos demais livros da Bíblia, sempre pensando que nosso conhecimento das Escrituras – não importa o quanto saibamos – é sempre deficiente; nunca sabemos o bastante; temos de estar sempre aptos a aprender mais.

1 Trata-se do Salmo 119(118, LXX):161-162. (N. do T.)

7 de agosto de 2007

Como ler os Santos Padres

Pe. Serafim (Rose) de Platina
Esta Patrologia apresentará os Padres da espiritualidade ortodoxa; portanto, seu escopo e objetivo são diferentes dos cursos comuns de Patrologia. Nosso objetivo aqui será duplo: (1) Apresentar os fundamentos teológicos da vida espiritual ortodoxa – a natureza e o objetivo da luta espiritual, a visão patrística da natureza humana, as características da atividade da graça divina e do esforço humano etc.; e (2) fornecer o ensinamento prático dessa vida espiritual ortodoxa, caracterizando os estados espirituais, tanto bons quanto ruins, nos quais as pessoas se encontram ou passarão no decurso de suas lutas espirituais. Portanto, questões estritamente dogmáticas sobre a natureza de Deus, a Santíssima Trindade etc. serão abordadas somente quando apresentarem alguma relação com a vida espiritual; e muitos Santos Padres, cuja literatura lida principalmente com essas questões dogmáticas e somente secundariamente com as questões da vida espiritual, não serão abordados de maneira alguma. Em suma, será em essência um estudo dos Padres da Philokalia, aquela coleção de livros espirituais ortodoxos reunida na aurora da era moderna, pouco antes do despertar da bárbara Revolução Francesa, cujos efeitos finais estamos testemunhando em nossos dias de anarquia e governos ateístas.

Nos últimos tempos, o interesse pela Philokalia e seus Santos Padres tem crescido consideravelmente. Em particular, os mais recentes Padres, tais como São Simeão, o Novo Teólogo, São Gregório, o Sinaíta, e São Gregório Palamás, começaram a ser estudados e algumas de suas obras traduzidas e impressas em inglês e em outras línguas ocidentais. É até possível dizer que em alguns seminários e círculos acadêmicos eles estão “na moda”, em total contraste com o século XIX, quando eles estavam “fora de moda” na maioria das academias teológicas ortodoxas (ao contrário dos melhores mosteiros, que sempre preservaram suas memórias enquanto santos e viveram com base em suas obras).

Mas esse dado apresenta um grande perigo que deve aqui ser enfatizado. O fato das obras mais profundamente espirituais estarem “na moda” não é, de maneira alguma, uma coisa boa. Na verdade, seria muito melhor que os nomes desses Padres permanecessem desconhecidos do que serem objeto de estudo de acadêmicos racionalistas e “convertidos malucos”, que não extraem benefício algum delas mas somente aumentam seu orgulho insensível por “saberem mais” sobre elas do que os outros, ou – pior ainda – começarem a seguir suas instruções espirituais sem preparação adequada e sem guiamento espiritual. Mas isso não quer dizer que o amante da verdade deva abandonar a leitura dos Santos Padres; que Deus não o permita! Mas significa que nós – acadêmicos, monges ou simples leigos – devemos nos aproximar desses Padres com temor a Deus, humildade e grande desconfiança em relação à nossa própria sabedoria e capacidade de julgamento. Nós nos aproximamos deles para aprendermos e, acima de tudo, devemos admitir que necessitamos de um guia. E os guias existem: em nossa época, quando os anciãos já se foram, nossos guias devem ser os Padres que nos ensinaram como ler – e como não ler – as obras ortodoxas sobre a vida espiritual. Se o próprio Abençoado Ancião Paísio Velichkovsky, o compilador da Philokalia em eslavo, ficou “paralisado de temor” ao ser informado de que tais livros seriam impressos e que não mais circulariam em manuscritos entre alguns poucos mosteiros, então com ainda mais temor deveríamos nos aproximar deles e entender a causa desse temor, para que não caia sobre nós a catástrofe espiritual que ele anteviu.

O Abençoado Paísio, em sua carta ao Arquimandrita Teodósio da Ermida de São Sofrônio [1], escreveu: “A publicação de livros patrísticos, tanto em grego quanto em eslavo, é algo que me deixa paralisado de alegria e temor. Alegria porque não estarão fadados ao esquecimento, e os fiéis poderão adquiri-los com mais facilidade; com temor porque serão vendidos como livros quaisquer, não apenas para monges mas para todos os cristãos ortodoxos, e estes poderão, após estudar a arte da oração mental de maneira independente, sem instrução de alguém com experiência, se deixar enganar e blasfemar contra tais obras santas e irrepreensíveis, que foram testemunhadas por tantos Santos Padres... e, por causa dessas blasfêmias, surgiriam dúvidas a respeito dos ensinamentos dos Santos Padres”. A prática da Oração de Jesus, concluiu o Abençoado Paísio, é possível somente sob obediência monástica.

Em nossa época de luta ascética tão débil, são poucos os que se esforçam na oração mental (ou que ao menos saibam do que se trata); mas os alertas do Abençoado Paísio e demais Santos Padres valem também para aqueles que se esforçam pouco, como os cristãos ortodoxos de hoje. Quem quer que leia a Philokalia e demais obras dos Santos Padres, e até mesmo muitas vidas de santos, esbarrará em trechos sobre oração mental, visão divina, deificação e demais estados espirituais exaltados, e é essencial que os cristãos ortodoxos saibam o que pensar e sentir sobre tais trechos.

Portanto, vejamos o que dizem os Santos Padres sobre isso e a abordagem que devemos adotar perante os Santos Padres em geral.

O Abençoado Ancião Macário de Optina (+ 1860) achou necessário escrever um “Alerta aos que lêem obras patrísticas espirituais e desejam praticar a Oração mental de Jesus” [2]. Este grande Padre nos ensina, de maneira muito clara, qual deve ser nossa postura diante de tais estados espirituais: “Os Santos Padres escreveram sobre os notáveis dons espirituais não para que qualquer um os receba de maneira indiscriminada, mas para aqueles que não os têm possam ouvir sobre tais dons e revelações recebidos por aqueles que foram dignos e possam, dessa maneira, se conscientizar de suas grandes e profundas fraquezas e insuficiências, e possam crescer em humildade, pois isto é mais necessário à salvação do que todas as demais obras e virtudes”. E eis o que diz São João da Escada (século VI): “Assim como um miserável, ao vislumbrar os tesouros do rei, fica ainda mais ciente de sua pobreza; assim também o espírito, ao ler os grandes feitos dos Santos Padres, involuntariamente se tornará mais humilde na sua maneira de pensar” (Degrau 26:25). Dessa forma, nossa abordagem em relação à literatura dos Santos Padres deve ser de humildade.

Novamente, eis o que diz São João da Escada: “Admirar os esforços dos santos é louvável; emulá-los é salvífico; mas desejar repentinamente imitá-los é algo sem sentido e impossível” (Degrau 4:42). Santo Isaque, o Sírio, (século VI) ensina em sua segunda homilia (resumida pelo Ancião Macário de Optina, op. cit., pág. 364): “Aqueles que buscam doces sentimentos espirituais na oração, e especialmente aqueles que aspiram prematuramente por visões e contemplações espirituais, caem nas armadilhas do inimigo e no reino das trevas e do obscurantismo mental, sendo abandonados pela providência de Deus e entregues aos demônios porque seus orgulhosos anseios estão acima de sua medida e dignidade”. Portanto, devemos nos aproximar dos Santos Padres com a intenção humilde de começar a vida espiritual no degrau mais baixo, e nem mesmo sonhar em alcançar tais estados espirituais exaltados, que estão totalmente acima de nossa capacidade. São Nilo de Sora (+ 1508), um recente Padre russo, escreveu em sua Regra Monástica (cap. 2): “O que dizer daqueles que, em seus corpos mortais, receberam alimento imortal, que foram dignos de receber, nesta transitória vida, uma porção das alegrias que nos aguardam em nossa terra natal celestial?... Nós, que estamos sobrecarregados com tantos pecados e depredados por paixões, somos indignos até mesmo de ouvir tais palavras. Apesar disso, ao depositar nossa esperança na graça de Deus, encorajamo-nos a manter as palavras das santas escrituras em nossas mentes, de maneira que possamos pelo menos aumentar a consciência da degradação em que nos encontramos”.

Em auxílio à nossa humilde intenção de ler os Santos Padres, devemos começar pelos livros patrísticos mais elementares, isto é, aqueles que nos ensinam o ABC. Um noviço de Gaza do século VI escreveu a um grande ancião, São Barsanúfio, mais ou menos no mesmo espírito que os inexperientes estudantes ortodoxos de hoje: “Possuo livros dogmáticos e, quando os leio, sinto que minha mente é transferida de pensamentos passionais para a contemplação dos dogmas”. E o Ancião lhe respondeu: “Não quero que você se ocupe desses livros, pois eles exaltam demais a mente; mas é melhor estudar as obras dos Anciãos que tornam a mente humilde. Não digo isso para fazer pouco caso dos livros dogmáticos mas como um conselho para você; pois os alimentos são diferentes”. (Perguntas e Repostas, nº 544). Um objetivo importante desta Patrologia será precisamente indicar quais livros são os mais adequados aos iniciantes, e quais devem ser deixados para mais tarde.

Repetindo: diferentes livros patrísticos são adequados para cristãos ortodoxos em diferentes condições de vida: aqueles que são voltados especialmente para reclusos não são aplicáveis a monges vivendo em comunidade; aqueles que se aplicam a monges em geral não serão diretamente relevantes aos leigos; e, em todas as situações, o alimento espiritual dedicado àqueles que já têm alguma experiência será indigesto aos iniciantes. Quando certo equilíbrio na vida espiritual tenha sido alcançado pela prática ativa dos mandamentos de Deus dentro da Igreja Ortodoxa, por meio da leitura proveitosa das obras elementares dos Santos Padres e do guiamento de padres vivos – então um grande benefício de todos as obras dos Santos Padres será extraído, aplicando-as às próprias condições de vida. Eis o que o Bispo Ignácio Brianchaninov escreveu a respeito: “Tem-se notado que os noviços nunca conseguem adaptar os livros às suas próprias condições, mas se deixam levar pela tendência do livro. Se um livro fornece conselhos espirituais sobre o silêncio e apresenta os abundantes frutos espirituais que se seguem ao profundo silêncio, o iniciante invariavelmente sentirá um forte desejo de entrar em reclusão em algum deserto inabitado. Se um livro versa sobre obediência incondicional sob a direção de um guia espiritual, o iniciante inevitavelmente desenvolverá um desejo de abraçar uma vida rígida, em completa submissão a um ancião. Deus não condescendeu aos nossos tempos nenhum desses dois tipos de vida. Mas os livros dos Santos Padres que descrevem esses estados podem influenciar um iniciante de maneira tão forte que, de pura ignorância e inexperiência, ele facilmente decidirá deixar o lugar onde vive e onde tem totais condições para ser salvo praticando os mandamentos evangélicos, e se entregará a um sonho impossível de vida perfeita, retratada de maneira vívida e sedutora em sua imaginação”. Portanto, conclui ele: “Jamais confie em seus pensamentos, opiniões, sonhos, impulsos ou inclinações, mesmo que eles lhe ofereçam uma vida monástica das mais santas” (A Arena, cap. 10). Aquilo que o Bispo Ignácio diz sobre monges aplica-se também aos leigos, guardando-se as devidas proporções nas condições de vida envolvidas. Comentários específicos sobre leituras espirituais para leigos serão fornecidos ao final.

São Barsanúfio aponta, em outra Resposta (nº 62), algo muito importante para nós que abordamos os Santos Padres de maneira excessivamente acadêmica: “Aquele que se preocupa com sua salvação não deveria perguntar [aos Anciãos, isto é, ler obras patrísticas] sobre a aquisição somente de conhecimento, pois o conhecimento incha (I Cor. 8:1), conforme disse o Apóstolo; mais correto é perguntar sobre as paixões e como deveria viver, isto é, como ser salvo; pois isto é necessário e leva à salvação”. Portanto, não se deve ler os Santos Padres a título de mera curiosidade ou exercício acadêmico, sem a intenção ativa de praticar o que eles ensinam, de acordo com seu próprio nível espiritual. Os “teólogos” modernos já nos fizeram o favor de demonstrar que é perfeitamente possível possuir muita informação abstrata sobre os Santos Padres sem absolutamente nenhum conhecimento espiritual. Eis o que disse São Macário, o Grande, dessa gente (Homilia 17:9): “Assim como um mendigo que sonha que é rico mas, ao acordar, se vê novamente pobre e nu, assim também aqueles que deliberam sobre a vida espiritual parecem falar logicamente mas, à medida em que não se verifica neles nenhum tipo de experiência, poder e confirmação sobre aquilo que versam, eles permanecerão em um tipo de fantasia”.

São Barsanúfio, ao responder a um noviço que pensa ter caído em soberba e orgulho ao falar sobre os Santos Padres (Resposta nº 697), nos ensina um teste para que detectemos se nossa leitura dos Santos Padres é real ou acadêmica: “Quando tu conversas sobre a vida dos Santos Padres e sobre suas Respostas, deverias condenar-te dizendo: Ai de mim! Como posso falar das virtudes dos Padres enquanto eu mesmo não adquiri nada e não progredi em nada? E eu vivo instruindo os demais para seu próprio benefício; como podem as palavras do Apóstolo não se aplicarem a mim: Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? (Rom. 2:21)”. Portanto, a postura diante dos ensinamentos dos Santos Padres deve ser de auto-reprovação.

Enfim, devemos nos lembrar que o propósito de ler os Santos Padres não é obter um tipo de “divertimento espiritual” ou reforçar nossa retidão ou conhecimento superior ou estado “contemplativo”, mas apenas nos auxiliar na prática do caminho ativo da virtude. Muitos Santos Padres tratam da diferença entre a vida “ativa” e a “contemplativa” (ou, mas precisamente, “noética”), mas que fique claro que tal diferença não se refere, como alguns pensam, a uma distinção artificial entre a vida “comum” da “Ortodoxia exterior” ou das meras “boas obras” e a vida “interior” cultivada somente por monges ou por alguma elite intelectual; não mesmo. Há apenas uma vida espiritual ortodoxa, e ela é vivida por todo ortodoxo praticante, seja monge ou leigo, seja iniciante ou avançado; “ação” ou “prática” (praxis em grego) é o caminho, e “visão” (theoria) ou “deificação” é o fim. Quase todos os escritos patrísticos se referem à vida da ação, não a da visão; esta é mencionada somente para nos lembrar do objetivo de nossos esforços e lutas, que nesta vida é experimentada somente por alguns dos grandes santos, mas desfrutada em plenitude somente nos séculos dos séculos. Mesmo os escritos mais exaltados da Philokalia, conforme escreveu o Bispo Teófano, o Recluso, no prefácio do volume final da Philokalia em russo, “têm em vista não a vida noética, mas quase que exclusivamente a vida ativa”.

No entanto, mesmo com esta introdução, os cristãos ortodoxos deste século de conhecimento inchado que desejam ler os Santos Padres em seu pleno sentido e contexto ortodoxos não escaparão de algumas ciladas. Portanto, paremos por aqui e, antes de começar a Patrologia em si, examinemos brevemente alguns dos erros que têm sido cometidos por leitores contemporâneos, com a intenção de formar uma boa noção de como não ler os Santos Padres.

Notas:
1. Edição do Mosteiro de Optina da Vida e Obra do Ancião Paísio, pág. 265-267.
2. De sua coletânea de Cartas aos Monges, Moscou, 1862, pág. 358-380 (em russo).

Publicado na revista The Orthodox Word, Vol.11, nº 1 (Jan-Fev 1975), pág. 35-41.

23 de julho de 2006

A abolição do Homem e o triunfo da Natureza

O escritor britânico C.S. Lewis (1898-1963), nascido na Irlanda do Norte, tornou-se relativamente conhecido no Brasil após o lançamento do filme As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Compondo uma série de sete excelentes histórias infantis, As Crônicas de Nárnia não representam, no entanto, o que há de melhor nos escritos de Lewis: seus livros de não-ficção.

Lewis foi ateu por muitos anos até que, em 1931, converteu-se ao Cristianismo, passando a freqüentar a Igreja Anglicana e a participar de seus ritos e cultos. Sua maior preocupação, porém, não era propagar especificamente a doutrina anglicana, mas explicar aos leitores os fundamentos do Cristianismo, fundamentos esses que Lewis entendia serem comuns a todas as denominações cristãs. Mas talvez ainda mais importante do que suas obras apologéticas sejam as contribuições de Lewis para refutar as bases do pensamento modernista, que se julga evoluído e mais inteligente em relação a seus antepassados atrasados, supersticiosos e burros.

The Abolition of Man (A Abolição do Homem) é, certamente, a obra de crítica ao modernismo mais conhecida de Lewis. Como o conservadorismo é, sob certos aspectos, uma reação ao modernismo e suas ideologias políticas - e sendo Lewis ele mesmo um conservador - espero, com este pequeno resumo, contribuir na formação do pensamento conservador brasileiro. Vou concentrar-me no argumento de Lewis, sendo que algumas questões paralelas por ele discutidas, embora pertinentes e importantes, serão desconsideradas, a título de brevidade.

* * *

C.S. Lewis inicia sua argumentação lançando uma crítica ao Livro Verde, escrito por Gaius e Titius. Trata-se de um livro de inglês, destinado a "meninos e meninas das últimas séries". Na verdade, tanto o nome do livro quanto dos autores são pseudônimos, uma vez que o propósito de Lewis é criticar as idéias ali contidas, e não propriamente os autores; Lewis não quer passar a impressão de que tem algo pessoal contra eles.

No segundo capítulo, Gaius e Titius citam a conhecida história de Coleridge na cachoeira. Havia dois turistas presentes: um a chamou de "sublime", e o outro, de "bonita". Dizem os autores: "Quando o homem disse Isto é sublime, ele parecia fazer um comentário sobre a cachoeira... Na verdade... ele não estava falando da cachoeira, mas dos seus próprios sentimentos. O que ele realmente disse foi Eu tenho um sentimento que minha mente associa à palavra 'Sublime'... Essa confusão está sempre presente na nossa linguagem. Aparentamos dizer algo muito importante sobre alguma coisa, e na verdade estamos apenas dizendo algo sobre nossos próprios sentimentos".

Lewis percebe nesse raciocínio, à primeira vista inofensivo, uma visão-de-mundo repulsiva. Dessa explicação de Gaius e Titius depreende-se que:

1) Todas as frases que contenham julgamentos de valor ('Isto é sublime' etc.) são, na verdade, expressões sobre o estado emocional de quem as emite.

2) Essas expressões não têm nenhuma importância.

Lewis critica duramente tais tentativas modernas de 'desmascarar' emoções, afirmando que (1) fazer crítica literária é difícil, já 'desmascarar' a emoção com base num lugar-comum racionalista está ao alcance de qualquer bocó e (2) a mente dos jovens, ao contrário do que se pensa, não precisa ser resguardada de supostos excessos de sensibilidade, mas, ao contrário, precisa ser "despertada do sono da fria vulgaridade".

Para entender a perversão empreendida por Gaius e Titius, Lewis explica que "Até bem recentemente, os homens em geral acreditavam que o universo tinha uma natureza tal que nossas reações emocionais poderiam tanto ser congruentes como incongruentes em relação a ele - acreditavam, na verdade, que os objetos não são meros receptores, mas podem merecer nossa aprovação ou desaprovação, nossa reverência ou nosso desprezo. O homem que chamou a queda-d'água de sublime não tinha simplesmente a intenção de descrever as suas próprias emoções: ele também afirmava que o objeto merecia tais emoções" (grifos do autor). A partir daí, Lewis cita uma série de autores antigos, desde Aristóteles e Platão até Santo Agostinho, lembrando que a educação tradicional por eles sugerida, ao contrário de 'desmascarar' emoções, era precisamente treinar o jovem a sentir prazer, repulsa e ódio em relação às coisas que realmente são prazerosas, repulsivas e odiáveis.

Em suma, há uma doutrina do valor objetivo, uma ordem objetiva, por assim dizer, ao qual todas as tradições, de uma maneira ou de outra, se referem a respeito do que é o universo e do que somos nós. Pois essa ordem objetiva é a responsável por gerar a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras e outras realmente falsas. A título de brevidade, já que as tradições dão diferentes nomes a essa ordem, Lewis a chamará sempre de Tao. "E, uma vez que nossas aprovações e desaprovações são assim reconhecimentos do valor objetivo ou respostas a uma ordem objetiva, os estados emocionais podem portanto estar em harmonia com a razão (quando sentimos afeição por aquilo que merece aprovação) ou em desarmonia com ela (quando percebemos que a afeição é merecida mas não conseguimos senti-la). Nenhuma emoção é, em si mesma, um julgamento...todas as emoções e sentimentos são alógicos. Mas eles podem ser razoáveis ou irrazoáveis na medida em que se conformam à Razão ou não conseguem conformar-se".

Os homens que estão fora do Tao podem, assim, adotar duas posturas: (1) como Gaius e Titius, devem se empenhar em remover os sentimentos da mente das novas gerações ou (2) encorajar sentimentos por razões que nada tenham a ver com "pertinência" ou "merecimento" intrínsecos.
A primeira opção, isto é, a mera tentativa de neutralizar ou reverter os sentimentos despertados perante objetos e situações, a título de tornar as pessoas "objetivas" ou "racionais" resultará no que Lewis chama de "homens sem peito". Essa expressão foi inspirada em Alanus ab Insulis, segundo o qual a cabeça domina o estômago por meio do peito - que é o trono das emoções transformadas em sentimentos estáveis pelo hábito treinado. A cabeça é a razão, o peito os sentimentos estáveis e o estômago as emoções viscerais, desmedidas, irrazoáveis. Não é sem espanto constatarmos que, atualmente, pessoas assim são chamadas de "intelectuais". Lewis afirma, com um leve toque irônico, que "Suas cabeças não são maiores que as comuns: é a atrofia do peito logo abaixo que faz com que pareçam assim".

Ora, se pensarmos de maneira mais detida sobre essa questão, em especial sobre os autores do Livro Verde, veremos que não é verdade que eles desejem criar "homens sem peito". Isso fica claro quando percebermos que o próprio Livro Verde, o próprio fato de ter sido escrito e publicado, é um desejo de incutir novos valores e sentimentos nos leitores. Parece que os autores desmascaram os sentimentos e valores, e efetivamente o fazem, mas não é verdade que desejem parar por aí, senão não teriam escrito o livro que, exatamente pelo fato de ser sido escrito, manifesta um propósito de propagar novos valores aos jovens.

Titius e Gaius, ou quaisquer Inovadores que, semelhantemente a eles, desejem posicionar-se fora do Tao mas, mesmo assim, encontrar bases "realísticas" para novos valores, podem adotar duas posturas:

1) A base realística do "verdadeiro valor" reside na utilidade da ação para a comunidade. Ou seja, bom é aquilo que é útil para a comunidade. Mas tal postura exige a solução de um dilema: se nem toda a comunidade pode morrer, pois nesse caso a comunidade se extinguiria, então alguns membros dela deverão se sacrificar para proteger toda ela, como soldados num país em guerra. Levanta-se aqui a razoabilíssima questão: "Por que logo eu deveria ser um dos que se arriscam?" No fim das contas, o Inovador terá de apelar, afirmando que "a sociedade tem de ser preservada" é uma proposição racional em si, e não meramente sentimental; mas isso equivaleria, precisamente, a retornar ao Tao!

2) A base realística do "verdadeiro valor" reside nos instintos. Ora, mas isso é uma grande bobagem: dizer que alguém deve agir em obediência ao instinto é apenas uma maneira elegante de dizer que não se sabe por que agir assim. Afinal, alguns instintos devem ser obedecidos, outros não. Mesmo os Inovadores mais empedernidos reconhecem isso. Todavia, voltamos à questão: quais as bases para se privilegiar um instinto e desprezar outro? No fim das contas, o Inovador terá de apelar a um critério de decisão sobreposto ao instinto, dando cabo da própria teoria dos instintos.

Percebemos então, em ambas as posturas acima, que os Inovadores atacam os valores tradicionais, o Tao, fazendo uso velado e deformado do próprio Tao. Lewis afirma que as ideologias surgem exatamente daí: "Tudo aquilo que se pretende ser um novo sistema ou (como se diz agora) uma 'ideologia' consiste em fragmentos do próprio Tao, arbitrariamente arrancados de seu contexto e então hipertrofiados até a loucura em seu isolamento, mas devendo ainda ao Tao, e somente a ele, a validade que possuem". E conclui: "A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova".

Ora, quando os homens optam por sair do Tao, qual sistema de valores passarão a adotar? Se você não se dispõe a obedecer ao Tao, tampouco a cometer o suicídio, a obediência aos impulsos e gostos imediatos é a única via possível. Quando todas as noções que dizem "isto é bom" são desmoralizadas, permanece a que diz "eu quero".

O homem moderno, os Inovadores e Manipuladores do nosso tempo, sem o Tao ou com um Tao brutalmente deturpado, passam a manipular a Natureza, a fim de satisfazer seus desejos imediatos. É a chamada "conquista da Natureza pelo Homem", um eufemismo para o progresso das ciências aplicadas.

Lewis mostra que essa conquista, além de falsa, é inversa: é a Natureza que está conquistando o Homem. Todas as invenções, todos os "avanços" e "progressos", não representam o poder do Homem sobre a Natureza, mas o poder de alguns homens sobre o resto dos homens com a Natureza como instrumento. Avião, rádio, internet: não se pode dizer que estamos conquistando a Natureza com eles. Afinal, o Homem é tanto sujeito quanto objeto de tal poder: aviões são bons, mas não quando nos jogam bombas na cabeça; o rádio é bom, mas não quando terroristas o usam para intercomunicarem-se; a internet é boa, mas não quando é usada por Manipuladores para vasculhar nossa intimidade.

O que se quer dizer com isso é que essas invenções, muito além de apenas nos trazerem confortos e divertimentos, trazem em si o acúmulo cada vez maior de poder nas mãos de alguns poucos homens, à medida que a modernidade "avança". Lewis nos propõe um exercício de imaginação: como será o século C d.C.? Como estaremos vivendo lá pelo ano 10.000 d.C.? Quanto mais o tempo passa, cada vez menos homens têm cada vez mais poder em suas mãos. "Os últimos homens, longe de serem os herdeiros do poder, serão os que mais estarão sujeitos à mão mortal dos grandes Planejadores e Manipuladores, e serão os menos capazes de exercer algum poder sobre o futuro. Cada novo poder conquistado pelo homem é da mesma forma um poder sobre o homem. Cada avanço o deixa mais fraco, ao mesmo tempo que mais forte. O último estágio virá quando, mediante a eugenia, a manipulação pré-natal e uma educação e propaganda baseadas numa perfeita psicologia aplicada, o Homem alcançar um completo domínio sobre si mesmo. A natureza humana será a última parte da Natureza a se render ante o Homem".

Estes homens do futuro não serão homens: serão artefatos. "A conquista final do homem mostrou-se a abolição do Homem". A raça humana estará sujeita a alguns poucos indivíduos que, por sua vez, estarão sujeitos àquilo que neles mesmos é puramente "natural" - aos seus impulsos irracionais. A Natureza controla os Manipuladores, vencendo-os, em vez deles a vencerem.

Todas as coisas estarão reduzidas à mera condição de Natureza com o propósito, vejam vocês, de "conquistá-las". Isso tudo porque, estando fora do Tao, nossos valores resumem-se a impulsos e gostos. Lewis nos explica que "quando compreendemos uma coisa analiticamente e a dominamos e usamos para a nossa própria conveniência, nós a reduzimos à condição de 'Natureza'...e a tratamos quantitativamente. Realiza-se a supressão de certos elementos, impedindo que tenhamos uma percepção completa do objeto. As estrelas perderam seu aspecto divino conforme a astronomia se desenvolveu, e o Deus Morto não tem nenhuma função na agricultura da era química. As grandes mentes sabem muito bem que o objeto, tratado dessa forma [analítica], não passa de uma abstração artificial, e que com esse processo algo da sua realidade foi perdido".

A esse processo no qual o Homem cede cada vez mais objetos e, finalmente, a si próprio, em busca de poder, Lewis chamada de "oferta de bruxo". Uma expressão certamente surpreendente, uma vez que a nós parece que ciência aplicada e bruxaria situam-se em pólos opostos. Lewis explica, porém, que "Existe algo que une a bruxaria e a ciência aplicada ao mesmo tempo que se separa da 'sabedoria' dos tempos antigos. Para os sábios da antiguidade, o problema principal era como conformar a alma à realidade, e a solução encontrada foi o conhecimento, a autodisciplina e a virtude. Tanto para a bruxaria quanto para a ciência aplicada, o problema é como subjugar a realidade aos desejos dos homens, e a solução encontrada foi uma técnica; e ambas, ao praticarem essa técnica, se põem a fazer coisas até então consideradas repulsivas e impiedosas - tais como desenterrar e retalhar cadáveres".

A solução para esse terrível problema? Lewis até mesmo imagina e cogita uma "ciência regenerada", uma ciência que, ao tentar explicar algo, não abolisse esse algo, adquirindo o conhecimento por um preço mais módico do que a vida. Mas a tarefa de efetivamente propor um plano que reverta ou neutralize a ciência moderna parece estar acima da capacidade de Lewis, que admite nem mesmo saber exatamente o quê está pedindo com essa "ciência regenerada".

27 de abril de 2006

Estudos de Platão II - The Great Ideas Program

Eis a segunda leitura da República de Platão, conforme recomendada pelo The Great Ideas Program.

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The Great Ideas Program – Volume 10 – Philosophy
Second Reading – Plato, The Republic, Vol 7, pp. 386d-388a, 391b-401d

Sócrates divide o mundo em dois segmentos desiguais (proporção 2:1), que por sua vez são divididos em dois segmentos também desiguais (proporção 2:1). A desigualdade espacial dos segmentos refere-se à desigualdade em qualidade, isto é, quanto maior o segmento, mais importante (maior qualidade) terá.


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Sócrates convida Glauco a examinar como devem ser formados os homens com o caráter para governar o Estado.

A ginástica e as artes não são as ciências hábeis para tal uma vez que são mecânicas, isto é, lidam com o que se transforma e morre (corporal). Procuramos a ciência do essencial, não do passgeiro, efêmero, transitório.

Sócrates, então, prossegue sua investigação distinguindo objetos que não conduzem a duas sensações opostas, isto é, que não provocam a análise, dos objetos que conduzem a duas sensações opostas, isto é, que provocam a análise (ou seja, que provocam a inteligência). Expliquemos: a visão, em si, é incapaz de distinguir grandeza de pequeneza, grossura de finura etc., assim como o tato é, em si, incapaz de distinguir lisura de aspereza etc. A alma, perplexa com a vacuidade dos sentidos, ou seja, perplexa porque os sentidos dizem que algo é pequeno e grande ao mesmo tempo, faz uso do raciocínio e da inteligência para detectar se o que é visto é uma ou duas coisas. A vista, em si, é incapaz de distinguir um de dois.

O espírito, recebendo o múltiplo, é constrangido a indagar nele a unidade, pois que vemos a mesma coisa una e múltipla. Eis por que a aritmética, buscando a unidade em todos os números, até o infinito, é adequada ao filósofo para que ele alcance a essência. A aritmética tem o poder, pelo raciocínio abstrato, de levar a alma a regiões superiores, de fazer ver mais facilmente a idéia do Bem.

Similarmente, a geometria é recomendada ao filósofo, não como mera aplicação utilitária, como normalmente fazem os militares e artesãos, mas para utilizar-se das grandezas e medidas a fim de atingir suas essências. Isso se aplica também à ciência dos sólidos (modernamente chamada de “geometria espacial”), embora Sócrates e Glauco julgassem tal ciência como ainda em estágio subdesenvolvido, imprópria para os estudos filosóficos. Por extensão, a observação feita à aritmética, geometria plana e geometria espacial aplica-se também a astronomia: a lentidão/rapidez dos movimentos, por exemplo, cuja verdade deve ser apreendida pela razão e pela inteligência.

E, assim como a astronomia está ligada a visão, há uma ciência equivalente à audição: a música. O filósofo deve dedicar-se procurando números nos acordes e descobrindo quais são os números harmônicos.

O progresso ou método empregado para cada uma dessas artes, a fim de atingir o limite do inteligível, é a dialética. A dialética faz uso das artes acima para elevar a alma do homem às regiões superiores. Não há, portanto, ciência superior à dialética.

Sócrates repete as qualidades físicas e intelectuais que o protofilósofo deve possuir (ver estudo anterior). É notável que Sócrates aconselhe que as artes não devam ser ensinadas de maneira forçada pois, ao contrário do corpo cujos exercícios físicos forçados deles se aproveita, a alma rejeita a educação forçada. Sócrates prossegue, afirmando que os jovens abaixo de 30 anos de idade não devem ter muito contato com a dialética, uma vez que dela abusarão rapidamente, usando-a como um truque ou jogo.

Sócrates entende ainda que os jovens com mais de 30 anos de idade devem entregar-se à dialética pelo dobro do tempo que entregaram-se ao exercício físico, ou seja, aproximadamente 5 anos. Depois, esses jovens deverão retornar à “caverna”, exercendo funções militares durante aproximadamente 15 anos. Resumo: aos 30, o jovem dedica-se 5 anos à dialética e, aos 35, dedica-se 15 anos à funções militares e políticas. E depois dos 50 anos?

[A]nd when they have reached fifty years of age, then let those who still survive and have distinguished themselves in every action of their lives, and in every branch of knowledge, come at last to their consummation: the time has now arrived at which they must raise the eye of the soul to the universal light which lightens all things, and behold the absolute good; for that is the pattern according to which they are to order the State and the lives of individuals, and the remainder of their own lives also; making philosophy their chief pursuit, but, when their turn comes, toiling also at politics and ruling for the public good, not as though they were performing some heroic action, but simply as a matter of duty; and when they have brought up in each generation others like themselves and left them in their place to be governors of the State, then they will depart to the Islands of the Blessed and dwell there; and the city will give them public memorials and sacrifices and honor them, if the Pythian oracle consent, as demigods, but if not, as in any case blessed and divine. (pág. 401b [540]).


Sócrates lembra que o que foi dito é difícil, mas não impossível de acontecer. Basta que apenas um filósofo se torne rei. Então, as crianças com 10 anos serão separadas dos pais e educadas nos princípios desse filósofo-rei.

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SELF-TESTING QUESTIONS

1. Que outro uso, além do filosófico, Platão admite para os matemáticos?

Uso militar.

2. Quais as duas razões que explicam o subdesenvolvimento das ciências matemáticas?

  • Nenhum governo as patrocina.
  • A dificuldade de encontrar um professor/guia.

3. Quais males o estudo da dialética introduz?

  • O mal da desordem, em função das constantes refutações às quais um homem pode ser alvo, tornando-se indiferente quanto a valores como honra/desonra, honestidade/desonestidade, prudência/imprudência etc.
  • O mal do ceticismo, que acomete em especial os jovens que fazem uso da dialética por diversão, refutando aqui e ali sem parar, terminando em nada acreditar.

4. Em que idade o estudante de filosofia está pronto para a visão do bem absoluto?

Aos 50 anos de idade.

5. Que operação matemática é necessária em todas as artes e ciências?

O cálculo.

6. Por que a ginástica é rejeitada enquanto educação para a filosofia?

Porque é uma ciência mecânica, que lida com aquilo que é gerado e corrompido, ou seja, que é efêmero e passageiro, e não com o essencial e imutável.

7. Quais os dois tipos de objeto de sentido, em relação ao pensamento?

  • Objetos não convidativos ao pensamento, já que os sentidos bastam para julgá-los.
  • Objetos intrigantes, que exigem investigação por parte do pensamento e do raciocínio.

26 de abril de 2006

Estudos de Platão I - The Great Ideas Program

Segue a primeira leitura da República de Platão, seguindo orientação do Volume 10 dos Great Ideas Program.

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The Great Ideas Program – Volume 10 – Philosophy
First Reading – Plato, The Republic, Vol 7, pp. 369c-383a, 388a-391a

Estrutura:

1. O Estado e os filósofos
a) Por que os Estados são mal administrados?
b) Porque os filósofos não são os reis.
c) Por que os filósofos deveriam ser os reis?
d) Porque os filósofos detêm conhecimento, não mera opinião como os sofistas, sendo por isso os mais habilitados.

2. O perfil do filósofo
a) Quais as características típicas do filósofo?
b) Sinceridade, boa memória, coragem, desapego a coisas materiais e sensuais.
c) Por que os filósofos atualmente não possuem essas características?
d) Por dois motivos: (1) Os filósofos têm suas características ímpares usurpadas e desviadas desde a tenra idade e (2) O ambiente lhes é impróprio e mesmo hostil.

3. O que fazer para que um filósofo se torne rei
a) Corrigir os métodos educacionais das crianças e jovens.
b) Apresentar à multidão o verdadeiro filósofo, que logo o reconhecerá como o mais habilitado.
Como deve agir o filósofo, uma vez rei
a) O filósofo corrigirá os costumes e caracteres privados e estatais.
b) O filósofo formulará uma nova Constituição.
c) O filósofo aperfeiçoará essa Constituição, moldando as instituições de maneira que se aproximem sucessivamente do ideal.

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Platão inicia fazendo Sócrates perguntar a Glauco qual a falha crucial no Estado que causa sua má administração. A resposta de Sócrates é que enquanto os filósofos não forem reis, ou os reis e príncipes não tiverem o espírito e a força da filosofia, os males da cidade não terão fim.

Glauco pede a Sócrates que se explique. Sócrates afirma que, antes, faz-se necessário descrever quem são esses filósofos a quem se deve confiar a liderança do Estado.

“[Filósofo] é aquele que tem atração por qualquer tipo de conhecimento e que está sempre curioso em aprender, nunca satisfeito”. (p. 370c)

Filosofia, etimologicamente, é amor à sabedoria. Um amante que ama algo não ama parte desse algo, mas ama o algo como um todo, por inteiro. Por exemplo, um sujeito ambicioso abraça um poder inferior quando não lhe é permitido abraçar um grande poder. Ele ama o poder, e abraça aquele que está ao seu alcance. Mas abraçará mais e mais à medida que lhe for possível.

Similarmente, o filósofo, amante da sabedoria, ama a sabedoria como um todo, e não parte dela. Embora se contente inicialmente com uma pequena porção, ele quer sempre mais e mais, já que é amante da sabedoria.

Glauco argumenta que, nesse caso, se a curiosidade dá o tom dos filósofos, então os amantes da música e das outras artes inferiores são também filósofos.

Sócrates responde que não, pois tais curiosos são, na verdade, imitações. Os verdadeiros filósofos são os amantes da visão da verdade. Os curiosos amam as belas cores e os belos sons, mas sua inteligência é incapaz de ver ou amar a beleza absoluta.

Ora, se a sabedoria está relacionada ao ser (já que saber é saber algo) e a ignorância está relacionada ao não-ser (já que ignorar é nada saber), há um meio-termo entre eles. É o âmbito da opinião, ou seja, o âmbito daqueles que enxergam as coisas belas mas não vêem a beleza, que enxergam a justiça nas ações mas são incapazes de ver a essência da justiça.

As opiniões são relativas, dependem do ponto de vista, da posição, do dia, da pessoa. Algo belo de certo ponto de vista poderá ser feio sob outro ponto de vista. O dobro pode ser metade. Glauco lembra-se então dos enigmas em forma de trocadilho, nos quais algo parece ser uma coisa mas também pode ser outra, ambiguamente, como as opiniões.

Sócrates e Glauco concordam, então, que o filósofo é o mais habilitado ao comando do Estado, a não ser que alguma virtude ou experiência lhe falte em relação aos amantes da opinião.

Sócrates passa então a enumerar diversas qualidades que os filósofos, por natureza, devem possuir: sinceridade, desapego a prazeres corporais, temperança, coragem (pois não temem a morte), prazer em aprender, boa memória; em suma, uma mente de conformação graciosa e proporcional.

Adimanto, porém, discorda de Sócrates, lembrando que os filósofos em geral não possuem tais qualidades, sendo bem o contrário: são rudes, inúteis, “monstros estranhos”.

Ora, Sócrates concorda, mas não que os filósofos sejam inúteis em si, mas que tenham sido tornados inúteis pelos que os cercam. E quanto às corrupções de caráter (rudes etc.), Sócrates compara o filósofo a uma semente vigorosa: se plantada em bom solo, bons frutos dará; se plantada em mau solo, péssimos frutos dará. O grande potencial de um filósofo, em meio a um ambiente hostil e refratário, renderá grandemente negativo, salvo por intervenção divina.

Sócrates continua, acrescentando que os sofistas são meros professores das opiniões alheias, capazes de descrever seus gostos e temperamentos mas incapazes de inferir delas o que é absoluto e imutável.

Além disso, desde a tenra idade, aquele que tem potencial para a filosofia terá seus talentos usurpados pelos seus concidadãos. Assim, bajulado e desviado, o protofilósofo não se submeterá à razão, torpe que está. Mesmo que porventura o protofilósofo acorde da ilusão em que vive, ainda assim seus concidadãos e amigos tentarão convencê-lo a largar a filosofia para que não percam as vantagens que desfrutam de sua usurpação, nem que para isso o leve aos tribunais. É quase impossível, portanto, que os filósofos prosperem num ambiente assim.

A filosofia acaba sendo ocupada, então, por medíocres e imitadores, que, encantados com títulos e pompas, a deturpam e denigrem. Sócrates compara tal desgraça com um ferreiro baixo e calvo (o medíocre) que, bem arrumado e bem vestido, casa-se com a filha do patrão, reduzindo-a a miséria (a filosofia rebaixada).

Após tal processo de filtragem, tem-se que o número de filósofos será baixíssimo. Essa diminuta classe poderia se dar por contente caso mantenha-se à margem das multidões, desfrutando das bênçãos da filosofia. Mas, ao mesmo tempo, o filósofo sabe que seu desempenho teria sido máximo se o Estado fosse o mais adequado para o desenvolvimento de seus talentos.

Sócrates passa então a discorrer como o Estado deve agir na educação de jovens e crianças para que a filosofia não pereça. O Estado não deve sobrecarregar as crianças e jovens com muita filosofia, mas sim com mais ginástica a fim de fortalecer seus corpos para que, mais tarde, com a alma suficientemente madura, sirvam a filosofia.

Uma vez formado o filósofo, como este conseguirá apoderar-se da administração do Estado? Como administrará o Estado? O processo no qual isso se dará é, em suma, o seguinte: (1) O filósofo, concentrado naquilo que é fixo e ordenado, torna-se ele mesmo ordenado, (2) O povo convencer-se-á de que os filósofos são os mais aptos para o Estado na medida em que lhes for apresentados os verdadeiros filósofos, (3) Uma vez em cargo público, o filósofo tentará não apenas modelar a si próprio, mas os costumes públicos também, limpando o caráter das pessoas e do Estado, não se limitando apenas a fazer leis, (4) Uma vez atingido tal objetivo, formulará um nova constituição, (5) Para aperfeiçoar essa constituição, o filósofo lançará mão de um processo sucessivo de abstrações e aplicações, ora de olho nas essências, ora de olho nos homens (c.f. Alegoria da Caverna).

Mas como, na atual e colapsada situação, tal plano poderá ser empreendido? Bastam dois elementos: (a) um filósofo, apenas um, e (b) uma cidade minimamente aberta a suas opiniões. É difícil, lembra Sócrates, mas não impossível.

* * *

Sócrates, a fim de mostrar a distância ou a diferença entre conhecimento e ignorância, lança mão da alegoria da caverna.




Alegoria => Realidade
===============

Caverna => Mundo que nos cerca
Sombras => Objetos visíveis
Fogo => Sol
Região superior => Mundo inteligível
Subida à região superior => Ascensão da alma
Muro -> Estrada -> Objetos -> Fogo -> Exterior => Diversas etapas da ascese
Prisioneiro que se liberta => Filósofo
Sol (fonte de toda luz) => Idéia do Bem (causa de tudo o que de reto e belo existe)
Olho do corpo => Olho da alma (intelecto)
Conversão (virar o olho para a luz, com todo o corpo) => Conversão (virar o intelecto para a luz, com toda a alma)

A caverna é, assim, o âmbito dos ignorantes, daqueles que tomam as sombras pelas coisas reais. Mas a alegoria não é útil apenas para mostrar a distância entre ignorância e conhecimento, mas também para mostrar que embora a ascensão ao bem seja a melhor das atitudes, uma vez lá, os filósofos devem descer para as sombras a fim de instruir os homens ignorantes, não importa se mereçam ou não tal instrução. Tal faz-se necessário porque o Estado interessa-se pela felicidade de todos, não apenas de uma classe de poucos.

* * *

SELF-TESTING QUESTIONS

1. Por que os enigmas de trocadilhos são como os objetos da opinião?

Porque os enigmas nem revelam nem escondem por completo aquilo a respeito de que versam. Analogamente, as opiniões, embora se refiram a coisas reais, não lidam com suas essências. Um sofista, um professor de opiniões, expressa-se a respeito da beleza da flor ou de uma estátua, mas não é capaz de expressar-se sobre a beleza em si, sobre a essência da beleza.

2. Que tipo de homem causa o maior dano à filosofia?

Os sofistas, os imitadores da filosofia, os professores de opiniões.

3. Quais os bens da vida comum que distraem o filósofo?

Beleza, riqueza, força, cargo, relações no Estado.

4. Quem é comparado ao “ferreiro baixo e calvo”, que tenta elevar-se acima de seu lugar?

Os sofistas, os imitadores da filosofia.

5. Quais as diversas condições que podem salvar um homem para a filosofia?

Aquelas que, de uma forma ou de outra, mantêm o filósofo distante das distrações e do ambiente antifilosófico: exílio, desprezo pela política, doença etc.

6. Que mudanças no ensino da filosofia Sócrates defende?

Enfatizar a educação física nas crianças e jovens e ensinar-lhes pouca filosofia, evitando temas complexos e desgastantes como a dialética.

7. A que se refere a metáfora da “circuncisão” na alegoria da caverna?

Aos cortes das más influências e dos maus temperamentos, desde a tenra infância, no processo educacional que levará o jovem à conversão (“retirada da caverna”).

3 de abril de 2006

Pensando sobre Deus

Segue um resumo de How To Think About God, de Mortimer J. Adler, em forma Q&A.

Qual o objetivo do autor?

O objetivo de Adler, não é extamente provar a existência de Deus, mas inferir a existência de Deus. A diferença entre provar e inferir consiste no grau de certeza que resulta do raciocínio. Provar a existência de Deus implicaria em um elevado grau de certeza, semelhante àquele que atingimos nas demonstrações matemáticas e geométricas. Este não é o caso, já que Adler prefere o termo “inferir”, que rende ao raciocínio um grau de certeza inferior, mas que ainda assim está além da dúvida razoável.

Ao contrário de Santo Tomás, Moisés Maimônides e Avicena, Adler não pretende lançar mão de artigos de fé ou de Escrituras Sagradas para empreender seu raciocínio. Às obras desses autores, Adler chama de teologia sacra. No entanto, mesmo Leibnitz, Descartes e demais autores que tentaram evitar se deixar influenciar pelas religiões ao pensar acerca de Deus – a chamada teologia natural – Adler crê que não obtiveram sucesso.

Adler apresenta sua obra como sendo pura teologia filosófica, completamente isenta de influências religiosas e artigos de fé.

A existência de Deus não pode ser provada simplesmente argumentando que o mundo precisa de um Criador?

Não.

As religiões ocidentais nos dizem que Deus criou o mundo. Mas tal é simplesmente um artigo de fé, sustentado por cristãos, judeus e muçulmanos. No entanto, um filósofo deve esquivar-se de aceitar esse artigo de fé como verdade comprovada.

A ciência, por outro lado, nada nos diz a respeito da criação do mundo. A teoria do Big Bang versa sobre a origem do mundo, mas do mundo que conhecemos. Isso significa que o Big Bang não explica a exniquilação do mundo, ou seja, a criação do mundo a partir do nada. ["Exniquilação" é um termo criado por Adler em contraposição a "aniquilação", ou seja, a redução de algo a nada]. A ciência não pode provar de que maneira aquela massa que explodiu foi criada, nem mesmo se havia o tempo antes dela.

A filosofia, portanto, tem duas alternativas: ou o mundo foi criado por uma agência criadora, ou o mundo sempre existiu e sempre existirá (posições assumidas por Santo Tomás e Kant, por exemplo). Como não devemos assumir justamente a opção que se deseja provar, devemos adotar a noção de que o mundo sempre existiu e sempre existirá, ou seja, o mundo tem uma existência perpétua.

E quanto à primeira causa? Não é necessário que o mundo tenha uma primeira causa que explique sua existência?

Não.

Se dissermos que, temporalmente, é necessário haver uma primeira causa não-causada que tenha colocado em marcha o movimento e a mudança do mundo, assumiríamos implicitamente que o tempo é limitado. Incorreríamos no erro anterior.

Se, por outro lado, argumentarmos que a primeira causa é superior, ou seja, está acima dos fenômenos naturais, sendo estes intrumentos na mão daquela, e não temporalmente anterior, também incorreríamos em erro. Não há no mundo natural nada que nos obrigue a considerá-lo como instrumental. Nada nele nos diz, além das próprias ciências naturais, que há um causador (ou hierarquia de causas) por detrás dele.

Como definimos "Deus"?

Para iniciarmos nossa inferência da existência de Deus, temos primeiramente de tentar definir a palavra “Deus”. Ao contrário das palavras “lápis”, “justiça” etc., que são nomes comuns, ou seja, comuns a mais de um objeto individual, “Deus” é um nome próprio, como “Edward H. Wolff” ou “Mortimer J. Adler”. Ora, sabemos que para as pessoas usarem os nomes próprios enquanto tais, devem:

(1) ser apresentadas pessoalmente ao indivíduo que leva o nome.
(2) devem ser indicadas ao indivíduo que leva esse nome.
(3) devem ser apresentadas a uma descrição que identifique o indivíduo que leva esse nome.

Ocorre que “Deus” não é alguém a quem possamos ser apresentados ou a quem possamos apontar. Mesmo no caso de Abraão, Moisés, Jesus Cristo etc., cujo conhecimento de Deus foi direto, tal conhecimento exige de nós uma fé religiosa anterior para acreditarmos.

Vemos então que “Deus” é inclassificável, não sendo, strictu sensu, um nome próprio. Não somos capazes de conhecê-lo ou apontá-lo, então precisamos de uma descrição definitória, isto é, que defina Deus.

Por que não podemos definir “Deus”?

Porque Deus, sendo um nome próprio, não é passível de ser definido, tanto quanto “Edward H. Wolff” não é passível de definição. Uma definição aplica-se a uma classe ou grupo de objetos. Um nome próprio não é uma classe de objetos, mas um indivíduo singular. Deus, portanto, deve ser descrito, não definido. Essa descrição tem de possuir um caráter identificatório, ou seja, essa descrição deve chegar ao ponto de podermos identificar Ele, e somente Ele, como objeto da descrição.

Um nome próprio é pode ser descrito de várias maneiras, encaixando-o em diversas classes. Edward H. Wolff é brasileiro, engenheiro, que nasceu em 1976, na cidade de São Paulo etc. Mas Deus é inclassificável, isto é, não é passível de ser classificado com palavras que possam ser compartilhadas com outros indivíduos. Quando uma palavra designa uma característica comum a dois objetos, essa palavra tem de ser aplicada exatamente no mesmo sentido a ambos, ou seja, ao descrevermos Deus, temos de evitar usar classes aplicáveis a outros objetos.

Adler lança um alerta contra os discípulos de Kant, que acham que a razão não deve lidar com objetos além da experiência sensorial, como é o caso de Deus. Ora, basta a ciência moderna, que lida com buracos negros, prótons, inconsciência etc., conceitos esses que a lógica moderna chama de constructos teóricos em contraposição aos conceitos empíricos, para dispensar qualquer espistemologia kantiana de nossa parte.

Como formular uma descrição de Deus?

O primeiro passo que Adler adota para formular uma descrição de Deus é lançar mão do chamado “argumento ontológico”, de Anselmo. Esse argumento nos ajudará a compor a descrição, embora Adler insista em lembrar-nos que não considera o argumento ontológico como válido como prova da existência de Deus.

Segundo Anselmo, (1) se pensarmos num ser cuja grandeza maior não há (isto é, o ser supremo), segue-se que (2) este ser tem de necessariamente existir pois, de outra forma, não seria o ser supremo, mas algo inferior a ele, além de (3) não poder não existir, ou seja, sempre existiu e sempre existirá.

O segundo passo que Adler adota para formular uma descrição de Deus é investigar a seguinte questão: “Se Deus reamente existisse, como seria a existência dele?”

Há três respostas possíveis: (a) Deus é totalmente diferente das outras coisas, (b) Deus é totalmente semelhante às outras coisas e (c) Deus é tanto diferente quanto semelhante às outras coisas.

A primeira resposta é incompatível com a pergunta porque há uma suposição, que consta na própria pergunta, que diz: “Se Deus realmente existisse”. Ora, se Deus fosse totalmente diferente de tudo, então não teria real existência.

A segunda resposta insinua que Deus é corpóreo, material, físico. Mas como Deus não pode ser parte do cosmos (senão Deus não seria supremo), nem o cosmos parte de Deus (senão o cosmos não seria a totalidade do mundo), nem o cosmos igual a Deus (senão o cosmos seria a coisa cuja grandeza maior não haveria), temos de descartá-la.

A terceira resposta, portanto, é a única resposta possível: Deus é diferente de tudo por ser imaterial e semelhante a tudo na medida que sua existência real e a existência real do mundo é analógica, não-unívoca, ou seja, Deus e as coisas do mundo existem enquanto objetos de pensamento, mas diferenciados entre aquilo que é corpóreo e incorpóreo, material e imaterial, físico e espiritual, natural e supernatural.

Em resumo, o objeto de pensamento “Deus” possui as seguintes notas descritivas:

(1) é o ser supremo
(2) possui existência real no sentido analógico do termo
(3) é imaterial, incorpóreo, não-físico
(4) é supernatural (conseqüência de ser imaterial)
(5) infinito, pois Deus não é um exemplar individual de uma classe de coisas cuja existência é finita
(6) eterno, pois a existência de Deus é necessária, e não contingente, como as coisas do mundo que nascem/morrem. Por ser necessária sua existência, Deus é independente, incondicionado, incausado e, acima de tudo, possui “aseidade” (do latim a se, isto é, existência em, através e de si mesmo.

Como inferimos a existência de Deus?

Antes de versarmos sobre a existência de Deus, versemos sobre como inferir a existência de qualquer coisa. As inferências existenciais dividem-se em dois tipos:

(a) inferências a respeito da existência real de uma entidade singular única; por exemplo: “os avós do meu amigo existem”.
(b) inferências a respeito da existência real de entidades singulares de uma dada classe de entidades; por exemplo: “elétrons existem”.

Quanto ao 1º tipo, só podemos confirmar a dada inferência por meio do contato direto perceptual. O Abominável Homem das Neves, por exemplo, pode ter sua existência inferida por alguém que o viu pessoalmente ou por alguma evidência perceptual (as pegadas na neve do Himalaia).

Quanto ao 2 º tipo, sua inferência só pode ser feita caso a existência de tais entidades seja necessária para a explicação de certo fenômeno. É a famosa regra de William of Ockham. A navalha de Ockham elimina as hipóteses cuja existência é dispensável. Os constructos teóricos que se salvam da navalha permanecem, no entanto, apenas hipóteses.

Para ambos os tipo, as inferências não podem ser chamadas de “provas”, como a força de uma prova matemática ou geométrica. Assim como num tribunal, os vereditos baseiam-se na preponderância das evidências ou além da dúvida razoável, mas ainda estão num grau abaixo da prova.

No caso da existência de Deus, por ser Deus inclassificável, sua inferência é uma mistura das características dos dois grupos, tornando-a única e singular. Ao contrário dos buracos negros ou dos elétrons, a existência de Deus não é inferida por experimentos ou observações, mas pela existência de entidades individuais ou do cosmos como um todo. No caso do elétron, o constructo teórico e derivado de observações. No caso de Deus, o constructo teórico é justamente o ponto de partida. No caso do elétron, qualquer observação incongruente pode invalidar o constructo teórico. No caso de Deus, isso não é possível.

Adler lembra ainda que o argumento ontológico de Anselmo falha porque implica em assumir a existencia de Deus como auto-evidente. Ocorre que as proposições existenciais nunca são auto-evidentes, isto é, nunca são necessariamente verdadeiras, cujo oposto é impossível. O fato de termos uma noção daquele objeto de pensamento em mente não o torna automaticamente verdadeira, mesmo que na descrição dessa noção esteja incluída a nota de que tal existência seja necessária. Adler acredita ter driblado o argumento ontológico ao propor se Deus existisse, como ele seria. Tudo não passou de uma hipótese.

Chegamos ao ponto de apresentarmos o chamado “argumento cosmológico” para a existência de Deus. Adler considera o melhor argumento, mas não livre de falhas. Para explicá-lo, é necessário antes explicarmos três termos utilizados pelo argumento cosmológico:

(a) Ser contingente. É aquele cuja existência depende da existência de outro ser. Em outras palavras, é um ser cuja existência se dá em, para e por meio de outro ser. Em latim, diz-se que sua existência é ab alio.

(b) Ser necessário. É aquele cuja existência não é causada, é independente. Em latim, diz-se que sua existência é a se.

(c) Causa do ser (causa essendi). É a causa que não explica somente o movimento/alteração/geração das coisas. Essas seriam causa fieri, como a bola de bilhar empurrada pelo taco ou o filho gerado pelos pais. Uma vez que as causa fieri cessam de atuar, a existência dos efeitos não cessa. Uma bola de bilhar não deixa de existir porque o taco cessou de empurrá-la. Similarmente, não foi o taco o responsável por sua existência. Portanto, a causa essendi deve explicar tanto a existência do ser quanto sua causa eficiente. Por exemplo, o oxigênio não é a causa essendi do fogo porque não foi ele o responsável por sua causa eficiente, mas sim o fósforo.

A partir do entendimento dos três termos acima, podemos adotar 5 premissas:

(1) A existência de um efeito implica a existência de sua causa.
(2) Aquilo que existe ou precisa ou não precisa de uma causa essendi.
(3) Um ser contingente é aquele que precisa de uma causa para sua existência a cada instante que dure sua existência, caso contrário é reduzido a aniquilação.
(4) Nenhum ser contingente é capaz de causar a existência de outro ser contingente, mas apenas ser a causa fieri de outro ser contingente.
(5) Os seres contingentes existem neste mundo e continuam a existir desde sua geração até seu perecimento.

Então, o argumento (ou inferência) cosmológico conclui que um ser necessário é a causa que age para sustentar a existência de seres contingentes. Ou seja, em suma, dado que seres contingentes existem, então Deus existe.

Por que este argumento cosmológico é falho?

Por causa de duas falhas presentes na premissa (3):

(a) Não é verdade que uma causa é necessária para explicar a existência de um ser. Adler usa o exemplo da lei da inércia. Uma vez que o taco atinge a bola e a coloca em movimento, essa bola continuaria a se mover não fosse a existência de causas eficientes contrárias ao movimento (atrito etc). Caso contrário, a bola moveria-se indefinidamente, sem uma causa que lhe imprima o efeito. Similarmente, as coisas naturais, uma vez geradas, também existiriam perpetuamente não fossem outras causas naturais que as fizessem perecer.

(b) Não há nada no mundo, nenhuma evidência, que nos mostre que coisas são aniquiladas ou exniquiladas. Quando algo perece, não há aniquilação mas transformação de uma coisa em outra. Isto significa que a contingência das coisas não é radical (ser/não ser), mas superficial (ser uma coisa/ser outra coisa).

Como corrigir o argumento cosmológico?

Adler acredita que o argumento acima não é verdadeiramente cosmológico porque não se fundamenta no cosmos como um todo.

Adler explica que a existência do cosmos tem de ser radical, isto é, não pode ser superficial. Ora, o cosmos, ou seja, a totalidade de todas as coisas, não pode transformar-se em outra coisa pois continuaria a ser o cosmos. Isso se explica pelo fato de o cosmos não ser como os outros seres individuais, cuja origem é a transformação de algo para perecer transformando-se em outro algo. Afinal, este algo teria sido o próprio cosmos. Similarmente, a totalidade de todas as coisas (cosmos) não perece transformando-se porque isso, para o cosmos, não seria um perecimento, mas simples continuação de sua existência enquanto totalidade de todas as coisas.

A partir desda compreensão, Adler estabelece as 4 premissas de seu argumento cosmológico:

(1) A existência de um efeito que requer a correspondente existência de uma causa implica na existência dessa causa.

(2) O cosmos como um todo existe.

(3) A existência do cosmos é radicalmente contingente, de maneira que, embora não precise de uma causa efeiciente que o tenha gerado (supondo o cosmos perpétuo no tempo passado), exige uma causa eficiente que o afaste da aniquilação.

(4) Dado que o cosmos precisa dessa causa eficiente que o sustente, tal causa não pode ser natural, mas sobrenatural, já que causas naturais não são capazes de aniquilar nada.

Por que o cosmos é contingente?

O cosmos é contingente porque ele é apenas um dentre muitos possíveis cosmos. É perfeitamente possível pensar num cosmos diferente, com leis naturais diferentes, com arranjos e ordens diferentes. Este cosmos em que vivemos é um numa pluralidade de cosmos possíveis. Se este cosmos é possível, isso significa que também é possível que o cosmos não exista, assim como qualquer coisa possível (isto é, não-necessária).

Ocorre que um cosmos meramente possível tem de ser um cosmos causado, caso contrário seria um cosmos necessário. O cosmos possível exige uma causa sobrenatural, um ser supremos, que sustente e preserve sua existência.

Deus é, nesta óptica, a causa preservativa do cosmos, uma vez que excluímos Deus de ser a causa criativa do cosmos em nossa premissa de um cosmos perpétuo. Se quiséssemos, poderíamos assumir Deus como a causa criadora do cosmos, já que a premissa adotada não por motivos racionais, mas por uma questão de gosto.

Vale notar que a ação preservativa de Deus é a ação preservativa de todos nós, dado que Deus preserva o cosmos da aniquilação, isto é, preserva todas as coisas da aniquilação.

Diante deste argumento, Adler afirma ter “bases razoáveis para afirmar a existência de Deus”.