14 de março de 2006

Verdade em religião


Em Truth in Religion, Mortimer J. Adler responde a uma pergunta fundamental: Como detectar o que é verdadeiro e falso nas diversas religiões? Originalmente feita em Six Great Ideas, a pergunta procura sondar se há elementos transculturais nas religiões, ou se elas não passam de questão de gosto, como é o caso da culinária, da moda etc.

A resposta, como veremos a seguir, não é de difícil compreensão. Em verdade, a resposta é uma análise das religiões cujos critérios podem ser resumidos no próprio subtítulo do livro -- The Plurality of Religions and The Unity of Truth (A Pluralidade das Religiões e a Unidade da Verdade) -- embora tal subtítulo não seja autoexplicativo, merecendo maiores elucidações. Adler, como sempre, é cuidadoso em preparar o terreno antes de embrenhar-se na resposta.

Mas antes de mergulharmos no raciocínio do autor, algumas considerações merecem ser citadas. Retirei deste estudo as ácidas críticas que Adler dedica a algns filósofos e teólogos (Wendy Doniger O´Flaherty, Joseph Campbell, Harvey Cox e Hans Küng) não porque não concorde com elas, mas porque elas pouco acrescentam ao estudo, servindo apenas para reforçar o argumento de Adler. Como fiz em Six Great Ideas, retirei também as considerações de Adler a respeito da Física Quântica e o princípio da incerteza de Heisenberg, por dois motivos: (1) O assunto merecerá de mim um estudo à parte, pois Adler versa sobre a questão em outras obras, sob diversos ângulos, e (2) o assunto é marginal ao tema aqui tratado.

Ao final, mesmo em posse de sólidos critérios para verificar se uma religião é verdadeira, Adler tece considerações a respeito das religiões do Extremo Oriente que são, no mínimo, polêmicas.

Mais uma vez, peço desculpas ao leitor pela brevidade e simplicidade do estudo. Nem preciso dizer que as palavras são minhas, não do autor, e qualquer barbeiragem nas explicações deve ser debitada em minha conta.

A lógica da verdade

(1) As diversas religiões se opõem principalmente em termos de contrariedade. Um exemplo de contrariedade é a afirmação segundo a qual Deus existe e a afirmação segundo a qual muitos deuses existem. Ambas afirmações não podem ser simultaneamente verdadeiras, mas ambas podem ser simultaneamente falsas. Afinal, um meio-termo entre as afirmações é possível como, por exemplo, a afirmação segundo a qual Deus nem deuses existem. Tal contrariedade é o que chamamos, em lógica, de disjunção fraca.

Raramente as religiões se opõem em termos de contradições. Isso quer dizer que raramente há um choque de afirmações a partir da qual somos obrigados a tomar um dos lados como verdadeiro e o outro como falso, isto é, ambos não poderiam ser simultaneamente verdadeiros nem ambos poderiam ser simultaneamente falsos. Esse tipo de disjunção, incomum às religiões, é o que chamamos em lógica de disjunção forte.

(2) As questões de verdade religiosas, ao contrário das ciências empíricas e racionais, estão além da prova, ou seja, qualquer proposição religiosa tida como correta ou incorreta não pode ser avaliada por pesquisas empíricas ou investigações racionais. Por exemplo, a crença em Deus, o Criador do Céu e da Terra, é um artigo de fé cristão, judaico e muçulmano. Os artigos de fé não podem ser provados ou refutados.

No entanto, mesmo sendo os artigos de fé irrefutáveis, isso não quer dizer que não contenham verdades em si. E se contêm verdades em si, então as crenças religiosas incompatíveis devem ser submetidas à lógica da verdade assim como qualquer proposição científico-empírica, isto é, ambas não podem ser simultaneamente verdadeiras.

(3) Que a verdade é a correspondência do que pensamos ou afirmamos com a realidade, já sabemos do estudo de Six Great Ideas. Mas como podemos determinar ou testar tal veracidade?

Para isso, Adler achou útil introduzir alguns conceitos do pragmatismo na busca da verdade. Em suma, se alegamos que algo seja verdadeiro, isto é, correspondente à realidade, então nossa ação baseada nessa proposição é um dos testes que permitirá julgarmos sua veracidade ou falsidade.

Isso serve apenas para lembrar que, caso sua veracidade seja confirmada, então nosso atual corpo de conhecimento deverá adaptar-se à entrada desta nova verdade, ganhando coerência com o todo.

Tal coerência foi introduzida na lógica da verdade por meio da controvérsia entre Santo Tomás e os defensores de Averróis. Segundo Averróis, há dois tipos distintos de verdade: as verdades da razão e as verdades da fé; sendo que as verdades da razão não entram em conflito com as verdades da fé e vice-versa, ou seja, algo que seja cientificamente ou filosoficamente verdadeiro poderia ser simultaneamente falso na fé religiosa.

Santo Tomás sustentava o contrário: ambas as verdades são do mesmo tipo, podendo entrar em conflito uma com a outra. Santo Tomás chamava de "averroísta" todo aquele que afirmava que as crenças religiosas e as proposições científicas não fazem parte do mesmo tipo de verdade. Ele ensinava que a verdade é um todo coerente e íntegro.

(4) Mas como os conflitos entre a religião e as outras partes da verdade devem ser resolvidos?

Adler conhece apenas uma maneira: o método de Santo Agostinho para interpretar as Escrituras Sagradas. Há duas regras, segundo Santo Agostinho, para interpretar as Escrituras Sagradas:
  1. Abrace as Escrituras Sagradas sem titubear, pois elas são a verdade revelada.
  2. Se uma dada interpretação das Escrituras Sagradas for provada falsa, abandone-a imediatamente.
E para provar se uma dada interpretação das Escrituras Sagradas é falsa, Adler apela para a doutrina da unidade da verdade de Santo Tomás, conforme descrita no item (3) acima. Por exemplo, se os especialistas em Inteligência Artificial lograrem êxito na construção de uma máquina indistingüível da inteligência humana, então a crença cristã na imortalidade da alma deverá imediatamente ser quesionada, uma vez que ela, por sua vez, está baseada na imaterialidade do intelecto humano.

Modernamente, julga-se conflitante a crença numa dimensão espiritual da realidade e as descobertas da física. Porém, o verdadeiro conflito não é com o conhecimento científico propriamente dito, mas com o materialismo dogmático dominante entre os cientistas. A existência dos anjos não é algo impossível. Uma proposição existencial pode ser provada, mas uma proposição existencial negativa não pode ser provada. Eis a fraqueza dos ateístas: tudo o que fazem é fornecer argumentos retóricos, não lógicos, cujo objetivo é desacreditar, e não refutar, a crença em Deus, anjos etc.

Mitologia e Religião

É necessário que estudemos alguns tópicos em religião, antes de concluirmos nosso raciocínio a respeito se há verdade nela, e como detectá-la.

(1) O que é religião? Segundo Adler, "Religião é uma forma organizada e institucionalizada de crença e conduta humanas que envolvem comunidades constituídas de tal maneira que um indivíduo e membro dela ou está fora dela, sendo que tal comunidade de membros consiste num número grande de pessoas". E eis as características que as religiões devem possuir:
  1. Alguma forma de adoração.
  2. Separação entre o que é sagrado do que é profano.
  3. Separação entre sacerdocidade e laicidade.
  4. Um código de leis, preceitos ou prescrições religiosas.
  5. Obrigação de seus membros afirmarem como verdadeira uma série de crenças explícitas, que constituem o credo.
(2) Como são classificadas as religiões? Elas são, grosso modo, classificadas da seguinte forma:
  1. Religiões que possuem uma ortodoxia, ou seja, credos explícitos na forma de artigos de fé dogmaticamente declarados vs. Religiões que possuem apenas uma ortopraxia, ou seja, prescrições explícitas e ortodoxia implícita.
  2. Religiões que afirmam uma ou mais divindades, chamadas de religiões teológicas monoteístas ou politeístas vs. Religiões que afirmam características espirituais do cosmos, chamadas de religiões cosmológicas.
  3. Religiões com pouco conteúdo mitológico vs. Religiões com muito conteúdo mitológico.
  4. Religiões que alegam base em Revelações, possuindo perfil mais religioso vs. Religiões que não alegam base em Revelações, possuindo perfil mais filosófico.
No quadro abaixo, preparado por Adler com o auxílio da Profª Wendy Doniger O´Flaherty, constam as grandes religiões e suas características aproximadas, segungo os critérios acima:
(3) Qual a relação entre mitologia e religião? Uma coisa é um mito quando ela é uma ficção, e não um fato. Todas as religiões devidamente institucionalizadas (especialmente as que possuem credos explícitos) são mitológicas.

As religiões contêm verdades poéticas, não verdades lógicas. Se forem tomadas como fatos, e não como ficção (um dos erros cometidos pelos cientistas e pelos religiosos fundamentalistas), todas as religiões seriam falsas. As religiões não são histórias propriamente ditas (embora contenham trechos eminentemente históricos, aos quais, sim, se apliocam os critérios das verdades lógicas), mas mitos, que formam a substância das verdades lógicas e factuais declaradas em suas doutrinas.

Mas o fato de serem mitos (verdades poéticas) não lhes subtrai seu significado. Pois algo pode ser perfeitamente significativo sem ser factualmente verdadeiro. É o caso, por exemplo, dos romances.

Não faz sentido tentar desmitificar trechos das Escrituras Sagradas quando eles não subtraem ou obscurecem as verdades lógicas e factuais da doutrina religiosa.

As estórias do Jardim do Éden, de Adão e Eva etc. são mitos, mas cheios de significados a serem extraídos por uma interpretação não-literal e não-narrativa.

A Verdade em Religião

(1) Adler afirma não ser permitido aplicar a lógica ocidental às culturas do Extremos Oriente porque lá ela não tem autoridade. O Extremo Oriente vive num estado psicologicamente esquizofrênico, aceitando de maneira latente, senão explicitamente, o averroísmo.

Em relação às religiões politeístas, dado que é possível provar a existência de Deus, criador do cosmos, tal prova acaba por refutá-las. Elas são incompatíveis com a teologia filosófica.

Em relação às religiões cosmológicas, dadas as verdades sobre o cosmos que as ciências naturais nos trazem, tudo aquilo que é incompatível com elas é falso. Elas são incompatíveis com a ciência empírica.

Como as religiões do Extremo Oriente são averroístas, tal incompatibilidade seguem olimpicamente ignoradas.

(2) Se esquecermos por um momento a ortodoxia das religiões e nos concentarmos em suas ortopraxias, veremos que elas aproximam-se em maior grau.

As doutrinas morais, em sua base, devem possuir uma filosofia moral consistente e sólida. As prescrições, para serem verdadeiras, têm de ser embasadas por verdades descritivas ou factuais. Por exemplo, a Regra de Ouro ("não fazer aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você") é afirmada por todos as grandes religiões, sejam ocidentais ou orientais. O pressuposto desta Regra é a verdade de que os homens diferem em tipo, não somente em grau, dos animais. Você não deve tratar os animais a partir do ensinamento desta Regra.

Mas esta observação é paralela, uma vez que o fato de as religiões compartilharem essas verdades filosóficas por meio de suas ortopraxias não tem a ver com uma igual equivalência entre suas crenças não-filosóficas.

Conclusão

A partir de tudo o que foi dito, Adler extrai dois princípios fundamentais a respeito da verdade em religião:

(a) Princípio da unidade da verdade. As diversas partes do todo da verdade devem ser mutuamente compatíveis, não importa de que maneira tais partes da verdade tenham sido extraídas ou recebidas.

(b) Princípio da transculturalidade. Num dado tempo qualquer, as verdades tecnológicas, matemáticas e das ciências naturais são transculturais; poranto, tudo aquilo que declare ser verdadeiro deve ser compatível com essas verdades científicas.

Se a religião e a filosofia são transculturais, suas verdades declaradas devem ser compatíveis com as verdades científicas. E, se for este o caso, então a teologia filosófica deverá ser adotada como critério para decidir o que é ou não é verdadeiro nas religiões.

É por isso que Adler não considera as religiões do Extremo Oriente como verdadeiras. Como não aceitam um Deus, mas muitos deuses independentes e des-hierarquizados, as religiões orientais politeístas vão de encontro à verdade do monoteísmo, provada pela teologia filosófica. Similarmente, as religiões orientais cosmológicas não aceitam (ou ignoram) as verdades sobre o cosmos provadas pela ciências naturais.

Adler conclui que apenas Judaísmo, Cristianismo e Islã podem ser consideradas religiões coerentes tanto com a teologia filosófica quanto com as ciências naturais.

Minha opinião é que Adler, embora correto ao delinear os princípios que ajudam a identificar religiões falsas ou incoerentes, está provavelmente errado ao condenar as religiões do Extremo Oriente segundo seus próprios critérios. Adler aparentemente aceita lugares-comuns ocidentais a respeito das religiões orientais ou simplesmente está mal informado. Talvez teria lhe feito bem tomar contato com os escritos perenialistas, como René Guénon, Fritjhof Schuon ou Ananda Coomaraswamy, o que provavelmente não lhe teria pedir muito, já que sua composição ideológica é essencialmente grega (Platão e Aristóteles) e cristã tradicional (Santo Agostinho e Santo Tomás).

Por exemplo, segundo informações de meu bom amigo Alexander Gieg, no Xintó "diz-se haver 8 milhões de divindades (kamis). Mas cuidado para não confundir: politeísmos "strictu sensu", isto é, onde os deuses são encarados como entes distintos e mutuamente independentes [justamente aquilo que Adler julga ser o Xintoísmo e demais religiões do Extremo Oriente], são religiões decaídas que perderam seu núcleo espiritual. Já os politeísmos tradicionais reconhecem que os deuses todos são na realidade expressões particulares de um princípio espiritual único, sendo no fundo, portanto, monoteístas".

2 de março de 2006

Seis Grandes Idéias

Eis um breve resumo da obra mais famosa de Mortimer J. Adler depois de How to Read a Book: Six Great Ideas. Inspirado numa série de palestras que o autor proferiu no Aspen Institute, Six Great Ideas é, ao lado de Aristotle for Everybody, um apanhado geral do pensamento deste filósofo americano. Maiores detalhes de sua filosofia podem ser encontrados em livros que tratam de certos temas específicos. Sua visão em política (bastante controversa), por exemplo, é aprofundada em Haves Without Have-Nots; sua visão em metafísica em How to Think About God, The Angels and Us, Intellect: Mind over Matter e Truth in Religion; sua visão em estética em Art, the Arts, and the Great Ideas; sua visão em ética em The Time of Our Lives; sua visão sobre a Filosofia em The Four Dimensions of Philosophy; e assim por diante.

Fiz o estudo em forma de perguntas e respostas, nem sempre respeitando a divisão original em capítulos. Como se trata de um resumo pessoal, boa parte do raciocínio de Adler não está explicitamente descrito, mas pode ser derivado a partir do que aqui está exposto.

Introdução Geral

O que o autor espera do leitor, ao final da leitura?

Espera-se que o leitor, ao final da leitura, tenha conhecimento dos diversos significados de cada idéia, sendo capaz de lidar melhor com as questões que se lhe apresentarem no dia-a-dia, indo além do elementar.

O que é uma “idéia”?

Uma idéia, no sentido utilizado por Adler, não é o conteúdo de nossos pensamentos, como quando dizemos “Tive uma idéia”. Uma idéia é um objeto de pensamento, algo sobre o qual todos podemos versar. Uma analogia poderá nos ajudar a entender isso: se alguém me ajuda a vestir uma jaqueta, ambos teremos impressões distintas dela; no entanto, mesmo assim, a jaqueta será uma e a mesma jaqueta para ambos, ou seja, será o mesmo objeto para ambos. É por isso que Platão estava certo ao afirmar que as idéias existem enquanto objetos. Mas, acredita Adler, Platão estava errado ao atribuí-las existência independente das mentes humanas. Ou seja, se eu paro de pensar sobre gatos, isso não quer dizer que a idéia de gato deixe de existir. Mas se todas as mentes do mundo pararem de pensar sobre gatos, então a idéia de gato não mais existirá.

Por que devemos estudar as grandes idéias?

Devemos estudar as grandes idéias porque elas fazem parte do vocabulário de todas as pessoas. Ao contrário do vocabulário de um especialista, que é recheado de termos técnicos e específicos, as grandes idéias são de uso comum, mesmo que em variados graus. Como a ciência que lida com as idéias é a Filosofia, segue-se que a Filosofia deveria ser do interesse de todos. Como a Filosofia não lida com objetos sensíveis ou imagináveis, não empreende pesquisas científico-investigativas, não precisa de dados provenientes de outras ciências para ser aplicada (como é o caso da Física, da Economia, da Matemática etc), todos estão, em princípio, aptos a estudá-la.

Quais as grandes idéias versadas pelo autor?

As idéias versadas pelo autor são estas:

· Verdade
· Bondade
· Beleza
· Liberdade
· Igualdade
· Justiça

Por que o autor escolheu especificamente estas idéias?

O autor escolheu estas idéias porque são elas, na maioria dos casos, que iluminam o entendimento sobre as outras grandes idéias. As primeiras três idéias, que são as principais, referem-se a idéias com as quais julgamos coisas e pessoas. Elas são necessárias, mesmo se vivêssemos sozinhas numa ilha deserta. As últimas três idéias referem-se a idéias com as quais julgamos e convivemos. Se vivêssemos sozinhos numa ilha deserta, seu estudo seria inútil.

1) Verdade

O que é verdade?

Há duas definições de verdade, que correspondem aos dois tipos de verdade:

I) Verdade discursiva. Verdade é quando o que se fala ser aquilo que se pensa. Por exemplo: "Acho que este é um bom livro". Se, apesar disso, penso que o livro é ruim, então estarei mentindo.

II) Verdade de pensamento. Verdade é quando o que se fala corresponder à realidade dos fatos e das coisas. Por exemplo: "Este livro tem 500 páginas". Se, apesar disso, o livro tiver na realidade apenas 242 páginas, então estarei mentindo.

Em suma, dizer a verdade é colocar os predicados ontológicos no lugar certo, isto é, dizer "é" quando é e "não é" quando não é.

É possível duvidar da existência da verdade?

Sim, é possível duvidar da existência da verdade. Há desde as formas extremas de ceticismo, como a do filósofo grego Pirro, até formas mais brandas de ceticismo, como a de David Hume. A forma extrema é facilmente dispensável, uma vez que se autocontradiz ao afirmar que nada é certo ou verdadeiro.

Os céticos brandos ou moderados podem ser divididos em três grupos:

I) Aqueles que pensam ser sempre saudável duvidar um pouco dos julgamentos a respeito do que é certo ou errado, ou do que é verdadeiro ou falso. Esta é a posição adotada por David Hume.

II) Aqueles que pensam que o que é verdade para mim pode não ser verdade para você. Chamamos tal posição de relativismo ou subjetivismo.

III) Aqueles que pensam que o que era verdade ontem pode não ser verdade hoje.

Das três posições acima, apenas a última é digna de ser adotada porque não nega, em si, a objetividade da verdade, mas apenas enfatiza sua porção subjetiva, que pode, sim, mudar. Por exemplo: a Terra nunca foi plana, apesar de agumas pessoas sustentarem essa opinião no passado. Sempre foi verdade que a Terra não é plana, ontem e hoje. Se não fosse pelo terceiro ceticismo, estaríamos até hoje convictos de que a Terra é plana. Este terceiro ceticismo, portanto, é saudável na medida em que nos faz lembrar de quão poucass afirmações podemos ter certeza absoluta.

Quando algo deixa de ser duvidoso e passa a ser certo? Quando acaba a dúvida e começa a certeza?

O critério para identificar aquilo que é conhecimento líquido e certo é o seguinte:

I) O julgamento estabelecido não pode ser questionado por novas evidências.

II) O julgamento estabelecido não pode ser questionado por novas reflexões, raciocínios etc.

Ou seja, a diferença entre os julgamentos práticos que fazemos no dia-a-dia e a certeza genuína é a finalidade (isto é, quando já chegou ao fim) e a incorrigibilidade do julgamento indubitável. Por isso, mesmo as ciências (Biologia, Psicologia etc.) não são conhecimento, no sentido forte do termo, porque têm futuro (cf. o terceiro ceticismo branco acima), isto é, podem ser questionadas e melhoradas.

Conhecimento strictu sensu são somente as chamadas verdades auto-evidentes ("triângulo não tem diagonal", por exemplo) e as evidências perceptuais (a percepção direta dos objetos ao nosso redor).

Quando algo é verdadeiro e objetivo e quando é apenas uma questão de gosto pessoal, subjetivo?

A esfera da verdade é aquela na qual não há intromissão de emoções, preferências pessoais e wishful thinking (p.ex.: Matemática, Biologia etc.). Nessa esfera, a correção de disputas e discórdias é uma obrigação, como diz o lema de veritate disputandum est. É uma esfera transcultural e global.

A esfera do gosto é aquela na qual está em jogo questões puramente pessoais (p.ex.: culinária, moda etc.). Sobre elas, não vale a pena discutir, como diz o lema de gustibus non diputandum est.

Nos casos específicos da Filosofia e da Religião, Adler acredita que ambas não são nem 100% questão de verdade nem 100% questão de gosto. A Filosofia, entende Adler, mostrou-se muito menos concorde ao longo dos anos do que a Matemática ou a Biologia. Tal elevado grau de irreconciliabilidade não permite que classifiquemos a Filosofia inteiramente como uma questão de verdade. Raciocínio semelhante vale para a Religião. Há algo, nessas duas áreas, que escapa à análise puramente racional. No caso da Religião, Adler dedicou um livro específico, a ser estudado em breve aqui.

2) Bondade

Qual a diferença entre verdade e bondade?

Enquanto "verdadeiro" e "falso" são termos que aplicamos ao conteúdo de nossas mentes estar de acordo com a realidade, os termos "bem" e "mal" (ou "bom" e "mau") são aplicados às coisas em relação a nossos desejos.

Mas pode uma afirmação prescritiva ("você deveria fazer isto, pois é bom, e não aquilo, pois é mau") ser classificada de verdadeira ou falsa?

Sim, as prescrições não são puramente subjetivas, isto é, puramente questão de gosto. Para entendermos o porquê, temos de ampliar o escopo do que é verdadeiro. Aristóteles ensina um outro modo de verdade: a conformidade do julgamento ao desejo certo. Esse modo é o que se aplica às prescrições.

O que é desejo certo?

Desejo certo é aquilo que temos de desejar. E o que temos de desejar são os bens reais, ou seja, aqueles que herdamos de nossa natureza humana, presente em todos os indivíduos (são os needs). Ao contrário, os bens aparentes são aqueles que adquirimos ao longo da vida, que são circunstanciais, pessoais, individuais (são os wants). Podemos até mesmo desejá-los, desde que não interfiram na aquisição dos bens reais.

Um dos needs dos homens é o conhecimento, por exemplo.

Quais são esses bens?

Para melhor entendermos quais são esses bens, é útil elaborarmos algumas outras classificações, além da divisão básica entre bens reais e bens aparentes já delineada.

I) Bens que desejamos ter: podem ser reais ou aparentes. Subdividem-se em:
a) Posses, como riquezas e amigos. São sempre externas ao indivíduo.
b) Perfeições, como saúde. São sempre internas ao indivíduo.
ou
c) Bens por escolha, como bons hábitos e conhecimento. São sempre internos ao indivíduo.
d) Bens por acaso, como boa criação, amigos e riquezas. São sempre externos, pelo menos em parte, e dependem de sorte.

II) Bens que desejamos fazer: são as ações que são boas para nós porque nos fazem aproximar de nossos needs (ou, pelo menos, beneficiam outras pessoas), cujos bens resultantes são sempre reais. Por exemplo, quando agimos com correção e justiça em sociedade.

III) Bens que desejamos ser: é a excelência de um bom homem. Um bom homem é aquele que alcançou as perfeições que preenchem suas potencialidades de ser humano, e contam com a participação dos bens que desejamos ter e fazer. São sempre bens reais. Os bens que desejamos ser são medidos em graus de existência, por meio da actualização de nossas potencialidades. Por exemplo, segundo Santo Agostinho, é melhor ser um rato do que uma pérola porque o rato pode actualizar e melhorar suas capacidades, enquanto a pérola não.

A quais bens devemos dar prioridade?

Devemos dar o menor nível de prioridade aos bens que não são bens em si, mas meios para se alcançar outros bens melhores. Neste patamar encontram-se todos os bens externos.

Devemos dar um nível intermediário de prioridade aos bens que tanto podem servir como meio para alcançar outros bens melhores como podem ser bens em si. Neste patamar encontram-se, por exemplo, riqueza e saúde.

Devemos dar o maior nível de prioridade aos bens que são bens em si. Neste patamar encontram-se as perfeições, como o conhecimento.

Qual o maior bem de todos?

Não há exatamente um maior bem de todos. O que há é um bem que engolba todos os outros bens da escala de bens exposta acima. Trata-se da felicidade. É importante notar:

(1) A felicidade não é um bem terminal e superior aos outros bens (isto é, não é o summum bonum), mas é a totalidade de todos os bens (totum bonum). É o bem, e não apenas um bem.

(2) A felicidade não é um bem que possa ser plenamente atingível em vida pois a felicidade se define como uma vida preenchida pelos bens reais que todos necessitamos, além dos bens aparentes que este ou aquele indivíduo possa querer. Sendo "uma vida", não é possível haver um momento na vida em que se possa dizer "agora sim sou feliz". Somente no além, conforme ensinam os religiosos, há um estado terminal de felicidade, como a desfrutada pelos santos na presença de Deus.

(3) A felicidade pode diferir de um indivíduo para outro por causa dos bens aparentes que decidam buscar. Lembre-se que os bens aparentes fazem parte da definição de felicidade.

(4) A felicidade não é ilusória. Embora não possamos alcançá-la em plenitude aqui, podemos desfrutar de um grau ou porção dela. Cada indivíduo, então, terá seu grau de felicidade.

Como alcançar a felicidade?

Como dizia Santo Agostinho, "Feliz é o homem que no decurso de uma vida completa tem tudo o que deseja, desde que não deseje nada de errado".

Isso quer dizer que há dois fatores indispensáveis na busca da felicidade: (a) hábitos de escolher aquilo que é compatível com o alvo certo (virtude moral) e (b) ser abençoado com sorte, isto é, com as circunstâncias externas que facilitem a obtenção dos bens reais e aparentes.

3) Beleza

O que é beleza?

Santo Tomás define a beleza como "aquilo que nos dá prazer ao ser visto". Comidas, bebidas e roupas também nos dão prazer, mas não ao serem vistos, portanto não são passíveis de serem belos. Kant ensina que o prazer que a beleza nos dá deve ser totalmente "desinteressada". Se nós desejamos possuir aquilo que nos dá prazer ao ser visto, então deixa de ser belo.

Vale lembrar que "ver" vem do latim visum, que tem o sentido de contemplar, de conhecimento mental. É o que ocorre quando dizemos: "Vejo que você tinha razão". Isso inclui, se nos detivermos na definição de beleza acima, as músicas, poemas, e até mesmo a beleza encontrada em demonstrações matemáticas.

Essa contemplação, Kant notara, está destituída de conceitos, ou seja, está restrita a aquele objeto individualmente, em si e por si.

Há algo de objetivo na beleza? Ou é ela toalmente subjetiva?

Vimos na resposta acima que a beleza é aquilo que nos dá prazer ao ser visto. É a chamada beleza desfrutável, subjetiva, que varia de indivíduo para indivíduo. Mas a beleza nem sempre é uma questão de gosto.

Há um outro tipo de beleza, que chamamos de beleza admirável. A diferença é que enquanto a beleza desfrutável é imediata, a beleza admirável é mediada pelo pensamento e depende do conhecimento. O admirável é aquilo que possui excelência ou perfeição intrínseca, cujas partes estão coerentemente em ordem, formando uma unidade proporcional e clara.

O admirável exige um gosto superior (mais ainda gosto) ao desfrutável. Um expert admira uma pintura e, por conseguinte, desfruta dela. Um leigo poderá não desfrutar dela porque lhe falta a educação e treino para tanto; ou até mesmo poderá desfrutar dela, mas sem saber por quê.

No entanto, o admirável está objetivamente ligado às propriedades intrínsecas do objeto. Ao contrário da beleza desfrutável, que está destituída de conceitos, a beleza admirável depende de conceitos, tipos e classes. É por isso que um connoisseur de quadros não pode ipso facto ser um connoisseur de cães ou pérolas.

Conclusão: há, sim, objetividade na beleza, mas é necessário um gosto superior, treinado, conceitual (subjetivo, portanto) por parte do observador para detectá-la e, assim, admirá-la.

4) Beleza, bondade, verdade

Qual a relação entre beleza, bondade e verdade?

A beleza admirável é um tipo de bondade. Conforme vimos, a bondade de algo é comensurável pelo grau de seu ser, pela capacidade de actualizar e desenvolver suas potencialidades. Lembremos que, a partir dessa constatação, é melhor ser um rato do que uma pérola.

Mas quando comparamos coisas de mesmo tipo ou espécie (duas rosas, por exemplo), elas também possuem seus respectivos graus de perfeição ou excelência intrínsecos. O grau de excelência admirável é seu grau de bondade enquanto exemplar ou espécie desse tipo. Se uma rosa admirável fosse tida como uma rosa ideal, ela possuiria todas as perfeições que uma rosa ideal teria.

A teologia nos explica esse tipo de bondade. A excelência existencial de uma rosa, medida pelo seu grau de ser, reflete a bondade existencial de Deus enquanto Ser Supremo. Essa bondade existencial leva a uma verdade existencial, também identicamente intrínseca na beleza admirável. A rosa ideal, então, possui um si verdade e beleza existenciais que refletem (ou estão em conformidade) como que é uma rosa ideal na mente de Deus.

5) Justiça, liberdade, igualdade

Qual a relação entre justiça, liberdade e igualdade?

Das três idéias que regulam nossas ações em sociedade, apenas a justiça é um bem ilimitado, isto é, nunca é um bem que possuímos em excesso.

A liberdade ilimitada, como querem os libertários, acaba produzindo desigualdade de condições.

A igualdade ilimitada, como querem os igualitários, acaba produzindo falta de liberdade individual.

A justiça regula esses excessos, permitindo o exercício da liberdade ao mesmo tempo que exige certo grau de liberdade de condições.

6) Liberdade

Quais os tipos de liberdade?

Há três tipos de liberdade:

I) Liberdade inerente à natureza humana (liberdade natural). É o chamado livre arbítrio ou livre escolha.

II) Liberdade associada à sabedoria e à virtude moral (liberdade adquirida). Às vezes é chamada de liberdade moral. A virtude consiste em habitualmente fazer aquilo que é certo, isto é, escolher os bens reais que temos de desejar. Nossas paixões e apetites geram wants em conflito com os needs, e portanto devem ser controlados.

III) Liberdade dependente de circunstâncias externas (liberdade circunstancial). Ela pode ser possuída em diferentes graus, ao contrário das outras duas, que ou se tem ou não se tem. Consiste em fazermos o que quisermos, não importa se moralmente for certo ou errado.

Esta última liberdade é a que precisa ser regulada pela justiça. Se a liberdade circunstancial for ilimitada, isto é, se eu puder fazer o que bem entender a qualquer hora, isso resultaria num estado de total anarquia, ou de autonomia ("eu sou a lei de mim mesmo"). Há, portanto, a necessidadde de certos limites serem impostos quanto à liberdade cinrcunstancial.

A lei justa comanda ações que devem ser seguidas e proíbe ações que não devem ser feitas. O homem virtuoso continuará, sob um governo justo, a fazer o que quiser, pois ele faz aquilo que a lei já permite e não faz aquilo que a lei já proíbe.

Aristóteles ensina que o homem virtuoso faz livremente aquilo que o criminoso faz por temor à lei. Uma lei injusta diminui a liberdade do homem virtuoso.

Como é uma sociedade justa, em relação à liberdade?

Numa sociedade justa, temos direitos que correspondem aos nossos needs (saúde, conhecimento etc.). Chamamos a esses direitos de direitos naturais.

Mas o homem, ao contrário das abelhas e formigas, não é um ser meramente gregário. Ele é também político. Isso quer dizer que não agimos baseados apenas em instintos, mas também no exercício do raciocínio. Ou seja, as sociedade humanas não são apenas naturais, mas são convencionais.

É por isso que Aristóteles dizia que o homem é um animal político. Por isso, um outro direito natural é o de liberdade política, com as exceções de praxe: doentes mentais, crianças e criminosos.

7) Igualdade

Quais são os tipos de igualdade?

Podemos abordar a igualdade de três modos ou dimensões.

I) a) Igualdade pessoal
- Igualdade natural (genética etc.)
- Igualdade adquirida ( treino, hábito, estudo etc.)

b) Igualdade circunstancial
- Igualdade de condições (todos são iguais diante da lei, p.ex.)
- Igualdade de oportunidade (todos começarem com a mesma riqueza, p.ex.)

II) a) Igualdade declarativa: é quando se diz que algo é ou não é igual. A igualdade declarativa é válida tanto para a igualdade pessoal quanto para a circunstancial.

b) Igualdade prescritiva: é quando se diz que algo deve ou não deve ser igual. A igualdade prescritiva vale apenas para a igualdade circunstancial, simplesmente por que não faz sentido para a igualdade pessoal. P.ex.: todos devem poder votar.

III) a) Igualdade de grau. P.ex.: numa democracia moderna, todos podem votar, mas alguns acabam tendo mais poder político do que outros (uns são funcionários públicos nomeados, outros são delegados de polícia, outros são deputados, senadores, governadores, presidentes etc.). Todos tem um mínimo de poder político, mas uns têm mais poder político do que outros. É a desiguadade de grau.

b) Igualdade de tipo. P.ex.: numa democracia antiga, nem todos podiam votar. Isso significa que havia entre o não-eleitor e o eleitor uma desigualdade política de tipo. Uns tinham um mínimo de poder político, mas outros não tinham nenhum.

Como é uma sociedade justa, em relação à igualdade?

À exemplo da liberdade, as igualdades a que temos direito devem ser deduzidas a partir da natureza humana, para que preencham os nossos needs.

Os homens são iguais em sua humanidade, ou seja, todos compartilham as mesmas características da espécie humana. Neste aspecto, são todos iguais em tipo.

Portanto, a todos os homens deve ser dado o direito igual e circunstancial em termos políticos e econômicos.

Direitos políticos: Todos têm direito à cidadania com sufrágio, garantindo a todos o direito à participação política. Como vimos, isso garante a todos um direito político igual em tipo, mas não em grau.

Direitos econômicos: Um mínimo de alimento, vestuário, habitação, escolarização (para preencher os needs de conhecimento e habilidade), saúde, tempo livre para lazer e divertimento.

Todos devem ser iguais em tipo e em grau?

Jamais. Vale ressaltar novamente que a justiça requer que todos tenham tais igualdades em tipo, não em grau.
Na esfera política, os homens com maior capacidade e talento se encarregariam de funções que lhes dariam maior poder político.

Na esfera econômica, os homens com maior capacidade e talento se encarregariam de fazer as maiores contribuições à produção de riquezas. Aqueles que contribuem mais têm, com justiça, direito a receber mais.

Na esfera política, é impossível que um homem consiga obter, legalmente, uma quantidade de poder político que chegue a ponto de diminuir (ou destruir) o mínimo de poder político (sufrágio) a que todos têm direito.

Na esfera econômica, as coisas não são assim: é legalmente possível que um ou mais homens obtenham tanta riqueza que chegue a ponto de destruir o mínimo de riqueza a que alguns homens tenham direito. Portanto, no caso da esfera econômica, um limite para o acúmulo de riquezas deve ser estabelecido.

Chamamos de democracia a justa distribuição de poder político. Chamamos de socialismo a justa distribuição de riquezas. Há duas alternativas para alcançar-se o socialismo: pelo comunismo (capitalismo de Estado) e pelo capitalismo socializado (mercado livre, com algumas poucas restrições). Ambos são tipos de welfare state. O comunismo é um meio errado para um fim certo. Segundo Adler, o ideal socialista só pode ser atingido pelo capitalismo de livre mercado.

8) Justiça

Quais os tipos de justiça?

Há dois domínios nos quais a justiça atua:

I) A justiça do indivíduo em relação aos outros indivíduos e ao Estado.

O indivíduo merece ser tratado (ou ele deve tratar) de maneira justa nestes casos: (a) em função de seus direitos naturais (needs), (b) em comparação a outros indivíduos que mereceram mais ou menos sob as mesmas condições (p.ex., é um injustiça quando uma medalha de honra deixa de ser concedida a um soldado mas foi concedida a outro, quando ambos estavam exatamente sob as mesmas condições), (c) agir para o bem comum, isto é, para promover a ordem pública e o Estado de Direito (p.ex., não cometer traição contra a nação, não subornar um funcionário com fins ilícitos etc.).

Repare que todas essas formas de justiça não obrigam o indivíduo a fazer o bem para os outros, mas apenas a fazer o que é devido ou meritório. Do contrário, seria amor, não justiça.

II) A justiça do Estado em relaçao ao indivíduo.

A forma justa de governo é uma república com sufrágio universal, que possua uma constituição que assegure os direitos políticos e econômicos a todos, isto é, uma república democrática e socialista.

Como a lei ganha autoridade?

A autoridade da legislação é derivada das pessoas que a fizeram serem autorizadas a legislar para o bem comum e na própria lei ser justa no cumprimento dos preceitos da justiça natural.

A lei deve, portanto, ter uma fonte autoritativa, isto é, que lhe confira autoridade. É claro que, além disso, a lei precisa da força para que seja cumprida. Afinal, como disse Alexander Hamilton, "Se os homens fossem anjos, o governo não seria necessário".

A posição acima apresentada é a posição naturalista, ou seja, de que a justiça dos direitos naturais precede (é anterior) à formulação da lei. A posição positivista, ao contrário, sustenta que a lei é que determina o que é e o que não é justo. Trata-se, segundo Adler, de um erro tipicamente moderno. Segundo a posição positivista, a lei não pode ser classificada de justa ou injusta, já que é a própria lei que dá a medida de justiça a todo o resto. A lei, para os positivistas, não é justa ou injusta; ela simplesmente é.

Há, é claro, certas convenções e regras (como as leis de trânsito, por exemplo), cuja justiça ou injustiça é conferida pela própria lei. São os casos de mala prohibita. Por exemplo, o fato de um carro trafegar na contramão é injusto apenas porque a lei assim o determina. Se a mão de direção tivesse sido alterada naquele mesmo instante, trafegar na contramão teria sido justo.

Roubar, estuprar, matar a esmo etc. são mala per se, ou seja, mesmo que a lei permitisse tais males, continuariam sendo injustos do mesmo jeito. Os positivistas, como se vê, são incapazes de distinguir entre mala prohibita e mala per se, reduzindo tudo a mala prohibita.

22 de janeiro de 2006

O mistério das duas naturezas de Cristo

Recomendo a leitura do artigo The Mystery of the Two Natures, de James Cutsinger.

Em suma, Cutsinger conclui que a afirmação segundo a qual "Jesus é Deus" está correta, mas sob certo ponto de vista apenas. O erro, segundo ele, seria afirmar que Jesus é Deus e Deus é Jesus , ou seja, que em Jesus estavam presentes todos os atributos de Deus Pai.

Os Pais da Igreja repudiavam esse tipo de raciocínio, e até mesmo há, teologicamente, o nome das três heresias que se seguem a esse raciocínio:

1) A tradição ensina que foi o Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que encarnou-se em Jesus, não a Primeira Pessoa do Pai. Confundir as Pessoas ou, pior, igualá-las, constitui uma heresia chamada monarquianismo modalista.

2) Embora Cristo tenha participado integralmente em cada aspecto de nossa physis humana (exceto o pecado), ele não participava conosco de nossa personalidade humana. Ele era fisicamente homem pois sentia emoções, privações físicas (fome, sede etc.), mas era o Logos encarnado. Pensar que Jesus Cristo foi um "homem excepcional", sobre quem a divindade foi projetada, constitui uma heresia chamada monarquianismo dinamista.

3) As duas naturezas de Cristo estão hipostaticamente ligadas, de maneira que nenhuma eclipsa ou sufoca a outra, numa perfeita communicatio idiomatum. Supor o contrário, ou seja, que a humanidade de Jesus foi sobrepujada pela Divindade que nEle estava manifesta, constitui uma heresia chamada monofisitismo.

Cutsinger lembra que Jesus, embora tenha dito que Eu e meu Pai somos um, disse também Meu Pai é maior do que eu. Isso quer dizer que, embora Jesus seja Deus, ele é a Segunda Pessoa e apenas a Segunda Pessoa, permancendo Absoluto para as criaturas mas subordinado à Primeira Pessoa. É por isso que Jesus orava a Deus Pai. Se Jesus fosse Deus e Deus fosse Jesus, então para quê orar? Temos de admitir que a divindade de Jesus era derivativa, ou seja, Jesus não era a Essência Divina, mas a auto-determinação dessa Essência Divina ao nível do Ser. No entanto, como vimos, o argumento de Cutsinger é refutar a tese exclusivista segundo a qual Jesus = Deus. Dizer que Jesus é Deus está correto, mas a conexão verbal "é" não deve ser entendida como uma igualdade matemática ("Jesus é igual a Deus").

É aqui, nessa igualdade matemática, que muitos cristãos equivocadamente se apegam.

Cutsginer continua, raciocinando da seguinte forma: Ok, Jesus é o Filho de Deus, mas será Jesus o único Filho de Deus? Observem que o argumento do artigo refuta apenas a identidade exclusivista Filho = Pai, mas não o exclusivismo Jesus-único-Filho-de-Deus. Cutsinger afirma que os Pais da Igreja e as diversas fórmulas conciliares jamais deram a entender que Jesus fosse o único Filho de Deus mas admite que, dentro do "planeta" que cada religião representa (nas palavras de Schuon), é perfeitamente compreensível que se desenvolva um grau de egoísmo que contamine os dogmas exotéricos.

17 de janeiro de 2006

A Fé Explicada - O Credo

Em A Fé Explicada (The Faith Explained), cuja primeira edição data de 1959, o Pe. Leo J. Trese procura introduzir o catecismo católico explicando suas principais doutrinas e ensinamentos. O livro é excelente para aqueles que desejam conhecer a posição oficial da Igreja Católica a respeito dos dogmas centrais do Cristianismo mas não querem ainda tomar contato com opiniões e julgamentos alheios. Trese apega-se ao vocabulário utilizado no Catecismo Católico, o que permite ao leitor acostumar-se com ele desde já.

O ponto fraco do livro é que, por vezes, Trese acaba simplificando demais as explicações de certas questões, tornando inevitável o surgimento de dúvidas que só poderão ser sanadas em outras fontes.

O livro é constituído de três partes: (1) O Credo, (2) Os Mandamentos e (3) Os Sacramentos e a Oração. Neste post, resumirei apenas a primeira parte. Futuramente, as outras duas serão acrescentadas. Os nomes dos capítulos foram alterados para facilitar a consulta.

* * *

I - Por que estamos aqui? O que Deus quer de nós?

Por que nos fez Deus? Para participarmos de sua eterna felicidade no céu. A isso chamamos fruição do amor. (Vale lembrar que os momentos que experimentaremos no Céu - chamados de aevum pelos teólogos - não são ciclos temporais, cronometráveis). Essa fruição do amor no Céu exige um princípio de amor aqui na terra. E foi para isso que Deus nos colocou aqui: para que, amando-O, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no Céu. O amor é como os olhos que nos permitem ver aqui na terra; o amor permitirá que "enxerguemos" a Deus no Céu.

E como sabemos se O amamos ou não? Simples: se fazemos o que Ele quer que façamos, então O amamos. É por isso que o amor a Deus reside na vontade, e não nos sentimentos. Não são os gemidos, choros ou gritos que dão testemunho de nosso amor a Deus. E quanto mais fizermos aqui por Deus, tanto maior será a nossa felicidade no Céu. Em conseqüência, uns terão maior capacidade de felicidade que outros.

P: Que devemos fazer para adquirir a felicidade no Céu? R: Devemos conhecer, amar e servir a Deus nesta vida.

Será que Deus nos deixa a sós na tarefa de conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo? Ou seja, será que Deus espera que nossas forças humanas sejam suficientes para cumprirmos essas tarefas? Não. Deus concede um poder sobrenatural aos bem-aventurados (já que a felicidade no Céu será sobrenatural, e não naturalmente humana como a da terra ou do limbo) chamado lumen glorie (luz de glória).

P: Quem nos ensina a conhecer, amar e servir a Deus? R: Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nos ensina por meio da Igreja.

As principais verdades ensinadas por Cristo foram resumidas pela Igreja no Credo dos Apóstolos, o mesmo credo recitado pelos primeiros cristãos (Cornélio, Apolo, Áquila, Priscila e outros). E muitas das revelações divinas foram guardadas na Bíblia Sagrada. No entanto, muitos ensinamentos orais de Cristo e dos Apóstolos não foram registrados na Bíblia, sendo transmitidos de geração em geração por intermédio dos bispos. É o que chamamos de Tradição da Igreja, que, juntamente com a Bíblia, compõem a revelação divina completa, todas as verdades em que devemos crer.

II - Deus é um espírito infinitamente perfeito

Quem é Deus, afinal? Assim como os bebês bêm dos pais e as flores vêm das sementes, tem de haver alguém que não foi feito por outro, que tenha existido sempre, alguém que não teve começo. Segundo o catecismo, Deus é um espírito infinitamente perfeito; ou seja, é infinitamente bom; Seu conhecimento é infinito. Deus é onipresente e onipotente. Sua justiça é infinita, ou seja, é misericordioso para nos perdoar mas justo em não nos perdoar caso recusemo-nos a amá-Lo. Deus não é um tirano nem um velho bonzinho.

III - A Trindade

As verdades de fé como a da Santíssima Trindade chamamos de mistérios de fé. Isso quer dizer que Deus manifestou essa verdade, mas não por inteiro. Assim, temos de esperar chegarmos ao Céu para que Ele nos revele por inteiro.

A Trindade diz que há apenas uma natureza divina, mas três Pessoas divinas. Ao contrário dos homens, que possuem uma natureza e uma pessoa (por exemplo, numa sala de aula com quarenta alunos diremos que lá há quarenta pessoas), Deus possui três Pessoas.

1) Deus Pai. É Deus conhecendo-se (ou pensando) a Si mesmo. Como esse pensamento é perfeito, então deve incluir a existência, já que a existência é própria da natureza de Deus. Então...

2) Deus Filho. É a expressão do conhecimento (ou pensamento) de Deus sobre Si mesmo. A essa expressão viva chamamos Palavra ou Verbo Divino.

3) Deus Espírito Santo. É Deus enquanto resultado do amor por Si mesmo. O Pai e o Filho contemplam Sua natureza bela e boa, engendrando um amor em grau infinito. A esse amor vivo chamamos Amor Divino.

Nenhuma dessas pessoas é mais poderosa, mais sábia ou maior que as demais. Não há qualquer tipo de subordinação entre o Filho e o Pai, por exemplo.

IV - Os anjos e seu pecado original

As primeiras obras de criação divina são os anjos. Um anjo é um espírito, isto é, um ser com inteligência e vontade mas sem corpo. Eis a ordem ascendente dos anjos: anjos, arcanjos, principados, potestades, virtudes, dominações, tronos, querubins e serafins.

Deus fez os anjos com livre-arbítrio para que fossem capazes de fazer seu ato de amor a Deus. Mas Lúcifer, um dos anjos mais dotados, chefiou um rebelião de anjos, que se recusaram a servir a Deus. O terrível grito non serviam ("não servirei") percorreu os Céus. E assim começou o inferno. Ao contrário dos homens, as vontades dos anjos permanecem fixas contra Deus. Ao contrário dos homens, aos anjos não é possível o arrependimento. Fizeram a sua escolha por toda a eternidade. Neles arde um ódio eterno contra Deus e Suas obras. Eis então o objetivo do diabo: arrastar os homens ao mesmo caminho de rebelião contra Deus.

O diabo não é capaz de fazer-nos pecar. Quem peca somos nós. O diabo pode é nos tentar, mas vale lembrar que nem toda tentação vem do diabo. Elas podem vir do diabo, de paixões interiores e do mundo que nos rodeia.

Algumas considerações quanto às influências do diabo:

1) Possessão diabólica. Ela existe, conforme a Bíblia e a experiência da Igreja atestam. O diabo penetra no corpo de uma pessoa, controlando suas atividades físicas. Mas, mesmo na possessão, o diabo não controla a alma da pessoa.

2) Obsessão diabólica. É quando o diabo ataca de fora, derrubando a pessoa da cama, atormentando-a com ruídos horríveis etc.

O exorcismo é o rito religioso para expulsar o demônio de uma pessoa possessa ou obsessa. É quando a Igreja apena para sua própria Cabeça, o Cristo, para expulsar o demônio.

V - Os homens e seu pecado original

A alma do homem é espiritual como a dos anjos mas seu corpo é matéria como do animais. O homem tem, portanto, um pé na eternidade e outro no tempo. O corpo e a alma humanas se fundem, como o bronze, que não é nem cobre nem zinco, mas uma substância nova. Mas a parte mais importante da pessoa humana é a alma, pois ela é imortal, enquanto o corpo é mortal.

No início, Deus conferiu a Adão e Eva dons chamados preternaturais. Preternatural significa fora ou além do curso ordinário da natureza. Os principais dons preternaturais de Adão e Eva eram (1) uma sabedoria de ordem imensamente superior, um elevado conhecimento natural de Deus e do mundo, (2) uma elevada força de vontade e perfeito controle das paixões e dos sentidos e (3) ausência de dor e de morte. Quando tivessesem acabado seus anos de vida temporal, entrariam na vida eterna em corpo e alma, sem experimentar a terrível separação de alma e corpo a que chamamos morte.

Mas Deus também conferiu a Adão e Eva um dom sobrenatural. Sobrenatural significa algo que está totalmente sobre a natureza de toda e qualquer criatura. Esse dom sobrenatural que Deus conferiu a eles é o dom da graça santificante, que permite a participação na própria natureza divina.

Porém, ao desobedecerem a Deus e falharem na prova de amor a Ele, Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, que chamaos pecado original. Num instante, eles perderam todos os dons preternaturais e a graça santificante, reduzindo-se ao mínimo essencia que lhes pertencia pela sua natureza humana. Como todos nós estávamos potencialmente presentes naquele momento, todos sofremos esse pecado. É por isso que diz-se que nascemos em estado de pecado original.

É verdade que o Batismo nos devolve o dom sobrenatural da graça santificante, mas ele não restaura os dons preternaturais. De Adão para cá, um só ser humano (sem contar Cristo) possuiu uma natureza humana em perfeita ordem: a Santíssima Virgem Maria. Ela foi preservada desde o primeiro instante de sua existência da escuridão espiritual do pecado original. A este privilégio chamamos Imaculada Conceição de Maria.

VI - Os homens e seus pecados atuais; os sete pecados capitais

Além do pecado original, em cuja sombra nascemos, temos de enfrentar outro tipo de pecado: o que nós mesmos cometemos. É o pecado atual. O pecado atual pode ser venial ou mortal, segundo seu grau de malícia. O venial é o pecado de pequena gravidade. Um filho que desobedece os pais, ou conta uma mentirinha, comete um pecado venial, mas não por isso deixa de amar os pais. Mas um filho que desobedece os pais, ferindo-os ou afligindo-os intensamente, comete um pecado mortal, amando a si mesmo mais do que a eles. Vale lembrar que podemos pecar não só fazendo o que Deus proíbe (pecado de ação), como deixando de fazer o que Ele ordena (pecado de omissão).

Quanto aos pecados mortais, são necessárias três condições para cometê-lo:

(1) A matéria deve ser grave, seja por pensamento, palavras ou obras.
(2) Devemos saber que o que fazemos é grave, ou seja, não podemos pecar por ignorância.
(3) O pecado só é mortal se cometido de maneira resoluta, ou seja, se eu livremente resolver praticar determinada ação (ou omissão) que é contra a Vontade de Deus.

Quais a raiz do pecado? A raiz do pecado é a intenção na mente e na vontade da pessoa. Por esta razão, somos culpados de pecado no momento em que decido cometê-lo, mesmo que não tenha oportunidade de praticá-lo ou mesmo que depois mude de opinião. É claro que o ato exterior tem sua importância. Na verdade, realizar a má intenção e praticar o ato acrescenta gravidade ao pecado, intensifica a sua malícia.

Há sempre um defeito que se destaca em nós mais do que outros possíveis defeitos, um defeito que representa verdadeiro obstáculo para nosso crescimento espiritual. São as chamadas paixões dominantes. As virtudes, por outro lado, são os hábitos bons que praticamos com

Os sete principais defeitos, chamados de pecados capitais, são:

(1) Soberba: procura desordenada da nossa própria honra e excelência.
(2) Avareza: imoderado desejo de bens temporais.
(3) Luxúria: pecado contra a castidade.
(4) Ira: estado emocional desordenado que nos empurra a desforrar-nos dos outros, a opor-nos insensatamente a pessoas ou coisas.
(5) Gula: atração desordenada pela comida ou bebida.
(6) Inveja: tristeza causada pelo fato de outros estarem numa situação melhor que a nossa; sofrimento pela melhor sorte dos outros.
(7) Preguiça: desgosto e recusa ante o cumprimento de nossos deveres, especialmente de nossos deveres para com Deus, conformando-nos com a mediocridade espiritual.

VII - Maria e o Menino Jesus

Quando Deus criou a alma de Maria, eximiu-a do pecado original no mesmo instante em que a Virgem foi concebida no seio de Ana. Portanto, Maria recebeu a herança perdida por Adão: desde o início do seu ser, esteve unida a Deus.

A aparição do anjo ococrreu quando Maria ainda morava com seus pais. O pecado veio ao mundo por livre decisão de Adão; Deus quis que a livre decisão de Maria trouxesse ao mundo a salvação. (Por isso, Maria é chamada de corredentora dos homens). No exato instante em que aceitou, Deus Espírito Santo engendrou no ventre de Maria o corpo e a alma de uma criança, a quem Deus Filho se uniu no mesmo instante.

Quanto ao Menino Jesus, frequentemente se pergunta se Ele, ao crescer, teve que aprender as coisas como as demais crianças. Para tanto, temos de entender que Jesus possuía dois tipos de conhecimento:

(1) Conhecimento infinito, isto é, conhecimento de tudo que evidentemente Jesus, como Deus Filho, possuía.

(2) Conhecimento humano, que, por sua vez, se subdivide em três espécies: (a) conhecimento beatífico (conhecimento similar quando virmos Deus no céu), (b) ciência infusa (conhecimento completo das coisas criadas, semelhante aos anjos, que prescinde de raciocínios como os humanos) e (c) conhecimento experimental (que Jesus ia adquirindo à medida que crescia).

VIII - Redenção

Enquanto Jesus não morresse na Cruz, ninguém podia ver a Deus face a face. E, não obstante, haviam existido muitos homens que tinham crido em Deus e na sua misericórdia, e guardado suas leis. Como estas almas não haviam merecido o inferno, permaneciam num estado de felicidade puramente natural, sem visão direta de Deus. Eram muito felizes, mas com a felicidade que nós poderiamos alcançar na terra, se tudo nos corresse perfeitamente bem.

O estado de felicidade natural em que essas almas aguardavam chama-se limbo. A estas almas Jesus apareceu enquanto jazia na sepultura, para anunciar-lhes a boa nova da sua redenção; para, poderíamos dizer, acompanhá-las e apresentá-las pessoalmente a Deus Pai.

Segundo havia prometido, Jesus ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia, com um corpo glorificado, idêntico ao que será o nosso depois da nossa ressurreição, e decidiu permanecer quarenta dias na terra com a seguinte missão: completar a preparação e missão de seus doze Apóstolos. Na Última Ceia, na noite da Quinta-feira santa, tinha-os ordenado sacerdotes. Agora, na noite do Domingo de Páscoa, complementa-lhes o sacerdócio, dando-lhes o poder de perdoar os pecados. Em outra ocasião, cumpre a promessa feita a Pedro e o fz cabeça da sua Igreja. Explica-lhes o Espírito Santo. Instrui-os confiando-lhes as linhas gerais do seu ministério. E, finalmente, dá aos seus Apóstolos a missão final de ir e pregar ao mundo inteiro.

Depois da sua ascensão ao Pai, a próxima vez em que Cristo aparecerá à humanidade será no dia do fim do mundo, para julgar o mundo que seu Pai lhe deu.

IX - A graça santificante e como recuperá-la: orações, graças atuais, sacramentos e mérito

A graça é um dom de Deus, sobrenatural e interior, que nos é concedido pelos méritos de Jesus Cristo para nossa salvação. Esta graça não só nos torna capazes de ter uma união e comunicação com Deus nesta vida, como também prepara a alma para um outro dom que lhe acrescentará após a morte: o dom da visão sobrenatural, o poder de ver a Deus face a face. Chamamos isso de lumen glorie, ou luz de glória.

Resumindo: graça santificante = união com Deus nesta vida; lumen glorie = união com Deus após a morte.

Quanto à graça santificante, há três condições que os homens devem observar: (1) que a conservem até o fim, (2) que a recupere imediatamente após perdida em função de um pecado mortal cometido e (3) que procurem fazê-la crescer.

Mas os homens são incapazes de alcançar a graça por conta própria. Precisam da ajuda de Deus, que concede aos homens as graças atuais. Elas atuam na mente ou na vontade humanas, geralmente nas duas. Veja como atuam:

(1) Deus ilumina a mente do pecador para que veja o mal que cometeu. Se repele essa primeira graça, provavelmente não terá a segunda.

(2) Se o pecador aceita a primeira graça, então Deus fortalecerá sua vontade, que lhe permitirá um ato de contrição. Se a contrição do pecador for perfeita (se o seu motivo principal for o amor a Deus), a agraça santificante retornará imediatamente à sua alma.

(3) Se a contrição for imperfeita, baseada principalmente no temor à justiça divina, haverá um novo impulso da graça.

Se a graça concedida por Deus for forte o suficiente até mesmo para vencer nossas fraquezas e corações duros, chamamo-la de graça eficaz. No entanto, podemos fazer com que muitas graças se desperdicem. A nossa indiferença ou indolência ou, pior ainda, nossa resistência voluntária, podem frustrar a ação da graça divina em nossa alma.

É importante termos em mente que a graça santificante cresce na alma mediante a oração e os outros seis sacramentos.

P: O que é a oração? R: A oração é uma elevação da mente e do coração a Deus para adorá-lo, dar-lhe graças e pedir-lhe o que necessitamos.

Há dois tipos de oração:

(1) A oração se faz por meio de palavras, sejam as nossas sejam as escritas por outros, contanto que nos façamos entender por meio delas. É a oração vocal.

(2) A mente e o coração fazem todo o trabalho, sem recorrer a palavras. É a oração mental.Por exemplo, se eu vejo um crucifixo e me vem ao pensamento o muito que Jesus sofreu por mim, então fiz uma oração mental. Por sua vez, há dois tipos de oração mental: (a) a meditação, como a que exemplificamos e (b) a contemplação, uma tipo de oração mais elevada, em que a mente e o coração são elevados a Deus e nEle descansam.

Quando falamos de pecado mortal e perda de graça santificante, vem à mente o sacramento da Penitência. De fato o fim primário da Penitência é devolver a vida quando se perdeu a graça santificante pelo pecado mortal. Mas a Penitência também possui um fim secundário, que é revigorar a vida para a alma que já está em estado de graça. No entanto, o sacramento que é fonte de vida por excelência é o da Sagrada Eucaristia. Nela, Deus vem a nós como alimento e bebida sob as aparências do pão e do vinho. Na Missa, nossa alma se ergue até o seio da Santíssima Trindade. Na Consagração, por sua vez, tocamos a divindade, mas por um processo reverso: ao contrário da Missa, na Consagração Deus é que vem a nós.

Por último, há ainda a questão do mérito. O mérito é a propriedade de uma obra obra em habilitar, a quem a realiza, a receber uma recompensa. A recompensa será tripla: (1) aumento da graça santificante, (2) vida eterna e (3) maior glória no céu. Porém, só a alma que esté em graça santificante pode adquirir mérito por suas ações.

E não nos esqueçamos que, para alcançar a vida eterna, devemos é claro morrer em estado de graça. Esta vida - é só esta vida - é o tempo de prova, o tempo de merecer.

X - Virtudes sobrenaturais, dons do Espírito e frutos do Espírito

P: O que é virtude? R: Virtude é o hábito permanente da alma que lhe dá inclinação, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem e evitar o mal.

A virtude pode ser natural quando adquirida por nós mesmos, e sobrenatural quando infundida na alma diretamente por Deus.

As virtudes sobrenaturais são infundidas na alma no momento do Batismo, juntamente com a graça santificante. São elas:

(1) Virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Têm esse nome porque dizem respeito a Deus.
(2) Virtudes morais ou cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. têm esse nome porque dizem respeito indiretamente a Deus e diretamente às pessoas e coisas.

Fé é a virtude pela qual cremos firmemente em todas as verdades que Deus revelou, baseados na autoridade do próprio Deus, que não pode enganar-se nem enganar-nos.

Esperança é a virtude pela qual confiamos que Deus, que é todo-poderoso e fiel às suas promessas, nos concederá a vida eterna e os meios necessários para alcançá-la.

Caridade é a virtude pela qual amamos a Deus por si mesmo, sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos, por amor a Deus. A caridade é chamada a rainha das virtudes porque as outras, tanto as teologais quanto as morais, nos conduzem a Deus, mas a caridade é a que nos une a Deus.

Prudência é a faculdade de julgar retamente; ela aperfeiçoa a inteligência. Justiça é a faculdade que aperfeiçoa a nossa vontade, salvaguardando os direitos de nossos semelhantes à vida e à liberdade, à santidade do lar, ao bom nome e à honra, aos bens materiais. Fortaleza é a faculdade que nos inclina a fazer o bem apesar das dificuldades. Temperança é a faculdade que nos ajuda a dominar nossos desejos e, em especial, a usar dignamente das coisas que agradam aos sentidos.

Além da graça santificante e das virtudes, o Batismo também nos fornece os sete dons do Espírito Santo. Estes dons são qualidade que se comunicam à alma e que a tornam sensível aos movimentos da graça, facilitando-lhe a prática da virtude. São eles:

(1) Sabedoria, que nos dá o sentido da proporção para apreciarmos as coisas de Deus, dando ao bem e à virtude seu verdadeiro valor, para encaramos os bens do mundo como degraus para a santidade, não como fins em si.

(2) Entendimento, que nos dá a percepção espiritual necessária para entendermos as verdades da fé.

(3) Conselho, que aguça nosso juízo, nos ajudando a perceber e escolher a decisão que será par a maior glória de Deus.

(4) Ciência, que nos torna aptos para reconhecer o que é espiritualmente útil ou prejudicial.
Está intimamente ligado ao dom do conselho. O conselho nos move a escolher o útil e repelir o nocivo, mas, para escolher, devemos antes conhecer.

(5) Fortaleza, que robustece nossa debilidade humana.

(6) Piedade, que nos ajuda a manter uma atitude de confiante intimidade com Deus, como uma criança que respeita a seus pais: uma combinação de amor, confiaça e reverência.

(7) Temor de Deus, que equilibra o dom da piedade, nunca nos esquecendo que Ele é o Juiz da justiça infinita, diante de quem um dia teremos que responder pelas graças que nos concedeu.

O resultado de tudo isso, isto é, da graça, das virtudes e dos dons, são manifestos nos chamados doze frutos do Espírito, a saber:

(1) Caridade, pela qual vemos Cristo no seu próximo, e estamos sempre dispostos a ajudá-lo.

(2) Gozo, pelo qual somos alegres e otimistas.

(3) Paz, pela qual somos serenos e tranqüilos.

(4) Paciência, pela qual não nos irritamos facilmente, não guardamos rancor pelas ofensas, não nos perturbamos nem ficamos desapontados quando as coisas nos correrem mal ou as pessoas se comportarem mesquinhamente.

(5) Benignidade, pela qual somos amáveis.

(6) Bondade, pela qual defendemos com firmeza a verdade e o direito, mesmo que todos nos deixem só.

(7) Longanimidade, pela qual não nos revoltamos com o infortúnio e o fracasso, com a doença e a dor.

(8) Mansidão, pela qual somos delicados.

(9) , pela qual a religião é a coisa mais importante da vida.

(10) Modéstia, pela qual há uma decência no que fazemos, fortalecendo a virtude dos outros, nunca infraquecendo.

(11) Continência, pela qual mostramos domínio admirável de nós mesmos, quer na comida, na bebida, no trabalho ou na diversão.

(12) Castidade, pela qual sentimos uma grande reverência pela faculdade de procriar, vendo o sexo nunca como divertimento ou como fonte de prazer egoísta.

XI - A Igreja Católica: seus deveres, suas marcas, seus atributos e a comunhão dos santos

Por que Cristo instituiu uma Igreja na terra? Quais os deveres dessa Igreja? São três:

(1) Santificar. Cristo conhecia nossa necessidade de uma segurança visível. Então Ele preferiu canalizar as suas graças através de símbolos sensíveis: instituiu, pois, os sacramentos, para que pudéssemos saber quando, como e que espécie de graça recebemos. O agente que guarda e deistribui os sacramentos é a Igreja instituída pelo próprio Cristo.

(2) Ensinar. Jesus fundou a Sua Igreja parar ensinar aos homens as verdades que Ele ensinou, as verdades necesárias à salvação.

(3) Governar. Da mesma maneira que seria inútil a um país ter uma Constituição sem alguém que a interprete, a Igreja interpret a Revelação de maneira apropriada, decidindo, por exemplo, quem pode receber este ou aquele sacramento, que pode ser membro da Igreja, como permanecer nela etc.

P: O que é a Igreja? Igreja é a congregação de todos os batizados, unidos na mesma fé verdadeira, no mesmo sacrifício e nos mesmos sacramentos, sob a autoridade do Sumo Pontífice e dos bispos em comunhão com ele.

Esse tríplice dever - santificar, ensinar e governar - dos Apóstolos foi por eles transmitido a outros homens, os bispos. Os bispos atuais são, portanto, os sucessores dos Apóstolos. E o pode de Pedro, a quem Cristo constituiu cabeça de tudo, reside hoje no bispo de Roma, o Papa.

Eis, portanto, o Corpo da Igreja de Cristo: (1) no cume o Papa, (2) mais abaixo o Colégio Episcopal, (3) mais abaixo os sacerdotes e (4) o povo de Deus, todos os batizados.

Mas a Igreja é o próprio Corpo de Cristo: é o Corpo Místico de Cristo. Isso quer dizer que a Igreja não é apenas uma instituição jurídica, mas um organismo vivo, um Corpo que vive, cuja Cabeça é Cristo, cujos membros são os batizados e cuja alma é o Espírito Santo. É um Corpo em que cada membro se beneficia de cada Missa que se celebra, de cada oração que se oferece, de cada boa obra que se faz por cada um dos outros membros, em qualquer lugar do mundo. Assim, todos são chamados a ser apóstolos (com 'a' minúsculo), ou seja, todos têm a missão de ajudar o Corpo Místico de Cristo a crescer e a manter-se são.

Cristo, ao instituir a Sua Igrja, deixou nela estampada a sua marca. Podemos dizer que a marca da Igreja é um quadrado:

(1) Unidade. Os membros da Igreja devem manifestar unidade de credo. Uma fé, uma cabeça, um culto.

(2) Santidade. Segundo o Catecismo, a Igreja é santa "porque foi fundada por Jesus Cristo, que é saanto; porque ensina, segundo a vontade de Cristo, uma doutrina santa e oferece os meios para se levar uma vida santa, formando assim membros santos em todas as idades".

(3) Catolicidade. A Igreja Católica existiu todo o tempo desde Domingo de Pentecostes até os nossos dias, é a única que ensina todas as verdades e é também universal em extensão.

(4) Apostolicidade. A Igreja que pretenda ser de Cristo deve provar sua legítima descendência dos Apóstolos. A Igreja Católica tem a lista dos bispos de Roma, que se remete do Papa atual numa linha contínua até São Pedro.

Tais marcas, necessários à Igreja que que queira se dizer de Cristo, são acompanhadas, conseqüentemente, de três atributos ou qualidades, a saber:

(1) Autoridade. É o direito de falar em nome de Cristo e de ser escutada.

(2) Infalibilidade. É a certeza de estar livrer de erro quando proclama solenemente as verdades de Deus. O católico sabe que o Papa pode pecar e errar, como qualquer pessoa, e sabe que as opiniões do Papa têm a força que sua sabedoria humana lhes pode dar. Mas quando o Papa, solenemente, declara que certas verdades foram reveladas por Cristo, então ele não erra.

(3) Indefectibilidade. É a permanência da Igreja até o fim dos tempos como Jesus a fundou, que não é perecível, que continuará a existir enquanto houver almas a salvar.

Com comunhão dos santos devemos entender que existe uma união, uma comunicação entre as almas em que o Espírito Santo tem a sua morada. Há três "ramos", por assim dizer, da comunhão dos santos:

(1) Igreja militante, isto é, os santos aqui da terra que ainda militam (lutam) contra o pecado e o erro.

(2) Igreja padecente, isto é, as almas do purgatório que ainda não podem ver a Deus, mas o Espírito Santo está com elas.

(3) Igreja eterna, isto é, as almas dos bem-aventurados que se encontram no céu. É essa Igreja que absorverá tanto a militante quanto a padecente depois do Juízo Final.

Na prática, a comunhão dos santos significa que devemos ter consciência das necessidades dos outros. Os santos do céu oram pelas almas do purgatório e por nós. Nós, de nossa parte, devemos venerar e honrar os santos. Não só porque podem e querem interceder por nós, mas porque o nosso amor a Deus assim o exige. Nós devemos, ainda, orar pelas benditas almas do purgatório. É evidente que devemos, também, rezar uns pelos outros.

XII - O fim do mundo: morte, Juízo Particular, inferno, purgatório, ressurreição da carne e vida eterna

A morte é a separação da alma e do corpo. E o que acontece então? No exato momento em que a alma abandona o corpo, é julgada por Deus. Tal juízo individual da alma imediatamente após a morte chama-se Juízo Particular. O que ocorre é que a alma se vê como Deus a vê, em estado de graça ou em pecado e, consequentemente, sabe qual será o seu destino segundo a infinita justiça divina.

A alma que morre em pecado mortal está no inferno. Mas suponhamos que morremos confortados pelos últimos sacramentos e com uma indulgência plenária bem ganha no momento da morte. O juízo da alma será a imediata visão de Deus: a visão beatífica.

Mas o que acontecerá se, ao morrermos, o Juízo Particular não nos encontrar separads de Deus pelo pecado mortal mas também não com a perfeita purezaz de alma? É aqui que se põe de manifesto a doutrina do purgatório. Mesmo que esta doutrina não tivesse sido transmitida pela Tradição desde Cristo e os Apóstolos, a simples razão nos diria que deve haver um processo de purificação final que lave até a menor imperfeição que se inerponha entre a alma e Deus.

A grande diferença entre o sofrimento do inferno e o do purgatório é que no inferno há a certeza da separação eterna e no purgatório a certeza da libertação.

Quanto ao fim do mundo, não sabemos quando virá. O que sabemos é que quando o mundo acabar, os mortos ressuscitam, e depois vem o Juízo Final. O Juízo Final não oferecerá surpresas em relação ao nosso eterno destino. Já teremos passado pelo Juízo Particular; a nossa alma já estará no céu ou no inferno. A diferença é que a sentença que recebemos no Juízo Particular será agora confirmada publicamente.

27 de dezembro de 2005

Fulton J. Sheen e o problema da liberdade

Na esteira de Leo Trese, um amigo recomendou-me os livros do Arcebispo de Rochester (Nova York), Fulton J. Sheen (1895-1979). Famoso pelos seus programas de TV nos anos 50 e começo dos 60 (Life is Worth Living e The Fulton Sheen Program), Sheen foi também autor de 96 livros, quase todos apologéticos, além de artigos e colunas em jornais. Seus livros são facilmente encontráveis em sebos, inclusive alguns títulos em português e espanhol. Algumas prédicas também estão disponíveis aqui.

E
ncontrei O Problema da Liberdade, cujo título original é Freedom Under God. Publicado nos EUA em 1940, a tradução brasileira foi lançada em 1945 pela Editora Agir e contou com diversas edições. A que encontrei é a 5ª edição, de 1956.

O objetivo de Sheen é estabelecer a relação entre religião, liberdade e os sistemas políticos e econômicos modernos. Sheen condena ferozmente o comunismo e o nazismo, considendo-os ideologias semelhantes. Quanto ao liberalismo free market, Sheen também reserva críticas duras, mas para isso faz uso de velhos mitos socialistas como, por exemplo, a idéia de que sob o liberalismo econômico os pobres ficam mais pobres porque os ricos ficam mais ricos; no início da Revolução Industrial os trabalhadores foram vilmente explorados, salvos mais tarde por sindicatos e leis trabalhistas; os trabalhadores deveriam participar nos lucros das empresas, e negar-lhes isto representa grave exploração por parte do capital.

Esses mitos influenciam o raciocínio do autor de maneira tão profunda que, infelizmente, comprometem muitas de suas análises. É triste ver um homem consciente dos males do comunismo preso às próprias doutrinas comunistas quando tenta prescrever-lhes uma cura.

Quanto à estrutura geral do livro, a divisão é a seguinte: (1) Expulsão da religião do espaço público, (2) Falsas liberdades e verdadeira liberdade e (3) Aplicações da verdadeira liberdade na ordem econômica e política.
* * *
Sheen inicia sua digressão sobre a liberdade lembrando que é a religião quem dá ordem e virtude à sociedade. Baní-la do espaço público, reduzindo-a a práticas e doutrinas meramente privadas, acaba engendrando na sociedade um espírito arreligioso que, por fim, se transformará em um espírito anti-religioso. Se o homem deseja ser verdadeiramente livre, então precisará redescobrir o que Sheen chama de "os direitos de Deus e da religião sobre a ordem pública", provavelmente uma alusão à Era Cristã.

Expulsada a Igreja da praça pública, duas falsas liberdades vêm preencher o vácuo, (1) a liberdade de indiferença, na qual o indivíduo age e pensa como quiser, à exemplo do que ocorre no ceticismo, no relativismo e no liberalismo e (2) a liberdade de necessidade, na qual o indivíduo é obrigado a obedecer à autoridade, como no comunismo e no nazismo.

Porém, segundo Sheen, a verdadeira liberdade é fazer o que se deve fazer. E quem sabe o que devemos fazer é nosso Criador, que diz que devemos conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo. Em suma, o que teríamos de fazer para sermos verdadeiramente livres é desenvolver nossa personalidade a fim de sermos eternamente felizes com Deus, conhecendo-O, amando-O e servindo-O, e quem nos ensina o caminho das pedras de tal realização é o próprio Cristo, por meio de sua Igreja.

A partir desta premissa -- é Cristo, por meio da Igreja, quem ensina os homens como se organizarem política e economicamente de maneira agradável a Deus --, Sheen discorre sobre a liberdade e suas aplicações sociais, políticas e econômicas.

Assim como a base da liberdade interna do homem é a alma, externamente essa base é a propriedade privada. Isso ocorre porque não somos apenas feitos de espírito, mas também de corpo. Esse corpo precisa expressar-se no mundo em algo que lhe seja próprio: a propriedade privada. No entanto, engana-se quem pensa que, por isso, a Igreja defende o liberalismo econômico e político. Na verdade, a Igreja defende o que Sheen chama de difusão da propriedade, de maneira que os trabalhadores tenham participação nos lucros das empresas a fim de que desfrutem uma verdade propriedade. Ora, Sheen falha aqui ao não perceber que o salário já é a participação nos lucros desejada.

Sheen ensina que o trabalho está relacionado a 3 entidades, estabelecendo com elas uma relação:
  1. Deus. O homem reconduz a natureza a Ele, por meio da razão e da vontade. Por causa dessa relação, a Igreja defende um salário vital, para que a alma do homem esteja livre para atingir o fim que foi criada.
  2. Homens. O trabalho intensifica a solidariedade entre os homens. Por isso a Igreja não acredita na luta de classes.
  3. Natureza. O trabalho coopera com a natureza. Eis por que a Igreja é contra o desemprego, já que ele afasta o homem da natureza e, por conseguinte, da civilização, já que aquela é base desta.

No entanto, tanto comunismo quanto capitalismo concordam que o trabalho não passa de mercadoria, esvaziando-o do componente humano descrito nos três itens acima. Segundo Sheen, a diferença entre capitalismo e comunismo é apenas quem deverá ficar com o os lucros: o capital ou o trabalho. A Igreja rejeita tal dicotomia, afirmando que ambos devem deter os lucros. Para isso, a Igreja deseja modificar o sistema salarial, introduzindo-lhe componentes sociais, e não apenas individuais, da seguinte forma: (1) O trabalhador deve participar nos lucros, (2) O trabalhador deve participar na administração da empresa, por meio de conselhos que reúnam empregadores e empregados e (3) O trabalhador deve participar na propriedade.

E como o Estado deve atuar para a realização de tais metas? O homem é um ser pessoal e social, isto é, ao mesmo tempo dependente e independente da sociedade. O Estado, portanto, deve buscar o equilíbrio, promovendo o bem comum, seja de brancos, pretos, trabalhadores, empregadores etc. É o Estado refletindo o lado social do homem. No entanto, em casos extremos, o bem comum deve ser sacrificado em favor dos pobres e necessitados. É o Estado refletindo o lado pessoal do homem.

Como o Estado e a sociedade devem estar organizados? Segundo Sheen, a democracia, estruturalmente falando, é um mal. Sua tendência é transformar-se na tirania da maioria. É a república, por meio dos representantes que governam pelo povo (e não o governo direto do povo, como na democracia) com sistemas de pesos e contrapesos, que representa um sistema mais equilibrado e justo. A maioria não é fonte de direitos, por isso não pode exercer direitos sobre a minoria. A origem dos direitos é Deus e, só depois, os homens. O que a constituição americana faz é reafirmar essa doutrina, e não propriamente estabelecê-la. A tal reafirmação da origem divina dos direitos por parte da constituição Sheen atribui a essência do que chama de americanismo. Assim, o Estado não deve anular esses direitos, mas apenas reafirmá-los. Eis por que a educação religiosa (católica, protestante e judaica) é tão importante: a religião e os direitos humanos andam de mãos dadas.

Sheen ensina que a Revolução Francesa bem que tentou eliminar a desigualdade, procurando eliminar a desigualdade política por meio da abolição de privilégios hierárquicos. Como eliminar as hierarquias mostrou-se ineficaz na tentativa de eliminar as desigualdades, passsou-se à apologia da eliminação das desigualdades econômicas. Foi a Revolução Comunista. Sheen afirma que todas essas tentativas foram e são necessariamente infrutíferas porque a única igualdade possível é a espiritual, já que (1) todos são iguais substancialmente (todos têm alma e corpo, todos têm o mesmo fim que é a união com Deus, todos foram redimidos por Jesus Cristo etc.) e (2) todos são desiguais acidentalmente (todos têm inteligência, talento, saúde, caráter, virtude, força física etc. desiguais). A sociedade cristã terá, portanto, categorias e hierarquias, cada qual com sua função, a exemplo dos órgãos do corpo humano. Nem todas as desigualdades são más.

Finalmente, Sheen conclui sua obra identificando dois tipos de liberdade:

  1. Liberdade de escolha, que se refere a bens particulares como saúde, poder, sucesso etc.
  2. Liberdade de perfeição, que se refere ao último bem, isto é, adquirir a Verdade para o intelecto, Amor para nossa vontade e Vida para nossa existência.

Assim, a liberdade de escolha deve ser o meio para o fim, qual seja, a liberdade de perfeição. O liberalismo perverte a liberdade de escolha, entronizando-a como fim em si mesma. O comunismo e o nazismo destroem tanto a liberdade de escolha quanto a liberdade de perfeição, transformando a perfeição num ditador e obrigando a todos a adorá-lo e segui-lo.

A Igreja rejeita todas essas ideologias porque elas rejeitam aquilo que Deus uniu: a escolha e a perfeição. Não somos nós, no fim das contas, que devemos trazer a perfeição à Terra, mas, sim, nós é que devemos ascender, com liberdade de escolha, à perfeição. Não é Deus que deve descer até nós; nós é que devemos nos elevar até Ele.

15 de dezembro de 2005

Não vos preocupeis

Em Não vos preocupeis -- uma obra apologética --, Leo J. Trese nos lembra que uma vida sem Deus é uma vida sem propósitos e, portanto, angustiosa e vazia. O sentido da vida nos é dado como uma resposta ao amor de Deus e, quando isso acontece, nossas posturas e atitudes diante das situações mudam radicalmente. Pois em cada capítulo, Trese analisa essas situações, apontando como o verdadeiro cristão se comportaria. Façamos então uma breve descrição do que nos ensina Leo Trese.



Assim como tudo o que fazemos tem um propósito, Deus também tem um propósito para a vida e, mais especificamente, para a nossa vida. Ora, a partir desta curta reflexão, podemos concluir que as preocupações vêm de nossa falta de confiança em Deus. Temos de fazer nosso melhor e deixar o resto para Deus. E uma das grandes preocupações que afligem os cristãos é: Amo a Deus o bastante? Meu amor a Deus é forte o suficiente? Quem assim se indaga esquece que o amor não é um sentimento, mas algo que radica na vontade; isso quer dizer que o amor a Deus se reflete em pensarmos e fazermos tudo com a convicção de que fazemos por Deus. Não se trata, portanto, de chorar ou gemer durante nossas orações ou a cada vez que louvarmos a Deus, na tentativa de demonstrarmos que realmente nos comovemos em estarmos na presença dEle. Embora as emoções podem, claro, estar presentes em nosso amor a Deus, elas não são absolutamente necessárias pois, como disse, a raiz do amor é a vontade (espírito), e não sentimentos e emoções (corpo).

Neste ponto, Trese lembra a importância das 4 virtudes (bons hábitos) cardeais: justiça, prudência, temperança e fortaleza. A prudência é a virtude principal, uma vez que é ela que nos faz escolher o melhor, o certo. Ela retifica nossos juízos. A fortaleza, por sua vez, age posteriormente à escolha, nos encorajando a fazer o que é bom, custe o que custar. Ambas são chamadas virtudes sobrenaturais, adquiridas no batismo pela graça de Deus, e se desenvolvem sobre as virtudes naturais, moldadas durante a formação do caráter do indivíduo (notadamente na infância). Se praticadas, as virtudes recompensam o homem com serenidade e paz de consciência.

Outra virtude a qual Trese deposita grande importância é a humildade. Humilde é aquele que conhece a si mesmo e sua posição na ordem da criação. Ele sabe que é apenas um pouco inferior aos anjos e, não obstante, sem nada de que possa orgulhar-se pessoalmente. Mesmo os mais humildes possuem defeitos e falhas de personalidade. O que se deve fazer é admiti-los desde já, pedindo a Deus que torne seus efeitos mínimos, e desenvolver os talentos dados por Ele.

E quanto à maldade? Como entendê-la? Trese explica que a maldade existe porque a "maldade original" existiu. Eliminar a maldade do mundo, portanto, implicaria em eliminar a todos nós, dado que todos somos maus em função do pecado original. Eis que temos de nos perguntar: A quem aborreci inutilmente hoje? Nos momentos de ira, lembremos que Jesus que nem ao menos a deixemos aflorar, e não que a represemos simplesmente. Mas de que maneira? Odiando o pecado e não o pecador. Esta é a ira boa, mais ou menos como um pai se zanga com o filho. A diferença é que a ira boa se insurge por amor ao próximo, enquanto a ira ruim se insurge por amor próprio.

E como o sexo deve ser encarado pelo cristão? O autor ensina que as partes genitais são cobertas assim como qualquer coisa santa deve ser coberta. Assim como a procriação é algo sumamente importante, o sexo e os órgãos genitais também são sumamente importantes. Daí conclui-se que fazer sexo indistintamente, fora do tempo e do espaço certos, constitui uma profanação. Observe que mesmo no casamento, o sexo não pode ser interposto (os chamados métodos contraceptivos) porque Deus é positivamente (no sentido de ativamente) excluído. E o sexo não deve ser visto apenas como o prazer imediato para a geração de uma nova vida, mas inserido no amplo contexto da criação do filho como um todo. Isso quer dizer que não se deve fazer sexo simplesmente para satisfação do desejo imediato, mas, além disso, compreender que se trata de uma nova vida, uma nova criação.

Ainda no ambiente familiar, Trese afirma que o segredo para a boa vida matrimonial é o casal reparar apenas no que há de bom no outro, suportando as faltas de ambos sabendo que a personalidade dificilmente é manipulável. Nas crises (Trese usa o termo "depressões"), antes de achar que a grama do quintal vizinho é mais verde, lembre-se que a vida de solteiro é muito mais solitária e, por isso, sofrida.

Trese também dá dicas sobre o trabalho. Devemos lembrar que todo trabalho é partícipe da obra criadora de Deus, exceto, claro, aqueles trabalhos que são positivamente destrutivos. O autor também alerta para a premência de alimentarmos nossas mentes com leituras formativas, que cultivem a inteligência, não perdendo muito tempo com TV, revistas, jornais etc.

Quanto à propriedade, somos informados de que ela é boa; caso contrário, Deus não teria feito o voto de pobreza algo penoso. Mas como freqüentemente somos desmedidos nas coisas, em função do pecado original -- a razão perdeu o domínio sobre as paixões --, temos de levar uma vida desprendida, juntando somente aquilo que é necessário para nosso sustento. Trese lembra muito apropriadamente que a vida secular tende a reduzir tudo ao utilitarismo imediatista, tornando difícil ao cristão seguir a Igreja e a Cristo, preferindo seguir a si próprio.

Levanta-se então uma questão muito pertinente: Como amar o próximo se esse próximo não nos parece digno de ser amado? A resposta é simples: Exercendo a virtude da caridade, infundida em nós pelo batismo. É ela que torna possível o amor além do amor natural; não custa lembrar, conforme dissemos acima, que o amor reside na vontade, e não nas emoções. Na prática, o que ocorre é que distinguimos entre a malícia e o malicioso, amando este e não aquele. Eis que urge sermos apóstolos da caridade em Cristo, perdoando falhas alheias, louvando o que há de bom nos outros etc.

Porém, fazer coisas boas não limitar-se a evitar pecados e rezar, mas também fazer coisas boas para os outros. Sermos afáveis, corteses, pacientes etc. robustecerá ainda mais nossa mente e nossa alma.

Trese chama a atenção dos leitores para a importância da oração. A oração é a elevação da mente e do coração para Deus. No entanto, ao contrário da definição, ainda tendemos a depositar a nossa confiança nas palavras, na multidão infindável das palavras. Ora, instruindo seus discípulos na prática da oração, Jesus disse-lhes: Quando orardes, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que, por falarem muito, serão ouvidos; mas vosso Pai sabe de que coisas necessitais, antes de que lhe peçais (Mateus 6:7-8). Um único momento que dediquemos exclusivamente a Deus em pensamento, em que pensemos nEle com amor, com gratidão, submetendo-nos aos seus desejos ou arrependendo-nos dos nossos pecados -- um único momento desses pode agradar mais a Deus do que uma oração de muitas palavras. São esses momentos que indicam um espírito permanente de oração, um amor a Deus duradouro. Na oração, além do mero palavreado, pode incrustar-nos nos nossos hábitos um outro defeito: o do egocentrismo. Na oração mais perfeita de todas, o Pai Nosso, somente uma curta frase intermédia é dedicada a um pedido de ordem material: "O pão nosso de cada dia nos dai hoje".

O maior problema com que a maioria de nós tropeça na oração é o das distrações. Mas quando dispomos a visitar a Deus, podemos consumir uma boa parte do tempo da oração -- talvez a maior parte -- correndo atrás dos nossos buliçosos e errantes pensamentos. De qualquer modo, Deus alegra-se com os nossos esforços, sente-se satisfeito com as nossas patentes intenções de falar com Ele.

Para encerrar, Trese lembra que no batismo, Deus nos deu uma vida sobrenatural, elevou-nos até o seu próprio nível. Optou por partilhar conosco a sua própria vida eterna. Unindo nossa alma a Ele, deu-nos um novo gênero de vida que chamamos graça santificante. Mas a nossa alma acha-se limitada nas suas atividades divinas por ter que desenvolver-se através de um corpo físico. Para que essa vida divina seja verdadeiramente completa na nossa alma, devemos aguardar o ato final pelo qual a glória divina chegará também a nós. E isso acontecerá quando Deus nos conferir aquilo que os teólogos chamam luz da glória. É um poder especial que, acrescentando à vida sobrenatural que já existe em nós, nos permitirá no Céu ver a Deus tal como é.

A ajuda que Deus nos concede dia a dia, momento a momento, é o que chamamos graça atual. Deus pode tratar que leiamos um livro que tenha um significado especial para nós, ou que ouçamos um sermão cuja mensagem nos seja especialmente necessária. A pessoa de boa vontade que, fortalecida pela graça santificante, se esforça mediante a oração por tomar as suas decisões e resolver os seus problemas da melhor maneira possível, está recebendo a todo momento as graças atuais. Com um pequeno empurrãozinho aqui e uma suave cotovelada acolá, Deus vai guiando-a continuamente para o Céu.

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Publicado originalmente em 1956 como More than many sparrows, tanto o título americano quanto o brasileiro foram inspirados em Mateus 10:29-31: "Porventura não se vendem dois passarinhos por um asse [antiga moeda romana de cobre]? E todavia nem um só deles cairá sobre a terra sem a permissão de vosso Pai. Até os próprios cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não vos preocupeis, pois; vós valeis mais do que muitos pássaros".