27 de fevereiro de 2010

O Quarto Hierarca

A importância de São Gregório Palamás para os cristãos ortodoxos é tão grande que há uma tradição que atribui a ele o título de "Quarto Hierarca", ao lado de São Basílio, o Grande, São Gregório, o Teólogo, e São João Crisóstomo. No Mosteiro da Grande Lavra, no Monte Athos, onde São Gregório viveu como monge por alguns anos, há um ícone dele ao lado dos Três Hierarcas no apse do altar. No Mosteiro de Vlatadon, fundado por discípulos de São Gregório em Tessalônica, a mesma tradição lá se encontra na porta do santuário.

Nesse mesmo mosteiro, no domo da capela situada ao sul da igreja principal, nos três triângulos esféricos está São Gregório Palamás ao lado dos três teólogos da Igreja: São João, o Teólogo, São Gregório, o Teólogo, e São Simeão, o Novo Teólogo.

Mas não é apenas na iconografia que esta tradição está presente. São Filoteu Kokkinos compôs um ofício no qual São Gregório Palamás é louvado como Quarto Hierarca e Quarto Teólogo da Igreja.

* * *

Irmos:

Pai, suplico inspiração mediante Ti
que és da Trindade para louvar em odes
a harmonia e a unissonância
dos três teólogos,
e agora também as palavras que tu,
abençoado hierarca Gregório,
pronunciste em harmonia com eles.

Como teólogos, sábios,
oradores e santos escritores,
e como os três melhores teóforos e arautos
de santas palavras e doutrinas,
vós também tendes
vosso ilustre co-iniciador
de mesmo nome entoando hinos
em uníssono convosco.

Retendo as leis da amizade
e os caminhos do alto, portando o Cristo
em seu meio, conforme Ele previra,
vós agora estais enriquecidos também pelo quarto,
de mesma natureza e modos.

Louvemos em santos hinos
essas santas musas, vozes da Trindade,
trompetes da santa teologia:
Basílio, Gregório e João, os grandes,
com Gregório, que respira com eles
a graça do Espírito Santo.

Apolitikion:

Luminar da Ortodoxia, pilar e doutor da Igreja,
ornamento dos monges e campeão irrefutável dos teólogos,
ó São Gregório taumaturgo, glória de Tessalônica e pregador da Graça,
roga sem cessar pela salvação de nossas almas!

* * *

São Gregório Palamás, teólogo da Igreja e hierarca de todos os cristãos ortodoxos, interceda por nós junto ao Cristo para que nos arrependamos de nossos pecados e nos convertamos à fé revelada pelo Espírito mediante os profetas, apóstolos e santos. Ensine-nos a rezar, a perdoar e a amar.

Mais informações:

A filosofia não salva: São Gregório Palamás explica que a sabedoria secular tem de ser previamente purificada e extirpada do orgulho, das "opiniões erradas sobre as coisas inteligíveis, divinas e primordiais" e das "fábulas que se contam sobre as coisas criadas". Depois, deve-se "separar as idéias inúteis por meio da faculdade do exame e da inspeção que a alma possui, da mesma maneira que os farmacêuticos purificam a carne da serpente com fogo e água". O que sobrar, por fim, não fará mal ao cristão. O santo conclui: "Quanto trabalho e circunspeção serão necessários para executar essa tarefa!"

Orai sem cessar: a oração incessante para leigos: São Gregório Palamás explica que a oração incessante, isto é, a oração que se repete silenciosamente no coração daqueles que atingiram a iluminação do noûs, deve ser uma meta não apenas para os monges, mas para todos os cristãos ortodoxos que vivem no mundo, de acordo com a capacidade de cada um e com orientação de um pai espiritual experiente.

Espistemologia ortodoxa: O Metropolita Hieroteu de Náfpaktos descreve a explicação de São Gregório Palamás sobre os graus de ascese espiritual e sobre a aquisição de conhecimento teológico mediante a gnosis  alcançada na união com as energias incriadas.

21 de janeiro de 2010

As seis coisas que os demônios mais temem


Os demônios têm grande temor pelas seguintes seis virtudes: 1) fome, 2) sede, 3) a Oração de Jesus, 4) o sinal da Cruz, isto é, quando o sinal da Cruz é feito corretamente em si próprio, 5) a comunhão frequente dos puríssimos mistérios de Cristo, desde que sejam comungados com retidão e 6) fé inabalável em Deus. Não há arma mais aterradora contra os demônios do que esta.

(São Paísio Velichkovsky, Field Flowers, pág. 119.)

* * *

No diabo não há verdade. Ele é a fonte de toda forma de mentira. "Porque o diabo peca desde o princípio" e desencaminha a humanidade para o pecado. Satanás não é apenas um conceito negativo de mal, mas, pelo contrário, é um poder real. Ele tem livre arbítrio, "ardis" e "ciladas". O diabo é uma força pessoal capaz de perceber, mesmo antes da Ressurreição, que Cristo é o Filho de Deus. Sob seu comando, ele possui legiões inteiras de demônios e poderes invisíveis, sendo que alguns são mais malignos que outros. O diabo e seu exército de demônios têm as mesmas doutrinas. Portanto, existe "sabedoria diabólica", "a sabedoria dos príncipes deste mundo". Os demônios sabem que existe apenas um Deus, e por meio de seus ataques contra Cristo eles perceberam Sua divindade. Eles sabem quem são os verdadeiros seguidores de Cristo. Mas os cristãos também conhecem os "ardis" do diabo. Os demônios instigaram a Crucificação de Cristo. Porém, eles não conhecem a sabedoria de Deus pois, do contrário, não o teriam crucificado. Satanás, como Deus, possui fiéis e seguidores. A idéia de que Satanás seja um instrumento da ira divina (o que é típico da teologia ocidental pós-Agostinho) ou de que o poder e a energia do diabo sejam apenas uma ilusão está em total desacordo com os testemunhos bíblicos e patrísticos.

(Pe. John Romanides, The Ancestral Sin, pág.75-76.)

[O ícone acima mostra o diabo disfarçando-se de anjo de luz na tentativa de dissuadir São Pedro, o Atonita, (+734) a continuar na vida monástica. São Pedro foi o primeiro monge a habitar o Monte Athos e sua história foi contada em detalhes por São Gregório Palamás.]

18 de janeiro de 2010

As cinco chaves para a leitura da Bíblia

Segundo o Pe. John Romanides (de abençoada memória), a única maneira de compreendermos adequadamente os fatos históricos acerca da Igreja Ortodoxa, sobretudo em seus primeiros séculos, é não permitir que as crenças particulares do historiador ou do teólogo sejam injetadas nos eventos históricos. A única historiografia válida é aquela na qual as descrições dos próprios Padres da Igreja sejam levadas em conta, pois, afinal, ela incorpora as próprias descrições e intenções dos Apóstolos e do próprio Cristo.

Para isso, o Pe. John julgava indispensável que os estudiosos da Bíblia se livrassem das premissas da tradição franco-latina agostiniana e adotassem as seguintes "chaves" (ou premissas) patrísticas:

1) O fundamento, o núcleo mesmo, da tradição bíblica é que a religião é uma doença específica que precisa de uma cura específica. É isto que "não há Deus exceto Yahweh" quer dizer. Ignorar esta primeira chave fundamental significa ignorar também a segunda chave.

2) Há uma clara distinção entre os termos bíblicos que denotam aquilo que é "incriado" e aquilo que é "criado". Sem este contexto, a terceira chave bíblica é incompreensível.

3) "É impossível expressar Deus, e ainda mais impossível concebê-Lo" [1]. Em outras palavras, não há qualquer similaridade "entre o criado e o incriado". Quem quer que imagine que as expressões bíblicas transmitam conceitos acerca de Deus está redondamente enganado. Quando usadas corretamente, as palavras e conceitos bíblicos conduzem à purificação e iluminação do coração, que por sua vez conduzem à glorificação; mas elas mesmas não são a glorificação. A quarta chave é parte integrante e essencial das três chaves anteriores.

4) A cura da doença da religião, em todos os seus estágios, envolve "a transformação do amor egoísta, que busca sua própria felicidade" no "amor desinteressado da sua própria crucificação, o qual é glorificação". Esta glorificação, portanto, não é apenas a glorificação do Senhor da Glória encarnado, "mas também é a glorificação de todos os profetas e apóstolos enviados antes e depois da Encarnação do Senhor da Glória" [2]. Estas quatro chaves bíblicas dão o contexto para a quinta.

5) As expressões bíblicas sobre Deus não foram feitas para transmitir conceitos acerca de Deus. Elas existem apenas como guiamento para a purificação e iluminação do coração e, por fim, para a glorificação mediante o Senhor (Yahweh) de Glória Pré-Encarnado e Encarnado. Esta glorificação é a visão de Deus por meio de Sua glória ou reinado incriado. As expressões bíblicas não são, de maneira alguma, símbolos efêmeros criados e conceitos acerca de Deus, como no caso da tradição agostiniana.

Notas:

[1] St. Gregory the Theologian, Theological Orations, 2.4.

[2] John S. Romanides, "Pecado Ancestral" (em grego), Atenas, 1957, pág. 82, nota 7, na qual São Gregório Palamás explica que é impossível se reconciliar com Deus sem participar nos mistérios da Cruz, a qual opera em todos que alcançaram a glorificação, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, até hoje.

17 de janeiro de 2010

Diálogo entre um teólogo ortodoxo e um teólogo escolástico


Este pequeno diálogo foi criado por John Sanidopoulos e resume as divergências fundamentais entre as teologias ortodoxa e escolástica. Ele já havia sido traduzido anteriormente, mas resolvi republicá-lo com pequenas alterações por julgar ser uma síntese genial e uma introdução segura à teologia da Igreja Ortodoxa. O autor inspirou-se no Pe. John Romanides (de abençoada memória), este grande expositor e confessor da fé cristã ortodoxa.

* * *

Uma refutação ortodoxa do fundamento da teologia ocidental conforme exposta por Tomás de Aquino. (O = teólogo ortodoxo; E = teólogo escolástico)

O – Deus é imutável?
E – Sim.
O – Deus é pura simplicidade (actus purus)?
E – Sim.
O – A pura simplicidade de Deus serve para proteger a imutabilidade de Deus?
E – Sim.
O – Se Deus é pura simplicidade sem qualquer complexidade, então você diria que não há potencialidade em Deus?
E – Sim.
O – Se não há potencialidade em Deus, então essência, existência e energia divinas são coisas idênticas?
E – Sim.
O – Se essência, existência e energia divinas são coisas idênticas, então Deus está apenas em estado de plena atividade (energia)?
E – Sim.
O – Então você concordaria que se Deus está em estado de plena atividade, isso se dá por necessidade?
E – Sim.
O – E não há distinção entre a ação e poder de Deus de Sua essência?
E – Não, Deus é pura energia.
O – Você distingue as energias de Deus dos atos de Deus?
E – Não, ambos são a mesma obra criada de Deus.

A teologia ortodoxa difere da teologia escolástica no núcleo mesmo de sua doutrina. Os Padres gregos são claros ao ensinarem que Deus não é actus purus, mas que Ele possui muitas energias e poderes (potencialidades), os quais estão intrinsecamente unidos – nem separados nem confundindo-se uns com os outros – na essência intrinsecamente, incorruptivelmente e inconcebivelmente simples da divindade una e triádica. A imutabilidade de Deus não tem necessidade de ser protegida pelo actus purus. Não há necessidade alguma de actus purus. Ao contrário, ela é protegida pela incompreensível e incomunicável essência de Deus.

Tomás de Aquino insere a energia divina na essência divina a pretexto de necessidade. A Igreja Ortodoxa consideraria uma blasfêmia que Deus tivesse que agir por imposição de uma necessidade, pois Deus existe em Sua essência e em Suas três hipóstases. Deus não é um Ser regido por Sua energia, mas Ele mesmo regula Sua energia. Deus não é pura energia, mas é o próprio energizador.

Os Padres da Igreja ensinam que Deus é o energizador, enquanto a energia é a atividade incriada de Deus, e a obra manifestada (ou criatura) é o ato de Deus. O Ocidente, entretanto, não distingue a energia de Deus dos atos (obras) de Deus. A energia de Deus é melhor traduzida como atividade do que como ato. O ato final, de fato, é criado, mas a atividade em si é incriada. A atividade é também conhecida como graça, e se é incriada então é divina.

Inferir que a graça (energia) de Deus é criada é uma heresia, a qual logicamente implica em total ateísmo e/ou em mitologia grega. De acordo com os Padres da Igreja, a energia criada sempre implica em uma natureza criada; uma energia incriada implica em uma essência incriada.

12 de janeiro de 2010

Calculando o Natal


por William J. Tighe

Muitos cristãos pensam que celebramos o nascimento de Cristo em 25 de dezembro porque os Padres da Igreja se apropriaram da data de um festival pagão. Praticamente ninguém se importa com isso, exceto por alguns grupos extremistas de evangélicos norte-americanos, que crêem que isto faz do Natal uma festa pagã. Mas é importante saber que a escolha do 25 de dezembro é resultado de várias tentativas dos primeiros cristãos de descobrir a data do nascimento de Jesus, baseadas em cálculos que não tinham relação com festividades pagãs.

Pelo contrário, ao instituir o festival pagão do "Nascimento do Sol Invicto" em 25 de dezembro de 274, o imperador romano Aureliano certamente tentou criar uma festividade pagã para competir com uma data que já possuía certa importância para os cristãos romanos. Portanto, o mito das "origens pagãs do Natal" é totalmente desprovido de bases históricas.

Um erro

Devemos a idéia de que a data foi apropriada dos pagãos a dois estudiosos do final do século XVII e início do século XVIII: Paul Ernst Jablonsky, um protestante alemão que desejava mostrar que a celebração do nascimento de Cristo em 25 de dezembro era apenas uma das inúmeras "influências" pagãs adotadas pela Igreja a partir do século IV e que transformara o cristianismo apostólico puro no catolicismo romano; e Dom Jean Hardoiun, um monge beneditino que tentou mostrar que a Igreja Católica Romana adotara festivais pagãos para cristianizá-los sem, no entanto, corromper o evangelho com influências pagãs.

No calendário juliano, criado em 45 a.C. pelo imperador Júlio César, o solstício de inverno caía em 25 de dezembro e, portanto, parecia óbvio a Jablonsky e Hardoiun que a data fora importante para os pagãos. Mas, na verdade, tal data não possuía importância religiosa no calendário de festividades pagãs romanas antes da época de Aureliano, tampouco o culto ao sol fora importante em Roma antes de seu governo.

Havia dois templos solares em Roma: um deles, mantido pelo clã ao qual Aureliano pertencera, e que celebrava seu festival em 9 de agosto; e outro que celebrava seu festival em 28 de agosto. Mas ambos os cultos caíram em decadência por volta do século II, quando cultos solares orientais, como o mitraísmo, tornaram-se populares em Roma. De qualquer modo, nenhum destes cultos, novos ou antigos, celebravam festivais relacionados a solstícios ou equinócios.

O que realmente ocorreu é que Aureliano, que governou de 270 até seu assassinato em 275, era hostil ao Cristianismo, e aparentemente promoveu e estabeleceu o festival do "Nascimento do Sol Invicto" como um meio de unificar diversos cultos pagãos do Império Romano através do "renascimento" anual do sol. Durante seu governo o império parecia desmoronar devido à desordem interna, rebeliões nas províncias, decadência econômica e ataques contínuos das tribos germânicas ao norte, e dos persas à leste.

Com a criação da nova festividade o imperador pretendia que o 25 de dezembro – que iniciava o período do ano em que os dias eram mais longos e as noites mais curtas – se tornasse um símbolo do esperado "renascimento" ou renovação perpétua do Império Romano, resultado da retomada do culto a deuses que, no passado, haviam levado Roma à grandeza – segundo criam os romanos. Se a data coincidisse com uma festa cristã, melhor ainda.

Uma conseqüência

É certo que a primeira evidência que temos da celebração da festa cristã do Natal do Senhor em 25 de dezembro data de 336 d.C., anos após o fim do governo de Aureliano. Mas há evidências de que, já nos século II e III, tanto no Oriente grego quanto no Ocidente latino, os cristãos tentavam descobrir a data do nascimento de Cristo antes mesmo dela tornar-se uma celebração litúrgica. Evidências indicam que, na verdade, a escolha da data de 25 de dezembro foi uma conseqüência de tentativas de se determinar a celebração da Páscoa.

Como isso ocorreu? Há uma contradição aparente entre a data da morte do Senhor segundo os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. Os sinópticos marcam sua morte na Festa da Passagem, após o Senhor celebrar da Ceia na noite anterior. João marca sua morte na véspera da Festa da Passagem, quando os cordeiros eram sacrificados no templo de Jerusalém para a festa que teria início após o sol se pôr naquele dia.

Para solucionarmos esse problema devemos responder se a Última Ceia do Senhor foi uma ceia celebrada na Festa da Passagem, ou uma refeição ocorrida na véspera. A questão é muita longa para abordamos aqui, mas basta dizer que a Igreja primitiva seguia a data de São João, e portanto cria que a morte de Cristo ocorrera em 14 de Nissan, segundo o calendário lunar judaico.

Aliás, muitos estudiosos contemporâneos postulam que a morte de Cristo só poderia ter ocorrido em 30 ou 33 d.C., já que somente nestes dois anos a véspera da Festa da Passagem caíra em uma sexta-feira, sendo os possíveis dias de sua morte 7 de abril do ano 30, ou 3 de abril do ano 33.

Porém, com sua forçosa separação do Judaísmo, a Igreja passou a adotar calendários distintos, e teve de obter meios próprios para determinar a celebração da Paixão de Cristo de modo independente dos cálculos feitos pelos rabinos judeus que determinavam a data da Festa da Passagem. Além disso, como o calendário judaico era um calendário lunar composto de doze meses de trinta dias, de tempos em tempos o Sinédrio decretava a adição de um 13º mês para que o calendário acompanhasse os equinócios e solstícios, e as estações do ano caíssem na época apropriada do calendário.

Além da dificuldade que os cristãos teriam em seguir, ou mesmo saber com precisão, a data da Festa da Passagem a cada ano, seguir um calendário lunar próprio lhes causaria problemas com os judeus e pagãos, e muito provavelmente causaria disputas internas – como as disputas do século II sobre se a Páscoa deveria sempre ser celebrada em um domingo ou em qualquer dia da semana que caísse dois dias depois do dia 14 de Nissan. Seguir um calendário lunar pioraria ainda mais tal situação.

Tais dificuldades foram solucionadas de modo diferente entre os cristãos gregos da porção oriental do império e os cristãos latinos da parte ocidental. Os gregos aparentemente desejavam encontrar uma data equivalente ao 14 de Nissan em seu calendário solar, e como o mês de Nissan coincidia com o equinócio de primavera, ele escolheram o 14º dia de Artemísion, mês do equinócio de primavera em seu próprio calendário. Por volta de 300 d.C., o calendário grego foi substituído pelo calendário romano, e como as datas de início e fim dos meses em ambos os calendários não coincidiam entre si, o 14 de Artemísion tornou-se 6 de abril.

Por sua vez, os cristãos latinos de Roma e do norte da África do século II aparentemente desejavam estabelecer uma data histórica para a morte de Nosso Senhor. Na época de Tertuliano (c. +230), eles decidiram estabelecer que a data da sua morte fora em uma sexta-feira, 25 de março do ano 29 (é importante notar que esta data estava errada; 25 de março de 29 não era uma sexta-feira, e naquele ano a véspera da Festa da Passagem não caíra em uma sexta-feira, tampouco em 25 de março).

Era de Integração

Portanto no Oriente tínhamos o 6 de abril, e no ocidente o 25 de março. Aqui devemos explanar uma crença que era corrente no Judaísmo na época de Cristo, mas que como não se encontra na Bíblia, é desconhecida dos cristãos: a idéia de uma "era de integração" dos grandes profetas judaicos, a idéia de que os profetas de Israel morreram na mesma data de sua concepção.

Esse conceito é um fator chave para compreendermos como alguns cristãos primitivos vieram a crer que 25 de dezembro é a data do nascimento de Cristo – eles aplicaram esta idéia a Jesus, de modo que 6 de abril e 25 de março não eram apenas as supostas datas da morte de Cristo, mas também de sua concepção ou nascimento. Há evidência fugaz de que alguns cristãos dos séculos I e II criam que o nascimento de Cristo era 25 de março ou 6 de abril, mas a data de 25 de março logo ganhou aceitação entre os cristãos como a data da Concepção do Senhor.

Ainda hoje esta data é comemorada pela maioria dos cristãos como a Festa da Anunciação, quando o Arcanjo Gabriel trouxe a Boa-nova do Salvador à Virgem Maria, que por seu consentimento possibilitou que o Eterno Verbo de Deus ("Nascido do Pai antes de todos os séculos: Luz de Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro") se encarnasse em seu ventre. E quanto tempo dura uma gravidez? Nove meses. Se contarmos nove meses a partir de 25 de março, chegamos a 25 de dezembro; fazendo o mesmo com o 6 de abril, temos 6 de janeiro. Em 25 de dezembro celebramos o Natal, e em 6 de janeiro, a Epifania.

O Natal (25 de dezembro) é uma festa originária do Ocidente cristão, que foi introduzida em Constantinopla por volta de 379 ou 380. Em um sermão de São João Crisóstomo, que na época era um renomado asceta e pregador em Antioquia, vemos que a festa foi celebrada pela primeira vez em sua cidade natal em 25 de dezembro de 386. A partir dos grandes centros urbanos, a festa se difundiu em todo o Oriente cristão, sendo instituída em Alexandria no ano 432, e em Jerusalém por volta de um século depois. Somente a Igreja da Armênia não adotou esta tradição, e até hoje celebra o Natal de Cristo, a adoração dos Reis Magos e o Batismo do Senhor em 6 de janeiro.

As igrejas ocidentais, por sua vez, adotaram posteriormente a Festa da Epifania, celebrada no oriente em 6 de janeiro, entre os anos 366 e 394. Mas no ocidente a festa era celebrada geralmente como a visita dos Reis Magos ao menino Jesus, e como tal, era uma festa importante, mas não pertencia às grandes festas da Igreja – um visível contraste com o Oriente, onde a Epifania ainda é, depois da Páscoa, a festa mais importante do calendário litúrgico.

No Oriente cristão, a Festa da Epifania é mais popular que o Natal. O motivo é que esta festa celebra o Batismo de Cristo no Rio Jordão, quando a Voz do Pai e a descida do Espírito Santo manifestaram aos homens, pela primeira vez, a divindade do Cristo Encarnado e a Trindade Divina.

Uma festa cristã

Portanto a escolha do 25 de dezembro como data do nascimento de Cristo não possui relação alguma com supostas influências pagãs que adentraram a Igreja durante ou após o reinado de Constantino. É altamente improvável que esta seja a verdadeira data do nascimento de Cristo [o autor não explica o porquê de tal improbabilidade, uma vez que há uma linha historiográfica que confirma o nascimento de Cristo em 25 de dezembro - N. do E.], mas deve suas origens aos esforços dos cristãos latinos dos primeiros séculos em determinar a data precisa da morte de Cristo.

E a festa pagã instituída pelo imperador Aureliano em 274 foi não somente uma tentativa de utilizar o solstício de inverno para fins políticos, mas também uma tentativa de dar um significado pagão a uma data que já era importante aos cristãos romanos. Estes, por sua vez, posteriormente fizeram uso da coincidência com a festa pagã do "Nascimento do Sol Invicto" para se referir ao nascimento de Cristo como o nascimento do "Sol da Salvação" ou "Sol da Justiça".

William J. Tighe, correspondente da Touchstone, é professor de História da Faculdade Muhlemberg. Ele indica aos leitores interessados o livro The Origins of the Liturgical Year, de Thomas J. Talley, publicado pela editora The Liturgical Press.


Tradução: Ricardo Williams

17 de outubro de 2009

Orações às margens do Lago Ohrid

São Nicolau de Ohrid e Zhicha, o Novo Crisóstomo, (+1956) compôs belíssimas orações às margens do Lago Ohrid, onde hoje é a atual República da Macedônia. Entre elas, há algumas orações que fazem alusões e comparações com outras religiões. Em uma curiosa oração, de número XLVIII, Lao-Tsé, Krishna, Buda, Zoroastro e Isaías são chamados de "profetas", os quais antecederam e foram "destinados a teu Filho", isto é, ao Cristo. Há também as orações XIII e LXVIII, nas quais outras alusões são feitas com o Islã e o Hinduísmo.

A tradução e as notas se basearam na tradução do Arquimandrita Todor Mika e do Pe. Stevan Scott.

São Nicolau é comemorado no dia 5/18 de março. A foto acima é do Lago Ohrid.

* * *

Oração XIII

Tu não pedes muito de mim, meu Amor. Na verdade, as pessoas pedem mais.

Estou embalado em uma grossa camada de não-existência, que cobre os olhos da minha alma. Tu pedes apenas que minha alma se dispa de sua embalagem nebulosa e abra seus olhos a Ti, meu Poder e minha Verdade. As pessoas pedem que minha alma se embale mais e mais com embalagens mais e mais grossas e pesadas.

Ó, ajuda-me, ajuda-me! Ajuda minha alma a conquistar a liberdade e a luz, a conquistar a luz e asas aéreas, a conquistar asas aéreas e rodas de fogo ardente.

Histórias são longas, longas demais; a moral é curta -- uma palavra. Histórias derramam-se em mais histórias, assim como a superfície suave do meu lago derrama-se de cor em cor. Onde o derramar colorido da água sob o sol terminará, e onde o derramar de histórias em histórias terminará?

Histórias são longas, longas demais; a moral é uma palavra só. Tu és essa palavra, ó Verbo de Deus. Tu és a moral de todas as histórias.

O que as estrelas escrevem no céu, a relva sussurra na terra. O que a água gorgulha no mar, o fogo ruge sob o mar. O que um anjo diz com seus olhos, o imam brada de seu minarete. O que o passado disse e deixou, o presente está dizendo e deixando.

Há uma essência para todas as coisas; há uma moral para todas as histórias. As coisas são contos do céu. Tu és o sentido de todos os contos. As histórias têm Tua extensão e amplitude. Tu és a brevidade de todas as histórias. Tu és a pepita de ouro em um outeiro de pedra.

Quando digo Teu nome, disse tudo e mais do que tudo.

Ó meu Amor, tem piedade de mim!

Ó meu Poder e Verdade, tem piedade de mim!

Oração XLVIII

Todos os profetas, desde o princípio, têm clamado à minha alma, implorando-lhe para que se torne virgem e se prepare para receber o Filho divino em seu ventre imaculado;

Implorando-lhe para que se torne uma escada pela qual desça Deus ao mundo e pela qual suba o homem a Deus (1);

Implorando-lhe para drenar de si o mar vermelho das paixões sanguinárias, a fim de que o escravo homem possa alcançar a terra prometida, a terra da liberdade (2).

O mago da China adverte minha alma para que fique calma e tranquila, e aguarde o Tao para nela agir. Glória à memória de Lao-Tsé, o mestre e profeta de seu povo!

O mago da Índia ensina minha alma a não temer o sofrimento, pois mediante a sondagem árdua e inexorável em purificação e oração, ela se elevará ao Altíssimo, que a receberá e lhe manifestará Sua face e Seu poder. Glória à memória de Krishna, o mestre e profeta de seu povo!

O príncipe da Índia ensina minha alma a esvaziar-se completamente de toda semente e fruto do mundo, a abandonar todas as tortuosas seduções da matéria caduca e ilusória, para então -- em vacuidade, tranquilidade, pureza e glória -- aguardar o nirvana. Bendita seja a memória de Buda, o príncipe e mestre inexorável de seu povo!

O estrondeante mago da Pérsia diz à minha alma que não há nada no mundo exceto luz e trevas, e que a alma deve livrar-se das trevas como o dia se livra da noite. Pois os filhos da luz são concebidos da luz, e os filhos das trevas são concebidos das trevas. Glória à memória de Zoroastro, o grande profeta de seu povo!

O profeta de Israel clama à minha alma: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome -- o Deus-homem (3). Glória à memória de Isaías, o profeta clarividente da minha alma!

Ó Senhor celestial, abra os ouvidos da minha alma para que ela não se torne surda aos conselhos do Teu mensageiro.

Não mates os profetas que te foram enviados (4), alma minha, pois suas sepulturas não contêm a eles, mas àqueles que os mataram.

Lava-te e purifica-te; torna-te tranquila em meio ao mar turbulento do mundo, e guarda em ti os conselhos dos profetas que lhe foram enviados. Entrega-te completamente ao Altíssimo e dize ao mundo: "Não tenho nada para ti".

Até mesmo os mais justos dos filhos dos homens que crêem em ti são meras sombras débeis as quais, como o justo José, andam em tua sombra. Pois mortalidade gera mortalidade, e não vida. Em verdade te digo: os maridos mundanos erram quando dizem que dão vida. Eles não dão vida, mas a matam. Eles empurram a vida para o mar vermelho e a afundam, não sem antes envolvê-la em trevas e transformando-a em ilusão diabólica. Não há vida, ó alma minha, a não ser aquela que vem do Espírito Santo. Não há realidade alguma no mundo, a não ser aquela que vem do céu.

Não mates os profetas que lhe foram enviados, alma minha, pois a morte é uma ilusão das sombras. Não mates, pois tu não podes matar ninguém a não ser a ti mesma.

Sê virgem, alma minha, pois a virgindade da alma é a única semi-realidade neste mundo de sombras. Uma semi-realidade, até que Deus nasça nela. Então a alma se tornará plena realidade.

Sê sábia, virgem minha, e recebe cordialmente os dons preciosos dos magos do Oriente destinados a teu Filho. Não te voltes ao Ocidente, onde se põe o sol, e não almejes falsos dons.

Notas:

(1) Cf. Gênesis 28:12: E eis uma escada posta na terra, cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela, e João 1:51: Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem.

(2) Cf. Êxodo 14.

(3) Cf. Isaías 7:14: Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel.

(4) Cf. Mateus 23:37: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!

Oração LXVIII

O hindu amaldiçoa o karma. O muçulmano amaldiçoa o kismet. O cristão amaldiçoa o pecado.

Todos eles amaldiçoam suas maldições; em verdade, todas as formas de maldição são uma privação de liberdade.

Todos eles amaldiçoam suas maldições -- a única bendita maldição. Todos eles murmuram contra as cinzas, as quais os mantêm presos a elas e estão certas de vencer.

Em verdade, os jogadores não gostam daquele cuja vitória é certa em um jogo com pessoas mais ineptas.

O hindu não amaldiçoa a privação de liberdade, mas sua vassalagem àquilo que é pior que si próprio. Nem o muçulmano amaldiçoa a privação de liberdade, mas sua vassalagem àquilo que é pior do que si próprio. Nem o cristão amaldiçoa a privação de liberdade, mas sua vassalagem àquilo que é pior do que si próprio. Nenhum deles murmura contra seu mestre como se ele fosse seu mestre, mas como se fosse um mestre inferior a si próprios.

O mundo procura mestres. Ao experimentar os mestres, o mundo submete-se ao papel de servo e, alimentando-se de cinzas, tenta preservar sua dignidade com murmúrios.

Pensei comigo mesmo e perguntei-me: "Tu consegues lançar o karma para trás de ti -- essa montanha enorme, tão antiga quanto o mundo, tão pesada quanto o mundo -- tu consegues lançá-la para trás de ti?

"Pode uma gota d´água realmente encontrar seu caminho na luz? Pode o fogo no coração da montanha conduzir-se até o topo, onde o sol o aguarda?"

Ainda outra vez pensei comigo mesmo e perguntei-me: "Tu consegues criar um kismet para o kismet? Pode um condutor de camelos salvar-se a si próprio e a seu camelo de uma tempestade de areia e ainda chegar a tempo vindo de uma rota sem oásis?

"Pode um filho registrar no seu patrimônio um pai plenipotenciário?

"Pode o legislado tornar-se o legislador?"

Ainda outra vez pensei comigo mesmo e perguntei-me: "Tu podes escapar deste campo de pecados, onde uma simples semente gera cem colheitas?

"Pode alguém que tenha encontrado um campo melhor realmente conseguir abandonar um campo pior?

"Pode alguém que descobriu que seu companheiro de viagem é um malfeitor, virar as costas e se afastar dele?"

Mas o medo em mim retorque: "E se não houver outro campo? E se não houver outro companheiro de viagem?"

Mas o Eu mais corajoso em mim responde: "Quando eu falo de Brahma, não estou falando de outro campo? Quando eu falo de Allah, não estou falando de outro companheiro de viagem? Quando eu falo de Cristo, não estou falando de salvação?"

Ó Rei Celestial, aceita minha alma como Tua serva. Eis que minha única liberdade é servir alguém melhor do que eu mesmo.

19 de julho de 2009

São Sisoé, o Grande

Nascido no Egito, São Sisoé viveu primeiramente em Cetis e, após a morte de Santo Antônio, transferiu-se para a montanha do deserto na qual Santo Antônio vivera em asceticismo e que posteriormente recebeu seu nome. Ele adquiriu a humildade mediante intensos combates contra si próprio, tornando-se manso e inocente como um cordeiro. Por causa disso, Deus concedeu a Sisoé os inestimáveis dons da cura, do exorcismo de espíritos impuros e da ressurreição de mortos. Sisoé viveu no deserto por sessenta anos, tornando-se fonte viva de sabedoria para todos aqueles que vinham lhe pedir conselhos, sejam monges ou leigos. No leito de morte, o rosto de Sisoé brihou como o sol. Os monges que se encontravam em torno dele se maravilharam deste feito e, quando o santo entregou seu espírito, o recinto inteiro encheu-se de uma fragrância maravilhosa. Ele repousou em idade avançada, no ano de 429. São Sisoé ensinara a seus monges: "Quando vier a tentação, o homem deve entregar-se à vontade de Deus, reconhecendo que as tentações surgem por causa de seus pecados. Se algo bom terminar, o homem deve reconhecer que esse algo terminou pela providência de Deus". Um monge lhe perguntou: "Como agradar a Deus e ser salvo?" O santo respondeu: "Se tu desejas agradar a Deus, retira-te do mundo, aparta-te das coisas terrenas, deixa para trás a criação e junta-te ao Criador, une-te a Deus com orações e lágrimas e, assim, encontrarás repouso neste mundo e no próximo". Um monge perguntou a Sisoé: "Como adquirir a humildade?" O santo respondeu: "Quando o homem aprende a considerar todos os demais melhores que si próprio, então terá adquirido a humildade". Certa vez, Ammon queixou-se a Sisoé porque não conseguia memorizar as sábias palavras que lia, de maneira que não conseguia citá-las em suas conversas. O santo respondeu-lhe: "Isso não é necessário. O que é necessário é adquirir a pureza da mente e falar a partir dessa pureza, depositando tuas esperanças em Deus".

[The Prologue from Ochrid: Lives of the Saints and Homilies for Every Day in the Year -- Parte 3, Bishop Nicholas Velimirovich, Lazarica Press, Birmingham, Inglaterra, 1986]

As riquezas não sobrevivem; a glória não acompanha ninguém ao outro mundo; a beleza se modifica; a juventude passa e a velhice chega; a saúde se desvanece; a doença desponta; a sepultura desintegra tudo em nada.

Quando visitamos nossa morada perpétua, nosso túmulo, veremos com nossos próprios olhos toda a futilidade do homem, conforme disse São Sisoé quando viu o túmulo de Alexandre, o Grande, e gritou: "Ah, morte! O mundo inteiro não foi grande o bastante para ti, Alexandre. Como então tu estás contido agora em dois metros de terra?"

[...]

Um padre estava levando um irmão monge para julgamento, ou melhor, para acusá-lo. Dirigindo-se ao Pe. Sisoé, disse-lhe:

"Padre, quero prestar queixa contra meu irmão porque ele fez isso e isso de ruim contra mim".

"Desculpe-o. Perdoa-o".

"Não", respondeu ele, "se eu o perdoar, ele fará a mesma coisa contra mim novamente. Este homem precisa ser punido".

"Ora, tudo bem, meu filho. Então vamos rezar uma oração e partir".

Eles se ajoelharam e o Pe. Sisoé começou a rezar: "Pai nosso...e não perdoa as nossas dívidas assim como nós não perdoamos aos nossos devedores..."

"Não, padre, está errado", disse ele, "tu cometeste um erro".

"Já que tu queres levar teu irmão a julgamento, então é assim que rezaremos".

Foi então que o monge percebeu seu erro, arrependeu-se e não mais denunciou seu irmão.

[Counsels from the Holy Mountain, Elder Ephraim, Saint Anthony's Greek Orthodox Monastery, Florence, Arizona, Estados Unidos, 2000]

22 de maio de 2009

O noûs segundo o Apóstolo Paulo

Há alguns meses, encontrei uma aparente discordância entre a explicação do Pe. John Romanides e a do Pe. Damascene Christiansen sobre o sentido que o Apóstolo Paulo atribuiu à palavra noûs.

Segundo o Pe. John Romanides:
É importante notar que há uma diferença terminológica entre o Apóstolo Paulo e os Padres [da Igreja]. O que São Paulo chama de noûs é o que os Padres chamam de dianoia. Quando o Apóstolo Paulo afirma Orarei com o espírito (I Coríntios 14:15), ele quer dizer o mesmo que os Padres quando dizem Orarei com o noûs. E quando ele afirma Orarei com o noûs, ele quer dizer Orarei com o intelecto (dianoia).
No entanto, segundo o Pe. Damascene Christiansen:
Do ponto de vista teológico, é importante ressaltar que a “renovação da mente” [Romanos 12:2] da qual fala São Paulo é, na verdade, a “renovação do noûs”. No original grego, a palavra mente é noûs. Na teologia ortodoxa, noûs é a faculdade ou poder mais elevado da alma humana. É a faculdade que conhece a Deus diretamente; é o centro de nossa personalidade, a qual tem experiência com a Pessoa de Deus em comunhão de amor. São Gregório Palamás e outros Santos Padres afirmam que é o noûs que melhor define qual a “imagem de Deus” em nós.
Portanto, segundo o Pe. John Romanides, para o Apóstolo Paulo, o noûs seria o intelecto, isto é, a faculdade racional do homem, enquanto que, segundo o Pe. Damascene Christiansen, o noûs seria para o Apóstolo Paulo o coração ou mente, isto é, a faculdade mais elevada da alma humana, que conhece a Deus diretamente.

Intrigado com essa aparente incoerência, pedi ao Pe. Damascene que me explicasse essa confusão, e ele teve a gentileza de me ensinar que, na verdade, não há confusão alguma. Compartilho com os leitores deste blog a explicação do sábio hieromonge.
Creio que o argumento do Pe. John Romanides é válido, especialmente no que se refere ao versículo que ele citou (I Coríntios 14:15). Por outro lado, não creio que São Paulo esteja se referindo somente ao intelecto (dianoia) em Romanos 12:2. Isso fica mais claro quando comparamos este versículo com Efésios, capítulo 4: "Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; e vos renoveis no espírito da vossa mente (to pneumati tou noos umon)" (Efésios 4:22-23). No primeiro versículo, São Paulo fala da renovação da mente, e neste versículo ele fala da renovação do espírito da mente. Creio que podemos dizer com segurança que ele está falando, nos dois casos, do mesmo tipo de renovação. Ao dizer "espírito da vossa mente", no último versículo, São Paulo está expressando seu pensamento de maneira mais ampla, de acordo com a terminologia que comumente emprega em suas epístolas.

4 de maio de 2009

Capitalismo e a metafísica ocidental

Na parte VI do livro Γέννημα και θρέμμα Ρωμηοί (Nascido e criado como romano), o Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos, da Igreja Ortodoxa Grega, faz uma interessante digressão sobre o capitalismo e sua relação com a metafísica. O capítulo está disponível em inglês e se chama Capitalism as the offspring of Western Metaphysics (O capitalismo enquanto descendência da metafísica ocidental), mas infelizmente não há uma tradução portuguesa. O autor faz uso extensivo da obra de Max Weber, mas sem lastrear-se nela integralmente. Vou fornecer aqui um breve resumo.

* * *

1) O Ocidente adota a metafísica.
Ao contrário do que o título poderia sugerir, o Metropolita Hierotheos não se refere a uma "metafísica ocidental", mas ao fato do Ocidente adotar uma metafísica, isto é, de ter introduzido uma disciplina filosófica chamada metafísica em seu seio.

2) A metafísica sugere a predestinação.
Como a metafísica pretende ser uma explicação racional para a estrutura da realidade e do Incriado, a soteriologia também precisa acompanhar esse "racionalismo metafísico".

3) A predestinação implica em adquirir autoconfiança na salvação.
Segundo a teoria da predestinação, inventada por Santo Agostinho e posteriormente desenvolvida por Calvino e seus seguidores, Deus seleciona algumas pessoas para serem salvas, enquanto as outras estão fadadas à danação. Não há nada que possam fazer para mudar a predestinação divina, seja praticando virtudes ou vícios. Como eleitos e condenados não se distinguem externamente, a única coisa que a religião pode fazer é ajudar as pessoas a superar essa opressão pscicológica, essa solidão dramática individualista (uma vez que nem a Igreja, nem os mistérios, nem os sacerdotes, nem ninguém pode ajudá-las); em suma, a religião tem de ajudar o fiel a adquirir autoconfiança na sua salvação.

4) Adquirir a autoconfiança na salvação engendra o moralismo profissional.
Para expulsar as dúvidas e tentações que o diabo tenta imprimir nas pessoas a fim de extrair-lhes a autoconfiança, o cristão deve dedicar-se sobretudo à sua atividade profissional, de maneira diligente e perseverante.

5) O moralismo profissional implica na racionalização da vida social.
O moralismo profissional engendrou fraternidades protestantes que, para além de sua atividade missionária, eram verdadeiras empresas, sistematizando todas as atividades profissionais e sociais.

6) Por fim, a racionalização da vida social e a solidão individualista são os componentes fundamentais do asceticismo protestante, isto é, do capitalismo.

22 de fevereiro de 2009

O dom de falar em línguas

O livro In Peace Let Us Pray to the Lord: An Orthodox Interpretation of the Gifts of the Spirit, do Pe. Alexis Trader, esclarece a questão da "oração em línguas", de acordo com os Santos Padres da Igreja.

O Pe. Alexis nasceu em 1965, nos Estados Unidos, e foi criado em uma família metodista fervorosa. Anos mais tarde, converteu-se à Igreja, estudou teologia ortodoxa e mudou-se em 1995 para a Grécia, a fim de estudar grego moderno em Tessalônica. Lá, tomando contato constante com os monges do Monte Athos, tomou a decisão de tornar-se monge. Hoje, ele mora no Mosteiro de Karakallou, no próprio Monte Athos.

A obra do Pe. Alexis é toda dedicada ao leitor evangélico pentecostal (ou "carismático") que, desconfiado das demonstrações bizarras da presença do "Espírito Santo" em seu meio, busca um esclarecimento mais ponderado a respeito dos dons do Espírito.

No entanto, a obra também é dedicada aos ortodoxos, pois, como veremos, há uma enorme incompreensão a respeito do que vem a ser os dons do Espírito, em especial o dom das "línguas".

O autor faz uso intenso das obras dos Santos Padres contidas na Philokalia, do Pe. John Romanides, de alguns autores e teólogos ortodoxos gregos (cujas obras só existem em idioma grego) e do Pe. Seraphim Rose. A parte que me interessa aqui é a primeira, dedicada a explicar o que vem a ser o dom de línguas. A segunda parte, voltada sobretudo aos evangélicos, procura esclarecer o que é uma experiência espiritual autêntica, como as experiências falsas são produzidas, como o movimento evangélico deixa-se enganar pelo desejo ardente de "ter experiências espirituais" etc. Esta parte, para quem leu as obras do Pe. Seraphim Rose, não será novidade.

* * *

Em primeiro lugar, o Pe. Alexis esclarece que qualquer leitura da Bíblia tem de ser feita supondo-se que o leitor esteja em vias de deificação. Isso se explica da seguinte forma: se, para lermos uma obra de Matemática, é necessário ser minimamente experiente nessa ciência, por que para a leitura da Bíblia não se exige uma experiência equivalente? Se a experiência dos autores dos diversos livros da Bíblia era a visão divina (theosis) a partir do esforço ascético espiritual, por que não é exigido do leitor a mesma experiência? Por conseguinte, conclui-se que este é o primeiro grande erro cometido pelos "teólogos" e "especialistas" em Bíblia: eles não estão capacitados minimamente na mesma ciência que os profetas e santos autores da Bíblia estavam capacitados.

Em segundo lugar, o Pe. Alexis ensina como lidar com as aparentes divergências entre os Santos Padres a respeito de um determinado assunto. Por exemplo, quanto à natureza das "línguas", os Padres divergem em suas opiniões. Ocorre que, apesar de todos os Padres possuírem grande entendimento sobre as Sagradas Escrituras, o público para o qual dirigiam suas obras e homilias nem sempre era igualmente receptivo e capacitado, o que os forçava a adaptar um discurso adequado. Muitos Padres eram obrigados a adotar um discurso mais superficial, mais "fácil", simplório, já que o público mal se encontrava em vias de purificação do coração. Exemplos desse tipo de adaptação são, segundo o Pe. Alexis, São João Crisóstomo, São João Damasceno e, em menor grau, São Nicomedos da Santa Montanha. Assim sendo, para obtermos um esclarecimento mais preciso e profundo, é necessário que voltemo-nos aos Padres cujas obras eram dedicadas às pessoas já iluminadas ou em vias de iluminação. Estas obras encontram-se sobretudo na coletânea que hoje conhecemos pelo nome de Philokalia. São Pedro Damasceno, por exemplo, adverte a seus leitores que não fiquem chocados ou escandalizados caso encontrem divergências nas interpretações dos Santos Padres, mas exorta-os a perceberem que um tipo de interpretação é dado àqueles cujo noûs funciona adequadamente, enquanto outro tipo de interpretação é dado àqueles cujo noûs não funciona apropriadamente.

* * *

As línguas são explicitamente mencionadas em dois livros da Bíblia: nos Atos dos Apóstolos e em I Coríntios.

ATOS 2:1-17

E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, e Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto. Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos. (Atos 2:1-17).

Há, neste trecho, três manifestações da graça que, para o leitor desatento, poderão passar despercebidas ou confundidas. São elas:

1) "E todos [isto é, os Apóstolos]...começaram a falar noutras línguas". Este trecho refere-se às palavras das súplicas comuns que não eram simplesmente palavras expressas mentalmente ou racionalmente, mas palavras faladas no coração pelo Espírito Santo.

2) "...conforme o Espírito Santo lhes concedia [isto é, aos Apóstolos] que falassem". Este trecho refere-se ao dom da profecia, ou seja, à capacidade de esclarecer as Escrituras, assim como Cristo esclareceu as Escrituras aos Apóstolos na estrada de Emaús.

3) "...cada um os ouvia falar na sua própria língua". Este trecho refere-se ao fato das palavras dos Apóstolos terem sido compreendidas por aqueles cuja língua materna não era o hebraico. Aqui, a explicação de São Gregório de Nissa é mais convincente e coerente do que a explicação de São Gregório, o Teólogo. Segundo São Gregório de Nissa, os Apóstolos falaram em hebraico, enquanto os ouvintes entenderam em suas próprias línguas -- neste caso, o Espírito teria "traduzido" as palavras de São Pedro nos corações de cada ouvinte para suas próprias línguas. Mas, segundo São Gregório, o Teólogo, os Apóstolos teriam falado eles mesmos em diversas línguas estrangeiras, e os ouvintes apenas seguiram ouvindo o que lhes era dito -- porém, segundo o Pe. Alexis, São Gregório, o Teólogo, teria preferido esta versão para "incrementar" o milagre, fazendo-o operar do lado dos Apóstolos, e não dos ímpios judeus (o que atesta o que falamos acima, isto é, que os Santos Padres eventualmente tinham de adaptar as explicações teológicas a fim de buscar o efeito correto nos ouvintes). No entanto, o próprio São Gregório, o Teólogo, confessa que há uma interpretação alternativa, que é, justamente, a oferecida por São Gregório de Nissa. Se levarmos em conta questões práticas, a interpretação de São Gregório de Nissa é a que faz sentido. Não há porque supormos que os Apóstolos falaram simultaneamente em línguas diferentes, pois esse tipo de comportamento desordenado não é característico de homens modestos e equilibrados como os Apóstolos. De acordo com o Ancião Porfírio (+1991), a interpretação de São Gregório de Nissa é a correta, dado que o próprio Ancião Porfírio passou por uma experiência idêntica no Monte Athos: ele falava em grego, enquanto uma mulher o entendia em francês (sendo que a mulher não sabia absolutamente nada do idioma grego). Ainda segundo o Pe. Porfírio, os Santos Padres estavam cientes do milagre da compreensibilidade, mas o mistério era tão fabuloso que preferiam até mesmo evitar comentar sobre ele.

Em suma: as "línguas" do Pentecostes não têm nada a ver com os vários idiomas compreendidos no local, mas às palavras ouvidas pelos Apóstolos expressas pelo Espírito em seus corações. Os vários idiomas compreendidos são outro milagre, uma outra instância do que ali se passou.


I CORÍNTIOS 14:1-33

Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar. Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios. Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação. O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja. E eu quero que todos vós faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis; porque o que profetiza é maior do que o que fala em línguas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação. E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas, que vos aproveitaria, se não vos falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina? Da mesma sorte, se as coisas inanimadas, que fazem som, seja flauta, seja cítara, não formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca com a flauta ou com a cítara? Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha? Assim também vós, se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? porque estareis como que falando ao ar. Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação. Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim. Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja. Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a possa interpretar. Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. De outra maneira, se tu bendisseres com o espírito, como dirá o que ocupa o lugar de indouto, o Amém, sobre a tua ação de graças, visto que não sabe o que dizes? Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado. Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos. Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida. Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento. Está escrito na lei: Por gente de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis. Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos? Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Portanto, os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós. Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. E, se alguém falar em língua desconhecida, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos. (I Coríntios 14:1-33).

1) "Falar em línguas" não é uma questão de línguas estrangeiras muito menos de balbuciar coisas sem sentido, mas trata-se da oração incessante no coração pelo Espírito. É uma interpretação dada por Orígenes (185-255), a qual os Padres Capadócios não rejeitaram. Infelizmente, nos tempos de São João Crisóstomo (+407), começou a circular a opinião de que o "dom das línguas" era a capacidade (dom) dos Apóstolos em falar nos idiomas das pessoas a quem proclamavam o Evangelho. Em seus comentários sobre essa epístola de São Paulo, São João Crisóstomo identifica as variedades de línguas com o dom apostólico da compreensibilidade no Pentecostes, mas confessa que "todo este trecho é extremamente obscuro". No entanto, São Nikitas Stithatos, sem alegar qualquer obscuridade, identifica as variedades de línguas com a oração incessante e silenciosa no coração pelo Espírito.

2) Ademais, as traduções modernas da Bíblia são péssimas, e só ajudam a piorar a situação. O trecho que colei acima é da Bíblia "Almeida Corrigida e Fiel" (ACF), uma espécie de "King James Version" portuguesa. O autor identifica uma série de erros de tradução na KJV que, não sem surpresa, são repetidos na ACF. Isso ocorre porque os tradutores, assumindo que as "línguas" são idiomas, interpretaram e traduziram a Bíblia de acordo com essa crença.

=> Versículo 2: "Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende". A tradução correta é: "Porque o que fala com uma língua não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o ouve".

=> Versículo 10: "Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação". A tradução correta é: "Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é muda". (O original grego é a phonon, isto é, sem voz).

=> Versículo 8: "Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?". A tradução correta é: "Porque, se a trombeta não manifestar seu som, quem se preparará para a batalha?".

=> Versículo 11: "Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim". A tradução correta é: "Mas, se eu ignorar a intensidade da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala seerá bárbaro para mim". (O original grego é dynamin, isto é, intensidade, volume, força, poder).

3) Outros trechos das epístolas do Novo Testamento que se referem à oração incessante no coração:

=> Orai sem cessar. (I Tessalonicenses 5:17).

=> Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração. (Efésios 5:19).

=> E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. (Gálatas 4:6).

=> E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos. (Romanos 8:26-27).

4) Por fim, vale lembrar que as exortações de São Paulo aos coríntios são até hoje seguidas em algumas comunidades monásticas do Monte Athos. Após os ofícios, se não há peregrinos no local, os monges rezam silenciosamente com seus cordões de oração. Mas, se há forasteiros presentes, mesmo que seja somente uma pessoa, os monges seguem a exortação de São Paulo e lêem os livros dos ofícios, assim como nas demais igrejas e mosteiros, para que os peregrinos (os "indoutos") possam dizer o seu "Amém" e serem edificados e instruídos.

11 de dezembro de 2008

Entrevista com o Bispo Calisto Ware

Entrevista publicada na revista Road to Emmaus [Estrada de Emaús] no 3º trimestre de 2002.

* * *

Nota editorial: De 8 a 10 de feveiro deste ano [2002], um membro do conselho administrativo de Estrada de Emaús esteve no retiro de fim-de-semana da Catedral Ortodoxa Antioquina de São Jorge, em Wichita, Kansas, EUA. Lá estava o Bispo Calisto Ware [elevado a Metropolita em 2007] de Diocléia na Grã-Bretanha. Há mais de 40 anos, o Bispo Calisto escreveu uma clássica introdução à Ortodoxia que, desde então, nunca foi superada em clareza, profundidade e objetividade: The Orthodox Church. Nas décadas seguintes, além de professor de Estudos em Cristianismo Oriental e pastor da paróquia ortodoxa em Oxford, ele também co-traduziu o Triodion Quaresmal e o Menaion das Festas para a língua inglesa, bem como quatro volumes do maior clássico da espiritualidade ortodoxa, a famosa Filocalia [volumes 1, 2, 3 e 4 -- o 5º e último volume ainda não foi publicado]. A dívida que o mundo de língua inglesa tem por suas explicações claras e concisas e por suas traduções fiéis às fontes e ofícios originais é enorme. Estrada de Emaús acrescenta sua parte a esta dívida, já que Sua Graça se dispôs gentilmente a nos responder algumas perguntas.

EDE: Sua Graça, muitos ortodoxos vieram de famílias católicas, protestantes, e até mesmo agnósticas. Eles em geral sentem que foi o próprio Cristo quem os conduziu à Ortodoxia. Quando nos tornamos ortodoxos, topamos com certo “constrangimento de riquezas” – ícones, ofícios, a tradição patrística, a história da Igreja – de maneira que ficamos tentados em mergulhar de cabeça nisso tudo. No entanto, é muito comum trazermos conosco experiências de cultos muito racionais ou muito emocionais. Como um convertido deve adentrar à Igreja sem que incorra nesses extremos? Não desejamos romper os laços com o passado e com as valiosas lições que aprendemos pelo caminho, mas como proceder para nos inserirmos plenamente na tradição? A Oração de Jesus é uma porta acessível ao recém-convertido?

BISPO CALISTO: Sim. O primeiro ponto que temos de entender, o qual você mesmo já citou, é que quando nos tornamos ortodoxos, devemos encarar este fato como o cumprimento de nosso passado, e não como sua negação. Devemos encará-lo como a afirmação de tudo aquilo que é bom em nossa experiência pregressa. Para mim, é sempre muito triste ver ortodoxos atacando as comunidades cristãs às quais pertenceram no passado. É claro, talvez eles queiram dizer por que se tornaram ortodoxos, ou o que eles encontraram na Ortodoxia que não havia anteriormente, mas eles devem sempre ter em mente que suas antigas comunidades cristãs, se tiveram uma, é o que os levaram à Ortodoxia. Portanto, devemos encarar a Ortodoxia como o coroamento, ou seja, como a afirmação de tudo aquilo que é bom, e não apenas como ruptura.

Dito isto, é verdade que trazemos muita bagagem conosco, e precisamos nos desfazer de parte dessa bagagem. No entanto, a coisa mais importante para uma pessoa não-ortodoxa que se sente atraída pela Ortodoxia – e aqui não importa se ela pertence a outra comunidade cristã ou se é agnóstica – é que ela deve experimentar a Ortodoxia como uma via de oração, como uma comunidade de oração.

A primeira coisa que digo a alguém que esteja interessado na Ortodoxia é: “Aprenda a rezar com a Igreja Ortodoxa”. Isso significa comparecer à Divina Liturgia (sem participar da Santa Comunhão, é claro), mas comparecer à Liturgia todo domingo, caso esteja sinceramente interessado em se juntar à Ortodoxia. Em paralelo, utilize as orações ortodoxas nas suas orações diárias, e aqui a Oração de Jesus tem seu papel. Eu os encorajo, antes mesmo de se tornarem ortodoxos, a começar a rezar a Oração de Jesus de maneira simples, mas séria e consistentemente.

Portanto, a melhor maneira de se aproximar da Ortodoxia é por meio da oração. Sim, devemos ler livros, devemos conversar com outros ortodoxos, mas, acima de tudo, devemos aprender a rezar com a Igreja Ortodoxa. Ora, é claro que isso não eliminará todas as posturas não-ortodoxas, mas, no mínimo, é por aí que devemos começar.

Então, sendo mais específico em relação à sua pergunta, o que significa ser uma pessoa? Possuímos um cérebro que raciocina, e trata-se de um dom de Deus que deve ser usado de maneira plena. Possuímos emoções, e elas também não devem ser suprimidas. Elas devem ser postas a serviço de Deus. Mas temos de reconhecer que a pessoa humana é mais do que apenas faculdades racionais e mais do que apenas sentimentos e afinidades emocionais.

Esse “algo a mais” é exatamente aquilo que a literatura tradicional ortodoxa resume em dois termos: noûs e espírito. Noûs é uma palavra difícil de traduzir. Se disséssemos que é “mente”, seria vago demais. Na tradução que fizemos da Filocalia, optamos em traduzi-la, com muita hesitação, por “intelecto”, deixando claro que “intelecto” não designa em princípio a faculdade racional do homem. [Muitos tradutores contemporâneos têm optado por não traduzir a palavra noûs, deixando-a no original grego - N. do T.] O noûs é a visão espiritual que todos nós possuímos, embora a maioria não a tenha descoberto ainda. O noûs implica em apreciação direta e intuitiva da verdade, na qual a verdade é apreendida não como se fosse a conclusão de um raciocínio, mas simplesmente vemos que algo é assim.

O noûs também é cultivado por meio do estudo, do treinamento de nossas faculdades, mas ele também é desenvolvido por meio da oração, do jejum, e da vida cristã em geral. É isso que, mais do que tudo, precisamos desenvolver enquanto ortodoxos. É algo muito mais importante e elevado do que o cérebro racional e muito mais profundo que as emoções.

EDE: Quando tentamos alcançar esse algo a mais, tudo na Ortodoxia aponta para a Santíssima Trindade e, em especial, para o Senhor, já que ele também era humano. Em sua opinião, qual o melhor caminho para que um convertido possa alcançá-Lo? O senhor mencionou a Oração de Jesus como parte integrante desse caminho. O senhor poderia esclarecer melhor o assunto?

BISPO CALISTO: De fato, a Oração de Jesus é uma via para cultivar a visão espiritual. Não se trata de uma forma de imaginação discursiva, que supostamente nos forneceria novos retratos imaginários sobre como Cristo era; também não é uma forma de imiscuir-se em argumentos teológicos que nos conduziriam a novas idéias sobre Cristo. Na verdade, a Oração de Jesus apela diretamente ao noûs, ao coração, ao espírito. Esta é uma das maneiras de alcançar este nível especial de pessoalidade do qual estávamos falando. Eu não diria que é a única via, além de que a Oração de Jesus existe num determinado contexto. Ela pressupõe que as pessoas que rezam a Oração de Jesus estejam plenamente imersas na vida sacramental da Igreja, sobretudo no sacramento da confissão e da Santa Comunhão. A Oração de Jesus anda de mãos dadas com a vida sacramental.

No entanto, gostaria de mencionar, além da Oração de Jesus e da vida sacramental, a especial importância da leitura das Escrituras. Alguns convertidos não se atentam a este detalhe porque, em geral, se entusiasmam tanto com os ícones, com o incenso, com a riqueza da Divina Liturgia etc., mas também devem refletir como é profundo o elemento bíblico e evangélico na Ortodoxia. Por “evangélico”, refiro-me ao sentido literal de “viver nos Evangelhos”.

Na Ortodoxia, cultivamos um modo todo particular de ler as Escrituras. Era algo comum tanto no Oriente quanto no Ocidente, embora não seja agora muito comum no Ocidente. Devemos ler a Bíblia não necessariamente munidos de um monte de comentários, mas devemos lê-la lentamente – ouvindo-a, lendo-a como se tivesse sido endereçada a mim mesmo. Leia-a cuidadosamente, de maneira reflexiva, meditativa, contemplativa, mas sem desenvolver argumentos, porém com uma postura de simplesmente ouvi-la.

Este é o modo tradicionalmente ortodoxo de ler as Escrituras. Não as lemos rodeados de comentários, embora isso também tenha a sua importância, mas as lemos como parte de nossas orações – não como um estudo racional mas como um ato de oração. Não devemos forçar o sentido das Escrituras de maneira que se conformem artificialmente à nossa própria condição, mas, à medida que as lemos, devemos aplicá-las a nós mesmos, não com exemplos confeccionados a partir da imaginação, mas simplesmente ouvindo-as. Creio que se as Escrituras fossem lidas desta maneira, elas nos ajudariam a cultivar uma relação pessoal com Jesus Cristo.

Quanto à Oração de Jesus, é bom sempre nos lembrarmos que ela não é uma técnica de relaxamento ou concentração. Ela é, isso sim, uma invocação pessoal, são palavras de oração direcionadas especificamente à pessoa de Jesus, nosso Salvador.

EDE: Quando comecei a ler livros ortodoxos, muitos anos atrás, iniciei pelos Relatos de um Peregrino Russo. Tínhamos também, na época, a tradução inglesa da Filocalia. Quando eu descobri que os Relatos se baseavam em livros reais, que a Filocalia existia, comprei-a imediatamente com a esperança de que, “Ahá! Agora sim, vou conseguir rezar como o peregrino”. Porém, assim que comecei a ler a Filocalia, percebi que a leitura era dificílima, que era algo que estava anos-luz à frente das minhas limitadas experiências, mas que também tinha algo a ver com o conceito de “mente no coração”. Depois de uns quatro ou cinco capítulos, a gente percebe que não tem absolutamente nenhuma idéia de como aplicar esse conceito, e fica pensando: “Será que minha mente já está no coração? Como eu chego lá? Será que eu deveria estar fazendo alguma coisa, ou será que Deus vai fazer alguma coisa por mim para que isso aconteça? Será que eu devo pensar, será que eu não devo pensar...?”

BISPO CALISTO: Sim. Em primeiro lugar, a Filocalia não é um livro fácil. De qualquer maneira, as obras da edição grega não estão organizadas por nenhum critério, ou melhor, a seqüência é meramente cronológica, mas não há um arranjo sistemático de tópicos. É até possível que leiamos a Filocalia a fim de saber o que Deus tem a dizer a nosso coração, mas é muito melhor que a leiamos com auxílio e orientação.

Se me pedissem para recomendar textos da Filocalia, eu sugeriria os Cem Textos (a Centúria) de Calisto e Ignácio Xanthopoulos. Eles se encontram no quinto volume da Filocalia, o qual ainda não foi publicado, mas que pode ser encontrado em inglês numa antiga tradução feita a partir de uma tradução russa feita por São Teófano, o Recluso, em Writings from the Philokalia on Prayer of the Heart [Textos da Filocalia sobre a Oração do Coração]. É um excelente começo. Depois, sugeriria que as pessoas lessem Hesíquio, do primeiro volume; do segundo volume, a vida do Ancião Filomeno; e também, talvez, as obras mais curtas de São Gregório do Sinai, que se encontram no quarto volume.

São textos muito úteis para principiantes mas, repito, temos de reconhecer que a Filocalia é um livro difícil. Quiçá, quando terminar o quinto volume, com a graça de Deus, eu possa preparar uma espécie de introdução à Filocalia, a qual conteria os textos mais fáceis organizados por temas. Não seria um substituto à tradução completa, mas uma introdução.

Outro livro que pode ajudar as pessoas, algo mais fácil e simples que a Filocalia, é uma antologia publicada em inglês com o título de The Art of Prayer [A Arte de Rezar], pelo Hegúmeno Chariton de Valamo. Acho que os ensinamentos da Filocalia ficam bem mais fáceis por meio das explicações de São Teófano e Santo Ignácio Brianchaninov.

Quanto à questão da mente no coração, eu não recomendaria que as pessoas começassem a pensar nisso. Eu diria para começarem com a Oração de Jesus em si. Não pense “Onde está minha mente? Será que está no coração?” Não pense “Estou rezando a Oração de Jesus”. Em vez disso, pense em Jesus. O ponto de partida é recitar a Oração de Jesus confinando a mente nas palavras da oração. Temos de estar cientes que estamos falando a Jesus. São palavras vivas de oração direcionadas para outra pessoa viva. Não fique pensando “Onde está minha mente?” Não pense em seu próprio ego, pense apenas em Jesus. Confine sua mente nas palavras da oração: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”. Concentre-se na própria recitação da oração, e todo o resto seguirá como e quando Deus desejar.

EDE: Algumas pessoas, sobretudo monges, rezam certa quantidade de Orações de Jesus por dia; outros rezam por um determinado período de tempo. O que o senhor sugeriria para um iniciante?

BISPO CALISTO: Ambas as formas são aceitáveis. No entanto, eu sugeriria a um iniciante que reserve um período de tempo, sem dar muita importância ao número de orações que conseguir recitar. Na verdade, é possível combinar as duas formas porque você rapidamente descobrirá quanto tempo leva para rezar cem Orações de Jesus. Se eu levo doze minutos, então reservarei, digamos, 25 minutos para rezar 200. Mas isso seria apenas uma sugestão. Comece com a idéia de reservar um tempo para isso. A quantidade de vezes que conseguir rezar a Oração de Jesus é menos importante, mesmo porque há muitas e diferentes tradições. Na Grécia, é comum rezá-la rapidamente, enquanto na tradição russa é costume rezá-la mais lentamente.

EDE: Se temos de rezá-la com atenção e amor, acho que faz mais sentido recitá-la lentamente. Como é possível rezá-la rapidamente, como sugere a tradição grega?

BISPO CALISTO: Eu prefiro a tradição de rezá-la mais lentamente, mas não quero julgar ninguém só porque não recito a Oração de Jesus rapidamente. Se você rezá-la livremente, ao longo do dia, conforme suas tarefas diárias lhe permitirem, é provável que o fará rapidamente, mas não tenha dúvida de que eu recomendaria às pessoas que, no tempo específico que reservarem para rezar, que o façam lentamente.

Ora, os monges frequentemente possuem regras que determinam uma quantidade fixa de repetições. Creio que isso é mais adequado à vida monástica porque ali há uma vida disciplinada, com uma seqüência fixa e elaborada de ofícios litúrgicos, de maneira que a regra de oração acaba se inserindo nesse contexto. É um contexto bem mais estruturado. Ali faz sentido dizer: “Ok, agora você vai rezar trezentas Orações de Jesus com determinado número de metanias, sejam inclinações ou prostrações”.

Quanto aos leigos, no entanto, é muito melhor dizer: “Bem, é razoável que eu reserve tanto e tanto de tempo pela manhã ou à noite”. Pode ser apenas 25 minutos, mas isso já vai fazer uma diferença enorme. Você começa daí, sem se preocupar com quantidades. Conforme ensinava Santo Isaque, o Sírio: “Não quero contar marcos, quero entrar no leito nupcial”.

EDE: Obrigado, Sua Graça, a entrevista foi excelente. Temos uma última pergunta, formulada por uma pessoa do auditório durante sua palestra, e que acho particularmente importante. Como a Oração de Jesus, que aparentemente é direcionada somente a uma pessoa da Santíssima Trindade, participa na liturgia trinitariana e na vida de oração da Igreja?

BISPO CALISTO: A dimensão trinitariana da oração é, de fato, uma questão fundamental. Não há oração verdadeira sem a Santíssima Trindade. Você poderia perguntar: “Ora, a Oração de Jesus é uma oração trinitariana?” De fato, isso faz sentido se nos detivéssemos somente em seu aspecto mais exterior; mas se nos aprofundarmos na oração, encontraremos uma dimensão trinitariana na Oração de Jesus. Primeiramente, a Oração de Jesus, sim, é uma oração direcionada a Cristo, mas falamos de Cristo enquanto Filho de Deus, e aquele que fala do Filho, fala, por conseguinte, do Pai, de maneira que, ao falar a Jesus enquanto Filho de Deus, estamos certamente incluindo em nossa oração a pessoa de Deus Pai.

E o Espírito Santo? Ele não é explicitamente mencionado na oração, mas Ele é, a despeito disso, a atmosfera na qual a oração é recitada. Um dos textos mais importantes da história da Oração de Jesus está em I Coríntios 12:3: Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. Os santos que versam sobre a Oração de Jesus repetem este versículo das Escrituras muitas e muitas vezes. Embora o Espírito Santo não seja mencionado, Ele está ali. Invocamos Jesus no Espírito Santo. É propósito do Espírito Santo nos levar a Cristo.

Na última ceia de nosso Senhor, Cristo afirma: “Ele não falará de Si próprio, ou por Sua própria autoridade, Ele tomará o que é meu e mostrar-vos-á”. Portanto, precisamente, a função do Espírito na economia trinitariana é levar-nos a Cristo, e Cristo leva-nos ao Pai. Dessa forma, a Oração de Jesus, implicitamente, é uma oração verdadeiramente trinitariana. Uma boa maneira de pensar sobre oração é não achar que eu estou falando com Deus: “Eu, uma pessoa aqui embaixo, estou tendo um diálogo com Deus lá em cima”. Devemos pensar assim: “Eu estou entrando no diálogo de amor que continuamente perpassa por entre as Três Pessoas da Trindade”. Assim, quando rezo, não sou bem eu que estou rezando, mas é como se eu estivesse adentrando em um diálogo que já está ocorrendo. Desde a eternidade, já há um diálogo na Divindade, um diálogo de amor. Desde a eternidade, a Primeira Pessoa diz à Segunda: “Tu és meu Filho amado”. Desde a eternidade, a Segunda Pessoa responde à Primeira: “Abba, Pai, Abba, Pai”. Desde a eternidade, o Espírito Santo sela essa troca entre Pai e Filho. Assim, quando rezamos, não somos exatamente nós que rezamos, mas nós adentramos no diálogo da Trindade. Através do Espírito Santo, somos levados a falar as palavras de Cristo como se fossem nossas. No Espírito Santo, dizemos: “Abba, Pai”, e assim nos tornamos parte do eterno diálogo trinitariano.

É desta maneira que a oração é entendida, particularmente em Romanos 8. Se a lermos com cuidado, constataremos que ali há essa idéia de oração enquanto inserção no diálogo da Trindade. Podemos não sentir isso de imediato, conscientemente, mas é isso que acontece. Tornamos-nos parte do diálogo trinitariano de amor. Através do Espírito, nos tornamos filhos no Filho, e com o Filho dizemos ao Pai: “Abba, Pai”.

3 de dezembro de 2008

A veneração ortodoxa de Maria, a Deípara

Em 1933, a Irmandade São Jó de Pochaev, na cidade checa de Vladimirova, publicou um calendário religioso em cujas páginas encontravam-se algumas explicações a respeito de como os cristãos ortodoxos deveriam venerar a Theotokos, isto é, a Mãe de Deus. O Pe. Serafim (Rose) de Platina achou por bem reeditar e publicar o texto, já que muitos ortodoxos recém-convertidos, sobretudo ex-protestantes, apresentavam evidentes dificuldades na correta veneração da Mãe de Deus. O título do livro é The Orthodox Veneration of Mary The Birthgiver of God e foi publicado pela editora do Mosteiro de São Germano do Alaska, Platina, CA, EUA.

O autor daquelas explicações era o então jovem Hieromonge João, de apenas 36 anos. Mais tarde, o Pe. João seria ordenado Arcebispo de Xangai (China), depois Arcebispo da Europa Ocidental (França) e, finalmente, Arcebispo de San Francisco (EUA), no âmbito da jurisdição da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior. Essas mudanças se deram sobretudo em função da perseguição que os comunistas empreendiam contra a Igreja Ortodoxa e seus membros. No entanto, mesmo antes de seu repouso, em 1966, o Arcebispo João já era famoso por ser um taumaturgo de venerável humildade e retidão. No entanto, conforme nos atesta o Pe. Serafim Rose em sua palestra God´s Revelation to the Human Heart, o mais notável no Vladyka João não eram os milagres e maravilhas que Deus operava por meio dele, mas sua Ortodoxia do coração, isto é, o fato dele ser um autêntico transmissor da mente dos Santos Padres da Igreja. Era a verdade que ele portava, e não propriamente os milagres, que mais chamavam a atenção no Arcebispo João.

Em 1994, o Arcebispo João foi oficialmente glorificado, tornando-se São João de Xangai e San Francisco, a quem todos os fiéis podem pedir suas orações e intercessões.

As fontes utilizadas por São João neste estudo foram (1) a Bíblia, (2) as obras dos Santos Padres (especialmente os Padres dos séculos IV e V) e (3) os ofícios da Igreja Ortodoxa. O livro está disponível online aqui.

Este resumo divide-se em duas partes. Na primeira, leremos a tradução completa do capítulo VI, que contém a história da Santíssima Mãe de Deus bem como de sua veneração ortodoxa. A segunda contém o resumo do restante do livro, que descreve os diversos ataques e inimigos que a veneração à Mãe de Deus sofreu ao longo dos anos, desde os tempos apostólicos até nossos dias.

* * *

Cap. VI - A veneração ortodoxa da Mãe de Deus.

A Igreja Ortodoxa ensina sobre a Mãe de Deus aquilo que a Santa Tradição e as Sagradas Escrituras informam sobre ela, e a glorifica diariamente em seus templos, pedindo-lhe ajuda e defesa. Sabedora de que ela se agrada somente dos louvores que correspondem à sua real glória, os Santos Padres e os compositores de hinos a imploravam, bem como a seu Filho, para que lhes ensinassem como cantar a ela. “Levanta uma proteção em meu entorno, ó meu Cristo, pois fui ousado em cantar o louvor de Tua pura Mãe” (Ikos da Dormição). “A Igreja ensina que Cristo nasceu verdadeiramente da Sempre-Virgem Maria” (São Epifânio, “A Verdadeira Palavra sobre a Fé”). “É essencial que nós confessemos a Sempre-Virgem Maria como sendo a verdadeira Theotokos (Mãe de Deus), para que não caiamos em blasfêmia. Aqueles que negam que a Santa Virgem seja realmente a Theotokos não são mais fiéis, mas discípulos de fariseus e saduceus” (Santo Efraim, o Sírio, “A João, o Monge”).

[Foto: Ícone da Deípara Soberana de Kolomenskoye.]

Da Tradição, sabemos que Maria era filha dos idosos Joaquim e Ana, e que Joaquim era da linhagem real de David, e Ana de linhagem sacerdotal. A despeito de tão nobre origem, eles eram pobres. Porém, não foi isso que entristecera os justos, mas o fato de que eles não tinham filhos e não poderiam esperar que seus descendentes vissem o Messias. E eis que, certa vez, desdenhados pelos hebreus por causa de sua esterilidade, eles oravam a Deus com grande contrição. Joaquim foi a uma montanha, logo após os sacerdotes terem negado seu sacrifício no Templo, e Ana estava em seu jardim, chorando por causa de sua esterilidade. Foi então que lhes apareceu um anjo que lhes informou que dariam luz a uma filha. Com muita alegria, eles prometeram consagrar a criança a Deus.

Em nove meses, nasceu-lhes uma menina chamada Maria, que, desde a tenra infância, manifestava as melhores qualidades de alma. Quando ela tinha três anos de idade, seus pais, cumprindo a promessa, solenemente levaram a pequena Maria ao Templo de Jerusalém; ela ascendeu sozinha as escadas e, por revelação de Deus, foi levada ao Santo dos Santos pelo sumo sacerdote, que a encontrou no caminho, levando consigo a graça de Deus que repousara sobre ela no Templo, que até então não possuía essa graça. (Cf. Kondákio da Entrada no Templo. Este era o Templo recém-construído, sobre o qual a glória de Deus ainda não havia descido como descera sobre a Arca ou sobre o Templo de Salomão). Ela foi assentada no Templo em uma área destinada às virgens, mas ela dedicava-se tanto às orações no Santo dos Santos que, dizia-se, ela morava ali. (Ofício da Entrada, segundo sticheron do Senhor, "eu clamei" e o “Glória, agora e sempre...”). Adornada com todas as virtudes, ela manifestou um exemplo de vida extraordinariamente puro. Submissa e obediente a todos, ela não ofendia ninguém, não dizia uma única palavra rude, era amiga de todos, e não se permitia pensamentos impuros. (Santo Ambrósio de Milão, “Sobre a Perpétua Virgindade da Virgem Maria”).

“A despeito da retidão e da imaculabilidade de vida que a Mãe de Deus levava, o pecado e a morte eterna manifestaram sua presença nela. Não havia outro jeito: tal é o ensinamento preciso e fiel da Igreja Ortodoxa sobre a Mãe de Deus com respeito ao pecado original e a morte” (Santo Ignácio Branchaninov, “Exposição do Ensinamento da Igreja Ortodoxa sobre a Mãe de Deus”). “Estranha a qualquer queda em pecado” (Santo Ambrósio de Milão, Comentário sobre o Salmo 118), “A ela não eram estranhas as tentações pecaminosas”. “Somente Deus é sem pecado”, (Santo Ambrósio, idem), “enquanto o homem sempre terá em si algo que necessita correção e aperfeiçoamento, para que se cumpra o mandamento de Deus; Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo (Levítico 19:2). Quanto mais puro e perfeito se é, tanto mais se notarão as imperfeições e tanto mais se há de considerar indigno".

A Virgem Maria entregou-se por completo a Deus, mas, embora tenha expulsado de si todo impulso ao pecado, sentia a fraqueza da natureza ainda mais intensamente que os demais, desejando ardentemente, portanto, a vinda do Salvador. Em sua humildade, ela considerava-se indigna até mesmo de ser a serva virgem que daria a luz a Ele. De maneira que nada pudesse distraí-la da oração e da vigilância, Maria prometeu não se casar, a fim de agradá-Lo por toda a vida. Ao ser prometida noiva ao velho José, quando sua idade não mais permitia que permanecesse no Templo, ela estabeleceu-se em sua casa, em Nazaré. Foi lá que à Virgem foi concedida a vinda do Arcanjo Gabriel, que lhe contou as boas novas do nascimento virginal, isto é, do Filho do Altíssimo.

Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo. Bendita és tu entre as mulheres... Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus (Lucas 1:28-35).

Maria recebeu as boas novas angelicais humilde e mansamente. “Então, o Verbo, de maneira que Lhe é conhecida, desceu e, como Ele mesmo quisesse, entrou em Maria e habitou nela” (Santo Efraim, o Sírio, “Louvor à Mãe de Deus”). “Assim como o relâmpago ilumina o que está oculto, assim também Cristo purifica o que está oculto na natureza das coisas. Ele também purificou a Virgem, preparando-a pelo Espírito Santo, e seu ventre, tornando-se puro, concebeu-Lhe. Não digo que Maria tornou-se imortal, mas, iluminada pela graça, digo que ela não foi perturbada por desejos pecaminosos” (Santo Efraim, o Sírio, Homilia contra os Heréticos, 41). “A Luz habitou nela, purificou sua mente, tornou puros seus pensamentos, tornou castos seus interesses, santificou sua virgindade” (Santo Efraim, o Sírio, “Maria e Eva”). “Pura segundo o entendimento humano, Ele a tornou pura pela graça” (Santo Ignácio Brianchaninov, “Exposição do Ensinamento da Igreja Ortodoxa sobre a Mãe de Deus”).

Maria não contou a ninguém sobre o surgimento do anjo, mas o próprio anjo revelou a José a concepção miraculosa de Maria a partir do Espírito Santo (Mateus 1:18-25); e, após a Natividade de Cristo, juntamente com uma multidão dos exércitos celestiais, ele anunciou aos pastores. Os pastores, ao virem para adorar o recém-nascido, disseram que ouviram falar dEle. Após suportar suspeitas a seu respeito em silêncio, Maria, conferindo-os em seu coração, agora ouvia em silêncio os dizeres sobre a grandeza de seu Filho (Lucas 2:8-19). Quarenta dias mais tarde, ela ouviu o louvor de Simeão e a profecia sobre a arma que transpassaria sua alma. Mais tarde, ela viu como Jesus avançava em sabedoria; ela O ouviu pregando no Templo, com doze anos de idade, e a tudo ela conferia em seu coração (Lucas 2:21-51). Embora cheia de graça, ela não compreendeu plenamente em quê o serviço e a grandeza de seu Filho consistiriam. As concepções hebraicas do Messias ainda lhe eram próximas, e os sentimentos naturais a forçaram a se preocupar com Ele, preservando-O de esforços e perigos excessivos. Assim, ela protegia seu Filho involuntariamente, o que inspirou Seu ensinamento sobre a superioridade do espiritual sobre a filiação corporal (Mateus 12:46-49). “Ele também se preocupava com a honra de Sua Mãe, mas ainda mais lhe preocupava a salvação de sua alma e dos homens de bem, pois para isso vestiu-se de carne” (São João Crisóstomo, Comentários sobre João, Homilia 21). Maria entendeu isto, e ouviu a palavra de Deus e a guardou (Lucas 11:27-28). Como ninguém, ela possuía os mesmos sentimentos de Cristo (Filipenses 2:5), suportando a dor de ver seu próprio Filho sendo perseguido, sem murmurar. Alegrando-se no dia da Ressurreição e no dia de Pentecostes, ela foi revestida de poder do alto (Lucas 24:49). O Espírito Santo, que sobre ela descera, ensinou(-lhe) todas as coisas (João 14:26), e guiou(-a) em toda a verdade (João 16:13). Iluminada, ela esforçou-se com ainda mais zelo a fim de desempenhar o que ouvira de seu Filho e Redentor, e ascender a Ele para com Ele permanecer.

O fim da vida terrena da Santíssima Mãe de Deus foi o início de sua grandeza. “Adornada com a glória divina” (Irmos do Canon da Dormição), ela estará, tanto no dia do Julgamento Final quanto no século futuro, à direita do trono de seu Filho. Ela reina com Ele e é ousada para com Ele, como Sua Mãe segundo a carne, e como uma em espírito com Ele, como aquela que cumpre a vontade de Deus e instrui os demais (Mateus 5:19). Misericordiosa e cheia de amor, ela manifesta seu amor para com seu Filho e Deus em amor pela raça humana. Ela intercede pela raça humana diante do Misericordioso enquanto, na terra, auxilia os homens. Tendo experimentado todas as dificuldades da vida terrena, o Intercessor da raça cristã vê toda lágrima, ouve todo gemido e súplica a ela direcionados. Especialmente próximos a ela estão aqueles que se esforçam na batalha contra as paixões e são zelosos por uma vida agradável a Deus. No entanto, até mesmo em questões mundanas ela é uma auxiliadora insubstituível. “Alegria de todos os que sofrem e intercessora pelos ofendidos, alimentadora dos famintos, consolação dos viajantes, porto seguro em meio a tempestades, visitação dos doentes, proteção e intercessão dos enfermos, apoio dos idosos, tu és a Mãe de Deus nas alturas, ó Puríssima” (Sticheron do Ofício à Hodigitria). “Esperança e intercessão e refúgio dos cristãos”, “A Mãe de Deus incessante em orações” (Kondákion da Dormição), “salvando o mundo por tua oração incessante” (Theotokion do Terceiro Tom). “Ela ora dia e noite por nós, e os cetros dos reinos são confirmados por suas orações”.

Não há palavras ou intelecto que expressem sua grandeza, que nasceu na pecadora raça humana mas tornou-se “mais honorável que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os serafins”. “Vendo a graça dos mistérios ocultos de Deus se manifestar e se cumprir na virgem, eu regozijo; e não sei como entender a maneira estranha e secreta por meio da qual o Incorrupto foi revelado como o único escolhido acima de toda criação, visível e espiritual. Portanto, desejando louvá-la, torno-me mudo de assombro em mente e voz. Mesmo assim, atrevo-me a proclamá-la e a magnificá-la: ela é verdadeiramente o Tabernáculo celeste” (Ikos da Entrada no Templo). “Toda língua fracassa ao louvar-te como deveria; até mesmo um espírito do alto tem vertigens quando canta teus louvores, ó Theotokos. Mas como tu és boa, aceita nossa fé. Tu conheces como ninguém nosso amor inspirado por Deus, pois tu és a Protetora dos cristãos, e nós de magnificamos” (Irmos do 9º Cântico, Ofício da Teofania).

* * *

Nos tempos apostólicos. O Apóstolo João, o Teólogo, cumprindo o desejo expresso por Jesus Cristo ainda na Cruz – Eis aí tua mãe (João 19:27) – tomou conta da Virgem Maria como uma mãe. Por sua vez, o Apóstolo Lucas pintou diversas imagens da Mãe de Deus. Quando ele lhe mostrou, ela teria dito: “A graça de Meu Filho estará com eles”. Antes de repousar, ela orou para que seu Filho, Jesus Cristo, a livrasse dos espíritos maliciosos que encontram as almas humanas ao longo do caminho para o céu. Na hora de sua morte, o próprio Cristo desceu dos céus, cercado de uma multidão de anjos, a fim de receber a alma de sua mãe. Além disso, a Virgem Maria também orou para que pudesse se despedir dos apóstolos. Cristo também lhe concedeu esse pedido, reunindo milagrosamente todos os apóstolos, exceto o Apóstolo Tomé, em Jerusalém. No terceiro dia após seu repouso, os apóstolos abriram sua tumba para venerar suas relíquias, pois o Apóstolo Tomé já se encontrava em Jerusalém. No entanto, seu corpo não estava lá. Ao retornarem, perplexos, os apóstolos tiveram uma visão, na qual a Mãe de Deus lhes informava que seu corpo havia sido glorificado, e que ela encontrava-se ressuscitada e diante do Trono de Cristo. Ela também prometeu estar com eles até o fim. A partir desse instante, os apóstolos passaram a venerá-la não apenas como a Mãe de Deus, mas também como sua auxiliadora celestial, como protetora dos cristãos e como intercessora em favor da raça humana diante do Juiz de tudo.

[Foto: Ícone da Deípara Soberana de Kolomenskoye, na Catedral Ortodoxa Antioquina de São Paulo, para venração dos fiéis e clérigos. Clique para ampliar.]

Os primeiros inimigos. É apenas natural que todos os que odeiem Jesus Cristo também odeiem o Evangelho, a Igreja e, por conseguinte, também a Mãe de Deus. Desde o início, inimigos surgiram com o objetivo de diminuir e menosprezar a Theotokos. É bastante significativo que o primeiro incidente ocorreu já no enterro da Mãe de Deus. Os apóstolos estavam carregando seu corpo a fim de enterrá-lo no Getsêmani. No entanto, um sacerdote judeu chamado Athonius tentou derrubar o corpo da Virgem Maria no chão, mas eis que o Arcanjo Miguel surgiu e decepou sua mão. Arrependido, Athonius pediu perdão a Cristo pelo que fez, e sua mão foi restaurada. Naqueles tempos, surgiu também um boato de que a Mãe de Deus era proveniente de uma família imoral e que teria se associado a um soldado romano, mas tal boato não se espalhou seriamente pois a fama de José e da própria Virgem era extremamente digna e excelente.

Os primeiros séculos. A alguns tradutores judeus (Áquila, Teodocião e Símaco) foi confiada uma nova tradução do Velho Testamento em grego. O objetivo de diminuir a honra e a glória da Santíssima Virgem foi mantido. Na Septuaginta, que é a versão tradicional e apostólica da Bíblia, lê-se em Isaías 7:14: Eis que a virgem conceberá. No entanto, esses tradutores trocaram a tradução da palavra hebraica Aalma de “virgem” para “jovem”. No entanto, as intenções malignas desses tradutores foram reveladas, uma vez que não apenas os cristãos mas até mesmo pagãos estranharam a nova tradução, já que suas tradições e profecias sempre falavam de um Redentor nascido de uma Virgem. Posteriormente, boatos foram lançados segundo os quais Maria permaneceu virgem somente até que deu a luz seu Filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus (Mateus 1:25). No entanto, tal malícia também não se sustentou, uma vez que a palavra “até” freqüentemente tem o sentido de eternidade, como nestes trechos:

Nos seus dias florescerá o justo, e abundância de paz haverá até durar a lua. (Salmo 71:7).

Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. (I Coríntios 15:25).

Assim como os olhos dos servos atentam para as mãos dos seus senhores, e os olhos da serva para as mãos de sua senhora, assim os nossos olhos atentam para o Senhor nosso Deus, até que tenha piedade de nós. (Salmo 122:2).

Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. (Mateus 28:20).

Quanto à questão de Jesus Cristo possuir irmãos, no sentido consangüíneo da palavra, o fato é que os “irmãos” e “irmãs” não eram filhos de Sua Mãe, e uma das muitas evidências é que o próprio Senhor confiou Sua Mãe, logo antes de Sua morte, a seu discípulo amado, São João, o Teólogo. Por que Ele assim agiria, caso a Mãe de Deus tivesse outros filhos além dEle próprio?

O Terceiro Concílio Ecumênico. No século V, o Arcebispo Nestório de Constantinopla começou a pregar uma idéia nova, segundo a qual a Virgem Maria teria dado a luz ao homem Jesus, em quem a divindade foi posteriormente conferida. Ele considerava humilhante adorar uma criança que nascera envolta em faixas numa manjedoura. Ele dizia ainda que deveríamos aprender a distinguir o Jesus homem do Filho de Deus, e que Maria não deveria ser chamada Theotokos, mas Christotokos, isto é, Mãe de Cristo. As implicações desta nova teologia eram enormes: quem sofreu por nós na Cruz não teria sido o próprio Deus, mas um homem. São Cirilo de Alexandria tentou persuadir Nestório a abandonar essa nova doutrina, e também avisou ao Papa São Celestino sobre o ocorrido. São Celestino permaneceu firme na fé ortodoxa, apelando a Nestório para que desistisse de propagar tal heresia e voltasse a pregar a doutrina tradicional. São Cirilo compôs doze anátemas, distribuídos em doze parágrafos, e declarou que ninguém poderia negar um único daqueles parágrafos sem desviar-se da fé ortodoxa. Nestório não apenas os negou, mas compôs outros doze parágrafos e afirmou o mesmo, isto é, que quem os negasse cairia em anátema. Decidiu-se então convocar um Concílio Ecumênico em Éfeso, que foi a mesma cidade onde a Mãe de Deus habitara com São João, o Teólogo. Nesse Concílio, os hierarcas da Igreja decidiram que a doutrina de Nestório era ímpia, condenando-a em seguida, e destituiu Nestório de sua sé episcopal. A cidade de Éfeso alegrou-se abundantemente com a decisão, pois a honra de Santa Maria, a Mãe de Deus, foi restaurada. Neste mesmo Concílio, a heresia de Pelágio, segundo a qual o homem pode ser salvo mediante seus próprios poderes, sem a necessidade do auxílio da graça divina, foi condenada; também se decidiu que a doutrina da Igreja Ortodoxa estava plenamente enunciada no Credo Niceno-Constantinopolitano, sendo proibida qualquer adição, sob pena de compor-se uma nova e heterodoxa fé. O Papa de Roma, São Celestino, aceitou e defendeu bravamente todas as decisões deste Terceiro Concílio Ecumênico.

Os iconoclastas. O príncipe deste mundo mais uma vez armou os filhos da apostasia para mais uma batalha, no século VIII, em Constantinopla, que, assim como Éfeso, também passara a venerar a Mãe de Deus. Esses apóstatas, chamados de iconoclastas, desejavam proibir a veneração aos ícones de Cristo e Seus santos, chamando tal prática de idolatria. Tal perseguição terminou novamente em vitória para os cristãos, cuja Ortodoxia triunfou mais uma vez, permitindo que os ícones voltassem a ser venerados.

A heresia da imaculada conceição da Virgem Maria. Esta heresia foi aceita pelos seguidores do trono papal de Roma. Embora aparentemente exalte a Virgem Maria, na verdade esta heresia nega todas as suas virtudes. Ela ensina que a Mãe de Deus teria sido poupada do pecado original pela graça de Deus. Esta heresia surgiu no século IX, quando o abade de Corvey, Paschasius Radbertus, expressou a opinião de que a Santa Virgem foi concebida sem o pecado original. Nem todos os membros da igreja romana aceitavam esta opinião. Tomás de Aquino e Bernardo de Clairvaux a censuravam com veemência, enquanto Duns Scotus a defendia. Foi só muitos séculos mais tarde, em 1854, que a imaculada conceição foi declarada dogma pela igreja romana. Mais tarde, em 1870, o mesmo papa romano, Pio IX, declarou o dogma de que os papas são infalíveis em questões de fé. No texto do dogma da imaculada conceição, citam-se inúmeros Santos Padres que teria supostamente defendido esta heresia. No entanto, quando nos debruçamos em tais declarações, verificamos que os Santos Padres exaltavam a pureza e a imaculabilidade da Mãe de Deus, mas não a imaculabilidade de sua concepção. Os mesmos Santos Padres ensinam que somente Jesus Cristo estava completamente livre de pecados, enquanto todos os homens estavam sujeitos à lei do pecado. Ademais, a igreja romana também acredita que a Mãe de Deus foi co-redentora da raça humana, em função de seu sofrimento diante da Cruz de Cristo. Dessa maneira, a Virgem Maria é colocada lado a lado com Cristo na obra da redenção, abrindo as portas para sua deificação. A Igreja Ortodoxa, por sua vez, jamais ensinou tal doutrina. Santo Ambrósio e Santo Agostinho, por exemplo, foram claros em declarar que somente Jesus Cristo era perfeitamente santo e sem pecado. A ninguém foi dado o direito de ser concebido em santidade, somente o Senhor Jesus Cristo, que foi concebido do Espírito Santo, e somente Ele é santo desde a concepção. Em suma, podemos dizer que:

(1) A imaculada conceição não corresponde às Sagradas Escrituras: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem (I Timóteo 2:5); E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado. (I João 3:5); Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados (I Pedro 2:22); Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado (Hebreus 4:15); Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (II Coríntios 5:21).

(2) A imaculada conceição contradiz a tradição e a doutrina dos Santos Padres, conforme mencionado acima (Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São Basílio, o Grande, etc.).

(3) A imaculada conceição é ilógica porque, se Cristo precisasse nascer de uma Virgem que também precisasse nascer pura, então por extensão teríamos de concluir que os pais, avós, bisavós etc. da Virgem Maria também nasceram puros, sem o pecado original. Por conseguinte, todos os ancestrais de Cristo, até Adão, teriam de ter nascido puros.

(4) A imaculada conceição torna Deus um ser sem misericórdia e injusto, pois Ele salvaria pessoas a despeito suas vontades humanas, predeterminando-as antes de nascerem à salvação.

(5) A imaculada conceição nega todas as virtudes da Mãe de Deus. Se ela foi preservada de todas as impurezas, então em que consiste seu mérito? Não há vitória sem adversário. Seu “sim” foi inócuo.