27 de novembro de 2007

Santo Eduardo, Rei e Mártir

"O Rei Eduardo foi um jovem de grande devoção e excelente conduta. Ele era totalmente ortodoxo, bom e de vida santa. Acima de tudo, ele amava o Cristo e a Igreja. Ela era generoso com os pobres, um campeão da fé cristã, um vaso cheio de toda graça virtuosa".

Theodorico Paulus

Quando o Rei Edgar, bisneto de Alfredo, o Grande, ascendeu ao trono inglês no ano 957, a situação do país estava melhorando. Um novo senso de unidade, organização e confiança acabara de ser forjado, resultado de 100 anos de esforços. É neste período que a figura de São Dunstan, Arcebispo de Canterbury e conselheiro do Rei Edgar, faz-se notar.

Abade do mosteiro de Glastonbury, São Dunstan foi o principal responsável pela renovação religiosa e cultural de seu tempo, elevando o nível espiritual da nação. Seu grande objeto de restauração foram os mosteiros, privilegiando neles a vida ascética e a oração interior. No entanto, essa postura engendrou a ira daqueles que usavam a Igreja como mero instrumento para angariar riqueza e poder.

Tal ira intensificou-se ainda mais quando Eduardo, o filho mais velho do Rei Edgar, ascendeu ao trono em 975, após a morte do pai, tornando-se historicamente o Rei Eduardo II. Então com apenas 15 anos de idade, o jovem monarca continuou as políticas de seu pai, confiando em São Dunstan como conselheiro e dando-lhe total apoio em seus esforços para restaurar os mosteiros ingleses e a vida religiosa do povo em geral.

Todavia, sua madrasta, Alfreda, desejosa de ver seu filho Ethelred assumir o trono inglês, forjou uma aliança com membros da nobreza contrários às reformas religiosas e monásticas de São Dunstan. Portanto, de um lado encontravam-se a ex-rainha e seus aliados e, do outro, Rei Eduardo e seus conselheiros, entre os quais não somente São Dunstan mas também Oswald, Arcebispo de York e Bryhnoth, um nobre de Essex.

No dia 18 de março de 979, os partidários do Príncipe Ethelred finalmente decidiram agir. Convidado para a residência oficial do castelo de Corfe, em Dorset, onde o Príncipe Ethelred e sua madrasta já se encontravam hospedados, o Rei Eduardo aproximou-se dos serviçais de Alfreda, que vieram recebê-lo. O que era para ser uma simples recepção de boas-vindas transformou-se num terrível complô regicida. Alguns serviçais sacaram suas armas e um deles enterrou uma adaga no peito de Eduardo. Caindo da sela de seu cavalo, mas com o pé ainda preso ao estribo, a cena que se seguiu foi horripilante: um cavalo assustado, galopando em direção à floresta do castelo, arrastando pelo chão um rei mortalmente ferido a sangrar pelo caminho. Quando os homens do Rei finalmente conseguiram parar o cavalo, Eduardo já estava morto.

Por insistência de Alfreda, o corpo do Rei Eduardo foi enterrado sem cerimônias no cemitério de uma igreja em Wareham, a alguns quilômetros de onde fora assassinado. Embora ninguém tenha sido declarado culpado pelo crime, o regicídio foi levado a público de uma maneira bem diferente. Pois naquele mesmo instante, os milagres começaram.

Já naquela noite, uma senhora cega em cuja cabana o corpo do Rei Eduardo fora temporariamente depositado até ser movido para Wareham, de repente passou a enxergar. Em seguida, uma fonte começou a jorrar no túmulo do Rei Eduardo em Wareham, e inúmeros relatos dão conta de pessoas que foram milagrosamente curadas quando ali rezaram e se banharam. Como a santidade de Eduardo estava se tornando cada vez mais evidente, seu corpo foi transladado para o convento de Shaftesbury em 981. As curas continuaram mesmo durante a procissão.

Nos 20 anos que se seguiram, o túmulo do Rei Eduardo foi objeto de intensas venerações e peregrinações. No dia 20 de junho de 1001, o Rei Ethelred, ordenou que o corpo de Eduardo fosse transferido para um santuário no Mosteiro de Shaftesbury. No ano 1008, Alphege, Arcebispo de Canterbury, canonizou oficialmente Santo Eduardo, Rei e Mártir. De toda a Inglaterra, e até mesmo de outros países da Europa, peregrinos vinham venerar as relíquias de Santo Eduardo. O Mosteiro de Shaftesbury passou a ser conhecido como Mosteiro de Santo Eduardo. A própria cidade de Shaftesbury foi chamada de "Edwardstowe" por muitos anos.

Quanto a São Dunstan, após o assassinato de Eduardo, ele se recusou a tomar parte do reinado de Ethelred, preferindo cuidar de seu rebanho espiritual. Ele morreu em 988, exatamente no ano em que, do outro lado da Europa, a Cristandade adentrava as terras de Rus, onde o Príncipe Vladimir de Kiev foi batizado. Enquanto um país cristão entrava em declínio, perdendo sua identidade face ao assassinato de seu piedoso Rei, um outro país abria-se voluntariamente para a Santa Igreja e seus Mistérios. Mas este mesmo país, que em 1918 assassinava seu piedoso Tsar, conheceu sorte semelhante à dos ingleses. A Rússia do século XX, a exemplo da Inglaterra do século X, também perdera sua identidade cristã.

Qual o significado disso tudo? Deus é que sabe. Mas o que sabemos ao certo é que tamanha brutalidade e impiedade nos assassinatos do Rei Eduardo II e do Tsar Nicolau II serviram para produzir dois santos-mártires a quem, agora, podemos pedir suas intercessões por nós junto ao Cristo. Todos os dias, mas sobretudo no dia 18 de março, rezemos com fervor para que Santo Eduardo, Rei e Mártir, nos ajude e oriente em nossas provações e tentações.

GLÓRIA A DEUS POR TUDO!

Santa Tatiana, Virgem e Mártir

Santa Tatiana, Virgem e Mártir, nasceu de uma ilustre família romana, sendo que seu pai foi eleito cônsul três vezes. Ele era cristão em segredo, e criou sua filha de maneira que ela devotasse sua vida a Deus e à Igreja. Quando alcançou a idade da maturidade, Tatiana decidiu permanecer virgem, tornando-se noiva do Cristo. Desprezando as riquezas mundanas, ela, ao invés disso, buscou as riquezas imperecíveis do Céu. Ela foi ordenada diaconisa em uma das igrejas romanas e serviu a Deus em jejum e oração, recebendo os doentes e ajudando os necessitados.

Quando Roma foi governada pelo imperador Alexandre Severus (de 222 a 235), então com apenas dezesseis anos de idade, todo poder estava concentrado nas mãos do regente Ulpiano, um feroz inimigo dos cristãos. Sangue cristão jorrou como água. Tatiana também foi presa, e levaram-na ao templo de Apolo, obrigando-a a oferecer sacrifícios a esse ídolo. A santa começou a rezar e, de repente, começou um terremoto. O ídolo foi feito em pedaços, e parte do templo caiu sobre os sacerdotes pagãos e sobre muitos outros pagãos. O demônio que habitava o ídolo fugiu aos berros daquele lugar. As pessoas que estavam ali presentes viram sua sombra voando pelos ares.

Então, eles rasgaram os olhos da virgem com ganchos, mas ela suportou a tudo com bravura, rezando por seus algozes para que o Senhor abrisse seus olhos espirituais. E o Senhor ouviu as orações de Sua serva. Os algozes viram quarto anjos ao redor da santa, que os golpeavam. Um voz dos céus foi ouvida falando com a santa virgem. Oito homens creram no Cristo e caíram de joelhos diante de Santa Tatiana, implorando aos anjos que perdoassem seus pecados contra ela. Por confessarem-se cristãos, eles foram torturados e executados, recebendo o Batismo por sangue.

No dia seguinte, Santa Tatiana foi levada perante um severo juiz. Vendo que ela estava completamente curada de suas feridas, eles a despiram e surraram, talhando seu corpo com navalhas. Foi então que uma maravilhosa fragrância tomou conta do local. Depois, jogaram-na ao chão e a violentaram por tanto tempo que os torturadores tiveram de ser substituídos diversas vezes. Eles ficaram exaustos, alegando que uma força invisível estava lhes batendo com varas de ferro. De fato, os anjos impedíam que os golpes a atingissem, voltando-os contra os torturadores, fazendo com que nove deles caíssem mortos. Eles então jogaram a santa na prisão, onde ela rezou por toda a noite, cantando louvores ao Senhor junto com os anjos.

Na manhã seguinte, levaram Santa Tatiana novamente ao tribunal. Os torturadores ficaram estupefatos ao constatarem que, após tantos tormentos, ela estava completamente sã e até mesmo mais radiante e bela do que antes. Eles então a obrigaram a oferecer sacrifícios à deusa Diana. A santa pareceu concordar, e levaram-na ao templo pagão. Santa Tatiana fez o sinal da Cruz e começou a rezar. De repente, ouviu-se um trovão ensurdecedor, e um raio atingiu o ídolo, as oferendas e os sacerdotes pagãos.

Novamente, a mártir foi duramente torturada. Ela foi pendurada e lixada com garras de ferro, e seus seios foram cortados. Naquela noite, anjos apareceram a ela na prisão, curando-a de suas feridas. No dia seguinte, levaram Santa Tatiana ao circo, soltando um leão faminto sobre ela. A besta não machucou a santa mas, ao invés disso, mansamente lambeu seus pés.

Quando estavam levando o leão de volta a sua jaula, ele matou um dos torturadores. Atiraram Tatiana no fogo, mas o fogo não feriu a mártir. Os pagãos, julgando ser ela uma feiticeira, cortaram seus cabelos a fim de tolher seus poderes mágicos, e trancaram-na no templo de Zeus.

No terceiro dia, sacerdotes pagãos adentraram o templo, a fim de oferecer sacrifícios a Zeus. Eles encontraram o ídolo no chão, quebrado em pedaços, e a Santa Mártir Tatiana louvando alegremente ao Senhor Jesus Cristo. O juiz então condenou a valente sofredora a ser decapitada com uma espada. Seu pai também foi executado com ela, porque ele a havia educado a amar o Cristo.

21 de novembro de 2007

Por que os homens gostam da Igreja Ortodoxa

Frederica Mathewes-Green é relativamente famosa nos EUA. Ex-evangélica, convertida à Ortodoxia juntamente com seu marido, o Pe. Gregory Mathewes-Green, Frederica tem seus artigos publicados em diversos jornais e revistas americanos, e chegou a ser crítica de cinema para a National Review Online.

Seus pontos de vista nem sempre apreentam aquele frescor da Ortodoxia da qual falava o Pe. Serafim Rose. Muitas vezes, vêm acompanhados de cacoetes e raciocínios tipicamente ocidentais - frutos talvez de contaminação sofrida pelo seu passado evangélico - e faltam aos seus podcasts um tom mais sério. Mas valem a pena ser lidos e ouvidos assim mesmo.

O artigo abaixo, por exemplo, contém muitas verdades. O Cristianismo Ocidental, de fato, apresenta um grau de efeminação do qual eu não havia tomado ciência até então.

* * *

POR QUE OS HOMENS GOSTAM DA IGREJA ORTODOXA

por Frederica Mathewes-Green

Nesses tempos em que as igrejas sofrem da Síndrome dos Machos Ausentes, os homens comparecem às igrejas ortodoxas em quantidades que, se não são numericamente impressionantes, são ao menos proporcionalmente intrigantes. Talvez esta seja a única igreja que atraia homens na mesma quantidade que mulheres. Conforme observou Leon Podles em seu livro The Church Impotent: The Feminization of Christianity (A Igreja Impotente: a Efeminação do Cristianismo): “Os ortodoxos são os únicos cristãos que compõe, ou precisam compor, música litúrgica em basso profundo”.

Em vez de tentar descobrir o porquê disso, enviei emails a cem homens ortodoxos, a maioria dos quais entrou na Igreja já adultos. O que eles acham que torna esta igreja em particular atrativa aos homens? Suas respostas, que relato abaixo, podem dar algumas dicas aos líderes das demais igrejas, que tentam segurar os rapazes nos bancos.

Desafios. A palavra mais citada pelos homens é “desafio”. A Ortodoxia é “ativa, e não passiva”. “É a única igreja onde você tem que se adaptar a ela, e não ela se adaptar a você”. “Quanto mais tempo nela, mais a gente percebe como ela é exigente”.

A “postura austera dos ritos ortodoxos” é parte do apelo. Os dias de jejum de carne e derivados de leite, “ficar de pé por horas a fio, fazer prostrações, ficar sem comer e beber [antes da comunhão]...Quando chegamos ao fim, a gente fica com a impressão de que cumpriu um desafio”. “A Ortodoxia apela ao desejo do homem de se auto-educar pela disciplina”.

“Na Ortodoxia, a questão da luta espiritual está por toda parte; santos, inclusive santas, são guerreiros. Luta requer coragem, fortaleza e heroísmo. Somos chamados a sermos ‘lutadores’ contra o pecado, a sermos ‘atletas’, conforme disse São Paulo. E é dado um prêmio ao vitorioso. O fato de que você tem que ‘lutar’ durante a liturgia ficando de pé, em si, é um desafio que os homens estão dispostos a assumir”.

Um recém-convertido resumiu assim: “A Ortodoxia é séria. É difícil. É exigente. Ela tem a ver com misericórdia, mas também com superar-se a si próprio. Sou desafiado de maneira profunda, a ‘não me sentir bem comigo mesmo’, a me tornar santo. É rigorosa, e nesse rigor é que encontro libertação. E, sabe, minha esposa também”.

Regras claras. Muitos mencionaram o fato de que apreciam a clareza de conteúdo desses desafios, ou seja, o que eles são supostos a fazer. “A maioria dos homens se sentem mais confortáveis quando sabem o que é esperado deles”. “A Ortodoxia tem limites claros”. “É mais fácil aos homens se expressarem em adoração quando há regras sobre como as coisas funcionam – especialmente quando essas regras são tão simples e funcionais que a gente simplesmente pode começar a praticá-las desde já”.

“As orações da Igreja – as orações da manhã, da noite, antes e depois das refeições etc. – dão aos homens uma maneira de adentrar à espiritualidade sem que se sentam sob holofotes ou sem que se preocupem se estão parecendo estúpidos por não saberem o que falar”.

Eles apreciam as posturas físicas bem definidas que formarão o caráter e o entendimento. “As pessoas já começam a aprender os rituais e o simbolismo, por exemplo, fazendo o sinal da Cruz. O sistema disciplinar torna a pessoa ciente de sua relação com a Trindade, com a Igreja e com todos que encontra”.

Objetivo. Os homens apreciam o fato de que tal desafio tem um objetivo: a união com Deus. Eis o que uma pessoa disse a respeito de sua igreja anterior: “Eu sentia que não estava indo a lugar algum na minha vida espiritual (se é que tinha algum lugar a chegar – eu já estava lá, não é mesmo?). Mas algo, vai saber o quê, estava faltando. Será que não tem NADA que eu deveria estar fazendo, Senhor?”

A Ortodoxia preserva e transmite a antiga sabedoria cristã sobre como progredir a essa união, chamada de theosis. Cada sacramento, cada exercício espiritual, é feito para levar a pessoa – corpo e alma – adiante nessa contínua consciência da presença interna de Cristo, assim como em todos os seres humanos. Assim como um tecido fica saturado de tinta por osmose, ficamos saturados de Deus por theosis.

Um catecúmeno disse que acha os ícones úteis para resistir a pensamentos indesejados. “Se você fechar os olhos às tentações visuais, há várias imagens na memória que podem lhe causar problemas. Mas se a gente se cercar de ícones, então você terá a chance de olhar para algo tentador ou para algo santo”.

Um padre disse: “Os homens precisam de desafio, de objetivo, uma aventura talvez – em termos primitivos, uma caçada. O Cristianismo Ocidental perdeu o aspecto ascético, isto é, o aspecto atlético da vida cristã. Este é o propósito do monasticismo, que surgiu no Egito em grande parte como um movimento masculino. As mulheres também entraram na vida monástica, e nossos antigos hinos falam de mulheres mártires mostrando ‘coragem masculina’”.

“A Ortodoxia enfatiza o FAZER… Os homens são orientados a AÇÃO”.

Ausência de sentimentalismos. No livro Church Impotent acima citado (e recomendado por vários dos homens que consultei), Leon Podles apresenta sua teoria sobre como a piedade, no Cristianismo Ocidental, se efeminou. Nos séculos XII e XIII surgiu uma tendência particularmente frágil, até mesmo erótica, de devoção, segundo a qual o fiel deveria retratar a si próprio (ao invés da Igreja) como Noiva de Cristo. O “Misticismo de Noivado” foi entusiasticamente adotado por mulheres devotas, e deixou uma marca profunda no Cristianismo Ocidental. É compreensível que tenha menos apelo aos homens. No Ocidente, por séculos, os homens que escolhem o ministério têm sido estereotipados como sujeitos efeminados. Um fiel, ortodoxo de longa data, afirmou que, de fato, parece que o Cristianismo Ocidental é uma “história de amor escrita por mulheres para mulheres”.

A Igreja Oriental escapou desse Misticismo de Noivado porque o grande cisma entre Oriente e Ocidente já tinha acontecido. Os homens que consultei expressaram um profundo desgosto por esse frágil e gentil Jesus ocidental. “O Cristianismo americano, nos últimos dois séculos, tem se efeminado. Ele apresenta Jesus como um amigo, um namorado, alguém que ‘anda comigo e fala comigo’. Trata-se de uma imagem encantadora às mulheres, que necessitam de vida social. Ou aquela que retrata Jesus chicoteado, morto na cruz. Nenhuma delas é o modelo de Cristo que os homens típicos se identificam”.

Durante a Liturgia, “os homens não querem rezar à moda ocidental, com as mãozinhas abraçadas uma a outra, lábios apertados e expressão facial de serenidade forçada”. “É um tal de homem dando a mão para homem e cantando musiquetas de acampamento”. “Estrofes sobre ‘estender a mão para receber Seu abraço’, ‘querer tocar Sua face’, enquanto estiver sendo ‘inundado pelo poder de Seu amor’ – são canções difíceis para um homem cantar a outro Homem”.

“Um amigo meu me disse que a primeira coisa que ele observa quando entra numa igreja são as cortinas. Isto lhe mostra quem está dando as ordens naquela igreja, e que tipo de cristão quer atrair”.

“Os homens querem ser desafiados a lutar por uma causa gloriosa e honorável, e se sujarem no caminho, ou se jogar no sofá com muita cerveja, pizza e futebol. Mas a maioria de nossas igrejas quer que nos comportemos como cavalheiros, mantendo nossas mãos e bocas bonitas e limpas”.

Um dos homens me disse que os cultos em sua igreja pentecostal eram “meras experiências emotivas. Sentimentos. Lágrimas. Repetidas dedicações de sua vida a Cristo, em grandes e emotivos encontros. Cantar músicas emotivas, levantando e balançando as mãos. Até mesmo a leitura das Escrituras é feita para produzir experiências emotivas. Eu sou um homem prático, eu quero fazer as coisas, e não sair por aí falando e se emocionando com as coisas! Como homem de negócios, sei que nada acontece sem esforço, energia e investimento. Por que na vida espiritual seria diferente?

Uma pessoa que visitou diversas igrejas católicas me disse: “Elas eram convencionais, fáceis e modernas, enquanto eu e minha esposa procurávamos algo tradicional, difícil e contracultural, algo antigo e marcial”. Um catecúmeno me disse que em sua igreja não-denominacional o “[c]ulto era raso, casual, remendado com o que houvesse de mais atual; às vezes a gente sentava, às vezes ficava de pé, sem muito ritmo ou razão. Fiquei pensando como a tradição seria de grande ajuda nisso tudo”.

“Fiquei furioso na última quarta-feira de cinzas, quando o padre proferiu uma homilia dizendo que o verdadeiro significado da Quaresma é aprender a amarmos a nós mesmos. Isto me forçou a perceber que eu estava de saco cheio desse Cristianismo americano burguês”.

Um padre convertido disse que os homens são atraídos pelos elementos perigosos da Ortodoxia, que envolvem “a abnegação de um guerreiro, o risco aterrorizante de amar seus inimigos, as fronteiras desconhecidas para as quais a humildade nos chama. Elimine qualquer uma dessas qualidades e nos tornaremos uma fabriqueta de igrejas: cores bonitas e clientela empanada”.

“Os homens podem se tornar altamente cínicos quando percebem que alguém está tentando manipular suas emoções, especialmente em nome da religião. Eles apreciam a objetividade da adoração ortodoxa. Ela não é destinada a despertar emoções religiosas mas a desempenhar um dever objetivo”.

Apesar disso, há algo na Ortodoxia que oferece “um profundo romance masculino. Você sabe do que estou falando? A maioria dos nossos romances é rosa, mas este romance é feito de espadas e heroísmo”.

De um diácono: “As igrejas evangélicas chamam os homens a serem passivos e bonzinhos. As igrejas ortodoxas chamam os homens a serem corajosos e atuantes”.

Jesus Cristo. O que traz os homens à Ortodoxia não é apenas o desafio ou o mistério. O que os traz é o Senhor Jesus Cristo. Ele é o centro de tudo o que a Igreja faz ou diz.

Diferentemente das outras igrejas, “a Ortodoxia apresenta um Jesus robusto” (e até mesmo uma Virgem Maria robusta que, a propósito, é honrada em um hino como sendo “nossa Capitã, Rainha da Guerra”). Muitos utilizaram o termo “marcial” ou se referiram à Ortodoxia como os “fuzileiros navais” do Cristianismo. (A guerra é contra o pecado autodestrutivo e as potestades celestiais invisíveis, e não contra as pessoas, claro).

Contrastou-se essa qualidade “robusta” com o “retrato efeminado de Jesus com o qual eu fui criado. Nunca tive um amigo que não se esforçasse muito para evitar encontrar gente que fosse assim”. Embora atraído por Jesus Cristo quando adolescente, “sentia-me envergonhado dessa atração, como se fosse algo que um homem de verdade não levaria a sério, algo semelhante a brincar de boneca”.

Um padre disse: “Cristo, na Ortodoxia, é um militante, um Jesus forte, que toma o inferno como cativo. O Jesus ortodoxo lança fogo sobre a terra. No Santo Batismo, rezamos para que os recém-alistados combatentes de Cristo, homens e mulheres, possam “manter-se sempre combatentes invencíveis”.

Após anos na Ortodoxia, um homem achou os cânticos de Natal de uma igreja protestante “chocantes, até mesmo pavorosos”. Comparados aos hinos natalinos da Ortodoxia, “o pequeno Senhor Jesus adormecido sobre o feno não tem quase nada a ver com o Logos eterno que entra de maneira inexorável, silenciosa e heróica no tecido da realidade criada”.

Continuidade. Diversos ortodoxos intelectualmente convertidos começaram lendo a história da Igreja e os escritos dos primeiros cristãos. Com o tempo, eles tiveram de encarar a questão sobre qual das duas igrejas mais antigas, a Católica Romana ou a Ortodoxa, era a mais convincente quanto a ser a Igreja original dos Apóstolos.

Um ortodoxo de longa data afirmou que os homens gostam de “estabilidade: os homens podem confiar na Igreja Ortodoxa por causa da consistente e contínua tradição da fé, que se mantém pelos séculos”. Um convertido afirmou: “A Igreja Ortodoxa oferece o que as outras são incapazes: continuidade com os primeiros seguidores de Cristo”. Isto é continuidade, e não arqueologia; a igreja primitiva ainda existe e você pode fazer parte dela.

“O que me atraiu foi a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam sobre a Igreja – e a união ortodoxa de fé, adoração e doutrina com a devida continuidade histórica”.

Um sinônimo de continuidade é “tradição”. Um catecúmeno me disse que tentou aprender tudo o que fosse necessário para interpretar as Escrituras, inclusive línguas antigas. “Eu queria cavar fundo, até as fundações, e confirmar tudo o que haviam me ensinado. Ao invés disso, quando mais em descia, tanto mais fraco tudo o que aprendi parecia ser. Percebi que, na verdade, eu apenas havia aprendido a manipular a Bíblia de maneira que eu pudesse sustentar qualquer coisa que eu pensasse. O único antídoto para o cinismo era a tradição. Se a Bíblia quisesse dizer alguma coisa, tinha que ser dentro de uma comunidade, com uma tradição que guiasse a leitura. Foi na Ortodoxia que encontrei o que procurava”.

Homens equilibrados. Um padre me disse: “Há apenas dois modelos masculinos: ser ‘homem’ e forte, rude, cru, macho e provavelmente abusivo; ou ser sensível, bonzinho, reprimido e fracote. Mas na Ortodoxia, o masculino está unido ao feminino; é realista, ‘nem macho nem fêmea’, mas Cristo que ‘une as coisas no céu e as coisas na terra’”.

Outro padre comentou que, se um dos membros do casal é mais insistente em converter a família à Ortodoxia do que o outro, “quando ambos fazem confissões, com o tempo ambos se aprofundam e nenhum deles se torna tão dominante na relação espiritual”.

Homens na liderança. Goste-se disso ou não, os homens simplesmente preferem ser liderados por homens. Na Ortodoxia, as fiéis fazem tudo o que os fiéis fazem, inclusive pregar, ensinar e liderar a irmandade da paróquia. Mas, por trás do iconostase, em torno do altar, é só para os homens. Uma pessoa resumiu o que os homens gostam na Ortodoxia assim: “Barbas!”

“É o ultimo lugar do mundo onde os homens não são condenados por serem homens”. Em vez de toda aquela negatividade, os homens estão constantemente cercados por modelos positivos nos santos, nos ícones e no ciclo diário de hinos e histórias sobre a vida dos santos. Eis outro elemento concreto que os homens apreciam – há outros seres humanos a serem apreciados, e não apenas nuvens de termos etéreos. “A glória de Deus é um homem plenamente vivo”, disse Santo Irineu. Um respondente acrescentou que “a melhor maneira de atrair um homem à Igreja Ortodoxa é mostrando-lhe um homem ortodoxo”.

Mas nada que seja secundário, não importa o quanto seja bom, pode suplantar o principal. “Uma vida desafiadora não é o objetivo. Cristo é o objetivo. Um espírito livre não é o objetivo. Cristo é o objetivo. Ele é o expoente máximo da história, em torno do qual todos os homens e mulheres eventualmente se ajuntarão, a quem todos se curvarão, e quem toda língua confessará”.

9 de novembro de 2007

Deus e a ciência

Clark Carlton, professor de Filosofia e autor de livros de apologética da Igreja Ortodoxa, explica neste podcast que a ciência empírica pode e deve ser metodologicamente materialista e agnóstica, pois lida sempre com experiências e medidas, mas que muitos cientistas modernos inadvertidamente estendem o escopo da ciência e procuram aplicar essa metodologia agnóstica também à metafísica. É justamente neste ponto que cessa a ciência genuína e se inicia algo maligno: o cientismo (ou cientificismo), categoria na qual se enquadram Carl Sagan, Richard Dawkins etc. Há uma clara distinção entre o escopo da ciência e o escopo da religião, que não devem jamais se confundir nem mesmo precisam se harmonizar.

Em suma: as ciências podem explicar somente como os furacões se formam, como as borboletas se reproduzem etc., mas é incapaz, em si e por si, de explicar a si própria. Por exemplo, as leis da Física são capazes de explicar os movimentos que ocorrem no inteiror do cosmos, mas são incapazes de explicar a origem do próprio cosmos, que deve ser necessariamente algo exterior a si próprio).

6 de novembro de 2007

Conselhos do Pe. Dimítrio Dudko

Reproduzo abaixo alguns trechos do livro Our Hope (SVS, Crestwood NY, 1977). Trata-se de uma coletânea de conversas e palestras informais proferidas pelo Pe. Dimítrio Dudko, da Igreja Ortodoxa Russa, durante os anos de 1973 e 1974, em sua paróquia moscovita. Elas foram transcritas pelos seus paroquianos e mais tarde contrabandeadas para o ocidente.

Esses textos são uma amostra-grátis da situação espiritual e paroquial na qual viviam os cidadãos soviéticos, especialmente os cidadãos de Moscou. Naquele tempo, os comunistas já detectavam uma grande afluência de pessoas às igrejas, mesmo cercadas pela intensa propaganda ateísta e anti-religiosa e pela perseguição ativa àqueles que declaravam sua fé. Até mesmo fazer o sinal da Cruz em público poderia dar cadeia. No entanto, algumas vozes corajosas do Patriarcado de Moscou não se deixaram abater pela situação e, pelo contrário, enxergaram nela uma oportunidade divina para pregar às pessoas e confirmá-las na fé, cumprindo assim sua missão sem medo do martírio.

Uma dessas vozes foi a do Pe. Dimítrio Dudko, que, aproveitando-se do fato de que a lei soviética pelo menos permitia a discussão religiosa no interior dos templos, mantinha em sua paróquia, logo após à Liturgia, uma inspiradora sessão de perguntas e respostas com os paroquianos e visitantes (muitos ateus e pessoas de outras religiões vinham ouvi-lo). Seu desejo de insuflar a combalida e titubeante fé dos moscovitas da época, aliado à coragem de desafiar as autoridades soviéticas, chamaram a atenção de muitos ortodoxos ocidentais, em especial a do Pe. Serafim Rose.

Embora reconhecendo que cometia alguns erros teóricos, o que mais despertava o interesse do Pe. Serafim é o "tom", o "frescor" perfeitamente patrístico e ortodoxo que a mensagem do Pe. Dimítrio transparecia.

Os trechos que traduzi, tenho certeza, refletem não só algumas dúvidas e angústias daqueles soviéticos, mas também as nossas.

* * *

páginas 110 e 111

PERGUNTA: É comum a gente chegar em casa cansado, moralmente deprimido. A gente fica com dor de cabeça. E dá para entender. Um fiel vive em condições espirituais e morais que são hostis aos seus sentidos e às suas idéias. A gente tem que ter muita paciência para agüentar essas situações, para conservar a resistência, a força de vontade, o bom-humor e uma boa disposição. A gente fica sonhando acordado quando, finalmente, cruza o batente da porta de casa. Então, em casa, eis que estamos rodeados pelos nossos objetos espirituais: os ícones, os retratos, os livros. Mas é terrível. A gente olha para tudo aquilo com indiferença. É como se uma parede invisível se erguesse entre nós e eles, impedindo que a gente se aproxime, que os toque, que reze. A gente quer rezar. A gente sabe que tem que rezar. Mas esse desejo é sugado pela indiferença, pelo desleixo, pela fadiga espiritual. E acontece de muitos dias e semanas se passarem desse jeito. O que precisa ser feito? O que precisa acontecer?

RESPOSTA: Precisa que você seja confirmado na fé. Você ainda não entendeu o principal: que a vida terrena nos foi dada a título de batalha ascética, que uma verdadeira batalha está em andamento. O diabo luta contra Deus, e o campo de batalha é o coração do homem, conforme disse Dostoiévski. Não é por acaso que o cristão é chamado de lutador. Suas condecorações militares estão no Reino dos Céus. Imagine como deveríamos ser conscientes e altruístas. Mas nós estamos alienados. Assim que fazemos algo de bom, já queremos ser recompensados por isso. A gente não pensa muito sobre o Reino dos Céus. Você deve saber que o Reino dos Céus é a realização de tudo. Sem o Reino dos Céus, nada faz sentido. Isso tem que ser entendido de uma vez por todas. Além disso, saiba que o Reino dos Céus é conquistado por meio do trabalho. Somente aqueles que se esforçam o conquistarão. Siga a Cristo, tome sua Cruz. Comece, nem que seja com um pequeno suspiro a Deus: "Senhor, me ajude!" E vigie, pois em pouco tempo você não reconhecerá a si mesmo. Lembre-se também que Deus ouve primeiro àqueles cuja vida é suficientemente pura. Se sua vida não é muito diferente dos infiéis, isto é, se você bebe e vive em festas, então livre-se disso antes de mais nada. (Citei isto só a título de exemplo). Você tem que se tornar luz para o mundo. Você não deve se apoiar nos outros: são os outros que devem se apoiar em você. Lembre-se: se estiver com Deus, então conseguirá fazer tudo aquilo que milhares, talvez milhões, de pessoas juntas que não têm a Deus não conseguiriam. "Para o fiel, não existe o impossível" -- isso não foi dito à toa.

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páginas 240 e 241

PERGUNTA: Parece que, do seu ponto de vista, o fiel faz o bem porque espera uma recompensa depois da morte. Mas o senhor não acha que isso é uma coisa repulsiva, mercenária e, no fim das contas, anti-cristã? Será que isso não passa de barganha -- uma espécie de egoísmo disfarçado? Cristo não mandou que a gente faça o bem de maneira que a mão direita não saiba o que a mão esquerda faz, isto é, de maneira desinteressada? O verdadeiro bem é sua própria recompensa. Não precisa da vara e da cenoura. E se o senhor entende o bem dessa maneira vulgar e comum, não estaria então introduzindo uma certa degradação na moralidade cristã? Isso não leva à hipocrisia?

RESPOSTA: [...] Fazer as coisas de maneira que sua mão esquerda não saiba o que sua mão direita está fazendo. Sim, de fato, Cristo disse isso(*). Mas Ele também disse: Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus (**). Vamos nos acalmar um pouco e pensar. Qual a diferença entre obter sua recompensa aqui e obtê-la lá no Reino dos Céus? A má-compreensão desse assunto sempre causa confusão. É verdade que obter sua recompensa aqui implica em inflar o interesse próprio, a ganância, o egoísmo e a hipocrisia. Quando a gente a obtém , tais sentimentos ruins não se desenvolvem porque a gente não pode ver nem sentir a recompensa. Será que a idéia de que no Reino dos Céus a ganância não será recompensada faria alguém se tornar interesseiro? Será que alguém vai se tornar egoísta se acreditar que o egoísmo não vai ser recompensado no Reino dos Céus? Desinteresse, altruísmo, humildade -- eis aí o que será recompensado lá. A recompensa no Reino dos Céus é totalmente diferente da recompensa aqui. A recompensa significa que você tem que desenvolver suas boas qualidades aqui. Fazer alguma coisa na expectativa de que será recompensado no Reino dos Céus significa fazer essa coisa com desinteresse, com altruísmo, com humildade -- ou seja, fazer sem ligar para a recompensa aqui. De acordo com o entendimento cristão, se você se considera bom, então isso significa que você não é bom.

(*) Mateus 6:3: Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita.

(**) Mateus 5:12.

27 de outubro de 2007

Ortodoxia no Ocidente

"Não tenhais receio de sua Ortodoxia, não tenhais receio porque, enquanto ortodoxos no Ocidente, vós frequentemente estareis isolados e em minoria. Não façais acordos mas também não atacais outros cristãos; não sejais defensivos nem agressivos; sejais simplesmente vós mesmos".
Ancião Anfilóquio de Patmos

20 de agosto de 2007

O caminho da transformação espiritual

Pe. Damasceno Christiansen

Palestra proferida em 9 de junho de 2005 na Parish Life Conference da Diocese Ortodoxa Antioquina de Wichita e da Centro-América, Sioux City, Iowa.

1. Transformação, Salvação, Deificação

O tema desta Conferência – “Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente” – é um pouco amedrontador por ser um tema muito vasto e abrangente. Esse tema toca exatamente no propósito central de nossas vidas enquanto cristãos ortodoxos. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: Eu vos escolhi do mundo (João 15:19). Fomos escolhidos deste mundo para que nos tornemos cidadãos de um outro mundo: o Reino de Deus. Esse Reino começa agora, nesta vida, e continua depois de deixarmos este mundo, consumando-se na Segunda Vinda de nosso Salvador. Para que habitemos naquele Reino, para sermos seus cidadãos, temos de ser transformados.

Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente (Rom. 12:2). Estas palavras da Epístola do Santo Apóstolo Paulo aos Romanos ajuda a introduzir-nos em um ensinamento divinamente inspirado: a transformação espiritual. Nesta palestra, versarei primeiramente sobre o significado teológico de transformação na Igreja Ortodoxa. Depois, apresentarei comentários dos Santos Padres a respeito do ensinamento de São Paulo sobre transformação. A seguir, fornecerei algumas sugestões práticas sobre o caminho para a transformação, com ênfase na vigilância e na oração. E, para encerrar, falarei sobre o amor autêntico, que é a marca genuína da transformação espiritual.

Conforme eu disse, esse tema da transformação está relacionado com o propósito de nossas vidas. Esse propósito é a eterna união com Deus – deificação, theosis. Mas deificação não é uma condição estática: é um crescimento sem-fim, um processo, uma ascese a Deus. Não atingimos um fim nesta vida, nem mesmo na vida futura. São Simeão, o Novo Teólogo, que atingiu o que poderíamos chamar de o maior grau possível de união com Deus, disse: "No século dos séculos, o progresso será interminável, pois o encerramento deste crescimento em direção ao fim sem fim não seria nada mais do que uma compreensão do incompreensível”. [1]

Nossa união com Deus é uma transformação contínua na semelhança de Deus, que é a semelhança de Cristo.

Eu, assim como muitos de vocês, entrei para a Igreja Ortodoxa vindo de uma formação protestante. De vez em quando algum protestante me pergunta: “Você será salvo?” É uma pergunta difícil de responder para que um protestante entenda porque a concepção protestante de salvação é muito diferente da ortodoxa. Recentemente li The Life, de Clark Carlton. Ele também é ex-protestante e compreende bem a mentalidade protestante. Carlton fez um comentário bastante criterioso a respeito da salvação no Protestantismo, afirmando que a salvação significa simplesmente mudar a postura de Deus para conosco, para que então possamos entrar no Paraíso. De acordo com esse entendimento, levam-se somente alguns minutos para ser “salvo”. [2]

Na Ortodoxia, por outro lado, a salvação é vista em termos máximos, e não mínimos. Em seu livro Orthodox Spiritual Life According to St. Silouan the Athonite, eis o que Harry Boosalis do St. Tikhon’s Seminary disse: “Para a Igreja Ortodoxa, a salvação é mais do que um perdão de pecados e transgressões. É mais do que ser justificado ou absolvido por ofensas cometidas contra Deus. De acordo com o ensinamento ortodoxo, a salvação certamente envolve perdão e justificação, mas não é limitada a isso. Para os Santos Padres da Igreja, a salvação é a aquisição da Graça do Espírito Santo. Ser salvo é ser santificado e participar na vida de Deus – é se tornar participante da Natureza Divina (2 Pedro 1:4).” [3]

Na Ortodoxia, salvação não significa apenas mudar a postura de Deus, mas mudarmos nós mesmos e sermos mudados por Deus. A salvação, em última instância, significa deificação; e deificação, conforme vimos, implica em transformação. É nos unirmos a Deus ainda mais plenamente por meio de Sua Graça, Sua Energia Incriada, na qual Ele está totalmente presente. À medida que aumentamos nossa participação na vida de Deus por meio de Sua Graça, tornamo-nos cada vez mais deificados, cada vez mais semelhantes a Cristo. Então, no momento em que partirmos desta vida, poderemos habitar para sempre com Cristo em Seu Reino porque nós “pareceremos com Ele” espiritualmente, porque brilharemos com a Graça de Deus.

Há muitos anos, em 1982, fiz uma viagem à Terra Santa. Eu ainda era catecúmeno e estava planejando ser batizado na Califórnia mais ou menos um mês depois, quando eu voltasse da viagem. Lembro-me de um dia quando eu estava em Jerusalém, na Igreja do Santo Sepulcro, de pé no Gólgota, no local onde Cristo foi crucificado. Eu estava fazendo o sinal da cruz. Uma senhora que estava ao meu lado perguntou de onde eu era. Acho que ela era grega. Quando lhe disse que eu era americano, ela respondeu, “Você é da América e é ortodoxo?” Eu disse que não era, mas em breve seria, se Deus quisesse. Ela me olhou com enorme curiosidade e disse, “Quando você for ortodoxo, você pode se tornar santo”.

Para mim, tal afirmação referia-se justamente à vida que eu estava prestes a embarcar. Eu tinha ouvido essas palavras bem ali, no Calvário, onde Cristo morreu por minha salvação para que eu pudesse me tornar santo, para que eu pudesse ter a Graça de Deus em mim no Batismo, para que eu pudesse continuar a adquirir a Graça do Espírito Santo, para que eu pudesse ser deificado.

Com sua Encarnação, morte e Ressurreição, Cristo redimiu a natureza humana, abrindo caminho para a deificação e mesmo para a redenção do corpo, que ocorrerá na Ressurreição Geral. Esta é a dimensão objetiva de nossa salvação. Mas enquanto nossa natureza já está salva, temos de pessoalmente nos apropriar dessa salvação. Esta é a dimensão subjetiva de nossa salvação. Cristo já veio a nós; agora somos nós que temos de ir até Ele e nos unirmos a Ele.

Quando lemos ensinamentos ortodoxos sobre transformação, santificação e deificação – e ainda mais quando lemos relatos de pessoas que atingiram um alto grau de santidade – tudo isso pode parecer distante de nós. De certa maneira, isso tem de parecer distante; isto é, deveríamos sentir que temos um longo caminho pela frente, porque temos mesmo. Porém, não devemos sentir que santidade e deificação estão, em última instância, fora de nosso alcance. Cada um de nós é chamado para isso. Quando me lembro do que aquela senhora me disse no Gólgota, há vinte e três anos, penso no que eu não fiz para me tornar santo, para ser transformado à semelhança de Cristo, para ser “salvo” no sentido ortodoxo máximo da palavra. Tenho certeza de que cada um de nós também consegue pensar no que não fizemos, no que poderíamos ter feito em todo o tempo que somos cristãos ortodoxos. Mas não devemos nos desesperar. Em vez disso, tal situação deveria nos levar ao arrependimento, ao desejo de dedicar nossas vidas a Cristo, ao pensamento do que podemos fazer para sermos salvos, para sermos deificados, a partir de agora.

2. Sacrifícios vivos

Com isso em mente, vamos analisar com mais detalhes a exortação de São Paulo: Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente. Esse versículo faz parte de um capítulo inteiro da Escritura que versa sobre transformação espiritual. Ao examinar esse capítulo, vou fiar-me, antes de mais nada, num comentário feito por São João Crisóstomo, a quem podemos considerar como o maior comentarista ortodoxo das Escrituras. Os comentários de São João sobre as Epístolas de São Paulo são especialmente interessantes porque São João foi instruído pelo próprio São Paulo a respeito de como interpretar suas próprias epístolas. De acordo com a Vida de São João, em três ocasiões Proclus viu o Apóstolo Paulo sobre os ombros de São João, falando ao pé do ouvido enquanto ele escrevia seus comentários sobre as Epístolas.

O ensinamento de São Paulo sobre transformação espiritual – Romanos, capítulo 12 – começa nos dizendo quais as pré-condições para tal transformação. São Paulo escreve aos cristãos de Roma: Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

Ao comentar esta passagem, São João Crisóstomo se pergunta: “Como pode o corpo tornar-se um sacrifício? Que o olho não olhe para nada maléfico, e ele se tornará um sacrifício. Que a língua não fale nada imundo, e ela se tornará um sacrifício. Que sua mão não faça nada corrupto, e ela se tornará uma oferta em sacrifício. Mas isso não basta. Precisamos ter boas obras também. Que a mão faça caridades, que a boca abençoe aqueles que a ela se opõem, que os ouvidos encontrem consolação nos ensinamentos divinos. Pois o sacrifício não tolera coisas impuras: o sacrifício deve ser o primeiro fruto das outras ações. Entreguemos, pois, nossas mãos, nossos pés, nossas bocas e todos os nossos membros como primeiro fruto a Deus”. [4]

São João Crisóstomo afirma que, na Velha Aliança, os animais oferecidos em sacrifício morriam após o sacrifício. “Com nosso sacrifício”, diz ele, “é diferente. Esse sacrifício faz com que a coisa sacrificada viva. Quando formos capazes de mortificar nossos membros, então poderemos viver”. [5] São João refere-se a Colossenses 3:5, onde São Paulo afirma: Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria.

Portanto, de acordo com o ensinamento de São Paulo, devemos nos apresentar como sacrifícios vivos a Deus. Agindo assim, nosso “velho homem”, nosso “homem pecador” morre, e nosso “novo homem” vive (cf. Rom. 6:6; Ef. 4:22; Col. 3:9). Mortifiquemos nossas paixões pecaminosas para que Cristo viva em nós. Morramos para nós para que possamos renascer em Cristo.

Nossa morte e renascimento são marcados primeiramente pelo Batismo, quando, de acordo com São Paulo, morremos com Cristo e ressuscitamos com Ele (cf. Rom. 6:3-4). No Batismo, recebemos a Graça do Espírito Santo em nós, unida à nossa alma, como Adão e Eva a tinham em si antes da Queda. Tal é o início de nossa salvação e deificação em Cristo; mas isso é somente o começo. Temos de continuamente mortificar o restante de nosso “velho homem”, de maneira que continuemente a nos transformar à semelhança de Cristo. Eis porque São Paulo diz: Eu morro a cada dia (I Cor. 15:31).

Cristo ofereceu-Se na Cruz em sacrifício por nós. Para que conheçamos verdadeiramente a Cristo, temos de adentrar em Seu auto-esvaziamento e oferecer um sacrifício em troca. Um sacrifício interno, que é ato e sinal de nosso amor a Deus e ao próximo. O sacrifício de nossos corações e mentes a Deus. O sacrifício de nossos egos, de nosso orgulho, de nossos laços mundanos e de nossas paixões. O sacrifício de nosso tempo e energia ao próximo, a quem nos dedicamos em nome de Cristo.

Conforme permitamos que Cristo mortifique nosso ego, nosso ser carnal é consumido no altar do amor, e o sacrifício ascende como incenso a Deus. E à medida que isso acontece, somos verdadeiramente re-criados por Cristo em novos seres: seres espirituais, com uma maneira totalmente nova de enxergar a realidade, diferente dos amantes deste mundo.

O sacrifício é doloroso. Nosso “velho homem”, nosso “homem pecador” não quer morrer no altar do sacrifício. A inércia de nossa natureza caída é muito forte. Os Santos Padres ensinam que a Queda do homem ocorreu por dois motivos. O primeiro é a auto-estima ou amor próprio (no dia em que dele comerdes [do fruto da árvore] sereis como deuses – Gen. 3:5), e o segundo é o amor aos prazeres sensuais (a árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos – Gen. 3:6). Todos os pecados do mundo, dizem os Padres, originam-se destas duas causas. Não herdamos a culpa do pecado de Adão, mas herdamos a tendência ou inclinação para o pecado. Tal inclinação pertence a nosso “velho homem”, o homem egoísta, o homem carnal, a quem nos entregamos ao longo dos anos. Quando tentarmos mortificá-lo, ele lutará pelo seu direito de existir. É por isso que o sacrifício é tão doloroso.

A dor deste sacrifício é poderosamente expressa na autobiografia de Madre Thaisia, uma das grandes madres russas do século XIX. Certa vez ela teve um sonho no qual um dos grandes abades da Rússia, Damasceno, apareceu para ela. Abade Damasceno havia morrido há um ano e Madre Thaisia estava passando por grandes tribulações em sua vida. No sonho, o Abade Damasceno perguntou-lhe: “Você sabe o que significa o fato do véu do Templo de Jerusalém ter sido rasgado em dois, quando nosso Salvador morreu na Cruz?” Madre Thaisia respondeu que isso significa a divisão entre o Velho e o Novo Testamento. “Muito bem”, disse o Abade, “isso está de acordo com os livros. Mas pense: esse fato não se refere também à nossa vida cristã?”

Madre Thaisia começou a contemplar, e então respondeu: “Acho que significa a maneira como a alma humana se despedaça na medida em que anseia por Deus e em agradar a Deus. Ela rasga-se em duas partes, tornando-se espiritual, mas ainda pertencente ao homem carnal que habita nela; ela é rasgada, cortada e desligada da vontade externa do homem, que é doce mas inclinada ao pecado. Seu pobre coração é rasgado, cortado em pedaços. Alguns desses pedaços, impróprios mas ainda ligados a ela, são jogados ao mundo, mas os outros são transmitidos, como incenso puro, a seu Cristo. Ó, como às vezes é difícil para o coração; como ele é atormentado e sofre, literalmente, por ser cortado ao meio!”

Em seu sonho, Madre Thaisia disse essas palavras com tamanho fervor que se cobriu de lágrimas. Abade Damasceno disse a ela: “Sim, o Senhor não nos privou de Sua Graça. Será então que devemos crescer acovardados e desanimados pelos sofrimentos? Coragem!, e que seu coração se fortaleça no Senhor em esperança”. Com essas palavras, o Abade levantou-se e abençoou Madre Thaisia. Ela acordou em lágrimas, não lágrimas de sofrimento, mas de inexprimível alegria. [6]

As palavras de Madre Thaisia nos fornecem uma imagem exata do sacrifício que é exigido daqueles que conhecem a Cristo e se unem a Deus. É um sacrifício dos mais dolorosos ao ego – pois o ego morre lentamente nesse sacrifício. Mas é um sacrifício que traz grande alegria, coragem e liberdade de espírito, que se une em amor com seu Criador. Temos de “dar o sangue”, conforme afirmou o Santo Padre do Deserto Longinus do Egito, para “recebermos Espírito”.

Continuando a falar sobre o sacrifício que devemos oferecer a Deus, São João Crisóstomo novamente o compara com o sacrifício dos hebreus no Velho Testamento. Assim como os hebreus examinavam cuidadosamente os animais que ofereciam em sacrifício para terem certeza de que não teriam nenhuma mancha ou deformidade e de que estavam íntegros e saudáveis, devemos examinar a nós mesmos para que estejamos puros em todos os aspectos. Então, afirma São João, “nós poderemos também dizer com Paulo, Eu já estou pronto para ser oferecido, e o tempo da minha partida está próximo (II Tim. 4:6).... Mas isso acontecerá somente se mortificarmos o velho homem, se mortificarmos nossos membros que estão sobre a terra, se crucificarmos o mundo que está em nós.... Se, quando Elias ofereceu o sacrifício visível uma chama veio do alto e consumiu toda a água, madeira e pedras, muito mais será feito por você. E se há algo em vocês que está folgado e mundano, mas mesmo assim oferecerem o sacrifício com boas intenções, o fogo do Espírito virá do alto e consumirá essa mundanidade, aperfeiçoando todo o sacrifício”. [7]

Aqui vemos a base, o fundamento, da transformação espiritual. Temos de oferecer toda nossa vida a Cristo em sacrifício, para que Ele consuma os dejetos e recrie-nos à Sua semelhança.

3. Conformidade não, transformação sim

Agora estamos aptos a analisar o tema em seu contexto completo. Primeiro vem o sacrifício, depois a transformação. Eis por que, em Romanos 12, o primeiro precede o segundo: Apresentei os vossos corpos em sacrifício vivo, santo, aceitável a Deus...e não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação de vossa mente.

Caso mortifiquemos nosso “velho homem” no altar do sacrifício, então não estaremos nos conformando com este mundo.

O que quer dizer “este mundo”? Há diversos significados de “mundo” nas Escrituras Sagradas. Pode significar o universo material ou o mundo habitado. Em sua conotação negativa, pode significar aqueles que se opõem a Deus, e, de acordo com alguns Santos Padres, “mundo” pode referir-se às paixões ou apegos às coisas sensuais. Santo Isaque, o Sírio, afirma: “’Mundo’ é um nome genérico para todas as paixões. As paixões são estas: amor às riquezas, desejo de posses, prazeres corporais (como a paixão sexual), amor à honra (que dá origem à inveja), cobiça por poder, arrogância e orgulho de status, desejo de adornar-se com roupas luxuosas e ornamentos vãos, comichão por glória humana (que é fonte de raiva e ressentimento), e temor físico. Quando tais paixões deixam de estar ativas, o mundo está morto... Alguém disse que os santos, enquanto estavam vivos, estavam mortos; pois embora vivos na carne, eles não viviam para a carne. Verifique para quais dessas paixões você vive. Então você descobrirá o quanto está vivo para o mundo e o quanto está morto”. [8]

Com este ensinamento patrístico em mente, a frase “Não sede conformados com este mundo” pode ser entendida como “Não sede conformados com as paixões”. Os Padres afirmam que todos nós temos nossas paixões favoritas: nossa primeira paixão favorita, nossa segunda paixão favorita etc. Portanto, examinemos a nós mesmos a fim de descobrirmos quais são nossas paixões favoritas, para que possamos confessá-las no Sacramento da Confissão e arrancá-las com a ajuda de Deus.

Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados… São João Crisóstomo, ao comentar este versículo, aponta as diferenças entre as raízes das palavras “conformar” e “transformar”. Na tradução inglesa [bem como na portuguesa – N. do T.] a raiz das palavras é a mesma, mas em grego são diferentes. A palavra grega para “conformar” vem da raiz schema, que significa pose externa, imagem exterior, investir-se de um hábito externo. Denota algo duradouro e fixo, mas algo insubstancial, que perece. Outra tradução para esta palavra é “aparência”, como numa passagem de São Paulo, quando ele usa a mesma palavra: A aparência deste mundo passa (I Cor. 7:31). Essa tradução tem a conotação que a palavra “moda” tem: algo que sempre muda, como a moda das roupas etc.

De acordo com São João Crisóstomo, quando São Paulo afirma “Não tenham a aparência deste mundo” ele escolhe a palavra “aparência” para indicar a superficialidade deste mundo de paixões. “Não tenham a aparência deste mundo de paixões”, poderíamos dizer. A palavra que São Paulo usa para “mundo” é aeon, que também pode ser traduzida como “era” ou “o mundo de acordo com o tempo” – novamente para indicar a superficialidade das delícias mundanas. São João Crisóstomo explica: “Se você falar de riquezas, ou de glória, ou de beleza pessoal, ou de luxos, ou do que quer que seja das supostamente grandes coisas do mundo, é uma moda apenas, não uma realidade, é um espetáculo e uma máscara, e não algo substancialmente permanente”. [9]

Pense nas imagens que a mídia nos apresenta como sendo dignas de admiração e emulação: o rico, o famoso, o belo. Não é precisamente a isso que São João se refere: “é uma moda apenas, não uma realidade, é um espetáculo e uma máscara”? Tudo isso perece.

Mas é diferente com a transformação espiritual. São Paulo afirma, “Sede transformados pela renovação de vossa mente”. A palavra grega original para “transformados” é metamorphosis. Ela denota algo duradouro e permanente: não como a mudança da imagem ou aparência de alguém, à exemplo da moda, mas a mudança da forma substancial e orgânica. São Paulo não está dizendo para mudarmos nossa moda ou aparência, mas para mudarmos quem nós somos. De acordo com São João Crisóstomo, São Paulo escolheu suas palavras para mostrar que “os caminhos do mundo são aparentes, mas os caminhos da virtude não são aparentes, mas um tipo de forma real com uma beleza natural toda sua, sem as fraudes e modas das coisas externas, que cedo ou tarde parecerão aquilo que são, isto é, nada. Se, então, descartarmos a moda, rapidamente chegaremos à forma”. [10]

Em outras palavras, não viva em função daquilo que perece, mas daquilo que dura para sempre. Nosso Senhor Jesus Cristo disse: Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou (João 6:27).

No mundo – o mundo das paixões – muita ênfase se dá à “imagem”: você tem de ter a “imagem” certa para ser bem sucedido neste mundo. Nosso objetivo enquanto cristãos é totalmente diferente. Temos de ser totalmente transformados para sermos bons cidadãos de outro mundo.

4. A renovação da mente

Sede transformados pela renovação de vossa mente. O que São Paulo quer dizer com renovação da mente? De acordo com São João Crisóstomo, ele quer dizer arrependimento. Somos chamados para a transformação mas, conforme nos avaliamos, constataremos que pecamos todos os dias. Isso pode nos levar ao desespero, a pensarmos “Não me transformei, e nunca conseguirei”. Eis por que São Paulo acrescentou as palavras “pela renovação de vossa mente”: para que não nos desesperemos. São João Crisóstomo escreveu: “Dado que seus ouvintes são homens, e sabendo que pecariam todos os dias, São Paulo consolou-os dizendo ‘renovem-se’ dia após dia. É o que fazemos com nossas casas: estamos sempre as consertando à medida que envelhecem. Vocês devem fazer o mesmo. Pecaram hoje? Fizeram sua alma ficar mais velha? Não desesperem, mas renovem suas almas por meio do arrependimento, das lágrimas, da Confissão, e das boas obras. E nunca parem de fazer isso”. [11]

Do ponto de vista teológico, é importante ressaltar que a “renovação da mente” da qual fala São Paulo é, na verdade, a “renovação do nous”. No original grego, a palavra mente é nous. Na teologia ortodoxa, nous é a faculdade ou poder mais elevado da alma humana. É a faculdade que conhece a Deus diretamente; é o centro de nossa personalidade, que tem experiência com a Pessoa de Deus em comunhão de amor. São Gregório Palamás e outros Santos Padres afirmam que é o nous que melhor define qual a “imagem de Deus” em nós. [12]

Na Queda do homem, o nous obscureceu-se e tornou-se doente. A Energia, Luz ou Graça Incriada de Deus tornou-se algo estranho a nós. Conforme mencionei anteriormente, por meio da obra redentora de Cristo – pelo Santo Batismo – o homem recebe a Graça de Deus novamente. Mas cada vez que um cristão batizado comete um pecado, ele mancha seu vestuário batismal, digamos assim. Ele atenua a Luz da Graça em si; ele novamente obscurece ou adoece seu nous. Ao invés de voltar-se e unir-se a Deus, seu nous volta-se para as paixões, para o amor próprio e para o amor aos prazeres sensuais. Ao voltar-se para as paixões, o nous repele a Graça de Deus, impedindo que o cristão continue no caminho da deificação em Cristo.

A doença do nous leva à morte spiritual. O obscurecimento do nous leva à doença espiritual, na qual não conseguimos enxergar as coisas com clareza e sobriedade. Não conseguimos enxergar as coisas como Deus as enxerga; ao invés disso, as enxergamos por meio do filtro de nossas paixões. Assim, passamos a tatear como cegos na vida, machucando a nós mesmos e ao próximo, consciente ou inconscientemente. Acabamos nos desgarrando de nosso propósito na vida, que é a união com Deus. Embora achemos que temos muitas coisas importantes a fazer, a verdade é que vagamos sem objetivo na vida; e todas as nossas atribulações servem apenas para nos distrair de nosso estado espiritual doente, do fato que não estamos cumprindo nosso verdadeiro propósito na vida. Nosso nous está doente porque nos separamos de Deus, porque corremos atrás de nossas paixões e não de Deus.

5. Vigilância e oração

A cura de nosso nous doente começa exatamente com o que temos discutido até agora: com o sacrifício de nosso “velho homem”, com a extirpação das paixões, com o arrependimento. Ao versarem sobre a cura do nous, os Santos Padres depositaram grande ênfase na prática da vigilância. A todo o momento devemos vigiar nossos pensamentos de maneira a rejeitar – extirpar – os pensamentos pecaminosos e cheios de paixão. Quando um pensamento pecaminoso surge e nós o extirpamos imediatamente, ele não chega a ser um pecado. Mas quando nós entretemos um pensamento pecaminoso, quando o cultivamos e o desenvolvemos porque nos deixamos atrair por ele, então ele se torna um pecado, separando-nos de Deus. Quando entretemos pensamentos cheios de paixão, nosso nous se obscurece, desprovendo-se da Luz da Graça Divina. Esses pensamentos levam a sentimentos cheios de paixão, e a paixão se torna um hábito. Eis por que devemos extirpar a doença onde ela surge, isto é, em nossos pensamentos.

Para extirparmos os pensamentos pecaminosos, primeiramente temos de reconhecer que tais pensamentos são nossos inimigos. Temos de perceber que eles podem nos separar de Deus. Por exemplo, quando temos um pensamento cheio de ódio e julgamento contra nosso próximo, temos de reconhecer que entreter esse pensamento nos colocará em inimizade com Deus. É então que devemos nos recusar a entretê-lo. Simplesmente o deixamos ir embora. E se ele voltar uma hora depois, ou mesmo (como frequentemente acontece) alguns minutos depois, novamente devemos extirpá-lo.

Na Igreja Ortodoxa temos um jeito especial de extirpar pensamentos: a Oração de Jesus. O efeito dessa Oração é duplo. Em primeiro lugar, a Oração nos ajuda a extirpar e afastar os pensamentos apaixonantes. Em segundo lugar, a Oração nos faz voltar continuamente a Cristo nosso Salvador em todos os momentos.

Quando praticamos a vigilância, com a ajuda da Oração de Jesus, nossa alma se abre para receber a Graça do Espírito Santo, que nos transforma e nos deifica. Não mais repelimos a Graça, mas a atraímos. Chamamos Cristo para que Ele tenha piedade de nossas almas obscurecidas, a habitar em nós de maneira mais plena, a preencher-nos com Sua vida interminável, com a Luz do Espírito Santo que Ele enviou do Pai (cf. João 15:26). É assim que nosso nous é iluminado pela Luz da Graça Incriada de Deus. “Somente o Espírito Santo pode purificar o nous”, escreveu São Diádoco de Photiki na Philokalia. “... De todas as maneiras, portanto, e em especial por meio da paz da alma, devemos nos tornar uma habitação para o Espírito Santo. Então sempre teremos a chama do conhecimento espiritual ardendo em nós”. [13]

Além de rezarmos a Oração de Jesus, devemos cultivar o hábito de clamar a Deus com nossas próprias palavras. Isso deve ser feito ao longo de todo o dia. Os Padres aconselham que evitemos os discursos longos e eloqüentes; devemos, isso sim, simplesmente rezar, de coração. Podemos clamá-Lo verbalmente ou mentalmente, dependendo da situação. Claro, devemos clamá-Lo quando a tentação nos assedia, mas de maneira alguma devemos esperar que tais momentos se apresentem. O Arquimandrita Sofrônio, discípulo de São Silouan do Monte Athos, tinha a prática de rezar a Deus toda vez que ele fosse ver ou conversar com alguém. Ele rezava para que Deus abençoasse o encontro que estava para acontecer, para que a Graça de Deus estivesse sobre esse encontro. Se simplesmente seguíssemos essa prática, pense como nossos encontros cotidianos seriam transformados, e como nossas vidas seriam diferentes.

Além de orarmos ao longo do dia conforme executamos nossas tarefas, é importante separarmos certos períodos do dia para a oração, isto é, a uma regra de orações. O conteúdo dessas orações varia de pessoa para pessoa. É bom obtermos a bênção de nosso padre ou pai espiritual a esse respeito. As orações podem consistir de orações do Livro de Orações Ortodoxo ou da Oração de Jesus, ou uma combinação delas, além das orações com nossas próprias palavras e a leitura dos versículos do Evangelho e da Epístola do dia. São Teófano, o Recluso, alerta que enquanto rezamos as orações do Livro de Orações ou a Oração de Jesus, haverá momentos em que desejaremos apenas ficar de pé, diante de Deus, com um profundo sentimento de nostalgia. Ele recomenda, nesses casos, que paremos de ler ou recitar as orações, e que voltemos a elas um pouco mais tarde. [14] “É melhor fazermos um pequeno número de orações adequadamente do que nos apressarmos em fazer um grande número de orações”, disse ele. “Após recitar cada oração, faça quantas prostrações quiser, acompanhadas por uma oração para qualquer necessidade que sinta,ou por uma oração curta comum... Você pode limitar toda a regra de orações a prostrações com orações curtas e orações com suas próprias palavras. Fique de pé e prostre-se, dizendo ‘Senhor, tem piedade’, ou alguma outra oração que expressa sua necessidade ou que louve e agradeça a Deus. Você deve ou estabelecer um número de orações ou uma duração para as orações, de maneira que você não fique com preguiça... Você deve rezar com suas palavras especialmente ao fim das orações, pedindo perdão pela distração desproposital da mente, e colocando-se nas mãos de Deus o dia inteiro”. [15]

Separar um tempo para as orações diárias é imprescindível para a vida espiritual. A família deve rezar unida diante de seus ícones. Mesmo que pouco tempo seja reservado para tal, a diferença na vida da família será enorme. Mas para que essa diferença realmente aconteça, as orações devem ser rezadas regularmente, nunca esporadicamente.

O segredo para a regra de orações é constância. Se pularmos nossa regra de orações, nossas leituras das Escrituras e nossas leituras espirituais do dia, o mundo começará a nos invadir: o mundo das paixões, o mundo das distrações. Se pularmos nossa regra de orações por dois dias, seremos invadidos ainda mais, e assim por diante. À medida que o tempo passa, teremos cada vez menos a mente de Cristo e cada vez mais a mente do mundo. Estaremos cada vez mais “conformados com este mundo”. [16]

Para que cresçamos na vida espiritual ortodoxa, temos de sacrificar raízes, como na parábola de Cristo do semeador. E para sacrificarmos raízes, devemos ter constância, consistência, em nossas orações e leituras diárias. Nesta prática também conseguimos “nos renovar dia a dia”, conforme ensinou São João Crisóstomo.

Evidentemente, as práticas diárias e contínuas da vigilância e da oração não substituem os Sacramentos da Igreja. Mas essas práticas podem nos preparar para receber os Sacramentos, e pode aprofundar nossa experiência nelas. São Simeão o Novo Teólogo diz que receber a Santa Comunhão é, em si, um tipo de deificação – pois estamos recebendo o Corpo e Sangue de nosso Salvador deificado. A prática de vigilância e oração, juntamente com o arrependimento, poderá nos ajudar a partilhar mais plenamente dessa deificação.

6. A marca principal da transformação espiritual

Bem, agora que já versamos sobre a transformação espiritual e o caminho para essa transformação, examinemos mais de perto das marcas da transformação em um cristão.

Já discutimos com alguns detalhes os dois primeiros versículos de Romanos 12. São Paulo devota o resto deste capítulo precisamente para as marcas da transformação. Continuando sua exortação, ele diz no quê nos transformaremos. Ele afirma que devemos exercitar misericórdia com alegria, para que o amor não seja fingido; amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros; não sejais vagarosos no cuidado, sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor; alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração; comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade. O Apóstolo continua: Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram. Sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes. Não sejais sábios em vós mesmos. A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens. Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens... Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (Rom. 12:8–18, 21).

Que belo e profundo projeto de vida cristã! É o projeto de uma vida não conformada com este mundo, mas transformada e renovada em Cristo. Cada ponto da exortação de São Paulo merece uma palestra, mas versarei aqui apenas de maneira geral. O que todos esses pontos têm em comum? Temos de amar uns aos outros, e mesmo nossos inimigos. São Paulo está apenas explicando o grande mandamento de Cristo.

A marca mais essencial da transformação espiritual é que temos amor. Nosso Senhor nos disse: Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (João 13:35).

Em novembro de 2002, um amigo nosso – Abade Jonas, do Mosteiro de São João, em Point Reyes, Califórnia – visitou o Mosteiro de Valaam, no norte da Rússia. Enquanto estava lá, o Pe. Jonas teve conversas maravilhosas com um eremita chamado Pe. Isaque, numa pequena ilha afastada da ilha principal de Valaam. O Pe. Jonas perguntou ao Pe. Isaque como podemos crescer em maturidade espiritual: em outras palavras, como somos transformados em Cristo. Ao responder esta questão, o Pe Isaque inspirou-se nos ensinamentos do Arquimandrita Sofrônio, que obviamente ele internalizara, vivendo eles na prática. Eu gostaria então de citar as palavras do Pe. Isaque que o Pe. Jonas registrou no jornal Divine Ascent [Ascese Divina], já que elas apontam ao cerne da questão da transformação espiritual. Para o Pe. Isaque, assim como para São Paulo, transformação significa amar de maneira autêntica.

“No começo de nossa jornada espiritual”, disse o Pe. Isaque, “quando somos espiritualmente imaturos, toda nossa postura religiosa é egocêntrica, emocional e racional. O nível mais profundo de consciência, a consciência noética [isto é, a consciência do nous], ainda não se abriu totalmente... Nós somos nossos egos, definidos por nossas paixões. Estamos muito longe de sermos pessoas autênticas pois estamos presos ao nosso individualismo isolado. [Mas] à medida que crescemos e ganhamos controle sobre nossas paixões, e nossas almas se purificam, a Graça ilumina nossas consciência noética. Nos tornamos mais conscientes da presença de Deus e mais conscientes dos outros. Afastamo-nos de nosso egocentrismo. O foco de nossa atenção está em Deus. À medida que isso acontece, nosso ‘Eu’ pessoal se expande, englobando os outros, de maneira que não conseguiremos mais conceber-nos isolados de Deus e de nossos irmãos... É este o laço do autêntico amor espiritual, energizado pela Graça. Quanto mais crescemos nesta consciência noética, tanto mais nosso amor englobará todos a nossa volta. Rezamos por eles de coração, e pelo mundo inteiro. Somos purificados pela Graça para que possamos amar com autenticidade, de maneira puramente altruísta. Esta é a essência de ser cristão: amar autenticamente.

“Ao amar verdadeiramente a Deus a ao próximo...somos purificados, iluminados e deificados. Somos restaurados de nosso estado caído, de nosso egocentrismo, e da tirania de nossa consciência racional e emocional. As paixões são controladas, subordinadas ao amor ao Próximo. Somos purificados de tudo aquilo que nos faz focar em nós mesmos e de todas as barreiras do amor”. [17]

7. Saindo do atoleiro

Como pode as palavras do Pe. Isaque não nos inspirar? O que nos impede de crescermos até a medida da estatura completa de Cristo, conforme diz São Paulo (Ef. 4:13)? São nossos egos, nossas paixões, que nos impedem.

Freqüentemente nos encontramos atolados em nossas vidas espirituais. Essa situação resume-se a um aspecto: temos nossos pecados centrais, nossas paixões favoritas, das quais não queremos abrir mão. Essas paixões já estão tão enraizadas em nós que julgamos impossível nos livrar delas. Mas não é impossível. Cristo disse: Tende bom ânimo, eu venci o mundo (João 16:33). Com a ajuda de Sua Graça, conseguimos superar as paixões – que, conforme vimos, engloba um dos significados do termo “mundo” nas Escrituras Sagradas.

O problema é todo nosso. O problema é que, lá no fundo, sentimos que temos “direito” às nossas paixões favoritas. “Tenho direito de estar irado”, “Tenho direito de estar ressentido”, “Tenho direito a este pequeno prazer pecaminoso”. No fundo no fundo, não queremos abrir mão de nossas paixões.

Então a questão se resume a isto: O que realmente queremos? Queremos permanecer em nosso atoleiro, para que possamos mergulhar em orgulho, amor próprio, auto-justificação, raiva, ressentimento, prazeres pecaminosos? Será que eles são tão importantes para nós a ponto de, por causa dele, abandonarmos a possibilidade de uma vida autêntica em Cristo, conforme o Pe. Isaque tão belamente descreveu?

O que queremos, afinal? Queremos seguir a moda das paixões deste mundo, que perecem, ou queremos ter Cristo habitando em nós, recriando-nos em novos seres que habitarão nEle e com Ele para sempre?

Para que saiamos de nossos atoleiros e voltemos a trilhar o caminho da transformação e da deificação, temos de nos livrar de tudo aquilo que nos separa de Deus. A vida espiritual é como remar um barco contra a correnteza. O mundo, a carne e o demônio nos empurram contra o progresso. Se nosso barco estiver cheio de pecados e paixões, não iremos a lugar nenhum. Na verdade, vamos retroceder, até mesmo afundar. Portanto, o que temos de fazer é lançar fora tudo aquilo de que gostamos para que essas coisas não nos segurem. Então estaremos prontos para seguir adiante, para aquilo que fomos criados: para a união com Deus.

8. Não meça seu próprio progresso

Para concluir, eu gostaria de acrescentar um último comentário sobre esse tema da transformação. Os Santos Padres aconselham a não medir nosso progresso espiritual. Tentar medir nosso progresso pode, por um lado, despertar orgulho e, por outro, despertar desespero. Se pensarmos, “Estou fazendo grandes progressos, estou virando santo”, então certamente não estamos fazendo progresso porque estaremos orgulhosos, e o orgulho nos separa de Deus. Por outro lado, se nos desesperarmos quanto à nossa falta de progresso, esse desespero também nos separará de Deus.

Portanto, que Deus meça nosso progresso. Que Deus seja o juiz, tanto de nós quanto dos outros.
Benjamin Franklin tinha a prática de contar e registrar diariamente suas boas ações. Do ponto de vista do mundo, essa prática pode parecer boa; mas não é isso que devemos fazer enquanto cristãos ortodoxos. Não devemos contar nossas virtudes e boas obras e nos congratularmos com isso, pois Cristo disse, Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita (Mat.6:3). Na verdade, temos de fazer justamente o oposto: olharmos para nossos pecados. “Permita que eu enxergue meus próprios pecados e não julgue meu irmão”, conforme rezamos na Oração de Santo Efraim. Devemos nos acusar de nossos pecados, mas não nos sentenciar a ponto de nos condenar. Essa é uma distinção importante. A auto-acusação piedosa leva à responsabilidade por nossos pecados para que possamos nos arrepender deles, fazer as correções necessárias e, em última instância, nos livrar deles. A auto-condenação, por outro lado, leva ao desespero – porque, ao estabelecermos um julgamento definitivo sobre nós mesmos estaremos brincando de Deus exatamente como faríamos se estabelecêssemos um julgamento final sobre nosso próximo.

A transformação espiritual, conforme vimos, não ocorre sem a Graça do Espírito Santo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito (João 3:8). A transformação pela Graça de Deus é imperceptível. Nós somos mudados, mas não sabemos como e quando. Portanto, não devemos tentar experimentar momentos ou estados de transformação. Tal tentativa somente levará, no fim das contas, ao orgulho e à ilusão. Nossa tarefa é deixar para trás tudo aquilo que nos separa de Deus, voltarmos para Ele com todo o nosso ser, e deixar que Deus faça o resto.

A transformação espiritual só é perceptível em retrospecto. Um dia, olharemos para trás e perceberemos como as coisas mudaram. Talvez percebamos que não somos mais escravos de determinada paixão que, no passado, nos oprimia. Talvez, apesar das circunstâncias da vida estarem mais difíceis do que no passado, percebamos que não estamos reagindo tão negativamente quanto antes e que temos um senso de confiança de que nossas vidas estão nas mão de Deus maior do que antes. Se notarmos tais mudanças, vamos dar graças a Deus e não as creditarmos a nós, lembrando das palavras de São Diádoco: “Somente o Espírito Santo pode purificar nosso nous”. Então, continuando a praticar a vigilância, analisemos mais detidamente nosso interior a fim de descobrirmos paixões ainda mais profundas e sutis, para que as mortifiquemos no altar em sacrifício a Cristo.

Esse caminho da contínua recriação à semelhança de Cristo, do sacrifício que leva à deificação, é de fato difícil. Nosso Senhor nos disse: Estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem (Mat. 7:14). Mas este é o único caminho para que cumpramos a verdadeira razão de nossa existência.

Portanto, seguindo a exortação do Apóstolo Paulo, não nos conformemos com este século, não sigamos as modas deste mundo, não nos moldemos de acordo com as paixões. Em vez disso, sejamos transformados, transfigurados em novos seres por meio do arrependimento, por meio da cura e da purificação de nosso nous. Por meio desta transformação, passaremos a amar a Deus e nosso próximo de maneira genuína, passaremos a estar unidos a Deus através de Sua Graça, e passaremos a habitar com Cristo e Seus Santos em amor perfeito, para sempre. Amém.

Notas

1. Citado em Archbishop Basil Krivocheine, In the Light of Christ (Crestwood, N.Y.: St. Vladimir’s Seminary Press, 1986), p. 386.
2. Clark Carlton, The Life: The Orthodox Doctrine of Salvation (Salisbury, Mass.: Regina Orthodox Press, 2000), pp. 163–64.
3. Harry M. Boosalis, Orthodox Spiritual Life according to St. Silouan the Athonite (South Canaan, Pa.: St. Tikhon’s Seminary Press, 2000), p. 19.
4. St. John Chrysostom, Homilies on Romans, in The Nicene and Post-Nicene Fathers (Peabody, Mass.: Hendrickson Publishers, 1994), First Series, vol. 11, Homily 20, p. 496.
5. Ibid .
6. Abbess Thaisia: An Autobiography (Platina, Calif.: St. Herman of Alaska Brotherhood, 1989), pp. 167–69.
7. St. John Chrysostom, Homilies on Romans , Homily 20, p. 497.
8. St. Isaac the Syrian, Ascetical Homilies , Homily 2, quoted in St. Ignatius Brianchaninov, The Arena: An Offering to Contemporary Monasticism (Jordanville, N.Y., Holy Trinity Monastery, 1983), pp. 169–70.
9. St. John Chrysostom, Homilies on Romans , Homily 20, pp. 497–98.
10. Ibid., p. 498.
11. Ibid.
12. Veja, por exemplo, St. Gregory Palamas, "Topics of Natural and Theological Science," and Nikitas Stithatos, "On Spiritual Knowledge," in The Philokalia, vol. 4 (London: Faber and Faber, 1995), pp. 357, 139–40).
13. St. Diadochos of Photiki, "On Spiritual Knowledge and Discrimination," in The Philokalia, vol. 1 (London: Faber and Faber, 1979), p. 260.
14. St. Theophan the Recluse, The Path of Prayer (Newbury, Mass.: Praxis Institute Press, 1992), pp. 6–7.
15. St. Theophan the Recluse, The Spiritual Life and How to Be Attuned to It, third edition (Safford, Arizona: St. Paisius Serbian Orthodox Monastery, 2003), pp. 191–93.
16. Cf. Fr. Seraphim Rose, "In Step with Sts. Patrick and Gregory of Tours," The Orthodox Word, no. 136 (1987), pp. 272–73.
17. Abbot Jonah (Paffhausen), "A Vision of Contemporary Monasticism: Valaam and Fr. Sophrony, from Psychology to Spirituality," Divine Ascent, no. 9 (2004), pp. 9–10.
Extraído da revista The Orthodox Word, Vol. 41, Nos. 3 & 4 (#242-243, May-Aug, 2005), pp. 147-168.

17 de agosto de 2007

Como salvar tua alma

São Teófano, o Recluso

O que responder a aquele que pergunta: “Como salvar minha alma?”

Isto: Arrependa-te e, fortalecido pelo poder da graça nos Santos Mistérios, trilha o caminho dos mandamentos de Deus sob a direção que a Santa Igreja te deu por meio de seus sacerdotes. Tudo isso deve ser feito com um espírito de fé sincera, sem reservas.

Mas o que é fé?

Fé é a confissão sincera de que Deus, adorado na Trindade e criador e provedor de tudo, salva a nós, os caídos, por meio do poder da morte na Cruz do Filho de Deus, pela graça do Espírito Santo em Sua Santa Igreja. Os princípios da renovação, estabelecidos nesta vida, surgirão em toda sua glória no século dos séculos, de uma maneira que a mente não consegue compreender nem a língua expressar.

Ó, Deus nosso, como são grandes Tuas promessas!

Como, então, trilhar o caminho dos mandamentos de maneira inabalável?

Não é possível responder a esta pergunta em poucas palavras, pois a vida é algo complexo. Eis o que é necessário:

a) Arrependa-te, e voltando-te ao Senhor, admita teus pecados, chora por eles com coração contrito, e confessa-os ao teu pai espiritual. Prometa em palavra e em coração, perante a face do Senhor, não mais ofendê-Lo com teus pecados.

b) Assim, obedecendo a Deus em mente e coração, esforça-te a cumprir corporalmente os deveres e questões que tua vida lhe impõe.

c) Acima de tudo, guarda teu coração dos maus pensamentos e sentimentos – orgulho, convencimento, raiva, julgamento, ódio, inveja, desdém, desânimo, apego a coisas e pessoas, pensamentos dispersos, ansiedade, todos os prazeres sensuais e tudo o que separa a mente e o coração de Deus.

d) Para que permaneças firme no caminho, decide, antes de mais nada, a não se negar àquilo que reconheces como necessário, mesmo que isto signifique a morte. Para conseguir isto, quando te resolveres a cumprir tal decisão, ofereça tua vida a Deus para que não vivas para ti, mas para Deus somente.

e) Viver assim é ofertar-te a Deus, e não depender de ti próprio; a arena espiritual desta vida é a paciência, ou seja, uma postura inabalável nas fileiras da vida redimida, esforçando-te alegremente em meio a todos os desconfortos e desprazeres a ela relacionados.

f) O sustento da paciência é a , ou a garantia de que, esforçando-te desta maneira para Deus, tu serás Seu servo e Ele será teu Mestre, que vê todos os teus esforços, regozija-Se neles e os valoriza; a esperança de que o sempre-protetor auxílio de Deus estará pronto e a te esperar, e descerá sobre ti quando precisares, de que Deus não te abandonará no fim da tua vida e, preservando-te enquanto fiel a Seus mandamentos, em meio às tentações, te guiará pela morte a Seu Reino eterno; o amor, que medita dia e noite no querido Senhor e em tudo procura agradá-Lo, evitando a todo custo ofendê-Lo em pensamento, palavras e obras.

g) As armas dessa vida são: a oração na igreja e em casa, especialmente a oração mental; o jejum, de acordo com as forças de cada um e as regras da Igreja; vigilância; solidão; trabalhos físicos; confissão freqüente de pecados; Santa Comunhão; leitura da Palavra de Deus e das obras dos Santos Padres; conversas com pessoas piedosas; consulta constante ao pai espiritual sobre todos os eventos externos e internos da vida. O fundamento de todos esses labores em medida, tempo e espaço é a sabedoria, aconselhando-te com aqueles que têm experiência.

h) Guarda-te com temor. Para isso, lembra-te do fim – morte, julgamento, inferno, o Reino Celestial. Acima de tudo, esteja atento a ti mesmo: preserve tua mente sóbria e teu coração despreocupado.

i) Estabeleça como objetivo o ardor do fogo do espírito, de maneira que arda em teu coração e, reunindo toda tua força, comece a edificar teu homem interior e, finalmente, queime as ervas daninhas de teus pecados e paixões.

Disponha tua vida desta maneira e, com a graça de Deus, tu serás salvo.

Orthodox Life, Vol. 27., No. 6 (Nov.-Dez., 1977), pág. 37-38.

13 de agosto de 2007

Como ler a Bíblia

Pe. Serafim (Rose) de Platina

Todos sabem que os protestantes dedicam grande parte de seu tempo lendo as Sagradas Escrituras, pois para eles isso é o que há de mais importante. Para nós, cristãos ortodoxos, as Escrituras também têm seu lugar. Porém, freqüentemente não tiramos vantagem desse fato e não percebemos a importância que elas têm para nós; ou, se percebemos, acabamos não lidando com elas com o espírito correto porque a abordagem e a literatura protestantes estão por toda a parte, ao passo que nossa abordagem ortodoxa é bem diferente.

O fato de as Escrituras serem parte essencial de nossa fé é algo que pode ser detectado em nossos ofícios. Há as leituras diárias do Novo Testamento, tanto das epístolas quanto dos evangelhos. No espaço de um ano lemos praticamente todo o Novo Testamento. Nos primeiros três dias da semana anterior à Páscoa – a festa da ressurreição de Cristo – os quatro evangelhos são lidos na igreja, e na noite de quinta-feira da Semana da Paixão são lidos doze longos trechos dos evangelhos sobre a Paixão de Nosso Senhor, com versos cantados entre cada trecho servindo de comentários. O Velho Testamento também é usado nos ofícios. Nas vesperais de cada grande dia santo são lidas três parábolas a título de prefiguração. E as Liturgias estão cheias de citações e alusões bíblicas inspiradas diretamente nas Sagradas Escrituras. Os cristãos ortodoxos também lêem a Bíblia fora dos ofícios. São Serafim, em sua vida monástica, lia semanalmente todo o Novo Testamento. Talvez porque tenhamos uma riqueza tão grande de trechos bíblicos em nossa tradição ortodoxa nos sintamos culpados de dá-las como certas, de não valorizá-las e não fazer o devido uso delas.

Um dos nossos maiores intérpretes das Sagradas Escrituras é São João Crisóstomo, um Santo Padre do século V. Ele escreveu comentários a praticamente todo o Novo Testamento, inclusive a todas as epístolas de São Paulo e a muitos livros do Velho Testamento. Em um dos sermões sobre as Escrituras, eis o que São João fala a seu rebanho:

"Exorto-vos, e não cessarei de vos exortar, a prestar atenção não apenas ao que aqui é dito, mas quando estiverdes em vossas casas também deveis vos ocupar com a leitura das Sagradas Escrituras. Que ninguém venha dizer-me palavras frias – dignas de condenação – como estas: 'Estou ocupado com um julgamento, tenho obrigações na cidade, tenho uma esposa, tenho de alimentar meus filhos, e não é minha obrigação ler as Escrituras, mas daqueles que a tudo renunciaram'. O que dizes?! Não é tua obrigação ler as Escrituras porque estás distraído com inúmeras preocupações? Ao contrário, é tua obrigação, mais do que aos outros, mais do que aos monges; eles não precisam tanto de ajuda quanto tu, que vives em meio a tais preocupações. Tu necessitas ainda mais de tratamento, pois estás constantemente sob ataque e fere-te com freqüência. A leitura das Escrituras é uma grande defesa contra o pecado. A ignorância das Escrituras é uma grande desgraça, um grande abismo. Nada saber da palavra de Deus é um desastre. Isso é o que despertou as heresias, a imoralidade; é o que virou tudo de cabeça para baixo".

Vemos aqui que a leitura das Sagradas Escrituras nos guarnece de uma poderosa arma contra as tentações mundanas que nos cercam – e não a utilizamos o bastante. A Igreja Ortodoxa, longe de desestimular a leitura das Escrituras, a encoraja. A Igreja apenas é contra a má-leitura das Escrituras, contra ler nelas suas próprias opiniões e paixões, até mesmo pecados. Quando vemos os protestantes ficarem excitados com algo que dizem estar nas Escrituras – o arrebatamento, por exemplo, ou o milênio – não somos contra sua leitura das Escrituras em si, mas contra a má-interpretação que fizeram das Escrituras. Para que nós mesmos evitemos essas ciladas, temos de entender o que é o texto sagrado e como devemos lidar com ele.

A Bíblia – as Sagradas Escrituras, o Velho e o Novo Testamento – não é um livro comum. Não é um livro que contém verdades humanas, mas verdades divinamente reveladas. É a palavra de Deus. Portanto, devemos abordá-la com reverência e coração contrito, não com mera curiosidade ou frieza acadêmica. Hoje em dia, ninguém deveria esperar que uma pessoa que não tenha simpatia pelo Cristianismo nem pelas Escrituras adote uma postura reverente. Há, porém, tamanho poder nas palavras das Escrituras – especialmente nos evangelhos – que elas podem converter uma pessoa mesmo que tal reverência esteja ausente. Ouvimos falar de casos assim em países comunistas; a polícia persegue os fiéis e interrompe suas reuniões; eles confiscam toda sua literatura: Bíblias, hinários, textos patrísticos – muitos escritos à mão. Eles os queimam, mas às vezes acontece da pessoa designada a queimá-los ou da pessoa que os recolhe ficar curiosa e começar a ler o material confiscado. E há casos em que a vida da pessoa muda. De repente, ela encontra Jesus Cristo. E fica chocada, já que foi criado com a noção de que tudo isso é um grande mal; e eis que descobre que não há mal algum, mas algo realmente fantástico.

Muitos estudiosos modernos abordam as Escrituras com espírito frio, acadêmico; eles não desejam salvar suas almas lendo as Escrituras: eles somente querem provar que são grandes acadêmicos, que são capazes de criar novas idéias; eles querem ficar famosos. Mas nós, cristãos ortodoxos, devemos nos imbuir da máxima reverência e contrição, isto é, devemos nos aproximar da palavra de Deus com o desejo de mudar nossos corações. Lemos as Escrituras para alcançar a salvação, não, como crêem alguns protestantes, porque temos certeza de que seremos salvos sem a possibilidade de cair; mas sim como aqueles que tentam manter desesperadamente a salvação que Cristo nos deu, cientes de nossa miséria espiritual. Para nós, ler as Escrituras é, literalmente, uma questão de vida ou morte. Conforme escreveu o Rei David nos Salmos: O meu coração temeu a tua palavra. Folgo com a tua palavra, como aquele que acha um grande despojo .1

A Bíblia contém a verdade, e nada mais. Portanto, é nosso dever estudar as Escrituras crendo em sua verdade, sem duvidar ou criticar. Se adotarmos uma postura crítica então não receberemos benefício algum da leitura das Escrituras, mas seremos apenas mais um entre os homens "sábios" que acham que sabem mais do que a revelação de Deus. Na verdade, os sábios deste mundo freqüentemente não captam o significado das Escrituras. Nosso Senhor assim rezou: Graças te dou, ó Pai...que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas (Lucas 10:21). Em nossa abordagem, não devemos ser sofisticados, complicados, acadêmicos; devemos ser simples. E se formos simples, as palavras terão significado para nós.

Para que a leitura da Bíblia seja proveitosa – para que ajude a salvar nossas almas – devemos levar uma vida espiritual de acordo com o Evangelho. As Escrituras são voltadas precisamente àqueles que estão tentando levar uma vida espiritual. Os demais em geral as lerão à toa, e nem mesmo conseguirão entender alguma coisa. São Paulo ensina: O homem natural [isto é, não-espiritual] não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (I Coríntios 2:14). Quando mais espiritual a vida do homem, mais ele será capaz de entender a Bíblia.

Uma segunda questão. Por sermos fracos e gabarmos em nossas enfermidades, temos de rezar a Deus pedindo para que Ele abra os olhos de nosso entendimento pela Sua graça. Mesmo os discípulos de Cristo, na estrada para Emaús, não entenderam as Escrituras; eles não entenderam que era Cristo diante deles interpretando as Escrituras, até que o próprio Cristo abriu-lhes a mente (Lucas 24:45). Portanto, até que tenhamos nossas mentes abertas – algo que vem da graça de Deus – leremos as Escrituras sem entendê-las; ouviremos sem entendê-las, veremos sem vê-las.

A inspiração da Bíblia

Por que dizemos que a Bíblia é a palavra inspirada de Deus? Entre ocultistas e espíritas, há um fenômeno conhecido por psicografia, no qual a pessoa literalmente é possuída por um espírito e escreve sem usar o livro arbítrio. De fato, a última moda desse tipo de ocultismo é sentar-se em frente a uma máquina de escrever e deixar o espírito se apossar de seus dedos, até que a "mensagem espiritual" surja. Não é assim que as Sagradas Escrituras são inspiradas. Esse é o jeito dos demônios operarem. São Basílio, em sua introdução aos comentários ao livro de Isaías, afirma:

"Algumas pessoas pensam que os profetas profetizavam em êxtase, de maneira que suas mentes humanas estivessem eclipsadas pelo Espírito. Mas é contra a promessa de Deus que a inspiração divina se dê em estado de êxtase, isto é, de maneira que a pessoa saia de seu estado normal e assim forneça ensinamentos divinos, e que beneficie os outros sem que ela mesma se beneficie de suas próprias palavras...E, no geral", São Basílio prossegue, "não é irrazoável que o espírito de sabedoria deixe uma pessoa fora de si e que o espírito do conhecimento aniquile seu poder racional? A luz não produz escuridão mas, ao contrário, desperta o poder natural da visão. E o Espírito não produz trevas nas almas mas, pelo contrário, desperta a visão mental ou contemplação naqueles purificados de máculas pecaminosas".

A revelação das Sagradas Escrituras é dada aos homens santos e puros em estado exaltado e inspirado, mas eles retêm controle total de suas faculdades mentais. Aqueles que desejam entender as Escrituras devem, a exemplo dos santos, lutar por uma vida santa e pura, recebendo a graça de Deus para entender o que o Espírito Santo revelou. São Basílio, na mesma introdução, escreve:

"O primeiro grande dom, que requer uma alma cuidadosamente purificada, é conter em si inspiração divina e profetizar os mistérios de Deus. [Ele se refere à pessoa que escreve as Escrituras]. E, em seguida, o segundo dom, que igualmente requer grande e assíduo cuidado, é prestar atenção às intenções do que foi declarado pelo Espírito, e não errar em seu entendimento, mas deixar-se conduzir a esse entendimento pelo Espírito". Ou seja, o segundo dom é entender o que esses profetas, os autores das Sagradas Escrituras, escreveram em seu estado inspirado. Portanto, nós também devemos lutar para receber a graça de Deus e a inspiração para entender as Escrituras; o trabalho de interpretar as Escrituras não é nada fácil. De fato, São Basílio ensina: "Há muitos trechos das Escrituras extremamente difíceis de entender". Como assim? Ele ensina:

"Nosso Criador não desejou que fôssemos como os animais e que todas as conveniências da vida nascessem conosco [isto é, peles para nos adornar, chifres para nos defender etc.] para que o uso da mente se tornasse algo necessário; assim também são as Escrituras. Ele permitiu nelas uma ausência de clareza para benefício da mente, para que nela despertasse sua atividade. Aquilo que se obtém pelo labor se adere a nós de alguma maneira, e aquilo que é produzido por um longo período é mais sólido, enquanto que aquilo que se obtém facilmente não é muito desfrutado". Ou seja, as Escrituras são explicitamente difíceis para que forcemos nossas mentes a se elevarem a certo estado de entendimento, e não simplesmente receber de bandeja um sentido óbvio.

Tudo isso mostra que a leitura da Bíblia não é para ser encarada de maneira superficial; não é uma questão de reunir e selecionar informações. Ao invés disso, é para salvação de nossas almas. E, à medida que lemos, temos de estar imersos num processo de mudança, pois este é o propósito da Bíblia. Se não somos convertidos, é para que nos convertamos. Se já somos convertidos, é para que lutemos ainda mais. Se já estivermos lutando, é para que nos humilhemos e não pensemos que somos grande coisa. Não há estado no qual as Escrituras não se apliquem.

Isso tudo é radicalmente diferente das doutrinas protestantes, que encaram as Escrituras como se fossem um oráculo infalível (o que, na verdade, não é muito deferente da crença na infalibilidade do Papa de Roma) e que o bom senso humano é capaz de entender seu significado. Se vocês observarem as inúmeras seitas protestantes, verificarão que cada uma delas tem interpretações peculiarmente diferentes das mesmas passagens, e todas dizem que é o sentido "obviamente" correto. Às vezes eles aprendem grego e dizem que é "obviamente" o que aquele trecho grego quer dizer, enquanto outros afirmam exatamente o oposto e acham que isso é igualmente "óbvio". Como saber o que realmente essas passagens querem dizer?

Como interpretar as Escrituras

Primeiramente, vejamos alguns exemplos de como não interpretar as Escrituras.

Há inúmeras passagens nas Escrituras que parecem se contradizer. Por exemplo, Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nEle; e não pode pecar, porque é nascido de Deus (I João 3:9). De acordo com o sentido literal, vocês pensariam que uma pessoa que se torna cristã cessa de pecar. Mas se fosse assim, então para que a confissão? Por que continuamente pecamos? Será que isso significa que não somos cristãos? Mas na mesma epístola lemos: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós (I João 1:8). Como o mesmo autor pôde escrever duas passagens tão aparentemente contraditórias? É óbvio que temos de encontrar um entendimento mais profundo nelas. Temos de entender que enquanto temos a graça de Deus, não pecamos; quando pecamos isso prova que perdemos a graça de Deus, e temos de lutar para reconquistá-la. Não devemos nos enganar achando que estamos constantemente em estado puro, sem pecado; em vez disso, estamos constantemente lutando para atingir tal estado, às vezes conseguindo, às vezes não. Eis nossa batalha cristã. Essas passagens devem ser lidas com a consciência do que significa lutar enquanto cristão ortodoxo.

São Mateus afirma: E a ninguém na terra chamais vosso pai (23:9). Muitos protestantes interpretam esse trecho literalmente, recusando-se assim a chamar qualquer sacerdote de "Padre". Mas o próprio livro de São Mateus chama a Abraão de nosso pai (3:9). Claro, esse trecho se refere a pais que estão mortos; é uma diferença. Em sua epístola aos Hebreus, São Paulo fala de pais e profetas do Velho Testamento; eles também estão mortos. Mas ele também fala de pais vivos: Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo (I Cor 4:15). Aqui ele afirma com clareza que "Eu sou teu pai espiritual". Ele não afirma isso com muitas palavras, então os protestantes fazem vista grossa. No entanto, ele está dizendo que você não tem muitos pais, portanto tem alguns, e eu sou um deles porque "vos gerei em Jesus Cristo". Esse trecho parece contradizer o Senhor, que diz E a ninguém na terra chamais vosso pai. Mas Nosso Senhor está falando dAquele Pai; há somente um Pai no sentido de que ninguém mais é Pai. Há outros pais em sentido limitado: há alguns pais espirituais, há pais na carne..., todos são pais, mas de tipos diferentes; assim como Ele diz: "Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo" (Mateus 23:10).

Literal vs. não-literal

Certa vez, recebemos a visita de um grupo de protestantes que diziam interpretar a Bíblia de maneira absolutamente literal. Questionei-lhes a respeito do trecho que diz "Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos" (João 6:53). A primeira coisa que disseram foi: "Bem, isto não é para ser tomado literalmente". Eles se contradisseram imediatamente. Eles acham que aceitam tudo literalmente, mas abrem exceções aos trechos que não concordam com suas crenças.

Muitos trechos das Escrituras só podem ser compreendidos em um contexto dogmático – que a pessoa recebe de outras escrituras ou de outra fonte, seja da autoridade da Igreja ou de opiniões pessoais de algum professor. Alguns adventistas, comentando a promessa do Senhor ao bom ladrão – Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso (Lucas 23:43) – defendem a idéia de que o trecho está mal traduzido; o correto seria Em verdade te digo hoje que estarás..., pois eles crêem que quando uma pessoa morre, sua alma adormece, e portanto o ladrão não poderia estar com Cristo no Paraíso hoje. Eis um exemplo de alteração do significado das Escrituras para que se conforme com suas próprias crenças. E como sua doutrina dogmática está incorreta neste ponto, sua interpretação das Escrituras também estará.

Questões assim surgem quando nos detemos em versículos da Bíblia de maneira isolada. Muitos protestantes discutem por horas, às vezes anos, em tais questões. É importante não nos deixarmos atolar nelas. Devemos entender os princípios para uma correta interpretação das Escrituras. Eis o que ensina São João Crisóstomo, em sua homilia sobre Filipenses:

"Não devemos nos apegar às palavras das Escrituras e arrancá-las de suas conexões e contextos. Não devemos tomar palavras isoladamente, desprovendo-as do apoio das palavras que a precedem e que a seguem, simplesmente para ridicularizá-las e fraudá-las. Pois se até mesmo nos tribunais, onde se examinam as questões mundanas, apresentamos tudo o que serve ao caso – lugar e tempo, causas, pessoas e muito mais – então não seria absurdo citar a esmo palavras das Escrituras quando temos diante de nós a luta pela vida eterna?"

É precisamente o que fazem muitos protestantes; como não dominam o contexto nem possuem o dogma teológico completo, eles citam as Escrituras a esmo: "É óbvio que isto significa aquilo". Mas as Escrituras devem ser inseridas no devido contexto, tanto no livro em que são citadas como no resto da Bíblia, e em todo ensinamento do Cristo conforme transmitido por Sua Igreja.

Uma questão espinhosa nas Sagradas Escrituras é saber o que deve ser interpretado literalmente e o que não deve ser interpretado literalmente. Não podemos responder essa questão na base do "bom senso" porque isso só fomentaria o surgimento de novas seitas. São Simeão, o Novo Teólogo, um grande Santo Padre do século XI, explica essa questão de forma concisa:

"Cristo, o Mestre de tudo, ensina diariamente por meio do Santo Evangelho, falando algumas coisas de maneira velada, quando Ele faz uso de parábolas, para que poucos possam entender. E algumas dessas coisas Ele explica mais tarde a seus discípulos, dizendo A vós vos é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros por parábolas (Lucas 8:10). Mas outras coisas Ele fala abertamente, para todos, conforme atestou o Apóstolo, Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma (João 16:29)... Portanto, é nosso dever investigar e descobrir quais palavras o Senhor ensinou de maneira clara e aberta e quais Ele ensinou de maneira velada, por parábolas".

São Simeão dá exemplos de quando Nosso Senhor fala abertamente. Por exemplo, Amai a vossos inimigos (Mateus 5:44). Devemos entender isso literalmente. Ou, nas beatitudes: Bem-aventurados os que choram pois serão consolados etc. Devemos entender da maneira como está escrito; é tempo de chorar. E mais, Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus (Mateus 3:2); ou Quem ama sua vida perdê-la-á (João 12:25); ou Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me (Mateus 16:24).

Algumas dessas coisas são difíceis de cumprir. Outras são dificílimas até mesmo para nossas mentes humanas captar. Mas, com o conhecimento do Reino dos Céus e a vida espiritual, elas se tornam claras e são interpretadas literalmente, mesmo que às vezes com o uso de metáforas.

Como exemplos de parábolas, São Simeão fala da fé enquanto grão de mostarda (Lucas 13:31), ou do Reino dos Céus enquanto pérola de grande valor (Mateus 13:45), ou fermento (Mateus 13:33). Continua São Simeão:

"Portanto, reflitam, eu vos imploro, sobre a grandeza da sabedoria de Deus, que por meio de tais exemplos sensoriais, aparentemente rasteiros, pinta para nós como um artista que esboça em nossa mente aquilo que é impensável e inacessível. Ele age assim para que os descrentes permaneçam cegos, desprovidos de conhecimento das boas coisas do céu, pois se tornaram indignos em função de sua descrença; e para que os crentes, por outro lado, ao ouvirem e receberem com fé a mensagem da parábola, possam enxergar a verdade e conhecer limpidamente a realidade nas coisas que são mostradas pelas parábolas, pois as parábolas são as imagens das coisas espirituais" (Homilia 53).

São Simeão também ensina que, além do que é dito abertamente, as epístolas dos Apóstolos contêm muitas coisas ocultas.

Há casos estreitamente relacionados com essa questão dos significados místicos vs. literais, nos quais objetos materiais são citados para que nossas mentes se elevem às realidades espirituais. Isso não quer dizer que devemos ficar procurando símbolos nas Escrituras, como se tudo ali tivesse um significado a mais; é uma questão de elevar-nos a um nível espiritual onde possamos começar a entender a realidade espiritual da qual os autores inspirados freqüentemente versavam. Assim, quando David diz, Soltaste as minhas ataduras (Salmos 115:16), ele não se refere apenas às ataduras físicas, mas trata-se de um símbolo para o livramento da corrupção e da morte. Este é o sentido místico. Mas ele não está usando a imagem mundana das "ataduras" somente para expressar o sentido místico, a ausência de corrupção ou a imortalidade; ele também versa, ao mesmo tempo, de um segundo nível de significado, usando a imagem física enquanto oportunidade para expressar a verdade espiritual da libertação da corrupção. Se já conhecemos o ensinamento cristão sobre a queda de Adão, a corrupção do mundo e nossa redenção por Jesus Cristo, e se já estamos lutando para elevar-nos a esse nível espiritual, não necessitamos de comentários que nos expliquem as palavras, isto é, os Santos Padres até nos ajudariam, mas não precisaríamos de um comentário deles simplesmente para nos informar que "x=y". As próprias palavras expressam esse sentido espiritual. Qualquer um que leia e reze com os Salmos já experimentou isso. Especialmente em tempos de aflição, as palavras dos Salmos adquirem um novo e mais profundo significado; descobrimos que as coisas físicas referem-se a nossas aflições e depressões, e a nossa necessidade de receber libertação de Cristo.

Os ofícios ortodoxos estão cheios desse tipo de linguagem, a qual chamamos de poesia sacra. A chave para entender essa poesia é viver uma vida espiritual, que é a respeito da qual versam as Escrituras.

Em suma, o entendimento das Escrituras requer a graça de Deus. São Simeão, o Novo Teólogo, dá uma excelente imagem disso:

"O conhecimento espiritual é como uma casa construída em meio à sabedoria grega e mundana, em cujo interior encontra-se o conhecimento das Sagradas Escrituras – como se fosse um cofre bem aferrolhado – e o inexprimível tesouro escondido nesse conhecimento, isto é, a graça divina. Aqueles que nela adentram não conseguem enxergar esse tesouro se o cofre não lhes for aberto, mas esse cofre não pode ser desaferrolhado pela sabedoria humana. Eis por que as pessoas que pensam de maneira mundana não conhecem o tesouro espiritual que se esconde por trás do cofre do conhecimento espiritual. E assim como aquele que carrega esse cofre nos ombros não consegue enxergar o tesouro que lá se encontra, assim também aquele que lê e decora as Escrituras, recitando-as todas como se fossem um simples salmo, é incapaz só por isso de adquirir a graça do Espírito Santo, que nelas se esconde. Pois assim como aquilo que se esconde no cofre não pode ser revelado pelo próprio cofre, assim também o que está oculto pelas Sagradas Escrituras não pode ser revelado pelas próprias Escrituras" (Homilia 39).

Essa passagem é muito interessante; ela mostra claramente como os protestantes estão errados – pois as Escrituras não revelam o significado das Escrituras. Em vez disso, é a graça de Deus que o revela. São Simeão prossegue:

"Quando Deus habita em nós e revela-Se a nós conscientemente, é então que despertamos para o conhecimento, isto é, passamos a entender na realidade aqueles mistérios ocultos nas divinas Escrituras. Mas é impossível conquistarmos isso de outra maneira. Aqueles que não sabem e não experimentaram o que estou falando ainda não saborearam a doçura da vida imortal que possuem as palavras divinas, e ostentam apenas seu próprio conhecimento; eles depositam a esperança de sua salvação somente no conhecimento das Escrituras e no fato de que as conhecem de cor. Após a morte, essas pessoas serão mais severamente julgadas do que as que nunca ouviram falar das Escrituras. Especialmente aqueles que se desviaram em sua ignorância, corrompendo o significado das divinas Escrituras e interpretando-as de acordo com suas paixões. Para eles, o poder das Escrituras é inacessível... Aquele que tem toda a Escritura nos lábios não consegue entender e conquistar a glória e o poder místicos nela ocultos se não cumprir os mandamentos de Deus e receber o Consolador, o Espírito da Verdade. É Ele que pode lhe abrir as palavras das Escrituras enquanto livro, e mostrar-lhe a glória mística que nelas se encontra e pode, ao mesmo tempo, mostrar-lhe o poder e a glória de Deus, as boas coisas nelas ocultas, juntamente com a vida eterna que delas abunda. Mas todas essas coisas estarão ocultas e desconhecidas para aqueles que tratam com descuido e desdém os mandamentos de Deus".

Portanto, para lermos e entendermos a Bíblia, devemos viver de acordo com os mandamentos, recebendo a graça do Espírito Santo, até mesmo da maneira que os autores dos livros sagrados viviam. E devemos ser ávidos e zelosos em nossa leitura. São João Damasceno, um grande Santo Padre ortodoxo do século VIII, que resumiu o ensinamento dos primeiros Padres em seu livro Da Fé Ortodoxa, disse: "Batamos casualmente, mas com avidez e persistência, e não desistamos, pois assim se nos abrirá. Se lermos uma e depois duas vezes e mesmo assim não entendermos o que lemos, não nos desencorajamos. Persistamos, reflitamos e investiguemos, pois está escrito Pergunta a teu pai, e ele te informará; aos teus anciãos, e eles te dirão (Deuteronômio 32:7). Pois nem todos têm conhecimento. Aproveitemos, da fonte do paraíso, toda água pura e corrente que brota vida eterna; alegremo-nos nelas; alegremo-nos gulosamente nelas para nossa própria saciedade, pois elas contêm a graça que jamais se exauri".

Outra questão importante referente à abordagem adequada ante as Escrituras é a humildade, isto é, não devemos esperar "entender" logo na primeira leitura, como se nosso bom senso fosse capaz disso; o que devemos ter é a idéia muito humilde de que provavelmente uma grande porção do entendimento do que acabamos de ler nos escapou, mesmo nos trechos mais "óbvios". Essa humildade é fundamental, pois a causa de todas as seitas protestantes, que se baseiam em diferentes interpretações bíblicas, é o orgulho. Eles lêem e pensam: "Eu entendi o que está escrito". E estão errados. Quando lemos as Escrituras, devemos pensar: "Entendi um pouquinho, meus padres me ensinaram, li comentários e ouvi sermões a respeito, meu entendimento está de acordo com o que a Tradição da Igreja me ensinou, mas, mesmo assim, não confio totalmente no que penso ter entendido". Não podemos simplesmente aceitar a primeira idéia que brota em nossas mentes – nem a segunda, nem a terceira; devemos nos aprofundar, verificando o que os Padres ensinam, o que a Igreja ensina, como ela se encaixa nos demais livros da Bíblia, sempre pensando que nosso conhecimento das Escrituras – não importa o quanto saibamos – é sempre deficiente; nunca sabemos o bastante; temos de estar sempre aptos a aprender mais.

1 Trata-se do Salmo 119(118, LXX):161-162. (N. do T.)