28 de novembro de 2005

Ciência Moderna e Sabedoria Tradicional

O germano-suíço Titus Burckhardt (1908-1984) dedicou sua vida ao estudo da cosmologia, da metafísica e das artes tradicionais. A exemplo de René Guénon e de boa parte da chamada escola tradicionalista (ou escola perenialista), Burckhardt centra suas análises a partir de aspectos antitradicionais da modernidade. Ele nos lembra que há, sim, um conhecimento que transcende a razão; no entanto, há dois grandes obstáculos que impedem o homem moderno de alcançá-lo. Primeiro, o significado da simbologia simplesmente nos é desconhecido. Segundo, o pensar estritamente científico, no sentido moderno e quantitativo da palavra, limita nossa imaginação.

Os quatro ensaios que exporei abaixo, escritos em alemão ao longo da década de 1970, procuram precisamente explicar, sob diferentes aspectos, que tipo de conhecimento é esse e como a modernidade o perverteu. Reunidos posteriormente numa edição espanhola intitulada Ciencia Moderna y Sabiduría Tradicional (os ensaios III e IV também foram traduzidos para o inglês e podem ser encontrados aqui), Burckhardt começa introduzindo o leitor nos fundamentos da cosmologia perene, para então mostrar como sua má aplicação prejudica o entendimento moderno em três ciências: Física, Biologia e Psicologia. Há ainda um quinto ensaio sobre a Divina Comédia (Dante Alighieri), que deixarei para analisar em outra oportunidade.

Sempre é bom lembrar que o resumo foi feito com minhas próprias palavras, a partir do entendimento que pude extrair da leitura. Às vezes, traduzi frases inteiras nos trechos que enfrentei maior dificuldade de entendimento. De qualquer forma, todas as incongruências devem ser debitadas na minha conta, jamais na do autor.


* * *

I - Cosmologia Perene

No mundo tal como é realmente, corpo, mente e espírito se entrelaçam numa ordem mais complexa do que somente "coisas" espalhadas e niveladas igualmente. Segundo as doutrinas tradicionais, o universo divide-se em três esferas: a corpórea (dada pela matéria, pelo número, pelo espaço e pelo tempo), a psíquica (livre das codições corpóreas mas ainda limitada) e a espiritual (totalmente livre de condições existenciais).

Para o homem moderno, no entanto, somente os dados registrados e medidos são reais, o que acaba engendrando uma visão um tanto totalitária do mundo. Mesmo a psicologia moderna, que poderia aliviar a visão totalitária do homem moderno, não consegue mais do que fazê-lo oscilar entre a "realidade" única das coisas exteriores e um subjetivismo psicológico desorientativo.

Ora, dizer que a Terra é plana, como os antigos poderiam eventualmente supor, é um erro muito menor do que afirmar, como os modernos o fazem, que a percepção sensorial é apenas um processo físico. Isso porque aquele é um erro sobre um aspecto particular do mundo criado enquanto este é um erro sobre a natureza do mundo criado.

Uma ciência que se limita ao corpóreo não pode ser designada como "cosmologia". Isso se explica pelo fato de que kosmos, em grego, implica em forma, uma lei interior que, conforme vimos em estudos anteriores, é negada pelos modernos. Esse aspecto qualitativo não pode ser apreendido somente pela razão, mas principalmente pela intuição espiritual, que Guénon denominava intuição intelectual.

A intuição espiritual, ao contrário do que o consenso moderno ensina, não é feeling nem premonição. A verdadeira intuição espiritual é ainda menos subjetiva do que as verdades às quais a razão chega. Por exemplo, a intuição espiritual, em seu grau mais elevado, pode referir-se à essência do próprio Deus. Ora, trata-se de uma verdade muito superior a qualquer teologia. Em resumo:

  • Teologia: deduz e ensina a partir de dogmas, limitando-se a uma visão pessoas de Deus como criador, conservador e redentor.
  • Intuição espiritual: não está ligada a nenhuma forma pré-fixada, penetrando até o fundo suprapessoal da Divindade, do Absoluto.

Ora, a metafísica é precisamente a visão espiritual que se abre ao Absoluto, ao Infinito ("para cima"). A cosmologia, por sua vez, se abre à existência, ao mundo criado ("para baixo"), mas precisa de uma metafísica para que dela extraia suas certezas últimas.

A teologia precisa validar-se a partir de uma infraestrutura cosmológica coerente. O homem moderno, ao valorizar excessivamente os progressos materiais, obstaculiza o conhecimento da onipresença e onipotência de Deus ao subordinar os aspectos qualitativos aos quantitativos. Tal postura gera erros cosmológicos que, para serem corrigidos, precisam de um "antídoto": uma visão metafísica de Deus. A concepção metafísica, por exemplo, jamais cairá na tentação de considerar um aspecto parcial do cosmo (o mundo corpóreo) como algo independente.

O objeto da cosmologia é a existência diferenciada, criada; seu pressuposto é a doutrina do Ser unitário, compreendida por sua vez na doutrina do Infinito e do Absoluto da metafísica pura. Portanto, o saber tradicional garante conhecimentos incomparavelmente mais profundos e reais do que todos os ensinamentos da ciência moderna, embora às vezes, no plano meramente empírico, as representações do saber tradicional sejam "ingênuas", isto é, simplesmente humanas.

Segundo a cosmologia cristã, o Logos é a origem do universo, a quintessência da existência na qual estão contidas todas as coisas criadas: "Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. " (João 1:3-9).

Este aspecto cosmológico do Logos pode ser melhor descrito pela concepção de Plotino, segundo o qual o Espírito, emanado do Uno, olha o Uno e o reflete, trazendo objetividade àquilo que vê. Essa objetividade não é uma ação material, mas uma emanação, já que nada é subtraído do Uno. É fácil perceber que o Espírito é o próprio Logos, o Intelecto.

Não há dúvida de que existe uma diferença entre a representação bíblica da criação e a doutrina plotiniana da emanação da existência a partir do Uno. Mas essa diferença não é difícil de superar, uma vez que enfocamos as terminologias com o devido cuidado. Por exemplo, a Bíblia ensina que Deus criou o mundo do nada. Isso quer dizer que não havia matéria fora de Deus. Similarmente, a metafísica plotiniana ensina que o mundo emana de Deus. Outro exemplo: a Bíblia ensina que o mundo começou no mesmo momento em que Deus o criou. Segundo os filósofos gregos (Plotino inclusive), o cosmo é uma expressão de Deus e, portanto, eterno. A aparente contradição é facilmente solúvel quando entendemos que o começo do mundo não é de natureza temporal, embora o expressemos como tal pois necessitamos de uma representação simbólica que dê conta da ação de Deus.

A cosmologia cristã -- bem como a islâmica e a hebraica -- tomou de Aristóteles o pensamento analítico e de Platão a teoria dos arquétipos. Mas o que isso tudo tem a ver com fé? Ora, enquanto a cosmologia tem um caráter cognoscitivo impessoal, a fé parte de uma decisão pessoal a partir de algo pré-sentido ("a fé vem pelo ouvido"). Pois a visão antiga e medieval do mundo -- cosmologia e filosofia -- estavam estreitamente vinculadas entre si. Separaram-se precisamente quando a cosmologia se reduziu a uma mera descrição do universo visível; assim, a filosofia perdeu seu fundo universalmente válido e assume gradualmente o caráter solitário, oportunista e arbitrário que hoje a caracteriza.

II - Ciência Ignorante

Neste ensaio, Burckhardt aplica os conceitos cosmológicos e metafísicos descritos acima na análise da Física moderna. Segundo o autor, todos os erros das chamadas "ciências exatas" provém de uma má compreensão fundamental: a de que a existência do sujeito humana é prescindível nas experiências e teorias. Ora, é justamente no espelho contido no homem que os fenômenos do mundo se revelam.

Isso quer dizer que o conhecimento objetivo do mundo pressupõe certos critérios indiscutíveis que existem precisamente no sujeito individual. Afinal, tem de haver um fundo imparcial que traz unidade à ciência: é o espírito puro. Sem perceber, o homem moderno o afirma ao propor a objetividade absoluta da ciência. Ocorre que, ao matematizar tudo, a ciência moderna capta apenas o aspecto quantitativo dos fenômenos que visa explicar, peneirando o qualitativo. Para a cosmologia tradicional, são justamente os aspectos qualitativos, que transcendem os quantitativos, que interessam. Por exemplo, para o homem moderno, as cores não passam de impressões subjetivas de diferentes graus de oscilação de luz.

Nesse processo de peneiragem, a ciência moderna despreza não só as qualidades secundárias (cor, odor etc.) mas também a essência, a forma. Tal essência não se descobre por uma árdua investigação científica (moderna) simplesmente porque não são mensuráveis. Eis por que a cosmologia é direta e especulativa, pois capta as verdades de forma imediata, sem rodeios. São, digamos, "verdades poéticas". Se considerarmos a dimensão horizontal como a da existência material, a dimensão das qualidades cósmicas é vertical, pois une o inferior com o superior, o transitório com o eterno.

O suposto progresso científico é altamente duvidoso. Uma dominação não-sábia da natureza provoca conseqüências desastrosas (p.ex.: poluição, fissão atômica, controle de natalidade etc). Isso acontece porque a ciência moderna é manca, ou seja, é uma mistura de sabedoria com ignorância: enquanto a matemática lida com as características descontínuas do número, as relações contínuas e sutis são olimpicamente ignoradas.

Uma questão física que é aos modernos difícil de lidar é a respeito dos campos magnéticos. Como os campos magnéticos se sustentam? Afinal, não pode haver espaço vazio, uma típica intuição que o homem moderno não tem.

Segundo a cosmologia tradicional, o espaço está uniformemente cheio de éter. Todavia, logo depois de comprovar que não há obstáculos para o movimento de rotação da Terra, a Física moderna conclui que o éter não existe. Ora, os físicos modernos esquecem-se que este "quinto elemento", que constitui o fundamento de todos os modos de ser materiais, não possui em si nenhuma qualidade física particular. Ele representa, na verdade, o fundo contínuo do qual se destacam todas as descontinuidades materiais, de modo que não pode se opor a coisa alguma. Portanto, a inexistência do éter não poderia ter sido concluída após verificar-se que a Terra não possui obstáculos ao seu movimento.

Se a ciência moderna aceitasse a presença do éter, talvez pudesse responder se a luz se propaga como onda ou como emanação corpuscular. Ora, é provável que a propagação da luz não se explique nem de uma forma nem de outra: a luz está em relação direta com o éter e, como tal, participa da sua natureza contínua e indiferenciada. A luz é contínua como o éter.

Outro dilema diz respeito à relatividade. Supõem-se que a famosa velocidade da luz é "constante". Mas como pode um movimento com uma determinada velocidade, cuja definição seguirá sendo uma determinada relação entre espaço e tempo (km/s, por exemplo), ser em si mesmo a medida absoluta das condições do estado físico? Ora, claro está que a natureza da luz é fundamental para todo o mundo físico e que o movimento da luz representa algo assim como a "medida cósmica" do mundo. Mas por que se ater infantilmente ao valor 300.000 km/s? Ou seja, como pode a velocidade da luz ser fixa se a velocidade é medida por tempo e espaço, que são em si mesmos relativos?

É possível, portanto, que todas as distâncias entre os astros calculadas em "anos-luz" tenham uma validez tão subjetiva quanto as relações de qualquer cosmologia "obsoleta", sem falar que o conhecimento da natureza está condicionado aos limites de nossas faculdades sensoriais.

A doutrina tradicional ensina que as matérias -- visíveis ou invisíveis -- são compostas entre dois pólos: a essência plasmadora (introjetada pela ação imóvel do espírito criador) e a matéria indiferenciada (a materia prima). É como a luz incolor da qual originam-se cores num meio também incolor (água, cristal etc). No entanto, a Física moderna reduz tudo ao mundo corpuscular, ou seja, à quantidade. Fazendo isso, a Física aproxima-se perigosamente da indeterminação, afastando-se da determinação qualitativa. É o caso da cisão atômica, por exemplo.

Embora os homens antigos e medievais tivessem concepções físicas errôneas, eram sabedores de algo infinitamente mais importante: que a realidade não está limitada à matéria. Curiosamente, o homem moderno sabe que uma pequena irregularidade nos movimentos astronômicos, a inclusão de um astro estranho no sistema planetário, uma variação na trajetória solar ou qualquer outro acidente cósmico bastaria para destruir a humanidade. Não obstante, o homem moderno vive e atua como se o desenvolvimento normal e cotidiano dos ritmos da natureza lhe estivesse assegurado. Ele não pensa nem nos abismos do mundo estelar nem nas terríveis forças latentes em cada elemento da matéria. Ele contempla o céu acima de si como qualquer menino, com o Sol e as estrelas, pois a lembrança das teorias astronômicas o impede de conhecer os signos vivos, tornando-o incapaz de vê-los como são: a manifestação natural do Espírito que engloba o mundo e o ilumina.

III - A Origem das Espécies

Burckhardt inicia sua explanação sobre a origem das espécies lembrando que as quantidades se somam, mas as qualidade não: elas assumem uma nova característica, que participa de certa forma das outras mas, em verdade, é algo novo. É como a mistura de azul com amarelo com a qual se obtém o verde. O verde é um salto qualitativo em relação às cores anteriores.

Na natureza, as coisas funcionam assim também. Entre o ovo e o pássaro, entre a mariposa e a larva, há uma diferença qualitativa, um salto. Essa qualidade é dada pela forma, que, conforme vimos nos estudos anteriores, é a quintessência das qualidades de uma coisa ou de um ser, a marca de sua essência imutável.

No mundo individual ao qual nossos sentidos têm acesso, as coisas são compostas por forma (que, em essência, não é individual, mas um arquétipo) e matéria (física ou psíquica). A forma é, em outras palavras, uma unidade cognoscitiva e, como tal, está contida primordialmente na unidade mais ampla do Espírito.

Ora, com respeito aos indivíduos, a espécie (species) é um arquétipo, isto é, não é uma mera abrangência de um grupo mas uma unidade lógica ou ontológica, uma forma existencial indivisível. Por tanto, a espécie não pode "evoluir", ou seja, não pode passar gradualmente a outra espécie. Embora a espécie possua subespécies, estas ainda representam reflexos da mesma forma essencial, do mesmo arquétipo.

Pois é precisamente a confusão entre espécie e subespécie a base de toda a teoria evolucionista. Para a teoria evolucionista, uma variante de um pássaro é entendida como uma nova espécie. Ora, mesmo que eliminássemos as fronteiras entre uma espécie e outra, ainda assim estariam separadas entre si por diferenças abismais. Pois nem sequer existem formas que indiquem uma possível conexão entre as diversas ordens de seres vivos, como peixes, pássaros, répteis e mamíferos. Na verdade, pela própria lei da seleção natural, os "projetos" de uma nova espécie deveriam ser muito mais numerosos do que os antepassados.

É verdade que a paleontologia demonstra uma ordem ascendente de manifestações animais. Mas isso se explica pelo fato de que, no plano material, o que é relativamente informe e inarticulado precede sempre ao mais complexo, já que toda "matéria" é como um espelho que reflete, invertendo-a, a atividade dos arquétipos. Enquanto a essência dos arquétipos contém possibilidades riquíssimas por ser indivisível, no plano material as formas simples iniciais são pobres e as mais ricas estão subdivididas; assim, a semente existe antes do que a árvore e o botão existe antes do que a flor. O que é válido para o ser físico singular vale também, em conjunto, para o mundo animal e vegetal. Em suma, é como se o arquétipo dos arquétipos animais manifestasse no conjunto dos animais: assim como o embrião preceder o homem está para o arquétipo Homem, os animais mais simples precederem os mais complexos está para o arquétipo dos animais. Mas isso, em hipótese alguma, dá margem para uma "evolução de arquétipos". Não só não há elos perdidos como há espécies que imitam outras sem nunca deixar de ser o que foram (por exemplo, a baleia).

Todo arquétipo é um espelho que reflete a todos os demais arquétipos que, por sua vez, o refletem. O arquétipo Mamífero reflete todos os arquétipos abaixo dele (por exemplo, Cão, Gato, Baleia) que, por sua vez, refletem o arquétipo Mamífero. O fato de que os tipos cósmicos estejam compreendidos uns nos outros remete, em última instância, à unidade do Ser.

Em última instância, a tese evolucionista é uma tentativa dirigida não tanto a negar completamente o "milagre da criação", mas a isolá-lo. Em suma, o evolucionismo e todas suas contradições intrínsecas resultam da incapacidade própria da ciência moderna de conceber dimensões da realidade que não sejam encadeamentos puramente físicos. Logicamente, a origem das espécies só se aplica a partir da gradual emanação das realidades, conforme vimos acima.

Para melhor entender a descendência vertical das espécies, é preciso saber que a matéria que compõe este mundo físico nem sempre teve o mesmo grau de dureza cósmica. É como se a realidade física se "endurecesse", ou seja, se tornasse cada vez menos plasmável. Isso significa que, no plano da existência superior ao estado físico, os diversos tipos de animais estavam presentes como formas não-físicas no mundo sutil. Dali descenderam à existência física enquanto esta estivesse disposta a recebê-los.

IV - Psicologia Moderna

Burckhardt inicia sua análise da psicologia moderna face à sabedoria tradicional lembrando de um dilema já conhecido por Jung: todo julgamento feito pelo psicólogo tem de ser subjetivo pois a psique do próprio psicólogo é subjetiva. Ou, em outras palavras, a psique é o objeto da psicologia e ao mesmo tempo é o sujeito da psicologia.

No entanto, há algo em nós que escapa a essa limitação subjetiva, conseguindo percebê-la desde acima. Este algo não é outra coisa senão o espírito, o que os latinos chamavam de intellectus. Mas atenção: não confunda intelecto com razão; a razão reflete mentalmente o espírito mas é limitada ao setor ao qual está sendo aplicada. Como o homem moderno só admite dados empíricos então a razão fica limitada e esse setor. Portanto, não é de espantar que o homem moderno considere os fenômenos psíquicos como "irracionais".

Enquanto os fenômenos corpóreos podem ser observados com objetividade por um clínico, os fenômenos psíquicos não podem ser observados com a mesma objetividade por um psicólogo. Isso acontece porque o psicólogo tem de incluir o seu "eu" na experiência. É o dilema da alma tentando captar a alma. Eis aí um dos erros mais primários cometidos pela psicologia moderna: supor que o psicólogo pode se "distanciar" das experiências relatadas pelo paciente.

O psicólogo precisa de algo "acima" das experiências, de algo que o ajude a transcender o plano dos fenômenos: em suma, uma metafísica. A inteligência tem de ser algo que ultrapasse a psique.

Há dois critérios que situam a psique em seu contexto cósmico adequado: (1) a cosmologia e (2) a moral, devidamente enfocada por uma meta espiritual. A razão de ser desses critérios pode ser explicada mais ou menos assim: um rio, para mostrar o seu vigor, precisa de um obstáculo no meio do caminho, como uma rocha, um pedaço de madeira fincado no fundo do rio ou mesmo uma curva. O rio é o fluxo constante da psique, enquanto o obstáculo é o princípio imutável que mostrará à psique suas inclinações e tendências.

  • Cosmologia = dimensão impessoal e teórica da psicologia tradicional.
  • Moral = dimensão pessoal e prática da psicologia tradicional.

Ambas, juntas, dão uma visão desde acima da própria psique: é o autoconhecimento. Para a psicanálise, a moral não passa de costumes sociais que podem, algumas vezes, ser úteis mas que, geralmente, impedem o desenvolvimento normal da psique. O psicanalista torna-se então o novo sacerdote que, ao conseguir extrair os complexos reprimidos do paciente, lhe dá a absolvição dos pecados. O paciente, ao invés de distanciar de suas tendências, acaba assumindo-os como se esse fosse seu legítimo "eu".

O verdadeiro sacerdote, por outro lado, é o vigário da Verdade. O arrependimento cria uma distância entre o fiel e suas tendências caóticas e tenebrosas, possibilitando-lhe que as objetive e que restabeleça o equilíbrio com Deus. Isso acontece porque o sacerdote expressa e dá testemunho de uma presença superior.

Eis por que as doutrinas tradicionais da salvação são tão diferentes da "salvação" psicoterápica: aquelas sabem que a psique não pode curar a si mesmo. As tradições sabem que a "cura" pode vir de duas fontes: (1) do corpo, ao reequilibrar a dosagem de certas substâncias, ou (2) do espírito.

Quando a psicologia moderna atribui a um rito alguma efetividade, o remete a certas disposições psíquicas de origem ancestral. O psicólogo moderno jamais se questiona se há um sentido atemporal e sobre-humano nos ritos ou nos símbolos, como se a alma pudesse curar-se crendo na projeção ilusória de suas próprias preocupações.

Para entender um pouco melhor essas explicações, Burckhardt explica os diversos "mundos" lançando mão de uma comparação geométrica. Imagine círculos concêntricos. O círculo central representa o mundo corpóreo. Os círculos intermediários representam os diversos graus do mundo psíquico (também chamado de mundo sutil). O círculo mais externo representa o Espírito puro. Observe que os círculos mais externos contêm os círculos mais internos. Observe também que o círculo de menor abrangência é o interno, isto é, o mundo corpóreo.

Evidentemente, não é a alma individual que engloba o mundo físico; é o estado sutil inteiro que o engloba. Por um lado, a consciência subjetiva -- que é o objeto da psicologia -- acaba separando a alma de seu contexto cósmico, fazendo-a parecer isolada do mundo exterior e de sua ordem universalmente válida. Por outro lado, a mesma consciência subjetiva se serve de suas próprias faculdades congnoscitivas na confiança de que elas correspondam à ordem cósmica total. Há aí como que um processo de diferenciação e integração: a consciência individual "se separa" do mundo ao mesmo tempo que confia que ela pertença a uma ordem cósmica comum a todas as consciências individuais. É mais ou menos como se, ao mesmo tempo que sabemos que nossa alma é nossa alma, soubéssemos também que ela está imersa num mundo sutil comum a todas as almas. É o peixe que, embora sendo o peixe individual que é, também está imerso num oceano ("mundo") comum a todos os peixes e que, de certa forma, tal oceano afeta todos os peixes.

Por exemplo, a consciência de alguém que dorme e está sonhando é permeável aos influxos que atuam sobre ela advindos de diversas regiões do mundo sutil, como demonstram as premonições ou telepatias. Os sonhos podem ser feitos de recordações ou de "pegadas" de transfusão psíquica de um indivíduo a outro, embora tais casos sejam raros. Também podem ser introjetados por um Anjo, algo que fica patente naqueles sonhos que permanecem mesmo após acordarmos. Há também os sonhos infernais, que são introduzidos por uma "porta aberta" deixada pelo indivíduo. Essa "porta aberta" é normalmente alguma paixão. Esse tipo de sonho costuma pretensiosamente mesclar Deus com o "eu" pessoal, um orgulho tipicamente diabólico.

Entendemos ainda melhor essa diferenciação e integração das consciências quando nos damos conta que é o plano essencial (eidos) que as une e que é o plano material (hylé) que as diferencia. A dimensão essencial, no simbolismo da cruz, é representado pelo eixo vertical que une as consciências para além da forma que têm, enquanto o eixo horizontal é o plano sutil/psíquico que dá a cada consciência sua forma diferenciada mas, ao mesmo tempo, também as une, num certo sentido, no plano psíquico em que todas se encontram. Pode parecer estranho, à primeira vista, falar de "matéria" para a psique. No entanto, a psique ainda não é espírito puro e, portanto, possui suas determinações características, mesmo não possuindo um corpo físico próprio.

As dimensões vertical e horizontal de qualquer fenômeno psíquicos são essenciais para entendê-los. Isso é ainda mais válido para os fenômenos psíquicos, que são altamente complexos e podem ser um entrelaçamento de várias respostas: impressões sensoriais, manifestações de desejos, conseqüências de ações transcorridas, traços de disposições típicas ou hereditárias do indivíduo, expressões de seu gênio, reflexos de realidades supraindividuais etc.

Os eixos da cruz ajudam a entender que os arquétipos, segundo a utilização tradicional (platônica) do termo, são as fontes do ser e do conhecimento, e não, como pretende Jung, disposições inconscientes da ação e da imaginação. Similarmente, os instintos não são apenas uma série de reflexos automáticos da inteligência mas, na verdade, são determinações primordiais e qualitativas da própria espécie. Jung negava esta realidade, explicando os instintos a partir de "resquícios" meramente evolucionistas dos homens primordiais.

Retirando a psique de seu eixo vertical e considerando o homem apenas como um ser evoluído, não é à toa que Jung atribuía à psicanálise um caráter iniciático, como nas tradições esotéricas. Os Pais da Igreja, que não duvidaram em designar o batismo e a confirmação como ritos iniciáticos, não mais faziam do que uma "análise do inconsciente".

É verdade que Jung rompeu certos moldes puramente materialistas da ciência moderna, mas não nos resulta de nenhuma utilidade, dado que os influxos que se infiltram através dessa brecha procedem de setores psíquicos sinistros, e não do Espírito.

17 de novembro de 2005

Algumas perguntas relevantes

Mortimer J. Adler ensina em seu How to Read a Book que uma das melhores maneiras de apreender o conteúdo de um livro bem como testar se o entendimento deles extraído está correto é formular perguntas e procurar respondê-las com suas próprias palavras. No caso da leitura sintópica -- aquela que envolve mais de um livro -- as perguntas e temas devem ser amplos o suficiente para abordá-los todos. Porcurei então fazer isso com as perguntas e respostas a seguir.

Outros livros a respeito de Filosofia Perene serão estudados, seguindo o roteiro aqui sugerido, e portanto novas perguntas serão formuladas e respondidas.

* * *

1) O que é o homem moderno? Como ele se diferencia do homem tradicional?

Homem moderno é aquele que reúne as características típicas do homem surgido a partir da Renascença, isto é, após a Idade Média. Em suma, o homem moderno:
  • É centrado na ação, isto é, despreza as causas que estão por trás dos fenômenos visíveis. Por exemplo, o homem moderno conhece muitas doenças, mas é incapaz de detectar o significado delas e sua relação com o paciente. Alguém que sofre de esclerose múltipla pode ser tratado com drogas, mas a causa da doença pode estar na psique ou no espírito ( pneuma), não necessariamente numa disfunção corporal. O homem moderno também sabe construir edifícios com robustez e grande velocidade, mas é incapaz de imprimir ao ambiente a arquitetura adequada para o viver e o lazer segundo as necessidades e objetivos do edifício. O homem tradicional, por sua vez, é centrado na contemplação, isto é, na observação meditativa que lhe pode fornecer a síntese necessária entre o mundo físico e o metafísico (supra-sensível).
  • É centrado em si, isto é, é individualista. Isso quer dizer que o homem moderno não admite princípios que estejam acima de si mesmo. A negação desses princípios leva, senão explicitamente, pelo menos à negação implícita de autoridades espirituais e intelectuais.
  • É materialista, isto é, nega a importância ou mesmo a existência de um mundo além.
  • É racionalista, isto é, nega a eficácia ou mesmo a existência de uma intuição intelectual capaz de lidar com o mundo imaterial , reservando à razão humana o título de função máxima do homem.

2) Como a modernidade influencia a ciência? Cite exemplos.

A ciência, segundo a clássica definição de Aristóteles, é o conhecimento das coisas pelas causas. Ora, a ciência pode, grosso modo, ser divida em ciência primeira e ciência segunda. A ciência segunda é a Física, isto é, o estudo da natureza, do mundo sensível, do mundo material. A ciência primeira é a Metafísica, isto é, o estudo do mundo supra-sensível, intuitivo, imaterial. Se, como vimos acima, o homem moderno nega ou despreza o mundo supra-sensível, então sua ciência é manca, ou seja, restrita às observações e pesquisas mundanas, materiais, físicas.

Por exemplo, o astrônomo moderno conhece os diversos astros, suas trajetórias, compoosições físico-químicas etc. Mas o astrólogo tradicional, embora não tivesse à sua disposição os instrumentos e laboratórios atuais, conhece algo mais: a influência que os astros podem imprimir na psique a na sociedade humana.

3) Por que democracia e igualdade são conceitos tipicamente modernos?

Uma vez que o homem moderno nega autoridades espirituais superiores a si mesmo, então não há diferença entre as naturezas dos homens, ou seja, todos os homens são naturalmente iguais entre si. O homem tradicional, pelo contrário, sabe que há castas ou arquétipos distintos entre os homens.

Já que não há tais diferenças essenciais entre os homens, então elas reduzem-se a diferenças meramente substanciais. Daí conclui-se que o poder, se não vem daquele que é maior em termos qualitativos, virá daquele que é maior em termos quantitativos, isto é, da maioria dos homens. Eis o conceito de democracia: o poder baseado na opinião da maioria, ao contrário da aristocracia, que é o poder baseado numa elite inclinada e inspirada para o comando político-militar.

4) Explique o que é "forma" e "matéria", citando exemplos.

Forma e matéria são os princípios que explicam o devir (mudança, movimento). A matéria não é nem isto nem aquilo mas apenas pode ser isto ou aquilo. A forma é a coisa determinada, real.

Por exemplo, a matéria de uma casa é a madeira, enquanto sua forma é a idéia de casa. Embora ainda sejam necessários dois outros princípios para explicar o devir -- a causa motriz (o arquiteto) e a causa final (habitação) --, esses dois princípios podem ser reduzidos à forma (a idéia da casa está no arquiteto e a habitação é a forma final a que tende a casa).

No entanto, cabe aqui uma explicação importante quanto ao conceito moderno de matéria. Para o homem moderno, matéria é a composição sólida/líquida/gasosa de algo. Embora tal definição não esteja totalmente incorreta -- Aristóteles também a utilizava assim -- ela é parcial. Conforme disse acima, matéria é um princípio, ou seja, é algo que está por trás das manifestações visíveis. Tal princípio é universal, ou seja, é potencialidade pura (pode ser qualquer coisa). A substância às quais nossos olhos enxergam é também substância, mas não universal como a matéria mas relativa. A diferença entre a substância universal (matéria primeira ou materia prima) e a substância relativa (matéria segunda ou materia secunda) é que esta é caracterizada pela quantidade, enquanto aquela não pois é apenas um princípio. É por isso que Santo Tomás de Aquino chamava a matéria segunda de materia signata quantitate.

5) Qual a diferença entre quantidade e qualidade?

A diferença é que a qualidade refere-se à forma enquanto a quantidade refere-se à matéria (no sentido moderno do termo, isto é, relativo).

6) Por que a modernidade está ligada à quantidade?

Porque a modernidade nega o princípio essencial das manifestações. Por exemplo, uma doença mental pode ser estudada a partir da falta (ou excesso) de certas enzimas ou hormônios produzidos pelo corpo. No entanto, tal estudo estaria reduzindo a mente ao espaço, ignorando o fato de que a mente é algo que se desenvolve exclusivamente no tempo. Isto quer dizer que o tratamento de doenças mentais via administração de drogas cuida apenas das relações corporais que a mente exerce, e não da doença propriamente dita, que é mental.

7) Relacione materialismo com individualismo.

A matéria é o princípio que separa, que distingüe os seres, mesmo sendo da mesma espécie.

8) Relacione uniformidade com individualismo.

À medida que os homens se afastam do princípio essencial das manifestações, eles se afastam daquilo que é capaz de unir e explicar os fenômenos. Por exemplo, um homem intempestivo pode ser entendido a partir da casta e da raça a que pertence, mas para isso é necessário admitir que há arquétipos fora e acima dos homens particulares e relativos.

Reduzidos a seus aspectos quantitativos (materiais), os homens não diferem qualitativamente entre si, dando fruto assim a graus cada vez maiores de uniformidade. Não é à toa que a ciência moderna, restrita aos aspectos quantitativos das coisas, seja utilizada exclusivamente na produção em massa (industrialização), engendrando assim uma uniformização até mesmo do aspecto externo do mundo.

9 de novembro de 2005

Émile Boutroux

Segue um antigo estudo que fiz do excelente livrinho introdutório de Émile Boutroux sobre Aristóteles. Este livro foi o primeiro da coleção Biblioteca de Filosofia, editada por Olavo de Carvalho e publicada pela Editora Record.

* * *

Título: Aristóteles
Autor: Émile Boutroux
Editora: Record
Título original: Aristote (francês)
Tradutor: Carlos Nougué
Revisão e notas: Olavo de Carvalho
Ano de publicação da edição original: 1925
Ano de publicação da edição brasileira: 2000


Lógica

“É uma análise racional das condições a que deve satisfazer um raciocínio para que sua conclusão seja concebida como necessária.”

Instrumentos do pensamento

1) Noções

  • Categoremas: noções universais: gênero, espécie, diferença, próprio, acidente.
  • Categorias: gêneros irredutíveis das palavras, os gêneros supremos: essência (1ª classe), quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, situação, maneira de ser, ação, paixão (2ª classe).
  • Relações lógicas: a) identidade, b) oposição: contrariedade, contradição, relação privação-posse.

2) Proposições: reunião dos conceitos

  • Conceitos isolados não são verdadeiros nem falsos.
  • Só as proposições comportam verdade e erro.

3) Raciocínio: consiste essencialmente no silogismo.

  • Colocadas certas coisas, alguma outra resulta necessariamente.
  • Silogismo mais importante é a indução (particular-> geral).

A ciência e os instrumentos do pensamento

  • Ciência: conhecimento das coisas pelas causas, isto é, das coisas enquanto necessárias.
  • Este conhecimento é realizado quando conseguimos ligar a coisa à sua causa.
  • Há três tipos de ligações:
  1. Conjunções que sempre se realizam (ciência perfeita).
  2. Conjunções que geralmente se realizam (ciência imperfeita, limitada à possibilidade).
  3. Conjunções que pouco ou nunca se realizam (fora da ciência).
  • Se obtém ciência pela demonstração.

  • Apodíctica: ciência da demonstração.
  • Demonstração faz-se por silogismo direto do primeiro tipo de ligação.
  • Há três elementos na demonstração:
  1. O sujeito.
  2. O atributo, que se liga ao sujeito por um liame de necessidade.
  3. Princípios gerais sobre os quais se funda a demonstração.
  • Estes princípios gerais são indemonstráveis; caso contrário, teríamos progressão ao infinito ou círculo vicioso.
  • Portanto, cada ciência tem seus princípios.
  • De onde vêm os princípios?
  1. Não são inatos.
  2. Não são recebidos de fora.
  3. Há em nós uma disposição para concebê-los.
  4. Por efeito da experiência, essa disposição passa ao ato.
  5. Pois isto é a indução (particular-> geral), pela qual conhecemos os primeiros princípios próprios a cada ciência.
  • Demonstração supõe definição.
  • Similarmente, é necessário que haja definições indemonstráveis.
  • A definição faz-se pela indicação do gênero próximo e das diferenças específicas. [Humanos são animais racionais. Animal=gênero (sobrenome). Racional=diferença específica (nome)] (Kelley, The Art of Reasoning).
  • Resumo: uma coisa é necessária quando é ligada a uma essência específica.

  • Dialética: é a lógica do provável; está abaixo da apodíctica.
  • Parte de opiniões, e não de definições necessárias em si.
  • O dialético raciocina silogisticamente, mas partindo do verossímil.
  • Verossímil: essência apenas genérica, ainda não determinada pela diferença específica.

  • Retórica: busca tornar o verossímil persuasivo.
  • A dialética está para a lógica assim como a retórica está para a moral.
  • Modo de raciocínio da retórica é o entimema.
  • Entimema é o silogismo no qual uma das três proposições é subentendida.

  • Erística: prende-se aos acidentes.
  • Portanto, raciocínio erístico é puro sofisma.



Metafísica

Ampliação da noção de ciência

  • Nem toda ciência lida com o geral.
  • A ciência tem dois modos, dois graus.
  • Há a ciência em potência e a ciência em ato.
  • Ciência em ato: tem por objeto o ser perfeitamente determinado, o indivíduo.
  • Eis aí a idéia-mestra do aristotelismo: o geral não é o princípio constitutivo do ser; o individual não se reduz ao geral; [ciência lida com o geral, mas deve haver uma que lida com o indivíduo].
  • Por exemplo: toda a ciência do geral não chegaria a construir a individualidade de Sócrates.
  • O conhecimento dos indivíduos obtém-se por uma intuição.
  • Assim, a especulação abstrata será impotente para nos fazer conhecer a natureza.

Os princípios do ser

  • O ser está submetido ao devir [A significação do termo devir não é unívoca. [...] Às vezes se chama “mudança” ou “movimento”] J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia.
  • Se o devir existe então há princípios não engendrados [não originados, não gerados, não produzidos, Dicionário Aurélio] que o explicam.
  • Tais princípios são quatro:
  1. Uma matéria ou substrato, teatro da mudança, teatro da substituição de uma maneira de ser por outra.
  2. Uma forma.
  3. Uma causa motrriz.
  4. Um objetivo.
  • Por exemplo, os princípios de uma casa:
  1. Matéria = madeira.
  2. Forma = idéia da casa.
  3. Causa motriz = arquiteto.
  4. Objetivo = habitação.
  • Esses princípios reduzem-se em dois:
  1. Matéria = madeira.
  2. Forma = idéia da casa.
  3. Causa motriz = arquiteto = forma num sujeito já realizado. [O arquiteto tem a idéia da casa em mente. Portanto, a causa motriz é a própria idéia da casa (forma) num sujeito].
  4. Objetivo = habitação = forma a que a casa tende.
  • Eis, portanto, os dois princípios necessários, suficientes e não engendrados que explicam o devir:
  1. Matéria (não é nem isto, nem aquilo: pode tornar-se isto ou aquilo).
  2. Forma (o que faz da matéria uma coisa determinada e real; é a alma da coisa; não confundir forma com figura, como a mão de uma estátua, que é apenas a figura de uma mão, e não a forma de uma mão).
  • Aristóteles aproxima os dois princípios, remetendo-os à potência e ao ato:
  1. Matéria é potência, capaz de dois contrários: ser e não-ser. A matéria tem uma disposição para receber a forma, deseja-o.
  2. Forma é ato, é o acabamento natural da matéria.
  • Resumo: o devir deriva do ser-em-potência, intermediário entre o ser e o não-ser.

O ser e a imperfeição

  • Pois é desse ser-em-potência (isto é, da matéria) que origina-se tudo o que é indeterminado e imperfeito porque...
  • A matéria, em certo sentido, resiste à forma.
  • Eis por que as criações da natureza são sempre imperfeitas.
  • Eis por que produzem-se muitas coisas desprovidas de objetivo, dado que nascem pela exclusiva ação de forças mecânicas.
  • Eis por que a matéria é o princípio da contingência dos futuros, pois da matéria origina-se o acaso.
  • O acaso é necessário apenas mecanicamente, mas não por finalidade.
  • Ou seja, o evento fortuito, do ponto de vista da finalidade, é indeterminável e incognoscível.
  • Resumo: a matéria é a causa da imperfeição dos seres, e do mal.

Deus e o devir

  • Explicar o ser atendo-nos a seus elementos próximos não basta.
  • O ser, que está submetido ao devir, só pode ser explicado com base num ser eterno.
  • Existência de Deus se prova:
  1. Popularmente: pela perfeição gradual dos seres e pela finalidade que reina na natureza.
  2. Cientificamente: pela análise das condições do movimento; é o que chamamos de argumento do primeiro motor.
  • Movimento é a relação da matéria com a forma, é mudança.
  • O movimento do mundo é eterno.
  • Portanto, o tempo é necessariamente eterno, pois sem movimento não há tempo.
  • Movimento implica em móvel e motor.
  • Exemplo: o carro é o móvel e seu motor o motor.
  • O mundo, móvel eterno, implica num motor imóvel.
  • Este motor imóvel é o que chamamos Deus.
  • Em suma, há dois princípios que fundam a demonstração da existência de Deus:
  1. O ato é anterior à potência [Apenas com base no atual se pode entender o potencial, J. Ferrater Mora]; Deus é portanto ato puro.
  2. O condicionado (dependente) supõe o incondicionado (independente).

Que é Deus?

  • Deus desempenha o papel de primeiro motor.
  • Deus é ato puro.
  • Deus é isento de indeterminação.
  • Deus é isento de imperfeição.
  • Deus é isento de mudança.
  • Deus é imóvel.
  • Deus é imutável.
  • Deus é o pensamento que tem por objeto tão-somente o pensamento.
  • Deus é vida eterna.
  • Deus excelente.
  • Deus é soberanamente feliz.
  • Deus pensa, movendo o mundo sem mover a si mesmo.

Física Geral

Princípio e objeto de estudo

  • [A Metafísica ocupa-se das causas primeiras. A Física ocupa-se das causas segundas, que operam na natureza] J. Ferrater Mora.
  • A Metafísica tem por objeto o ser imóvel e incorpóreo, Deus (às vezes, Aristóteles mesmo chamava esta ciência de “filosofia teológica”) .
  • A Física tem por objeto o ser móvel e corporal.
  • O princípio fundamental da Física é que Deus e a natureza não fazem nada em vão, que a natureza tende sempre ao melhor e ao mais belo [princípio do melhor].

Deus e a natureza

  • Mas é Deus necessário nesta ordem e harmonia? Não seria a harmonia da natureza fruto do acaso? Não, responde Aristóteles, porque o acaso só é feliz como exceção, e não por regra. E os monstros [corpos de conformação anômala, Aurélio]? Monstros existem porque a natureza se engana, pois ela é constituída de matéria
  • Não importa que não vemos Deus agindo, porque Deus age inteligentemente; é como a arte, também não vemos seu princípio agindo.
  • Ocorre que a natureza é uma causa, mas não é a única. A natureza tem de agir em cooperação com a matéria. E a matéria não se deixa submeter à natureza inteiramente.
  • Então, de um lado, o princípio do melhor é legítimo na explicação das coisas da natureza; este princípio representa a forma ou destinação das coisas.
  • Por outro lado, a natureza é sempre imperfeita em algum ponto, pois é ela constituída de matéria.
  • Portanto, a explicação teleológica (finalista) deve ser empregada para completar a explicação mecânica.

A natureza e o devir

  • O devir (movimento, mudança) é a actualização de um possível.
  • A mudança possui quatro espécies:
  1. Mudança substancial: do nascer ao perecer, do não-ser ao ser, e vice-versa.
  2. Mudança quantitativa: aumento ou diminuição.
  3. Mudança qualitativa: passagem de uma substância a outra.
  4. Mudança espacial: deslocamento.
  • Como é este último que condiciona os outros três, Aristóteles detém-se no estudo dele, analisando a natureza do lugar.
  • O lugar do corpo é o limite interior do corpo ambiente, ou seja, do corpo onde aquele está encerrado.
  • O tempo é o número do movimento.
  • O contínuo é a característica do tempo e do espaço. É divisível ao infinito.
  • Portanto, fora do mundo não há espaço nem tempo.
  • Todas as quatro mudanças estão condicionadas à mudança espacial, mas ela não é a única que explica as mudanças. A mudança qualitativa é irredutível ao espaço, isto é, tem algo a mais, que é a nova substância que se torna.
  • Eis por que Aristóteles põe como princípio a distinção qualitativa das substâncias

Matemáticas

  • As matemáticas lidam apenas com as relações de grandeza, a quantidade e o contínuo, fazendo abstração das outras qualidades físicas.
  • Tratam, assim, das coisas que são imóveis sem existir à parte, essências intermediárias entre o mundo e Deus.
  • O matemático isola, por abstração, a forma da matéria.

Cosmologia

[Teoria geral do mundo, ou do cosmo] J. Ferrater Mora

  • O mundo é belo e bom, tanto quanto o permite a resistência do elemento material.
  • O mundo tem uma forma perfeita: a forma esférica.
  • O mundo compõe-s de duas metades desiguais:
  1. O mundo supralunar ou celeste: onde estão grudadas as estrelas fixas.
  2. O mundo infralunar ou terrestre.
  • A matéria das estrelas é o éter, ou quinto elemento, que é incorruptível.
  • Os outros elementos são corruptíveis.
  • O céu dos planetas é feito de uma substância cada vez menos pura à medida que se afasta do céu das estrelas fixas.

Astronomia

  • Todos os seres celestes são esféricos.
  • O primeiro céu é uma esfera.
  • Os planetas são movidos pelas esferas; a terra é esférica [É como se o planeta fosse a “parte visível” da esfera, mas um ser animado, racional, superior ao homem] Edward.
  • Aristóteles admitia 33 esferas, porém teve de acrescentar 22 esferas (as chamadas esferas antagonistas) para que as esferas dos astros exteriores não interferissem nas esferas dos astros interiores.
  • Total = 55 esferas.

Meteorologia

  • Os fenômenos meteorológicos resultam da ação mútua de quatro elementos.
  • Como esses quatro elementos são corruptíveis, Aristóteles busca para os meteoros explicações empíricas e mecânicas.
  • P.ex.: ventos são movimentos de vapores resultante de diferenças de temperatura.

Biologia

  • A alma é a forma do corpo, isto é, o corpo é o instrumento da alma.
  • A alma vence o corpo pouco a pouco pois, como vimos, a matéria tende a resistir à forma.
  • Este triunfo da alma dá origem a três graus na vida psíquica:
  1. Nutritividade: comum a todos os seres vivos; dela procede a vida e a morte.
  2. Sensibilidade: comum aos animais e ao homem.
  3. Inteligência: exclusiva do homem.

Anatomia e Fisiologia Animais

Anatomia: estrutura dos órgãos
Fisiologia: função dos órgãos
[Aurélio]

Anatomia e Fisiologia Gerais

  • As partes do organismo se dividem em duas espécies:
  1. Homogêneo: veias, ossos, unhas, pêlos, chifres, gordura, sebo, sangue, medula, leite, membranas.
  2. Heterogêneo:coração, diafragma, órgãos dos sentidos, órgãos do movimento, encéfalo.
  • Os sentidos consistem em “ser movido”, “sofrer alterações”, e se dividem em duas espécies:
  1. Sentidos mediatos: atuam por meio do ar: visão, audição e olfato.
  2. Sentidos imediatos: atuam por contato: tato e paladar.
  • Quanto à hereditariedade, Aristóteles ensina que o novo ser (embrião) forma-se de substâncias diferentes dos próprios pais, isto é, da mistura do esperma com o mênstruo resulta o embrião.
  • Do homem nasce a alma e da mulher o corpo.

Anatomia e Fisiologia Comparadas

  • Aristóteles estudou as diferenças e semelhanças orgânicas.
  • Ele elaborou a lei de divisão do trabalho: a natureza, sempre que possível, emprega dois órgãos para duas funções diferentes.
  • Ele estudou também a fisiognomia, isto é, a relação do físico com o moral.

Zoologia

Ciência que trata dos animais [Aurélio]

  • Aristóteles procura classificar os animais basendo-se em suas semelhanças, distinguindo a essência do acidente:
  1. Animais que têm sangue (vertebrados):
    a) Vivíparos verdadeiros
    b) Ovovivíparos
    c) Ovíparos
  2. Animais que não têm sangue (invertebrados):
    a) Moluscos
    b) Crustáceos
    c) Testáceos
    d) Insetos

Psicologia

Ciência que estuda a psique (alma, espírito) e o comportamento. [Definição adaptada do Aurélio]

  • O que diferencia o homem dos outros animais é o núus.
  • Sensação: é a transmissão da forma do objeto ao sujeito: por causa dela, os animais são capazes de prazer e dor e, portanto, de desejos e paixões.
  • Imaginação: é a nova aparição da imagem, pois a sensação durou mais tempo que o limiar.
  • Memória: é a imagem reconhecida como percepção passada.
  • Núus é o conhecimento das causas primeiras; não tem nascimento, é eterno, nunca está passivo (em potência), mas sempre ativo (em ato); não tem órgão; é a inteligência.
  • Funções da alma animal (sensação, imaginação, prazer, dor, memória, desejos, paixões).
  • Núus pathéticos: inferior, passivo, mesclado com a alma animal.
  1. Função teórica: como tabula rasa, funcionando com imagens e influência do núus superior. É o núus superior que liberta da sensação o geral que está nela contido.
  2. Função prática: aplicação das idéias teóricas.
    a) pela produção
    b) pela ação
  • Núus theoréticos, apathos, absoluto, superior: superior; procede a priori, partindo das causas.
  • Vontade: combinação da inteligência (núus) com desejo (alma animal); no entanto, esse desejo pode ser engendrado pela razão (eis a vontade), e não necessariamente apenas pela sensação (isso seria apenas apetite); o desejo fornece fins a realizar, enquanto a inteligência fornece os meios.
  • Livre-arbítrio: é faculdade da autodeterminação, ou seja, justamente a capacidade de decidir entre a vontade (razão) e o apetite (sensação).

Filosofia prática

É a filosofia das coisas humanas. O homem não é um animal, ou seja, tem um fim que não se realiza imediata e necessariamente.

Divide-se em três partes:

1) Ética ou Moral: regra da vida individual
2) Econômica: regra da vida familiar
3) Política: regra da vida social

Moral

  • O bem para um ser vivo está para a plena realização da atividade que lhe é próprio assim como a felicidade para o homem está para a realização da atividade propriamente humana.
  • Felicidade é a constante atividade de nossas faculdades propriamente humanas, isto é, intelectuais; felicidade é a ação guiada pela razão.
  • A virtude é o elemento constitutivo da felicidade.
  • Virtude é um hábito caracterizado pela realização perfeita da parte superior da alma humana, das potências humanas.
  • Virtude é a forma da felicidade.
  • Saúde, beleza, fortuna, filhos, amigos são a matéria da felicidade.
  • A natureza humana é dupla: intelectual (que lida com o necessário) e moral (que lida com o contingente).
  • Há, portanto, dois tipos de virtudes correspondentes à duplicidade da natureza humana:
  1. Virtudes dianoéticas (intelectuais): são os hábitos perfeitos da parte inteligente da alma; são as mais elevadas; dependem de instrução, não da vontade; a ciência (ou contemplação) é a virtude que confere maior felicidade ao homem e é a que está mais próxima da divindade; o órgão da ciência é o núus. Há dois graus de inteligência: a) Inteligência científica, cujas virtudes são o núus (que conhece os primeiros princípios) e a ciência (que deduz desses princípios as verdades particulares); núus+ciência=sapiência. b) Inteligência logística, cujas virtudes são a arte (capacidade de produzir algo em vista de um fim) e o julgamento (inteligência prática).
  2. Virtudes éticas (morais): como as virtudes dianoéticas são muito raras, pois o homem está ligado ao corpo, resta-lhe as virtudes éticas; são hábitos da alma; tendem a escolher a justa medida para a natureza humana e determina o julgamento prático do homem inteligente; são muito numerosas; p.ex.: justiça e amizade.

Econômica

  • A família aumenta o grau de perfeição do indivíduo.
  • Relação entre homem e mulher:
    1) Homem tem autoridade sobre a mulher porque ele é mais perfeito.
    2) Mas a mulher é livre.
    3) Portanto, relação é de amizade e reciprocidade.
  • Relação entre pais e filhos:
    1) Criança não têm direito nenhum porque ela é parte do pai.
    2) Mas pai tem de velar pelo bem do filho.
    3) Portanto, pai deve comunicar sua perfeição ao filho, e o filho deve se apropriar dela.
  • Relação entre senhor e escravo:
    1) Escravidão é necessária e legítima porque escravo é um ser próprio só para trabalhos corporais.
    2) O senhor está para o intelectual assim como o escravo está para o corporal.
    3) O senhor está para a forma assim como o escravo está para a matéria.

Política

Aristóteles trata da política de duas entidades:

1) do Estado

  • Política é o aperfeiçoamento da econômica.
  • Política é a causa final das famílias.
  • Portanto, finalidade do Estado é a felicidade dos cidadãos, velando pelas virtudes e bens interiores, e só depois exteriores.
  • Propriedade e família são úteis ao Estado, pois ele é o todo e aquelas as partes.
  • Portanto, Estado deve regulamentá-las, não eliminá-las.
  • Estado deve educar os cidadãos, visando formar hábitos morais nas crianças, tendo em vista o bem da inteligência: gramática, ginástica, música e desenho; atividades mecânicas e utilitárias devem ser descartadas.

2) das Constituições

  • Para cumprir a finalidade do Estado, são necessários dois órgãos:
    i. Leis, que são a representação prática da razão.
    ii. Magistrado, para os casos precisos e específicos.
  • Há dois tipos de formas de governo:
  1. Formas justa de governo (um só governante = Realeza; muitos governantes = Aristocracia; a maioria governa = Poliarquia).
  2. Forma corrupta de governo (um só governante = Tirania; muitos governantes = Oligarquia; a maioria governa = Democracia).
  • A aristocracia é o melhor porque reúne ordem (somente os de boa situação cultural são cidadãos) e liberdade (muitos cidadãos podem governar).

Retórica

  • Retórica é a aplicação da dialética aos fins da política.
  • Essencial da retórica: os meios oratórios:
  1. Que se relacionam com o assunto:
    - Tem de fazer as afirmações aparecerem verdadeiras
    - Para isso, precisa de provas
    - Quanto às provas: os silogismos da dialética estão para as induções assim como os entimemas da retórica estão para os exemplos
  2. Que se relacionam com o orador:
    - Tem de fazer o orador aparecer dotado de inteligência, probidade e benevolência
    - Que se relacionam com o ouvinte
    - Tem de saber excitar e aplacar paixões
    - Estuda a idade e as disposições da platéia

Estética

Parte da filosofia que lida com a arte.

  • Caracteres essenciais do belo: simetria, coordenação, precisão.
  • Belo é geral, e não particular.
  • A essência da arte é a imitação, pois o homem está propenso a imitar, extraindo prazer disso.
  • Mas o homem imita o quê? A natureza, ou seja, principalmente a essência interna, ideal, das coisas naturais e, também, a aparência externa.
  • As artes produzem um efeito chamado catarse.
  • Catarse é a supressão de uma paixão que dominava e turbava a alma; é um tratamento homeopático.
  • Mas tem de ser uma excitação salutar, que se submete a uma medida e a uma lei.
  • As artes mais elevadas são a poesia e a música.

Poética

  • O que restou de Aristóteles foi praticamente só o estudo da tragédia.
  • Tragédia é a imitação de uma ação séria, completa.
  • Excita o terror e a piedade.
  • Ação deve apresentar não apenas aquilo que necessariamente teria acontecido, mas aquilo que poderia ter acontecido.

Gramática

  • As palavras fundam-se mais num acordo dos homens entre si do que na natureza
    - Portanto, a formação das palavras é mais arbitrária do que analógica.

25 de outubro de 2005

O Reino da Quantidade

Dando prosseguimento aos estudos de metafísica e filosofia perene, resumirei aqui os sete primeiros capítulos da obra-prima de René Guénon: El Reino de la Cantidad y los Signos de los Tiempos (1945). Mais tarde tratarei do restante.

Originalmente escrita em francês, dizem que há uma edição em língua portuguesa. Se há, é deveras difícil de encontrá-la.

PLANO GERAL

Grosso modo, Guénon retoma as idéias lançadas em A Crise do Mundo Moderno, adicionando-lhe conteúdo mais relevante, seja para lhe dar um aspecto mais doutrinal, seja porque diversos acontecimentos entre um livro e outro trouxeram novas luzes a respeito do mundo moderno e seu pensar. Em suma, Guénon pretende delinear as diferenças fundamentais entre a ciência tradicional e a ciência profana (moderna).

CAPÍTULO 1 - QUALIDADE E QUANTIDADE

Para começar, é necessário partirmos da primeira de todas as dualidades cósmicas: a da Parucha e Prakriti, segundo a doutrina hindu, ou da essência e substância. Essência e substância são, em suma, a mesma coisa que forma e matéria. Igualmente, o que chamamos de ato e potência é equivalente a essência e substância.

Diz-se então que a qualidade é o conteúdo da essência, e não está restrita exclusivamente ao nosso mundo, mas está suscetível a uma transposição que universaliza sua significação. Por exemplo: não estamos precisamente nos referindo à qualidade de Deus quando falamos de seus atributos, dado que seria manifestamente impossível atribuir-Lhe determinações quantitativas?

A quantidade, por outro lado, tende ao lado substancial da manifestação. Não seria correto, no entanto, afirmar que a quantidade tende ao lado material da manifestação porque a palavra materia não é aquilo que entendemos modernamente como matéria. Segundo os escolásticos, a matéria é a substância, ou seja, o princípio passivo da manifestação universal, a potencialidade pura (Pakriti). Eles a chamavam de materia prima.

CAPÍTULO 2 - MATERIA SIGNATA QUANTITATE

Como disse, a materia não deve ser identificada com a matéria dos modernos, mas sim com a hylé aristotélica, substância universal, potência pura. A palavra materia também pode ser usada em seu sentido relativo, ou seja, quando associada à eidos para designar as duas faces essencial e substancial das existências particulares.

Era esta a distinção que os escolásticos viam entre materia prima (substância universal) e materia secunda (substância em seu sentido relativo). A materia secunda nunca era potência pura. A substância universal é o único princípio que pode chamar-se propriamente de ininteligível, pois não há nada nela passível de ser conhecido. Portanto, não é do lado substancial que devemos buscar as explicações das coisas, mas do lado essencial.

No entanto, o homem moderno, ao mesmo tempo que atribui certas propriedades à matéria, também por vezes se refere à suposta inércia da matéria. Ora, a matéria não pode ser inerte porque apenas a materia prima é inerte. Ao confundir materia prima com materia secunda, o homem moderno acaba criando mistérios e paradoxos onde antes não havia. A materia secunda tem de conter alguma determinação porque senão confundiria-se com a materia prima. Daí que dizer que a matéria contém propriedade e é inerte é um paradoxo. Ou seja, a materia secunda não pode ser uma materia secunda qualquer. Eis que Santo Tomás chamava a materia secunda de materia signata quantitate (matéria caracterizada pela quantidade), ou seja, o que está nela inerente é a quantidade. A quantidade é uma das condições mesmas da existência do mundo sensível/corporal. A quantidade é a condição básica de nosso mundo, ou seja, aquilo que está no nível mais inferior.

CAPÍTULO 3 - MEDIDA E MANIFESTAÇÃO

A associação mais freqüente que se tem feito a respeito da origem da palavra materia é a que vincula à palavra mater. Trata-se de algo conveniente, uma vez que a matéria, efetivamente, é um princípio passivo, "feminino". Todavia, é também possível vincula-la à palavra metiri (medir). Ocorre que medição implica em determinação, e determinação é algo que não se aplica à materia prima, mas à materia secunda. Portanto, a noção de medida aplica-se à materia secunda.

A medida se refere principalmente ao domínio da quantidade contínua, ou seja, das coisas que possuem um caráter espacial, e não temporal, uma vez que o tempo não é passível de medição direta mas indireta, por meio do deslocamento (espaço). Ocorre que a quantidade contínua não pode ser quantidade pura porque não pode ser medida com exatidão. Isso acontece porque é o número a base de toda medida, mas as magnitudes contínuas não podem ser medidas com precisão pelos números. Há sempre um "arredondamento" a ser feito, por mais preciso que seja o instrumento de medida. Portanto, tomemos cuidado pois, na realidade, a quantidade não é o que se mede mas aquilo pelo qual as coisas são medidas.

A medida é portanto uma "atribuição", uma "determinação" necessariamente implícita em toda a manifestação, em qualquer ordem sob qualquer modo.

Se vê aqui que a idéia de medida está em íntima conexão com a idéia de "ordem", ou seja, àquilo que se refere à produção do universo manifestado. As tradições costumam referir-se a uma iluminação (o Fiat Lux do Gênesis) , dado que o caos é identificado simbolicamente com as trevas; o caos é a potencialidade a partir da qual se atualizará a manifestação.

A idéia de medida também implica em geometria. Claro, trata-se da geometria simbólica, iniciática, não a geometria matemática moderna. Foi Leibnitz que disse: dum Deus calculat et cogitationem exercet, fit mundus (enquanto Deus calcula e exerce seu pensamento, o mundo se faz).

CAPÍTULO 4 - QUANTIDADE ESPACIAL E ESPAÇO QUALIFICADO

Como vimos, a extensão não é pura mas simplesmente um modo da quantidade. Para que o espaço fosse puramente quantitativo, seria necessário que fosse inteiramente homogêneo, isto é, que suas partes não pudessem ser distinguidas entre si por nenhuma outra característica que não fosse suas respectivas magnitudes.

No fundo, dizer que um corpo não é mais que sua extensão, quantitativamente falando, quer dizer que sua superfíceis e seu volume são o próprio corpo, com todas as suas propriedades, o que é manifestamente absurdo.

Entre as determinações corporais que são incontestavelmente de ordem puramente espacial e que, por conseguinte, podem se considerar verdadeiramente como modificações da extensão, não há somente a magnitude dos corpos, mas também sua situação. Será essa situação algo também puramente quantitativo?

A resposta é não. Isso fica fácil de perceber, por exemplo, quando temos um triângulo e um quadrado de áreas iguais. É evidente que eles não são a mesma coisa, apesar de suas superfícies serem iguais! E mais: na teoria das figuras semelhantes, a similitude se define exclusivamente pela forma e é totalmente independente da magnitude das figuras, ou seja, é de ordem puramente qualitativa. Em essência, tais formas são conjuntos de tendências em direção.

Resumindo: a noção de direção é o verdadeiro elemento qualitativo do espaço, enquanto a noção de magnitude é o verdadeiro elemento quantitativo do espaço. Portanto, o espaço é o que poderíamos chamar de espaço qualificado.

CAPÍTULO 5 - AS DETERMINAÇÕES QUALITATIVAS DO TEMPO

O tempo está mais afastado da quantidade pura do que o espaço. Isso acontece porque enquanto o espaço pode ser medido, o tempo, pelo contrário, não pode ser medido senão reduzindo-o à dimensão espacial.

Os fenômenos corporais são os únicos que se situam tanto no espaço quanto no tempo; no entanto, os fenômenos de ordem mental não têm nenhum caráter espacial; pelo contrário, se desenvolvem no tempo. No entanto, há aqueles que tentam reduzir os fenômenos mentais à quantidade; o que os "psicofisiólogos" determinam quantitativamente não são, na realidade, os fenômenos mentais, mas apenas algumas de suas concomitâncias corporais. A idéia de uma psicologia quantitativa representa a maior aberração do cientificismo moderno.

A natureza essencial dos acontecimentos aparece como muito mais ligada ao tempo do que os corpos estão ligados ao espaço, o que serve de indício para deduzirmos que o tempo possui um caráter muito mais qualitativo do que quantitativo.

A verdade é que o tempo não é algo que se desenvolve uniformemente e, por conseguinte, sua representação geométrica por uma linha reta não passa de uma idéia excessivamente simplificada e, no fim das contas, falsa. A verdadeira representação do tempo é a dos ciclos. A representação cíclica estabelece precisamente uma correspondência entre as fases de um ciclo temporal e as direções do espaço.

Vejamos uma exposição mais ou menos completa da doutrina dos ciclos temporais:

1) Cada fase de um ciclo temporal tem sua qualidade própria, que influi sobre a determinação dos acontecimentos. Nas diferentes fases do ciclo, séries de acontecimentos comparáveis entre si não se cumprem em durações iguais. É precisamente por essa razão que os acontecimentos se desenvolvem hoje com uma velocidade sem par nas épocas anteriores, velocidade que se acelerará até o fim do ciclo.

2) A marcha do ciclo possui uma direção descendente, isto é, o processo de manifestação implica cronologicamente num afastamento gradual do princípio.

3) A manifestação se efetua desde o pólo positivo (ou essencial) da existência até o pólo negativo (ou substancial). Portanto, as coisas devem tomar um aspecto cada vez menos qualitaqtiva e cada vez mais quantitativo. Este último período é propriamente chamado de Reino da Quantidade.

CAPÍTULO 6 - O PRINCÍPIO DA INDIVIDUAÇÃO

Os escolásticos consideravam a materia como o principium individuationis. Ora, mas por que seria a matéria o princípio de individuação? Não seria melhor dizer que é a forma o aspecto da manifestação que realmente representa o princípio de individuação, já que os indivíduos são tais e quais conforme condicionados pela forma, e não pela matéria?

Na verdade, a questão do "princípio da individuação" se resume a isto: os indivíduos de uma mesma espécie participam de uma mesma natureza. Mas, mesmo assim, o que faz os indivíduos da mesma espécie serem distintos entre si? De que ordem é a determinação que se agrega à natureza específica para fazer dos indivíduos , dentro da mesma espécie, serem distintos? É a esta determinação que os escolásticos chamam de materia, isto é, a quantidade ou materia secunda de nosso mundo. Assim, materia ou quantidade aparece propriamente como um princípio de "separatividade". Além do mais, pode-se dizer que a quantidade é uma determinação que se agrega à espécie, dado que a espécie é exclusivamente qualitativa.

Chegamos agora à seguinte conclusão: nos indivíduos, a quantidade predominará tanto mais sobre a qualidade quanto mais eles estiverem reduzidos a não ser mais do que simples indivíduos. Isso quer dizer que quanto menos distinções qualitativas os indivíduos tiverem entre si, mais individuais (quantitativos) serão. A quantidade não pode fazer mais do que separar os indivíduos, e nunca uni-los.

CAPÍTULO 7 - A UNIFORMIDADE CONTRA A UNIDADE

Se considerarmos o conjunto deste domínio de manifestações que é nosso mundo, podemos dizer que, à medida que nos distanciamos da unidade principal, as existências tornam-se cada vez menos qualitativas e cada vez mais qualitativas.

Na quantidade pura, as "unidades" se distinguem entre si apenas numericamente. Aqui vislumbramos o chamado "princípio dos indiscerníveis", em virtude do qual não podem existir em nenhuma parte dois seres idênticos, isto é, semelhantes sob todos os aspectos.

A conclusão a que chegamos é que a uniformidade, para ser possível, teria de supor seres desprovidos de todas as qualidades e reduzidos a não mais que simples "unidades numéricas". Todos os esforços humanos modernos no sentido de realizar tal uniformidade não podem ter como resultado senão o despojo mais ou menos completo a todos os seres de suas qualidades próprias.

Embora seja impossível reduzir os seres à sua quantidade pura, a tentativa de fazê-lo os desproverá cada vez mais de suas qualidades distintas. Por exemplo, se a educação uniforme é incapaz de dar a alguns indivíduos qualidades que não têm, é ao contrário muito provável que asfixie em todos os outros as possibilidades que se destacam do nível comum; é assim que a "nivelação" opera sempre por baixo, nunca por cima. Mas o ocidental moderno não contenta em impor apenas essa educação; ele uniformiza também até o aspecto exterior das coisas, por meio da indústria.

Ora, dado o desejo moderno de constituir uma ciência completamente quantitativa, é inevitável que as aplicações práticas que daí derivem também conterão o mesmo caráter quantitativo.

16 de outubro de 2005

Estudos de Giovanni Reale

História da Filosofia
Giovanni Reale e Dario Antiseri, Volume 1, capítulos selecionados

Origem da Filosofia

A religião é um dos elementos mais importantes para explicar a gênese da filosofia grega. Em linhas gerais, é dividida em dois tipos:

  • Religião pública: Tudo é divino, isto é, tudo que ocorre pode ser explicado pelas intervenções divinas (Numes, Zeus, Posseindon, Apolo, Atena, Afrodite etc.). Esses deuses são homens idealizados e amplificados, distinguindo-se dos homens comuns apenas na quantidade, não na qualidade. Assim, essa religião pode ser classificada de naturalista porque pede ao homem que se atenha à sua natureza e não que se eleve acima dela.
  • Religião dos mistérios: Para círculos restritos, tinha suas próprias crenças e práticas, embora inseridas no contexto politeísta da religião pública. Os mistérios órficos (do poeta Orfeu) são os mais importantes porque introduziram um novo esquema de crenças: (a) no homem se hospeda um demônio (alma) que caiu em um corpo por causa de uma culpa original; (b) esse demônio não morre com o corpo, mas reencarna-se sucessivamente para expiar aquela culpa original; (c) a vida órfica é a única capaz de terminar o ciclo de reencarnações; e (d) para os iniciados nos mistérios órficos, há um prêmio no além. Não há naturalismo nesse esquema de crenças porque há um conflito entre alma (que deve ser purificada) e corpo (que possui tendências a serem reprimidas). O orfismo é essencial para se explicar Pitágoras, Heráclito, Empédocles e Platão, ou seja, a filosofia antiga.

A fundação da metafísica – Platão

Há um ponto fundamental da filosofia platônica que consiste na descoberta de uma realidade supra-sensível. Platão chamava de “primeira navegação” os cursos percorridos pela filosofia naturalista – aquela que se detém exclusivamente em causas mecânicas –, enquanto a “segunda navegação” consistia nas contribuições do próprio Platão. Platão e sua segunda navegação introduziram as noções de “material”, “imaterial”, “sensível”, “supra-sensível”, “empírico”, “metaempírico”, “físico”, “suprafísico” etc. Isso quer dizer que Platão admitia a idéia de que as causas das coisas físicos estão além do físico, isto é, metafísico.

Platão denominou essas causas de natureza não-física de Idéia (eidos), que significa “forma”. As Idéias platônicas são as essências das coisas, não se submetendo aos caprichos do sujeito mas, pelo contrário, se impõem ao sujeito de modo absoluto. O conjunto dessas Idéias é o Hiperurânio, o objeto próprio da verdadeira ciência.

Todavia, há alguns dilemas a respeito do Hiperurânio que precisavam ser resolvidos. Ora, como no Mundo das Idéias há Idéias para todas as coisas, concluímos que lá há muliplicidade. Então:

  • Como podem existir, no plano do supra-sensível, os seres “múltiplos”? Platão responde, no diálogo Parmênides, que, apesar de existir o Um (a unidade, a Idéia suprema, o princípio supremo), esse Um não existe sem os muitos assim como os muitos não existem sem o Um.
  • Como pode existir, no plano supra-sensível, o “não-ser”? Platão responde, no diálogo Sofista, que o não-ser existe enquanto “alteridade” ou “diversidade”, ou seja, uma Idéia para “ser” deve “não ser” todas as outras Idéias.

Platão concebia o Mundo das Idéias como um sistema hierarquicamente organizado, até a Idéia que ocupa o vértice da hierarquia. Tal é a Idéia do Bem que, na República, Platão chamava de Um, o princípio supremo. Ao Um se contrapunha um segundo princípio, a Díade (dualidade).

Desses dois princípios Platão explica a totalidade da Idéia. O Um age sobre a multiplicidade ilimitada (as inúmeras Idéias) como princípio que limita e determina, isto é, como princípio formal (ou seja, essa forma, que é inteligível e não sensível, determina e delimita a matéria, que neste caso também é inteligível e não sensível). A Díade funciona como princípio que ilimita e indetermina, isto é, como substrato (ou, poderíamos dizer, princípio material, embora aqui temos de levar em conta que estamos no plano do inteligível, e não do sensível). Eis por que o Um é o Bem: enquanto a Díade indetermina e ilimita, o Um traz ordem e perfeição a tal multiplicidade ilimitada, dando a cada Idéia sua essência.

A partir desses dois supremos princípios (Um e Díade), Platão menciona, hierarquia abaixo, cinco Idéias mais gerais: Ser, Repouso, Movimento, Identidade, Diversidade. E depois seguem outras: Igualdade, Desigualdade, Semelhança, Dessemelhança etc. Elas são gerais porque nelas não estão implícitas as idéias menos gerais. Por exemplo, na Idéia de Ser não está implícita, necessariamente, a Idéia de Homem mas, em contrapartida, a Idéia de Homem tem de, necessariamente, estar implícita a Idéia de Ser.

Segundo Platão, os entes matemáticos (números, figuras geométricas etc.) ocupam o lugar mais baixo, em termos hierárquicos, do Hiperurânio.

Mais metafísica – Aristóteles

Aristóteles forneceu quatro definições de metafísica, todas harmônicas entre si:

  • A metafísica indaga as causas e os princípios primeiros.
  • A metafísica indaga o ser enquanto ser.
  • A metafísica indaga a substância.
  • A metefísica indaga Deus e a substância supra-sensível.

Na primeira definição, o mestre grego indaga sobre as causas primeiras. Mas quais são essas causas? Segundo Aristóteles, as causas são quatro:

  • Causa formal. (Forma, eidos)
  • Causa material. (Matéria, hylé)
  • Causa eficiente.
  • Causa final.

Se o mundo fosse totalmente estático, então as duas primeiras causas (forma e matéria) seriam suficientes para explicar a realidade. No entanto, como vivemos num mundo dinâmico (em movimento), as outras duas causas fazem-se necessárias. Por exemplo, um homem é sua forma (alma) e sua matéria (corpo). Mas, como ele é dinâmico, ou seja, alguém o gerou (causa eficiente), possui desejos e vontades (causa final)etc., então matéria e forma não mais bastam.

A segunda definição nos fala de ser. Mas o ser, Aristóteles nos ensina, possui múltiplos significados:

  • O ser enquanto categorias. (Estudado pela metafísica).
  • O ser enquanto ato e potência. (Estudado pela metafísica).
  • O ser enquanto acidente. (Obviamente não há ciência que se preste a estuda-lo).
  • O ser enquanto verdadeiro. (Estudado pela lógica).

O ser enquanto categorias são as divisões (gêneros) do ser: substância, qualidade, quantidade, relação, ação, paixão, lugar, tempo, ter e jazer. O ser enquanto ato e potência se dá em todas as categorias: a planta de trigo é trigo em potência, enquanto a espiga já madura é trigo em ato. O ser enquanto acidente é o ser casual, fortuito. O ser enquanto verdadeiro é aquele ser pensado pela mente humana, que conjuga na mente as coisas que estão conjugadas na realidade ou separa na mente as coisas que estão separadas na realidade.

Na terceira definição, Aristóteles indaga a substância. Mas o que é a substância? Segundo o Estagirita, a substância é composta de matéria (hylé) mas a matéria em si não é a substância porque a matéria é potencialidade indeterminada, sendo tal indeterminação eliminada pela forma (eidos). A forma seria, portanto, substância a pleno título. Mas o sinolo (o nome que Aristóteles dá ao conjunto de forma e matéria) não seria, também, substância a pleno título? Afinal, o sinolo reúne tanto o princípio material quanto formal.

Em Categorias, Aristóteles diz que o sinolo é a substância primeira. Na Metafísica, o mesmo Aristóteles ensina que a forma é a substância primeira. Equívoco do Filósofo? Não necessariamente. Em resumo, interpreta-se tal aparente dualidade entendendo-se que para nós, enquanto indivíduos, o concreto (sinolo, matéria+forma) é a substância por excelência; em si e por natureza, a forma é que é a substância por excelência.

Na quarta definição, Aristóteles se refere a Deus e à substância supra-sensível. Ora, há duas substâncias que são incorruptíveis: o tempo e o movimento. O tempo não foi gerado nem se corromperá, sendo eterno, e o movimento, tendo sido determinado pelo movimento, também é eterno.

Mas como um movimento eterno é possível? Por meio de um Princípio que seja causa dele. Esse Princípio tem de ser também eterno (porque o movimento o é), imóvel (para que possa mover o móvel, isto é, causar o movimento) e ato puro (porque se fosse potência poderia ser movimento por uma causa anterior). Esse Primeiro Motor, ou Ato Puro, move o mundo não de maneira propulsiva (caso contrário seria móvel), mas atrativa, enquanto causa final. Deus, o Ato Puro, atrai o mundo sem se mover.

E mais metafísica – Plotino

Plotino inicia seu raciocínio afirmando que todo ente é tal em virtude de sua “unidade”. Ora, há princípios de unidade em diversos níveis, mas todos pressupõem um princípio supremo, denominado por Plotino de Uno, concebido como sendo infinito. Plotino descobre o infinito na dimensão do imaterial e o caracteriza como potência produtora ilimitada. Assim, Plotino caracteriza o Uno de maneira negativa, e reserva as características positivas à linguagem analógica.

O Uno é causa de todo o resto. Mas por que há o Absoluto e por que ele é o que é? Porque o Uno é atividade auto-produtora, absoluta liberdade criadora, causa de si mesmo, aquilo que existe em si e para si, o “transcendente a si mesmo”.

Por que e como as outras coisas derivam do Uno? O Uno produz todas as coisas permanecendo firme, gerando aquilo que é inferior por não lhe servir. Assim é, por exemplo, no fogo: a) por um lado, há o calor concernente à sua essência; (b) por outro lado, há o calor que nasce derivado dessa essência. Assim, existe a) uma atividade do Uno, e existe b) uma atividade que deriva do Uno.

[J. Ferrater Mora: HIPÓSTASE. [...] Assim, “hipóstase” pode ser entendida como “verdadeira realidade”, “verdadeira ousía”. Diante das aparências, há realidades que se supõe existirem verdadeiramente, “por hipóstase”. [...] Plotino, por exemplo, chamava de “hipóstases” as três substâncias inteligíveis: o Uno, ou o “primeiro Deus”, dá origem, por contemplação, à segunda hipóstase, a Inteligência, e esta dá origem à terceira hipóstase ou Alma do mundo. ‘Gerar’ significa aqui, é claro, ‘emanar’. Os próprios princípios não se “movem”: como diz Plotino, “permanecem imóveis gerando hipóstases”. Cada uma das hipóstases ilumina a hipóstase inferior; por isso Plotino compara cada uma das três hipóstases com um tipo de luz: o Uno é comparável à própria “Luz”; a Inteligência, ao Sol; a Alma do mundo, à Lua.]

Da primeira hipóstase deriva a segunda, chamada de Nous ou Intelecto. Reale prefere chamar de Espírito. Como nasce o Espírito? A atividade que procede do Uno é como que uma potência informe (algo como “matéria inteligível”) que, para subsistir, deve a) voltar-se para a “contemplação” do princípio do qual derivou e fecundar-se ou preencher-se dele, e depois, b) deve voltar-se para si mesma e contemplar-se, plena e fecunda. Enquanto o Uno era a “potência de todas as coisas”, o Espírito torna-se “todas as coisas”. É o Pensamento por excelência, as Idéias de Platão.

[J. Ferrater Mora: PLOTINO. [...] O diverso nasce, por conseguinte, por causa de uma superabundância do Uno, como a luz se derrama sem sacrifício de si mesma. Esta relação do Uno com o diverso é, propriamente falando, uma emanação na qual o emanado tende constantemente a manter-se igual a seu modelo, a identificar-se com ele, como o mundo sensível tende a realizar em si mesmo os modelos originais e perfeitos das idéias. Do Uno, dessa suma unidade, transbordante e indefinível, nasce por emanação a segunda hipóstase, o Inteligível. Este já não é a absoluta indiferenciação que caracteriza o Uno, a unicidade absoluta anterior a todo ser, mas o Ser mesmo ou, como diz Plotino, a Inteligência (nous). [...] O Uno contempla o Inteligível que, por sua vez, é produto desta mesma contemplação.]

O Uno, se quiser criar um universo e um cosmos físico, deve fazer-se Alma. A Alma deriva do Espírito do mesmo modo como este deriva do Uno. Existe a) uma atividade do Espírito, e existe b) uma atividade que procede do Espírito. O resultado da atividade que procede do Espírito é a Alma. A natureza específica da Alma não consiste no puro pensar (senão, não se distinguiria do Espírito), mas sim no dar vida a todas as coisas que existem, ou seja, a todas as coisas sensíveis, ordenando-as, dirigindo-as e governando-as: “Quando a Alma olha o que está depois dela, então a Alma ordena, dirige e comanda isso”. Ela é a “última idéia”, ou seja, a última realidade inteligível. A Alma, assim, tem uma “posição intermediária” e, portanto, tem como que “duas faces”.

Para Plotino, há uma hierarquia de almas:

  • Alma Suprema. É a Alma como pura hipóstase.
  • Alma do todo. É a Alma enquanto criadora do mundo e do universo físico.
  • Almas particulares. São as Almas que “descem” para animar os corpos, astros e todos os seres vivos.

Mas por que a realidade não termina com o mundo incorpóreo, existindo ainda um mundo corpóreo? Como surgiu o sensível? A matéria sensível deriva de sua causa como possibilidade última, ou seja, como etapa extrema daquele processo em que a força produtora se enfraquece a ponto de exaurir-se. Desse modo, a matéria torna-se exaustão total e, portanto, privação extrema da potência do Uno, ou, em outros termos, privação do Bem. Nesse sentido, a matéria é “mal”: mas, no caso, o mal não é uma força negativa que se oponha ao positivo, mas simplesmente falta ou “privação” do positivo.

Mas por que as almas descem aos corpos? Plotino ensina que a alma deve descer aos corpos por uma necessidade ontológica. Ao mesmo tempo, diz que seria “melhor” que não descesse, pois a descida é uma espécie de “culpa” (uma espécie de “audácia” ou “temeridade”). Plotino distingue então duas espécies de “culpa” da alma:

  • A primeira culpa consiste na própria “descida”, que, enquanto é inelutável, é também involuntária.
  • A segunda culpa diz respeito à alma que já tomou corpo, consistindo no excesso de cuidado com o próprio corpo, com tudo o que segue a isso, ou seja, o afastamento de suas próprias origens para pôr-se a serviço das coisas exteriores, esquecendo-se de si mesma. Este é o tipo que constitui o grande mal da alma, ou seja, o mal que a leva a esquecer-se de suas próprias origens.

Os destinos da alma consistem na reconjunção com o divino. Plotino sustenta que já nessa terra é possível realizar a separação do corpóreo e a reconjunção com o Uno.

[J. Ferrater Mora. HIPÓSTASE. [...] Indicou-se algumas vezes que o uso do conceito de hipóstase no sentido apontado aproxima a idéia platônica de hipóstase da cristã, especialmente quando se leva em conta o suposto paralelismo das duas “Trindades”: a trindade do Uno, da Inteligência e da Alma do mundo, e a do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todavia, as diferenças entre a noção de hipóstase, por um lado, e a concepção da Trindade, por outro, são tão consideráveis que é difícil, senão impossível, equipará-las. ]

8 de outubro de 2005

O Nome de Jesus e uma advertência aos protestantes

Recomendo a leitura:

http://es.geocities.com/labusquedadelgrial/nombres.zip

No entanto, uma advertência aos protestantes -- pelo menos assim o entendi -- pode ser lida nas conclusões finais:

"La invocación del Nombre no es per se una garantía mecánica de salvación, pues no todo el "que llame, Señor, Señor, será salvado". Un burro que lleva perfume en su lomo, a pesar de ello, seguirá siendo un burro, aunque entonces, todavía es posible que algo del aroma se le pegue. Los Nombres Divinos no son inmunes al abuso o incluso a la profanación. Un medio espiritual sólo puede ser efectivo dentro del marco de la tradición que le ofrece. "No tomarás el Nombre de Dios en vano" (Exodo XX, 7; Deut. V, 11). Si se tiene por verdadero en lo que toca a la Eucaristía que "quienquiera que coma de este pan (divino)… indignamente… come… condenación para sí mismo" ( I Cor. XI, 27-29), eso es verdadero también en lo que toca al uso temerario de los Nombres Divinos. Uno debe invocar el Nombre para los propósitos adecuados y en un estado de alma adecuado. Uno debe estar en un estado de gracia (o al menos debe desear estarlo) pues "invocar al Señor" mientras uno se apega obstinadamente a lo que el Señor prohibe es absurdo. Si tenemos, ciertamente, un Cristo que es Amor, tenemos también un Dios colérico. Si tenemos un Nombre de Amor, tenemos también un Nombre que es "terrible". Si invocamos el Nombre, debemos hacerlo dentro del seno de la Esposa de Cristo, dentro del marco de la "Iglesia Una, Santa, Católica y Apostólica" con todos sus sacramentos y todas sus tradiciones. "Y he aquí que Tu cólera ha llegado, y el tiempo de los muertos, a fin de que sean juzgados, y de que Tú recompenses a Tus siervos, los profetas y los santos, y A AQUELLOS QUE TEMEN TU NOMBRE" (Apoc.XI, 18)."

O fim de um mundo

Quem nunca teve a impressão de o mundo estar acabando? Seja motivada por doutrinas escatológicas, pela crescente devassidão moral ou pelo poder destruidor cada vez maior das armas, a percepção de que o mundo está na iminência de acabar é clara para muitos.

No entanto, perceber esse fenômeno é fácil; difícil é explicá-lo. E é isso que o metafísico francês René Guénon (1886-1951) fez em The Crisis of the Modern World. Embora relativamente conhecido nos meios religiosos e filosóficos, René Guénon é amplamente ignorado pelo mercado editorial brasileiro.

Neste livro, Guénon afirma que o fim do mundo é, na verdade, o fim de um mundo: o mundo moderno. O desprezo e até mesmo ódio pela tradição, pela contemplação e pelas coisas ligadas a Deus são as marcas do mundo moderno e caracterizam esta era como a verdadeira Idade das Trevas.

Segue um rápido resumo do livro, cujo objetivo é introduzir o leitor nos pensamentos deste grande metafísico e entender a explicação que ele dá ao fim do mundo.

* * *

PREFÁCIO


Há uma clara percepção de que o mundo está acabando. Embora nem sempre explicada de maneira adequada – muitas vezes dando vazão a messianismos e imaginações – a idéia de ‘fim do mundo’ está correta. Trata-se, em verdade, do fim do mundo moderno (ocidental). As características desta era são precisamente as que as doutrinas tradicionais apontam para este período cíclico. O que parece desordem e anormalidade é, em verdade, conseqüência necessária das leis que governam as manifestações.

1 – A IDADE DAS TREVAS

Segundo a doutrina hindu, um ciclo humano é dividido em 4 períodos durante os quais a espiritualidade primordial desvanece-se mais e mais ('materialização progressiva'). Estamos agora no quarto período, chamado Kali-Yuga. A história convencional (‘clássica’) vai até o século VI a.C., o que é uma prova da ignorância e desdém do homem moderno pela tradição. Coisas importantes ocorreram à época:

  • China: doutrina primordial, una, dividiu-se em Taoísmo (elite) e Confucionismo (resto).
  • Índia: surge o Budismo, que é uma revolta contra o espírito tradicional.
  • Judeus: cativeiro na Babilônia, onde, por exemplo, esquecem rapidamente seu alfabeto.
  • Grécia: surge uma forma nova de pensamento, a filosofia, que é apenas amor à sabedoria, isto é, um grau inferior da própria sabedoria. Lá surgiram tendências de substituir a sabedoria pela filosofia.

Cristianismo então surge como um 'resgate', uma espécie de reajuste típico dos ciclos cósmicos. Começa uma ordem normal: a Idade Média. Renascença é o fim da Idade Média, engendrando o humanismo. Um novo reajuste não ocorrerá, pois é necessária uma completa renovação, além de tal reajuste não estar previsto na doutrina hindu.

2 – A OPOSIÇÃO ENTRE ORIENTE E OCIDENTE

O mundo moderno caracteriza-se, em larga escala, pela oposição entre Oriente e Ocidente.

  • Civilizações orientais (China, Hindu, Islã) = tradicionalismo.
  • Civilizações ocidentais = antitradicionalismo.

Ocidente já foi berço de tradições, como a civilização de Atlantis e os celtas (que aproveitaram elementos de Atlantis). Os elementos célticos foram absorvidos pelo Cristianismo. Somente o Cristianismo (Catolicismo) é capaz de restaurar a tradição no Ocidente. É necessário contato com uma tradição viva para assimilá-la, e não por meios livrescos. O primeiro resultado desse retorno ocidental à tradição seria um entendimento com o Oriente, pois todas as tradições concordam sobre princípios fundamentais. Esse entendimento vem de cima para baixo, isto é, da elite intelectual-espiritual. Isso servirá, se houver tempo, para assentar bases para o próximo mundo.

3 – CONHECIMENTO E AÇÃO

O conflito Oriente vs. Ociente se revela na oposição entre contemplação e ação.

  • Oriente = contemplativo, mas reserva à ação seu devido espaço.
  • Ocidente = ação, sem praticamente nenhum espaço para a contemplação.

Ocorre que a ação não carrega em si princípios ou razão de ser, que só podem ser encontrados na contemplação (conhecimento). Saturado de ação, o Ocidente é incapaz de enxergar sua degeneração, expressa em agitações vãs e estéreis, e sua incapacidade para concentração e síntese. Os ocidentais insistem em negar a intuição intelectual e, se assim persistirem, não conseguirão recuperar a tão necessária tradição.

4 – CIÊNCIA SAGRADA E PROFANA

Nas civilizações tradicionais, a intuição intelectual é a base de tudo. As ciências são apenas prolongamentos do conhecimento absoluto. Os modernos, recusando-se a unificar seu conhecimento a uma ordem superior, acabam no “conhecimento ignorante”. Para Aristóteles, a física é secundária em relação à metafísica. Os modernos confundem ciência (conhecimento) com aplicação (indústria). A ciência moderna, confiando apenas em fatos brutos, acaba restrita ao âmbito da hipótese, destituída de qualquer valor científico.

Exemplos: astrologia -> astronomia; alquimia -> química; psicologia tradicional -> psicologia moderna; matemática pitagórica -> matemática moderna (-> = 'degenerou-se em').

Ciência só é válida quando de posse dos princípios absolutos. O mesmo dito aqui vale para as artes, que devem refletir os princípios absolutos. Raiz desses erros: individualismo.

5 – INDIVIDUALISMO

Individualismo é a negação de qualquer princípio superior ao indivíduo. Sinônimo = humanismo. Numa civilização tradicional, não há uma idéia que seja atribuída a uma pessoa, pois a idéia pertence a todos. Conseqüências do individualismo:

  • Racionalismo: a razão humana é elevada à condição de suprema inteligência.
  • Materialismo: tudo o que está para além da natureza é inacessível ao indivíduo.

O Renascimento e a Reforma foram conseqüências de uma ruptura anterior, que data do século XIV. Trata-se da oposição ao espírito tradicional. A tradição ocidental encontrava-se manifesta na forma religiosa e, portanto, é na religião que devemos buscar a origem do antitradicionalismo. Tal sentimento adquiriu, ao longo dos anos, uma forma mais evidente, que chamamos de Protestantismo. O livre exame protestante solapou a autoridade religiosa. O número de seitas, por conseqüência, explodiu, diluindo a doutrina em favor do moralismo. Protestantismo é ilógico porque, embora retenha a revelação (elemento supra-humano), a humanizou. Catolicismo reteve a tradição, mas não há uma elite capaz de entender seu significado mais profundo. A doutrina, assim, reduz-se a nada, praticamente igualando catolicismo com protestantismo.

6 – O CAOS SOCIAL

As castas não mais existem no Ocidente. A negação das diferenças entre as naturezas dos homens é a causa de toda a desordem social: é o conceito de 'igualdade'. A democracia é refutada pela simples inferência de que o superior não pode vir do inferior, o maior não pode vir do menor. O povo não pode conferir poder pois não o tem. O poder tem de vir de cima, da autoridade espiritual. Numa democracia, a lei é feita pela opinião da maioria, mas essa opinião é facilmente guiada e manipulada. É a supremacia da multiplicidade (materialismo) sobre a unidade. A conseqüência direta da democracia é a negação da idéia de elite, a democracia é oposta à aristocracia.

7 – UMA CIVILIZAÇÃO MATERIAL

“Materialismo é o estado mental que consiste em colocar as coisas materiais, e as preocupações que surgem delas, em primeiro lugar”. O materialismo moderno, mesmo que negado ou não declarado, é de facto. Realidade agora se restringe às coisas sensíveis. Aquilo que não é captado pelos sentidos é ilusório. Indústria não é mais a aplicação da ciência, mas a razão dela. O homem moderno tornou-se escravo da matéria. Economia torna-se o fator mais importante da sociedade. As invenções modernas liberam forças cuja natureza o homem moderno desconhece. A civilização material adiciona necessidades artificiais para o homem moderno, e sua incapacidade de atendê-las o torna infeliz.

8 – INVASÃO OCIDENTAL

A confusão materialista parece estar invadindo o Oriente. O espírito tradicional não pode morrer, mas pode desaparecer do mundo aparente, marcando assim o fim do mundo. Os orientais protegem a tradição dos ocidentais pela simples razão de que não vale a pena compartilhar verdades com quem não tem capacidade de entendê-las.

9 – ALGUMAS CONCLUSÕES

A situação no Ocidente só poderá ser mudada por meio do conhecimento. Apenas uma pequena elite será suficiente, uma vez que a massa seria posteriormente influenciada sem perceber, sem suspeitar de nada. Como não há mais condições do Ocidente restaurar sua própria tradição, é necessária uma ajuda da elite oriental. A organização ocidental por onde seria melhor começar é a Igreja Católica. No entanto, é imprescindível restaurar o conteúdo tradicional da ICAR anterior ao desvio moderno. Um aviso aos jovens: VINCIT OMNIA VERITAS.