22 de janeiro de 2006

O mistério das duas naturezas de Cristo

Recomendo a leitura do artigo The Mystery of the Two Natures, de James Cutsinger.

Em suma, Cutsinger conclui que a afirmação segundo a qual "Jesus é Deus" está correta, mas sob certo ponto de vista apenas. O erro, segundo ele, seria afirmar que Jesus é Deus e Deus é Jesus , ou seja, que em Jesus estavam presentes todos os atributos de Deus Pai.

Os Pais da Igreja repudiavam esse tipo de raciocínio, e até mesmo há, teologicamente, o nome das três heresias que se seguem a esse raciocínio:

1) A tradição ensina que foi o Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que encarnou-se em Jesus, não a Primeira Pessoa do Pai. Confundir as Pessoas ou, pior, igualá-las, constitui uma heresia chamada monarquianismo modalista.

2) Embora Cristo tenha participado integralmente em cada aspecto de nossa physis humana (exceto o pecado), ele não participava conosco de nossa personalidade humana. Ele era fisicamente homem pois sentia emoções, privações físicas (fome, sede etc.), mas era o Logos encarnado. Pensar que Jesus Cristo foi um "homem excepcional", sobre quem a divindade foi projetada, constitui uma heresia chamada monarquianismo dinamista.

3) As duas naturezas de Cristo estão hipostaticamente ligadas, de maneira que nenhuma eclipsa ou sufoca a outra, numa perfeita communicatio idiomatum. Supor o contrário, ou seja, que a humanidade de Jesus foi sobrepujada pela Divindade que nEle estava manifesta, constitui uma heresia chamada monofisitismo.

Cutsinger lembra que Jesus, embora tenha dito que Eu e meu Pai somos um, disse também Meu Pai é maior do que eu. Isso quer dizer que, embora Jesus seja Deus, ele é a Segunda Pessoa e apenas a Segunda Pessoa, permancendo Absoluto para as criaturas mas subordinado à Primeira Pessoa. É por isso que Jesus orava a Deus Pai. Se Jesus fosse Deus e Deus fosse Jesus, então para quê orar? Temos de admitir que a divindade de Jesus era derivativa, ou seja, Jesus não era a Essência Divina, mas a auto-determinação dessa Essência Divina ao nível do Ser. No entanto, como vimos, o argumento de Cutsinger é refutar a tese exclusivista segundo a qual Jesus = Deus. Dizer que Jesus é Deus está correto, mas a conexão verbal "é" não deve ser entendida como uma igualdade matemática ("Jesus é igual a Deus").

É aqui, nessa igualdade matemática, que muitos cristãos equivocadamente se apegam.

Cutsginer continua, raciocinando da seguinte forma: Ok, Jesus é o Filho de Deus, mas será Jesus o único Filho de Deus? Observem que o argumento do artigo refuta apenas a identidade exclusivista Filho = Pai, mas não o exclusivismo Jesus-único-Filho-de-Deus. Cutsinger afirma que os Pais da Igreja e as diversas fórmulas conciliares jamais deram a entender que Jesus fosse o único Filho de Deus mas admite que, dentro do "planeta" que cada religião representa (nas palavras de Schuon), é perfeitamente compreensível que se desenvolva um grau de egoísmo que contamine os dogmas exotéricos.

17 de janeiro de 2006

A Fé Explicada - O Credo

Em A Fé Explicada (The Faith Explained), cuja primeira edição data de 1959, o Pe. Leo J. Trese procura introduzir o catecismo católico explicando suas principais doutrinas e ensinamentos. O livro é excelente para aqueles que desejam conhecer a posição oficial da Igreja Católica a respeito dos dogmas centrais do Cristianismo mas não querem ainda tomar contato com opiniões e julgamentos alheios. Trese apega-se ao vocabulário utilizado no Catecismo Católico, o que permite ao leitor acostumar-se com ele desde já.

O ponto fraco do livro é que, por vezes, Trese acaba simplificando demais as explicações de certas questões, tornando inevitável o surgimento de dúvidas que só poderão ser sanadas em outras fontes.

O livro é constituído de três partes: (1) O Credo, (2) Os Mandamentos e (3) Os Sacramentos e a Oração. Neste post, resumirei apenas a primeira parte. Futuramente, as outras duas serão acrescentadas. Os nomes dos capítulos foram alterados para facilitar a consulta.

* * *

I - Por que estamos aqui? O que Deus quer de nós?

Por que nos fez Deus? Para participarmos de sua eterna felicidade no céu. A isso chamamos fruição do amor. (Vale lembrar que os momentos que experimentaremos no Céu - chamados de aevum pelos teólogos - não são ciclos temporais, cronometráveis). Essa fruição do amor no Céu exige um princípio de amor aqui na terra. E foi para isso que Deus nos colocou aqui: para que, amando-O, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no Céu. O amor é como os olhos que nos permitem ver aqui na terra; o amor permitirá que "enxerguemos" a Deus no Céu.

E como sabemos se O amamos ou não? Simples: se fazemos o que Ele quer que façamos, então O amamos. É por isso que o amor a Deus reside na vontade, e não nos sentimentos. Não são os gemidos, choros ou gritos que dão testemunho de nosso amor a Deus. E quanto mais fizermos aqui por Deus, tanto maior será a nossa felicidade no Céu. Em conseqüência, uns terão maior capacidade de felicidade que outros.

P: Que devemos fazer para adquirir a felicidade no Céu? R: Devemos conhecer, amar e servir a Deus nesta vida.

Será que Deus nos deixa a sós na tarefa de conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo? Ou seja, será que Deus espera que nossas forças humanas sejam suficientes para cumprirmos essas tarefas? Não. Deus concede um poder sobrenatural aos bem-aventurados (já que a felicidade no Céu será sobrenatural, e não naturalmente humana como a da terra ou do limbo) chamado lumen glorie (luz de glória).

P: Quem nos ensina a conhecer, amar e servir a Deus? R: Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nos ensina por meio da Igreja.

As principais verdades ensinadas por Cristo foram resumidas pela Igreja no Credo dos Apóstolos, o mesmo credo recitado pelos primeiros cristãos (Cornélio, Apolo, Áquila, Priscila e outros). E muitas das revelações divinas foram guardadas na Bíblia Sagrada. No entanto, muitos ensinamentos orais de Cristo e dos Apóstolos não foram registrados na Bíblia, sendo transmitidos de geração em geração por intermédio dos bispos. É o que chamamos de Tradição da Igreja, que, juntamente com a Bíblia, compõem a revelação divina completa, todas as verdades em que devemos crer.

II - Deus é um espírito infinitamente perfeito

Quem é Deus, afinal? Assim como os bebês bêm dos pais e as flores vêm das sementes, tem de haver alguém que não foi feito por outro, que tenha existido sempre, alguém que não teve começo. Segundo o catecismo, Deus é um espírito infinitamente perfeito; ou seja, é infinitamente bom; Seu conhecimento é infinito. Deus é onipresente e onipotente. Sua justiça é infinita, ou seja, é misericordioso para nos perdoar mas justo em não nos perdoar caso recusemo-nos a amá-Lo. Deus não é um tirano nem um velho bonzinho.

III - A Trindade

As verdades de fé como a da Santíssima Trindade chamamos de mistérios de fé. Isso quer dizer que Deus manifestou essa verdade, mas não por inteiro. Assim, temos de esperar chegarmos ao Céu para que Ele nos revele por inteiro.

A Trindade diz que há apenas uma natureza divina, mas três Pessoas divinas. Ao contrário dos homens, que possuem uma natureza e uma pessoa (por exemplo, numa sala de aula com quarenta alunos diremos que lá há quarenta pessoas), Deus possui três Pessoas.

1) Deus Pai. É Deus conhecendo-se (ou pensando) a Si mesmo. Como esse pensamento é perfeito, então deve incluir a existência, já que a existência é própria da natureza de Deus. Então...

2) Deus Filho. É a expressão do conhecimento (ou pensamento) de Deus sobre Si mesmo. A essa expressão viva chamamos Palavra ou Verbo Divino.

3) Deus Espírito Santo. É Deus enquanto resultado do amor por Si mesmo. O Pai e o Filho contemplam Sua natureza bela e boa, engendrando um amor em grau infinito. A esse amor vivo chamamos Amor Divino.

Nenhuma dessas pessoas é mais poderosa, mais sábia ou maior que as demais. Não há qualquer tipo de subordinação entre o Filho e o Pai, por exemplo.

IV - Os anjos e seu pecado original

As primeiras obras de criação divina são os anjos. Um anjo é um espírito, isto é, um ser com inteligência e vontade mas sem corpo. Eis a ordem ascendente dos anjos: anjos, arcanjos, principados, potestades, virtudes, dominações, tronos, querubins e serafins.

Deus fez os anjos com livre-arbítrio para que fossem capazes de fazer seu ato de amor a Deus. Mas Lúcifer, um dos anjos mais dotados, chefiou um rebelião de anjos, que se recusaram a servir a Deus. O terrível grito non serviam ("não servirei") percorreu os Céus. E assim começou o inferno. Ao contrário dos homens, as vontades dos anjos permanecem fixas contra Deus. Ao contrário dos homens, aos anjos não é possível o arrependimento. Fizeram a sua escolha por toda a eternidade. Neles arde um ódio eterno contra Deus e Suas obras. Eis então o objetivo do diabo: arrastar os homens ao mesmo caminho de rebelião contra Deus.

O diabo não é capaz de fazer-nos pecar. Quem peca somos nós. O diabo pode é nos tentar, mas vale lembrar que nem toda tentação vem do diabo. Elas podem vir do diabo, de paixões interiores e do mundo que nos rodeia.

Algumas considerações quanto às influências do diabo:

1) Possessão diabólica. Ela existe, conforme a Bíblia e a experiência da Igreja atestam. O diabo penetra no corpo de uma pessoa, controlando suas atividades físicas. Mas, mesmo na possessão, o diabo não controla a alma da pessoa.

2) Obsessão diabólica. É quando o diabo ataca de fora, derrubando a pessoa da cama, atormentando-a com ruídos horríveis etc.

O exorcismo é o rito religioso para expulsar o demônio de uma pessoa possessa ou obsessa. É quando a Igreja apena para sua própria Cabeça, o Cristo, para expulsar o demônio.

V - Os homens e seu pecado original

A alma do homem é espiritual como a dos anjos mas seu corpo é matéria como do animais. O homem tem, portanto, um pé na eternidade e outro no tempo. O corpo e a alma humanas se fundem, como o bronze, que não é nem cobre nem zinco, mas uma substância nova. Mas a parte mais importante da pessoa humana é a alma, pois ela é imortal, enquanto o corpo é mortal.

No início, Deus conferiu a Adão e Eva dons chamados preternaturais. Preternatural significa fora ou além do curso ordinário da natureza. Os principais dons preternaturais de Adão e Eva eram (1) uma sabedoria de ordem imensamente superior, um elevado conhecimento natural de Deus e do mundo, (2) uma elevada força de vontade e perfeito controle das paixões e dos sentidos e (3) ausência de dor e de morte. Quando tivessesem acabado seus anos de vida temporal, entrariam na vida eterna em corpo e alma, sem experimentar a terrível separação de alma e corpo a que chamamos morte.

Mas Deus também conferiu a Adão e Eva um dom sobrenatural. Sobrenatural significa algo que está totalmente sobre a natureza de toda e qualquer criatura. Esse dom sobrenatural que Deus conferiu a eles é o dom da graça santificante, que permite a participação na própria natureza divina.

Porém, ao desobedecerem a Deus e falharem na prova de amor a Ele, Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, que chamaos pecado original. Num instante, eles perderam todos os dons preternaturais e a graça santificante, reduzindo-se ao mínimo essencia que lhes pertencia pela sua natureza humana. Como todos nós estávamos potencialmente presentes naquele momento, todos sofremos esse pecado. É por isso que diz-se que nascemos em estado de pecado original.

É verdade que o Batismo nos devolve o dom sobrenatural da graça santificante, mas ele não restaura os dons preternaturais. De Adão para cá, um só ser humano (sem contar Cristo) possuiu uma natureza humana em perfeita ordem: a Santíssima Virgem Maria. Ela foi preservada desde o primeiro instante de sua existência da escuridão espiritual do pecado original. A este privilégio chamamos Imaculada Conceição de Maria.

VI - Os homens e seus pecados atuais; os sete pecados capitais

Além do pecado original, em cuja sombra nascemos, temos de enfrentar outro tipo de pecado: o que nós mesmos cometemos. É o pecado atual. O pecado atual pode ser venial ou mortal, segundo seu grau de malícia. O venial é o pecado de pequena gravidade. Um filho que desobedece os pais, ou conta uma mentirinha, comete um pecado venial, mas não por isso deixa de amar os pais. Mas um filho que desobedece os pais, ferindo-os ou afligindo-os intensamente, comete um pecado mortal, amando a si mesmo mais do que a eles. Vale lembrar que podemos pecar não só fazendo o que Deus proíbe (pecado de ação), como deixando de fazer o que Ele ordena (pecado de omissão).

Quanto aos pecados mortais, são necessárias três condições para cometê-lo:

(1) A matéria deve ser grave, seja por pensamento, palavras ou obras.
(2) Devemos saber que o que fazemos é grave, ou seja, não podemos pecar por ignorância.
(3) O pecado só é mortal se cometido de maneira resoluta, ou seja, se eu livremente resolver praticar determinada ação (ou omissão) que é contra a Vontade de Deus.

Quais a raiz do pecado? A raiz do pecado é a intenção na mente e na vontade da pessoa. Por esta razão, somos culpados de pecado no momento em que decido cometê-lo, mesmo que não tenha oportunidade de praticá-lo ou mesmo que depois mude de opinião. É claro que o ato exterior tem sua importância. Na verdade, realizar a má intenção e praticar o ato acrescenta gravidade ao pecado, intensifica a sua malícia.

Há sempre um defeito que se destaca em nós mais do que outros possíveis defeitos, um defeito que representa verdadeiro obstáculo para nosso crescimento espiritual. São as chamadas paixões dominantes. As virtudes, por outro lado, são os hábitos bons que praticamos com

Os sete principais defeitos, chamados de pecados capitais, são:

(1) Soberba: procura desordenada da nossa própria honra e excelência.
(2) Avareza: imoderado desejo de bens temporais.
(3) Luxúria: pecado contra a castidade.
(4) Ira: estado emocional desordenado que nos empurra a desforrar-nos dos outros, a opor-nos insensatamente a pessoas ou coisas.
(5) Gula: atração desordenada pela comida ou bebida.
(6) Inveja: tristeza causada pelo fato de outros estarem numa situação melhor que a nossa; sofrimento pela melhor sorte dos outros.
(7) Preguiça: desgosto e recusa ante o cumprimento de nossos deveres, especialmente de nossos deveres para com Deus, conformando-nos com a mediocridade espiritual.

VII - Maria e o Menino Jesus

Quando Deus criou a alma de Maria, eximiu-a do pecado original no mesmo instante em que a Virgem foi concebida no seio de Ana. Portanto, Maria recebeu a herança perdida por Adão: desde o início do seu ser, esteve unida a Deus.

A aparição do anjo ococrreu quando Maria ainda morava com seus pais. O pecado veio ao mundo por livre decisão de Adão; Deus quis que a livre decisão de Maria trouxesse ao mundo a salvação. (Por isso, Maria é chamada de corredentora dos homens). No exato instante em que aceitou, Deus Espírito Santo engendrou no ventre de Maria o corpo e a alma de uma criança, a quem Deus Filho se uniu no mesmo instante.

Quanto ao Menino Jesus, frequentemente se pergunta se Ele, ao crescer, teve que aprender as coisas como as demais crianças. Para tanto, temos de entender que Jesus possuía dois tipos de conhecimento:

(1) Conhecimento infinito, isto é, conhecimento de tudo que evidentemente Jesus, como Deus Filho, possuía.

(2) Conhecimento humano, que, por sua vez, se subdivide em três espécies: (a) conhecimento beatífico (conhecimento similar quando virmos Deus no céu), (b) ciência infusa (conhecimento completo das coisas criadas, semelhante aos anjos, que prescinde de raciocínios como os humanos) e (c) conhecimento experimental (que Jesus ia adquirindo à medida que crescia).

VIII - Redenção

Enquanto Jesus não morresse na Cruz, ninguém podia ver a Deus face a face. E, não obstante, haviam existido muitos homens que tinham crido em Deus e na sua misericórdia, e guardado suas leis. Como estas almas não haviam merecido o inferno, permaneciam num estado de felicidade puramente natural, sem visão direta de Deus. Eram muito felizes, mas com a felicidade que nós poderiamos alcançar na terra, se tudo nos corresse perfeitamente bem.

O estado de felicidade natural em que essas almas aguardavam chama-se limbo. A estas almas Jesus apareceu enquanto jazia na sepultura, para anunciar-lhes a boa nova da sua redenção; para, poderíamos dizer, acompanhá-las e apresentá-las pessoalmente a Deus Pai.

Segundo havia prometido, Jesus ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia, com um corpo glorificado, idêntico ao que será o nosso depois da nossa ressurreição, e decidiu permanecer quarenta dias na terra com a seguinte missão: completar a preparação e missão de seus doze Apóstolos. Na Última Ceia, na noite da Quinta-feira santa, tinha-os ordenado sacerdotes. Agora, na noite do Domingo de Páscoa, complementa-lhes o sacerdócio, dando-lhes o poder de perdoar os pecados. Em outra ocasião, cumpre a promessa feita a Pedro e o fz cabeça da sua Igreja. Explica-lhes o Espírito Santo. Instrui-os confiando-lhes as linhas gerais do seu ministério. E, finalmente, dá aos seus Apóstolos a missão final de ir e pregar ao mundo inteiro.

Depois da sua ascensão ao Pai, a próxima vez em que Cristo aparecerá à humanidade será no dia do fim do mundo, para julgar o mundo que seu Pai lhe deu.

IX - A graça santificante e como recuperá-la: orações, graças atuais, sacramentos e mérito

A graça é um dom de Deus, sobrenatural e interior, que nos é concedido pelos méritos de Jesus Cristo para nossa salvação. Esta graça não só nos torna capazes de ter uma união e comunicação com Deus nesta vida, como também prepara a alma para um outro dom que lhe acrescentará após a morte: o dom da visão sobrenatural, o poder de ver a Deus face a face. Chamamos isso de lumen glorie, ou luz de glória.

Resumindo: graça santificante = união com Deus nesta vida; lumen glorie = união com Deus após a morte.

Quanto à graça santificante, há três condições que os homens devem observar: (1) que a conservem até o fim, (2) que a recupere imediatamente após perdida em função de um pecado mortal cometido e (3) que procurem fazê-la crescer.

Mas os homens são incapazes de alcançar a graça por conta própria. Precisam da ajuda de Deus, que concede aos homens as graças atuais. Elas atuam na mente ou na vontade humanas, geralmente nas duas. Veja como atuam:

(1) Deus ilumina a mente do pecador para que veja o mal que cometeu. Se repele essa primeira graça, provavelmente não terá a segunda.

(2) Se o pecador aceita a primeira graça, então Deus fortalecerá sua vontade, que lhe permitirá um ato de contrição. Se a contrição do pecador for perfeita (se o seu motivo principal for o amor a Deus), a agraça santificante retornará imediatamente à sua alma.

(3) Se a contrição for imperfeita, baseada principalmente no temor à justiça divina, haverá um novo impulso da graça.

Se a graça concedida por Deus for forte o suficiente até mesmo para vencer nossas fraquezas e corações duros, chamamo-la de graça eficaz. No entanto, podemos fazer com que muitas graças se desperdicem. A nossa indiferença ou indolência ou, pior ainda, nossa resistência voluntária, podem frustrar a ação da graça divina em nossa alma.

É importante termos em mente que a graça santificante cresce na alma mediante a oração e os outros seis sacramentos.

P: O que é a oração? R: A oração é uma elevação da mente e do coração a Deus para adorá-lo, dar-lhe graças e pedir-lhe o que necessitamos.

Há dois tipos de oração:

(1) A oração se faz por meio de palavras, sejam as nossas sejam as escritas por outros, contanto que nos façamos entender por meio delas. É a oração vocal.

(2) A mente e o coração fazem todo o trabalho, sem recorrer a palavras. É a oração mental.Por exemplo, se eu vejo um crucifixo e me vem ao pensamento o muito que Jesus sofreu por mim, então fiz uma oração mental. Por sua vez, há dois tipos de oração mental: (a) a meditação, como a que exemplificamos e (b) a contemplação, uma tipo de oração mais elevada, em que a mente e o coração são elevados a Deus e nEle descansam.

Quando falamos de pecado mortal e perda de graça santificante, vem à mente o sacramento da Penitência. De fato o fim primário da Penitência é devolver a vida quando se perdeu a graça santificante pelo pecado mortal. Mas a Penitência também possui um fim secundário, que é revigorar a vida para a alma que já está em estado de graça. No entanto, o sacramento que é fonte de vida por excelência é o da Sagrada Eucaristia. Nela, Deus vem a nós como alimento e bebida sob as aparências do pão e do vinho. Na Missa, nossa alma se ergue até o seio da Santíssima Trindade. Na Consagração, por sua vez, tocamos a divindade, mas por um processo reverso: ao contrário da Missa, na Consagração Deus é que vem a nós.

Por último, há ainda a questão do mérito. O mérito é a propriedade de uma obra obra em habilitar, a quem a realiza, a receber uma recompensa. A recompensa será tripla: (1) aumento da graça santificante, (2) vida eterna e (3) maior glória no céu. Porém, só a alma que esté em graça santificante pode adquirir mérito por suas ações.

E não nos esqueçamos que, para alcançar a vida eterna, devemos é claro morrer em estado de graça. Esta vida - é só esta vida - é o tempo de prova, o tempo de merecer.

X - Virtudes sobrenaturais, dons do Espírito e frutos do Espírito

P: O que é virtude? R: Virtude é o hábito permanente da alma que lhe dá inclinação, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem e evitar o mal.

A virtude pode ser natural quando adquirida por nós mesmos, e sobrenatural quando infundida na alma diretamente por Deus.

As virtudes sobrenaturais são infundidas na alma no momento do Batismo, juntamente com a graça santificante. São elas:

(1) Virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Têm esse nome porque dizem respeito a Deus.
(2) Virtudes morais ou cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. têm esse nome porque dizem respeito indiretamente a Deus e diretamente às pessoas e coisas.

Fé é a virtude pela qual cremos firmemente em todas as verdades que Deus revelou, baseados na autoridade do próprio Deus, que não pode enganar-se nem enganar-nos.

Esperança é a virtude pela qual confiamos que Deus, que é todo-poderoso e fiel às suas promessas, nos concederá a vida eterna e os meios necessários para alcançá-la.

Caridade é a virtude pela qual amamos a Deus por si mesmo, sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos, por amor a Deus. A caridade é chamada a rainha das virtudes porque as outras, tanto as teologais quanto as morais, nos conduzem a Deus, mas a caridade é a que nos une a Deus.

Prudência é a faculdade de julgar retamente; ela aperfeiçoa a inteligência. Justiça é a faculdade que aperfeiçoa a nossa vontade, salvaguardando os direitos de nossos semelhantes à vida e à liberdade, à santidade do lar, ao bom nome e à honra, aos bens materiais. Fortaleza é a faculdade que nos inclina a fazer o bem apesar das dificuldades. Temperança é a faculdade que nos ajuda a dominar nossos desejos e, em especial, a usar dignamente das coisas que agradam aos sentidos.

Além da graça santificante e das virtudes, o Batismo também nos fornece os sete dons do Espírito Santo. Estes dons são qualidade que se comunicam à alma e que a tornam sensível aos movimentos da graça, facilitando-lhe a prática da virtude. São eles:

(1) Sabedoria, que nos dá o sentido da proporção para apreciarmos as coisas de Deus, dando ao bem e à virtude seu verdadeiro valor, para encaramos os bens do mundo como degraus para a santidade, não como fins em si.

(2) Entendimento, que nos dá a percepção espiritual necessária para entendermos as verdades da fé.

(3) Conselho, que aguça nosso juízo, nos ajudando a perceber e escolher a decisão que será par a maior glória de Deus.

(4) Ciência, que nos torna aptos para reconhecer o que é espiritualmente útil ou prejudicial.
Está intimamente ligado ao dom do conselho. O conselho nos move a escolher o útil e repelir o nocivo, mas, para escolher, devemos antes conhecer.

(5) Fortaleza, que robustece nossa debilidade humana.

(6) Piedade, que nos ajuda a manter uma atitude de confiante intimidade com Deus, como uma criança que respeita a seus pais: uma combinação de amor, confiaça e reverência.

(7) Temor de Deus, que equilibra o dom da piedade, nunca nos esquecendo que Ele é o Juiz da justiça infinita, diante de quem um dia teremos que responder pelas graças que nos concedeu.

O resultado de tudo isso, isto é, da graça, das virtudes e dos dons, são manifestos nos chamados doze frutos do Espírito, a saber:

(1) Caridade, pela qual vemos Cristo no seu próximo, e estamos sempre dispostos a ajudá-lo.

(2) Gozo, pelo qual somos alegres e otimistas.

(3) Paz, pela qual somos serenos e tranqüilos.

(4) Paciência, pela qual não nos irritamos facilmente, não guardamos rancor pelas ofensas, não nos perturbamos nem ficamos desapontados quando as coisas nos correrem mal ou as pessoas se comportarem mesquinhamente.

(5) Benignidade, pela qual somos amáveis.

(6) Bondade, pela qual defendemos com firmeza a verdade e o direito, mesmo que todos nos deixem só.

(7) Longanimidade, pela qual não nos revoltamos com o infortúnio e o fracasso, com a doença e a dor.

(8) Mansidão, pela qual somos delicados.

(9) , pela qual a religião é a coisa mais importante da vida.

(10) Modéstia, pela qual há uma decência no que fazemos, fortalecendo a virtude dos outros, nunca infraquecendo.

(11) Continência, pela qual mostramos domínio admirável de nós mesmos, quer na comida, na bebida, no trabalho ou na diversão.

(12) Castidade, pela qual sentimos uma grande reverência pela faculdade de procriar, vendo o sexo nunca como divertimento ou como fonte de prazer egoísta.

XI - A Igreja Católica: seus deveres, suas marcas, seus atributos e a comunhão dos santos

Por que Cristo instituiu uma Igreja na terra? Quais os deveres dessa Igreja? São três:

(1) Santificar. Cristo conhecia nossa necessidade de uma segurança visível. Então Ele preferiu canalizar as suas graças através de símbolos sensíveis: instituiu, pois, os sacramentos, para que pudéssemos saber quando, como e que espécie de graça recebemos. O agente que guarda e deistribui os sacramentos é a Igreja instituída pelo próprio Cristo.

(2) Ensinar. Jesus fundou a Sua Igreja parar ensinar aos homens as verdades que Ele ensinou, as verdades necesárias à salvação.

(3) Governar. Da mesma maneira que seria inútil a um país ter uma Constituição sem alguém que a interprete, a Igreja interpret a Revelação de maneira apropriada, decidindo, por exemplo, quem pode receber este ou aquele sacramento, que pode ser membro da Igreja, como permanecer nela etc.

P: O que é a Igreja? Igreja é a congregação de todos os batizados, unidos na mesma fé verdadeira, no mesmo sacrifício e nos mesmos sacramentos, sob a autoridade do Sumo Pontífice e dos bispos em comunhão com ele.

Esse tríplice dever - santificar, ensinar e governar - dos Apóstolos foi por eles transmitido a outros homens, os bispos. Os bispos atuais são, portanto, os sucessores dos Apóstolos. E o pode de Pedro, a quem Cristo constituiu cabeça de tudo, reside hoje no bispo de Roma, o Papa.

Eis, portanto, o Corpo da Igreja de Cristo: (1) no cume o Papa, (2) mais abaixo o Colégio Episcopal, (3) mais abaixo os sacerdotes e (4) o povo de Deus, todos os batizados.

Mas a Igreja é o próprio Corpo de Cristo: é o Corpo Místico de Cristo. Isso quer dizer que a Igreja não é apenas uma instituição jurídica, mas um organismo vivo, um Corpo que vive, cuja Cabeça é Cristo, cujos membros são os batizados e cuja alma é o Espírito Santo. É um Corpo em que cada membro se beneficia de cada Missa que se celebra, de cada oração que se oferece, de cada boa obra que se faz por cada um dos outros membros, em qualquer lugar do mundo. Assim, todos são chamados a ser apóstolos (com 'a' minúsculo), ou seja, todos têm a missão de ajudar o Corpo Místico de Cristo a crescer e a manter-se são.

Cristo, ao instituir a Sua Igrja, deixou nela estampada a sua marca. Podemos dizer que a marca da Igreja é um quadrado:

(1) Unidade. Os membros da Igreja devem manifestar unidade de credo. Uma fé, uma cabeça, um culto.

(2) Santidade. Segundo o Catecismo, a Igreja é santa "porque foi fundada por Jesus Cristo, que é saanto; porque ensina, segundo a vontade de Cristo, uma doutrina santa e oferece os meios para se levar uma vida santa, formando assim membros santos em todas as idades".

(3) Catolicidade. A Igreja Católica existiu todo o tempo desde Domingo de Pentecostes até os nossos dias, é a única que ensina todas as verdades e é também universal em extensão.

(4) Apostolicidade. A Igreja que pretenda ser de Cristo deve provar sua legítima descendência dos Apóstolos. A Igreja Católica tem a lista dos bispos de Roma, que se remete do Papa atual numa linha contínua até São Pedro.

Tais marcas, necessários à Igreja que que queira se dizer de Cristo, são acompanhadas, conseqüentemente, de três atributos ou qualidades, a saber:

(1) Autoridade. É o direito de falar em nome de Cristo e de ser escutada.

(2) Infalibilidade. É a certeza de estar livrer de erro quando proclama solenemente as verdades de Deus. O católico sabe que o Papa pode pecar e errar, como qualquer pessoa, e sabe que as opiniões do Papa têm a força que sua sabedoria humana lhes pode dar. Mas quando o Papa, solenemente, declara que certas verdades foram reveladas por Cristo, então ele não erra.

(3) Indefectibilidade. É a permanência da Igreja até o fim dos tempos como Jesus a fundou, que não é perecível, que continuará a existir enquanto houver almas a salvar.

Com comunhão dos santos devemos entender que existe uma união, uma comunicação entre as almas em que o Espírito Santo tem a sua morada. Há três "ramos", por assim dizer, da comunhão dos santos:

(1) Igreja militante, isto é, os santos aqui da terra que ainda militam (lutam) contra o pecado e o erro.

(2) Igreja padecente, isto é, as almas do purgatório que ainda não podem ver a Deus, mas o Espírito Santo está com elas.

(3) Igreja eterna, isto é, as almas dos bem-aventurados que se encontram no céu. É essa Igreja que absorverá tanto a militante quanto a padecente depois do Juízo Final.

Na prática, a comunhão dos santos significa que devemos ter consciência das necessidades dos outros. Os santos do céu oram pelas almas do purgatório e por nós. Nós, de nossa parte, devemos venerar e honrar os santos. Não só porque podem e querem interceder por nós, mas porque o nosso amor a Deus assim o exige. Nós devemos, ainda, orar pelas benditas almas do purgatório. É evidente que devemos, também, rezar uns pelos outros.

XII - O fim do mundo: morte, Juízo Particular, inferno, purgatório, ressurreição da carne e vida eterna

A morte é a separação da alma e do corpo. E o que acontece então? No exato momento em que a alma abandona o corpo, é julgada por Deus. Tal juízo individual da alma imediatamente após a morte chama-se Juízo Particular. O que ocorre é que a alma se vê como Deus a vê, em estado de graça ou em pecado e, consequentemente, sabe qual será o seu destino segundo a infinita justiça divina.

A alma que morre em pecado mortal está no inferno. Mas suponhamos que morremos confortados pelos últimos sacramentos e com uma indulgência plenária bem ganha no momento da morte. O juízo da alma será a imediata visão de Deus: a visão beatífica.

Mas o que acontecerá se, ao morrermos, o Juízo Particular não nos encontrar separads de Deus pelo pecado mortal mas também não com a perfeita purezaz de alma? É aqui que se põe de manifesto a doutrina do purgatório. Mesmo que esta doutrina não tivesse sido transmitida pela Tradição desde Cristo e os Apóstolos, a simples razão nos diria que deve haver um processo de purificação final que lave até a menor imperfeição que se inerponha entre a alma e Deus.

A grande diferença entre o sofrimento do inferno e o do purgatório é que no inferno há a certeza da separação eterna e no purgatório a certeza da libertação.

Quanto ao fim do mundo, não sabemos quando virá. O que sabemos é que quando o mundo acabar, os mortos ressuscitam, e depois vem o Juízo Final. O Juízo Final não oferecerá surpresas em relação ao nosso eterno destino. Já teremos passado pelo Juízo Particular; a nossa alma já estará no céu ou no inferno. A diferença é que a sentença que recebemos no Juízo Particular será agora confirmada publicamente.

27 de dezembro de 2005

Fulton J. Sheen e o problema da liberdade

Na esteira de Leo Trese, um amigo recomendou-me os livros do Arcebispo de Rochester (Nova York), Fulton J. Sheen (1895-1979). Famoso pelos seus programas de TV nos anos 50 e começo dos 60 (Life is Worth Living e The Fulton Sheen Program), Sheen foi também autor de 96 livros, quase todos apologéticos, além de artigos e colunas em jornais. Seus livros são facilmente encontráveis em sebos, inclusive alguns títulos em português e espanhol. Algumas prédicas também estão disponíveis aqui.

E
ncontrei O Problema da Liberdade, cujo título original é Freedom Under God. Publicado nos EUA em 1940, a tradução brasileira foi lançada em 1945 pela Editora Agir e contou com diversas edições. A que encontrei é a 5ª edição, de 1956.

O objetivo de Sheen é estabelecer a relação entre religião, liberdade e os sistemas políticos e econômicos modernos. Sheen condena ferozmente o comunismo e o nazismo, considendo-os ideologias semelhantes. Quanto ao liberalismo free market, Sheen também reserva críticas duras, mas para isso faz uso de velhos mitos socialistas como, por exemplo, a idéia de que sob o liberalismo econômico os pobres ficam mais pobres porque os ricos ficam mais ricos; no início da Revolução Industrial os trabalhadores foram vilmente explorados, salvos mais tarde por sindicatos e leis trabalhistas; os trabalhadores deveriam participar nos lucros das empresas, e negar-lhes isto representa grave exploração por parte do capital.

Esses mitos influenciam o raciocínio do autor de maneira tão profunda que, infelizmente, comprometem muitas de suas análises. É triste ver um homem consciente dos males do comunismo preso às próprias doutrinas comunistas quando tenta prescrever-lhes uma cura.

Quanto à estrutura geral do livro, a divisão é a seguinte: (1) Expulsão da religião do espaço público, (2) Falsas liberdades e verdadeira liberdade e (3) Aplicações da verdadeira liberdade na ordem econômica e política.
* * *
Sheen inicia sua digressão sobre a liberdade lembrando que é a religião quem dá ordem e virtude à sociedade. Baní-la do espaço público, reduzindo-a a práticas e doutrinas meramente privadas, acaba engendrando na sociedade um espírito arreligioso que, por fim, se transformará em um espírito anti-religioso. Se o homem deseja ser verdadeiramente livre, então precisará redescobrir o que Sheen chama de "os direitos de Deus e da religião sobre a ordem pública", provavelmente uma alusão à Era Cristã.

Expulsada a Igreja da praça pública, duas falsas liberdades vêm preencher o vácuo, (1) a liberdade de indiferença, na qual o indivíduo age e pensa como quiser, à exemplo do que ocorre no ceticismo, no relativismo e no liberalismo e (2) a liberdade de necessidade, na qual o indivíduo é obrigado a obedecer à autoridade, como no comunismo e no nazismo.

Porém, segundo Sheen, a verdadeira liberdade é fazer o que se deve fazer. E quem sabe o que devemos fazer é nosso Criador, que diz que devemos conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo. Em suma, o que teríamos de fazer para sermos verdadeiramente livres é desenvolver nossa personalidade a fim de sermos eternamente felizes com Deus, conhecendo-O, amando-O e servindo-O, e quem nos ensina o caminho das pedras de tal realização é o próprio Cristo, por meio de sua Igreja.

A partir desta premissa -- é Cristo, por meio da Igreja, quem ensina os homens como se organizarem política e economicamente de maneira agradável a Deus --, Sheen discorre sobre a liberdade e suas aplicações sociais, políticas e econômicas.

Assim como a base da liberdade interna do homem é a alma, externamente essa base é a propriedade privada. Isso ocorre porque não somos apenas feitos de espírito, mas também de corpo. Esse corpo precisa expressar-se no mundo em algo que lhe seja próprio: a propriedade privada. No entanto, engana-se quem pensa que, por isso, a Igreja defende o liberalismo econômico e político. Na verdade, a Igreja defende o que Sheen chama de difusão da propriedade, de maneira que os trabalhadores tenham participação nos lucros das empresas a fim de que desfrutem uma verdade propriedade. Ora, Sheen falha aqui ao não perceber que o salário já é a participação nos lucros desejada.

Sheen ensina que o trabalho está relacionado a 3 entidades, estabelecendo com elas uma relação:
  1. Deus. O homem reconduz a natureza a Ele, por meio da razão e da vontade. Por causa dessa relação, a Igreja defende um salário vital, para que a alma do homem esteja livre para atingir o fim que foi criada.
  2. Homens. O trabalho intensifica a solidariedade entre os homens. Por isso a Igreja não acredita na luta de classes.
  3. Natureza. O trabalho coopera com a natureza. Eis por que a Igreja é contra o desemprego, já que ele afasta o homem da natureza e, por conseguinte, da civilização, já que aquela é base desta.

No entanto, tanto comunismo quanto capitalismo concordam que o trabalho não passa de mercadoria, esvaziando-o do componente humano descrito nos três itens acima. Segundo Sheen, a diferença entre capitalismo e comunismo é apenas quem deverá ficar com o os lucros: o capital ou o trabalho. A Igreja rejeita tal dicotomia, afirmando que ambos devem deter os lucros. Para isso, a Igreja deseja modificar o sistema salarial, introduzindo-lhe componentes sociais, e não apenas individuais, da seguinte forma: (1) O trabalhador deve participar nos lucros, (2) O trabalhador deve participar na administração da empresa, por meio de conselhos que reúnam empregadores e empregados e (3) O trabalhador deve participar na propriedade.

E como o Estado deve atuar para a realização de tais metas? O homem é um ser pessoal e social, isto é, ao mesmo tempo dependente e independente da sociedade. O Estado, portanto, deve buscar o equilíbrio, promovendo o bem comum, seja de brancos, pretos, trabalhadores, empregadores etc. É o Estado refletindo o lado social do homem. No entanto, em casos extremos, o bem comum deve ser sacrificado em favor dos pobres e necessitados. É o Estado refletindo o lado pessoal do homem.

Como o Estado e a sociedade devem estar organizados? Segundo Sheen, a democracia, estruturalmente falando, é um mal. Sua tendência é transformar-se na tirania da maioria. É a república, por meio dos representantes que governam pelo povo (e não o governo direto do povo, como na democracia) com sistemas de pesos e contrapesos, que representa um sistema mais equilibrado e justo. A maioria não é fonte de direitos, por isso não pode exercer direitos sobre a minoria. A origem dos direitos é Deus e, só depois, os homens. O que a constituição americana faz é reafirmar essa doutrina, e não propriamente estabelecê-la. A tal reafirmação da origem divina dos direitos por parte da constituição Sheen atribui a essência do que chama de americanismo. Assim, o Estado não deve anular esses direitos, mas apenas reafirmá-los. Eis por que a educação religiosa (católica, protestante e judaica) é tão importante: a religião e os direitos humanos andam de mãos dadas.

Sheen ensina que a Revolução Francesa bem que tentou eliminar a desigualdade, procurando eliminar a desigualdade política por meio da abolição de privilégios hierárquicos. Como eliminar as hierarquias mostrou-se ineficaz na tentativa de eliminar as desigualdades, passsou-se à apologia da eliminação das desigualdades econômicas. Foi a Revolução Comunista. Sheen afirma que todas essas tentativas foram e são necessariamente infrutíferas porque a única igualdade possível é a espiritual, já que (1) todos são iguais substancialmente (todos têm alma e corpo, todos têm o mesmo fim que é a união com Deus, todos foram redimidos por Jesus Cristo etc.) e (2) todos são desiguais acidentalmente (todos têm inteligência, talento, saúde, caráter, virtude, força física etc. desiguais). A sociedade cristã terá, portanto, categorias e hierarquias, cada qual com sua função, a exemplo dos órgãos do corpo humano. Nem todas as desigualdades são más.

Finalmente, Sheen conclui sua obra identificando dois tipos de liberdade:

  1. Liberdade de escolha, que se refere a bens particulares como saúde, poder, sucesso etc.
  2. Liberdade de perfeição, que se refere ao último bem, isto é, adquirir a Verdade para o intelecto, Amor para nossa vontade e Vida para nossa existência.

Assim, a liberdade de escolha deve ser o meio para o fim, qual seja, a liberdade de perfeição. O liberalismo perverte a liberdade de escolha, entronizando-a como fim em si mesma. O comunismo e o nazismo destroem tanto a liberdade de escolha quanto a liberdade de perfeição, transformando a perfeição num ditador e obrigando a todos a adorá-lo e segui-lo.

A Igreja rejeita todas essas ideologias porque elas rejeitam aquilo que Deus uniu: a escolha e a perfeição. Não somos nós, no fim das contas, que devemos trazer a perfeição à Terra, mas, sim, nós é que devemos ascender, com liberdade de escolha, à perfeição. Não é Deus que deve descer até nós; nós é que devemos nos elevar até Ele.

15 de dezembro de 2005

Não vos preocupeis

Em Não vos preocupeis -- uma obra apologética --, Leo J. Trese nos lembra que uma vida sem Deus é uma vida sem propósitos e, portanto, angustiosa e vazia. O sentido da vida nos é dado como uma resposta ao amor de Deus e, quando isso acontece, nossas posturas e atitudes diante das situações mudam radicalmente. Pois em cada capítulo, Trese analisa essas situações, apontando como o verdadeiro cristão se comportaria. Façamos então uma breve descrição do que nos ensina Leo Trese.



Assim como tudo o que fazemos tem um propósito, Deus também tem um propósito para a vida e, mais especificamente, para a nossa vida. Ora, a partir desta curta reflexão, podemos concluir que as preocupações vêm de nossa falta de confiança em Deus. Temos de fazer nosso melhor e deixar o resto para Deus. E uma das grandes preocupações que afligem os cristãos é: Amo a Deus o bastante? Meu amor a Deus é forte o suficiente? Quem assim se indaga esquece que o amor não é um sentimento, mas algo que radica na vontade; isso quer dizer que o amor a Deus se reflete em pensarmos e fazermos tudo com a convicção de que fazemos por Deus. Não se trata, portanto, de chorar ou gemer durante nossas orações ou a cada vez que louvarmos a Deus, na tentativa de demonstrarmos que realmente nos comovemos em estarmos na presença dEle. Embora as emoções podem, claro, estar presentes em nosso amor a Deus, elas não são absolutamente necessárias pois, como disse, a raiz do amor é a vontade (espírito), e não sentimentos e emoções (corpo).

Neste ponto, Trese lembra a importância das 4 virtudes (bons hábitos) cardeais: justiça, prudência, temperança e fortaleza. A prudência é a virtude principal, uma vez que é ela que nos faz escolher o melhor, o certo. Ela retifica nossos juízos. A fortaleza, por sua vez, age posteriormente à escolha, nos encorajando a fazer o que é bom, custe o que custar. Ambas são chamadas virtudes sobrenaturais, adquiridas no batismo pela graça de Deus, e se desenvolvem sobre as virtudes naturais, moldadas durante a formação do caráter do indivíduo (notadamente na infância). Se praticadas, as virtudes recompensam o homem com serenidade e paz de consciência.

Outra virtude a qual Trese deposita grande importância é a humildade. Humilde é aquele que conhece a si mesmo e sua posição na ordem da criação. Ele sabe que é apenas um pouco inferior aos anjos e, não obstante, sem nada de que possa orgulhar-se pessoalmente. Mesmo os mais humildes possuem defeitos e falhas de personalidade. O que se deve fazer é admiti-los desde já, pedindo a Deus que torne seus efeitos mínimos, e desenvolver os talentos dados por Ele.

E quanto à maldade? Como entendê-la? Trese explica que a maldade existe porque a "maldade original" existiu. Eliminar a maldade do mundo, portanto, implicaria em eliminar a todos nós, dado que todos somos maus em função do pecado original. Eis que temos de nos perguntar: A quem aborreci inutilmente hoje? Nos momentos de ira, lembremos que Jesus que nem ao menos a deixemos aflorar, e não que a represemos simplesmente. Mas de que maneira? Odiando o pecado e não o pecador. Esta é a ira boa, mais ou menos como um pai se zanga com o filho. A diferença é que a ira boa se insurge por amor ao próximo, enquanto a ira ruim se insurge por amor próprio.

E como o sexo deve ser encarado pelo cristão? O autor ensina que as partes genitais são cobertas assim como qualquer coisa santa deve ser coberta. Assim como a procriação é algo sumamente importante, o sexo e os órgãos genitais também são sumamente importantes. Daí conclui-se que fazer sexo indistintamente, fora do tempo e do espaço certos, constitui uma profanação. Observe que mesmo no casamento, o sexo não pode ser interposto (os chamados métodos contraceptivos) porque Deus é positivamente (no sentido de ativamente) excluído. E o sexo não deve ser visto apenas como o prazer imediato para a geração de uma nova vida, mas inserido no amplo contexto da criação do filho como um todo. Isso quer dizer que não se deve fazer sexo simplesmente para satisfação do desejo imediato, mas, além disso, compreender que se trata de uma nova vida, uma nova criação.

Ainda no ambiente familiar, Trese afirma que o segredo para a boa vida matrimonial é o casal reparar apenas no que há de bom no outro, suportando as faltas de ambos sabendo que a personalidade dificilmente é manipulável. Nas crises (Trese usa o termo "depressões"), antes de achar que a grama do quintal vizinho é mais verde, lembre-se que a vida de solteiro é muito mais solitária e, por isso, sofrida.

Trese também dá dicas sobre o trabalho. Devemos lembrar que todo trabalho é partícipe da obra criadora de Deus, exceto, claro, aqueles trabalhos que são positivamente destrutivos. O autor também alerta para a premência de alimentarmos nossas mentes com leituras formativas, que cultivem a inteligência, não perdendo muito tempo com TV, revistas, jornais etc.

Quanto à propriedade, somos informados de que ela é boa; caso contrário, Deus não teria feito o voto de pobreza algo penoso. Mas como freqüentemente somos desmedidos nas coisas, em função do pecado original -- a razão perdeu o domínio sobre as paixões --, temos de levar uma vida desprendida, juntando somente aquilo que é necessário para nosso sustento. Trese lembra muito apropriadamente que a vida secular tende a reduzir tudo ao utilitarismo imediatista, tornando difícil ao cristão seguir a Igreja e a Cristo, preferindo seguir a si próprio.

Levanta-se então uma questão muito pertinente: Como amar o próximo se esse próximo não nos parece digno de ser amado? A resposta é simples: Exercendo a virtude da caridade, infundida em nós pelo batismo. É ela que torna possível o amor além do amor natural; não custa lembrar, conforme dissemos acima, que o amor reside na vontade, e não nas emoções. Na prática, o que ocorre é que distinguimos entre a malícia e o malicioso, amando este e não aquele. Eis que urge sermos apóstolos da caridade em Cristo, perdoando falhas alheias, louvando o que há de bom nos outros etc.

Porém, fazer coisas boas não limitar-se a evitar pecados e rezar, mas também fazer coisas boas para os outros. Sermos afáveis, corteses, pacientes etc. robustecerá ainda mais nossa mente e nossa alma.

Trese chama a atenção dos leitores para a importância da oração. A oração é a elevação da mente e do coração para Deus. No entanto, ao contrário da definição, ainda tendemos a depositar a nossa confiança nas palavras, na multidão infindável das palavras. Ora, instruindo seus discípulos na prática da oração, Jesus disse-lhes: Quando orardes, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que, por falarem muito, serão ouvidos; mas vosso Pai sabe de que coisas necessitais, antes de que lhe peçais (Mateus 6:7-8). Um único momento que dediquemos exclusivamente a Deus em pensamento, em que pensemos nEle com amor, com gratidão, submetendo-nos aos seus desejos ou arrependendo-nos dos nossos pecados -- um único momento desses pode agradar mais a Deus do que uma oração de muitas palavras. São esses momentos que indicam um espírito permanente de oração, um amor a Deus duradouro. Na oração, além do mero palavreado, pode incrustar-nos nos nossos hábitos um outro defeito: o do egocentrismo. Na oração mais perfeita de todas, o Pai Nosso, somente uma curta frase intermédia é dedicada a um pedido de ordem material: "O pão nosso de cada dia nos dai hoje".

O maior problema com que a maioria de nós tropeça na oração é o das distrações. Mas quando dispomos a visitar a Deus, podemos consumir uma boa parte do tempo da oração -- talvez a maior parte -- correndo atrás dos nossos buliçosos e errantes pensamentos. De qualquer modo, Deus alegra-se com os nossos esforços, sente-se satisfeito com as nossas patentes intenções de falar com Ele.

Para encerrar, Trese lembra que no batismo, Deus nos deu uma vida sobrenatural, elevou-nos até o seu próprio nível. Optou por partilhar conosco a sua própria vida eterna. Unindo nossa alma a Ele, deu-nos um novo gênero de vida que chamamos graça santificante. Mas a nossa alma acha-se limitada nas suas atividades divinas por ter que desenvolver-se através de um corpo físico. Para que essa vida divina seja verdadeiramente completa na nossa alma, devemos aguardar o ato final pelo qual a glória divina chegará também a nós. E isso acontecerá quando Deus nos conferir aquilo que os teólogos chamam luz da glória. É um poder especial que, acrescentando à vida sobrenatural que já existe em nós, nos permitirá no Céu ver a Deus tal como é.

A ajuda que Deus nos concede dia a dia, momento a momento, é o que chamamos graça atual. Deus pode tratar que leiamos um livro que tenha um significado especial para nós, ou que ouçamos um sermão cuja mensagem nos seja especialmente necessária. A pessoa de boa vontade que, fortalecida pela graça santificante, se esforça mediante a oração por tomar as suas decisões e resolver os seus problemas da melhor maneira possível, está recebendo a todo momento as graças atuais. Com um pequeno empurrãozinho aqui e uma suave cotovelada acolá, Deus vai guiando-a continuamente para o Céu.

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Publicado originalmente em 1956 como More than many sparrows, tanto o título americano quanto o brasileiro foram inspirados em Mateus 10:29-31: "Porventura não se vendem dois passarinhos por um asse [antiga moeda romana de cobre]? E todavia nem um só deles cairá sobre a terra sem a permissão de vosso Pai. Até os próprios cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não vos preocupeis, pois; vós valeis mais do que muitos pássaros".

10 de dezembro de 2005

A minha consciência e eu

Há tempos tenho desfrutado dos livretos de Leo J. Trese (1902-1970). Este padre americano tem o dom de ensinar eternas verdades em pequenas lições. Em Vaso de Argila (Vessel of Clay), Trese narra um dia típico de um pároco de uma pequena cidade americana. Cada capítulo corresponde a uma hora, meia-hora ou quarto-de-hora, nos quais as angústias, dúvidas e fraquezas do sacerdote são confidenciadas ao leitor. Na verdade, percebe-se que o "típico pároco" é o próprio Leo Trese, transformando a obra numa autobiografia.
Mas um dos capítulos chamou muito minha atenção. Às 10h45min (pág. 65), Trese trava um "diálogo" com sua consciência sobre o vício do fumo, algo que certamente o perturbava. Embora eu mesmo não seja fumante, não foi difícil transpor a lição de Trese aos meus próprios desvios morais (por exemplo, a gula). Em suma, Trese conclui que novos e saudáveis hábitos não devem se seguir a meras resoluções moralistas do tipo "tenho que parar de comer muito" ou "tenho que parar de assistir muita TV". Na verdade, os velhos vícios só serão genuinamente abandonados quando antes ocorrer uma mortificação interior, ou, na linguagem evangélica, um quebrantamento. É no arrependimento e no amor a Deus o início da verdadeira mudança. Caso contrário, o abandono do vício servirá apenas para reforçar o orgulho e a egolatria existentes.
* * *
Terminada a Hora Média [uma das partes de que se compõe a Liturgia das Horas, também chamado de Breviário ou Opus Dei, que todos os padres devem rezar diariamente], puxo de um cigarro com um movimento quase instintivo. Não admira: é um movimento que repito mais ou menos trinta vezes por dia. De cada vez que o faço, a consciência repreende-me com um aviso, já completamente familiar. E aqui estamos outra vez - penso amargamente - com outro cigarro na boca e um fósforo na mão; aqui estamos outra vez, a minha consciência e eu, às voltas com o mesmo assunto.

CONSCIÊNCIA: Por que não deixas de fumar?

Eu: Acho que deveria.

CONSCIÊNCIA: Pois claro! É a única coisa da tua vida que não te deixa livre. Como podes falar de mortificação se fumas maço e meio de cigarros por dia?

Eu: Mas eu gosto de fumar e sabes perfeitamente que o Dr. Fitzgerald disse que não me fazia mal. Além disso, não me esqueço de dar graças a Deus por esta pequena satisfação. Não faço bem?

CONSCIÊNCIA: É claro que não. Fazer as coisas somente por prazer parece-me um pecado. Uma ação que não tenha um fim sobrenatural não tem valor.

Eu: Estás então querendo dizer que faço mal porque gosto de ver o nascer do sol da janela do meu quarto? Ou porque gosto de respirar o perfume dos lilases na primavera, ou das folhas secas no outono? Ou porque..

CONSCIÊNCIA: Alto lá! Estávamos falando de cigarros. És capaz de dizer-me o nome de um santo que tivesse o hábito de fumar?

Eu: Muito bem, se preferes argumentos ad hominem, permite-me uma pergunta: és capaz de dizer o nome de um santo cuja canonização tenha sido recusada por fumar, mascar tabaco ou aspirar rapé? Acho que a nossa questão não é de santidade, mas de pecado; se for de santidade, talvez estejamos de acordo. Mas explica-me em que consiste o pecado de fumar, e eu deixarei de cometê-lo agora mesmo.

CONSCIÊNCIA: Bem, talvez não seja pecado, mas seria melhor deixares de fumar imediatamente.

Eu: Não, imediatamente não. Sabes o que aconteceria se deixasse de fumar imediatamente? Ficaria orgulhoso como o demônio da minha força de vontade; desprezaria os meus amigos que não fossem capazes de fazer como eu; estaria tão ocupado em pavonear o meu auto-domínio que esqueceria as mortificações mais importantes.

CONSCIÊNCIA: Mais importantes? Quais, por exemplo?

Eu: Não me digas que não sabes que a mortificação interior é mais importante que a exterior. Olha por exemplo o que acontece nas sextas-feiras à noite: batem as nove, hora em que terminam oficialmente as confissões; se eu fosse zeloso como devia, não iria correndo fechar a porta da igreja para evitar a entrada de um retardatário, mas daria uma rápida olhada pela rua para o caso de estar chegando algum filho pródigo. Ou, senão, olha para este outro exemplo: é um dia qualquer, e eu me encontro no meu escritório, com o plano de trabalho já estabelecido, quando chega alguém querendo sentar-se e falar-me de alguma bobagem. Se eu me mortificasse interiormente, descobriria nessa pessoa a vontade de Deus e não teria tanta pressa em vê-la pelas costas. Repara, finalmente, no que aconteceu no último domingo: preparava-me tranqüilamante para descansar, quando me vieram dizer que a velha sra. Ebers precisava de que a levassem de carro ao hospital, a uns oitenta quilômetros, para visitar o marido. Se fosse interiormente mortificado, não teria demorado quinze minutos a ir ao telefone e oferecer-me para levá-la. Como vês, são alguns exemplos daquilo que penso serem as mortificações mais importantes. Podia deixar de fumar e continuar a ser um terrível egoísta, negligente e insuportável. Se me abstivesse da nicotina, não conseguiria nem a metade das vantagens que meia -hora de oração me oferece todos os dias. Se amasse mais a Deus...

CONSCIÊNCIA: Sim, já sei aonde queres chegar. Se amasses mais a Deus, seria mais fácil que te mortificasses. Uma renúncia heróica é mais o resultado do que a causa da virtude. Se progredisses no amor a Deus, o teu egoísmo se desfaria como uma cebola, casca por casca, até não restar nada. Pensas que chegará um dia em que te há de parecer natural e até inevitável deixar de fumar, um dia em que encontrarás maior gosto em não fumar do que em agarrar-te a esse costume. Enfim! O melhor seria aceitarmos um empate nesta disputa e eu variar a minha linha de ataque. Quanto tempo achas que precisarias para deixar de fumar segundo o teu método?

Eu: Só Deus sabe. Há momentos em que penso que o próprio Deus desanima tentando ensinar-me a cortar o mal pela raiz. Talvez o meu aço não esteja suficientemente temperado. Mas, consciência, não me abandones; se o conseguir, há de ser com a tua ajuda. A graça faz milagres e é possível que chegue um dia em que eu encontre verdadeira alegria em jogar cinza na comida e dormir sobre uma tábua. Entretanto, continuarei a saborear uma boa refeição, com toda a gratidão que devo a Deus e com o maior respeito pela virtude da temperança. Em nome da fraternidade e com o devido respeito pela virtude da sobriedade, continuarei a tomar um aperitivo com os meus irmãos sacerdotes antes do jantar. Parece-me ser uma sã doutrina pensar que tudo o que Deus fez é bom. Com toda a certeza, a alegria de um prazer inocente é obra das suas mãos e não se pode considerar um erro. Por isso, até que...

CONSCIÊNCIA: Cuidado! Esse fósforo vai-te queimar os dedos! Vamos, acende o cigarro e deixa de filosofar. Espero que não te convertas num racionalista. De qualquer modo, agora tenho mais que fazer. Preciso afiar a ponta da próxima seta.

28 de novembro de 2005

Ciência Moderna e Sabedoria Tradicional

O germano-suíço Titus Burckhardt (1908-1984) dedicou sua vida ao estudo da cosmologia, da metafísica e das artes tradicionais. A exemplo de René Guénon e de boa parte da chamada escola tradicionalista (ou escola perenialista), Burckhardt centra suas análises a partir de aspectos antitradicionais da modernidade. Ele nos lembra que há, sim, um conhecimento que transcende a razão; no entanto, há dois grandes obstáculos que impedem o homem moderno de alcançá-lo. Primeiro, o significado da simbologia simplesmente nos é desconhecido. Segundo, o pensar estritamente científico, no sentido moderno e quantitativo da palavra, limita nossa imaginação.

Os quatro ensaios que exporei abaixo, escritos em alemão ao longo da década de 1970, procuram precisamente explicar, sob diferentes aspectos, que tipo de conhecimento é esse e como a modernidade o perverteu. Reunidos posteriormente numa edição espanhola intitulada Ciencia Moderna y Sabiduría Tradicional (os ensaios III e IV também foram traduzidos para o inglês e podem ser encontrados aqui), Burckhardt começa introduzindo o leitor nos fundamentos da cosmologia perene, para então mostrar como sua má aplicação prejudica o entendimento moderno em três ciências: Física, Biologia e Psicologia. Há ainda um quinto ensaio sobre a Divina Comédia (Dante Alighieri), que deixarei para analisar em outra oportunidade.

Sempre é bom lembrar que o resumo foi feito com minhas próprias palavras, a partir do entendimento que pude extrair da leitura. Às vezes, traduzi frases inteiras nos trechos que enfrentei maior dificuldade de entendimento. De qualquer forma, todas as incongruências devem ser debitadas na minha conta, jamais na do autor.


* * *

I - Cosmologia Perene

No mundo tal como é realmente, corpo, mente e espírito se entrelaçam numa ordem mais complexa do que somente "coisas" espalhadas e niveladas igualmente. Segundo as doutrinas tradicionais, o universo divide-se em três esferas: a corpórea (dada pela matéria, pelo número, pelo espaço e pelo tempo), a psíquica (livre das codições corpóreas mas ainda limitada) e a espiritual (totalmente livre de condições existenciais).

Para o homem moderno, no entanto, somente os dados registrados e medidos são reais, o que acaba engendrando uma visão um tanto totalitária do mundo. Mesmo a psicologia moderna, que poderia aliviar a visão totalitária do homem moderno, não consegue mais do que fazê-lo oscilar entre a "realidade" única das coisas exteriores e um subjetivismo psicológico desorientativo.

Ora, dizer que a Terra é plana, como os antigos poderiam eventualmente supor, é um erro muito menor do que afirmar, como os modernos o fazem, que a percepção sensorial é apenas um processo físico. Isso porque aquele é um erro sobre um aspecto particular do mundo criado enquanto este é um erro sobre a natureza do mundo criado.

Uma ciência que se limita ao corpóreo não pode ser designada como "cosmologia". Isso se explica pelo fato de que kosmos, em grego, implica em forma, uma lei interior que, conforme vimos em estudos anteriores, é negada pelos modernos. Esse aspecto qualitativo não pode ser apreendido somente pela razão, mas principalmente pela intuição espiritual, que Guénon denominava intuição intelectual.

A intuição espiritual, ao contrário do que o consenso moderno ensina, não é feeling nem premonição. A verdadeira intuição espiritual é ainda menos subjetiva do que as verdades às quais a razão chega. Por exemplo, a intuição espiritual, em seu grau mais elevado, pode referir-se à essência do próprio Deus. Ora, trata-se de uma verdade muito superior a qualquer teologia. Em resumo:

  • Teologia: deduz e ensina a partir de dogmas, limitando-se a uma visão pessoas de Deus como criador, conservador e redentor.
  • Intuição espiritual: não está ligada a nenhuma forma pré-fixada, penetrando até o fundo suprapessoal da Divindade, do Absoluto.

Ora, a metafísica é precisamente a visão espiritual que se abre ao Absoluto, ao Infinito ("para cima"). A cosmologia, por sua vez, se abre à existência, ao mundo criado ("para baixo"), mas precisa de uma metafísica para que dela extraia suas certezas últimas.

A teologia precisa validar-se a partir de uma infraestrutura cosmológica coerente. O homem moderno, ao valorizar excessivamente os progressos materiais, obstaculiza o conhecimento da onipresença e onipotência de Deus ao subordinar os aspectos qualitativos aos quantitativos. Tal postura gera erros cosmológicos que, para serem corrigidos, precisam de um "antídoto": uma visão metafísica de Deus. A concepção metafísica, por exemplo, jamais cairá na tentação de considerar um aspecto parcial do cosmo (o mundo corpóreo) como algo independente.

O objeto da cosmologia é a existência diferenciada, criada; seu pressuposto é a doutrina do Ser unitário, compreendida por sua vez na doutrina do Infinito e do Absoluto da metafísica pura. Portanto, o saber tradicional garante conhecimentos incomparavelmente mais profundos e reais do que todos os ensinamentos da ciência moderna, embora às vezes, no plano meramente empírico, as representações do saber tradicional sejam "ingênuas", isto é, simplesmente humanas.

Segundo a cosmologia cristã, o Logos é a origem do universo, a quintessência da existência na qual estão contidas todas as coisas criadas: "Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. " (João 1:3-9).

Este aspecto cosmológico do Logos pode ser melhor descrito pela concepção de Plotino, segundo o qual o Espírito, emanado do Uno, olha o Uno e o reflete, trazendo objetividade àquilo que vê. Essa objetividade não é uma ação material, mas uma emanação, já que nada é subtraído do Uno. É fácil perceber que o Espírito é o próprio Logos, o Intelecto.

Não há dúvida de que existe uma diferença entre a representação bíblica da criação e a doutrina plotiniana da emanação da existência a partir do Uno. Mas essa diferença não é difícil de superar, uma vez que enfocamos as terminologias com o devido cuidado. Por exemplo, a Bíblia ensina que Deus criou o mundo do nada. Isso quer dizer que não havia matéria fora de Deus. Similarmente, a metafísica plotiniana ensina que o mundo emana de Deus. Outro exemplo: a Bíblia ensina que o mundo começou no mesmo momento em que Deus o criou. Segundo os filósofos gregos (Plotino inclusive), o cosmo é uma expressão de Deus e, portanto, eterno. A aparente contradição é facilmente solúvel quando entendemos que o começo do mundo não é de natureza temporal, embora o expressemos como tal pois necessitamos de uma representação simbólica que dê conta da ação de Deus.

A cosmologia cristã -- bem como a islâmica e a hebraica -- tomou de Aristóteles o pensamento analítico e de Platão a teoria dos arquétipos. Mas o que isso tudo tem a ver com fé? Ora, enquanto a cosmologia tem um caráter cognoscitivo impessoal, a fé parte de uma decisão pessoal a partir de algo pré-sentido ("a fé vem pelo ouvido"). Pois a visão antiga e medieval do mundo -- cosmologia e filosofia -- estavam estreitamente vinculadas entre si. Separaram-se precisamente quando a cosmologia se reduziu a uma mera descrição do universo visível; assim, a filosofia perdeu seu fundo universalmente válido e assume gradualmente o caráter solitário, oportunista e arbitrário que hoje a caracteriza.

II - Ciência Ignorante

Neste ensaio, Burckhardt aplica os conceitos cosmológicos e metafísicos descritos acima na análise da Física moderna. Segundo o autor, todos os erros das chamadas "ciências exatas" provém de uma má compreensão fundamental: a de que a existência do sujeito humana é prescindível nas experiências e teorias. Ora, é justamente no espelho contido no homem que os fenômenos do mundo se revelam.

Isso quer dizer que o conhecimento objetivo do mundo pressupõe certos critérios indiscutíveis que existem precisamente no sujeito individual. Afinal, tem de haver um fundo imparcial que traz unidade à ciência: é o espírito puro. Sem perceber, o homem moderno o afirma ao propor a objetividade absoluta da ciência. Ocorre que, ao matematizar tudo, a ciência moderna capta apenas o aspecto quantitativo dos fenômenos que visa explicar, peneirando o qualitativo. Para a cosmologia tradicional, são justamente os aspectos qualitativos, que transcendem os quantitativos, que interessam. Por exemplo, para o homem moderno, as cores não passam de impressões subjetivas de diferentes graus de oscilação de luz.

Nesse processo de peneiragem, a ciência moderna despreza não só as qualidades secundárias (cor, odor etc.) mas também a essência, a forma. Tal essência não se descobre por uma árdua investigação científica (moderna) simplesmente porque não são mensuráveis. Eis por que a cosmologia é direta e especulativa, pois capta as verdades de forma imediata, sem rodeios. São, digamos, "verdades poéticas". Se considerarmos a dimensão horizontal como a da existência material, a dimensão das qualidades cósmicas é vertical, pois une o inferior com o superior, o transitório com o eterno.

O suposto progresso científico é altamente duvidoso. Uma dominação não-sábia da natureza provoca conseqüências desastrosas (p.ex.: poluição, fissão atômica, controle de natalidade etc). Isso acontece porque a ciência moderna é manca, ou seja, é uma mistura de sabedoria com ignorância: enquanto a matemática lida com as características descontínuas do número, as relações contínuas e sutis são olimpicamente ignoradas.

Uma questão física que é aos modernos difícil de lidar é a respeito dos campos magnéticos. Como os campos magnéticos se sustentam? Afinal, não pode haver espaço vazio, uma típica intuição que o homem moderno não tem.

Segundo a cosmologia tradicional, o espaço está uniformemente cheio de éter. Todavia, logo depois de comprovar que não há obstáculos para o movimento de rotação da Terra, a Física moderna conclui que o éter não existe. Ora, os físicos modernos esquecem-se que este "quinto elemento", que constitui o fundamento de todos os modos de ser materiais, não possui em si nenhuma qualidade física particular. Ele representa, na verdade, o fundo contínuo do qual se destacam todas as descontinuidades materiais, de modo que não pode se opor a coisa alguma. Portanto, a inexistência do éter não poderia ter sido concluída após verificar-se que a Terra não possui obstáculos ao seu movimento.

Se a ciência moderna aceitasse a presença do éter, talvez pudesse responder se a luz se propaga como onda ou como emanação corpuscular. Ora, é provável que a propagação da luz não se explique nem de uma forma nem de outra: a luz está em relação direta com o éter e, como tal, participa da sua natureza contínua e indiferenciada. A luz é contínua como o éter.

Outro dilema diz respeito à relatividade. Supõem-se que a famosa velocidade da luz é "constante". Mas como pode um movimento com uma determinada velocidade, cuja definição seguirá sendo uma determinada relação entre espaço e tempo (km/s, por exemplo), ser em si mesmo a medida absoluta das condições do estado físico? Ora, claro está que a natureza da luz é fundamental para todo o mundo físico e que o movimento da luz representa algo assim como a "medida cósmica" do mundo. Mas por que se ater infantilmente ao valor 300.000 km/s? Ou seja, como pode a velocidade da luz ser fixa se a velocidade é medida por tempo e espaço, que são em si mesmos relativos?

É possível, portanto, que todas as distâncias entre os astros calculadas em "anos-luz" tenham uma validez tão subjetiva quanto as relações de qualquer cosmologia "obsoleta", sem falar que o conhecimento da natureza está condicionado aos limites de nossas faculdades sensoriais.

A doutrina tradicional ensina que as matérias -- visíveis ou invisíveis -- são compostas entre dois pólos: a essência plasmadora (introjetada pela ação imóvel do espírito criador) e a matéria indiferenciada (a materia prima). É como a luz incolor da qual originam-se cores num meio também incolor (água, cristal etc). No entanto, a Física moderna reduz tudo ao mundo corpuscular, ou seja, à quantidade. Fazendo isso, a Física aproxima-se perigosamente da indeterminação, afastando-se da determinação qualitativa. É o caso da cisão atômica, por exemplo.

Embora os homens antigos e medievais tivessem concepções físicas errôneas, eram sabedores de algo infinitamente mais importante: que a realidade não está limitada à matéria. Curiosamente, o homem moderno sabe que uma pequena irregularidade nos movimentos astronômicos, a inclusão de um astro estranho no sistema planetário, uma variação na trajetória solar ou qualquer outro acidente cósmico bastaria para destruir a humanidade. Não obstante, o homem moderno vive e atua como se o desenvolvimento normal e cotidiano dos ritmos da natureza lhe estivesse assegurado. Ele não pensa nem nos abismos do mundo estelar nem nas terríveis forças latentes em cada elemento da matéria. Ele contempla o céu acima de si como qualquer menino, com o Sol e as estrelas, pois a lembrança das teorias astronômicas o impede de conhecer os signos vivos, tornando-o incapaz de vê-los como são: a manifestação natural do Espírito que engloba o mundo e o ilumina.

III - A Origem das Espécies

Burckhardt inicia sua explanação sobre a origem das espécies lembrando que as quantidades se somam, mas as qualidade não: elas assumem uma nova característica, que participa de certa forma das outras mas, em verdade, é algo novo. É como a mistura de azul com amarelo com a qual se obtém o verde. O verde é um salto qualitativo em relação às cores anteriores.

Na natureza, as coisas funcionam assim também. Entre o ovo e o pássaro, entre a mariposa e a larva, há uma diferença qualitativa, um salto. Essa qualidade é dada pela forma, que, conforme vimos nos estudos anteriores, é a quintessência das qualidades de uma coisa ou de um ser, a marca de sua essência imutável.

No mundo individual ao qual nossos sentidos têm acesso, as coisas são compostas por forma (que, em essência, não é individual, mas um arquétipo) e matéria (física ou psíquica). A forma é, em outras palavras, uma unidade cognoscitiva e, como tal, está contida primordialmente na unidade mais ampla do Espírito.

Ora, com respeito aos indivíduos, a espécie (species) é um arquétipo, isto é, não é uma mera abrangência de um grupo mas uma unidade lógica ou ontológica, uma forma existencial indivisível. Por tanto, a espécie não pode "evoluir", ou seja, não pode passar gradualmente a outra espécie. Embora a espécie possua subespécies, estas ainda representam reflexos da mesma forma essencial, do mesmo arquétipo.

Pois é precisamente a confusão entre espécie e subespécie a base de toda a teoria evolucionista. Para a teoria evolucionista, uma variante de um pássaro é entendida como uma nova espécie. Ora, mesmo que eliminássemos as fronteiras entre uma espécie e outra, ainda assim estariam separadas entre si por diferenças abismais. Pois nem sequer existem formas que indiquem uma possível conexão entre as diversas ordens de seres vivos, como peixes, pássaros, répteis e mamíferos. Na verdade, pela própria lei da seleção natural, os "projetos" de uma nova espécie deveriam ser muito mais numerosos do que os antepassados.

É verdade que a paleontologia demonstra uma ordem ascendente de manifestações animais. Mas isso se explica pelo fato de que, no plano material, o que é relativamente informe e inarticulado precede sempre ao mais complexo, já que toda "matéria" é como um espelho que reflete, invertendo-a, a atividade dos arquétipos. Enquanto a essência dos arquétipos contém possibilidades riquíssimas por ser indivisível, no plano material as formas simples iniciais são pobres e as mais ricas estão subdivididas; assim, a semente existe antes do que a árvore e o botão existe antes do que a flor. O que é válido para o ser físico singular vale também, em conjunto, para o mundo animal e vegetal. Em suma, é como se o arquétipo dos arquétipos animais manifestasse no conjunto dos animais: assim como o embrião preceder o homem está para o arquétipo Homem, os animais mais simples precederem os mais complexos está para o arquétipo dos animais. Mas isso, em hipótese alguma, dá margem para uma "evolução de arquétipos". Não só não há elos perdidos como há espécies que imitam outras sem nunca deixar de ser o que foram (por exemplo, a baleia).

Todo arquétipo é um espelho que reflete a todos os demais arquétipos que, por sua vez, o refletem. O arquétipo Mamífero reflete todos os arquétipos abaixo dele (por exemplo, Cão, Gato, Baleia) que, por sua vez, refletem o arquétipo Mamífero. O fato de que os tipos cósmicos estejam compreendidos uns nos outros remete, em última instância, à unidade do Ser.

Em última instância, a tese evolucionista é uma tentativa dirigida não tanto a negar completamente o "milagre da criação", mas a isolá-lo. Em suma, o evolucionismo e todas suas contradições intrínsecas resultam da incapacidade própria da ciência moderna de conceber dimensões da realidade que não sejam encadeamentos puramente físicos. Logicamente, a origem das espécies só se aplica a partir da gradual emanação das realidades, conforme vimos acima.

Para melhor entender a descendência vertical das espécies, é preciso saber que a matéria que compõe este mundo físico nem sempre teve o mesmo grau de dureza cósmica. É como se a realidade física se "endurecesse", ou seja, se tornasse cada vez menos plasmável. Isso significa que, no plano da existência superior ao estado físico, os diversos tipos de animais estavam presentes como formas não-físicas no mundo sutil. Dali descenderam à existência física enquanto esta estivesse disposta a recebê-los.

IV - Psicologia Moderna

Burckhardt inicia sua análise da psicologia moderna face à sabedoria tradicional lembrando de um dilema já conhecido por Jung: todo julgamento feito pelo psicólogo tem de ser subjetivo pois a psique do próprio psicólogo é subjetiva. Ou, em outras palavras, a psique é o objeto da psicologia e ao mesmo tempo é o sujeito da psicologia.

No entanto, há algo em nós que escapa a essa limitação subjetiva, conseguindo percebê-la desde acima. Este algo não é outra coisa senão o espírito, o que os latinos chamavam de intellectus. Mas atenção: não confunda intelecto com razão; a razão reflete mentalmente o espírito mas é limitada ao setor ao qual está sendo aplicada. Como o homem moderno só admite dados empíricos então a razão fica limitada e esse setor. Portanto, não é de espantar que o homem moderno considere os fenômenos psíquicos como "irracionais".

Enquanto os fenômenos corpóreos podem ser observados com objetividade por um clínico, os fenômenos psíquicos não podem ser observados com a mesma objetividade por um psicólogo. Isso acontece porque o psicólogo tem de incluir o seu "eu" na experiência. É o dilema da alma tentando captar a alma. Eis aí um dos erros mais primários cometidos pela psicologia moderna: supor que o psicólogo pode se "distanciar" das experiências relatadas pelo paciente.

O psicólogo precisa de algo "acima" das experiências, de algo que o ajude a transcender o plano dos fenômenos: em suma, uma metafísica. A inteligência tem de ser algo que ultrapasse a psique.

Há dois critérios que situam a psique em seu contexto cósmico adequado: (1) a cosmologia e (2) a moral, devidamente enfocada por uma meta espiritual. A razão de ser desses critérios pode ser explicada mais ou menos assim: um rio, para mostrar o seu vigor, precisa de um obstáculo no meio do caminho, como uma rocha, um pedaço de madeira fincado no fundo do rio ou mesmo uma curva. O rio é o fluxo constante da psique, enquanto o obstáculo é o princípio imutável que mostrará à psique suas inclinações e tendências.

  • Cosmologia = dimensão impessoal e teórica da psicologia tradicional.
  • Moral = dimensão pessoal e prática da psicologia tradicional.

Ambas, juntas, dão uma visão desde acima da própria psique: é o autoconhecimento. Para a psicanálise, a moral não passa de costumes sociais que podem, algumas vezes, ser úteis mas que, geralmente, impedem o desenvolvimento normal da psique. O psicanalista torna-se então o novo sacerdote que, ao conseguir extrair os complexos reprimidos do paciente, lhe dá a absolvição dos pecados. O paciente, ao invés de distanciar de suas tendências, acaba assumindo-os como se esse fosse seu legítimo "eu".

O verdadeiro sacerdote, por outro lado, é o vigário da Verdade. O arrependimento cria uma distância entre o fiel e suas tendências caóticas e tenebrosas, possibilitando-lhe que as objetive e que restabeleça o equilíbrio com Deus. Isso acontece porque o sacerdote expressa e dá testemunho de uma presença superior.

Eis por que as doutrinas tradicionais da salvação são tão diferentes da "salvação" psicoterápica: aquelas sabem que a psique não pode curar a si mesmo. As tradições sabem que a "cura" pode vir de duas fontes: (1) do corpo, ao reequilibrar a dosagem de certas substâncias, ou (2) do espírito.

Quando a psicologia moderna atribui a um rito alguma efetividade, o remete a certas disposições psíquicas de origem ancestral. O psicólogo moderno jamais se questiona se há um sentido atemporal e sobre-humano nos ritos ou nos símbolos, como se a alma pudesse curar-se crendo na projeção ilusória de suas próprias preocupações.

Para entender um pouco melhor essas explicações, Burckhardt explica os diversos "mundos" lançando mão de uma comparação geométrica. Imagine círculos concêntricos. O círculo central representa o mundo corpóreo. Os círculos intermediários representam os diversos graus do mundo psíquico (também chamado de mundo sutil). O círculo mais externo representa o Espírito puro. Observe que os círculos mais externos contêm os círculos mais internos. Observe também que o círculo de menor abrangência é o interno, isto é, o mundo corpóreo.

Evidentemente, não é a alma individual que engloba o mundo físico; é o estado sutil inteiro que o engloba. Por um lado, a consciência subjetiva -- que é o objeto da psicologia -- acaba separando a alma de seu contexto cósmico, fazendo-a parecer isolada do mundo exterior e de sua ordem universalmente válida. Por outro lado, a mesma consciência subjetiva se serve de suas próprias faculdades congnoscitivas na confiança de que elas correspondam à ordem cósmica total. Há aí como que um processo de diferenciação e integração: a consciência individual "se separa" do mundo ao mesmo tempo que confia que ela pertença a uma ordem cósmica comum a todas as consciências individuais. É mais ou menos como se, ao mesmo tempo que sabemos que nossa alma é nossa alma, soubéssemos também que ela está imersa num mundo sutil comum a todas as almas. É o peixe que, embora sendo o peixe individual que é, também está imerso num oceano ("mundo") comum a todos os peixes e que, de certa forma, tal oceano afeta todos os peixes.

Por exemplo, a consciência de alguém que dorme e está sonhando é permeável aos influxos que atuam sobre ela advindos de diversas regiões do mundo sutil, como demonstram as premonições ou telepatias. Os sonhos podem ser feitos de recordações ou de "pegadas" de transfusão psíquica de um indivíduo a outro, embora tais casos sejam raros. Também podem ser introjetados por um Anjo, algo que fica patente naqueles sonhos que permanecem mesmo após acordarmos. Há também os sonhos infernais, que são introduzidos por uma "porta aberta" deixada pelo indivíduo. Essa "porta aberta" é normalmente alguma paixão. Esse tipo de sonho costuma pretensiosamente mesclar Deus com o "eu" pessoal, um orgulho tipicamente diabólico.

Entendemos ainda melhor essa diferenciação e integração das consciências quando nos damos conta que é o plano essencial (eidos) que as une e que é o plano material (hylé) que as diferencia. A dimensão essencial, no simbolismo da cruz, é representado pelo eixo vertical que une as consciências para além da forma que têm, enquanto o eixo horizontal é o plano sutil/psíquico que dá a cada consciência sua forma diferenciada mas, ao mesmo tempo, também as une, num certo sentido, no plano psíquico em que todas se encontram. Pode parecer estranho, à primeira vista, falar de "matéria" para a psique. No entanto, a psique ainda não é espírito puro e, portanto, possui suas determinações características, mesmo não possuindo um corpo físico próprio.

As dimensões vertical e horizontal de qualquer fenômeno psíquicos são essenciais para entendê-los. Isso é ainda mais válido para os fenômenos psíquicos, que são altamente complexos e podem ser um entrelaçamento de várias respostas: impressões sensoriais, manifestações de desejos, conseqüências de ações transcorridas, traços de disposições típicas ou hereditárias do indivíduo, expressões de seu gênio, reflexos de realidades supraindividuais etc.

Os eixos da cruz ajudam a entender que os arquétipos, segundo a utilização tradicional (platônica) do termo, são as fontes do ser e do conhecimento, e não, como pretende Jung, disposições inconscientes da ação e da imaginação. Similarmente, os instintos não são apenas uma série de reflexos automáticos da inteligência mas, na verdade, são determinações primordiais e qualitativas da própria espécie. Jung negava esta realidade, explicando os instintos a partir de "resquícios" meramente evolucionistas dos homens primordiais.

Retirando a psique de seu eixo vertical e considerando o homem apenas como um ser evoluído, não é à toa que Jung atribuía à psicanálise um caráter iniciático, como nas tradições esotéricas. Os Pais da Igreja, que não duvidaram em designar o batismo e a confirmação como ritos iniciáticos, não mais faziam do que uma "análise do inconsciente".

É verdade que Jung rompeu certos moldes puramente materialistas da ciência moderna, mas não nos resulta de nenhuma utilidade, dado que os influxos que se infiltram através dessa brecha procedem de setores psíquicos sinistros, e não do Espírito.

17 de novembro de 2005

Algumas perguntas relevantes

Mortimer J. Adler ensina em seu How to Read a Book que uma das melhores maneiras de apreender o conteúdo de um livro bem como testar se o entendimento deles extraído está correto é formular perguntas e procurar respondê-las com suas próprias palavras. No caso da leitura sintópica -- aquela que envolve mais de um livro -- as perguntas e temas devem ser amplos o suficiente para abordá-los todos. Porcurei então fazer isso com as perguntas e respostas a seguir.

Outros livros a respeito de Filosofia Perene serão estudados, seguindo o roteiro aqui sugerido, e portanto novas perguntas serão formuladas e respondidas.

* * *

1) O que é o homem moderno? Como ele se diferencia do homem tradicional?

Homem moderno é aquele que reúne as características típicas do homem surgido a partir da Renascença, isto é, após a Idade Média. Em suma, o homem moderno:
  • É centrado na ação, isto é, despreza as causas que estão por trás dos fenômenos visíveis. Por exemplo, o homem moderno conhece muitas doenças, mas é incapaz de detectar o significado delas e sua relação com o paciente. Alguém que sofre de esclerose múltipla pode ser tratado com drogas, mas a causa da doença pode estar na psique ou no espírito ( pneuma), não necessariamente numa disfunção corporal. O homem moderno também sabe construir edifícios com robustez e grande velocidade, mas é incapaz de imprimir ao ambiente a arquitetura adequada para o viver e o lazer segundo as necessidades e objetivos do edifício. O homem tradicional, por sua vez, é centrado na contemplação, isto é, na observação meditativa que lhe pode fornecer a síntese necessária entre o mundo físico e o metafísico (supra-sensível).
  • É centrado em si, isto é, é individualista. Isso quer dizer que o homem moderno não admite princípios que estejam acima de si mesmo. A negação desses princípios leva, senão explicitamente, pelo menos à negação implícita de autoridades espirituais e intelectuais.
  • É materialista, isto é, nega a importância ou mesmo a existência de um mundo além.
  • É racionalista, isto é, nega a eficácia ou mesmo a existência de uma intuição intelectual capaz de lidar com o mundo imaterial , reservando à razão humana o título de função máxima do homem.

2) Como a modernidade influencia a ciência? Cite exemplos.

A ciência, segundo a clássica definição de Aristóteles, é o conhecimento das coisas pelas causas. Ora, a ciência pode, grosso modo, ser divida em ciência primeira e ciência segunda. A ciência segunda é a Física, isto é, o estudo da natureza, do mundo sensível, do mundo material. A ciência primeira é a Metafísica, isto é, o estudo do mundo supra-sensível, intuitivo, imaterial. Se, como vimos acima, o homem moderno nega ou despreza o mundo supra-sensível, então sua ciência é manca, ou seja, restrita às observações e pesquisas mundanas, materiais, físicas.

Por exemplo, o astrônomo moderno conhece os diversos astros, suas trajetórias, compoosições físico-químicas etc. Mas o astrólogo tradicional, embora não tivesse à sua disposição os instrumentos e laboratórios atuais, conhece algo mais: a influência que os astros podem imprimir na psique a na sociedade humana.

3) Por que democracia e igualdade são conceitos tipicamente modernos?

Uma vez que o homem moderno nega autoridades espirituais superiores a si mesmo, então não há diferença entre as naturezas dos homens, ou seja, todos os homens são naturalmente iguais entre si. O homem tradicional, pelo contrário, sabe que há castas ou arquétipos distintos entre os homens.

Já que não há tais diferenças essenciais entre os homens, então elas reduzem-se a diferenças meramente substanciais. Daí conclui-se que o poder, se não vem daquele que é maior em termos qualitativos, virá daquele que é maior em termos quantitativos, isto é, da maioria dos homens. Eis o conceito de democracia: o poder baseado na opinião da maioria, ao contrário da aristocracia, que é o poder baseado numa elite inclinada e inspirada para o comando político-militar.

4) Explique o que é "forma" e "matéria", citando exemplos.

Forma e matéria são os princípios que explicam o devir (mudança, movimento). A matéria não é nem isto nem aquilo mas apenas pode ser isto ou aquilo. A forma é a coisa determinada, real.

Por exemplo, a matéria de uma casa é a madeira, enquanto sua forma é a idéia de casa. Embora ainda sejam necessários dois outros princípios para explicar o devir -- a causa motriz (o arquiteto) e a causa final (habitação) --, esses dois princípios podem ser reduzidos à forma (a idéia da casa está no arquiteto e a habitação é a forma final a que tende a casa).

No entanto, cabe aqui uma explicação importante quanto ao conceito moderno de matéria. Para o homem moderno, matéria é a composição sólida/líquida/gasosa de algo. Embora tal definição não esteja totalmente incorreta -- Aristóteles também a utilizava assim -- ela é parcial. Conforme disse acima, matéria é um princípio, ou seja, é algo que está por trás das manifestações visíveis. Tal princípio é universal, ou seja, é potencialidade pura (pode ser qualquer coisa). A substância às quais nossos olhos enxergam é também substância, mas não universal como a matéria mas relativa. A diferença entre a substância universal (matéria primeira ou materia prima) e a substância relativa (matéria segunda ou materia secunda) é que esta é caracterizada pela quantidade, enquanto aquela não pois é apenas um princípio. É por isso que Santo Tomás de Aquino chamava a matéria segunda de materia signata quantitate.

5) Qual a diferença entre quantidade e qualidade?

A diferença é que a qualidade refere-se à forma enquanto a quantidade refere-se à matéria (no sentido moderno do termo, isto é, relativo).

6) Por que a modernidade está ligada à quantidade?

Porque a modernidade nega o princípio essencial das manifestações. Por exemplo, uma doença mental pode ser estudada a partir da falta (ou excesso) de certas enzimas ou hormônios produzidos pelo corpo. No entanto, tal estudo estaria reduzindo a mente ao espaço, ignorando o fato de que a mente é algo que se desenvolve exclusivamente no tempo. Isto quer dizer que o tratamento de doenças mentais via administração de drogas cuida apenas das relações corporais que a mente exerce, e não da doença propriamente dita, que é mental.

7) Relacione materialismo com individualismo.

A matéria é o princípio que separa, que distingüe os seres, mesmo sendo da mesma espécie.

8) Relacione uniformidade com individualismo.

À medida que os homens se afastam do princípio essencial das manifestações, eles se afastam daquilo que é capaz de unir e explicar os fenômenos. Por exemplo, um homem intempestivo pode ser entendido a partir da casta e da raça a que pertence, mas para isso é necessário admitir que há arquétipos fora e acima dos homens particulares e relativos.

Reduzidos a seus aspectos quantitativos (materiais), os homens não diferem qualitativamente entre si, dando fruto assim a graus cada vez maiores de uniformidade. Não é à toa que a ciência moderna, restrita aos aspectos quantitativos das coisas, seja utilizada exclusivamente na produção em massa (industrialização), engendrando assim uma uniformização até mesmo do aspecto externo do mundo.