27 de abril de 2006

Estudos de Platão II - The Great Ideas Program

Eis a segunda leitura da República de Platão, conforme recomendada pelo The Great Ideas Program.

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The Great Ideas Program – Volume 10 – Philosophy
Second Reading – Plato, The Republic, Vol 7, pp. 386d-388a, 391b-401d

Sócrates divide o mundo em dois segmentos desiguais (proporção 2:1), que por sua vez são divididos em dois segmentos também desiguais (proporção 2:1). A desigualdade espacial dos segmentos refere-se à desigualdade em qualidade, isto é, quanto maior o segmento, mais importante (maior qualidade) terá.


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Sócrates convida Glauco a examinar como devem ser formados os homens com o caráter para governar o Estado.

A ginástica e as artes não são as ciências hábeis para tal uma vez que são mecânicas, isto é, lidam com o que se transforma e morre (corporal). Procuramos a ciência do essencial, não do passgeiro, efêmero, transitório.

Sócrates, então, prossegue sua investigação distinguindo objetos que não conduzem a duas sensações opostas, isto é, que não provocam a análise, dos objetos que conduzem a duas sensações opostas, isto é, que provocam a análise (ou seja, que provocam a inteligência). Expliquemos: a visão, em si, é incapaz de distinguir grandeza de pequeneza, grossura de finura etc., assim como o tato é, em si, incapaz de distinguir lisura de aspereza etc. A alma, perplexa com a vacuidade dos sentidos, ou seja, perplexa porque os sentidos dizem que algo é pequeno e grande ao mesmo tempo, faz uso do raciocínio e da inteligência para detectar se o que é visto é uma ou duas coisas. A vista, em si, é incapaz de distinguir um de dois.

O espírito, recebendo o múltiplo, é constrangido a indagar nele a unidade, pois que vemos a mesma coisa una e múltipla. Eis por que a aritmética, buscando a unidade em todos os números, até o infinito, é adequada ao filósofo para que ele alcance a essência. A aritmética tem o poder, pelo raciocínio abstrato, de levar a alma a regiões superiores, de fazer ver mais facilmente a idéia do Bem.

Similarmente, a geometria é recomendada ao filósofo, não como mera aplicação utilitária, como normalmente fazem os militares e artesãos, mas para utilizar-se das grandezas e medidas a fim de atingir suas essências. Isso se aplica também à ciência dos sólidos (modernamente chamada de “geometria espacial”), embora Sócrates e Glauco julgassem tal ciência como ainda em estágio subdesenvolvido, imprópria para os estudos filosóficos. Por extensão, a observação feita à aritmética, geometria plana e geometria espacial aplica-se também a astronomia: a lentidão/rapidez dos movimentos, por exemplo, cuja verdade deve ser apreendida pela razão e pela inteligência.

E, assim como a astronomia está ligada a visão, há uma ciência equivalente à audição: a música. O filósofo deve dedicar-se procurando números nos acordes e descobrindo quais são os números harmônicos.

O progresso ou método empregado para cada uma dessas artes, a fim de atingir o limite do inteligível, é a dialética. A dialética faz uso das artes acima para elevar a alma do homem às regiões superiores. Não há, portanto, ciência superior à dialética.

Sócrates repete as qualidades físicas e intelectuais que o protofilósofo deve possuir (ver estudo anterior). É notável que Sócrates aconselhe que as artes não devam ser ensinadas de maneira forçada pois, ao contrário do corpo cujos exercícios físicos forçados deles se aproveita, a alma rejeita a educação forçada. Sócrates prossegue, afirmando que os jovens abaixo de 30 anos de idade não devem ter muito contato com a dialética, uma vez que dela abusarão rapidamente, usando-a como um truque ou jogo.

Sócrates entende ainda que os jovens com mais de 30 anos de idade devem entregar-se à dialética pelo dobro do tempo que entregaram-se ao exercício físico, ou seja, aproximadamente 5 anos. Depois, esses jovens deverão retornar à “caverna”, exercendo funções militares durante aproximadamente 15 anos. Resumo: aos 30, o jovem dedica-se 5 anos à dialética e, aos 35, dedica-se 15 anos à funções militares e políticas. E depois dos 50 anos?

[A]nd when they have reached fifty years of age, then let those who still survive and have distinguished themselves in every action of their lives, and in every branch of knowledge, come at last to their consummation: the time has now arrived at which they must raise the eye of the soul to the universal light which lightens all things, and behold the absolute good; for that is the pattern according to which they are to order the State and the lives of individuals, and the remainder of their own lives also; making philosophy their chief pursuit, but, when their turn comes, toiling also at politics and ruling for the public good, not as though they were performing some heroic action, but simply as a matter of duty; and when they have brought up in each generation others like themselves and left them in their place to be governors of the State, then they will depart to the Islands of the Blessed and dwell there; and the city will give them public memorials and sacrifices and honor them, if the Pythian oracle consent, as demigods, but if not, as in any case blessed and divine. (pág. 401b [540]).


Sócrates lembra que o que foi dito é difícil, mas não impossível de acontecer. Basta que apenas um filósofo se torne rei. Então, as crianças com 10 anos serão separadas dos pais e educadas nos princípios desse filósofo-rei.

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SELF-TESTING QUESTIONS

1. Que outro uso, além do filosófico, Platão admite para os matemáticos?

Uso militar.

2. Quais as duas razões que explicam o subdesenvolvimento das ciências matemáticas?

  • Nenhum governo as patrocina.
  • A dificuldade de encontrar um professor/guia.

3. Quais males o estudo da dialética introduz?

  • O mal da desordem, em função das constantes refutações às quais um homem pode ser alvo, tornando-se indiferente quanto a valores como honra/desonra, honestidade/desonestidade, prudência/imprudência etc.
  • O mal do ceticismo, que acomete em especial os jovens que fazem uso da dialética por diversão, refutando aqui e ali sem parar, terminando em nada acreditar.

4. Em que idade o estudante de filosofia está pronto para a visão do bem absoluto?

Aos 50 anos de idade.

5. Que operação matemática é necessária em todas as artes e ciências?

O cálculo.

6. Por que a ginástica é rejeitada enquanto educação para a filosofia?

Porque é uma ciência mecânica, que lida com aquilo que é gerado e corrompido, ou seja, que é efêmero e passageiro, e não com o essencial e imutável.

7. Quais os dois tipos de objeto de sentido, em relação ao pensamento?

  • Objetos não convidativos ao pensamento, já que os sentidos bastam para julgá-los.
  • Objetos intrigantes, que exigem investigação por parte do pensamento e do raciocínio.

26 de abril de 2006

Estudos de Platão I - The Great Ideas Program

Segue a primeira leitura da República de Platão, seguindo orientação do Volume 10 dos Great Ideas Program.

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The Great Ideas Program – Volume 10 – Philosophy
First Reading – Plato, The Republic, Vol 7, pp. 369c-383a, 388a-391a

Estrutura:

1. O Estado e os filósofos
a) Por que os Estados são mal administrados?
b) Porque os filósofos não são os reis.
c) Por que os filósofos deveriam ser os reis?
d) Porque os filósofos detêm conhecimento, não mera opinião como os sofistas, sendo por isso os mais habilitados.

2. O perfil do filósofo
a) Quais as características típicas do filósofo?
b) Sinceridade, boa memória, coragem, desapego a coisas materiais e sensuais.
c) Por que os filósofos atualmente não possuem essas características?
d) Por dois motivos: (1) Os filósofos têm suas características ímpares usurpadas e desviadas desde a tenra idade e (2) O ambiente lhes é impróprio e mesmo hostil.

3. O que fazer para que um filósofo se torne rei
a) Corrigir os métodos educacionais das crianças e jovens.
b) Apresentar à multidão o verdadeiro filósofo, que logo o reconhecerá como o mais habilitado.
Como deve agir o filósofo, uma vez rei
a) O filósofo corrigirá os costumes e caracteres privados e estatais.
b) O filósofo formulará uma nova Constituição.
c) O filósofo aperfeiçoará essa Constituição, moldando as instituições de maneira que se aproximem sucessivamente do ideal.

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Platão inicia fazendo Sócrates perguntar a Glauco qual a falha crucial no Estado que causa sua má administração. A resposta de Sócrates é que enquanto os filósofos não forem reis, ou os reis e príncipes não tiverem o espírito e a força da filosofia, os males da cidade não terão fim.

Glauco pede a Sócrates que se explique. Sócrates afirma que, antes, faz-se necessário descrever quem são esses filósofos a quem se deve confiar a liderança do Estado.

“[Filósofo] é aquele que tem atração por qualquer tipo de conhecimento e que está sempre curioso em aprender, nunca satisfeito”. (p. 370c)

Filosofia, etimologicamente, é amor à sabedoria. Um amante que ama algo não ama parte desse algo, mas ama o algo como um todo, por inteiro. Por exemplo, um sujeito ambicioso abraça um poder inferior quando não lhe é permitido abraçar um grande poder. Ele ama o poder, e abraça aquele que está ao seu alcance. Mas abraçará mais e mais à medida que lhe for possível.

Similarmente, o filósofo, amante da sabedoria, ama a sabedoria como um todo, e não parte dela. Embora se contente inicialmente com uma pequena porção, ele quer sempre mais e mais, já que é amante da sabedoria.

Glauco argumenta que, nesse caso, se a curiosidade dá o tom dos filósofos, então os amantes da música e das outras artes inferiores são também filósofos.

Sócrates responde que não, pois tais curiosos são, na verdade, imitações. Os verdadeiros filósofos são os amantes da visão da verdade. Os curiosos amam as belas cores e os belos sons, mas sua inteligência é incapaz de ver ou amar a beleza absoluta.

Ora, se a sabedoria está relacionada ao ser (já que saber é saber algo) e a ignorância está relacionada ao não-ser (já que ignorar é nada saber), há um meio-termo entre eles. É o âmbito da opinião, ou seja, o âmbito daqueles que enxergam as coisas belas mas não vêem a beleza, que enxergam a justiça nas ações mas são incapazes de ver a essência da justiça.

As opiniões são relativas, dependem do ponto de vista, da posição, do dia, da pessoa. Algo belo de certo ponto de vista poderá ser feio sob outro ponto de vista. O dobro pode ser metade. Glauco lembra-se então dos enigmas em forma de trocadilho, nos quais algo parece ser uma coisa mas também pode ser outra, ambiguamente, como as opiniões.

Sócrates e Glauco concordam, então, que o filósofo é o mais habilitado ao comando do Estado, a não ser que alguma virtude ou experiência lhe falte em relação aos amantes da opinião.

Sócrates passa então a enumerar diversas qualidades que os filósofos, por natureza, devem possuir: sinceridade, desapego a prazeres corporais, temperança, coragem (pois não temem a morte), prazer em aprender, boa memória; em suma, uma mente de conformação graciosa e proporcional.

Adimanto, porém, discorda de Sócrates, lembrando que os filósofos em geral não possuem tais qualidades, sendo bem o contrário: são rudes, inúteis, “monstros estranhos”.

Ora, Sócrates concorda, mas não que os filósofos sejam inúteis em si, mas que tenham sido tornados inúteis pelos que os cercam. E quanto às corrupções de caráter (rudes etc.), Sócrates compara o filósofo a uma semente vigorosa: se plantada em bom solo, bons frutos dará; se plantada em mau solo, péssimos frutos dará. O grande potencial de um filósofo, em meio a um ambiente hostil e refratário, renderá grandemente negativo, salvo por intervenção divina.

Sócrates continua, acrescentando que os sofistas são meros professores das opiniões alheias, capazes de descrever seus gostos e temperamentos mas incapazes de inferir delas o que é absoluto e imutável.

Além disso, desde a tenra idade, aquele que tem potencial para a filosofia terá seus talentos usurpados pelos seus concidadãos. Assim, bajulado e desviado, o protofilósofo não se submeterá à razão, torpe que está. Mesmo que porventura o protofilósofo acorde da ilusão em que vive, ainda assim seus concidadãos e amigos tentarão convencê-lo a largar a filosofia para que não percam as vantagens que desfrutam de sua usurpação, nem que para isso o leve aos tribunais. É quase impossível, portanto, que os filósofos prosperem num ambiente assim.

A filosofia acaba sendo ocupada, então, por medíocres e imitadores, que, encantados com títulos e pompas, a deturpam e denigrem. Sócrates compara tal desgraça com um ferreiro baixo e calvo (o medíocre) que, bem arrumado e bem vestido, casa-se com a filha do patrão, reduzindo-a a miséria (a filosofia rebaixada).

Após tal processo de filtragem, tem-se que o número de filósofos será baixíssimo. Essa diminuta classe poderia se dar por contente caso mantenha-se à margem das multidões, desfrutando das bênçãos da filosofia. Mas, ao mesmo tempo, o filósofo sabe que seu desempenho teria sido máximo se o Estado fosse o mais adequado para o desenvolvimento de seus talentos.

Sócrates passa então a discorrer como o Estado deve agir na educação de jovens e crianças para que a filosofia não pereça. O Estado não deve sobrecarregar as crianças e jovens com muita filosofia, mas sim com mais ginástica a fim de fortalecer seus corpos para que, mais tarde, com a alma suficientemente madura, sirvam a filosofia.

Uma vez formado o filósofo, como este conseguirá apoderar-se da administração do Estado? Como administrará o Estado? O processo no qual isso se dará é, em suma, o seguinte: (1) O filósofo, concentrado naquilo que é fixo e ordenado, torna-se ele mesmo ordenado, (2) O povo convencer-se-á de que os filósofos são os mais aptos para o Estado na medida em que lhes for apresentados os verdadeiros filósofos, (3) Uma vez em cargo público, o filósofo tentará não apenas modelar a si próprio, mas os costumes públicos também, limpando o caráter das pessoas e do Estado, não se limitando apenas a fazer leis, (4) Uma vez atingido tal objetivo, formulará um nova constituição, (5) Para aperfeiçoar essa constituição, o filósofo lançará mão de um processo sucessivo de abstrações e aplicações, ora de olho nas essências, ora de olho nos homens (c.f. Alegoria da Caverna).

Mas como, na atual e colapsada situação, tal plano poderá ser empreendido? Bastam dois elementos: (a) um filósofo, apenas um, e (b) uma cidade minimamente aberta a suas opiniões. É difícil, lembra Sócrates, mas não impossível.

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Sócrates, a fim de mostrar a distância ou a diferença entre conhecimento e ignorância, lança mão da alegoria da caverna.




Alegoria => Realidade
===============

Caverna => Mundo que nos cerca
Sombras => Objetos visíveis
Fogo => Sol
Região superior => Mundo inteligível
Subida à região superior => Ascensão da alma
Muro -> Estrada -> Objetos -> Fogo -> Exterior => Diversas etapas da ascese
Prisioneiro que se liberta => Filósofo
Sol (fonte de toda luz) => Idéia do Bem (causa de tudo o que de reto e belo existe)
Olho do corpo => Olho da alma (intelecto)
Conversão (virar o olho para a luz, com todo o corpo) => Conversão (virar o intelecto para a luz, com toda a alma)

A caverna é, assim, o âmbito dos ignorantes, daqueles que tomam as sombras pelas coisas reais. Mas a alegoria não é útil apenas para mostrar a distância entre ignorância e conhecimento, mas também para mostrar que embora a ascensão ao bem seja a melhor das atitudes, uma vez lá, os filósofos devem descer para as sombras a fim de instruir os homens ignorantes, não importa se mereçam ou não tal instrução. Tal faz-se necessário porque o Estado interessa-se pela felicidade de todos, não apenas de uma classe de poucos.

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SELF-TESTING QUESTIONS

1. Por que os enigmas de trocadilhos são como os objetos da opinião?

Porque os enigmas nem revelam nem escondem por completo aquilo a respeito de que versam. Analogamente, as opiniões, embora se refiram a coisas reais, não lidam com suas essências. Um sofista, um professor de opiniões, expressa-se a respeito da beleza da flor ou de uma estátua, mas não é capaz de expressar-se sobre a beleza em si, sobre a essência da beleza.

2. Que tipo de homem causa o maior dano à filosofia?

Os sofistas, os imitadores da filosofia, os professores de opiniões.

3. Quais os bens da vida comum que distraem o filósofo?

Beleza, riqueza, força, cargo, relações no Estado.

4. Quem é comparado ao “ferreiro baixo e calvo”, que tenta elevar-se acima de seu lugar?

Os sofistas, os imitadores da filosofia.

5. Quais as diversas condições que podem salvar um homem para a filosofia?

Aquelas que, de uma forma ou de outra, mantêm o filósofo distante das distrações e do ambiente antifilosófico: exílio, desprezo pela política, doença etc.

6. Que mudanças no ensino da filosofia Sócrates defende?

Enfatizar a educação física nas crianças e jovens e ensinar-lhes pouca filosofia, evitando temas complexos e desgastantes como a dialética.

7. A que se refere a metáfora da “circuncisão” na alegoria da caverna?

Aos cortes das más influências e dos maus temperamentos, desde a tenra infância, no processo educacional que levará o jovem à conversão (“retirada da caverna”).

3 de abril de 2006

Pensando sobre Deus

Segue um resumo de How To Think About God, de Mortimer J. Adler, em forma Q&A.

Qual o objetivo do autor?

O objetivo de Adler, não é extamente provar a existência de Deus, mas inferir a existência de Deus. A diferença entre provar e inferir consiste no grau de certeza que resulta do raciocínio. Provar a existência de Deus implicaria em um elevado grau de certeza, semelhante àquele que atingimos nas demonstrações matemáticas e geométricas. Este não é o caso, já que Adler prefere o termo “inferir”, que rende ao raciocínio um grau de certeza inferior, mas que ainda assim está além da dúvida razoável.

Ao contrário de Santo Tomás, Moisés Maimônides e Avicena, Adler não pretende lançar mão de artigos de fé ou de Escrituras Sagradas para empreender seu raciocínio. Às obras desses autores, Adler chama de teologia sacra. No entanto, mesmo Leibnitz, Descartes e demais autores que tentaram evitar se deixar influenciar pelas religiões ao pensar acerca de Deus – a chamada teologia natural – Adler crê que não obtiveram sucesso.

Adler apresenta sua obra como sendo pura teologia filosófica, completamente isenta de influências religiosas e artigos de fé.

A existência de Deus não pode ser provada simplesmente argumentando que o mundo precisa de um Criador?

Não.

As religiões ocidentais nos dizem que Deus criou o mundo. Mas tal é simplesmente um artigo de fé, sustentado por cristãos, judeus e muçulmanos. No entanto, um filósofo deve esquivar-se de aceitar esse artigo de fé como verdade comprovada.

A ciência, por outro lado, nada nos diz a respeito da criação do mundo. A teoria do Big Bang versa sobre a origem do mundo, mas do mundo que conhecemos. Isso significa que o Big Bang não explica a exniquilação do mundo, ou seja, a criação do mundo a partir do nada. ["Exniquilação" é um termo criado por Adler em contraposição a "aniquilação", ou seja, a redução de algo a nada]. A ciência não pode provar de que maneira aquela massa que explodiu foi criada, nem mesmo se havia o tempo antes dela.

A filosofia, portanto, tem duas alternativas: ou o mundo foi criado por uma agência criadora, ou o mundo sempre existiu e sempre existirá (posições assumidas por Santo Tomás e Kant, por exemplo). Como não devemos assumir justamente a opção que se deseja provar, devemos adotar a noção de que o mundo sempre existiu e sempre existirá, ou seja, o mundo tem uma existência perpétua.

E quanto à primeira causa? Não é necessário que o mundo tenha uma primeira causa que explique sua existência?

Não.

Se dissermos que, temporalmente, é necessário haver uma primeira causa não-causada que tenha colocado em marcha o movimento e a mudança do mundo, assumiríamos implicitamente que o tempo é limitado. Incorreríamos no erro anterior.

Se, por outro lado, argumentarmos que a primeira causa é superior, ou seja, está acima dos fenômenos naturais, sendo estes intrumentos na mão daquela, e não temporalmente anterior, também incorreríamos em erro. Não há no mundo natural nada que nos obrigue a considerá-lo como instrumental. Nada nele nos diz, além das próprias ciências naturais, que há um causador (ou hierarquia de causas) por detrás dele.

Como definimos "Deus"?

Para iniciarmos nossa inferência da existência de Deus, temos primeiramente de tentar definir a palavra “Deus”. Ao contrário das palavras “lápis”, “justiça” etc., que são nomes comuns, ou seja, comuns a mais de um objeto individual, “Deus” é um nome próprio, como “Edward H. Wolff” ou “Mortimer J. Adler”. Ora, sabemos que para as pessoas usarem os nomes próprios enquanto tais, devem:

(1) ser apresentadas pessoalmente ao indivíduo que leva o nome.
(2) devem ser indicadas ao indivíduo que leva esse nome.
(3) devem ser apresentadas a uma descrição que identifique o indivíduo que leva esse nome.

Ocorre que “Deus” não é alguém a quem possamos ser apresentados ou a quem possamos apontar. Mesmo no caso de Abraão, Moisés, Jesus Cristo etc., cujo conhecimento de Deus foi direto, tal conhecimento exige de nós uma fé religiosa anterior para acreditarmos.

Vemos então que “Deus” é inclassificável, não sendo, strictu sensu, um nome próprio. Não somos capazes de conhecê-lo ou apontá-lo, então precisamos de uma descrição definitória, isto é, que defina Deus.

Por que não podemos definir “Deus”?

Porque Deus, sendo um nome próprio, não é passível de ser definido, tanto quanto “Edward H. Wolff” não é passível de definição. Uma definição aplica-se a uma classe ou grupo de objetos. Um nome próprio não é uma classe de objetos, mas um indivíduo singular. Deus, portanto, deve ser descrito, não definido. Essa descrição tem de possuir um caráter identificatório, ou seja, essa descrição deve chegar ao ponto de podermos identificar Ele, e somente Ele, como objeto da descrição.

Um nome próprio é pode ser descrito de várias maneiras, encaixando-o em diversas classes. Edward H. Wolff é brasileiro, engenheiro, que nasceu em 1976, na cidade de São Paulo etc. Mas Deus é inclassificável, isto é, não é passível de ser classificado com palavras que possam ser compartilhadas com outros indivíduos. Quando uma palavra designa uma característica comum a dois objetos, essa palavra tem de ser aplicada exatamente no mesmo sentido a ambos, ou seja, ao descrevermos Deus, temos de evitar usar classes aplicáveis a outros objetos.

Adler lança um alerta contra os discípulos de Kant, que acham que a razão não deve lidar com objetos além da experiência sensorial, como é o caso de Deus. Ora, basta a ciência moderna, que lida com buracos negros, prótons, inconsciência etc., conceitos esses que a lógica moderna chama de constructos teóricos em contraposição aos conceitos empíricos, para dispensar qualquer espistemologia kantiana de nossa parte.

Como formular uma descrição de Deus?

O primeiro passo que Adler adota para formular uma descrição de Deus é lançar mão do chamado “argumento ontológico”, de Anselmo. Esse argumento nos ajudará a compor a descrição, embora Adler insista em lembrar-nos que não considera o argumento ontológico como válido como prova da existência de Deus.

Segundo Anselmo, (1) se pensarmos num ser cuja grandeza maior não há (isto é, o ser supremo), segue-se que (2) este ser tem de necessariamente existir pois, de outra forma, não seria o ser supremo, mas algo inferior a ele, além de (3) não poder não existir, ou seja, sempre existiu e sempre existirá.

O segundo passo que Adler adota para formular uma descrição de Deus é investigar a seguinte questão: “Se Deus reamente existisse, como seria a existência dele?”

Há três respostas possíveis: (a) Deus é totalmente diferente das outras coisas, (b) Deus é totalmente semelhante às outras coisas e (c) Deus é tanto diferente quanto semelhante às outras coisas.

A primeira resposta é incompatível com a pergunta porque há uma suposição, que consta na própria pergunta, que diz: “Se Deus realmente existisse”. Ora, se Deus fosse totalmente diferente de tudo, então não teria real existência.

A segunda resposta insinua que Deus é corpóreo, material, físico. Mas como Deus não pode ser parte do cosmos (senão Deus não seria supremo), nem o cosmos parte de Deus (senão o cosmos não seria a totalidade do mundo), nem o cosmos igual a Deus (senão o cosmos seria a coisa cuja grandeza maior não haveria), temos de descartá-la.

A terceira resposta, portanto, é a única resposta possível: Deus é diferente de tudo por ser imaterial e semelhante a tudo na medida que sua existência real e a existência real do mundo é analógica, não-unívoca, ou seja, Deus e as coisas do mundo existem enquanto objetos de pensamento, mas diferenciados entre aquilo que é corpóreo e incorpóreo, material e imaterial, físico e espiritual, natural e supernatural.

Em resumo, o objeto de pensamento “Deus” possui as seguintes notas descritivas:

(1) é o ser supremo
(2) possui existência real no sentido analógico do termo
(3) é imaterial, incorpóreo, não-físico
(4) é supernatural (conseqüência de ser imaterial)
(5) infinito, pois Deus não é um exemplar individual de uma classe de coisas cuja existência é finita
(6) eterno, pois a existência de Deus é necessária, e não contingente, como as coisas do mundo que nascem/morrem. Por ser necessária sua existência, Deus é independente, incondicionado, incausado e, acima de tudo, possui “aseidade” (do latim a se, isto é, existência em, através e de si mesmo.

Como inferimos a existência de Deus?

Antes de versarmos sobre a existência de Deus, versemos sobre como inferir a existência de qualquer coisa. As inferências existenciais dividem-se em dois tipos:

(a) inferências a respeito da existência real de uma entidade singular única; por exemplo: “os avós do meu amigo existem”.
(b) inferências a respeito da existência real de entidades singulares de uma dada classe de entidades; por exemplo: “elétrons existem”.

Quanto ao 1º tipo, só podemos confirmar a dada inferência por meio do contato direto perceptual. O Abominável Homem das Neves, por exemplo, pode ter sua existência inferida por alguém que o viu pessoalmente ou por alguma evidência perceptual (as pegadas na neve do Himalaia).

Quanto ao 2 º tipo, sua inferência só pode ser feita caso a existência de tais entidades seja necessária para a explicação de certo fenômeno. É a famosa regra de William of Ockham. A navalha de Ockham elimina as hipóteses cuja existência é dispensável. Os constructos teóricos que se salvam da navalha permanecem, no entanto, apenas hipóteses.

Para ambos os tipo, as inferências não podem ser chamadas de “provas”, como a força de uma prova matemática ou geométrica. Assim como num tribunal, os vereditos baseiam-se na preponderância das evidências ou além da dúvida razoável, mas ainda estão num grau abaixo da prova.

No caso da existência de Deus, por ser Deus inclassificável, sua inferência é uma mistura das características dos dois grupos, tornando-a única e singular. Ao contrário dos buracos negros ou dos elétrons, a existência de Deus não é inferida por experimentos ou observações, mas pela existência de entidades individuais ou do cosmos como um todo. No caso do elétron, o constructo teórico e derivado de observações. No caso de Deus, o constructo teórico é justamente o ponto de partida. No caso do elétron, qualquer observação incongruente pode invalidar o constructo teórico. No caso de Deus, isso não é possível.

Adler lembra ainda que o argumento ontológico de Anselmo falha porque implica em assumir a existencia de Deus como auto-evidente. Ocorre que as proposições existenciais nunca são auto-evidentes, isto é, nunca são necessariamente verdadeiras, cujo oposto é impossível. O fato de termos uma noção daquele objeto de pensamento em mente não o torna automaticamente verdadeira, mesmo que na descrição dessa noção esteja incluída a nota de que tal existência seja necessária. Adler acredita ter driblado o argumento ontológico ao propor se Deus existisse, como ele seria. Tudo não passou de uma hipótese.

Chegamos ao ponto de apresentarmos o chamado “argumento cosmológico” para a existência de Deus. Adler considera o melhor argumento, mas não livre de falhas. Para explicá-lo, é necessário antes explicarmos três termos utilizados pelo argumento cosmológico:

(a) Ser contingente. É aquele cuja existência depende da existência de outro ser. Em outras palavras, é um ser cuja existência se dá em, para e por meio de outro ser. Em latim, diz-se que sua existência é ab alio.

(b) Ser necessário. É aquele cuja existência não é causada, é independente. Em latim, diz-se que sua existência é a se.

(c) Causa do ser (causa essendi). É a causa que não explica somente o movimento/alteração/geração das coisas. Essas seriam causa fieri, como a bola de bilhar empurrada pelo taco ou o filho gerado pelos pais. Uma vez que as causa fieri cessam de atuar, a existência dos efeitos não cessa. Uma bola de bilhar não deixa de existir porque o taco cessou de empurrá-la. Similarmente, não foi o taco o responsável por sua existência. Portanto, a causa essendi deve explicar tanto a existência do ser quanto sua causa eficiente. Por exemplo, o oxigênio não é a causa essendi do fogo porque não foi ele o responsável por sua causa eficiente, mas sim o fósforo.

A partir do entendimento dos três termos acima, podemos adotar 5 premissas:

(1) A existência de um efeito implica a existência de sua causa.
(2) Aquilo que existe ou precisa ou não precisa de uma causa essendi.
(3) Um ser contingente é aquele que precisa de uma causa para sua existência a cada instante que dure sua existência, caso contrário é reduzido a aniquilação.
(4) Nenhum ser contingente é capaz de causar a existência de outro ser contingente, mas apenas ser a causa fieri de outro ser contingente.
(5) Os seres contingentes existem neste mundo e continuam a existir desde sua geração até seu perecimento.

Então, o argumento (ou inferência) cosmológico conclui que um ser necessário é a causa que age para sustentar a existência de seres contingentes. Ou seja, em suma, dado que seres contingentes existem, então Deus existe.

Por que este argumento cosmológico é falho?

Por causa de duas falhas presentes na premissa (3):

(a) Não é verdade que uma causa é necessária para explicar a existência de um ser. Adler usa o exemplo da lei da inércia. Uma vez que o taco atinge a bola e a coloca em movimento, essa bola continuaria a se mover não fosse a existência de causas eficientes contrárias ao movimento (atrito etc). Caso contrário, a bola moveria-se indefinidamente, sem uma causa que lhe imprima o efeito. Similarmente, as coisas naturais, uma vez geradas, também existiriam perpetuamente não fossem outras causas naturais que as fizessem perecer.

(b) Não há nada no mundo, nenhuma evidência, que nos mostre que coisas são aniquiladas ou exniquiladas. Quando algo perece, não há aniquilação mas transformação de uma coisa em outra. Isto significa que a contingência das coisas não é radical (ser/não ser), mas superficial (ser uma coisa/ser outra coisa).

Como corrigir o argumento cosmológico?

Adler acredita que o argumento acima não é verdadeiramente cosmológico porque não se fundamenta no cosmos como um todo.

Adler explica que a existência do cosmos tem de ser radical, isto é, não pode ser superficial. Ora, o cosmos, ou seja, a totalidade de todas as coisas, não pode transformar-se em outra coisa pois continuaria a ser o cosmos. Isso se explica pelo fato de o cosmos não ser como os outros seres individuais, cuja origem é a transformação de algo para perecer transformando-se em outro algo. Afinal, este algo teria sido o próprio cosmos. Similarmente, a totalidade de todas as coisas (cosmos) não perece transformando-se porque isso, para o cosmos, não seria um perecimento, mas simples continuação de sua existência enquanto totalidade de todas as coisas.

A partir desda compreensão, Adler estabelece as 4 premissas de seu argumento cosmológico:

(1) A existência de um efeito que requer a correspondente existência de uma causa implica na existência dessa causa.

(2) O cosmos como um todo existe.

(3) A existência do cosmos é radicalmente contingente, de maneira que, embora não precise de uma causa efeiciente que o tenha gerado (supondo o cosmos perpétuo no tempo passado), exige uma causa eficiente que o afaste da aniquilação.

(4) Dado que o cosmos precisa dessa causa eficiente que o sustente, tal causa não pode ser natural, mas sobrenatural, já que causas naturais não são capazes de aniquilar nada.

Por que o cosmos é contingente?

O cosmos é contingente porque ele é apenas um dentre muitos possíveis cosmos. É perfeitamente possível pensar num cosmos diferente, com leis naturais diferentes, com arranjos e ordens diferentes. Este cosmos em que vivemos é um numa pluralidade de cosmos possíveis. Se este cosmos é possível, isso significa que também é possível que o cosmos não exista, assim como qualquer coisa possível (isto é, não-necessária).

Ocorre que um cosmos meramente possível tem de ser um cosmos causado, caso contrário seria um cosmos necessário. O cosmos possível exige uma causa sobrenatural, um ser supremos, que sustente e preserve sua existência.

Deus é, nesta óptica, a causa preservativa do cosmos, uma vez que excluímos Deus de ser a causa criativa do cosmos em nossa premissa de um cosmos perpétuo. Se quiséssemos, poderíamos assumir Deus como a causa criadora do cosmos, já que a premissa adotada não por motivos racionais, mas por uma questão de gosto.

Vale notar que a ação preservativa de Deus é a ação preservativa de todos nós, dado que Deus preserva o cosmos da aniquilação, isto é, preserva todas as coisas da aniquilação.

Diante deste argumento, Adler afirma ter “bases razoáveis para afirmar a existência de Deus”.

14 de março de 2006

Verdade em religião


Em Truth in Religion, Mortimer J. Adler responde a uma pergunta fundamental: Como detectar o que é verdadeiro e falso nas diversas religiões? Originalmente feita em Six Great Ideas, a pergunta procura sondar se há elementos transculturais nas religiões, ou se elas não passam de questão de gosto, como é o caso da culinária, da moda etc.

A resposta, como veremos a seguir, não é de difícil compreensão. Em verdade, a resposta é uma análise das religiões cujos critérios podem ser resumidos no próprio subtítulo do livro -- The Plurality of Religions and The Unity of Truth (A Pluralidade das Religiões e a Unidade da Verdade) -- embora tal subtítulo não seja autoexplicativo, merecendo maiores elucidações. Adler, como sempre, é cuidadoso em preparar o terreno antes de embrenhar-se na resposta.

Mas antes de mergulharmos no raciocínio do autor, algumas considerações merecem ser citadas. Retirei deste estudo as ácidas críticas que Adler dedica a algns filósofos e teólogos (Wendy Doniger O´Flaherty, Joseph Campbell, Harvey Cox e Hans Küng) não porque não concorde com elas, mas porque elas pouco acrescentam ao estudo, servindo apenas para reforçar o argumento de Adler. Como fiz em Six Great Ideas, retirei também as considerações de Adler a respeito da Física Quântica e o princípio da incerteza de Heisenberg, por dois motivos: (1) O assunto merecerá de mim um estudo à parte, pois Adler versa sobre a questão em outras obras, sob diversos ângulos, e (2) o assunto é marginal ao tema aqui tratado.

Ao final, mesmo em posse de sólidos critérios para verificar se uma religião é verdadeira, Adler tece considerações a respeito das religiões do Extremo Oriente que são, no mínimo, polêmicas.

Mais uma vez, peço desculpas ao leitor pela brevidade e simplicidade do estudo. Nem preciso dizer que as palavras são minhas, não do autor, e qualquer barbeiragem nas explicações deve ser debitada em minha conta.

A lógica da verdade

(1) As diversas religiões se opõem principalmente em termos de contrariedade. Um exemplo de contrariedade é a afirmação segundo a qual Deus existe e a afirmação segundo a qual muitos deuses existem. Ambas afirmações não podem ser simultaneamente verdadeiras, mas ambas podem ser simultaneamente falsas. Afinal, um meio-termo entre as afirmações é possível como, por exemplo, a afirmação segundo a qual Deus nem deuses existem. Tal contrariedade é o que chamamos, em lógica, de disjunção fraca.

Raramente as religiões se opõem em termos de contradições. Isso quer dizer que raramente há um choque de afirmações a partir da qual somos obrigados a tomar um dos lados como verdadeiro e o outro como falso, isto é, ambos não poderiam ser simultaneamente verdadeiros nem ambos poderiam ser simultaneamente falsos. Esse tipo de disjunção, incomum às religiões, é o que chamamos em lógica de disjunção forte.

(2) As questões de verdade religiosas, ao contrário das ciências empíricas e racionais, estão além da prova, ou seja, qualquer proposição religiosa tida como correta ou incorreta não pode ser avaliada por pesquisas empíricas ou investigações racionais. Por exemplo, a crença em Deus, o Criador do Céu e da Terra, é um artigo de fé cristão, judaico e muçulmano. Os artigos de fé não podem ser provados ou refutados.

No entanto, mesmo sendo os artigos de fé irrefutáveis, isso não quer dizer que não contenham verdades em si. E se contêm verdades em si, então as crenças religiosas incompatíveis devem ser submetidas à lógica da verdade assim como qualquer proposição científico-empírica, isto é, ambas não podem ser simultaneamente verdadeiras.

(3) Que a verdade é a correspondência do que pensamos ou afirmamos com a realidade, já sabemos do estudo de Six Great Ideas. Mas como podemos determinar ou testar tal veracidade?

Para isso, Adler achou útil introduzir alguns conceitos do pragmatismo na busca da verdade. Em suma, se alegamos que algo seja verdadeiro, isto é, correspondente à realidade, então nossa ação baseada nessa proposição é um dos testes que permitirá julgarmos sua veracidade ou falsidade.

Isso serve apenas para lembrar que, caso sua veracidade seja confirmada, então nosso atual corpo de conhecimento deverá adaptar-se à entrada desta nova verdade, ganhando coerência com o todo.

Tal coerência foi introduzida na lógica da verdade por meio da controvérsia entre Santo Tomás e os defensores de Averróis. Segundo Averróis, há dois tipos distintos de verdade: as verdades da razão e as verdades da fé; sendo que as verdades da razão não entram em conflito com as verdades da fé e vice-versa, ou seja, algo que seja cientificamente ou filosoficamente verdadeiro poderia ser simultaneamente falso na fé religiosa.

Santo Tomás sustentava o contrário: ambas as verdades são do mesmo tipo, podendo entrar em conflito uma com a outra. Santo Tomás chamava de "averroísta" todo aquele que afirmava que as crenças religiosas e as proposições científicas não fazem parte do mesmo tipo de verdade. Ele ensinava que a verdade é um todo coerente e íntegro.

(4) Mas como os conflitos entre a religião e as outras partes da verdade devem ser resolvidos?

Adler conhece apenas uma maneira: o método de Santo Agostinho para interpretar as Escrituras Sagradas. Há duas regras, segundo Santo Agostinho, para interpretar as Escrituras Sagradas:
  1. Abrace as Escrituras Sagradas sem titubear, pois elas são a verdade revelada.
  2. Se uma dada interpretação das Escrituras Sagradas for provada falsa, abandone-a imediatamente.
E para provar se uma dada interpretação das Escrituras Sagradas é falsa, Adler apela para a doutrina da unidade da verdade de Santo Tomás, conforme descrita no item (3) acima. Por exemplo, se os especialistas em Inteligência Artificial lograrem êxito na construção de uma máquina indistingüível da inteligência humana, então a crença cristã na imortalidade da alma deverá imediatamente ser quesionada, uma vez que ela, por sua vez, está baseada na imaterialidade do intelecto humano.

Modernamente, julga-se conflitante a crença numa dimensão espiritual da realidade e as descobertas da física. Porém, o verdadeiro conflito não é com o conhecimento científico propriamente dito, mas com o materialismo dogmático dominante entre os cientistas. A existência dos anjos não é algo impossível. Uma proposição existencial pode ser provada, mas uma proposição existencial negativa não pode ser provada. Eis a fraqueza dos ateístas: tudo o que fazem é fornecer argumentos retóricos, não lógicos, cujo objetivo é desacreditar, e não refutar, a crença em Deus, anjos etc.

Mitologia e Religião

É necessário que estudemos alguns tópicos em religião, antes de concluirmos nosso raciocínio a respeito se há verdade nela, e como detectá-la.

(1) O que é religião? Segundo Adler, "Religião é uma forma organizada e institucionalizada de crença e conduta humanas que envolvem comunidades constituídas de tal maneira que um indivíduo e membro dela ou está fora dela, sendo que tal comunidade de membros consiste num número grande de pessoas". E eis as características que as religiões devem possuir:
  1. Alguma forma de adoração.
  2. Separação entre o que é sagrado do que é profano.
  3. Separação entre sacerdocidade e laicidade.
  4. Um código de leis, preceitos ou prescrições religiosas.
  5. Obrigação de seus membros afirmarem como verdadeira uma série de crenças explícitas, que constituem o credo.
(2) Como são classificadas as religiões? Elas são, grosso modo, classificadas da seguinte forma:
  1. Religiões que possuem uma ortodoxia, ou seja, credos explícitos na forma de artigos de fé dogmaticamente declarados vs. Religiões que possuem apenas uma ortopraxia, ou seja, prescrições explícitas e ortodoxia implícita.
  2. Religiões que afirmam uma ou mais divindades, chamadas de religiões teológicas monoteístas ou politeístas vs. Religiões que afirmam características espirituais do cosmos, chamadas de religiões cosmológicas.
  3. Religiões com pouco conteúdo mitológico vs. Religiões com muito conteúdo mitológico.
  4. Religiões que alegam base em Revelações, possuindo perfil mais religioso vs. Religiões que não alegam base em Revelações, possuindo perfil mais filosófico.
No quadro abaixo, preparado por Adler com o auxílio da Profª Wendy Doniger O´Flaherty, constam as grandes religiões e suas características aproximadas, segungo os critérios acima:
(3) Qual a relação entre mitologia e religião? Uma coisa é um mito quando ela é uma ficção, e não um fato. Todas as religiões devidamente institucionalizadas (especialmente as que possuem credos explícitos) são mitológicas.

As religiões contêm verdades poéticas, não verdades lógicas. Se forem tomadas como fatos, e não como ficção (um dos erros cometidos pelos cientistas e pelos religiosos fundamentalistas), todas as religiões seriam falsas. As religiões não são histórias propriamente ditas (embora contenham trechos eminentemente históricos, aos quais, sim, se apliocam os critérios das verdades lógicas), mas mitos, que formam a substância das verdades lógicas e factuais declaradas em suas doutrinas.

Mas o fato de serem mitos (verdades poéticas) não lhes subtrai seu significado. Pois algo pode ser perfeitamente significativo sem ser factualmente verdadeiro. É o caso, por exemplo, dos romances.

Não faz sentido tentar desmitificar trechos das Escrituras Sagradas quando eles não subtraem ou obscurecem as verdades lógicas e factuais da doutrina religiosa.

As estórias do Jardim do Éden, de Adão e Eva etc. são mitos, mas cheios de significados a serem extraídos por uma interpretação não-literal e não-narrativa.

A Verdade em Religião

(1) Adler afirma não ser permitido aplicar a lógica ocidental às culturas do Extremos Oriente porque lá ela não tem autoridade. O Extremo Oriente vive num estado psicologicamente esquizofrênico, aceitando de maneira latente, senão explicitamente, o averroísmo.

Em relação às religiões politeístas, dado que é possível provar a existência de Deus, criador do cosmos, tal prova acaba por refutá-las. Elas são incompatíveis com a teologia filosófica.

Em relação às religiões cosmológicas, dadas as verdades sobre o cosmos que as ciências naturais nos trazem, tudo aquilo que é incompatível com elas é falso. Elas são incompatíveis com a ciência empírica.

Como as religiões do Extremo Oriente são averroístas, tal incompatibilidade seguem olimpicamente ignoradas.

(2) Se esquecermos por um momento a ortodoxia das religiões e nos concentarmos em suas ortopraxias, veremos que elas aproximam-se em maior grau.

As doutrinas morais, em sua base, devem possuir uma filosofia moral consistente e sólida. As prescrições, para serem verdadeiras, têm de ser embasadas por verdades descritivas ou factuais. Por exemplo, a Regra de Ouro ("não fazer aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você") é afirmada por todos as grandes religiões, sejam ocidentais ou orientais. O pressuposto desta Regra é a verdade de que os homens diferem em tipo, não somente em grau, dos animais. Você não deve tratar os animais a partir do ensinamento desta Regra.

Mas esta observação é paralela, uma vez que o fato de as religiões compartilharem essas verdades filosóficas por meio de suas ortopraxias não tem a ver com uma igual equivalência entre suas crenças não-filosóficas.

Conclusão

A partir de tudo o que foi dito, Adler extrai dois princípios fundamentais a respeito da verdade em religião:

(a) Princípio da unidade da verdade. As diversas partes do todo da verdade devem ser mutuamente compatíveis, não importa de que maneira tais partes da verdade tenham sido extraídas ou recebidas.

(b) Princípio da transculturalidade. Num dado tempo qualquer, as verdades tecnológicas, matemáticas e das ciências naturais são transculturais; poranto, tudo aquilo que declare ser verdadeiro deve ser compatível com essas verdades científicas.

Se a religião e a filosofia são transculturais, suas verdades declaradas devem ser compatíveis com as verdades científicas. E, se for este o caso, então a teologia filosófica deverá ser adotada como critério para decidir o que é ou não é verdadeiro nas religiões.

É por isso que Adler não considera as religiões do Extremo Oriente como verdadeiras. Como não aceitam um Deus, mas muitos deuses independentes e des-hierarquizados, as religiões orientais politeístas vão de encontro à verdade do monoteísmo, provada pela teologia filosófica. Similarmente, as religiões orientais cosmológicas não aceitam (ou ignoram) as verdades sobre o cosmos provadas pela ciências naturais.

Adler conclui que apenas Judaísmo, Cristianismo e Islã podem ser consideradas religiões coerentes tanto com a teologia filosófica quanto com as ciências naturais.

Minha opinião é que Adler, embora correto ao delinear os princípios que ajudam a identificar religiões falsas ou incoerentes, está provavelmente errado ao condenar as religiões do Extremo Oriente segundo seus próprios critérios. Adler aparentemente aceita lugares-comuns ocidentais a respeito das religiões orientais ou simplesmente está mal informado. Talvez teria lhe feito bem tomar contato com os escritos perenialistas, como René Guénon, Fritjhof Schuon ou Ananda Coomaraswamy, o que provavelmente não lhe teria pedir muito, já que sua composição ideológica é essencialmente grega (Platão e Aristóteles) e cristã tradicional (Santo Agostinho e Santo Tomás).

Por exemplo, segundo informações de meu bom amigo Alexander Gieg, no Xintó "diz-se haver 8 milhões de divindades (kamis). Mas cuidado para não confundir: politeísmos "strictu sensu", isto é, onde os deuses são encarados como entes distintos e mutuamente independentes [justamente aquilo que Adler julga ser o Xintoísmo e demais religiões do Extremo Oriente], são religiões decaídas que perderam seu núcleo espiritual. Já os politeísmos tradicionais reconhecem que os deuses todos são na realidade expressões particulares de um princípio espiritual único, sendo no fundo, portanto, monoteístas".

2 de março de 2006

Seis Grandes Idéias

Eis um breve resumo da obra mais famosa de Mortimer J. Adler depois de How to Read a Book: Six Great Ideas. Inspirado numa série de palestras que o autor proferiu no Aspen Institute, Six Great Ideas é, ao lado de Aristotle for Everybody, um apanhado geral do pensamento deste filósofo americano. Maiores detalhes de sua filosofia podem ser encontrados em livros que tratam de certos temas específicos. Sua visão em política (bastante controversa), por exemplo, é aprofundada em Haves Without Have-Nots; sua visão em metafísica em How to Think About God, The Angels and Us, Intellect: Mind over Matter e Truth in Religion; sua visão em estética em Art, the Arts, and the Great Ideas; sua visão em ética em The Time of Our Lives; sua visão sobre a Filosofia em The Four Dimensions of Philosophy; e assim por diante.

Fiz o estudo em forma de perguntas e respostas, nem sempre respeitando a divisão original em capítulos. Como se trata de um resumo pessoal, boa parte do raciocínio de Adler não está explicitamente descrito, mas pode ser derivado a partir do que aqui está exposto.

Introdução Geral

O que o autor espera do leitor, ao final da leitura?

Espera-se que o leitor, ao final da leitura, tenha conhecimento dos diversos significados de cada idéia, sendo capaz de lidar melhor com as questões que se lhe apresentarem no dia-a-dia, indo além do elementar.

O que é uma “idéia”?

Uma idéia, no sentido utilizado por Adler, não é o conteúdo de nossos pensamentos, como quando dizemos “Tive uma idéia”. Uma idéia é um objeto de pensamento, algo sobre o qual todos podemos versar. Uma analogia poderá nos ajudar a entender isso: se alguém me ajuda a vestir uma jaqueta, ambos teremos impressões distintas dela; no entanto, mesmo assim, a jaqueta será uma e a mesma jaqueta para ambos, ou seja, será o mesmo objeto para ambos. É por isso que Platão estava certo ao afirmar que as idéias existem enquanto objetos. Mas, acredita Adler, Platão estava errado ao atribuí-las existência independente das mentes humanas. Ou seja, se eu paro de pensar sobre gatos, isso não quer dizer que a idéia de gato deixe de existir. Mas se todas as mentes do mundo pararem de pensar sobre gatos, então a idéia de gato não mais existirá.

Por que devemos estudar as grandes idéias?

Devemos estudar as grandes idéias porque elas fazem parte do vocabulário de todas as pessoas. Ao contrário do vocabulário de um especialista, que é recheado de termos técnicos e específicos, as grandes idéias são de uso comum, mesmo que em variados graus. Como a ciência que lida com as idéias é a Filosofia, segue-se que a Filosofia deveria ser do interesse de todos. Como a Filosofia não lida com objetos sensíveis ou imagináveis, não empreende pesquisas científico-investigativas, não precisa de dados provenientes de outras ciências para ser aplicada (como é o caso da Física, da Economia, da Matemática etc), todos estão, em princípio, aptos a estudá-la.

Quais as grandes idéias versadas pelo autor?

As idéias versadas pelo autor são estas:

· Verdade
· Bondade
· Beleza
· Liberdade
· Igualdade
· Justiça

Por que o autor escolheu especificamente estas idéias?

O autor escolheu estas idéias porque são elas, na maioria dos casos, que iluminam o entendimento sobre as outras grandes idéias. As primeiras três idéias, que são as principais, referem-se a idéias com as quais julgamos coisas e pessoas. Elas são necessárias, mesmo se vivêssemos sozinhas numa ilha deserta. As últimas três idéias referem-se a idéias com as quais julgamos e convivemos. Se vivêssemos sozinhos numa ilha deserta, seu estudo seria inútil.

1) Verdade

O que é verdade?

Há duas definições de verdade, que correspondem aos dois tipos de verdade:

I) Verdade discursiva. Verdade é quando o que se fala ser aquilo que se pensa. Por exemplo: "Acho que este é um bom livro". Se, apesar disso, penso que o livro é ruim, então estarei mentindo.

II) Verdade de pensamento. Verdade é quando o que se fala corresponder à realidade dos fatos e das coisas. Por exemplo: "Este livro tem 500 páginas". Se, apesar disso, o livro tiver na realidade apenas 242 páginas, então estarei mentindo.

Em suma, dizer a verdade é colocar os predicados ontológicos no lugar certo, isto é, dizer "é" quando é e "não é" quando não é.

É possível duvidar da existência da verdade?

Sim, é possível duvidar da existência da verdade. Há desde as formas extremas de ceticismo, como a do filósofo grego Pirro, até formas mais brandas de ceticismo, como a de David Hume. A forma extrema é facilmente dispensável, uma vez que se autocontradiz ao afirmar que nada é certo ou verdadeiro.

Os céticos brandos ou moderados podem ser divididos em três grupos:

I) Aqueles que pensam ser sempre saudável duvidar um pouco dos julgamentos a respeito do que é certo ou errado, ou do que é verdadeiro ou falso. Esta é a posição adotada por David Hume.

II) Aqueles que pensam que o que é verdade para mim pode não ser verdade para você. Chamamos tal posição de relativismo ou subjetivismo.

III) Aqueles que pensam que o que era verdade ontem pode não ser verdade hoje.

Das três posições acima, apenas a última é digna de ser adotada porque não nega, em si, a objetividade da verdade, mas apenas enfatiza sua porção subjetiva, que pode, sim, mudar. Por exemplo: a Terra nunca foi plana, apesar de agumas pessoas sustentarem essa opinião no passado. Sempre foi verdade que a Terra não é plana, ontem e hoje. Se não fosse pelo terceiro ceticismo, estaríamos até hoje convictos de que a Terra é plana. Este terceiro ceticismo, portanto, é saudável na medida em que nos faz lembrar de quão poucass afirmações podemos ter certeza absoluta.

Quando algo deixa de ser duvidoso e passa a ser certo? Quando acaba a dúvida e começa a certeza?

O critério para identificar aquilo que é conhecimento líquido e certo é o seguinte:

I) O julgamento estabelecido não pode ser questionado por novas evidências.

II) O julgamento estabelecido não pode ser questionado por novas reflexões, raciocínios etc.

Ou seja, a diferença entre os julgamentos práticos que fazemos no dia-a-dia e a certeza genuína é a finalidade (isto é, quando já chegou ao fim) e a incorrigibilidade do julgamento indubitável. Por isso, mesmo as ciências (Biologia, Psicologia etc.) não são conhecimento, no sentido forte do termo, porque têm futuro (cf. o terceiro ceticismo branco acima), isto é, podem ser questionadas e melhoradas.

Conhecimento strictu sensu são somente as chamadas verdades auto-evidentes ("triângulo não tem diagonal", por exemplo) e as evidências perceptuais (a percepção direta dos objetos ao nosso redor).

Quando algo é verdadeiro e objetivo e quando é apenas uma questão de gosto pessoal, subjetivo?

A esfera da verdade é aquela na qual não há intromissão de emoções, preferências pessoais e wishful thinking (p.ex.: Matemática, Biologia etc.). Nessa esfera, a correção de disputas e discórdias é uma obrigação, como diz o lema de veritate disputandum est. É uma esfera transcultural e global.

A esfera do gosto é aquela na qual está em jogo questões puramente pessoais (p.ex.: culinária, moda etc.). Sobre elas, não vale a pena discutir, como diz o lema de gustibus non diputandum est.

Nos casos específicos da Filosofia e da Religião, Adler acredita que ambas não são nem 100% questão de verdade nem 100% questão de gosto. A Filosofia, entende Adler, mostrou-se muito menos concorde ao longo dos anos do que a Matemática ou a Biologia. Tal elevado grau de irreconciliabilidade não permite que classifiquemos a Filosofia inteiramente como uma questão de verdade. Raciocínio semelhante vale para a Religião. Há algo, nessas duas áreas, que escapa à análise puramente racional. No caso da Religião, Adler dedicou um livro específico, a ser estudado em breve aqui.

2) Bondade

Qual a diferença entre verdade e bondade?

Enquanto "verdadeiro" e "falso" são termos que aplicamos ao conteúdo de nossas mentes estar de acordo com a realidade, os termos "bem" e "mal" (ou "bom" e "mau") são aplicados às coisas em relação a nossos desejos.

Mas pode uma afirmação prescritiva ("você deveria fazer isto, pois é bom, e não aquilo, pois é mau") ser classificada de verdadeira ou falsa?

Sim, as prescrições não são puramente subjetivas, isto é, puramente questão de gosto. Para entendermos o porquê, temos de ampliar o escopo do que é verdadeiro. Aristóteles ensina um outro modo de verdade: a conformidade do julgamento ao desejo certo. Esse modo é o que se aplica às prescrições.

O que é desejo certo?

Desejo certo é aquilo que temos de desejar. E o que temos de desejar são os bens reais, ou seja, aqueles que herdamos de nossa natureza humana, presente em todos os indivíduos (são os needs). Ao contrário, os bens aparentes são aqueles que adquirimos ao longo da vida, que são circunstanciais, pessoais, individuais (são os wants). Podemos até mesmo desejá-los, desde que não interfiram na aquisição dos bens reais.

Um dos needs dos homens é o conhecimento, por exemplo.

Quais são esses bens?

Para melhor entendermos quais são esses bens, é útil elaborarmos algumas outras classificações, além da divisão básica entre bens reais e bens aparentes já delineada.

I) Bens que desejamos ter: podem ser reais ou aparentes. Subdividem-se em:
a) Posses, como riquezas e amigos. São sempre externas ao indivíduo.
b) Perfeições, como saúde. São sempre internas ao indivíduo.
ou
c) Bens por escolha, como bons hábitos e conhecimento. São sempre internos ao indivíduo.
d) Bens por acaso, como boa criação, amigos e riquezas. São sempre externos, pelo menos em parte, e dependem de sorte.

II) Bens que desejamos fazer: são as ações que são boas para nós porque nos fazem aproximar de nossos needs (ou, pelo menos, beneficiam outras pessoas), cujos bens resultantes são sempre reais. Por exemplo, quando agimos com correção e justiça em sociedade.

III) Bens que desejamos ser: é a excelência de um bom homem. Um bom homem é aquele que alcançou as perfeições que preenchem suas potencialidades de ser humano, e contam com a participação dos bens que desejamos ter e fazer. São sempre bens reais. Os bens que desejamos ser são medidos em graus de existência, por meio da actualização de nossas potencialidades. Por exemplo, segundo Santo Agostinho, é melhor ser um rato do que uma pérola porque o rato pode actualizar e melhorar suas capacidades, enquanto a pérola não.

A quais bens devemos dar prioridade?

Devemos dar o menor nível de prioridade aos bens que não são bens em si, mas meios para se alcançar outros bens melhores. Neste patamar encontram-se todos os bens externos.

Devemos dar um nível intermediário de prioridade aos bens que tanto podem servir como meio para alcançar outros bens melhores como podem ser bens em si. Neste patamar encontram-se, por exemplo, riqueza e saúde.

Devemos dar o maior nível de prioridade aos bens que são bens em si. Neste patamar encontram-se as perfeições, como o conhecimento.

Qual o maior bem de todos?

Não há exatamente um maior bem de todos. O que há é um bem que engolba todos os outros bens da escala de bens exposta acima. Trata-se da felicidade. É importante notar:

(1) A felicidade não é um bem terminal e superior aos outros bens (isto é, não é o summum bonum), mas é a totalidade de todos os bens (totum bonum). É o bem, e não apenas um bem.

(2) A felicidade não é um bem que possa ser plenamente atingível em vida pois a felicidade se define como uma vida preenchida pelos bens reais que todos necessitamos, além dos bens aparentes que este ou aquele indivíduo possa querer. Sendo "uma vida", não é possível haver um momento na vida em que se possa dizer "agora sim sou feliz". Somente no além, conforme ensinam os religiosos, há um estado terminal de felicidade, como a desfrutada pelos santos na presença de Deus.

(3) A felicidade pode diferir de um indivíduo para outro por causa dos bens aparentes que decidam buscar. Lembre-se que os bens aparentes fazem parte da definição de felicidade.

(4) A felicidade não é ilusória. Embora não possamos alcançá-la em plenitude aqui, podemos desfrutar de um grau ou porção dela. Cada indivíduo, então, terá seu grau de felicidade.

Como alcançar a felicidade?

Como dizia Santo Agostinho, "Feliz é o homem que no decurso de uma vida completa tem tudo o que deseja, desde que não deseje nada de errado".

Isso quer dizer que há dois fatores indispensáveis na busca da felicidade: (a) hábitos de escolher aquilo que é compatível com o alvo certo (virtude moral) e (b) ser abençoado com sorte, isto é, com as circunstâncias externas que facilitem a obtenção dos bens reais e aparentes.

3) Beleza

O que é beleza?

Santo Tomás define a beleza como "aquilo que nos dá prazer ao ser visto". Comidas, bebidas e roupas também nos dão prazer, mas não ao serem vistos, portanto não são passíveis de serem belos. Kant ensina que o prazer que a beleza nos dá deve ser totalmente "desinteressada". Se nós desejamos possuir aquilo que nos dá prazer ao ser visto, então deixa de ser belo.

Vale lembrar que "ver" vem do latim visum, que tem o sentido de contemplar, de conhecimento mental. É o que ocorre quando dizemos: "Vejo que você tinha razão". Isso inclui, se nos detivermos na definição de beleza acima, as músicas, poemas, e até mesmo a beleza encontrada em demonstrações matemáticas.

Essa contemplação, Kant notara, está destituída de conceitos, ou seja, está restrita a aquele objeto individualmente, em si e por si.

Há algo de objetivo na beleza? Ou é ela toalmente subjetiva?

Vimos na resposta acima que a beleza é aquilo que nos dá prazer ao ser visto. É a chamada beleza desfrutável, subjetiva, que varia de indivíduo para indivíduo. Mas a beleza nem sempre é uma questão de gosto.

Há um outro tipo de beleza, que chamamos de beleza admirável. A diferença é que enquanto a beleza desfrutável é imediata, a beleza admirável é mediada pelo pensamento e depende do conhecimento. O admirável é aquilo que possui excelência ou perfeição intrínseca, cujas partes estão coerentemente em ordem, formando uma unidade proporcional e clara.

O admirável exige um gosto superior (mais ainda gosto) ao desfrutável. Um expert admira uma pintura e, por conseguinte, desfruta dela. Um leigo poderá não desfrutar dela porque lhe falta a educação e treino para tanto; ou até mesmo poderá desfrutar dela, mas sem saber por quê.

No entanto, o admirável está objetivamente ligado às propriedades intrínsecas do objeto. Ao contrário da beleza desfrutável, que está destituída de conceitos, a beleza admirável depende de conceitos, tipos e classes. É por isso que um connoisseur de quadros não pode ipso facto ser um connoisseur de cães ou pérolas.

Conclusão: há, sim, objetividade na beleza, mas é necessário um gosto superior, treinado, conceitual (subjetivo, portanto) por parte do observador para detectá-la e, assim, admirá-la.

4) Beleza, bondade, verdade

Qual a relação entre beleza, bondade e verdade?

A beleza admirável é um tipo de bondade. Conforme vimos, a bondade de algo é comensurável pelo grau de seu ser, pela capacidade de actualizar e desenvolver suas potencialidades. Lembremos que, a partir dessa constatação, é melhor ser um rato do que uma pérola.

Mas quando comparamos coisas de mesmo tipo ou espécie (duas rosas, por exemplo), elas também possuem seus respectivos graus de perfeição ou excelência intrínsecos. O grau de excelência admirável é seu grau de bondade enquanto exemplar ou espécie desse tipo. Se uma rosa admirável fosse tida como uma rosa ideal, ela possuiria todas as perfeições que uma rosa ideal teria.

A teologia nos explica esse tipo de bondade. A excelência existencial de uma rosa, medida pelo seu grau de ser, reflete a bondade existencial de Deus enquanto Ser Supremo. Essa bondade existencial leva a uma verdade existencial, também identicamente intrínseca na beleza admirável. A rosa ideal, então, possui um si verdade e beleza existenciais que refletem (ou estão em conformidade) como que é uma rosa ideal na mente de Deus.

5) Justiça, liberdade, igualdade

Qual a relação entre justiça, liberdade e igualdade?

Das três idéias que regulam nossas ações em sociedade, apenas a justiça é um bem ilimitado, isto é, nunca é um bem que possuímos em excesso.

A liberdade ilimitada, como querem os libertários, acaba produzindo desigualdade de condições.

A igualdade ilimitada, como querem os igualitários, acaba produzindo falta de liberdade individual.

A justiça regula esses excessos, permitindo o exercício da liberdade ao mesmo tempo que exige certo grau de liberdade de condições.

6) Liberdade

Quais os tipos de liberdade?

Há três tipos de liberdade:

I) Liberdade inerente à natureza humana (liberdade natural). É o chamado livre arbítrio ou livre escolha.

II) Liberdade associada à sabedoria e à virtude moral (liberdade adquirida). Às vezes é chamada de liberdade moral. A virtude consiste em habitualmente fazer aquilo que é certo, isto é, escolher os bens reais que temos de desejar. Nossas paixões e apetites geram wants em conflito com os needs, e portanto devem ser controlados.

III) Liberdade dependente de circunstâncias externas (liberdade circunstancial). Ela pode ser possuída em diferentes graus, ao contrário das outras duas, que ou se tem ou não se tem. Consiste em fazermos o que quisermos, não importa se moralmente for certo ou errado.

Esta última liberdade é a que precisa ser regulada pela justiça. Se a liberdade circunstancial for ilimitada, isto é, se eu puder fazer o que bem entender a qualquer hora, isso resultaria num estado de total anarquia, ou de autonomia ("eu sou a lei de mim mesmo"). Há, portanto, a necessidadde de certos limites serem impostos quanto à liberdade cinrcunstancial.

A lei justa comanda ações que devem ser seguidas e proíbe ações que não devem ser feitas. O homem virtuoso continuará, sob um governo justo, a fazer o que quiser, pois ele faz aquilo que a lei já permite e não faz aquilo que a lei já proíbe.

Aristóteles ensina que o homem virtuoso faz livremente aquilo que o criminoso faz por temor à lei. Uma lei injusta diminui a liberdade do homem virtuoso.

Como é uma sociedade justa, em relação à liberdade?

Numa sociedade justa, temos direitos que correspondem aos nossos needs (saúde, conhecimento etc.). Chamamos a esses direitos de direitos naturais.

Mas o homem, ao contrário das abelhas e formigas, não é um ser meramente gregário. Ele é também político. Isso quer dizer que não agimos baseados apenas em instintos, mas também no exercício do raciocínio. Ou seja, as sociedade humanas não são apenas naturais, mas são convencionais.

É por isso que Aristóteles dizia que o homem é um animal político. Por isso, um outro direito natural é o de liberdade política, com as exceções de praxe: doentes mentais, crianças e criminosos.

7) Igualdade

Quais são os tipos de igualdade?

Podemos abordar a igualdade de três modos ou dimensões.

I) a) Igualdade pessoal
- Igualdade natural (genética etc.)
- Igualdade adquirida ( treino, hábito, estudo etc.)

b) Igualdade circunstancial
- Igualdade de condições (todos são iguais diante da lei, p.ex.)
- Igualdade de oportunidade (todos começarem com a mesma riqueza, p.ex.)

II) a) Igualdade declarativa: é quando se diz que algo é ou não é igual. A igualdade declarativa é válida tanto para a igualdade pessoal quanto para a circunstancial.

b) Igualdade prescritiva: é quando se diz que algo deve ou não deve ser igual. A igualdade prescritiva vale apenas para a igualdade circunstancial, simplesmente por que não faz sentido para a igualdade pessoal. P.ex.: todos devem poder votar.

III) a) Igualdade de grau. P.ex.: numa democracia moderna, todos podem votar, mas alguns acabam tendo mais poder político do que outros (uns são funcionários públicos nomeados, outros são delegados de polícia, outros são deputados, senadores, governadores, presidentes etc.). Todos tem um mínimo de poder político, mas uns têm mais poder político do que outros. É a desiguadade de grau.

b) Igualdade de tipo. P.ex.: numa democracia antiga, nem todos podiam votar. Isso significa que havia entre o não-eleitor e o eleitor uma desigualdade política de tipo. Uns tinham um mínimo de poder político, mas outros não tinham nenhum.

Como é uma sociedade justa, em relação à igualdade?

À exemplo da liberdade, as igualdades a que temos direito devem ser deduzidas a partir da natureza humana, para que preencham os nossos needs.

Os homens são iguais em sua humanidade, ou seja, todos compartilham as mesmas características da espécie humana. Neste aspecto, são todos iguais em tipo.

Portanto, a todos os homens deve ser dado o direito igual e circunstancial em termos políticos e econômicos.

Direitos políticos: Todos têm direito à cidadania com sufrágio, garantindo a todos o direito à participação política. Como vimos, isso garante a todos um direito político igual em tipo, mas não em grau.

Direitos econômicos: Um mínimo de alimento, vestuário, habitação, escolarização (para preencher os needs de conhecimento e habilidade), saúde, tempo livre para lazer e divertimento.

Todos devem ser iguais em tipo e em grau?

Jamais. Vale ressaltar novamente que a justiça requer que todos tenham tais igualdades em tipo, não em grau.
Na esfera política, os homens com maior capacidade e talento se encarregariam de funções que lhes dariam maior poder político.

Na esfera econômica, os homens com maior capacidade e talento se encarregariam de fazer as maiores contribuições à produção de riquezas. Aqueles que contribuem mais têm, com justiça, direito a receber mais.

Na esfera política, é impossível que um homem consiga obter, legalmente, uma quantidade de poder político que chegue a ponto de diminuir (ou destruir) o mínimo de poder político (sufrágio) a que todos têm direito.

Na esfera econômica, as coisas não são assim: é legalmente possível que um ou mais homens obtenham tanta riqueza que chegue a ponto de destruir o mínimo de riqueza a que alguns homens tenham direito. Portanto, no caso da esfera econômica, um limite para o acúmulo de riquezas deve ser estabelecido.

Chamamos de democracia a justa distribuição de poder político. Chamamos de socialismo a justa distribuição de riquezas. Há duas alternativas para alcançar-se o socialismo: pelo comunismo (capitalismo de Estado) e pelo capitalismo socializado (mercado livre, com algumas poucas restrições). Ambos são tipos de welfare state. O comunismo é um meio errado para um fim certo. Segundo Adler, o ideal socialista só pode ser atingido pelo capitalismo de livre mercado.

8) Justiça

Quais os tipos de justiça?

Há dois domínios nos quais a justiça atua:

I) A justiça do indivíduo em relação aos outros indivíduos e ao Estado.

O indivíduo merece ser tratado (ou ele deve tratar) de maneira justa nestes casos: (a) em função de seus direitos naturais (needs), (b) em comparação a outros indivíduos que mereceram mais ou menos sob as mesmas condições (p.ex., é um injustiça quando uma medalha de honra deixa de ser concedida a um soldado mas foi concedida a outro, quando ambos estavam exatamente sob as mesmas condições), (c) agir para o bem comum, isto é, para promover a ordem pública e o Estado de Direito (p.ex., não cometer traição contra a nação, não subornar um funcionário com fins ilícitos etc.).

Repare que todas essas formas de justiça não obrigam o indivíduo a fazer o bem para os outros, mas apenas a fazer o que é devido ou meritório. Do contrário, seria amor, não justiça.

II) A justiça do Estado em relaçao ao indivíduo.

A forma justa de governo é uma república com sufrágio universal, que possua uma constituição que assegure os direitos políticos e econômicos a todos, isto é, uma república democrática e socialista.

Como a lei ganha autoridade?

A autoridade da legislação é derivada das pessoas que a fizeram serem autorizadas a legislar para o bem comum e na própria lei ser justa no cumprimento dos preceitos da justiça natural.

A lei deve, portanto, ter uma fonte autoritativa, isto é, que lhe confira autoridade. É claro que, além disso, a lei precisa da força para que seja cumprida. Afinal, como disse Alexander Hamilton, "Se os homens fossem anjos, o governo não seria necessário".

A posição acima apresentada é a posição naturalista, ou seja, de que a justiça dos direitos naturais precede (é anterior) à formulação da lei. A posição positivista, ao contrário, sustenta que a lei é que determina o que é e o que não é justo. Trata-se, segundo Adler, de um erro tipicamente moderno. Segundo a posição positivista, a lei não pode ser classificada de justa ou injusta, já que é a própria lei que dá a medida de justiça a todo o resto. A lei, para os positivistas, não é justa ou injusta; ela simplesmente é.

Há, é claro, certas convenções e regras (como as leis de trânsito, por exemplo), cuja justiça ou injustiça é conferida pela própria lei. São os casos de mala prohibita. Por exemplo, o fato de um carro trafegar na contramão é injusto apenas porque a lei assim o determina. Se a mão de direção tivesse sido alterada naquele mesmo instante, trafegar na contramão teria sido justo.

Roubar, estuprar, matar a esmo etc. são mala per se, ou seja, mesmo que a lei permitisse tais males, continuariam sendo injustos do mesmo jeito. Os positivistas, como se vê, são incapazes de distinguir entre mala prohibita e mala per se, reduzindo tudo a mala prohibita.

22 de janeiro de 2006

O mistério das duas naturezas de Cristo

Recomendo a leitura do artigo The Mystery of the Two Natures, de James Cutsinger.

Em suma, Cutsinger conclui que a afirmação segundo a qual "Jesus é Deus" está correta, mas sob certo ponto de vista apenas. O erro, segundo ele, seria afirmar que Jesus é Deus e Deus é Jesus , ou seja, que em Jesus estavam presentes todos os atributos de Deus Pai.

Os Pais da Igreja repudiavam esse tipo de raciocínio, e até mesmo há, teologicamente, o nome das três heresias que se seguem a esse raciocínio:

1) A tradição ensina que foi o Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que encarnou-se em Jesus, não a Primeira Pessoa do Pai. Confundir as Pessoas ou, pior, igualá-las, constitui uma heresia chamada monarquianismo modalista.

2) Embora Cristo tenha participado integralmente em cada aspecto de nossa physis humana (exceto o pecado), ele não participava conosco de nossa personalidade humana. Ele era fisicamente homem pois sentia emoções, privações físicas (fome, sede etc.), mas era o Logos encarnado. Pensar que Jesus Cristo foi um "homem excepcional", sobre quem a divindade foi projetada, constitui uma heresia chamada monarquianismo dinamista.

3) As duas naturezas de Cristo estão hipostaticamente ligadas, de maneira que nenhuma eclipsa ou sufoca a outra, numa perfeita communicatio idiomatum. Supor o contrário, ou seja, que a humanidade de Jesus foi sobrepujada pela Divindade que nEle estava manifesta, constitui uma heresia chamada monofisitismo.

Cutsinger lembra que Jesus, embora tenha dito que Eu e meu Pai somos um, disse também Meu Pai é maior do que eu. Isso quer dizer que, embora Jesus seja Deus, ele é a Segunda Pessoa e apenas a Segunda Pessoa, permancendo Absoluto para as criaturas mas subordinado à Primeira Pessoa. É por isso que Jesus orava a Deus Pai. Se Jesus fosse Deus e Deus fosse Jesus, então para quê orar? Temos de admitir que a divindade de Jesus era derivativa, ou seja, Jesus não era a Essência Divina, mas a auto-determinação dessa Essência Divina ao nível do Ser. No entanto, como vimos, o argumento de Cutsinger é refutar a tese exclusivista segundo a qual Jesus = Deus. Dizer que Jesus é Deus está correto, mas a conexão verbal "é" não deve ser entendida como uma igualdade matemática ("Jesus é igual a Deus").

É aqui, nessa igualdade matemática, que muitos cristãos equivocadamente se apegam.

Cutsginer continua, raciocinando da seguinte forma: Ok, Jesus é o Filho de Deus, mas será Jesus o único Filho de Deus? Observem que o argumento do artigo refuta apenas a identidade exclusivista Filho = Pai, mas não o exclusivismo Jesus-único-Filho-de-Deus. Cutsinger afirma que os Pais da Igreja e as diversas fórmulas conciliares jamais deram a entender que Jesus fosse o único Filho de Deus mas admite que, dentro do "planeta" que cada religião representa (nas palavras de Schuon), é perfeitamente compreensível que se desenvolva um grau de egoísmo que contamine os dogmas exotéricos.

17 de janeiro de 2006

A Fé Explicada - O Credo

Em A Fé Explicada (The Faith Explained), cuja primeira edição data de 1959, o Pe. Leo J. Trese procura introduzir o catecismo católico explicando suas principais doutrinas e ensinamentos. O livro é excelente para aqueles que desejam conhecer a posição oficial da Igreja Católica a respeito dos dogmas centrais do Cristianismo mas não querem ainda tomar contato com opiniões e julgamentos alheios. Trese apega-se ao vocabulário utilizado no Catecismo Católico, o que permite ao leitor acostumar-se com ele desde já.

O ponto fraco do livro é que, por vezes, Trese acaba simplificando demais as explicações de certas questões, tornando inevitável o surgimento de dúvidas que só poderão ser sanadas em outras fontes.

O livro é constituído de três partes: (1) O Credo, (2) Os Mandamentos e (3) Os Sacramentos e a Oração. Neste post, resumirei apenas a primeira parte. Futuramente, as outras duas serão acrescentadas. Os nomes dos capítulos foram alterados para facilitar a consulta.

* * *

I - Por que estamos aqui? O que Deus quer de nós?

Por que nos fez Deus? Para participarmos de sua eterna felicidade no céu. A isso chamamos fruição do amor. (Vale lembrar que os momentos que experimentaremos no Céu - chamados de aevum pelos teólogos - não são ciclos temporais, cronometráveis). Essa fruição do amor no Céu exige um princípio de amor aqui na terra. E foi para isso que Deus nos colocou aqui: para que, amando-O, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no Céu. O amor é como os olhos que nos permitem ver aqui na terra; o amor permitirá que "enxerguemos" a Deus no Céu.

E como sabemos se O amamos ou não? Simples: se fazemos o que Ele quer que façamos, então O amamos. É por isso que o amor a Deus reside na vontade, e não nos sentimentos. Não são os gemidos, choros ou gritos que dão testemunho de nosso amor a Deus. E quanto mais fizermos aqui por Deus, tanto maior será a nossa felicidade no Céu. Em conseqüência, uns terão maior capacidade de felicidade que outros.

P: Que devemos fazer para adquirir a felicidade no Céu? R: Devemos conhecer, amar e servir a Deus nesta vida.

Será que Deus nos deixa a sós na tarefa de conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo? Ou seja, será que Deus espera que nossas forças humanas sejam suficientes para cumprirmos essas tarefas? Não. Deus concede um poder sobrenatural aos bem-aventurados (já que a felicidade no Céu será sobrenatural, e não naturalmente humana como a da terra ou do limbo) chamado lumen glorie (luz de glória).

P: Quem nos ensina a conhecer, amar e servir a Deus? R: Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nos ensina por meio da Igreja.

As principais verdades ensinadas por Cristo foram resumidas pela Igreja no Credo dos Apóstolos, o mesmo credo recitado pelos primeiros cristãos (Cornélio, Apolo, Áquila, Priscila e outros). E muitas das revelações divinas foram guardadas na Bíblia Sagrada. No entanto, muitos ensinamentos orais de Cristo e dos Apóstolos não foram registrados na Bíblia, sendo transmitidos de geração em geração por intermédio dos bispos. É o que chamamos de Tradição da Igreja, que, juntamente com a Bíblia, compõem a revelação divina completa, todas as verdades em que devemos crer.

II - Deus é um espírito infinitamente perfeito

Quem é Deus, afinal? Assim como os bebês bêm dos pais e as flores vêm das sementes, tem de haver alguém que não foi feito por outro, que tenha existido sempre, alguém que não teve começo. Segundo o catecismo, Deus é um espírito infinitamente perfeito; ou seja, é infinitamente bom; Seu conhecimento é infinito. Deus é onipresente e onipotente. Sua justiça é infinita, ou seja, é misericordioso para nos perdoar mas justo em não nos perdoar caso recusemo-nos a amá-Lo. Deus não é um tirano nem um velho bonzinho.

III - A Trindade

As verdades de fé como a da Santíssima Trindade chamamos de mistérios de fé. Isso quer dizer que Deus manifestou essa verdade, mas não por inteiro. Assim, temos de esperar chegarmos ao Céu para que Ele nos revele por inteiro.

A Trindade diz que há apenas uma natureza divina, mas três Pessoas divinas. Ao contrário dos homens, que possuem uma natureza e uma pessoa (por exemplo, numa sala de aula com quarenta alunos diremos que lá há quarenta pessoas), Deus possui três Pessoas.

1) Deus Pai. É Deus conhecendo-se (ou pensando) a Si mesmo. Como esse pensamento é perfeito, então deve incluir a existência, já que a existência é própria da natureza de Deus. Então...

2) Deus Filho. É a expressão do conhecimento (ou pensamento) de Deus sobre Si mesmo. A essa expressão viva chamamos Palavra ou Verbo Divino.

3) Deus Espírito Santo. É Deus enquanto resultado do amor por Si mesmo. O Pai e o Filho contemplam Sua natureza bela e boa, engendrando um amor em grau infinito. A esse amor vivo chamamos Amor Divino.

Nenhuma dessas pessoas é mais poderosa, mais sábia ou maior que as demais. Não há qualquer tipo de subordinação entre o Filho e o Pai, por exemplo.

IV - Os anjos e seu pecado original

As primeiras obras de criação divina são os anjos. Um anjo é um espírito, isto é, um ser com inteligência e vontade mas sem corpo. Eis a ordem ascendente dos anjos: anjos, arcanjos, principados, potestades, virtudes, dominações, tronos, querubins e serafins.

Deus fez os anjos com livre-arbítrio para que fossem capazes de fazer seu ato de amor a Deus. Mas Lúcifer, um dos anjos mais dotados, chefiou um rebelião de anjos, que se recusaram a servir a Deus. O terrível grito non serviam ("não servirei") percorreu os Céus. E assim começou o inferno. Ao contrário dos homens, as vontades dos anjos permanecem fixas contra Deus. Ao contrário dos homens, aos anjos não é possível o arrependimento. Fizeram a sua escolha por toda a eternidade. Neles arde um ódio eterno contra Deus e Suas obras. Eis então o objetivo do diabo: arrastar os homens ao mesmo caminho de rebelião contra Deus.

O diabo não é capaz de fazer-nos pecar. Quem peca somos nós. O diabo pode é nos tentar, mas vale lembrar que nem toda tentação vem do diabo. Elas podem vir do diabo, de paixões interiores e do mundo que nos rodeia.

Algumas considerações quanto às influências do diabo:

1) Possessão diabólica. Ela existe, conforme a Bíblia e a experiência da Igreja atestam. O diabo penetra no corpo de uma pessoa, controlando suas atividades físicas. Mas, mesmo na possessão, o diabo não controla a alma da pessoa.

2) Obsessão diabólica. É quando o diabo ataca de fora, derrubando a pessoa da cama, atormentando-a com ruídos horríveis etc.

O exorcismo é o rito religioso para expulsar o demônio de uma pessoa possessa ou obsessa. É quando a Igreja apena para sua própria Cabeça, o Cristo, para expulsar o demônio.

V - Os homens e seu pecado original

A alma do homem é espiritual como a dos anjos mas seu corpo é matéria como do animais. O homem tem, portanto, um pé na eternidade e outro no tempo. O corpo e a alma humanas se fundem, como o bronze, que não é nem cobre nem zinco, mas uma substância nova. Mas a parte mais importante da pessoa humana é a alma, pois ela é imortal, enquanto o corpo é mortal.

No início, Deus conferiu a Adão e Eva dons chamados preternaturais. Preternatural significa fora ou além do curso ordinário da natureza. Os principais dons preternaturais de Adão e Eva eram (1) uma sabedoria de ordem imensamente superior, um elevado conhecimento natural de Deus e do mundo, (2) uma elevada força de vontade e perfeito controle das paixões e dos sentidos e (3) ausência de dor e de morte. Quando tivessesem acabado seus anos de vida temporal, entrariam na vida eterna em corpo e alma, sem experimentar a terrível separação de alma e corpo a que chamamos morte.

Mas Deus também conferiu a Adão e Eva um dom sobrenatural. Sobrenatural significa algo que está totalmente sobre a natureza de toda e qualquer criatura. Esse dom sobrenatural que Deus conferiu a eles é o dom da graça santificante, que permite a participação na própria natureza divina.

Porém, ao desobedecerem a Deus e falharem na prova de amor a Ele, Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, que chamaos pecado original. Num instante, eles perderam todos os dons preternaturais e a graça santificante, reduzindo-se ao mínimo essencia que lhes pertencia pela sua natureza humana. Como todos nós estávamos potencialmente presentes naquele momento, todos sofremos esse pecado. É por isso que diz-se que nascemos em estado de pecado original.

É verdade que o Batismo nos devolve o dom sobrenatural da graça santificante, mas ele não restaura os dons preternaturais. De Adão para cá, um só ser humano (sem contar Cristo) possuiu uma natureza humana em perfeita ordem: a Santíssima Virgem Maria. Ela foi preservada desde o primeiro instante de sua existência da escuridão espiritual do pecado original. A este privilégio chamamos Imaculada Conceição de Maria.

VI - Os homens e seus pecados atuais; os sete pecados capitais

Além do pecado original, em cuja sombra nascemos, temos de enfrentar outro tipo de pecado: o que nós mesmos cometemos. É o pecado atual. O pecado atual pode ser venial ou mortal, segundo seu grau de malícia. O venial é o pecado de pequena gravidade. Um filho que desobedece os pais, ou conta uma mentirinha, comete um pecado venial, mas não por isso deixa de amar os pais. Mas um filho que desobedece os pais, ferindo-os ou afligindo-os intensamente, comete um pecado mortal, amando a si mesmo mais do que a eles. Vale lembrar que podemos pecar não só fazendo o que Deus proíbe (pecado de ação), como deixando de fazer o que Ele ordena (pecado de omissão).

Quanto aos pecados mortais, são necessárias três condições para cometê-lo:

(1) A matéria deve ser grave, seja por pensamento, palavras ou obras.
(2) Devemos saber que o que fazemos é grave, ou seja, não podemos pecar por ignorância.
(3) O pecado só é mortal se cometido de maneira resoluta, ou seja, se eu livremente resolver praticar determinada ação (ou omissão) que é contra a Vontade de Deus.

Quais a raiz do pecado? A raiz do pecado é a intenção na mente e na vontade da pessoa. Por esta razão, somos culpados de pecado no momento em que decido cometê-lo, mesmo que não tenha oportunidade de praticá-lo ou mesmo que depois mude de opinião. É claro que o ato exterior tem sua importância. Na verdade, realizar a má intenção e praticar o ato acrescenta gravidade ao pecado, intensifica a sua malícia.

Há sempre um defeito que se destaca em nós mais do que outros possíveis defeitos, um defeito que representa verdadeiro obstáculo para nosso crescimento espiritual. São as chamadas paixões dominantes. As virtudes, por outro lado, são os hábitos bons que praticamos com

Os sete principais defeitos, chamados de pecados capitais, são:

(1) Soberba: procura desordenada da nossa própria honra e excelência.
(2) Avareza: imoderado desejo de bens temporais.
(3) Luxúria: pecado contra a castidade.
(4) Ira: estado emocional desordenado que nos empurra a desforrar-nos dos outros, a opor-nos insensatamente a pessoas ou coisas.
(5) Gula: atração desordenada pela comida ou bebida.
(6) Inveja: tristeza causada pelo fato de outros estarem numa situação melhor que a nossa; sofrimento pela melhor sorte dos outros.
(7) Preguiça: desgosto e recusa ante o cumprimento de nossos deveres, especialmente de nossos deveres para com Deus, conformando-nos com a mediocridade espiritual.

VII - Maria e o Menino Jesus

Quando Deus criou a alma de Maria, eximiu-a do pecado original no mesmo instante em que a Virgem foi concebida no seio de Ana. Portanto, Maria recebeu a herança perdida por Adão: desde o início do seu ser, esteve unida a Deus.

A aparição do anjo ococrreu quando Maria ainda morava com seus pais. O pecado veio ao mundo por livre decisão de Adão; Deus quis que a livre decisão de Maria trouxesse ao mundo a salvação. (Por isso, Maria é chamada de corredentora dos homens). No exato instante em que aceitou, Deus Espírito Santo engendrou no ventre de Maria o corpo e a alma de uma criança, a quem Deus Filho se uniu no mesmo instante.

Quanto ao Menino Jesus, frequentemente se pergunta se Ele, ao crescer, teve que aprender as coisas como as demais crianças. Para tanto, temos de entender que Jesus possuía dois tipos de conhecimento:

(1) Conhecimento infinito, isto é, conhecimento de tudo que evidentemente Jesus, como Deus Filho, possuía.

(2) Conhecimento humano, que, por sua vez, se subdivide em três espécies: (a) conhecimento beatífico (conhecimento similar quando virmos Deus no céu), (b) ciência infusa (conhecimento completo das coisas criadas, semelhante aos anjos, que prescinde de raciocínios como os humanos) e (c) conhecimento experimental (que Jesus ia adquirindo à medida que crescia).

VIII - Redenção

Enquanto Jesus não morresse na Cruz, ninguém podia ver a Deus face a face. E, não obstante, haviam existido muitos homens que tinham crido em Deus e na sua misericórdia, e guardado suas leis. Como estas almas não haviam merecido o inferno, permaneciam num estado de felicidade puramente natural, sem visão direta de Deus. Eram muito felizes, mas com a felicidade que nós poderiamos alcançar na terra, se tudo nos corresse perfeitamente bem.

O estado de felicidade natural em que essas almas aguardavam chama-se limbo. A estas almas Jesus apareceu enquanto jazia na sepultura, para anunciar-lhes a boa nova da sua redenção; para, poderíamos dizer, acompanhá-las e apresentá-las pessoalmente a Deus Pai.

Segundo havia prometido, Jesus ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia, com um corpo glorificado, idêntico ao que será o nosso depois da nossa ressurreição, e decidiu permanecer quarenta dias na terra com a seguinte missão: completar a preparação e missão de seus doze Apóstolos. Na Última Ceia, na noite da Quinta-feira santa, tinha-os ordenado sacerdotes. Agora, na noite do Domingo de Páscoa, complementa-lhes o sacerdócio, dando-lhes o poder de perdoar os pecados. Em outra ocasião, cumpre a promessa feita a Pedro e o fz cabeça da sua Igreja. Explica-lhes o Espírito Santo. Instrui-os confiando-lhes as linhas gerais do seu ministério. E, finalmente, dá aos seus Apóstolos a missão final de ir e pregar ao mundo inteiro.

Depois da sua ascensão ao Pai, a próxima vez em que Cristo aparecerá à humanidade será no dia do fim do mundo, para julgar o mundo que seu Pai lhe deu.

IX - A graça santificante e como recuperá-la: orações, graças atuais, sacramentos e mérito

A graça é um dom de Deus, sobrenatural e interior, que nos é concedido pelos méritos de Jesus Cristo para nossa salvação. Esta graça não só nos torna capazes de ter uma união e comunicação com Deus nesta vida, como também prepara a alma para um outro dom que lhe acrescentará após a morte: o dom da visão sobrenatural, o poder de ver a Deus face a face. Chamamos isso de lumen glorie, ou luz de glória.

Resumindo: graça santificante = união com Deus nesta vida; lumen glorie = união com Deus após a morte.

Quanto à graça santificante, há três condições que os homens devem observar: (1) que a conservem até o fim, (2) que a recupere imediatamente após perdida em função de um pecado mortal cometido e (3) que procurem fazê-la crescer.

Mas os homens são incapazes de alcançar a graça por conta própria. Precisam da ajuda de Deus, que concede aos homens as graças atuais. Elas atuam na mente ou na vontade humanas, geralmente nas duas. Veja como atuam:

(1) Deus ilumina a mente do pecador para que veja o mal que cometeu. Se repele essa primeira graça, provavelmente não terá a segunda.

(2) Se o pecador aceita a primeira graça, então Deus fortalecerá sua vontade, que lhe permitirá um ato de contrição. Se a contrição do pecador for perfeita (se o seu motivo principal for o amor a Deus), a agraça santificante retornará imediatamente à sua alma.

(3) Se a contrição for imperfeita, baseada principalmente no temor à justiça divina, haverá um novo impulso da graça.

Se a graça concedida por Deus for forte o suficiente até mesmo para vencer nossas fraquezas e corações duros, chamamo-la de graça eficaz. No entanto, podemos fazer com que muitas graças se desperdicem. A nossa indiferença ou indolência ou, pior ainda, nossa resistência voluntária, podem frustrar a ação da graça divina em nossa alma.

É importante termos em mente que a graça santificante cresce na alma mediante a oração e os outros seis sacramentos.

P: O que é a oração? R: A oração é uma elevação da mente e do coração a Deus para adorá-lo, dar-lhe graças e pedir-lhe o que necessitamos.

Há dois tipos de oração:

(1) A oração se faz por meio de palavras, sejam as nossas sejam as escritas por outros, contanto que nos façamos entender por meio delas. É a oração vocal.

(2) A mente e o coração fazem todo o trabalho, sem recorrer a palavras. É a oração mental.Por exemplo, se eu vejo um crucifixo e me vem ao pensamento o muito que Jesus sofreu por mim, então fiz uma oração mental. Por sua vez, há dois tipos de oração mental: (a) a meditação, como a que exemplificamos e (b) a contemplação, uma tipo de oração mais elevada, em que a mente e o coração são elevados a Deus e nEle descansam.

Quando falamos de pecado mortal e perda de graça santificante, vem à mente o sacramento da Penitência. De fato o fim primário da Penitência é devolver a vida quando se perdeu a graça santificante pelo pecado mortal. Mas a Penitência também possui um fim secundário, que é revigorar a vida para a alma que já está em estado de graça. No entanto, o sacramento que é fonte de vida por excelência é o da Sagrada Eucaristia. Nela, Deus vem a nós como alimento e bebida sob as aparências do pão e do vinho. Na Missa, nossa alma se ergue até o seio da Santíssima Trindade. Na Consagração, por sua vez, tocamos a divindade, mas por um processo reverso: ao contrário da Missa, na Consagração Deus é que vem a nós.

Por último, há ainda a questão do mérito. O mérito é a propriedade de uma obra obra em habilitar, a quem a realiza, a receber uma recompensa. A recompensa será tripla: (1) aumento da graça santificante, (2) vida eterna e (3) maior glória no céu. Porém, só a alma que esté em graça santificante pode adquirir mérito por suas ações.

E não nos esqueçamos que, para alcançar a vida eterna, devemos é claro morrer em estado de graça. Esta vida - é só esta vida - é o tempo de prova, o tempo de merecer.

X - Virtudes sobrenaturais, dons do Espírito e frutos do Espírito

P: O que é virtude? R: Virtude é o hábito permanente da alma que lhe dá inclinação, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem e evitar o mal.

A virtude pode ser natural quando adquirida por nós mesmos, e sobrenatural quando infundida na alma diretamente por Deus.

As virtudes sobrenaturais são infundidas na alma no momento do Batismo, juntamente com a graça santificante. São elas:

(1) Virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Têm esse nome porque dizem respeito a Deus.
(2) Virtudes morais ou cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. têm esse nome porque dizem respeito indiretamente a Deus e diretamente às pessoas e coisas.

Fé é a virtude pela qual cremos firmemente em todas as verdades que Deus revelou, baseados na autoridade do próprio Deus, que não pode enganar-se nem enganar-nos.

Esperança é a virtude pela qual confiamos que Deus, que é todo-poderoso e fiel às suas promessas, nos concederá a vida eterna e os meios necessários para alcançá-la.

Caridade é a virtude pela qual amamos a Deus por si mesmo, sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos, por amor a Deus. A caridade é chamada a rainha das virtudes porque as outras, tanto as teologais quanto as morais, nos conduzem a Deus, mas a caridade é a que nos une a Deus.

Prudência é a faculdade de julgar retamente; ela aperfeiçoa a inteligência. Justiça é a faculdade que aperfeiçoa a nossa vontade, salvaguardando os direitos de nossos semelhantes à vida e à liberdade, à santidade do lar, ao bom nome e à honra, aos bens materiais. Fortaleza é a faculdade que nos inclina a fazer o bem apesar das dificuldades. Temperança é a faculdade que nos ajuda a dominar nossos desejos e, em especial, a usar dignamente das coisas que agradam aos sentidos.

Além da graça santificante e das virtudes, o Batismo também nos fornece os sete dons do Espírito Santo. Estes dons são qualidade que se comunicam à alma e que a tornam sensível aos movimentos da graça, facilitando-lhe a prática da virtude. São eles:

(1) Sabedoria, que nos dá o sentido da proporção para apreciarmos as coisas de Deus, dando ao bem e à virtude seu verdadeiro valor, para encaramos os bens do mundo como degraus para a santidade, não como fins em si.

(2) Entendimento, que nos dá a percepção espiritual necessária para entendermos as verdades da fé.

(3) Conselho, que aguça nosso juízo, nos ajudando a perceber e escolher a decisão que será par a maior glória de Deus.

(4) Ciência, que nos torna aptos para reconhecer o que é espiritualmente útil ou prejudicial.
Está intimamente ligado ao dom do conselho. O conselho nos move a escolher o útil e repelir o nocivo, mas, para escolher, devemos antes conhecer.

(5) Fortaleza, que robustece nossa debilidade humana.

(6) Piedade, que nos ajuda a manter uma atitude de confiante intimidade com Deus, como uma criança que respeita a seus pais: uma combinação de amor, confiaça e reverência.

(7) Temor de Deus, que equilibra o dom da piedade, nunca nos esquecendo que Ele é o Juiz da justiça infinita, diante de quem um dia teremos que responder pelas graças que nos concedeu.

O resultado de tudo isso, isto é, da graça, das virtudes e dos dons, são manifestos nos chamados doze frutos do Espírito, a saber:

(1) Caridade, pela qual vemos Cristo no seu próximo, e estamos sempre dispostos a ajudá-lo.

(2) Gozo, pelo qual somos alegres e otimistas.

(3) Paz, pela qual somos serenos e tranqüilos.

(4) Paciência, pela qual não nos irritamos facilmente, não guardamos rancor pelas ofensas, não nos perturbamos nem ficamos desapontados quando as coisas nos correrem mal ou as pessoas se comportarem mesquinhamente.

(5) Benignidade, pela qual somos amáveis.

(6) Bondade, pela qual defendemos com firmeza a verdade e o direito, mesmo que todos nos deixem só.

(7) Longanimidade, pela qual não nos revoltamos com o infortúnio e o fracasso, com a doença e a dor.

(8) Mansidão, pela qual somos delicados.

(9) , pela qual a religião é a coisa mais importante da vida.

(10) Modéstia, pela qual há uma decência no que fazemos, fortalecendo a virtude dos outros, nunca infraquecendo.

(11) Continência, pela qual mostramos domínio admirável de nós mesmos, quer na comida, na bebida, no trabalho ou na diversão.

(12) Castidade, pela qual sentimos uma grande reverência pela faculdade de procriar, vendo o sexo nunca como divertimento ou como fonte de prazer egoísta.

XI - A Igreja Católica: seus deveres, suas marcas, seus atributos e a comunhão dos santos

Por que Cristo instituiu uma Igreja na terra? Quais os deveres dessa Igreja? São três:

(1) Santificar. Cristo conhecia nossa necessidade de uma segurança visível. Então Ele preferiu canalizar as suas graças através de símbolos sensíveis: instituiu, pois, os sacramentos, para que pudéssemos saber quando, como e que espécie de graça recebemos. O agente que guarda e deistribui os sacramentos é a Igreja instituída pelo próprio Cristo.

(2) Ensinar. Jesus fundou a Sua Igreja parar ensinar aos homens as verdades que Ele ensinou, as verdades necesárias à salvação.

(3) Governar. Da mesma maneira que seria inútil a um país ter uma Constituição sem alguém que a interprete, a Igreja interpret a Revelação de maneira apropriada, decidindo, por exemplo, quem pode receber este ou aquele sacramento, que pode ser membro da Igreja, como permanecer nela etc.

P: O que é a Igreja? Igreja é a congregação de todos os batizados, unidos na mesma fé verdadeira, no mesmo sacrifício e nos mesmos sacramentos, sob a autoridade do Sumo Pontífice e dos bispos em comunhão com ele.

Esse tríplice dever - santificar, ensinar e governar - dos Apóstolos foi por eles transmitido a outros homens, os bispos. Os bispos atuais são, portanto, os sucessores dos Apóstolos. E o pode de Pedro, a quem Cristo constituiu cabeça de tudo, reside hoje no bispo de Roma, o Papa.

Eis, portanto, o Corpo da Igreja de Cristo: (1) no cume o Papa, (2) mais abaixo o Colégio Episcopal, (3) mais abaixo os sacerdotes e (4) o povo de Deus, todos os batizados.

Mas a Igreja é o próprio Corpo de Cristo: é o Corpo Místico de Cristo. Isso quer dizer que a Igreja não é apenas uma instituição jurídica, mas um organismo vivo, um Corpo que vive, cuja Cabeça é Cristo, cujos membros são os batizados e cuja alma é o Espírito Santo. É um Corpo em que cada membro se beneficia de cada Missa que se celebra, de cada oração que se oferece, de cada boa obra que se faz por cada um dos outros membros, em qualquer lugar do mundo. Assim, todos são chamados a ser apóstolos (com 'a' minúsculo), ou seja, todos têm a missão de ajudar o Corpo Místico de Cristo a crescer e a manter-se são.

Cristo, ao instituir a Sua Igrja, deixou nela estampada a sua marca. Podemos dizer que a marca da Igreja é um quadrado:

(1) Unidade. Os membros da Igreja devem manifestar unidade de credo. Uma fé, uma cabeça, um culto.

(2) Santidade. Segundo o Catecismo, a Igreja é santa "porque foi fundada por Jesus Cristo, que é saanto; porque ensina, segundo a vontade de Cristo, uma doutrina santa e oferece os meios para se levar uma vida santa, formando assim membros santos em todas as idades".

(3) Catolicidade. A Igreja Católica existiu todo o tempo desde Domingo de Pentecostes até os nossos dias, é a única que ensina todas as verdades e é também universal em extensão.

(4) Apostolicidade. A Igreja que pretenda ser de Cristo deve provar sua legítima descendência dos Apóstolos. A Igreja Católica tem a lista dos bispos de Roma, que se remete do Papa atual numa linha contínua até São Pedro.

Tais marcas, necessários à Igreja que que queira se dizer de Cristo, são acompanhadas, conseqüentemente, de três atributos ou qualidades, a saber:

(1) Autoridade. É o direito de falar em nome de Cristo e de ser escutada.

(2) Infalibilidade. É a certeza de estar livrer de erro quando proclama solenemente as verdades de Deus. O católico sabe que o Papa pode pecar e errar, como qualquer pessoa, e sabe que as opiniões do Papa têm a força que sua sabedoria humana lhes pode dar. Mas quando o Papa, solenemente, declara que certas verdades foram reveladas por Cristo, então ele não erra.

(3) Indefectibilidade. É a permanência da Igreja até o fim dos tempos como Jesus a fundou, que não é perecível, que continuará a existir enquanto houver almas a salvar.

Com comunhão dos santos devemos entender que existe uma união, uma comunicação entre as almas em que o Espírito Santo tem a sua morada. Há três "ramos", por assim dizer, da comunhão dos santos:

(1) Igreja militante, isto é, os santos aqui da terra que ainda militam (lutam) contra o pecado e o erro.

(2) Igreja padecente, isto é, as almas do purgatório que ainda não podem ver a Deus, mas o Espírito Santo está com elas.

(3) Igreja eterna, isto é, as almas dos bem-aventurados que se encontram no céu. É essa Igreja que absorverá tanto a militante quanto a padecente depois do Juízo Final.

Na prática, a comunhão dos santos significa que devemos ter consciência das necessidades dos outros. Os santos do céu oram pelas almas do purgatório e por nós. Nós, de nossa parte, devemos venerar e honrar os santos. Não só porque podem e querem interceder por nós, mas porque o nosso amor a Deus assim o exige. Nós devemos, ainda, orar pelas benditas almas do purgatório. É evidente que devemos, também, rezar uns pelos outros.

XII - O fim do mundo: morte, Juízo Particular, inferno, purgatório, ressurreição da carne e vida eterna

A morte é a separação da alma e do corpo. E o que acontece então? No exato momento em que a alma abandona o corpo, é julgada por Deus. Tal juízo individual da alma imediatamente após a morte chama-se Juízo Particular. O que ocorre é que a alma se vê como Deus a vê, em estado de graça ou em pecado e, consequentemente, sabe qual será o seu destino segundo a infinita justiça divina.

A alma que morre em pecado mortal está no inferno. Mas suponhamos que morremos confortados pelos últimos sacramentos e com uma indulgência plenária bem ganha no momento da morte. O juízo da alma será a imediata visão de Deus: a visão beatífica.

Mas o que acontecerá se, ao morrermos, o Juízo Particular não nos encontrar separads de Deus pelo pecado mortal mas também não com a perfeita purezaz de alma? É aqui que se põe de manifesto a doutrina do purgatório. Mesmo que esta doutrina não tivesse sido transmitida pela Tradição desde Cristo e os Apóstolos, a simples razão nos diria que deve haver um processo de purificação final que lave até a menor imperfeição que se inerponha entre a alma e Deus.

A grande diferença entre o sofrimento do inferno e o do purgatório é que no inferno há a certeza da separação eterna e no purgatório a certeza da libertação.

Quanto ao fim do mundo, não sabemos quando virá. O que sabemos é que quando o mundo acabar, os mortos ressuscitam, e depois vem o Juízo Final. O Juízo Final não oferecerá surpresas em relação ao nosso eterno destino. Já teremos passado pelo Juízo Particular; a nossa alma já estará no céu ou no inferno. A diferença é que a sentença que recebemos no Juízo Particular será agora confirmada publicamente.