11 de agosto de 2010

A influência das belas artes nas Grandes Idéias


O objetivo de Mortimer J. Adler em Art, the Arts, and the Great Ideas é responder a seguinte pergunta: a música, a pintura, o balé, enfim, todas as artes que não estejam associadas com palavras, podem ensinar ou adicionar conhecimento às Grandes Idéias?

A título de introdução, Adler lembra que, no livro VI de Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue cinco virtudes intelectuais:

A) Saber para saber (virtudes especulativas)

1) Noûs (insight)
2) Episteme (em latim, scientia)
3) Sophia (sabedoria especulativa ou filosófica)

B) Saber para agir (virtudes práticas)

4) Phronesis (prudência ou sabedoria prática) -> praxis (conduta moral ou política)
5) Techné (arte, técnica, habilidade -> poiesis (fazer algo, produzir, desempenhar)

Na esfera da poiesis, que é a que nos interessa, Platão distingue entre artes cooperativas (agricultor, médico, professor) e artes operativas (todas as demais). Ainda na esfera da poiesis, Aristóteles distingue entre as artes liberais (operadas com o intelecto, ou seja, o artista opera com símbolos e pode existir em qualquer lugar) e as artes servis (operada com materiais e só existe em um lugar). Neste caso, observa-se que há uma diferença ontológica, e não social, entre estas artes.

Há ainda outra distinção identificada por Aristóteles: (1) narrativa poética, que opera na região do provável e do possível e, portanto, não é exclusivista (verdade poética) e (2) narrativa histórica, que opera na região do factual e do actual e, portanto, é exclusivista (verdade lógica).

Em seguida, Adler afirma que a intenção do artista e de quem contempla a obra de arte não têm relevância para as belas-artes. Isso significa que por mais que o artista afirme que a obra de arte se conforma à idéia criativa que está em sua mente, ele terá manifestado uma verdade ontológica entre a obra de arte e si próprio. Ocorre que nosso interesse reside apenas na verdade lógica (factual) e na verdade poética (possível) das obras de arte, pois somente elas podem conter alguma instrução útil às Grandes Idéias.

Adler continua sua explanação relembrando o leitor sua doutrina dos signos. Há dois tipos de signos: os signos verbais (palavras) e os não-verbais. As palavras podem ser designadoras ou signais. Enquanto designadoras, elas dão nome às coisas; enquanto signais, elas elicitam comportamentos (como a palavra "fogo", quando gritada no interior de um cinema lotado, faz todos saírem correndo). Os signos não-verbais, por sua vez, também podem ser designadores (as representações simbólicas de banheiro masculino e feminino, por exemplo) ou signais (como as nuvens no céu, que signalizam chuva iminente).

A notação, por sua vez, é uma marca visível ou um som audível. As notações, embora perceptíveis, não possuem em si nenhum significado. Então, cabe a pergunta: de onde vem o significado que transforma uma notação em uma palavra? As palavras designam objetos, assim como trazem à mente determinado conteúdo. Elas funcionam, portanto, como signos instrumentais. No entanto, existem signos designativos cuja única função é de significação. São os signos formais. Assim, os signos instrumentais são objetos que apreendemos, mas os signos formais não: eles são os conteúdos mentais cognitivos, são os atos da imaginação (ou "imaginação intelectual"). As palavras que empregamos só têm significado como signos instrumentais quando se associam a signos formais.

Ora, os atos mentais são apreensões de percepções, memórias e imaginações, que combinam a ação das potências sensitivas e intelectivas, ou então são atos puramente intelectivos. Assim sendo, as obras de arte nunca carregam pensamentos puramente intelectuais, pois sempre dependem das potências sensitivas. A exceção a esta regra cabe à literatura, que pode perfeitamente carregar conceitos puramente intelectuais.

Por fim, cabe lembrar que as Grandes Idéias não fazem parte do conteúdo cognitivo de nenhuma mente humana, ou seja, elas não são memórias, nem imaginações, nem constructos teóricos, nem os conceitos que estão em nossas mentes. Elas também não são signos formais, ou seja, também não são as intenções mentais que são significados e que servem para colocar os objetos significados diante da mente. Em suma, elas não são id quo (aquilo por meio do que) pensamos, mas são id quod (aquilo que) pensamos: são, pois, objetos de pensamento.

As obras musicais e as obras de arte visuais não contribuem significativamente para as Grandes Idéias, pois o meio em que são produzidas é próprio dos sentidos. Sua linguagem consiste em símbolos não-verbais, e por isso atuam no pensamento perceptual, e não no pensamento conceitual.

A conclusão é que estas obras de arte têm função emocional, sentimental, pois impactam e influenciam a imaginação. É somente neste sentido, deveras limitado, que elas influenciam as Grandes Idéias. Claro que, além disso, elas também transmitem prazer estético. As obras literárias, antes de nos mover emocionalmente, têm de ser interpretadas intelectualmente. Por isso, no caso delas, podem, sim, contribuir para as Grandes Idéias.

Ilustração: trecho inicial da Sinfonia nº 36 em Dó Maior, K. 425, "Linz", de Wolfgang Amadeus Mozart.

Dez erros filosóficos


Em Ten Philosophical Mistakes, Mortimer J. Adler apresenta os assuntos mais importantes nos quais a filosofia moderna comete erros crassos. Lembre-se que os livros de Adler, por serem muito introdutórios e "mastigadinhos", são também necessariamente superficiais. São úteis como ponto de partida, mas só para isso.

Erro nº1: subjetivismo

O que você comeu ontem no almoço? Digamos que você tenha pensado em arroz e feijão. Este arroz e feijão existia na realidade, ou o que você lembrou era apenas a imagem daquilo que surgiu em sua mente como arroz e feijão? Em outras palavras, o que surgiu em sua mente é a única realidade a qual você tem acesso, ou existe uma outra realidade para a qual aquilo que lhe surgiu na mente aponta?

Instintivamente, sabemos que existiu um arroz e feijão à parte de sua mente, e que sua memória do arroz e feijão de ontem pode corresponder mais ou menos perfeitamente ao arroz e feijão "de verdade".

Mas pense de novo. Como você sabe que há algo para além de suas sensações, percepções, memórias e imaginações? Como você sabe que o conteúdo de sua mente possui uma relação com as coisas na realidade?

Estas dúvidas, segundo Adler, são fruto de um common sense deteurpado. Adler acredita que um common sense normal, íntegro, jamais duvidaria da existência real das coisas.

Adler explica que, para John Locke, as idéias são totalmente subjetivas. Eu tenho as minhas idéias, você tem as suas idéias. Mas Locke falhou ao não distinguir idéias de sensações, sentimentos e emoções. De fato, as percepções, memórias, imaginações e conceitos são idéias. No entanto, as emoções, sentimentos e sensações corporais não são idéias, pois as apreendemos diretamente. Além disso, outro erro de Locke era acreditar que todas as idéias são aquilo que apreendemos quando estamos conscientes. A visão oposta, defendida por Adler, é de que as idéias cognitivas são aquilo por meio do que apreendemos os objetos quando estamos conscientes. Por exemplo, quando lembramos de algum objeto, estamos lembrando dele, e não da memória do objeto. [Atenção: Adler não usa aqui a palavra "idéia" da mesma maneira que o faz na expressão "grandes idéias" (great ideas)].

Os que adotam a postura de Locke (aquilo que) acabam se fechando em seus mundos, negando a realidade objetiva ou negando que possamos ter acesso mesmo que indireto a ela. Alguns filósofos tentaram corrigir essa postura, mas apenas intensificaram o erro, pois afirmaram que as idéias seriam representações das coisas objetivas. Mesmo as representações jamais serão os objetos em si, e isso não resolve o problemas, mas apenas o esconde, "enrolando" sua solução. Essa postura separa a realidade em dois mundos, e detona qualquer ponte que porventura possa conectá-los.

Em suma, as pessoas estão diretamente conscientes dos conteúdos mentais somente nos casos em que sentem dores e prazeres. Os demais eventos mentais, as chamadas "idéias", são os meios pelos quais apreendemos os objetos, mas nunca as apreendemos diretamente.

Erro nº 2: nominalismo

O segundo erro é supor que a inteligência não existe e, portanto, os conceitos ou idéias abstratas também não existem.

Adler descreve a inteligência como o meio pelo qual os organismos aprendem com a experiência e modificam seu comportamento de acordo com ela. Dado que os insetos, por exemplo, não modificam seu comportamento, conclui-se que eles não têm inteligência, mas apenas instintos. Quanto mais superior for o animal, tanto mais inteligência terá. Adler acredita que, a rigor, os homens não têm instintos, pois são desprovidos de um padrão inato de comportamento e estão constantemente mudando seu comportamento ao longo da história. Ele não nega que o homem possua inclinações e tendências natas, mas acredita que o homem é capaz de superá-las e agir a despeito delas.

A idéia de que a mente humana é puramente sensorial é defendida por Locke, Berkeley e Hume, enquanto o ponto de vista de que a mente possui um elemento intelectivo, e não apenas sensorial, é defendido por Platão, Aristóteles, Descartes, Kant e Hegel. Este ponto de vista tradicional, também defendido por Adler, é de que os sentidos são responsáveis por imaginar, lembrar e perceber, enquanto o intelecto é responsável por entender, julgar e raciocinar.

Afinal, temos ou não temos idéias abstratas (conceitos) para além da percepção sensorial?

Os nominalistas afirmam que palavras como "cão" são nomes gerais, pois aplicamos a vários particulares de maneira um tanto indiferente. Adler acredita que os nominalistas estão errados no momento mesmo em que enunciam sua hipótese: ora, se somos capazes de distinguir algo nos múltiplos entes e damos a todos o nome de "cão", isso significa que aí mesmo a própria premissa de que não há conceitos abstratos foi podada.

Por outro lado, Adler acredita que Platão exagerou ao propor que os conceitos possuem existência à parte de seus objetos e da mente humana: os chamados arquétipos universais. Tal explicação não é necessária para rejeitar o nominalismo ou explicar a realidade das coisas e, portanto, é descartável.

Hobbes, Hume e Darwin achavam que, por causa da inexistência da inteligência, os homens diferem-se dos animais apenas em grau, não em tipo. Algumas pesquisas psicológicas modernas afirmam que os animais também apreendem conceitos. É uma conclusão errada, pois "conceito" implica em saber diferenciar certos tipos de objetos de outros tipos de objetos, e não um objeto de outro objeto. Portanto, a inteligência animal é totalmente sensorial, perceptual. O conceito está na cabeça do pesquisador, e não no animal.

Erro nº3: subjetivismo e nominalismo lingüísticos

O terceiro erro é derivado dos dois erros acima e afetam o campo da lingüística.

Adler explica que um signo instrumental pode tanto ser um signal (como nuvens carregadas no céu, prevendo uma tempestade, por exemplo) quanto um designador (a palavra "cão", por exemplo), ou mesmo ambos ao mesmo tempo (a palavra "fogo" quando berrada no interior de um cinema lotado). Os signos instrumentais sempre possuem existência perceptual própria. Um signo formal (ou signo puro), por outro lado, é aquele do qual não temos nenhuma percepção sensorial.

Neste contexto, Locke foi incapaz de explicar como nos comunicamos com palavras, pois ele achava que as palavras não podem designar coisas que, afinal, não somos capazes de conhecer. Lembre-se dos erros nº 1 e 2 acima. O erro de Locke é corrigido sabendo que as idéias abstratas são signos formais, ou seja, elas não têm significado ou adquirem significado ou ganham ou perdem significado. As idéias são significados. A comunicação se dá, portanto, por meio da associação de signos instrumentais com signos formais. Quando digo "cão", esta palavra não apenas designa um objeto real, mas desperta no interlocutor o signo formal que também tenho em minha mente.

Os animais se expressam apenas por meio de signais, e nunca por designadores. Os cientistas que acham que os animais têm conceitos ignoram a diferença entre pensamento perceptual e pensamento conceitual. Os "conceitos animais" têm apenas aparência conceitual.

Os lingüistas modernos deixaram-se levar pelo erro de que as palavras designam apenas e tão-somente os existentes fisicamente presentes no mundo. É por isso que a lingüística moderna em geral limita-se a pesquisar os usos das palavras, em vez de procurar explicar o significado léxico delas.

Erro nº4: positivismo e idealismo

O quarto erro é achar que a filosofia não alcança conhecimento genuíno, ou seja, que a filosofia é um exercício sofisticado de emissão de opiniões pessoais.

Adler explica que o conhecimento é algo sempre verdadeiro. O critério para sua identificação é triplo: certitude, incorrigibilidade e imutabilidade. A opinião, por outro lado, pode ser verdadeira ou falsa. A rigor, apenas as verdades auto-evidentes são conhecimento; por exemplo, declarações auto-evidentes como "o todo é maior do que as partes" ou "um triângulo tem três lados". A opinião somente será conhecimento se relaxarmos um pouco o critério triplo e incluirmos as opiniões cujas evidências são tão fortes que as chamamos de conhecimento "momentâneo". Por fim, restam as "meras opiniões", que são todos os preconceitos, gostos etc., ou seja, tudo aquilo que não possui evidências e/ou razões.

Hume entendia que conhecimento genuíno são somente (1) as abstrações desprovidas de julgamento quanto à sua existência real (matemática e lógica) e (2) os fatos particulares (história e geografia) e os fatos gerais (física e química). Nos séculos XIX e XX, esta postura ganhou o nome de cientificismo ou positivismo.

O julgamento sintético, segundo Kant, é aquele que versa sobre questões de fatos e existências reais, enquanto o julgamento analítico versa sobre definições. Para Hume, os julgamentos sintéticos a priori não existem, pois dependem de uma experiência sensório-perceptual anterior. Mas Kant, de maneira revolucionária, julgava que, sim, tais julgamentos existem, e para tanto dotou a mente humana de formas transcendentais de apreensão sensorial, ou seja, de intuições, e de categorias transcedentais de entendimento. São essas formas e categorias que moldariam a experiência que temos. Kant achava que elas explicam a certitude e a incorrigibilidade da geometria euclidiana e da física newtoniana, o que se mostrou posteriormente falso. Kant chegou a um extremo que Locke e Hume não chegaram: substituir o realismo pelo idealismo. A única coisa, segundo Kant, que é independente da mente é a Ding an sich (a coisa-em-si), mas essas coisas-em-si seriam incognoscíveis. Em outras palavras, a verdade é incognoscível.

Para Adler, as teorias científicas e filosóficas devem ser refutáveis de três maneiras: (1) pela experiência, (2) pela argumentação racional e (3) pela combinação dos fatores (1) e (2). Se nenhuma dessas maneiras se aplicarem, então a opinião não deve ser promovida a conhecimento, mas deve permanecer no estágio de "mera opinião".

Erro nº5: hedonismo e imperativo categórico

O quinto erro é considerar que todas as regras morais são opiniões pessoais.

Os hedonistas igualam bem com prazer. Fica claro o relativismo e o subjetivismo que isso implica. Amizade, saúde, riqueza, conhecimento, sabedoria etc., nesse contexto, não seriam bens. Os hedonistas, entre os quais Epicuro e John Stuart Mill, erram ao não distinguir entre prazer sensual e a satisfação de termos nossos desejos atendidos.

Hume estava certo quando afirmava que uma conclusão prescritiva não pode ser derivada de uma premissa descritiva. No entanto, como ele não conseguiu descobrir a saída para esse dilema, acabou tornando-se um dos maiores responsáveis pelo ceticismo moderno.

A solução de Kant foi em uma direção radicalmente oposta: ele tentou transformar as obrigações morais em coisas totalmente independentes dos desejos e totalmente desprovidas de referências ao mundo real, sobretudo à natureza humana. O imperativo categórico é, no final das contas, uma lei moral a qual a razão deve se conformar, como se o imperativo categórico fosse uma verdade auto-evidente. Mas ele, na verdade, (1) não é auto-evidente e (2) resume-se à regra de ouro, que é uma recomendação vazia; afinal, o que deveríamos desejar que os outros fizessem conosco?

Adler ensina que o mandamento prescritivo é correto quando se conforma ao desejo correto. Mas o que devemos desejar? Há dois tipos de desejo: (1) desejos naturais (needs) e (2) desejos adquiridos (wants). Portanto, "devemos desejar aquilo que é realmente bom para nós, e nada mais". Trata-se de uma verdade auto-evidente, pois não podemos pensar o contrário disso.

Por fim, Adler entende que alguns bens realmente bons não são tão bons quanto outros. Por exemplo: prazer sensual e riqueza são bons com moderação, enquanto o conhecimento nunca existe em excesso.

Erro nº6: relativismo moral

O sexto erro consiste em considerar a felicidade como um estado psicológico, como mero "estar contente", e não um estado ético da "vida bem vivida". Essa postura acarreta o relativismo moral, ou seja, a recusa de que haja uma filosofia moral possível.

Felicidade é um fim último, que deve ser almejado em prol de mais nada. A felicidade é o bem completo, a soma de todos os bens, o bem total. Neste contexto, devemos entender que os desejos não podem se resumir a desejos do tipo wants, senão a felicidade seria apenas um bem passageiro.

Concebida como a qualidade moral de uma vida íntegra, as pessoas encontram dificuldade em aceitar que a felicidade não é algo desfrutável. A felicidade não é algo que se alcança e, depois, descansa-se nela por um tempo. Os filósofos modernos se esquecem da seguinte distinção:
  • Objetivo terminal: tem término (por exemplo, uma escultura).
  • Objetivo normativo: existe somente em um todo temporal (por exemplo, a excelência de um compositor).

Erro nº7: determinismo

O sétimo erro consiste na recusa em admitir que a vontade humana é livre.

A livre vontade consiste na possibilidade de poder escolher outra coisa ou outro curso de ação, a despeito do que tenha sido escolhido no momento.

Os defensores do livre arbítrio situam a ação da vontade fora do domínio físico. É isso que os deterministas não entendem. A vontade é um apetite (ou potência) intelectual, e não sensorial. O intelecto e a vontade são imateriais.

Os atos do intelecto são (1) necessitados, no sentido de que são necessários e incontornáveis quando confrontados com conhecimento genuíno, como as verdades auto-evidentes e as proposições além da dúvida razoável, ou são (2) arbitrários, no sentido de que são contingentes e contornáveis quando confrontados com as meras opiniões. Similarmente, os atos da vontade são necessitados (buscar a felicidade enquanto totum bonum) ou arbitrários (os demais bens). O fato da livre vontade ter sua causa indeterminada não significa que a vontade aja por acaso. Mas os defensores da livre vontade precisam entender que ipso facto a realidade não se resume ao mundo físico.

Erro nº8: igualitarismo

Os membros da espécie humana não têm uma natureza comum da mesma maneira que as espécies animais têm uma natureza comum. Os homens têm a mesma potencialidade. Por exemplo, o discurso sintático é uma potencialidade actualizada de maneiras distintas nos diversos subgrupos humanos. As diferenças entre as línguas são superficiais se comparadas à potencialidade de aprender e falar aquela língua. nas demais espécies. As diferenças são características determinadas, sejam elas fisiológicas, anatômicas, comportamentais etc.

Em suma, os homens possuem uma potencialidade inata e determinável; enquanto os animais são determinados.

Como todos os homens têm a mesma natureza, não há como um homem ser inferior a outro por natureza, mas apenas por privação familiar, educacional e/ou cultural. Isso evita os diversos preconceitos.

Erro nº9: contrato social

Homens e animais são naturalmente gregários. Mas os animais são gregários no sentido de que são geneticamente determinados. Os homens não, pois suas sociedades, neste caso, seriam rigorosamente iguais.

O maior erro político é o contrato social. Há dois mitos fundamentais a esse respeito: (1) o "estado natural" anárquico, de completa autonomia, (2) os homens, insatisfeitos com esse estado, resolveram de comum acordo fundar formas de governo. Trata-se de um absurdo, e basta pensarmos nos recém-nascidos, que jamais conseguiriam cuidar de si próprios. O erro, portanto, se corrige sabendo que as famílias e tribos se formam naturalmente para a preservação da vida (need) e que governos se formam naturalmente para viver uma boa vida (need), ou seja, uma vida moralmente boa.

Neste contexto, há dois erros modernos: (1) assumir que viver em um governo implica em preservar a mesma liberdade que havia antes, no estado natural (tal afirmação é evidentemente contraditória), o que pode levar a (2) achar que os homens podem viver harmoniosamente sem governo (Kropotkin, Bakunin, Marx, Lênin).

Erro nº10: materialismo metafísico

Quando uma coisa muda, não importa de que maneira se dê essa mudança, ela deve permanecer a mesma coisa durante esse processo de mudança. Caso contrário, como poderíamos falar que esta coisa está mudando? Sem esta identidade identificável, o ser humano, que obviamente também muda, não poderia ser responsável por seus atos, moralmente falando.

O que acontece com nossa identidade, se não passamos de um amontoado de partículas físicas mutantes? Trata-se do erro do reducionismo, segundo o qual as partículas são a maior e verdadeira realidade.

Werner Heisenberg reconhece que há diferentes graus de realidade. Para ele, "os átomos e partículas elementares não são tão reais; elas formam um mundo de potencialidades ou possibilidades ao invés de um mundo de coisas e fatos". Portanto, enquanto a cadeira existe, suas partículas existem apenas virtualmente. A existência virtual não significa que sua capacidade de existência actual esteja anulada. Se explodíssemos uma cadeira em seus elementos constituintes, essas partículas elementares assumiriam o modo de existência actual, como ocorre em um cíclotron.

Portanto, as coisas individuais e perceptíveis de nosso cotidiano têm um grau de realidade actual superior.

9 de agosto de 2010

Inteligência e conhecimento


Somente as pessoas santas são, por causa de sua pureza, espiritualmente inteligentes. Esta era a inteligência natural do homem antes da Queda. O mero exercício intelectual não basta para que as pessoas purifiquem sua inteligência, pois, desde a Queda, a inteligência humana encontra-se corrompida por pensamentos malignos. O espírito materialista e verborrágico da sabedoria deste mundo permite que versemos sobre as mais diversas esferas de conhecimento, mas também acaba tornando nossos pensamentos cada vez mais toscos e grosseiros. A combinação da dialética bem-intencionada com os pensamentos toscos não chega nem perto da verdadeira sabedoria e da verdadeira contemplação, muito menos do conhecimento indiviso e unificado.

A expressão "conhecimento da verdade" significa, acima de tudo, a apreensão da verdade mediante a graça. Os outros tipos de conhecimento devem ser considerados como sendo meras imagens de intelecções ou demonstrações racionais de fatos.

Fonte: São Gregório do Sinai, Philokalia, On Commandments and Doctrines, Warnings and Promises; on Thoughts, Passions and Virtues, and also on Stillness and Prayer: One Hundred and Thirty-Seven Texts

2 de agosto de 2010

Justificar o pecado é pior do que cometê-lo


No verão de 2003, o Diácono Rados Mladenovic relatou um encontro recente que havia tido com o primaz da Igreja Ortodoxa Sérvia, o Patriarca Pavle. Eis o que ele contou:

Nosso santo patriarca Pavle (1914-2009) visitou recentemente a cidade de Vrnjačka Banja, e fui até lá para cumprimentá-lo. Perguntei-lhe: "Como vai, Sua Santidade?"

"Muito bem", respondeu-me, e, voltando-se para as monjas, disse-lhes: "Sirvam o diácono e tragam o lanche".

As monjas de Zica sabiam que o Bispo Estêvão sempre me concedia o privilégio de tomar uma dose de conhaque quando eu o visitava em seu gabinete. Elas então trouxeram o café e perguntaram: "Sua Santidade, podemos servir uma dose de conhaque ao diácono?" O patriarca ficou em silêncio. "Sua Santidade, podemos trazer o conhaque para o diácono?" O patriarca continuou mudo.

Para quebrar o gelo, disse: "Sua Santidade, na minha cidade, dizem que um café sem conhaque é como um homem morto sem vela".

"Este é o problema, meu caro diácono", disse-me o patriarca, "o maior pecado não é quando o cometemos, mas quando tentamos justificá-lo!"

1 de agosto de 2010

O demônio da distração



O autor defende a idéia de que uma das características mais marcantes da modernidade é a distração crônica. É como se o próprio objetivo de vida das pessoas fosse distrair-se incessantemente, pulando de programas de TV a músicas pop a internet a leituras superficiais a video games e novamente a programas de TV etc. Esse tipo de comportamento produz o vício da distração (distractedness), cujo efeito é dissipar as energias mentais, reduzindo abruptamente a capacidade de concentração do indivíduo.

Ocorre que a falta de concentração não implica apenas em incapacidade para concentrar-se em problemas teóricos ou práticos, sejam questões filosóficas ou problemas mais ligados à vida profissional e familiar, mas implica, acima de tudo, em uma certa insensibilidade perceptiva para as coisas que transcendem o mundo psicofísico que cerca o indivíduo. E essa insensibilidade porta conseqüências que vão muito além de  prejudicar a vida de "sucesso" profissional ou social. Na verdade, as conseqüências acompanham o indivíduo depois da morte. Este assunto é tão importante que Smith não deixa de expressar grande surpresa ao constatar que as autoridades eclesiásticas raramente ou nunca versam sobre ele.

Os leitores cristãos ortodoxos certamente já ouviram falar da expressão "dispersão do noûs". Há diversas passagens das Sagradas Escrituras que indiretamente lidam com esta questão. Por exemplo, em Mateus 12:30, Jesus Cristo afirma que quem comigo não ajunta, espalha. Embora tradicionalmente aquele que não ajunta é Satanás, quem comigo não ajunta pode ser o próprio homem, enquanto espalha pode ser as múltiplas potências da alma do homem. Em Mateus 7:13-14, Cristo também diz: Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem. A porta estreita e o caminho apertado podem ser entendidos como sugestões à concentração.

Lembre-se de que a concentração mencionada não se refere apenas à concentração racional, filosófica, mas à concentração espiritual, ao recolhimento do noûs de volta ao coração místico, ao verdadeiro centro do homem. Este recolhimento é mencionado por Jesus Cristo: Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto (Mateus 6:6). Ademais, a literatura patrística deixa claro que o aposento não é apenas um lugar fisicamente isolado e afastado, embora tal conotação também esteja implícita, mas significa também o coração humano, o olho da alma, a consciência superior. É por isso que a vida espiritualmente sadia é inversamente proporcional ao grau de distração no qual se encontra o noûs humano. Quanto mais disperso o noûs, menos apegado estará à sua verdadeira identidade espiritual.

Desde a Queda, a raça humana apresenta um tipo de tendência pecaminosa que é muito mais sutil do que, por exemplo, os pecados ligados à concupiscência da carne. A natureza sensorial humana, aliada à imaginação, tagarela em voz alta dia e noite, sem parar, causando grande agitação e distúrbio à alma e ao espírito. É uma espécie de herança infernal, um verdadeiro "demônio da distração", ao qual, mais do que nunca, o homem moderno está sujeito.

27 de julho de 2010

Adultério


As paixões só podem ser vencidas com muito esforço. Os Santos Padres chamavam a paixão adúltera de "morte". Quando o adúltero se livra da paixão do adultério, é como se ele tivesse ressuscitado dos mortos. Para as pessoas que vivem no mundo, a paixão do adultério é instigada principalmente pela visão, enquanto que, para as pessoas que vivem reclusas, o adultério é instigado mais pelos pensamentos e pela imaginação.

A grande asceta Santa Sara foi torturada pela paixão insana do adultério ao longo de trinta anos. Ela sempre vencia essa paixão com orações. Certa vez, a insanidade asquerosa do adultério lhe apareceu em forma corporal, dizendo-lhe: "Sara, tu me derrotaste!" Sara humildemente respondeu: "Eu não te derrotei, mas o Senhor Cristo é quem te derrotou". Naquele instante, o pensamento do adultério a deixou para sempre.

Certa vez, perguntaram a São Pimen o que um homem teria de fazer para lutar contra a insanidade do adultério. Ele ensinou: "Se o homem conseguir sobrepujar seu estômago e sua língua, então ele será capaz de dominar a si próprio".

Santo Antônio ensinou que há três tipos de movimentos corporais: "Primeiramente, há o movimento natural; depois, a imoderação alimentar, e por último, o movimento que vem dos demônios".

Outros também ensinaram que o vício do adultério é reforçado pela raiva e pelo orgulho. Porém, todos concordam que, além do bom senso e do esforço pessoal, a ajuda de Deus é indispensável para que esta paixão repulsiva seja completamente destruída. E para mostrar que o homem pode, sim, perservar sua pureza, lembre-se, entre outros, de São Moisés da Hungria, o qual viveu cinqüenta anos no mundo e dez anos no mosteiro, em um total de sessenta anos de vida em total pureza virginal.

26 de julho de 2010

A vida não é um programa de TV


Com o advento das tecnologias eletrônicas, o mundo moderno criou o que podemos chamar de mundo virtual. O mundo virtual não é o mundo real, mas está cada vez mais parecido com ele, chegando ao ponto de ser vivido como se fosse o próprio mundo real. É fato que os homens têm acumulado uma enorme variedade de experiências ao longo dos séculos, mas esta última experiência, a do mundo virtual, talvez seja o caso mais exemplar das coisas que não são nem reais, nem verdadeiras. Nenhuma foto ou vídeo pode ser considerado como sendo apenas uma foto ou um vídeo. A tecnologia desenvolveu-se de tal forma que a fidedignidade destes fenômenos é praticamente nula. Será que estamos vendo o que a câmera capturou, ou será que estamos vendo uma versão digitalmente alterada da realidade?

De qualquer forma, toda e qualquer representação digital da realidade não é a mesma coisa que a realidade -- na melhor das hipóteses, não passa de uma representação digital. Ver um filme de um bicho na selva não é a mesma coisa que ver um bicho na selva. Mas as linhas que separam a realidade da representação da realidade estão se tornando cada vez mais tênues e indefinidas.

Contudo, este fenômeno não se restringe apenas ao mundo da computação eletrônica: trata-se do padrão de comportamento humano há muito tempo estabelecido. O Arquimandrita Melécio Webber disse algo muito interessante a respeito da diferença entre o verdadeiro eu humano e o ego humano artificialmente concebido:

"A mente é o sistema defensivo de que o homem precisa para processar todas as informações que recebe. Porém, ao realizar esta atividade, a mente acaba se tornando auto-centrada, julgamental e temerosa. Ela espera que somente o pior virá do mundo, das outras pessoas e, em última instância, de Deus. Todos os detalhes do universo são medidos e pesados pela mente de acordo com a utilidade que trouxerem para a história mental do eu, isto é, para o ego. A mente se esforça para substituir o verdadeiro centro do ser, o coração, por um centro artificialmente criado por ela".

Por conseguinte, segundo a descrição do Pe. Melécio -- que está plenamente de acordo com a descrição dos Padres --, há muito tempo o ego se encontra em um estado de realidade virtual, criando uma história e uma versão de si próprio que não é o verdadeiro eu, mas uma projeção da imaginação, uma distorção criativa.

O mundo digital elevou essa projeção da imaginação e essa distorção criativa de mera auto-ilusão pessoal a uma representação pública. Ele seduz as pessoas para uma realidade que não é de maneira alguma a verdadeira realidade, mas uma representação falsa do eu -- defendida e preservada pela versão digitalizada do eu.

Uma amostra dessa tentação é patente quando constatamos a ânsia que as pessoas têm em ganhar fama mediante as mais variadas formas de mídia moderna. Quem nunca ouviu falar de indivíduos ou famílias tentando entrar em um "reality show" fazendo alguma coisa bizarra? A expressão "reality show" é, obviamente, uma das maiores contradições em termos que existe. Esses "shows" não mostram realidade alguma: tudo o que neles há são falsas projeções e demonstrações de egos artificialmente concebidos.

Você não é um programa de TV.

Evidentemente, quanto mais tempo nosso mundo for impregnado de experiências virtuais, tanto mais propensos estaremos a confundir a verdadeira realidade com as realidades virtuais. Mesmo sem os atuais dispositivos tecnológicos, todos nós estamos imersos em uma espécie de realidade virtual formada pelas histórias, verdadeiras ou falsas, que contamos a nós mesmos e às outras pessoas, na tentativa de conceber, definir e defender a falsa realidade do ego humano.

O ego, na medida em que é definido por si próprio, não é o verdadeiro eu, e jamais poderia ser: afinal, não somos auto-concebidos. A realidade de quem somos -- o sentido e o propósito de nossa existência -- é algo concebido por Deus, pois é Ele quem nos dá existência e propósito. O esforço em nos livrarmos da dependência de Deus é apenas um sintoma do pecado -- não é propriamente um problema existencial.

São Paulo ensinou:

Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória (Colossenses 3:2-4).

Acho que o exercício mais fundamental da vida cristã encontra-se cristalizado nesta exortação de São Paulo. É uma diretriz que nos exorta à autenticidade. O eu implicitamente aludido por São Paulo não é o mesmo ego artificialmente concebido por nós. Não sou definido pelas minhas histórias de abuso ou pela maneira como o público me percebe. Não sou definido por minhas escolhas ou por minha herança genética.

A vida que está "escondida com Cristo em Deus" é a vida que São Paulo descreve em Gálatas 2:20:

Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

As falsas concepções do ego -- a realidade virtual definida pelo pecado e pela imaginação -- estão mortas. Elas foram crucificadas com Cristo. A vida que agora vivemos, que é a única vida autêntica, é a vida vivida na fé do Filho de Deus. Quem eu sou é uma questão escondida, uma questão a ser constantemente descoberta na minha vida em Cristo.

Há muito tempo que nutro uma profunda aversão pelas representações do Cristo e das coisas santas no cinema. O poder da imagem virtual facilmente constrói sua própria realidade. Não adoramos o Cristo de Zeffirelli ou as falsas representações da mídia. James Caviezel não é o Cristo. Max von Sydow não é o Cristo.

A Ortodoxia não proíbe imagens -- porém, as imagens da Igreja apontam para seus protótipos. Até hoje, as imagens do cinema raramente apontam para alguma coisa além de si próprias -- freqüentemente apontam para imagens do contexto cultural vigente e contribuem para a contínua e endêmica distorção da fé cristã empreendida pela modernidade.

Conhecer a Deus é uma luta diária. Conhecer o nosso próprio eu também é uma luta diária -- pois somente o encontraremos em Cristo nosso Deus. O verdadeiro eu não é concebido por mim mesmo, mas é um novo homem, concebido à imagem do Cristo. Jamais conhecerei o meu próprio eu a menos que eu conheça a mim mesmo em Cristo.

Eu não sou um programa de TV, e também não sou as falsas versões do meu ego, sejam aquelas que digo a mim mesmo ou aquelas que ouço dos lábios de outras pessoas. Serei conhecido somente em Cristo. Portanto, só conhecerei os outros na realidade de seus seres na medida em que conheço-os em Cristo.

É uma grande bondade em Deus.

Fonte: Pe. Stephen Freeman, da Igreja Ortodoxa de Santa Ana (OCA), Oak Ridge, TN, EUA

23 de julho de 2010

Como pensar


Henry Hazlitt, em Thinking As a Science, escrito em 1913, quando o autor contava com apenas 18 anos de idade, procura ensinar ao leitor alguns princípios e dicas da arte do pensamento. Aflito com a popularização da leitura de passatempo – vê-se que as coisas não mudaram muito de lá para cá –, Hazlitt deseja que o leitor ocupe seu tempo com pensamentos produtivos. Pensar não é pensar na vida, lembrar-se de coisas do passado, fantasiar etc., mas pensar com propósito, com o objetivo de resolver um problema específico. Assim como um relojoeiro, para fazer um excelente relógio, precisa de excelentes instrumentos, o pensador, para "fazer" um excelente pensamento, precisa de “instrumentos” também excelentes. Tais instrumentos são os métodos para se pensar corretamente.

Os princípios do raciocínio: problema, classificação e método

Pensamento significa, portanto, raciocínio. E o raciocínio exige um propósito que seja muito bem definido, a fim de que possamos delimitar com a máxima exatidão possível qual é o problema a ser atacado. Lembre-se: um problema bem delineado é um problema parcialmente resolvido.

O próximo passo é a classificação. Todo e qualquer raciocínio exige que os elementos do problema sejam adequadamente classificados. Não se preocupe muito em encontrar uma classificação absolutamente exaustiva e essencial, mas cuide apenas para que a classificação seja correta e precisa. Por exemplo, o papel pode ser um material combustível, uma superfície plana, um hidrocarboneto, uma coisa de 24 cm de comprimento, uma coisa americana etc. O importante é que a classificação seja lógica e útil ao problema.

Em seguida, devemos encontrar um método adequado para a solução do problema. Vejamos brevemente alguns deles:

• Método dedutivo. É aplicável à maioria dos problemas, e consiste em chegar a uma conclusão sem a ajuda de observações e experiências. A idéia é raciocinar a partir de experiências pregressas ou de princípios já estabelecidos.

• Método comparativo. A idéia é atacar o problema fazendo uso das várias ciências. Por exemplo, o método da psicologia animal compara a ação dos animais com as ações humanas; o método histórico obtém conhecimento de alguma coisa a partir de seus registros históricos.

• Método da sugestão. A idéia é considerar as sugestões que lhe ocorrerem mediante observação, memória e/ou experiência e testá-las mentalmente a fim de verificar se fazem sentido.

• Método da oposição. Inverter o problema, perguntando pelo seu oposto. Isso auxilia a solução do problema por meio da mudança de perspectiva.

• Método da analogia. Procura-se notar as semelhanças entre as coisas, assumindo assim que possuem algumas qualidades em comum. Por exemplo, estudar o planeta Marte comparando-o com a Terra etc.

• Método da observação empírica. É o método mais útil, pois se aplica nos casos em que os experimentos são impossíveis de serem realizados. É o caso de problemas sociológicos, astronômicos etc.

• Método da observação experimental. É o método utilizado quando é possível criar e conduzir experimentos. O método empírico nos força a admitir certos resultados como “dados”, o que equivale, em verdade, a admitir chutes. O método experimental consiste precisamente em encontrar os chutes e excluí-los do experimento.

Os problemas freqüentemente admitem, e exigem, a aplicação de mais de um método. Você deve se esforçar para aplicar a maior quantidade possível de métodos para a solução de um problema, pois um método poderá produzir resultados distintos de outro método, o que permitirá que eles se fiscalizem e se corrijam mutuamente. Em suma: saiba o método que está utilizando, de maneira que possa utilizá-lo mais consistentemente, corretamente e profundamente. E não se esqueça: dificilmente o problema é único, isolado, singular. Normalmente, o problema embute em si inúmeros outros problemas, que deverão, por sua vez, ser resolvidos. Descobrir quais são esses problemas representa um esforço intelectual próprio. Além disso, você terá de saber também em qual ordem os problemas deverão ser resolvidos.

A solução de problemas depende, em última instância, da capacidade mental do indivíduo. A formação escolar, o ambiente em que é criado, as condições culturais locais, tudo isso são influências que poderão ou não despertar as qualidades mentais que já se encontram no indivíduo. O verdadeiro objetivo dos métodos é, portanto, despertar as associações e pensamentos que já se encontram de alguma forma na mente do indivíduo.

Os erros mais comuns

Quanto à classificação, os erros mais comuns são:

(1) Criar classes que não sejam mutuamente excludentes, ou seja, criar classes que não se sobreponham. Por exemplo, as classes dos métodos construtivos – comparação, observação e experimentação – não são mutuamente excludentes, ou seja, as classes se sobrepõem. Afinal, tanto comparação quanto experimentação envolvem observação, e assim por diante. Embora pareça “lógico” que as classes não se sobreponham, essa divisão perfeita é impraticável.

(2) Criar classes que não englobem todos os objetos ou fenômenos que devam ser classificados. Por exemplo, os socialistas dividem as pessoas em duas classes: capitalistas e trabalhadores; mas há uma infinidade de pessoas que não se enquadram em nenhuma dessas classes ou que se enquadram em ambas (agricultores, professores particulares etc.).

(3) Apegar-se demasiadamente à classificação. Se algum fato ou observação exigir que a classificação seja totalmente revista, não pense duas vezes em fazê-lo.

Muitas pessoas adotam a tática de substituir mentalmente um termo difícil por sua definição, a fim de não perder de vista a compreensão do texto ou de um problema como um todo. Mas atenção: essa prática, embora útil nas primeiras vezes, não deve ser levada adiante por muito tempo, uma vez que ela agirá precisamente da maneira contrária, desviando a atenção e retardando a compreensão e a apreensão do problema e da solução.

Quanto à analogia, não se esqueça de que ela serve apenas para estimular-lhe o processo de sugestão. Isso significa que ela não deve ser levada às últimas conseqüências, como se todos os seus aspectos e relações pudessem ser transplantados para o problema original. Toda analogia é falha, toda analogia é absurda. Use-a com muita cautela, sempre desconfiando dos resultados que ela lhe despertar.

No que tange a comparação das conclusões obtidas pelos diversos métodos, certifique-se de que essa comparação seja feita apenas e tão-somente após todos os métodos terem sido aplicados, por mais difícil que seja essa tarefa. Não se apresse.

Quanto às pesquisas e experiências, critique sempre os resultados apresentados. Não se esqueça de que as pesquisas são quase sempre imperfeitas, pois as premissas das quais partem freqüentemente não são sólidas. A diferença entre observação empírica e observação experimental é apenas de grau, e não de tipo.

Há momentos em que a solução de um determinado problema é defendida por correntes de pensamento opostas, e cada corrente possui um número parecido de adeptos e de argumentos razoáveis. Neste caso, a melhor atitude é procurar uma solução que esteja fora e acima dos dois lados, pois é muito provável que os dois (ou mais) lados estejam apreendendo apenas parte do problema, e que a solução deva abrangê-las todas.

Em suma, não deixe que alguma sugestão não seja devidamente testada, seja pela memória, pela observação e/ou pela experimentação e pela pesquisa. Sair rapidamente do estado de dúvida é uma tentação, pois a dúvida desperta uma certa tensão na pessoa, podendo tornar-se extremamente desconfortável e intolerável. Mas resista: você não deve se contentar com soluções superficiais, mas deve querer o conhecimento mais profundo e completo possível do problema e de sua solução.

Por fim, a arte de pensar deve ser complementada por um bom estudo de lógica. Hazlitt recomenda Elementary Lessons in Logic, de William Stanley Jevons.

Concentração

Praticamente todas as pessoas “sonham acordadas”, ou seja, todos nós passamos boa parte do tempo pensando e imaginando coisas cuja utilidade é pouca ou nenhuma. Mas o que devemos fazer para manter a mente concentrada em um determinado problema?

Dissemos acima que as sugestões “ocorrem”. A psicologia explica tais “ocorrências” mediante o princípio da associação, que se classificam em quatro tipos:

1. Associação por sucessão. Quando duas idéias ou objetos entram na mente em sucessão, a segunda surge imediatamente após a primeira.

2. Associação por contigüidade. Quando duas idéias ou objetos entram na mente conjuntamente, as duas sugerem-se mutuamente.

3. Associação por similaridade. Quando duas idéias ou objetos se parecem, uma sugere a outra.

4. Associação por contraste. Quando duas idéias ou objetos opostos sugerem-se mutuamente.

O importante aqui é notar que, sem as associações, o pensamento é impossível. Isso significa dizer que as associações não são fenômenos mentais indesejáveis, como poderíamos supor a princípio, mas, pelo contrário, são desejáveis e necessários. O objetivo do raciocínio não é eliminar as associações, mas apenas eliminar as associações que não têm relação com o problema em questão. É por isso que a noção popular de concentração está errada: concentração não é atenção focada, mas é direcionar o fluxo das associações a fim de que convirjam para o propósito ou problema em vista. Mesmo quando “sonhamos acordados” estamos atentos e focados. A diferença entre sonhar acordado e concentrar-se é que sonhar acordado é atenção dispersa, enquanto concentração é atenção sustentada. Lembre-se: o importante é manter as associações atreladas a um determinado fim, mas jamais interromper as associações.

Mas então por que sonhamos acordados? Por que temos tanta dificuldade em nos concentrar? Por um motivo muito simples: o problema no qual estamos tentando nos concentrar não é realmente importante para nós. Grande parte de nosso “sonhar acordado” se deve ao fato de que as idéias e imagens que pensamos durante esse processo são mais importantes do que o problema no qual tentamos nos concentrar. É por isso que a regra principal da concentração é que, antes de qualquer coisa, temos de ter certeza que o problema é realmente importante, que vale a pena nos dedicarmos a ele a ponto de eliminarmos as sugestões irrelevantes e mesmo as imagens e sons exteriores que possam nos distrair.

Mais algumas dicas interessantes. Dizem que escrever os pensamentos é útil para que nos concentremos no problema. Sim, é verdade. Escrever significa traduzirmos os pensamentos em símbolos tangíveis, o qual são mais concretos do que o pensamento em si. Além disso, o ato de escrever permite que vislumbremos a cadeia de pensamentos de maneira mais sucinta. Mas lembre-se: nem sempre escrever é vantajoso. O ato da escrita é necessariamente um ato lento, ou pelo menos mais lento do que o pensamento, e muitos pensamentos úteis poderão ficar pelo caminho enquanto você escreve – escrever implica em concentrar-se no ato físico da escrita, ou seja, implica em desconcentrar-se pelo menos um pouco do problema em si.

Em vez de escrever, que tal falar? Pouca gente pensa nisso, mas o fato é que falar é mais proveitoso para a concentração do que escrever. Falar tem todas as vantagens da escrita: se o pensamento se dispersar, notaremos imediatamente. Falar torna o pensamento menos vago do que apenas pensar em silêncio. Isso acontece porque, enquanto pensamos em silêncio, não utilizamos apenas palavras, mas imagens, idéias e associações que permanecem anônimas, desconexas do raciocínio central, e a maneira mais fácil de detectarmos tal desconexão é pela fala. Não é incomum que os raciocínios terminem em becos sem saída, e, se falarmos, fica fácil percebermos esses becos: simplesmente paramos de falar. No entanto, falar possui uma desvantagem: temos de encontrar um lugar relativamente distante, afastado, isolado, para que nos sintamos a vontade em falar sem sermos confundidos com pessoas malucas. Hazlitt recomenda: “Jamais deixe que alguém lhe veja falando sozinho. Se lhe pegarem falando sozinho, é provável que algum asno idiota o confunda com um”. Bem, há ocasiões, no entanto, que até mesmo o ato de falar pode se tornar uma distração, mesmo que infinitesimal. Isso acontece quando o pensamento ainda é tão informe, tão embrionário, que o melhor é pensar em silêncio até que ele amadureça a ponto de poder ser falado. Não há uma regra pronta que lhe diga quando deve falar e quando deve pensar em silêncio. É você que encontrará o ponto de equilibro, mas o importante é que se esforce em encontrar qual é esse ponto para você.

A dica para interromper o processo de “sonhar acordado” é simples: assim que detectá-lo, interrompa-o. Lembre-se: toda vez que for capaz de fazer isso, a próxima lhe será mais fácil, até que, por fim, sua mente será capaz de concentrar-se com pouco esforço e muita eficácia. Os pensamentos frívolos se tornarão cada vez mais intoleráveis para você.

A diferença entre um pensador sério e um amador não é a capacidade de pensar: ambos pensam. A diferença é que o amador abandona o pensamento tão logo se vê envolto em dificuldades e obstáculos. Não deixe que isso aconteça com você.

Preconceitos e incertezas

Uma das características marcantes do pensador sério é a ausência de preconceitos. A pessoa que detém preconceitos jamais os expõem publicamente, ou seja, a pessoa nunca defende sua opinião deixando claro as verdadeiras razões que se escondem por trás dela. Não é incomum que as pessoas não saibam que estão agindo motivadas por preconceitos.

Os preconceitos em geral são sustentados por motivos emocionais. Vejamos as causas mais comuns:

1. A pessoa deseja que determinada opinião esteja certa porque se beneficia pessoalmente disso.

2. A pessoa deseja que determinada opinião esteja certa porque ela já a defendeu no passado, e a acusação de inconsistência intelectual lhe seria intolerável caso confessasse que errou, ou a opinião já está tão enraizada em sua psique (“hábito mental”) que ela se vê praticamente incapaz de se livrar de tal opinião.

3. A pessoa deseja que determinada opinião esteja certa porque, se estivesse errada, ela se recusaria a re-acomodar suas demais opiniões para que se tornassem compatíveis com aquela. Este é o preconceito mais comum. Há dois tipos de opiniões que as pessoas temem se livrar: (a) opiniões emprestadas, sobretudo as que foram marteladas desde muito tempo ou de origem dogmática; (b) opiniões que se recusam a aceitar evidências, sobretudo as opiniões “científicas”.

4. A pessoa imita a opinião alheia. Assim como tememos nos vestir de maneira diferente das demais pessoas, muita gente teme sustentar opiniões diferentes da maioria. É o medo de estar “fora de moda”, de parecer “antiquado”, de pensar como um “velho”. Este é o tipo de preconceito mais difícil de se livrar, pois exige coragem moral. Às vezes, coragem moral implica em parecer ridículo ou em ser desprezado, mas quem tem interesse na verdade não se deixa deter por estas coisas menores.

Se um pensamento lhe sugerir que uma de suas opiniões possa ser inconsistente, não descarte de imediato essa opinião. Procure expandir e testar o novo pensamento em todas as suas nuances e implicações, e faça o mesmo com a opinião original. Com tempo e esforço, uma dos dois se revelará falso, ou os aspectos verdadeiros e falsos de cada um lhe serão mais evidentes. Lembre-se: seja sincero em todas as opiniões que emitir. A verdade é sempre superior ao preconceito, mesmo que o preconceito possa posteriormente mostrar-se correto. Admitir que o preconceito é um preconceito é meio caminho andado para se livrar dele. Mais vale ter razão do que parecer “consistente” ou nutrir “carinho” por suas opiniões.

No entanto, o ímpeto em se livrar de todos os preconceitos pode engendrar outro tipo de pecado intelectual: a perpétua incerteza. Nem sempre vale a pena insistir na dúvida. Às vezes, somos chamados a agir. E a ação implica necessariamente em ter opiniões. Lembre-se: somos mortais, e chega um determinado momento em que não vale mais a pena buscar por mais evidências, mais demonstrações, mais raciocínios. Cada hora empregada em um assunto implica em uma hora a menos empregada em outro assunto, tão ou mais importante quanto o primeiro. Não deixe que o medo do preconceito o paralise.

Se você realmente e sinceramente acredita que “isto é assim”, diga “isto é assim”. Não diga “acho que isto é assim” ou “parece-me que isto é assim” ou “creio que isto é assim”. Se você sinceramente eliminou os preconceitos e considerou todos os aspectos da questão, diga “isto é assim” e pronto. Se depois você perceber que estava errado, e daí? Assuma que errou, assuma que muitos antes de você também erraram, e siga em frente. A maioria das pessoas lhe apontará o dedo e o incriminará. E daí? Você está interessado no seu crescimento intelectual, e não em aplausos.

Quando termina a dúvida e começa a certeza? Isto é você quem decidirá. Cada problema e cada proposição têm o seu timing adequado. Você terá de encontrá-lo, mas lembre-se: não pense com preconceitos nem deixe paralisar-se pela dúvida perpétua. Aprenda a detectar o momento certo. Pratique. Erre e cresça.

Uma última dica: não se deixe levar pelos debates, pois em geral os debatedores tentam “ganhar o jogo”, e não ter razão. Raramente o debatedor, após o debate, leva em consideração os argumentos do adversário, sobretudo se o adversário “perdeu” o debate. As conversas francas são quase sempre mais proveitosas do que os debates.

Como ler

A leitura jamais deve servir de substituta ao raciocínio. Este é um dos erros mais comuns entre candidatos a intelectuais: eles acham que um intelectual se forma acumulando um histórico invejável de livros lidos. Falso. O que se formará aí é um literato, um erudito talvez, mas não um intelectual.

Schopenhauer ensinava que a leitura é o recurso que o intelectual deve lançar mão somente quando seus pensamentos estagnarem. O intelectual nunca lê por ler. Ele não faz da leitura, por mais elevada e sublime que seja, um passatempo.

O candidato a intelectual tem de entender que parte de seu dia deve ser dedicado exclusivamente ao pensamento. Sem livros. Sem anotações. Sem conversas. Esta prática é tão rara, tão inusitada, que as pessoas acham que um homem que esteja lendo um grande livro está se “educando”, enquanto um homem que esteja refletindo, por mais inteligente que seja, estará apenas pensando, e não se “educando”. As pessoas acham que “pensar” significa recordar e reorganizar o que se sabe; na verdade, o verdadeiro pensar significa adicionar conhecimento ao que se sabe. Se tudo o que você quer é ler para não ter de pensar, então é melhor começar a fumar. O cigarro lhe será menos prejudicial à saúde intelectual do que os livros.

Isso não quer dizer que não devamos ler. Pelo contrário, devemos ler, e muito. O que Hazlitt recomenda é que não apenas leiamos, mas que nos esforcemos em tentar pensar sobre o assunto por nós mesmos. É claro que as leituras irão pouco a pouco guiar nosso pensamento, mas isso não quer dizer que estamos dispensados de pensar.

Mas como devemos ler? Hazlitt delineia cinco etapas:

1. Pense antes de começar a ler. Eis as palavras de Schopenhauer a respeito: “Digamos que um homem descubra algumas verdades após se dedicar à reflexão; e digamos que, mais tarde, aconteça de ele topar com um livro que teria lhe poupado todo o esforço reflexivo que empreendeu. Porém, mesmo assim, é mil vezes melhor que ele adquira o conhecimento pensando por si próprio. Pois é assim, quando o conhecimento é adquirido desta forma, como um organismo vivo engendrado no interior de seu sistema mental, que o conhecimento se mostrará completamente integrado e conectado com aquilo que já conhece, que será plenamente entendido com tudo aquilo que o subsume e que dele se conclui, que portará as cores, formas e características de seu próprio raciocínio, que virá no tempo certo, exatamente quando precisar dele; que ele se impregnará em sua mente e dele jamais se esquecerá”.

2. Selecione os livros e os autores que sejam sumidades no assunto, que cubram o assunto da maneira mais ampla e abrangente possível. É a melhor maneira de se começar a investigar um assunto, pois você tomará contato com os principais fatos e linhas de pensamento acerca dele. Evite confusões embrenhando-se inicialmente em leituras menores e parciais ou com livros excessivamente introdutórios. Assim como é difícil aprender a nadar exercitando um tipo de nado por dia, também será difícil aprender sobre determinado assunto se você se dedicar inicialmente às suas particularidades.

3. Resista à tentação de se deixar levar pelas opiniões expressas no livro. Antes de aceitar prontamente as idéias do autor, procure e examine as evidências. Faça uma leitura maximamente crítica, página por página, parágrafo por parágrafo, frase por frase. A diferença entre a leitura crítica e a leitura normal é que na leitura crítica você se esforça para encontrar objeções, enquanto na leitura normal você aguarda até que as objeções lhe ocorram. Uma das peculiaridades da mente humana é que ela aceita facilmente as afirmações que estejam desacompanhadas de evidências que as sustentem; se não houver evidências explícitas contra elas, a mente se entregará com facilidade. Muitas pessoas dizem da boca para fora que seguem esta recomendação, mas na prática não o fazem. Estão se enganando: se acham que é perda de tempo tentar entender uma idéia, é mais perda de tempo ainda lê-la sem entendê-la. E lembre-se: sempre que estiver confuso ou sempre que julgar necessário, largue o livro – feche-o se quiser – e deixe o raciocínio seguir seu caminho. Afinal, o objetivo não é “ler o livro”, mas usá-lo em prol da sua concentração em um determinado assunto.

4. Tome nota dos problemas que não foram adequadamente abordados ou resolvidos pelo autor. São sobre estes problemas que você terá de pensar.

5. Leia os próximos livros de maneira hop, skip and jump, ou seja, leia somente aquilo que neles seja importante, exclusivo, singular. A lei do retorno decrescente aplica-se à leitura também: quanto mais você lê sobre um assunto, cada vez menos os livros lhe dirão algo sobre ele. Procure descobrir o momento em que ler os livros integralmente será pura perda de tempo. Não é seu dever lê-los todos de cabo a rabo. Não caia na tentação tola de ler um livro só para dizer aos outros que o leu. Não tenha vergonha de dizer que o leu parcialmente ou que deu apenas uma olhada. Se o seu objetivo é impressionar os amigos e ganhar fama de intelectual, leia-os de capa a contracapa. Se o seu objetivo é adquirir conhecimento genuíno, leia-os parcialmente, concentrando-se no que neles houver de importante. Use o índice, leia alguns parágrafos aqui e ali, e tente descobrir o que é realmente necessário ser lido e o que pode ser desprezado.

Dicas finais

Não espere que a leitura deste livro (ou deste resumo) seja o bastante para fazê-lo começar a raciocinar. Nenhum hábito surgirá em você até que de fato você comece a praticá-lo. Dedique inicialmente 30 minutos do seu dia para o pensamento. Isso exigirá que você deixe de fazer o que costumeiramente faria nestes 30 minutos. Fique atento, esforce-se, procure registrar o que pensou de várias maneiras diferentes, assim como uma cidade se conhece por várias fotografias diferentes.

11 de julho de 2010

Santa Eufêmia, a Megalomártir


A grande mártir Santa Eufêmia (comemorada em 16/29 de setembro) sofreu o martírio na cidade de Calcedônia, no ano 304, sob a perseguição movida contra os cristãos pelo imperador Diocleciano (284-305), e um século e meio depois sua intervenção miraculosa se fez sentir no IV Concílio Ecumênico de Calcedônia, em 16 de julho de 451. As reuniões deste Concílio se realizaram na igreja em que repousavam as relíquias da santa, e a questão tratada era a heresia monofisita, que afirmava haver uma só natureza em Jesus Cristo, a divina, contra o ensino da doutrina ortodoxa, que afirmava a dupla natureza, humana e divina, do Senhor. Após longos debates não se chegou a um consenso. O santo Patriarca de Constantinopla, Anatólio, propôs, então, que se recorresse à intercessão da santa mártir, cujas relíquias ali estavam. Cada grupo escreveu sua confissão de fé e, aberto o túmulo de Santa Eufêmia, as depositaram sobre os restos mortais da santa, que foi lacrado e guardado por ordem do imperador Marciano, e durante três dias todos se dedicaram à oração e ao jejum. Findo esse período de tempo o túmulo foi reaberto na presença do Patriarca e do imperador e de membros do seu conselho, e encontraram o texto com a profissão de fé ortodoxa (das duas naturezas) na mão direita de Santa Eufêmia, o outro texto (da heresia monofisita) estava a seus pés. Após esse milagre muitos passaram a crer na dupla natureza de Cristo, e os que permaneceram na heresia foram excomungados. As relíquias da santa foram, posteriormente, trasladadas para Constantinopla, para uma igreja recém construída e a ela dedicada.

Fonte: Boletim litúrgico de 11 de julho de 2010 da Catedral Ortodoxa Antioquina de São Paulo

29 de junho de 2010

Literatura, cultura e a alma ocidental


No mundo atual, entrar na Ortodoxia é como se converter da mediocridade para a plenitude, da superficialidade para a profundidade, da impostura para uma realidade tão rica e tão vasta que, às vezes, ficamos na dúvida se é possível que a Igreja e o mundo “real” possam existir juntos e ao mesmo tempo.

Esta conversão ocorre não sem certo desconforto, pois a conciliação dos aspectos exteriores da vida moderna com o pensamento profundo e interior da Ortodoxia parece-nos algo impossível. A Ortodoxia se apresenta a nós como uma realidade muito mais intensa e transcendente. Esta impressão origina-se do fato de que quase sempre trazemos conosco uma parte da mediocridade, da superficialidade e da impostura da vida moderna. Esta superficialidade aos poucos corrói a vida espiritual -- a despeito de nossas boas intenções --, e em pouco tempo chegamos à conclusão de que há algo de muito errado conosco.

No entanto, quem acha que todas as coisas ocidentais são ruins está muito enganado. Viver pensando desse jeito é simplesmente impossível. Somos ocidentais: afinal, nossas almas foram forjadas pela psicologia e pela mentalidade ocidental. O esforço freqüentemente doloroso de conhecermos a nós mesmos só poderá ser bem-sucedido se compreendermos as forças que nos moldaram.

Ao invés de ficarmos fugindo de nossa própria cultura, ou de tentarmos negar o poder que ela exerce em nós, seria muito melhor se a encarássemos com honestidade e sinceridade a fim de compreendermos sua essência e origem. Este é o primeiro passo para a formação de uma cosmovisão ortodoxa, e esta é a tarefa número 1 que nos aguarda. Se lograrmos êxito nessa tarefa, então seremos capazes de distinguir aquilo que é culturalmente útil daquilo que é culturalmente desprezível. Talvez ainda mais importante do que isso, seremos capazes de alcançar o autoconhecimento, ou seja, de alcançarmos a profundidade de alma que nos permitirá vislumbrar o caminho para que nos tornemos bons cristãos.

Na verdade, não herdamos a cultura ocidental coisa nenhuma. Este é o grande problema. Nós fomos educados e aculturados nas ruínas dessa cultura. Não vivemos no Ocidente, mas na memória pálida e moribunda do Ocidente. A “cultura” contemporânea é uma cultura inexistente, um vácuo que contrai a alma e asfixia o espírito. Antes de tentar mergulhar o espírito nas águas profundas da Ortodoxia, o homem contemporâneo faria melhor se primeiro nutrisse sua alma, pois a má-nutrição paralisa toda e qualquer tentativa de desenvolvimento espiritual. O homem ocidental moderno é como uma planta de raízes superficiais: ela jamais conseguirá crescer de maneira vigorosa e sustentável. O espírito do homem moderno é incapaz de se elevar, pois um espírito elevado exige uma alma profunda, que tenha maturidade e sensibilidade suficientes para perceber a nobreza das coisas e para ser enobrecida por elas.

Os Padres sempre ensinaram que a parte mais elevada e espiritual da natureza humana funda-se sobre o primeiro nível da alma, que é justamente o nível que melhor responde aos estímulos produzidos pelas coisas virtuosas, nobres e belas. As capacidades humanas, distorcidas pela Queda, devem ser restauradas à sua normalidade, e somente depois que essa normalidade estiver restabelecida é que conseguiremos progredir nas coisas espirituais. A “percepção superior”, que São João Clímaco chamava de “atributo” da alma, é “esbofeteada” pelo pecado, e por isso temos de nos treinar melhor. O redirecionamento e a elevação da alma é a tarefa essencial de todos os cristãos ortodoxos.

Ao contemplar o belo e o nobre contidos nas obras de arte, o cristão terá a chance de restabelecer em si a sensibilidade para um tipo muito especial de ternura e de simpatia. A inclinação para o belo e para o nobre vem de Deus, mas essa capacidade foi obscurecida pela própria negligência humana. O crescimento espiritual autêntico só será possível depois que o primeiro nível da alma tiver sido elevado e purificado. Do contrário, será extremamente difícil atingir a sobriedade, a fertilidade, a autenticidade e a profundidade na vida espiritual. A alma incultivada raramente possui o discernimento e o equilíbrio para enxergar com clareza e honestidade, nem a sensibilidade para sentir com profundidade, nem a inspiração para esforçar-se intensamente, nem o idealismo para alcançar incondicionalmente o que há de melhor e mais verdadeiro. A sensibilidade e a intensidade não são em si atributos espirituais. No entanto, servem de prelúdio às coisas espirituais.

É psicologicamente impossível que, de uma hora para outra, nos tornemos “não-ocidentais”, mesmo que isso fosse uma coisa desejável. A rejeição pura e simples dos frutos de centenas de anos de cultura cristã, na esperança de escaparmos da mácula do “ocidentalismo”, é uma postura intelectualmente irresponsável. A recusa em nos nutrirmos daquilo que é edificante e elevado inevitavelmente implicará em nos nutrirmos daquilo que não é edificante nem elevado: a cultura pop americana, repleta de superficialidade e falsidade, infiltra-se dia após dia em nossos corações desprotegidos. Se não reagirmos, se recusarmos a escolher as coisas sublimes, então nossas almas serão inapelavelmente asfixiadas pelo artificialismo e pela baixeza. Seremos perpetuamente contaminados pela imundície mortal do mundo -- e por nossa própria imundície --, e jamais seremos capazes de tocar o fundo de nossos corações, nem responder as necessidades de nossos próximos.

Observe o exemplo da Igreja primitiva. Quando a Igreja denunciava a cultura pagã, ela denunciava somente os aspectos que se fundavam no demonismo da religião pagã e no hedonismo da arte pagã. No entanto, os aspectos da cultura helênica que eram úteis e saudáveis não foram rejeitados e denunciados pela Igreja, mas, pelo contrário, foram transmutados por ela em declarações missionárias profundamente convincentes.

Ontem como hoje, muitas pessoas negavam que a arte e a cultura seculares poderiam ser utilizadas como instrumentos para cultivar e educar a alma, e o faziam lançando mão da exortação do Apóstolo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8).

Os Padres da Igreja, ao lidarem com esta questão, formularam a resposta que se tornaria a postura ortodoxa por excelência, a resposta registrada nas obras de homens como São Clemente de Alexandria, São Basílio e São João Damasceno.

Em seu Stromateis, São Clemente ensina que a exortação do Apóstolo aplica-se somente aos casos em que a pessoa abandona as coisas espirituais para abraçar as coisas do mundo, ou seja, quando ela abandona a verdade altíssima do Cristo para abraçar a verdade parcial da cultura secular, pois “a filosofia é extremamente rudimentar se comparada ao Cristianismo, e serve tão-somente de treino preparatório para a verdade”. (Stromateis, VI, 7).

É bem verdade que os estudos da poesia, da história, da arte e da ficção são “extremamente rudimentares”. Não são estudos espirituais. Mas nós, inseridos na realidade do mundo moderno, precisamos demais desses rudimentos; precisamos não apenas de vida espiritual, mas de humanidade pura e simples. O Apóstolo exorta-nos a não confundirmos a vida inferior da alma com a vida superior do espírito, e pede para que não abandonemos a plenitude do Cristo para abraçarmos a vacuidade do mundo. Porém, notem que ele não pede para ignorarmos o desenvolvimento da alma.

São Clemente não foi o único que percebeu a necessidade e a utilidade de coisas tão “mundanas” como a poesia. São Basílio, em seu “Discurso aos jovens sobre o uso correto da literatura grega”, demonstra claramente a relevância da cultura secular para a vida espiritual:

"Devemos depositar nossas esperanças nas coisas transcendentes; preparem-se para a vida eterna fazendo aquilo que nós fazemos. As Escrituras apontam para a vida eterna; elas ensinam com palavras divinas. Porém, na medida em que nossa imaturidade nos impede de entender seus [das Escrituras] pensamentos profundos, exercitemos nossas percepções espirituais com obras seculares, as quais não são completamente distintas [das Escrituras] e nas quais percebemos a verdade como em sombras e espelhos... Conseqüentemente, devemos conversar com os poetas, com os historiadores, com os oradores, em verdade, com todos os homens que possam auxiliar a salvação de nossas almas... [Devemos] preservar os recursos, sem deixar de revirar nenhuma pedra...de onde devemos extrair toda ajuda... A virtude é o único e verdadeiro tesouro, o tesouro que permanece conosco na vida e na morte, [e] já que temos de alcançar a vida futura mediante a virtude, nossa atenção deve apegar-se aos trechos das obras dos poetas, dos historiadores e especialmente dos filósofos nos quais a virtude é enaltecida, [pois] aqueles que foram instruídos nos exemplos pagãos não considerarão impraticáveis os preceitos cristãos... Portanto, nós devemos agir com sabedoria e extrair dos livros pagãos tudo aquilo que é benéfico e aliado da verdade, e ignorar o resto".

Similarmente, São João Damasceno, na Exposição da Fé Ortodoxa, exorta aos cristãos ortodoxos que têm “sede de conhecimento” a “deleitarem-se” nas Escrituras, “pois [elas] contêm a graça que jamais se exaure. Porém, se somos capazes de lucrar com outras fontes, então isto não nos será proibido. Sejamos, pois, bons banqueiros: coletemos o ouro puro e genuíno e rejeitemos o que é espúrio. Aceitemos as boas doutrinas, mas atiremos aos cães os deuses ridículos e as fábulas insanas, pois daquelas extrairemos grande força contra estas”. (Iv. 17)

Adotando, pois, esta postura, a Igreja batizou a cultura pagã; os dejetos foram expurgados e o restante foi elevado. Essa cultura batizada era precisamente a cultura ocidental. Por onde a Igreja passou na Europa, ela sempre adotou esta mesma postura. Na Irlanda ou na Gália, na Bretanha ou na Espanha, a Igreja preservou tudo o que era bom e verdadeiro nas artes e na literatura popular, na natureza e na sociedade. A cultura pagã da Europa pré-cristã encontrou no Cristo a realização para suas mais sublimes aspirações, e foi assim que a Europa floresceu.

Por conseguinte, gerações de homens e mulheres desenvolveram suas mais profundas aspirações construindo, cantando, criando e vivendo. Eles regozijaram-se em Deus, nas maravilhas de Suas obras e de Seu mundo, e o legado que nos deixaram manifestam essa alegria. Eles criaram uma época cujas maravilhas e belezas estão praticamente esquecidas, onde a poesia corria solta no sangue e a castidade não era vergonhosa, mas corajosa, onde o escárnio e a superficialidade não eram sinais de fortaleza e as lágrimas não eram sinônimo de fraqueza, um mundo gentil e cortês, honrado e preciso, nobre e íntegro.

Este era o nosso mundo. A imundície da publicidade e das novelas nem sempre fez parte do mundo. Houve um tempo em que o júbilo, a nobreza e a alegria faziam parte do mundo ocidental. Se formos incapazes de enxergar esses aspectos, então jamais conheceremos a nós mesmos. Se não enxergarmos a objetividade bela e cristalina da mente medieval -- por exemplo, a visão profunda e humilde que tinham do cosmo como um grande baile real --, e tivermos olhos tão-somente para as provas de Anselmo e para a auto-exaltação papal, daremos a demonstração mais cabal possível do entorpecimento de nossos corações. O homem medieval contemplava o céu noturno e chorava, sentindo-se enclausurado nas duplas trevas da separação física e moral de Deus. Mas ele também acreditava que as estrelas eram buracos no chão do céu: aqueles pontos de luz vinham de um mundo onde o dia era perpétuo e onde todas as coisas dançavam jubilando-se pela criação e brilhando na luz imutável de Deus.

O homem medieval valorizava a hierarquia porque, para ele, a hierarquia era uma lembrança de Deus. O mundo inteiro era como que um desvelamento incessante, uma alegoria intrincada da majestade e do amor de Deus. Ele exultava-se em júbilo na obediência e caminhava temeroso na humildade da autoridade, porque ambas eram imagens de profundas realidade espirituais. Ele alegrava-se pelas cores e pela beleza do mundo físico, porque elas eram prenúncios dos esplendores ainda maiores do Reino de Deus.

Ele poderia empenhar sua vida inteira na construção de uma catedral, e jamais se esquecer da transiência do mundo temporal. A literatura, a didática, a moral, tudo o fazia lembrar da beleza da virtude e da nobreza e da brevidade da vida. A poesia entoava o esplendor do mundo criado e o temor de Deus. A sociedade lhe ensinava a sentir a realidade e a proximidade do reino espiritual de maneira quase tão intensa quanto o mundo físico. As igrejas – resplandecentes, delicadas, formosas – elevavam a alma e o espírito a grandes alturas.

O ímpeto apostólico impulsionou este mundo por quase mil anos. O alimento fornecido por mil anos de Ortodoxia formaram a base espiritual sobre a qual cresceram tudo o que há de melhor na arte e na cultura ocidentais. Esse ímpeto permaneceu praticamente intacto até o Iluminismo, mas foi intensamente corroído durante a Era Romântica e, por fim, ruiu inteiramente em nossa época. O que de melhor foi feito, foi feito neste espírito e vem deste mundo. A comunidade de sentimentos e intenções que marcam os melhores escritores, artistas e músicos vem desta fonte. A despeito das mudanças sociais, políticas e religiosas, Shakespeare e Dickens, Bach e Mozart, Donne e Hugo compartilham deste mundo, e é para este mundo que os cristãos ortodoxos devem se voltar a fim de moldarem suas almas. Há lições que temos de aprender com o passado antes que possamos alimentar esperanças quanto ao futuro.

Os Padres recomendavam o estudo das artes e letras pagãs como instrumentos para treinar a alma. Nós, que temos a nosso dispor os produtos da cultura ocidental fundados no Cristianismo, não apenas não devemos temer o uso destes produtos, mas não temos desculpas para ignorá-los. Pensar que tudo o que é ocidental é ipso facto suspeito revela uma profunda insegurança, um legalismo mais rígido do que qualquer seita, um escolasticismo mais árido do que qualquer summa.

Temos de recuperar os sentimentos e sensibilidades que outrora fizeram parte de todos os povos civilizados. As obras de arte, a literatura e a música pré-modernas portam valores essenciais para nós. Elas podem nos ensinar coisas que nada do que se produz hoje poderia nos ensinar: o que é nobreza, o que é virtude, o que é honra, o que é pureza, o que são sacrifício e lealdade, o que é digno e o que não é. Poesia, música, arte, ficção: nada disso é alimento espiritual, mas tudo isso é leite e pão de que precisamos a fim de ganharmos força para vivermos da carne do espírito.

A visão, o som e a sensação do sublime são coisas que perdemos. Para recuperá-las, devemos retornar a um tempo onde a moral nebulosa e arenosa ainda não havia dominado o mundo: um tempo onde a visão do homem ainda era suficientemente clara e sua alma suficientemente apurada. Se não dominarmos os planaltos da alma, dificilmente conseguiremos alcançar os píncaros do espírito. Embrutecidos pelo zunido e pela cacofonia moral do mundo, os corações permanecem frios e as consciências entorpecidas. Estamos insensíveis à piedade, à honra, à nobreza, à pureza, porque quase nunca as vemos. Até mesmo pela beleza não somos mais movidos, uma vez que já nem mais sabemos o que é beleza. Assim como a maioria dos termos de valor, “beleza” tornou-se uma palavra vazia, sem conteúdo, desprovida de sentido absoluto. Hoje em dia, beleza é aquilo que nós gostamos, ou o que quer que nos digam que é bonito. A arte passou a ser aquilo que decidimos que é arte. Já não podemos mais dizer que um monte de calotas enferrujadas e canos retorcidos não é “arte” da mesma maneira que Rembrandt é “arte”.

A apreciação artística tornou-se algo inteiramente pessoal apenas recentemente. A beleza, assim como os demais aspectos da arte, era outrora um aspecto da Verdade absoluta, que era Deus. Portanto, uma coisa era bela proporcionalmente à fidelidade com que refletia alguma parte da imagem e da verdade de Deus. Ora, como o coneito de Verdade está totalmente perdido, não mais somos capazes de expressas o conceito verdadeiro de Beleza, e nutrimo-nos de mediocridade, feiúra, de anti-beleza, anti-heroísmo, anti-arte, daquilo que zomba Deus e o homem.

Temos de reaprender o que é beleza. Temos de aprender a sermos arrebatados pelo furor de uma fuga, a sermos enebriados pela loucura de Lear, a sermos consumidos pela sanidade de Quixote. Temos de ser renovados pela saúde e caridade de Dickens, iluminados pela clareza e pela percepção de Hugo, fortalecidos pela gravidade sóbria e pela esperteza oblíqua de Johnson, tocados pelo fogo de Donne, tranquilizados pela flora primaveril de Chaucer.

Temos de sentir de novo a dor da saudade, a alegria amarga de quase tocar, mas nunca apreender, de quase ouvir, mas nunca compreender Aquele cuja Beleza torna a arte bela. Em seu sentido mais profundo e verdadeiro, é exatamente isto o que a arte faz: precisamos dela precisamente porque ela nunca sacia. Ela sempre estimula a sede, ela sempre nos lembra da fome que nunca é saciada. Ela nos leva aos pontos mais altos da experiência humana, para depois nos deixar com saudades não sabemos exatamente do quê. Neste ponto, o espírito estará pronto para prosseguir, para encontrar seu verdadeiro lar em Deus. A alma inculta, informe, não sentirá a verdadeira profundeza e dor da saudade, nem saberá como remediá-la. Se quisermos sentir fome e sede suficientes para buscar a Deus com diligência e comprometimento, temos de moldar a alma com cuidado e persistência.

E temos de moldar as almas de nossos filhos. A criança que nasce e cresce nos dias de hoje encontra-se em desvantagem ainda maior do que seus pais. Sem o esforço e a preocupação constantes, os pais não conseguirão evitar que seus filhos cresçam aleijados de alma e atrofiados de espírito. É importante que os adultos lutem pela elavação e pela pureza de suas almas; ainda mais urgente é instilar o idealismo, a agilidade espiritual, a simplicidade e a amabilidade nas almas das crianças. As crianças que são criadas em meio à boa música, boa leitura e boa arte desenvolverão a genuinidade instintiva, a acuidade do ouvido espiritual, as quais serão valiosíssimas para suas vidas. Elas não serão enganadas pela futilidade, e jamais se esquecerão das imagens de pureza, cavalheirismo, integridade e beleza que ganharam quando leram e ouviram aquilo que de melhor o coração e a mente humana puderam produzir. Quando suas almas forem bem formadas, elas serão capazes de resistir às muitas ilusões e divertimentos tolos que os aguardam pelo mundo afora.

Se quisermos servir a Deus de todo o coração e mente e alma, temos de garantir que nossas almas sejam verdadeiras e retas, que sejam bem treinadas para pelo menos reconhecer a nobreza e a integridade, mesmo que a debilidade da carne impeça que as pratiquemos. Portanto, é o ensinamento ortodoxo das necessidades da alma que demonstra a utilidade espirtual da cultura e da literatura.

Fonte: St. Xenia Skete, The Orthodox Word, Vol. 19, nº 1 e 2, 1983, St. Herman of Alaska Brotherhood, Platina, CA, EUA.