30 de janeiro de 2008

A praga do cientificismo

O físico Wolfgang Smith tem sido muito feliz ao questionar e refutar os principais postulados da ciência profana. Segundo o autor, a ciência moderna traz de maneira embutida uma crença filosófica errônea, popularizada por René Descartes e chamada de "bifurcacionismo" ou, nas suas palavras, de "reducionismo físico". Segundo Smith, a ciência moderna reduz os objetos corpóreos (por exemplo, uma maçã) a meros objetos físicos (uma maçã "molecular"), desprezando as qualidades e formas simbólicas neles existentes. Essas qualidades são tidas pelos cientistas modernos como res cogitans, ou seja, como meras interpretações subjetivas, e não como algo pertencente à realidade objetiva. Daí vem a chamada "bifurcação": o objeto corpóreo é "retirado" da realidade e realocado na mente do sujeito.

Mesmo com o advento da mecânica quântica -- que deveria ter sido encarada como uma pá de cal ao bifurcacionismo -- os cientistas modernos fingem que o mundo cartesiano ainda é válido porque, segundo Smith, é a crença filosófica em si que pretendem defender, e não propriamente os postulados da ciência empírica.

Por fim, Smith avalia os danos inconscientes que esta crença cientificista causa na vida espiritual e religiosa das pessoas, e alerta para a necessidade dos sacerdotes serem instruídos a identificarem o bifurcacionismo que vem enlatado nas explicações das descobertas científicas.

Smith nasceu em 1930 e, com pouco mais de vinte anos de idade, trabalhando para a Bell Aircraft Corporation, distinguiu-se através da pesquisa sobre a aerodinâmica dos campos de difusão, a qual deu a fundamentação teórica à solução do famoso problema da re-entrada de artefatos na atmosfera. Ele é católico romano e tem Ph.D. em Matemática pela Universidade Columbia e exerceu cargos acadêmicos no MIT, na UCLA e na Universidade do Estado de Oregon.

* * *

A praga do cientificismo

Nada é mais incontestável e infalível para a mentalidade contemporânea do que as descobertas da física, da astronomia, da química e, ultimamente, da biologia molecular. Elas são aquelas ciências “difíceis” da era moderna, cuja abrangência e precisão deixam a imaginação estupefata; elas nos aproximam das realidades mais fundamentais que outrora jamais teríamos condições de conceber. E mais: este grupo de ciências foi de certa maneira “validado visivelmente” pelos milagres tecnológicos que nos rodeiam. Ora, quem se atreveria a duvidar – muito menos a negar – suas descobertas? Na verdade, ninguém; partículas e campos quânticos, galáxias e quasares, moléculas e códigos genéticos – são todos fatos inegáveis com os quais doravante somos obrigados a conviver.

Contudo, devemos ter em mente que um fato e sua interpretação não são a mesma coisa. E dado que, subjetivamente, os fatos são invariavelmente associados a uma interpretação, sucede que a ciência, por via de regra, nos apresenta dois fatores díspares: as descobertas positivas, de um lado, e, de outro, uma filosofia a elas implícita cujos termos servem de moldura à sua formulação e divulgação. Na verdade, a ciência nunca será esse tipo de investigação puramente empírica tal como geralmente a consideram, o que significa dizer que pressupostos ontológicos e epistemológicos sempre desempenharão um papel essencial. E mais: a comunidade científica raramente examina esses dogmas filosóficos ou os sujeitam a um escrutínio rigoroso. Esses pressupostos são as idéias fundamentais que absorvemos – quase que por osmose – no decorrer de nossa educação científica; elas pertencem ao que poderíamos chamar de inconsciente científico. E quando um desses enraizados dogmas filosóficos se torna tema de discussão, a resposta típica dos cientistas é apontar, à guisa de validação, para o sucesso das investigações científicas e dizer: “Vejam, funciona!” Ora, nenhuma crença filosófica jamais foi validada por uma descoberta empírica; o fato é que a verificação tanto quanto a falsificação por meios empíricos é algo que se aplica às proposições científicas, e não às filosóficas. Porém, é muito raro que os cientistas sequer tentem distinguir estes dois domínios; somente em tempos de crise extrema, quando os fundamentos da ciência parecem estar realmente abaladas, é possível encontrar gente fazendo esse tipo de questionamento mas, mesmo assim, em quantidade diminuta: é preciso um Einstein ou um Heisenberg para, digamos, descer até o nível fundamental dos axiomas filosóficos. Além disso, o que a maioria dos cientistas comuns absorve desses grandes físicos fica restrito aos aspectos técnicos da investigação: as equações da relatividade ou o formalismo da mecânica matricial são aceitos, enquanto o lado filosófico da moeda é ignorado. Podemos dizer que os homens e mulheres que se dedicam ao cotidiano das pesquisas científicas tendem a não se interessar pelas sutilezas filosóficas; estão, portanto, inclinados a reter os axiomas filosóficos com os quais se acostumaram ao longo dos anos, e que só deveriam ser reconhecidos como tal, para serem depois devidamente expelidos, por meio de uma investigação séria e rigorosa. Assim sendo, o resultado é que na mente dos cientistas coexistem, de maneira inextricável, boa ciência e filosofia inferior; conforme observou John Haught, da Universidade de Georgetown: “Alguns dos mais renomados cientistas são literalmente incapazes de separar a ciência de sua metafísica materialista”.

Dito isto, passo a declarar formalmente a minha tese principal: sustento que, em virtude da confusão supracitada, os cientistas têm promulgado as mais duvidosas opiniões filosóficas como se fossem sólidas verdades científicas e, em nome da ciência, têm forçado um público crédulo e impressionável a aceitar uma cosmovisão superficial que, na realidade, não tem um pingo de respaldo científico. Sustento ainda que os cientistas conseguiram ganhar a confiança e a admiração da sociedade por meio das maravilhas tecnológicas que ajudaram a engendrar e que, enquanto classe, têm usurpado dessa autoridade ao predispor o público contra as verdades religiosas. Não estou aqui sugerindo que eles estão enganando o próximo de maneira consciente, mas sim que, por via de regra, enganaram-se a si próprios em questões que pertencem à filosofia, à metafísica e à religião. Enquanto isso, esses “guias cegos” exercem uma influência incalculável sobre a educação e a opinião pública, com conseqüências desastrosas ao bem-estar humano, tanto agora como no futuro.

Aplicarei o termo “crença cientificista” às opiniões filosóficas travestidas de verdades científicas. Deixem-me dar dois exemplos. O primeiro é o princípio do mecanicismo universal ou, melhor dizendo, o axioma do determinismo físico. A idéia é simples: o princípio afirma que o universo exterior consiste de matéria cujo movimento é determinado pela interação de suas partes. Dada a configuração ou estado inicial dessa matéria, e averiguadas as leis que determinam os efeitos dessas interações sobre o movimento resultante, somos supostamente capazes de calcular a evolução futura do universo nos mínimos detalhes. Dessa maneira, o cosmo é concebido como se fosse um relógio gigante, cujas partes interagem entre si, determinando o movimento do todo. Sabemos que essa idéia começou a tomar forma no século XVI e que desempenhou um papel decisivo na evolução da ciência moderna. De fato, nos tempos no Iluminismo, a idéia chegou quase a ser considerada uma verdade científica universalmente estabelecida. Por exemplo, Hermann von Helmholtz, um dos líderes científicos do século XIX, afirmou com serena confiança: “O objetivo final de toda a ciência natural é reduzir-se à mecânica (sich in Mechanik aufzulösen)”. Porém, o quadro mudou com o advento da teoria quântica: concluiu-se que a nova física não era compatível com as premissas mecanicistas. Todavia, apesar do indeterminismo quântico, não foram poucos os cientistas que continuaram a promulgar o princípio mecanicista. O próprio Albert Einstein, longe de admitir que as descobertas da física quântica desbancassem os postulados clássicos, argumentava justamente o contrário: com efeito, é o princípio do determinismo que invalidaria a mecânica quântica enquanto teoria fundamental. Este caso ilustra muito bem a característica filosófica e a priori do princípio em questão, e o fato de que as proposições deste tipo não podem ser verificadas nem falseadas pelas descobertas empíricas. Porém, o fato permanece ignorado, e o resultado é que até hoje o postulado do mecanicismo universal retém seu status de verdade científica incontestável.

O segundo exemplo pertence a um estrato mais fundamental do pensamento filosófico e, conseqüentemente, é muito mais abrangente em suas implicações. Trata-se do “reducionismo físico” (chamo-o assim por razões que logo ficarão claras). A tese depende de uma suposição epistemológica – um postulado idealista, eu diria – que afirma que o ato da percepção sensorial se encerra numa representação subjetiva, e não num objeto externo como normalmente acreditamos. De acordo com esse critério, a maçã vermelha que percebemos existe em nossa mente ou consciência; é uma imagem subjetiva, uma fantasia que a humanidade há séculos tomou por engano como sendo um objeto exterior. Assim pensava René Descartes, a quem devemos as fundações filosóficas da ciência moderna. Descartes procurou corrigir noções sobre as entidades perceptíveis que ele julgava errôneas, distinguindo entre objeto exterior, que ele chamou de res extensa, e sua representação subjetiva, a res cogitans. O que outrora era concebido como um objeto singular (como na vida cotidiana é invariavelmente considerado) foi dividido em dois; conforme disse Whitehead: “Portanto, haveria duas naturezas: uma é a conjectura, a outra o sonho” (1). É notável que esta diferenciação cartesiana entre a “conjectura” e o “sonho” não apenas vai de encontro às intuições mais comuns da humanidade, mas é bizarra se comparada às grandes tradições filosóficas, incluindo especialmente a tradição tomista. Ora, é justamente esta questionável doutrina cartesiana – a qual Whitehead chama de “bifurcação” – que serviu desde o início como plataforma fundamental da física ou, melhor dizendo, da cosmovisão cientificista, cujos termos são habitualmente empregados para interpretar os resultados da física. E verificamos novamente que os dois fatores díspares – os fatores operacionais da física e suas interpretações usuais – tornaram-se, com efeito, um só. Ou seja, o princípio da bifurcação é realmente uma crença cientificista.

Gostaria de deixar claro que além da bifurcação ir de encontro às mais básicas intuições humanas e às mais veneráveis tradições filosóficas, não há um pingo de evidência empírica que sustente tal postura heterodoxa. E nem poderia haver, pois a física pode ser perfeitamente interpretada em bases não-bifurcacionistas, conforme pude mostrar em uma recente monografia [2]. Ocorre que no momento em que tentamos interpretar a física em termos não-bifurcacionistas, os chamados paradoxos quânticos – que motivaram os físicos a inventarem as mais bizarras ontologias – simplesmente desaparecem. Parece que a física quântica está implicitamente de acordo com a cosmovisão pré-cartesiana.

Resta explicar por que chamo a bifurcação de “reducionismo físico”. A razão se torna clara no momento que retornamos ao Weltanschauung perene. A maçã vermelha que percebemos volta a pertencer ao mundo exterior; digo que se trata de um objeto corpóreo que, por conseguinte, pode ser percebido. Por outro lado, a maçã “molecular”, com a qual os físicos se ocupam, é despojada de qualidades sensíveis, tornando-se, assim, imperceptível. Ela constitui o que chamo de objeto físico, em oposição ao objeto corpóreo. De um ponto de vista bifurcacionista, o objeto físico é tudo o que existe no mundo exterior. Portanto, o objeto corpóreo é concebido como sendo “nada mais” do que o objeto físico. A maçã vermelha – que, do ponto de vista ortodoxo, existe! – é, com efeito, “reduzida” ao físico: ela é identificada como sendo a maçã “molecular”, conforme concebida pelos físicos. O princípio da bifurcação, portanto, resulta no que chamo de reducionismo físico; e o inverso é igualmente evidente.

Em ambas as formas, a tese cartesiana tem sido considerada por cientistas e pelo público educado como um pressuposto. Ela se impregnou na mente científica a ponto de as anomalias quânticas não terem despertado a menor suspeita. Conforme admitiu em privado um filósofo da ciência: “As pessoas que trabalham no campo da física acham quase impossível eliminar o bifurcacionismo implícito em suas obras”. Ora, essa conformação acrítica e habitual à tese cartesiana pelas “pessoas que trabalham no campo da física” só desonra seu status filosófico; e, como todas as crenças cientificistas, poderíamos dizer que o princípio se tornou científico por associação.

É possível deduzir que a bifurcação – ou o reducionismo físico, tanto faz – constitui a mais básica crença cientificista contemporânea, o princípio que todas as demais crenças cientificistas pressupõem. Considere a idéia do mecanicismo universal, por exemplo: ela não depende da bifurcação? Num trecho memorável e amplamente citado, Descartes, com efeito, admite:

Podemos facilmente conceber como o movimento de um corpo pode ser causado por outro, e como pode ser diversificado em função do tamanho, da figura e da situação de suas partes, mas somos totalmente incapazes de conceber como estas mesmas coisas conseguem produzir algo de natureza inteiramente diferente de si próprias, como por exemplo as formas substanciais e as qualidades reais, que muitos filósofos supõem estarem nos corpos [3].

É claro que os filósofos aludidos são os escolásticos, a quem Descartes radicalmente se opunha. O que o sábio francês está nos dizendo – com admirável clareza! – é que a idéia do mecanicismo universal só pôde ser concebida quando o universo foi reduzido ao estado de “matéria quantificada”. E não é exatamente por esta razão que Galileu e Descartes julgaram adequado banir “as formas substanciais e as qualidades reais” do mundo exterior? A bifurcação não foi postulada precisamente para tornar viável uma física “totalista” baseada em princípios mecanicistas?

Os dois exemplos bastam para que o fenômeno da crença cientificista seja apresentado. Não é preciso muito esforço para captarmos a idéia de que se a física, a mais exata das ciências naturais, se associou a noções cientificistas – na verdade, e de um ponto de vista tradicional, ilusórias! –, o que esperar das disciplinas menos rigorosas como a biologia evolucionária, a antropologia física e a psicologia, para não mencionarmos as chamadas ciências sociais? [4] O fato olimpicamente ignorado é que a ciência contemporânea provê tanto verdades como erros: não apenas luzes, mas também trevas. No que concerne o grande público, é bem provável que o segundo efeito predomine; as verdades das ciências “difíceis” são, afinal, acessíveis somente aos especialistas, às pessoas cientificamente proficientes. Isto vale, sobretudo, no caso da física básica; quando a teoria quântica se populariza, o que resta são noções cientificistas. Podemos resumir a coisa assim: À medida que a ciência evolui, seus insights se tornam cada vez mais abstratos, matemáticos e, por conseguinte, desprovidos de imagens sensíveis; tais insights tornam-se um tipo de conhecimento esotérico, ao qual apenas os “iniciados” têm acesso. Além disso, o que é validado pelas descobertas empíricas e, de certa maneira, pelos milagres da tecnologia, é o núcleo do insight esotérico, e não as crenças cientificistas exteriores a ele.

Consideremos agora as implicações destes fatos – deste fenômeno cultural – na vida religiosa e espiritual. Conforme comentei anteriormente, considero extremamente danoso o impacto da crença cientificista sobre a religião. O problema se agravou ainda mais porque teólogos e pastores em geral estão mal guarnecidos para lidar com questões deste tipo, quando não estão completamente convencidos pelas teses cientificistas.

Alguns poderiam perguntar qual é, afinal, a importância disso tudo. E se estivermos enganados sobre a natureza da causalidade, ou sobre onde se encerra a percepção sensorial, ou mesmo sobre a tão-debatida questão da evolução – contanto que estejamos ao lado da verdade em questões religiosas? Eu diria que a questão não é tão simples assim. Não nos esqueçamos que religião – contanto que não tenha se degenerado em convenção social ou mero sentimentalismo – exige o homem por inteiro; santidade e totalidade são inseparáveis. O “primeiro e maior” de todos os mandamentos não impõe que “[Tu] amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração, com toda tua alma e com toda tua mente”? O que pensamos do mundo – nosso Weltanschauung – não pode ser legitimamente excluído do domínio da religião. Conforme escreveu São Tomás de Aquino na Summa Contra Gentiles (Livro II, capítulo 3): “É absolutamente falso sustentar, em relação às verdades da fé, que o que acreditamos a respeito da criação não tem maiores conseqüências, contanto que se tenha uma concepção exata sobre Deus; pois um erro sobre a natureza da criação sempre engendra uma falsa idéia sobre Deus”. Eu diria que a propensão contemporânea em acomodar os ensinamentos do Cristianismo com as chamadas “verdades científicas” representa uma impressionante confirmação deste princípio tomista: um caso clássico de erros cientificistas gerando idéias teológicas falhas. [5]

Em suma: o que pensamos sobre o universo tem sim importância em nossa vida religiosa e espiritual. E, além disso, somos responsáveis pelas opiniões que sustentamos neste domínio aparentemente secular. “Com toda a tua mente”: estas quatro palavrinhas deveriam bastar para apreciarmos o fato.

Vou ainda mais longe: a religião míngua no momento em que abre mão do seu, digamos, domínio natural, que hoje é ocupado pela ciência. Creio que a atual crise da fé e a progressiva descristianização da sociedade ocidental têm muito a ver com o fato de que há séculos o mundo material tem sido deixado nas mãos dos cientistas. Isso já foi dito muitas vezes no passado (mas não o suficiente!).

Theodore Roszak, por exemplo, expressou-se sobre esta questão com especial brilhantismo: “A ciência é a nossa religião porque a maioria de nós é incapaz de convictamente enxergar em torno dela” [6]. Além disso, os únicos que têm alguma capacidade de “convictamente enxergar em torno dela” são aqueles que têm um contato mínimo com a autêntica religião. Oskar Milosz (1877-1939) é outro que tem algo notável a dizer sobre a questão: “Se o conceito de universo físico não estiver de acordo com a realidade, a vida espiritual desta pessoa será gravemente avariada, com conseqüências devastadoras em todos os aspectos de sua vida” [7]. Muito bem dito! Com respeito às implicações da cosmovisão cientificista na vida da Igreja, citarei as palavras recentemente publicadas do filósofo francês Jean Borella: “A verdade é que a Igreja Católica tem se confrontado com o mais terrível problema que uma religião poderia enfrentar: o desaparecimento cientificista (disparition scientifique) do universo de formas simbólicas, justamente aquele que lhe permite que se expresse e se manifeste, isto é, que permite que exista”. E ele continua: “Tal destruição foi levada a cabo pela física de Galileu, não, como se costuma dizer, porque destituiu o homem de sua posição central – que, para São Tomás de Aquino, é cosmologicamente a mais inferior e menos nobre – mas porque reduziu corpos, substâncias materiais, ao âmbito puramente geométrico, tornando impossível (ou desprovido de sentido), em uma só tacada, que o mundo pudesse servir como meio para a manifestação de Deus. A capacidade teofânica do mundo foi negada”. [8] Sejamos claros: Borella pôs o dedo na ferida do reducionismo físico: le problème le plus redoubtable qu’une religion puisse rencontrer. O que ele chama de “redução ao puramente geométrico” corresponde precisamente ao que chamo de redução do corpóreo ao físico: é esta disputa cientificista que obliteraria “a capacidade teofânica do mundo”.

É claro que as “formas simbólicas” às quais Borella se refere não são, como se poderia supor, imagens ou idéias subjetivas que outrora os homens projetaram sobre o universo externo até que a ciência veio para nos apresentar à verdade. O caso é exatamente o oposto: as “formas” em questão são objetivamente reais e, na verdade, essenciais ao universo. Podemos concebê-las como as “formas” no sentido aristotélico e escolástico, ou os arquétipos eternos platônicos refletidos no plano da existência corpórea. Em todo caso, constituem a essência mesma dos seres corpóreos. Remova estas “formas simbólicas” e o universo deixará de existir; pois são precisamente estas “formas” que ancoram o cosmo a Deus.

Nem é preciso dizer que a ciência não destruiu realmente estas formas, nem causou seu desaparecimento; porém, a negação cientificista dos seres corpóreos implica em uma negação das formas ou essências substanciais que constituem a ordem do ser, e das qualidades sensíveis pelas quais estas formas ou essências se manifestam ao homem. Assim, a mente cientificisticamente treinada torna-se cada vez mais insensível ao que Borella chama de “universo de formas simbólicas”, a ponto de tal universo lhe parecer praticamente invisível. É neste sentido que a “capacidade teofânica do mundo” tem diminuído a níveis nunca antes vistos.

De qualquer modo, as conseqüências desta diminuição não são outra coisa senão trágicas. Ao negar as essências, o homem cientificista destrói a própria base da vida espiritual. Conforme Borella notou, o homem cientificista obliterou o domínio “que permite à Igreja se expressar e se manifestar” e, portanto, “que permite que ela exista”. A refutação da crença cientificista não é, portanto, algo opcional à Igreja, algo do qual ela pode se privar de fazer; é, pelo contrário, uma questão de urgente necessidade, uma questão de sobrevivência.

Por fim, reflitamos novamente sobre o que São Paulo tem a dizer sobre a “capacidade teofânica do mundo” em sua carta aos romanos. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis. Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. (Romanos 1:20-22). Nem é preciso mencionar a enorme relevância destas palavras em tudo o que discutimos até aqui. As “coisas que estão criadas” são, sem dúvida, as de natureza corpórea, os objetos que o homem pode perceber; mas e quanto às “suas coisas invisíveis”: não seriam precisamente as essências eternas, as idéias ou arquétipos? Contanto que o coração do homem não tenha se “obscurecido”, a percepção sensorial das “coisas que estão criadas” lhe despertará uma percepção intelectual – uma “lembrança”, segundo Platão – das coisas eternas, sobre as quais o coração refletirá ou incorporará. São Paulo alude a um tempo ou estado quando o homem “conhecia Deus”, uma referência, antes de mais nada, à condição de Adão antes da queda, quando a natureza humana ainda não havia sido corrompida pelo pecado original. Porém, é preciso perceber que a queda de Adão tem se repetido, em escala menor, através dos séculos, numa série interminável de “traições”, grandes e pequenas. Mesmo hoje, neste avançado estágio da história, somos, cada um de nós, investidos de certo “conhecimento sobre Deus”, ao qual somos livres para responder de diversas maneiras. E é por isso que nós também somos “inescusáveis”, responsáveis que somos pelas opiniões que sustentamos a respeito do cosmo. Todos percebem o universo de acordo com seu estado espiritual: os “puros de coração” o percebem como uma teofania; dos demais, cujos “corações insensatos se obscureceram”, a capacidade teofânica do universo é reduzida proporcionalmente a este obscurecimento.

Quero destacar o fato de que a correspondência entre o estado espiritual e o Weltanschauung aplica-se em ambas as direções, ou seja, nosso estado espiritual afeta não somente a maneira como vemos o mundo exterior, mas, reciprocamente, nossas visões sobre o universo invariavelmente refletem-se sobre este estado espiritual. Este é meu argumento central: A cosmologia importa, e ela tem um impacto decisivo sobre nossa condição espiritual. Mesmo aquilo que pensamos sobre o mundo puramente físico mostra-se crucial; pois “se o conceito de universo físico de uma pessoa não estiver de acordo com a realidade, sua vida espiritual será gravemente avariada...”.

Estas considerações nos trazem, enfim, à questão pastoral: o que pode ser feito, pastoralmente falando, para neutralizar a influência cientificista? O problema maior está em informar os próprios pastores: alertá-los, em primeiro lugar, do fato de que há uma distinção crucial a ser feita entre ciência e cientificismo, e do fato de que a crença cientificista é antagonista de nosso bem-estar espiritual. Não será tarefa fácil, uma vez que ofende a tendência dominante, tanto na sociedade civil quanto na Igreja. Só pela graça de Deus, creio eu, conseguiremos reunir discernimento e ousadia o bastante para livrar-nos do Weltanschauung cientificista e recuperarmos uma cosmovisão cristã. E tal tarefa, esta exigência, diria eu, é em essência espiritual. Ela não pode ser cumprida simplesmente lendo livros, ou pelo processo de raciocínio, mas acima de tudo pela fé e pela oração. O ditado credo ut intelligam aplica-se a nós, e com ainda mais intensidade do que nos inocentes dias de Agostinho ou Anselmo. É imperativo que sejamos tocados e movidos pelo Espírito Santo, o Espírito da verdade, que vos guiará em toda a verdade (João 16:13). Em nossa batalha para transcendermos o cientificismo, estaremos lidando não apenas com um sistema de crenças criado pelo homem, mas com algo formidavelmente mais abrangente; pois aqui também, no fim das contas, não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais (Efésios 6:12). E não poderia ser diferente, pois é a “capacidade teofânica do mundo” que está em jogo: aquilo mesmo “que permite a Igreja se expressar e se manifestar, isto é, que permite que ela exista”. Se o cosmo for realmente aquilo que o cientificismo afirma que é, então nossa fé católica será uma zombaria e nossa sagrada liturgia uma charada vazia. Este fato não pode ser ignorado impunemente.

Notas:

[1] The Concept of Nature (Cambridge University Press, 1964), pág. 30. Embora seja um eminente filósofo e que, juntamente com Bertrand Russel, tenha sido pai da lógica matemática, as censuras de Whitehead contra os axiomas cartesianos despertaram pouco interesse por parte da comunidade científica.

[2] The Quantum Enigma (Peru, Illinois: Sherwood Sugden, 1995). Um providencial resumo do livro foi feito por William A. Wallace em “Thomism and the Quantum Enigma”, The Thomist 61 (1997), pág. 455-467. Cf. também Wolfgang Smith, From Schrödinger’s Cat to Thomistic Ontology, The Thomist 63 (1999), pág. 49-63.

[3] Citado em E. A. Burtt, The Metaphysical Principles of Modern Physical Science (New York: Humanities Press, 1951), pág. 112.

[4] Cf. Cosmos and Transcendence (Peru, Illinois: Sherwood Sugden, 1984), na qual procurei desmascarar os princípios fundamentais da crença cientificista e delinear seu impacto na sociedade contemporânea.

[5] O supremo exemplo da teologia cientificista foi dado pelas especulações de Teilhard de Chardin. Cf. minha monografia Teilhardism and the New Religion (Rockford, Illinois: TAN Books, 1988), na qual lidei amplamente com esta questão.

[6] Where the Wasteland Ends (Garden City: Doubleday, 1973), pág. 124.

[7] Citado em Seyyed Hossein Nasr, Religion and the Order of Nature (Oxford University Press, 1996), pág. 153. Sobre Oskar Milosz, cf. Philip Sherrard, Human Image: World Image (Ipswich: Golgonooza Press, 1992), pág. 131-146.

[8] Le sens du surnaturel (Geneva: Editions Ad Solem, 1996), pág. 74. Cf. também a tradução inglesa The Sense of the Supernatural (Edinburgh: T & T Clark, 1998).

15 de janeiro de 2008

São Paísio Velichkovsky

Eis uma interessante biografia de São Paísio Velichkovsky, redigida pelo Metropolita Lauro, primaz da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, em comemoração ao 210º aniversário do repouso do santo (1992).

São Paísio foi o grande responsável pela renovação monástica russa nos séculos XVIII e XIX, tanto pelo sua atuação como ancião (staretz) como pelas inúmeras traduções e correções dos textos dos Santos Padres, dando origem à Philokalia eslava, a famosa coletânea de textos espirituais ascéticos da Cristandade.

* * *

A Rússia adotou a Santa Ortodoxia e sua cultura com uma facilidade incomum, ainda que com sinceridade e franqueza. É até possível afirmar, sem medo de errar, que a própria Bizâncio não suspeitava que a Rússia e o povo russo fossem sucessores dignos da Santa Ortodoxia. E aconteceu que a Rússia foi levada à fé cristã pela Providência Divina, para que preservasse a verdade da correta teologia, do Cristianismo Ortodoxo genuíno. É possível supor que também pela Providência Divina uma Rússia forte e poderosa foi despertada quando sua população foi convertida ao Cristianismo, ao mesmo tempo em que os cristãos ocidentais abandonavam a verdadeira Ortodoxia, caindo em heresia, e quando o mundo ortodoxo oriental estava sendo ameaçado pelo Islã; a Rússia estava sendo preparada pela Providência Divina para se tornar a guardiã dos verdadeiros ensinamentos da revelação divina, tornando-se o novo povo escolhido para preservar na terra a verdadeira fé ortodoxa.

No começo de nossa história, em Kiev, por meio dos esforços do Santo Príncipe Vladimir e seus herdeiros, a Rússia começou a florescer espiritualmente, a ganhar força, tanto politicamente quanto administrativamente. No entanto, os ataques tártaros e a devastação que se seguiu paralisaram esse florescimento.

Mas apesar das perdas e sofrimentos infligidos por pagãos e heterodoxos, os corações dos russos se apegaram ainda mais à Santa Igreja Ortodoxa, fazendo com que a autoridade da fé ortodoxa atingisse um elevado patamar. Uma nova era de imponência e renovação espiritual tomou conta dos séculos seguintes: os séculos XIV e XV. É a era de São Sérgio de Radonezh e seus discípulos, que fundaram mosteiros por todo o norte russo, com seus povoados em torno deles. Assim, a “Santa Rússia” crescia e se expandia.

No começo do século XVI, quando a Rússia se encontrava separada do oriente ortodoxo e Bizâncio estava sob controle turco, o perfil da batalha espiritual em nossa terra natal começou novamente a mudar. Desavenças e conflitos entre os “possuidores” e os “não-possuidores” começaram a surgir. Foi então que nosso monasticismo mergulhou num período muito ruim: o reinado do Imperador Pedro I. Chegou ao ponto de monges serem perseguidos, especialmente quando pessoas estrangeiras influenciavam nossas imperatrizes. Na segunda metade do século XVIII, uma mudança começou a tomar forma, e o monasticismo russo experimentou um renascimento com o Ancião Schemamonge Paísio Velichkovsky.

Primeiramente, farei uma breve descrição de sua biografia para, então, discorrer sobre suas obras e seu legado espiritual.

O futuro Ancião Paísio, ou São Paísio, como o chamamos hoje, nasceu em 21 de dezembro de 1722, na cidade de Poltava, de uma família de padres: seu pai, seu avô e seu bisavô foram padres. Sua mãe se tornou monge no fim da vida, assim como sua avó e tia. Ele foi batizado com o nome de Pedro. Seu pai, Pe. João, era o pároco da Catedral da Dormição. Sua mãe, Irina, trabalhava com crianças. Pedro era um menino quieto e manso; ele adorava ler, e lia livros espirituais desde a tenra idade, tanto na sua casa como na biblioteca da catedral. Ele lia as Sagradas Escrituras e diversas obras de São João Crisóstomo e São Éfrem, o Sírio.

Seu biógrafo notou que ele era “acanhado e despretensioso”, de maneira que até seus pais raramente ouviam sua voz, e as visitas freqüentemente perguntavam: “Ele é surdo?”

Aos 13 anos, Pedro entrou na Escola Teológica de Kiev, mais tarde renomeada para Academia Teológica, onde o Arcebispo Simão (Todorsky) de Pskov dava aulas na época, juntamente com o Metropolita Arsênio (Matseevich) de Rostov e outros. O Hieromonge Josafá, o futuro Bispo de Belgorod, ainda estava lá. A educação era de alto nível. Havia 1200 estudantes na Academia. Mas Pedro não entrou lá por dcausa isso, pois seu coração estava tomado pelas igrejas, pelos santos mosteiros, pelas cavernas daqueles que faziam votos de silêncio, e pelas conversas que tinha com amigos sobre a vida eremítica. Eles freqüentemente se encontravam em locais isolados e conversavam sobre coisas espiritualmente benéficas. “É melhor”, diziam-se mutuamente, “permanecer no mundo do que rejeitar as dádivas mundanas apenas por exibicionismo e viver uma vida despreocupada e fácil num mosteiro”. Eles juraram nunca serem tonsurados num mosteiro rico, onde seria impossível emular a pobreza de Cristo.

No terceiro ano da escola, o entusiasmo de Pedro foi minguando, enquanto seu desejo pelo monasticismo foi crescendo mais e mais. As férias escolares chegaram, e Pedro foi para casa. Sua mãe, que ficou sabendo de seu desejo de deixar a escola e tornar-se monge, opôs-se categoricamente a esse projeto. Pedro tinha um amigo em Poltava chamado Dmítrio, e eles juraram deixar o país juntos. Mas seus planos falharam, porque Pedro adoeceu e teve de adiar sua viagem a Kiev. Quando ele enfim sarou, sua mãe o acompanhou, supondo que ele iria continuar os estudos. Mas, em Kiev, Pedro começou a repensar seu futuro. Ele decidiu dirigir-se a Chernigov e consultar o Ancião Pacômio, a fim de obter seus conselhos e instruções, bem como sua bênção para seus planos futuros. Após passar alguns dias com o Pe. Pacômio, este lhe disse: “É melhor que você vá a algum mosteiro não muito longe de Lubech, a terra natal de Santo Antônio das Cavernas. Lá você encontrará o Hieromonge Joaquim, que lhe dirá o que fazer”. Pedro seguiu as instruções do Pe. Pacômio. Quando Pedro se aproximou do mosteiro, notou que havia guardas entre a cidade de Lubech e o mosteiro. Pedro ficou com medo de ser barrado, pois não tinha documentos. Na mesma hora, um monge surgiu do outro lado. Parando junto ao guarda, o monge fitou Pedro, que se aproximava, e disse ao guarda quando este chamava o garoto: “Por que você está perguntando quem é ele? Será que você não percebe que ele é um noviço retornando ao mosteiro?” O guarda, então, deixou Pedro passar. E assim, com a ajuda de Deus, ele pôde entrar no mosteiro. Foram-lhe conferidas as obrigações de ekomonos (gerente do mosteiro), lendo as Vidas dos Santos no refeitório e assumindo diversas incumbências. Ele morava próximo ao Ancião Joaquim, que o abençoou para usar a batina, regozijando-se em sua vida pacífica.

Mas Pedro não ficaria lá por muito tempo. Três meses depois, um novo superior foi designado, e por causa de certos problemas que se seguiram, Pedro deixou o mosteiro. Ele vagava pela margem direita da Pequena Rússia, que à época estava sendo invadida por poloneses e uniatas. Ouvindo falar de um eremita que vivia numa ilha fluvial, Pedro apressou-se em conhecê-lo. Seu nome era Isíquio. Ele trabalhava transcrevendo as obras dos Santos Padres. Pedro pediu para que fosse aceito como estudante. Embora a face de Pedro estivesse molhada de lágrimas e súplicas, o ancião foi implacável: “Filho, sou pecador e indigno, e não consigo nem mesmo dirigir minha pobre alma a Deus”.

Deixando o eremita, Pedro logo encontrou um mosteiro chamado Medvedovsky, ao qual se juntou. Ele não tinha destreza, e os irmãos freqüentemente zombavam dele. Foi-lhe dada a incumbência de moer trigo, mas ele acabou cortando seus dedos. Então lhe conferiram a tarefa de carregar água e argila, cortar pão no refeitório, servir comida aos monges e lavar louça. Ele foi designado ao kliros. Neste mosteiro, ele foi tonsurado à rassa com o nome de Platão. Seu pai espiritual deixou o mosteiro algumas semanas mais tarde, e Platão ficou sem pastor, “como uma ovelha perdida”. Ele disse a si mesmo: “Minha alma em minha juventude era muito inclinada à obediência, mas não recebi a divina dádiva [oportunidade] por causa de minha indignidade”.

Tempos depois, este mosteiro acabou sendo atacado pelos uniatas, que o fecharam. Pe. Platão foi à Lavra de Kiev, trabalhando em sua gráfica. Ardendo de desejo pela vida ascética e eremítica, Pe. Platão dirigiu-se a Moldovlachia, onde a vida espiritual estava florescendo, já que os mosteiros de lá se encontravam sob influência da Santa Montanha de Athos. Ele permaneceu três anos nos mosteiros de Moldovlachia, sob a direção dos anciãos Pe. Basílio, Pe. Miguel e Pe. Onofre.

Mais tarde, Pe. Platão empreendeu uma viagem ao Monte Athos, esperando encontrar lá guias espirituais e assumir a vida ascética. Pe. Platão tinha 24 anos à época. Eis o que seu biógrafo relatou sobre sua mudança para o Monte Athos: “Quem pode perscrutar os caminhos do Senhor? Quem conhece Seus desígnios? Pela Sua Divina Providência, Ele o tirou de sua terra natal, levando-o a muitas nações, de maneira que pudesse ajuntar para sua alma grandes tesouros espirituais e distribuí-los entre aqueles que buscassem seu guiamento. O Senhor o fez emular Santo Antônio das Cavernas, que também era nativo de Pequena Rússia. E a exemplo de Santo Antônio, que também peregrinou até finalmente se fixar no Monte Athos, onde assumiu as ordens angelicais monásticas e, depois de muitos anos de trabalho e dádivas espirituais, retornou à sua terra natal para semear e multiplicar a vida monástica; assim também São Paísio obteve tesouros celestiais e retornou à sua Moldávia, renovando as ordens monásticas, restaurando a vida monástica decadente e plantando nela a tripla bênção da obediência, iluminando as trevas da ignorância por meio de seus ensinamentos, concedendo sabedoria por meio da correção e tradução dos textos teológicos dos Santos Padres do grego para sua língua nativa”.

O Hieromonge Tryphon foi à Santa Montanha com o Pe. Platão. Eles chegaram ao Monte Athos no dia 4 de julho, na festa de Santo Atanásio de Athos, que viveu como eremita na Santa Montanha e lá fundou o primeiro mosteiro cenobítico.

Hoje, esse é o principal mosteiro do Monte Athos, o primeiro entre vinte. Descansando alguns dias na lavra de Santo Atanásio, os viajantes se dirigiram ao Mosteiro do Pantocrator, próximo de onde os monges eslavos viviam. A estrada até o Mosteiro do Pantocrator era longa e perigosa. Os viajantes, exaustos, sentaram-se para descansar e beberam um pouco de água gelada. Por causa disso, pegaram resfriado. O Hieromonge Tryphon entrou em delírio, morrendo logo que chegou ao Mosteiro do Pantocrator.

Platão conseguiu sobreviver. Aos poucos, ele começou a conhecer os mosteiros vizinhos, visitando os eremitas e monges locais em busca de um pai espiritual. Foi difícil para ele, pois viveu na pobreza por mais quatro anos. Em 1750, o pai espiritual moldávio do Pe. Platão, o Schemamonge Basílio, foi ao Monte Athos e tonsurou Platão com o nome de Paísio. Em pouco tempo, Paísio recebeu seus primeiros estudantes, Vissarion e Cesário; com o tempo, o número de estudantes subiu para 12. Em 1759, aos 36 anos, Pe. Paísio foi ordenado hieromonge. Como o número de monges estava crescendo, Pe. Paísio solicitou ao Mosteiro do Pantocrator que lhe dessem a cela do Profeta Elias, para que ali instituísse o Esquete do Profeta Elias. Portanto, o Pe. Paísio foi um dos fundadores do atual Esquete do Profeta Elias, na Santa Montanha de Athos. Seu esquete começou a crescer e, em breve, não apenas sua irmandade mas monges de todo o Monte Athos se tornaram seus filhos espirituais. Até mesmo o Patriarca Serafim, que vivia aposentado no Mosteiro do Pantocrator, visitou-o a fim de obter guiamento espiritual. Todos os irmãos faziam artesanatos, e o próprio ancião fazia colheres, passando as noites lendo e reescrevendo os livros dos Santos Padres, dormindo não mais do que três horas por dia.

Mas o inimigo da humanidade invejava o crescimento da irmandade de Paísio, sua vida pacífica e seu sucesso espiritual. Surgiram problemas entre os moradores do esquete, insuflados pelo Ancião Atanásio, que viva nas proximidades. Essa inimizade e os problemas dela resultantes perturbavam Pe. Paísio e seus estudantes.

A irmandade cresceu, chegando a 50 pessoas, mas não havia espaço disponível para todos, de maneira que novas celas tinham de ser construídas. Contudo, não havia fundos para tal. Seguindo a recomendação de vários habitantes do Monte Athos, Pe. Paísio e seus monges se mudaram para o Mosteiro de São Simão Pedro, que estava vazio à época. Eles esperavam assim evitar conflitos com o Ancião Atanásio. Os monges do Mosteiro de São Simão Pedro o abandonaram porque deviam dinheiro às autoridades turcas, e não conseguiam lhes pagar. Em três meses, Pe. Paísio e seus monges também tiveram de deixar o mosteiro, pois os turcos estavam exigindo a liquidação da antiga dívida, e eles também não conseguiam lhes pagar. Eles retornaram ao Esquete do Profeta Elias, mas sua aguda pobreza não lhes permitiu que permanecessem por muito tempo, e eles tinham então de encontrar um novo lar.

Ancião Paísio decidiu mudar-se, juntamente com seus irmãos, para Moldovlachia. Em 1763, após 17 anos no Monte Athos, ele e 64 monges partiram para a Moldávia.

Ancião Paísio contratou duas embarcações: em uma ele ficou com os monges eslavos, e em outra ficaram Pe. Vissarion e os irmãos moldávios. Eles chegaram primeiro ao Mosteiro do Espírito Santo, em Dragomir, Bukovina. O mosteiro lhes foi dado cheio de mato e com todos os impostos vencidos. Embora estivesse em estado deplorável, em pouco tempo, por meio dos esforços dos monges, o mosteiro ficou em boas condições. A regra monástica das cerimônias era a mesma do Monte Athos. Eles celebravam em duas línguas: no kliros da direita, cantavam em eslavo, no da esquerda, em moldávio.

O Ancião exigia que cada monge cumprisse seu chamado com total consciência e severidade, pois um monge não se reconhece pela sua roupa, mas pelo seu espírito.

Às vezes, o Ancião permanecia com os irmãos o dia inteiro; as portas de sua cela ficavam abertas até as 21h. Os monges entravam e saíam para conversar sobre questões práticas e espirituais. A leitura diária que o Ancião fazia dos livros dos Santos Padres, bem como as discussões a respeito, eram de enorme importância para a vida espiritual dos monges. Mas a pacífica vida em Dragomir foi logo perturbada pela guerra entre Rússia e Turquia. Dragomir caiu em mãos austríacas, de maneira que os irmãos tiveram de evacuar para Sekul. Em Sekul, os irmãos começaram a ajudar os refugiados. Problemas começaram a surgir entre os irmãos mas, aos poucos, a vida em Sekul começou a se normalizar. Os estudos do Ancião não cessaram por causa desses contratempos. Então, em 1779, pelas intercessões do Príncipe Constantino e com a bênção do Metropolita Gabriel, foi oferecida ao Ancião Paísio e seus monges a oportunidade de se mudarem para Niametz. Mas o Ancião Paísio não ficou contente com essa proposta, uma vez que tal mudança envolveria grandes complicações, e ele já estava ficando velho.

Após alguma hesitação, o Ancião concordou em se mudar, mas deixou alguns monges em Sekula. Este foi o período final e mais difícil de sua vida, mas foi também o mais frutífero. O número de irmãos chegou a 700. A fama da vida espiritual altiva do mosteiro e de seu ancião espalhou-se por todo o oriente ortodoxo. Com a ajuda do Príncipe, o Ancião construiu um hospital no mosteiro, juntamente com uma casa de misericórdia, e aumentou em muito o número de celas monásticas. Ele instituiu ainda a prática intensiva de transcrições e traduções das obras dos Santos Padres, e reuniu um grande número de assistentes, preparando-os especialmente para seu trabalho editorial. Ele ensinou-lhes grego e, para completar sua educação, enviou-os à Academia de Bucareste.

Graças ao árduo trabalho desse grupo de monges, um grande número de traduções fiéis aos originais dos Santos Padres começou a aparecer, juntamente com diversas transcrições. De acordo com o Prof. A. I. Yatsimirsky, dos milhares de manuscritos conservados na biblioteca de Niametz, escritos em diferentes períodos e em diferentes línguas, incluindo moldávio, grego, latim, italiano, alemão, hebraico, árabe, turco, sírio, búlgaro, polonês, francês e eslavo, 276 deles são do período do Ancião Paísio, e mais de 40 escritos pelas próprias mãos do santo.

A crescente fama de mestre da vida espiritual inspirou muitas pessoas a se corresponderem com Ancião Paísio. O Ancião respondia a essas cartas, às vezes de maneira volumosa. Nelas, o Ancião tocava em diversas questões da vida monástica e eclesiástica em geral, dando instruções e conselhos. Essas correspondências ocupavam grande parte de seu tempo. Em meio a essas tarefas, muitos anos se passaram despercebidos, e aos poucos o santo se aproximava do fim de sua vida.

Seus últimos dias foram eclipsados pelas preocupações causadas pela guerra entre Rússia, Áustria e Turquia. Niametz foi ocupada pelos turcos, mas os austríacos tentaram, com todas as forças, emancipar Niametz, enquanto as tropas russas se aproximavam. O comandante-em-chefe do Exército Russo, Príncipe Potemkin, dirigiu-se a Jassy, juntamente com o Arcebispo Ambrósio da Eslovênia e Poltava. O Arcebispo, desejando conhecer o famoso Ancião Paísio, chegou ao Mosteiro de Niametz e recebeu os cumprimentos dos monges. Isto foi em 1790. Neste domingo, o Arcebispo Ambrósio oficiou a Divina Liturgia, durante a qual o Ancião foi elevado a arquimandrita. O Ancião nasceu em Poltava, e foi o Arcebispo de Poltava quem o ordenou arquimandrita.

Após o fim das operações militares, a vida começou aos poucos a voltar ao normal, enquanto o Ancião continuava a trabalhar como antes: ele fazia traduções, escrevia cartas e guiava os monges. Mas suas forças estavam se esgotando. Pouco antes de ser fatalmente acometido por uma doença, ele parou de fazer traduções. Em 5 de novembro de 1794, ele se sentiu muito fraco, e foi levado à sua cama. No domingo, ele se sentiu melhor e conseguiu ir à igreja comungar. Todavia, sua fraqueza progrediu, e em 15 de novembro de 1794, aos 72 anos de idade, São Paísio repousou em paz.

A notícia do repouso do Arquimandrita Paísio espalhou-se rapidamente, e um grande número de monges e fiéis dirigiu-se a Niametz. Quando o Bispo Benjamin chegou, deu-se início ao funeral na Catedral da Ascensão, seguido de seu enterro.

Verificamos, assim, que a mudança do Ancião Paísio a Moldovlachia, pela Providência Divina, mostrou-se extremamente benéfica. Se ele tivesse permanecido no Monte Athos, sua irmandade não teria crescido por causa da falta de espaço e recursos, e ele não teria exercido nenhuma influência na vida espiritual no monasticismo ortodoxo na Moldávia e na Rússia.

Em São Paísio, a santidade pessoal estava combinada com amor pela educação, habilidade em organizar uma vida monástica cenobítica, habilidade em atrair e ensinar um grande número de estudantes, habilidade em criar uma escola de asceticismo espiritual e, finalmente, talento literário, que o ajudou a completar uma importante e necessária tarefa: corrigir velhas traduções e fazer novas traduções da literatura ascética dos Santos Padres.

São muitas as obras literárias de São Paísio. Ao se deparar com um grande número de erros nas traduções eslávicas dos Santos Padres, ele percebeu a importância de revisá-las com esmero. Assim, ele foi atrás dos originais gregos no Monte Athos. Mas não foi fácil encontrá-los, pois não se encontravam à venda. Por isso, ele teve de transcrevê-las pessoalmente, e pagar para que outros o fizessem. Ele logo percebeu que nem todas as obras dos Santos Padres haviam sido traduzidas para o eslavo. E a segunda parte da tarefa, as traduções em si, ele empreendeu na Moldávia, após ter se mudado para lá com seus monges.

Para termos uma idéia de como esse trabalho era árduo e diligente, basta lembrar que o ancião revisava e corrigia o mesmo texto três ou mais vezes. Mesmo assim, o Pe. Paísio reconhecia a insuficiência disso: “Para minha grande tristeza, vejo que o trabalho está longe da perfeição, e que se o Senhor em Sua misericórdia estender minha vida e me conceder, agora que estou quase cego, a visão necessária, terei de trabalhar ainda mais nessas correções”.

Foi só quando estava próximo do fim de sua vida é que Ancião Paísio conseguiu ampliar o ritmo de traduções e transcrições dos livros dos Santos Padres. Esses livros começaram então a ser disseminados pelos mosteiros do oriente ortodoxo, chegando à Rússia, onde desempenharam um papel excepcional na renovação no monasticismo russo dos séculos XVIII e XIX.

No começo do Cristianismo na Rússia, as sementes da Ortodoxia foram plantadas por Santo Antônio e São Teodósio das Cavernas e seus estudantes, de onde vieram muitos dos primeiros bispos da Rússia; mais tarde, São Sérgio e seus estudantes trabalharam para fortalecer a Ortodoxia; e, finalmente, nos séculos XVIII e XIX, os estudantes de São Paísio Velichkovsky desempenharam um importante papel no renascimento do monasticismo russo e do starchestvo (discipulado).

Os estudantes de São Paísio tiveram grande influência na Santa Montanha, na Moldávia e na Rússia. A Rússia, em particular, foi uma grande fonte de estudantes, sob os quais um amplo renascimento da vida espiritual ocorreu, juntamente com o interesse e o amor pela leitura e pelo estudo; anciãos e superiores tomaram a frente na preservação do legado de São Paísio. É possível distinguir três correntes: a do norte, a central e a do sul. O movimento do norte estava centrado nos Mosteiros de Solovetsky, Valaam, Santo Alexandre Nevsky, Vladimir Guberniya, Optina e, mais tarde, Orlov Guberniya. No sul, nos Eremitérios de Ploshchansky e Glinsky. O círculo de influência de São Paísio era amplo. Na Rússia, influenciou mosteiros em 35 dioceses.

Embora São Paísio tenha vivido no exterior e toda sua atividade tenha ocorrido fora da Rússia, os maiores frutos se deram na Igreja Russa.

É possível detectar um paralelo entre a obra de São Paísio e nosso tempo. Durante a vida de São Paísio, sua obra penetrou na Rússia, onde foi reescrita e publicada – a Philokalia eslava, a obra de Santo Isaque da Síria, e muitas outras. Em condições um pouco diferentes, a mesma coisa acontece hoje. Nossa Igreja Russa no Exterior está levando adiante sua missão, dando frutos na Rússia na forma de obras dos Santos Padres e na literatura eclesiástica em geral, onde há uma carência enorme da Palavra de Deus e de literatura espiritual [este artigo foi escrito em 1992 – N. do T.].

É verdade que há uma grande diferença entre os tempos de São Paísio e o nosso. São Paísio vivia num país ortodoxo, e embora as possibilidades editoriais não existissem na época, era possível transcrever e retranscrever manuscritos e enviá-los à Rússia, a fim de que fossem impressos e disseminados por lá. Hoje, embora vivamos num ambiente heterodoxo, podemos imprimir grandes edições, mas a disseminação da literatura entre nossos irmãos russos é virtualmente impossível. Mas, com a ajuda de Deus, algumas poucas coisas podem ser enviadas daqui, e esperamos que esta pequena quantidade traga frutos multiplicados por mil. Que assim seja, ó Senhor, pelas orações de São Paísio!

Esta é uma pequena biografia das batalhas, lutas e méritos de São Paísio Velichkovsky, o restaurador do monasticismo cenobítico estrito e o fundador do starchestvo no século XIX.

Eis o bem que pode ser feito por uma só pessoa, com a ajuda de Deus. Talvez, entre nossos jovens, encontremos pessoas dispostas a servi-Lo e a servir a Igreja Ortodoxa Russa. Os jovens são necessários, pois nossos mosteiros precisam de sua força, e se a Rússia renascer, ela precisará de pessoas experientes e preparadas. Aos que ouvirem este chamado, respondam!

Este pequeno artigo foi baseado no livro Starets Paisii Velichkovsky [Ancião Paísio Velichkovsky], do Arcipreste Sérgio Chetverikov, e em vários outros artigos.

A glorificação de São Paísio foi levada a cabo pela Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, no dia da festa do Santo Profeta Elias, em 20 de julho de 1982, no Esquete Russo de Santo Elias no Monte Athos, fundado por São Paísio.

7 de janeiro de 2008

Fé e ciência III: Ciência e demônios

Esta é a parte III da série Fé e Ciência, do podcast de Clark Carlton. As partes I e II podem ser lidas aqui e aqui, respectivamente.

Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra (Isaías 1:18-19).

Olá. Bem-vindos de volta ao programa Faith and Philosophy (Fé e Filosofia). O tópico de hoje é Deus e Ciência, parte 3: ciência e demônios.

Trata-se de uma continuação de minha última conversa sobre a ciência e sua relação com a Ortodoxia. Porém, admito que o tópico de hoje foi inspirado por um filme bem medíocre ao qual assisti na TV a cabo semana passada, O Exorcismo de Emily Rose. À exemplo do livro O Exorcista, de William Peter Blatty, que aliás resultou num filme bem melhor e mais assustador, o enredo foi supostamente baseado em fatos reais.

A morte da personagem do título, Emily, seguiu-se a uma série de tentativas malsucedidas de exorcismo. O exorcista foi então processado por homicídio negligente. A história conta que ele a aconselhou a parar de tomar os remédios que lhe haviam sido prescritos por causa de seus surtos psicóticos de feitio epiléptico. Confiando somente na fé, ao invés da medicina, o padre estava determinado a curar Emily de um mal que julgava ser espiritual, e não físico.

Embora o filme em si seja medíocre, ele levanta algumas questões interessantes sobre a relação entre fé e ciência – neste caso, ciência médica. Nossa fé ortodoxa tem contribuições importantes a dar nesta discussão.

Antes de entrar de cabeça no assunto, eu queria dizer algumas coisas sobre as representações cinematográficas dos demônios. A maioria delas pressupõe um tipo particular de piedade católica romana. Não estou me referindo ao fato de as personagens serem católicas romanas; refiro-me ao fato de que a maneira como as personagens interpretam e respondem aos fenômenos acaba camuflando certo tipo de espiritualidade...e que essa espiritualidade não é ortodoxa.

Em primeiro lugar, há a suposição – às vezes explícita, às vezes apenas implícita – de que se as pessoas acreditarem na existência de demônios, então elas vão acreditar em Deus. Em outras palavras, o demônio se torna uma ferramenta de evangelização. William Peter Blatty chegou a declarar que escreveu O Exorcista para promover a fé. No Exorcismo de Emily Rose, o padre afirma que a história da possessão de Emily faria muitas pessoas acreditarem em Deus. Espero que eu não seja o único a ver algo muito esquisito nisso tudo.

Em segundo lugar, essas possessões quase sempre são apresentadas como sendo de caráter martirizador. No fim do filme, Emily tem uma visão da Abençoada Mãe, que lhe propõe uma escolha: ou o alívio de seus sofrimentos, isto é, a morte, ou a oportunidade de continuar na batalha pelo bem de outras pessoas. Ela bravamente escolhe a segunda opção. No caso real, no qual o filme supostamente foi baseado, muitos acreditavam que a menina estava sofrendo por aqueles que se encontravam no Purgatório.

Francamente, esse tipo de raciocínio é bem mais demoníaco do que contorções, vômitos, cusparadas e obscenidades lançadas contra o padre durante o exorcismo. Esse tipo de espiritualidade vem de Francisco de Assis, que supunha estar sofrendo como o Cristo. Esta não é a espiritualidade cristã autêntica; trata-se de uma ilusão. Prelest é o maior feito da arte do diabo.

Um terceiro aspecto notável da demonologia cinematográfica é quando o demônio se identifica ao padre. A gente descobre que ele tem sido um demoniozinho bem danadinho. Não se trata de um mero servo do Tártaro. Não, esse é o demônio que possuiu Nero e a maioria dos vilões da história, inclusive Hitler.

Repito: há algo muito errado aí. Não é uma explicação apenas simplista; é perigosa. Ela explica o mal do mundo como sendo obra do diabo. Não deveríamos estar mais preocupados com as forças e os eventos históricos que criaram o tipo de ambiente no qual uma pessoa maluca – e talvez possessa – como Hitler teria chegado ao poder? A insanidade e a indecência que foi a Primeira Guerra Mundial. O Tratado de Versailles. A crise econômica resultante de uma política econômica e monetária débil e imoral.

Não, não. É bem mais fácil culpar o diabo. Como dizíamos nos anos 1970: “Não foi culpa minha; o diabo é que me fez fazer isso!”

Ainda mais preocupante do que as características da demonologia cinematográfica é o fato de que tais representações costumam ser a única alternativa à abordagem secular e materialista das ciências médicas modernas. Portanto, somos expostos a uma falsa dicotomia: ou a atividade demoníaca é representada com os traços caricaturais dos filmes de Hollywood ou ela é uma superstição boba do que, em essência, não passariam de fenômenos bioquímicos cerebrais.

Quaisquer respostas ou explicações ortodoxas a esses fenômenos devem, obrigatoriamente, começar com a experiência ascética dos santos. É fato que, na hagiografia, há inúmeras histórias de santos que lutaram espiritualmente com figuras grotescas e demoníacas, mas ler esses relatos de maneira superficial é tão produtivo quanto ler o Apocalipse desse jeito, ou seja, esperando que literalmente uma besta de dez chifres surgirá do mar para governar o mundo.

Para que compreendamos a natureza das batalhas espirituais contra o que São Paulo chamou de “principados e potestades”, é necessário entendermos a natureza do homem e os efeitos da queda.

Já mencionei diversas vezes que os Santos Padres faziam uma distinção entre a razão discursiva (dianoia) e a faculdade da percepção intuitiva (nous). De acordo com São Paulo em Romanos 1, bem como os Santos Padres, a essência da queda está no obscurecimento das faculdades noéticas do homem.

Em particular, São Paulo diz que o fato de o homem ter trocado a glória de Deus pela glória das coisas corruptíveis o tornou “vão em suas imaginações”. Isso não quer dizer apenas que o homem passou a pensar mais em si mesmo do que deveria, embora isso também seja verdade. Creio que São Paulo está tentando dizer que o obscurecimento das faculdades noéticas do homem resultou na perda da habilidade em discernir fantasia de realidade. Não apenas limitamos nosso campo de visão ao mundo material como enfrentamos dificuldades em perceber esse campo corretamente.

Em outras palavras, somos todos psicóticos em potencial, pois todos nós temos uma faculdade de atenção que não funciona como originalmente pretendido. Não se trata de mero subproduto da Queda, mas da essência mesma das criaturas caídas.

Ora, algumas pessoas, seja por causa de disfunções bioquímicas ou hereditárias, são mais propensas a estados psicóticos do que outras. Elas podem ouvir vozes ou ver e imaginar coisas, e essas fantasias se tornam mais reais do que os dados sensoriais imediatos. Na verdade, elas são propensas a aceitar e interpretar essas fantasias precisamente como se fossem dados sensoriais.

Mesmo que a imensa maioria das histórias de possessões demoníacas que encontramos na literatura da Igreja pudesse ser racionalmente explicada em termos de psicose, elas não seriam menos demoníacas em sua natureza. Pois a inabilidade em discernir fantasia de realidade é um dos muitos sinais de nosso cativeiro. O diabo não é apenas um sujeito malvado; e deveríamos nos lembrar sempre disso.

De todos os dons espirituais, o mais útil talvez seja o dom do discernimento de pensamentos. Discernir a realidade e a origem de nossos pensamentos – aquilo que os Padres chamam de logismoi – é um dos sinais mais evidentes de maturidade espiritual.

E não são apenas as pessoas malucas, aquelas que ouvem vozes ordenando-lhes a matar em nome de Deus, que sofrem de logismoi demoníaco. Todos nós sofremos, em diferentes graus. De repente, posso estar dirigindo sobre uma ponte ou viaduto e surgir um pensamento assim: “E se eu virasse o volante para a direita e caísse da ponte?” Ora, eu não tenho tendências suicidas e, portanto, não acho que tais pensamentos sejam produto de um desejo reprimido de me ferir. Um psicólogo poderia opinar que isso tem a ver com o fato de eu não gostar de altura, no que haveria um pouco de verdade. Mas a total irracionalidade do pensamento é que impressiona aqui.

Não consigo vislumbrar qualquer benefício evolucionário em tais pensamentos. Pelo contrário, logismoi não são produtos de seleção natural nem de desenvolvimento evolucionário: eles são produtos da Queda. Eles são a arma preferida do diabo. A verdadeira batalha contra as forças demoníacas encontra-se no âmbito noético. Na verdade, é uma batalha para restaurarmos nossa sanidade, para nos tornarmos a totalidade psico-somática para a qual fomos criados.

Os santos são aqueles que por meio da cooperação com a graça de Deus purificaram seu nous e aprenderam a enxergar si próprios e o mundo de maneira correta. Eles foram “salvos”, que no linguajar bíblico significa que se tornaram íntegros. Nós, cristãos ortodoxos, somos chamados a seguir seu caminho. Eles são o modelo do que a vida humana deveria ser. Ao mesmo tempo, eles nos revelam a real natureza das ilusões demoníacas.

Bem, admito: eu gosto de filmes de terror. Talvez seja por isso que eu não fique horrorizado com o Halloween. Eu gostei do Exorcista e do Omen original [no Brasil, A Profecia – N. do T.], e adoro um bom filme de vampiro. Porém, é absolutamente crucial que não deixemos nossa percepção da batalha espiritual ser contaminada pelas fantasias hollywoodianas, ou pelas correntes mais lúgubres e perigosas da piedade católica romana e pentecostal.

Não lutamos contra a carne e o sangue, diz o Apóstolo. Temos sempre que nos lembrar que nossa batalha espiritual é pelo nous, e nos aproveitar do método terapêutico dado a nós por Cristo em Sua Igreja. Temos de entender também que atingir a verdadeira cura é atingir a verdadeira sanidade.

E que nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que destruiu o poder do diabo e esmagou a morte com a morte, pelas intercessões de Santo Inocêncio do Alaska e do Abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de todos nós e nos conceda uma entrada rica em Seu reino eterno.

Meu nome é Clark Carlton, falando para a Ancient Faith Radio.

26 de dezembro de 2007

A Igreja Ortodoxa em terras germânicas

Todos os anos, o Mosteiro de São Germano do Alaska publica um calendário ortodoxo bastante completo e rigoroso, e que sempre vem acompanhado de um artigo interessante. Em 2006, o calendário veio com a história da Igreja Ortodoxa em terras germânicas, um artigo que certamente interessará a todos os alemães e seus descendentes ortodoxos. Tenho esperança que este relato inspirará a todos os leitores ortodoxos a buscarem nesses desconhecidos santos suas intercessões junto ao Cristo.

* * *

I. A Igreja Ortodoxa no Ocidente

Muitos povos ocidentais, tanto ortodoxos quanto não-ortodoxos, identificam a Ortodoxia com as igrejas nacionais do Leste Europeu e do Oriente Médio. As pessoas que habitam países ocidentais podem não perceber, mas vivem sobre terra santa na qual repousa um vibrante legado cristão que, por séculos a fio, foi idêntico em espírito e praticamente indistinguível na prática do Cristianismo Oriental.

Em maior ou menor grau, o verdadeiro Cristianismo Ortodoxo já esteve presente nas terras onde hoje se fala o idioma alemão, desde os primeiros dias do surgimento de nossa fé até os tempos do grande cisma de 1054. É possível descobri-lo em velhos documentos e estudos arqueológicos e artísticos, mas também é possível experimentá-lo na veneração de relíquias sagradas, onde quer que tenham sido preservadas e honradas, bem como na leitura das vidas dos santos, escritas por seus discípulos e que não foram posteriormente embelezadas.

II. A chegada do Cristianismo

A chegada do Cristianismo em terras germânicas foi um processo gradual, que durou mais de 800 anos. No começo do século I, boa parte da Europa Ocidental era habitada por povos celtas. Os romanos haviam conquistado vastas regiões do continente, começando a fazer incursões na chamada Germania, onde tribos germânicas a haviam colonizado há não muito tempo. Depois que os romanos foram derrotados na Batalha da Floresta de Teutoberg, no ano 9 d.C., seus ambiciosos planos de conquistar toda a Europa Ocidental foram frustrados. Eles tiveram de se assentar à oeste do Reno e ao sul do Danúbio, sendo incapazes de implantar sua civilização na maior parte do que hoje conhecemos por Alemanha. Trata-se de uma informação importante: devido à sua maior acessibilidade, as terras romanas puderam receber o Cristianismo muito antes das germânicas.

Neste artigo, veremos como o Cristianismo Ortodoxo chegou aos países e regiões onde hoje se fala alemão (clique nos mapas ao lado). Devemos ter em mente que esses países não existiam à época do período missionário. Na verdade, tudo aconteceu muito antes que mudanças populacionais, alterações de fronteiras, guerras e desenvolvimentos lingüísticos resultassem na mistura de povos celtas, romanos e germânicos no Ocidente, que falavam o velho francês, e a leste deles uma grande quantidade de reinos que falavam o velho alemão, com o latim sendo usado somente na igreja. E séculos e séculos antes que Alemanha, Suíça, Áustria, Luxemburgo e Lichtenstein surgissem no mapa, mais ou menos com as fronteiras que hoje possuem.

III. O Cristianismo nas fronteiras romanas, na Era dos Apóstolos e Mártires (33-300 d.C.)

Nos primeiros três séculos, o Cristianismo espalhou-se rapidamente por todas as direções, a partir de Jerusalém. Os primeiros apóstolos e seus discípulos transmitiram o que haviam visto, ouvido e experimentado – a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo e Seus ensinamentos. A esperança que isso engendrou naqueles que tocou, juntamente com a vida que os primeiros cristãos levavam, que era bem diferente daqueles à sua volta, foi contagiosa. Em primeiro lugar, ela se espalhou por famílias judaicas de todo o Império Romano para, em seguida, espalhar-se família a família entre os gentios. Da mesma maneira, atingiu regiões do Império Romano conhecidas como Gália (atual França e regiões alemãs do Reno e de Moselle), Nórico (sul da Bavária e norte da Áustria) e Récia (Suíça e partes da Alemanha). Há indícios em muitos locais de que discípulos dos apóstolos foram enviados a esses territórios (ou através deles), embora não tenhamos registros escritos disso. Na Suíça, dizem que São Beato teria sido batizado em Roma pelo Apóstolo Barnabé e enviado em missão à Suíça pelo Apóstolo Pedro. Há tradições similares segundo as quais discípulos do Apóstolo Pedro teriam chegado a Trier e Colônia, na região do Reno.

Muitos cristãos chegaram às fronteiras romanas, tanto como parte do exército quanto como funcionários públicos; outros, ainda, eram comerciantes da Grécia e da Síria. Como havia muitos soldados germânicos (e mesmo comandantes) no exército romano, alguns deles também devem ter adotado o Cristianismo. O primeiro milagre ocorrido num país germânico resultou de orações feitas no exército romano. Em 11 de junho de 172, no atual norte da Áustria, o exército romano caiu numa cilada, ficando sem água num dia quentíssimo, enquanto lutava contra os bárbaros marcomanos e quades. O exército estava para sucumbir ao calor quando, em resposta às orações dos soldados cristãos, Deus enviou uma tempestade que refrescou os romanos e aterrorizou os bárbaros, tendo sido fragorosamente derrotados.

Embora a perseguição aos cristãos não fosse tão feroz no Ocidente quanto no Oriente, havia mesmo assim períodos de perseguição. Em 177, muitos foram martirizados em Lyons (França); é quase certo que havia comunidades cristãs em cidades ao longo do Reno, tais como as cidades (alemãs) de Colônia e Mainz, portanto é muito provável que algo similar lá aconteceu. Perseguições a cristãos também ocorreram durante o governo do Imperado Diocleciano Maximiano (início do século IV). À época, entre aqueles que deram suas vidas pela fé estão São Maurício e a Legião de Tebas, cristãos africanos que foram martirizados na atual Suíça; outros membros dessa legião estavam estacionados em outros locais, incluindo Colônia, Bonn e Xanten (Alemanha); o Mártir Afra de Augsburgo; Santa Úrsula, a mártir-virgem de Colônia, juntamente com seus companheiros; e o Soldado-Mártir Floriano e seus 40 companheiros em Lorsch (Áustria).

A importância que esses primeiros mártires têm na propagação do Cristianismo e na piedade do povo foi enorme. Assim que o Imperador Constantino acabou com a perseguição aos cristãos em 313, igrejas foram construídas sobre os locais onde repousam os mártires, tornando-se pontos importantes de peregrinação. As pessoas neles se ajuntavam em busca de consolação e cura, sabendo que eles eram seus heróis espirituais e que deram seu último sacrifício em sua própria terra.

IV. De Constantino às invasões bárbaras

No começo do século IV, a jovem Igreja era vibrante em termos de fé, mas pequena em número. Ela se fazia representar em todas as cidades do Império Romano, mas as reuniões se davam em igrejas caseiras e eram materialmente pobres – seu clérigo freqüentemente se via obrigado a sustentar-se com empregos seculares. Isso estava para mudar no governo de Constantino. Após ter derrotado Maxêncio em 312, sob o sinal da Cruz que vislumbrara numa visão, ele cessou a perseguição aos cristãos e começou a apoiá-los. Durante sua vida, ele concedeu liberdade, subsídio e imunidade à Igreja, convocando o Primeiro Concílio Ecumênico a fim de estabelecer a unidade entre os cristãos.

Durante alguns anos, Constantino, assim como seu pai, foi chefe da parte ocidental do Império Romano, que tinha a cidade de Trier (Alemanha) como sua capital. É por isso que temos tantos tesouros espirituais nessa cidade. Sua mãe, Santa Helena, tendo viajado à Palestina e descoberto a Verdadeira Cruz, levou um dos pregos da Cruz a Trier. O Bispo Antióquio, a quem ela havia chamado de Antioquia para servir em Trier, adicionou ao tesouro as relíquias do Apóstolo Matias. A cabeça da própria Santa Helena repousa lá, assim como a sandália do Apóstolo André, as relíquias de Santa Ana, mãe da Santíssima Mãe de Deus, e as relíquias de muitos outros santos.

Embora Constantino não tenha forçado ninguém a se converter, o Cristianismo cresceu rapidamente no seu governo e no de seus sucessores. As pessoas eram atraídas pelo santo exemplo dos cristãos e pelo entusiasmo e apoio mútuo em participar de um grupo cristão. Outras causas para as conversões foram a influência de cônjuges cristãos e os muitos milagres – especialmente os de cura – desempenhados pelas orações dos santos e petições nos túmulos de mártires e ascetas.

No entanto, muitos se tornaram cristãos apenas para usufruir dos favores do Imperador, supondo que o batismo seria o passaporte para o poder e a riqueza. Essa “Era da Hipocrisia” durou cerca de 100 anos. E, apesar disso, tornou-se o ímpeto para o movimento mais puro e verdadeiramente ortodoxo da época: o monasticismo.

V. O monasticismo na Gália dos séculos IV e V

No Egito, muitos homens e mulheres reagiram a esse Cristianismo aguado migrando para o deserto, desejosos de preservar o caráter supramundano da fé cristã que haviam experimentado durante os tempos de perseguição. Em pouco tempo, no Ocidente, pessoas de espírito semelhante leram a Vida de Santo Antônio e as vidas de outros habitantes do deserto, ou, como São Cassiano, trouxeram suas experiências pessoais da vida ascética ao Ocidente, escrevendo livros sobre isso. E o próprio Ocidente tinha seus grandes ascetas: São Martinho de Tours (+397) e aqueles que vieram da ilha-mosteiro de Lerins (início do século V); São Romano (+460) e São Lupicínio (+480), que iniciarem-se como eremitas nas Montanhas de Jura, atual França, sendo que lá e na atual Suíça fundaram vários mosteiros. Todas as partes dos futuros países germânicos foram afetadas por esse movimento: os que buscavam a Verdade sabiam aonde ir a fim de dedicarem-se integralmente a Cristo.

VI. As migrações das tribos germânicas e o fim do poder romano

Esse crescimento do Cristianismo Ortodoxo, pelo menos naquilo que afetou as terras germânicas, experimentou um revés severo no início do século V, quando diversas tribos germânicas – por causa de seu crescimento e expansão e do avanço dos ferozes hunos vindos do leste – invadiram o território romano. Primeiramente, tropas romanas foram retiradas da fronteira germânica para proteger Roma; depois, a própria Roma caiu, decretando o fim do Império Ocidental. Tribos germânicas cruzavam os rios Reno e Danúbio. Para os cristãos romanos, a vida estava sob ameaça. Igrejas eram freqüentemente destruídas e substituídas por templos pagãos, enquanto as atividades missionárias praticamente cessaram. Alguns cristãos se retiraram para fortalezas romanas, chegando a construir igrejas em seus interiores; alguns foram mortos; os cristãos na Áustria agüentaram enquanto puderam, fugindo então para a Itália.

Um extraordinário santo, que surgiu nesses tempos turbulentos para guiar e proteger os cristãos romanos que restaram no norte da Áustria e da Bavária, foi São Severino. Ele apareceu numa pequena vila como humilde peregrino e eremita, rezando na igreja local e vivendo na casa de um velho. Numa determinada ocasião, ele exortou todos a jejuarem, rezarem e darem esmola para evitar uma invasão. Quando eles o ignoraram, ele “sacudiu o pó de seus pés” e mudou-se para uma cidade próxima. Mais tarde, aquele velho com quem morara surgiu nos portões da cidade, muito chocado e temeroso – as previsões de Severino haviam se cumprido; seu estalajadeiro foi o único sobrevivente da primeira cidade. Os habitantes da segunda cidade seguiram os conselhos de Severino e foram poupados de semelhante destruição.

Deu-se início a uma extraordinária missão, na qual toda a região buscava o guiamento de Severino para obter segurança e salvação. Ele fundou mosteiros, aconselhou reis, libertou cativos, alimentou e vestiu o povo. Ele sabia quando a luta seria bem-sucedida ou quando seria melhor fugir. Ele ensinou o povo muitas e muitas vezes a confiar em Deus e não em seus próprios poderes, a ser humilde e generoso com o pouco que tinha. No final, todas as pessoas que sobraram foram reunidas numa área e escaparam em segurança para a Itália.

Também houve mártires de Cristo assassinados pelos bárbaros invasores; conhecemos alguns pelo nome, como os São Crescêncio, São Teonesto, Santo Áureo e São Máximo, todos de Mainz.

O bispo e alguns cristãos permaneciam nas grandes cidades. Eles comumente transmitiam a cultura romana aos bárbaros, e foram respeitados por isso. No entanto, na ausência de militares e funcionários públicos romanos, os bispos assumiam cada vez mais tarefas seculares, resultando numa queda do nível de espiritualidade.

VII. A conversão dos francos

A tribo germânica dos francos vivia nas proximidades, e depois dentro, das fronteiras romanas. Muitos francos serviram no exército e no governo romano, até mesmo em altos cargos. Após o colapso do Império Ocidental, no século V, os francos deram início ao domínio do resto da Gália. Deu-se início ao que poderíamos chamar de “conversão reversa”: ao invés dos conquistadores imporem sua religião à população celto-romana, os francos absorveram e imitaram sua cultura e religião. No começo, isso significava adicionar os deuses romanos aos seus; depois, alguns se tornaram cristãos no governo de Constantino; e , finalmente, no batismo de Clóvis em 498/499, um grande número de seguidores de Clóvis voluntariamente o seguiram nas águas do batismo, e muitos o fizeram mais tarde.

A conversão de Clóvis foi muito significativa para as tribos germânicas que estavam localizadas nas áreas que nunca haviam sido conquistadas pelos romanos. Quando as conquistas de Clóvis continuaram, incluindo grande parte da atual Alemanha e partes da Áustria, abriram-se as portas para ações missionárias nessas regiões, já que estavam sob a proteção de um governador cristão.

VIII. Missionários da Gália

Os primeiros a chegarem nesse novo território missionário foram monges e padres do reino dos francos ocidentais, que haviam sido menos afetados pelas invasões. Do final do século VI até a metade do século VIII, eles restabeleceram o Cristianismo ao longo do Reno, levando-o, pela primeira vez, a outros territórios. Entre eles estavam o Santo Bispo Everglésio de Colônia e São Goar, também do Reno; Santo Emerão, Santo Erhard e São Corbiniano, na Bavária.

IX. Os missionários irlandeses

Na mesma época, missionários irlandeses começaram a chegar. A Irlanda, que nunca havia sido conquistada pelos romanos nem pelos invasores germânicos, recebeu o Cristianismo no século V, principalmente pelas mãos de São Patrício. Corajosos, cultos e extremamente disciplinados em seu asceticismo, os monges irlandeses chegaram ao continente individualmente ou em pequenos grupos, a partir do século VI.

Alguns se assentaram nas florestas, em cavernas ou em ilhas, tornando-se eremitas locais ou santos. Em muitos casos, apenas seus nomes são conhecidos. Outros, como São Columbano, fundaram mosteiros de grande importância. (Ele e seus doze companheiros fundaram três mosteiros na França, sendo que monges ali formados se dispersaram para fundar outros mosteiros na França e Suíça). Seu discípulo, São Gall, homem de grande cultura e humildade, assentou-se nas proximidades do Lago Constance [situado na atual fronteira entre Alemanha, Áustria e Suíça – N. do T.], tornando-se o Iluminador da Suíça e levando o Cristianismo, pela primeira vez, aos povos das montanhas e vales da região. Mais tarde, a famosa Abadia de São Gall foi construída na região por outro santo, Santo Otmar.

O compatriota de São Gall, São Fridolin, atuou de maneira semelhante na região do Alto Reno, convertendo os alemanos, no atual sudoeste da Alemanha. A fé, a sabedoria e as habilidades agrícolas e artísticas que levaram ao continente contrastavam fortemente com o nível de Cristianismo e cultura que lá permanecera, onde as escolas haviam desaparecido por completo e as cidades e estradas romanas estavam destruídas ou mal conservadas. E, obviamente, os vastos territórios que nunca estiveram sob domínio romano - assim como a maioria dos povos que recentemente se assentaram na Gália, Nórico e Récia – eram totalmente estranhos à vida cristã.

Por 500 anos, os irlandeses continuaram a migrar, freqüentemente formando a espinha dorsal da ortodoxia, da santidade e da renovação cristãs, além de preservarem os tesouros culturais com suas habilidades artísticas e literárias. Diversos santos famosos nas terras germânicas provavelmente eram irlandeses: São Virgílio e São Ruperto de Salzburgo; São Quiliano de Würzburg, o Apóstolo da Francônia; São Arbogasto de Estrasburgo; São Albuíno (Wittan), o Apóstolo da Turíngia; e São Aldo, fundador de Altomünster, na Bavária.

Mas seriam os anglo-saxões – retornando ao continente para converter seus próprios irmãos germânicos (os “velhos saxões”, como os chamavam), assim como os frísios e outros – que completariam a conversão da Alemanha.

X. Os missionários anglo-saxões e seus discípulos

Os anglos e os saxões germânicos conquistaram a Inglaterra e, por meio de esforços missionários de Roma e da Irlanda, foram convertidos ao Cristianismo no século VII. Inflamados de zelo cristão, alguns deles conceberam o desejo de ir ao continente e levar a palavra de Deus a seus irmãos pagãos. Na região onde hoje se situa a atual Alemanha, o mais importante desses missionários anglo-saxões foi São Bonifácio, conhecido como o Iluminador da Alemanha. Por onde andou, este homem poderoso e complexo entregou-se completamente à correção de erros, corrupções e heresias nos remanescentes da Igreja. Ele adentrava corajosamente nas regiões onde não havia igrejas, nas quais os germânicos ainda praticavam sacrifícios humanos, divinizações e adorações de demônios, e botava ordem na Igreja devastada pela guerra e apenas esporadicamente visitada por monges peregrinos. Ele possuía a rara habilidade de atrair grandes ajudantes: em suas viagens a Roma, ele persuadiu três santos compatriotas a se juntarem a ele na Alemanha (São Vilibaldo, São Vunibaldo e São Lull); por meio de cartas para abadessas inglesas, ele conseguiu inspirar muitas santas mulheres a fundarem conventos em terras germânicas e evangelizar mulheres (Santa Leoba e Santa Valburga são alguns exemplos). Ele sofria de solidão e de saudades de sua terra natal, mas nunca parou de servir àqueles a quem Cristo o havia chamado a ministrar.

No fim de sua vida, ele estabeleceu bispados em Mainz, Regensburgo, Eichstätt e Salzburgo, reformou o clérigo decadente, que era cristão apenas no nome, e batizou e educou uma quantidade enorme de pessoas. Após assinalar São Lull como seu sucessor, São Bonifácio deixou os principais centros de sua atividade (as terras germânicas da Turíngia, Hesse e Bavária), levando sua mortalha fúnebre consigo. Ele partiu para a Frísia, já idoso, onde ele e mais 42 pessoas foram martirizadas por pagãos, após trabalhos missionários bem-sucedidos. Ele está enterrado em seu mosteiro em Fulda, Alemanha.

XI. A conversão do norte da Alemanha

Os frísios e os saxões ocidentais eram as principais tribos do norte da atual Alemanha. Eles se apegaram a seus deuses pagãos, sobretudo porque identificavam o Cristianismo com a derrota para uma potência estrangeira. É verdade de Carlos Magno tinha fortes motivações políticas para converter os saxões pois, como se localizavam na costa do Mar do Norte, estavam perturbando seu reinado. Mas, diferentemente de seus famosos predecessores, o Imperador Constantino e o Rei Clóvis, Carlos Magno usou da força bruta para empreender tais conversões, o que somente resultou em rebeliões. Felizmente, verdadeiros santos também trabalharam na área para converter os corações e mentes dos povos a Cristo, por meio do amor e da mansidão.

Os mais antigos missionários foram São Suitberto e os dois Santo Evaldo. São Suitberto missionou os bructuares, uma tribo saxônia, embora tenham posteriormente se espalhada após invasões. Santo Evaldo, o Preto, e Santo Evaldo, o Branco, eram missionários anglo-saxões que tentaram converter os saxões. Enquanto esperavam encontrar o líder local, eles foram assassinados por seus homens, que não queriam abrir mão de seus deuses pagãos.

São Ludgero, pelas suas qualidades pessoais e pelo período tardio em que atuou, foi de longe o mais bem-sucedido missionário a converter os frísios e os saxões. Pela Providência de Deus, seu avô abandonara o reino dos frísios enquanto eles ainda eram bárbaros, pois seu caráter cordial e imparcial era incompatível com seus modos cruéis. Ele e sua família se tornaram cristãos na terra dos francos.

Quando a Frísia Ocidental (Holanda) foi conquistada pelos francos (cristãos), a família migrou de volta para a região próxima a Utrecht. Seu lar estava aberto aos grandes missionários cristãos e, quando menino, Ludgero conheceu São Bonifácio na região, logo antes de seu martírio. Inspirado pelo histórico de sua família e pelos encontros com esses missionários, ele levou o Cristianismo aos bárbaros. Sua fluência no idioma frísio e sua familiaridade com os usos e costumes frísios, bem como sua extraordinária educação monástica adquirida em Utrecht e York (Inglaterra), o qualificavam para a tarefa. Quando a Frísia Oriental (norte da Alemanha) também foi conquistada pelos francos, Ludgero recebeu, enquanto território missionário, cinco distritos frísios que se opunham virulentamente contra o Cristianismo. Eles concordaram em se tornar cristãos se lhes fossem enviados um mestre que falasse sua língua. Embora tenha deixado a região por duas vezes, em função de revoltas, Ludgero converteu a região com sucesso, viajando sem parar e construindo mosteiros e pequenas igrejas de madeira. Ele rejeitou o bispado da distinta cidade de Trier para melhor expandir as atividades missionárias entre os vizinhos saxões, que acabavam de ser conquistados pelos francos de Carlos Magno. Lá, então, finalmente aceitou o posto episcopal, tornando-se o primeiro Bispo de Münster. Por fim, ele construiu um grande mosteiro, nos moldes beneditinos, na cidade de Werden, no Ruhr (próxima da atual Essen), trazendo monges da Frísia, Saxônia e Francônia; foi aí que escolheu ser enterrado e onde suas relíquias repousam até hoje. Um pouco mais ao norte, outro missionário, o anglo-saxão São Vilehado, primeiro Bispo de Bremen, levou as Boas Novas de Cristo ao território que inclui Bremen e Oldenburgo.

XII. Prússia

A última parte da atual Alemanha a ser missionada foi a Prússia, no leste. Esta região, porém, nunca havia sido ortodoxa, pois seu povo permanecera pagão e se opunha violentamente ao Cristianismo, assassinando os dois primeiros missionários a chegarem ao território: Santo Adalberto de Praga (+997) e São Bruno de Querfort (+1009). Eles não se tornaram cristãos até serem convertidos à força pelos católicos romanos em 1249.

XIII. A Ortodoxia alemã pós-cisma

O Cristianismo Ortodoxo foi levado às atuais Alemanha, Áustria e Suíça por refugiados ou trabalhadores da Rússia, Sérvia, Bulgária, Grécia e demais países ortodoxos. Hoje, há diversas igrejas ortodoxas nos países de língua alemã, assim como um mosteiro sérvio que mantém a maior parte de seus ofícios na Alemanha (Mosteiro de Santo Espiridião, em Geilnau, Alemanha). Atualmente, os alemães estão descobrindo a Igreja Ortodoxa.

Há também alguns conhecidos alemães que deixaram seu país e se tornaram santos ortodoxos na Rússia. Os mais notáveis são os loucos-por-Cristo São Procópio de Ustiug, Santo Isidoro e São João, o Misericordioso, ambos de Rostov, a Mártir Czarina Alexandra e a Mártir Grã-Duquesa Elizabete. Eles, juntamente com o jovem mártir Alexander Schmorell, membro da resistência “Weisse Rose” durante o regime nazista, são muito reverenciados pelos cristãos ortodoxos alemães atuais.

19 de dezembro de 2007

São Nicolau, o Taumaturgo

Hoje comemora-se o dia de São Nicolau, o Taumaturgo, um dos mais famosos santos da Cristandade, e que é especialmente venerado na Igreja Ortodoxa Russa.

Vamos aproveitar este dia para lembrar que a figura deste venerável santo é exatamente o oposto do "Papai Noel", a quem supostamente São Niculau teria inspirado. Papai Noel não existe, é uma invenção humana feita para iludir crianças em favor de adultos mal-intencionados. São Nicolau existe, está vivo no Reino dos Céus, e intercede junto ao Cristo por todos aqueles que rezam com humildade e mansidão. Papai Noel é a esperança mórbida daqueles que só têm olhos para este mundo. São Nicolau é a esperança viva daqueles que sabem que Cristo salvou a humanidade e abriu Seu Reino para os dignos e justos. Papai Noel sufoca e mata o sentido do Natal. São Nicolau nos faz lembrar que este Natal é, afinal, o Natal de nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo.

Segue uma pequena biografia de São Nicolau, traduzida do site da Orthodox Church in America.

São Nicolau, interceda por nós junto a Cristo para que Ele tenha piedade de nós, perdoe nossos pecados e nos dê coragem, humildade e mansidão para levarmos uma vida digna e justa, a fim de sermos aceitos em Seu Reino eterno. Amém.

* * *

São Nicolau, o Taumaturgo, Arcebispo de Mira, é famoso por ser um grande santo. Ele nasceu na cidade de Patara, na região da Lícia (litoral sul da península da Ásia Menor, atual Turquia), e era filho único de pais piedosos, chamados Teófanes e Nonna, que prometeram dedicá-lo a Deus.

Tendo sido fruto das orações de seus pais, que eram desprovidos de filhos, o jovem Nicolau, desde os primeiros dias de seu nascimento, revelara ao povo a luz de sua futura glória como taumaturgo [taumaturgo significa aquele que faz milagres]. Sua mãe, Nonna, após dar à luz, foi imediatamente curada de uma doença. O recém-nascido, quando estava na fonte batismal, ficou de pé por três horas, sem ajuda de ninguém, honrando assim a Santíssima Trindade. São Nicolau jejuava desde a infância, e as quartas e sextas-feiras ele não aceitava leite de sua mãe até que seus pais tivessem terminado as orações da noite.

Desde a tenra infância, Nicolau dedicou-se ao estudo das Sagradas Escrituras; de dia ele não deixava a igreja e, de noite, rezava e lia, fazendo de si próprio uma morada digna para o Espírito Santo. O Bispo Nicolau de Patara regozijava-se com o sucesso espiritual e com a profunda piedade de seu sobrinho. Ele o ordenou leitor e, mais tarde, elevou-o ao sacerdócio, tornando-o seu assistente e confiando-lhe o ensino do rebanho.

Servindo ao Senhor, o jovem era fervoroso de espírito; sua proficiência nas questões da fé o fazia parecer um ancião, despertando espanto e profundo respeito por parte dos fiéis.
Enérgico e laborioso, em oração incessante, o Padre Nicolau era sempre amável com seu rebanho e com aqueles que vinham em busca de ajuda, distribuindo sua herança aos pobres.

Certa vez, São Nicolau impediu que um habitante rico de Patara cometesse um grave pecado. O sujeito tinha três filhas e, em desespero, planejava vender seus corpos a fim de conseguir dinheiro para comprar comida. O santo ficou sabendo da pobreza desse homem e de suas vis intenções e à noite, em segredo, atirou um saco de ouro pela janela de sua casa. Com o dinheiro, o homem conseguiu arranjar um casamento honorável para sua filha. São Nicolau também deu ouro para as demais filhas, salvando a família de uma grande catástrofe espiritual. São Nicolau sempre fazia caridade em segredo, ocultando suas boas obras.

O Bispo de Patara resolveu peregrinar aos lugares santos de Jerusalém, e confiou o guiamento de seu rebanho a São Nicolau, que cumpriu a tarefa com esmero e amor. Quando o bispo retornou, Nicolau pediu sua bênção para uma peregrinação à Terra Santa. Ao longo do caminho, o santo previu que uma tempestade surgiria, ameaçando o navio em que estava. São Nicolau viu o diabo subindo no navio, afundando-o e matando todos os passageiros. Atendendo às súplicas dos peregrinos desesperados, ele acalmou as ondas do mar com suas orações. Pelas suas orações, certo marinheiro, que havia caído do mastro e encontrava-se gravemente ferido, foi curado.

Quando ele chegou à antiga cidade de Jerusalém, a caminho do Gólgota, São Nicolau deu graças ao Salvador. Ele visitou e adorou em todos os lugares santos. Certa noite, no Monte Sião, as portas da igreja se abriram sozinhas para o grande peregrino. Foi visitando os lugares santos ligados ao Filho de Deus que São Nicolau decidiu retirar-se para o deserto, mas foi barrado por uma voz divina que lhe encorajou a retornar a seu país de origem. Ele retornou à Lícia e, desejoso de uma vida em quietude, o santo entrou na irmandade de um mosteiro chamado Santo Sião, fundado por seu tio. Mas novamente o Senhor indicou outro caminho a ele: “Nicolau, este não é o vinhedo onde tu darás fruto para Mim. Retorne ao mundo, e, lá, glorifique Meu Nome”. Assim, ele deixou Patara e foi a Mira, na Lícia.

Com a morte do Arcebispo João, Nicolau foi escolhido Bispo de Mira da seguinte maneira. Um dos bispos do concílio afirmou que um novo arcebispo seria revelado por Deus, e não escolhido por homens. Um dos bispos, um ancião, teve uma visão na qual um Homem radiante lhe dissera que aquele que viesse à igreja de noite e fosse o primeiro a entrar seria feito arcebispo. Ele seria chamado Nicolau. O bispo entrou na igreja, aguardando Nicolau. O santo, que era sempre o primeiro a chegar à igreja, foi interrompido pelo bispo. “Qual seu nome, filho?”, perguntou. O escolhido de Deus respondeu: “Meu nome é Nicolau, Mestre, e sou teu servo”.

Após sua consagração como arcebispo, São Nicolau continuou sendo um grande asceta. Seu rebanho tinha dele uma imagem de cordialidade, bondade e amor pelo povo. Tais traços foram especialmente importantes para a Igreja de Lícia durante a perseguição aos cristãos no governo de Diocleciano (284-305). O Bispo Nicolau, preso junto com outros cristãos por se recusar a adorar ídolos, deu-lhes sustento, exortando-os a suportar as algumas, castigos e torturas. O Senhor o preservou intacto. Após a ascensão de São Constantino (21 de maio) como imperador, São Nicolau foi devolvido ao seu rebanho, que recebeu seu guia e intercessor com grande alegria.

Apesar de sua cordialidade de espírito e pureza de coração, São Nicolau era um zeloso e ardente combatente da Igreja de Cristo. Para combater os espíritos malignos, o santo destruiu os ídolos e templos pagãos da cidade de Mira.

Em 325, São Nicolau participou do Primeiro Concílio Ecumênico. Neste Concílio, foi proclamado o Símbolo de Fé de Nicéia, e nele São Nicolau levantou-se contra o herege Ário, ao lado de São Silvestre, Bispo de Roma (2 de janeiro), Santo Alexandre de Alexandria (29 de maio), São Spyridon de Trimitonto (12 de dezembro) entre outros Padres.

São Nicolau, cheio de zelo pelo Senhor, atacou o herege Ário com palavras, inclusive batendo-lhe no rosto. Por causa disso, foi desprovido das honras episcopais e colocado sob vigilância. Mas muitos Santos Padres tiveram a visão de que o próprio Senhor e a Mãe de Deus estavam lhe restaurando o Evangelho e o omofórion. Os Padres do Concílio entenderam, então, que a audácia do santo era agradável a Deus, e o reabilitaram ao seu ofício de bispo.

Retornando à sua diocese, o santo levou paz e bênçãos, semeando a palavra da Verdade, eliminando heresias, nutrindo seu rebanho com sãs doutrinas e fornecendo-lhes comida.

Mesmo em vida, o santo operava vários milagres. Um dos maiores foi quando libertou três homens de uma morte injusta, condenados pelo governador, que fora subornado. O santo agiu com coragem, levantando-se e tirando a espada do executor, que já estava suspensa sobre a cabeça dos condenados. O governador, denunciado por São Nicolau pelos seus atos, arrependeu-se e pediu perdão.

Neste evento estavam presentes três oficiais militares, enviados à Frígia pelo Imperador Constantino a fim de sufocarem uma rebelião. Eles não suspeitavam que, em breve, estariam pedindo a intercessão de São Nicolau. Homens malignos os caluniaram diante do imperador, tendo sido condenados à morte. Mas São Nicolau apareceu em sonho a São Constantino, pedindo-lhe para que revertesse a injusta sentença dos oficiais militares.

Ele operou diversos outros milagres, permanecendo em combate por muitos anos. Pelas orações do santo, a cidade de Mira foi poupada de uma fome terrível. Ele apareceu a certo mercador italiano, deixando com ele três moedas de ouro a título de promessa de pagamento. Ele pediu que velejasse até Mira e lá entregasse grãos. Mais de uma vez, o santo salvou náufragos, prisioneiros e escravos.

Em idade avançada, São Nicolau repousou em paz no Senhor. Suas relíquias incorruptas foram preservadas na catedral local, cujo bálsamo vertia com abundância e curava a muita gente. Em 1087, suas relíquias foram transferidas para a cidade italiana de Bari, onde permanecem até hoje.

O nome deste grande santo de Deus, o hierarca e taumaturgo Nicolau, tornou-se famoso nos quatro cantos da terra. Na Rússia, há uma multidão de catedrais, mosteiros e igrejas consagradas a seu nome. Não há, talvez, uma única cidade que não contenha uma igreja dedicada a ele.

O primeiro príncipe russo, Askold (+ 882), foi batizado em 866 pelo Patriarca Photius (6 de fevereiro) com o nome de Nicolau. No túmulo de Askold, Santa Olga (11 de julho) construiu o primeiro templo de São Nicolau na Igreja Russa de Kiev. As primeiras catedrais foram dedicadas a São Nicolau em Izborsk, Ostrov, Mozhaisk e Zaraisk. Em Novgorod, uma das principais igrejas da cidade, a igreja de Nikolo-Dvorischensk, tornou-se mais tarde uma catedral.

Igrejas e mosteiros famosos e venerados foram dedicados a São Nicolau em Kiev, Smolensk, Pskov, Toropetsa, Galich, Archangelsk, Ustiug, Tobolsk. Moscou possui dezenas de igrejas que levam o nome do santo, e lá há também três mosteiros com seu nome: o Nikolo-Grega (Staryi) no bairro chinês, o Nikolo-Perervinsk e o Nikolo-Ugreshsk. Uma das torres principais do Kremlin foi batizada de Nikolsk.

Muitas igrejas devotadas ao santo foram estabelecidas em bairros comerciais por navegantes, viajantes e comerciantes russos, venerando o taumaturgo Nicolau como protetor dos viajantes por mar e terra.

Muitas igrejas no interior da Rússia foram dedicadas ao taumaturgo Nicolau, veneradas por camponeses como um intercessor misericordioso diante do Senhor. E nas terras russas São Nicolau não cessou suas intercessões. A antiga Kiev preserva a memória do resgate miraculoso de um bebê pelo santo. O grande taumaturgo, ouvindo as preces de seus pais pela perda de seu único filho, tirou a criança das águas, ressuscitou-a e colocou-a no sótão de coral da igreja da Santa Sabedoria (Hagia Sophia) diante de seu ícone taumaturgo. De manhã, a criança foi encontrada sã e salva pelos seus pais, que então louvaram a São Nicolau, o Taumaturgo.

Diversos ícones milagrosos de São Nicolau surgiram na Rússia, inclusive vindos de outros países. Há uma antiga imagem bizantina do santo, trazida de Novgorod para Moscou, e uma grande imagem pintada no século XIII por um mestre de Novgorod.

Dois ícones do taumaturgo são especialmente conhecidos na Igreja Russa: São Nicolau de Zaraisk, retratado de corpo inteiro, com sua mão direita em posição de bênção e sua mão esquerda segurando o Evangelho (essa imagem foi trazida de Ryazan em 1225 pela Prinicesa Eupraxia, a futura esposa do Prícipe Teodoro. Ela faleceu em 1237, juntamente com seu marido e filho, durante a incursão de Batu); e São Nicolau de Mozhaisk, também de corpo inteiro, com uma espada em sua mão direita e uma cidade na esquerda, para lembrar o resgate miraculoso da cidade de Mozhaisk de invasões inimigas, por meio das orações do santo. É impossível listar todos os ícones de São Nicolau nem listar todos os seus milagres.

São Nicolau é patrono dos viajantes, e rezamos a ele pelo livramento de enchentes, pobrezas e quaisquer desgraças. Ele prometeu ajudar àqueles que se lembrarem de seus pais, Teófanes e Nonna.

São Nicolau também é lembrado no dia 9 de maio (translado de suas relíquias) e em 29 de julho (seu nascimento).