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13 de dezembro de 2007

Arcebispo Leôncio do Chile

Poucos conhecem a vida do Arcebispo Leôncio do Chile (1904-1971) e do papel que desempenhou no crescimento do Cristianismo Ortodoxo na América do Sul. Embora o continente sul-americano seja tão carente de figuras místicas e religiosas de valor, quando elas surgem, ao invés de serem propriamente louvadas e popularizadas, são olimpicamente ignoradas. Parte disso se explica pelo tamanho diminuto da comunidade cristã ortodoxa sul-americana, mas creio que parte se explica também pela consciência geral da elevada improbabilidade de tais figuras florescerem em um território tão hostil à prática religiosa tradicional.

O fato é que o Arcebispo Leôncio é considerado um homem santo pelo seu rebanho e por aqueles que o conheceram pessoalmente, embora ainda não tenha sido glorificado pela Igreja. Sua vida ascética, a influência espiritual de São João (Maximovitch) de Shanghai e San Francisco, os milagres, seu zelo martirizante: tudo isso faz deste santo homem um verdadeiro confessor da Ortodoxia do coração.

Para sorte dos sul-americanos, o Arcebispo Leôncio está enterrado em Santiago do Chile. Portanto, quem visita a capital chilena não deve perder a oportunidade de rezar no túmulo do Arcebispo Leôncio e pedir suas orações intercessoras. Para encontrar seu túmulo, contei com a inestimável ajuda do Padre Alex Vilugrón, da Paróquia de São Nectário de Pentápolis e da Missão de São Siluan do Monte Athos (Igreja Ortodoxa Russa no Exterior), bem como da secretária das paróquias, a Sra. Elizabeth Jurlow.

Para chegar lá, tome a linha 4 do Metrô até seu extremo sul, isto é, até a estação Plaza de Puente Alto. Lá, tome um táxi ou ônibus até a Avenida Eyzeguirre, 2.395, na própria comuna (bairro) de Puente Alto, onde está localizado o Cemitério Ortodoxo Russo. O táxi lhe custará 2.000 pesos chilenos (aproximadamente US$ 4,00) enquanto a tarifa do ônibus é de apenas 380 pesos por pessoa. Várias linhas passam pela Avenida Eyzeguirre, bastando perguntar a alguém que esteja no ponto de ônibus em frente à estação de metrô qual delas poderá ser tomada. Caso se decida pelo ônibus, não se esqueça de levar dinheiro contado, pois em Santiago não há cobradores e, portanto, não haverá troco.

Uma vez no cemitério, informe-se pelo túmulo do Arcebispo Leôncio. Quando estive lá, o funcionário local – na verdade uma família que mora numa casa anexa ao cemitério – não soube informar exatamente onde estava o túmulo, então tive de procurá-lo um por um. Por fim, não foi difícil encontrá-lo, pois o túmulo do Arcebispo é o maior e mais imponente, ao final do corredor central.

Aproveito este post para publicar minha tradução da biografia do Arcebispo Leôncio, publicada na revista The Orthodox Word em 1981.

Pelas orações do Arcebispo Leôncio do Chile, que nosso Senhor e Deus e Salvador Jesus Cristo tenha piedade e dê a vitória ao todos nós, cristãos ortodoxos da América do Sul. Amém.

* * *

ARCEBISPO LEÔNCIO DO CHILE:
CONFESSOR DA ORTODOXIA DO CORAÇÃO

Apesar do evidente desvanecimento da influência do Cristianismo em nossa civilização e da notória ausência de heróis cristãos em nosso meio, Deus não abandonou Sua Igreja perseguida. Ele fez surgir extraordinários hierarcas ortodoxos cujo heroísmo, de proporções históricas, apenas aumenta com o passar do tempo. Infelizmente, tais heróis não chegam ao conhecimento da maioria na Igreja.

Um desses hierarcas, morto há dez anos sem que praticamente ninguém soubesse, foi o Arcebispo Leôncio do Chile, um destemido pregador do Cristianismo Ortodoxo, primeiramente na Rússia e, depois, no exterior. Seu papel histórico é de um confessor do verdadeiro Cristianismo do coração.

Quando ele morreu, em 19 de junho/2 de julho de 1971 – precisamente no quinto aniversário do repouso de seu querido Arcebispo João Maximovitch, outro extraordinário hierarca do século XX – o Arquimandrita Constantino de Jordanville afirmou: “Há pessoas cuja morte preenche com luz o coração das pessoas. Em todos os contatos que tiveram, essas pessoas viveram pelo seu grande coração. O que significa isso? Significa que, para elas, cada pessoa com quem mantiveram contato, mesmo que por breves instantes, era uma personalidade de natureza espiritual... Pode-se dizer que, apesar de nos ter deixado, ele está mais próximo de nós, mas não de maneira mundana”.

O Arcebispo Leôncio nasceu em 6 de agosto de 1904, numa piedosa família russa (Filipovich). Um de seus parentes distantes foi Santo Atanásio de Brest, que morreu martirizado por católicos romanos, no século XVII.

Desde a tenra infância, o Arcebispo Leôncio demonstrou forte inclinação para a Igreja, desejando dedicar sua vida a ela. Sua educação primária deu-se numa escola privada, onde seu imenso talento musical permitiu-lhe assumir no coral a posição de solista. Ele se lembrava, com grande emoção, quando o Imperador Nicolau II visitou sua cidade e que ali vira, num relance celestial, o futuro Tsar-mártir. Quando a revolução chegou a Kiev, ele já se encontrava espiritualmente próximo do Mosteiro das Cavernas de Kiev, mas foi preso assim mesmo. No entanto, quando descobriram que ele era de família “proletária”, foi libertado. Além disso, como o governo soviético precisava de um grande tenor, foi-lhe oferecida uma bolsa de estudos e um treinamento para óperas. Embora essa grande carreira musical estivesse à sua disposição, ele a declinou, decidindo servir à Santa Igreja Ortodoxa.

E que caminho pesaroso ele escolheu para si! Um caminho de perpétuas privações, sofrimentos, e de testemunha de intermináveis tragédias pessoais durante os anos soviéticos, até a chegada dos alemães em 1941. Ele tornou-se noviço do Mosteiro exatamente no período em que foi brutalmente liquidado. Seus monges foram torturados e entregues às mais variadas privações, e muitos foram mortos. É a partir destes sofrimentos que ele se tornou um confortador dos clérigos expulsos, lavando as feridas dos hierarcas que foram soltos e buscaram refúgio no Mosteiro. Ele salvou a vida do Bispo Partênio ao puxá-lo de uma sarjeta, afastando-o de uma matilha de cães raivosos e entregando-o a uma velha senhora, que então o tratou e recuperou.

Após a liquidação final do Mosteiro das Cavernas de Kiev, ele foi a Moscou, onde, sob terríveis condições, conseguiu completar o curso de teologia na Academia; as aulas na época tinham de ser conduzidas nos apartamentos particulares dos professores. Lá, ele novamente conheceu vários bispos e serviu de ponto de contato entre eles e os demais clérigos.

Como ele possuía um documento que o declarava membro do “proletariado”, ele se aproveitou dessa situação para viajar e visitar diversos locais santos e mosteiros na Rússia, logo antes ou mesmo logo depois de serem liquidados. Assim, ele visitou Sarov, Diveyevo, vários mosteiros da região de Novgorod e outras mais. Ele viu o grande mosteiro de Rostov vandalizado, suas relíquias profanadas e seus clérigos humilhados. Tudo o que viu registrou em seus diários, trechos dos quais foram preservados em forma de manuscritos.

Ele testemunhou os mortais sofrimentos da Santa Rússia. Ele ouviu as vozes dos santos hierarcas se lamentando, dos santos loucos profetizando e das mães chorando; mas tudo isso não foi capaz de lançá-lo ao desespero mas, pelo contrário, encheu seu coração com o santo zelo, pois compreendeu que estava vivendo numa nova era de mártires.

Como era muito próximo de diversas figures importantes da Igreja, ele conseguiu se tornar uma testemunha viva dos confessores de Cristo, o que mais tarde acabou lhe permitindo testemunhar, no mundo livre, seus sofrimentos inocentes, infligidos pela atrocidade bestial do governo soviético. Boa parte dos três volumes da obra do Padre Miguel Polsky sobre os Novos Mártires da Rússia foi baseada em materiais enviados pelo Arcebispo Leôncio.

Mas o próprio Arcebispo Leôncio não foi poupado de severas perseguições, nos anos anteriores ao advento da Segunda Guerra Mundial. Ele foi preso três vezes e, mais tarde, se lembrava de como, na prisão, os bispos e padres celebravam a Divina Liturgia enquanto fingiam jogar cartas numa mesa.

As condições prisionais, nos anos 1930, eram tão ruins que a maioria dos presidiários estava preparada para morrer nas mais desumanas condições. Alguns ministravam a Eucaristia no corpo de um sofredor moribundo, reconhecido como mártir, já que a Divina Liturgia é sempre celebrada sobre as relíquias de mártires.

O Arcebispo Leôncio conseguiu escapar da prisão, ficando por algum tempo escondido num sótão, suspenso num saco em forma de rede para que suas pegadas não fossem reveladas; o único período em que conseguia se exercitar era na calada da noite, enquanto os guardas dormiam no andar de baixo. Essas condições persecutórias dos cristãos soviéticos parecem inacreditáveis para nós, do mundo livre, porque vivemos nossa fé ortodoxa com indiferença. Mas se vivêssemos pelo calendário ortodoxo, onde a cada dia há leituras das Escrituras e comemorações de santos e mártires, entenderíamos melhor.

Quando os alemães chegaram ao oeste russo em 1941, a liberdade religiosa foi restaurada e um grande campo de atuação se abriu aos clérigos sobreviventes. Nessa época, o então Arquimandrita Leôncio se encontrava na Bielo-Rússia, onde logo teria sido consagrado bispo no renomado Mosteiro de Pochaev, que até então estava em território polonês e, portanto, escapara da destruição soviética. Entre 1941, quando foi ordenado, e novembro de 1943, quando partiu para o Ocidente, ele foi bispo de Zhitomir, ordenando 300 padres e diversos bispos, além de ter aberto centenas de igrejas. Seu entusiasmo e profundo carinho pelo povo fez dele um extraordinário pastor que, quando celebrava as Liturgias, era transportado para outro mundo. Sua voz de tenor parecia sobrepujar todo tumulto mundano, mas sua mente afiada nunca se ausentava da realidade humana. Ele prosseguiu sua atuação eclesiástica no mesmo espírito, tanto na Áustria e na Alemanha Ocidental quanto no Paraguai e no Chile, onde foi apontado bispo (a Argentina tornou-se parte de sua diocese longe antes de sua morte).

No Chile, ele fundou uma comunidade monástica, sendo que um de seus membros foi o Bispo Savva de Edmonton, Canadá. O Arcebispo Leôncio o trouxe para sua comunidade monástica, inspirando-o a seu ideal monástico, tonsurando-o e apontando-o como pastor independente que, mais tarde, mostrou-se ser um zeloso bispo, iniciando uma renovação espiritual na Igreja Russa; hoje, ele é conhecido como o cronista da miraculosa vida do Abençoado Arcebispo João Maximovitch.

Durante suas viagens pelo mundo livre, o Arcebispo Leôncio fez um estudo da situação lamentável de seus irmãos ortodoxos na Grécia, enfraquecidos pelas influências modernistas na vida ortodoxa, simbolizada pelo novo calendário papal forçado sobre eles nos anos 1920. Em seu zelo martirizante, ele foi à Grécia e ordenou bispos aos fiéis que seguiam o Antigo Calendário, estabelecendo assim um contato entre eles e a Igreja Ortodoxa Russa no Exterior.

Logo depois, ele foi elevado a Arcebispo, fundando o Convento da Dormição, cujas monjas foram trazidas da Terra Santa; hoje, nesse convento, funciona um orfanato e uma escola paroquial, de nome São João de Kronstadt. Essas monjas, lideradas pela Abadessa Alexia, foram originalmente abençoadas pelo Ancião Nectário de Optina, hoje um santo glorificado, cujas tradições eles aderiram com firmeza nos seus treinamentos monásticos de noviças.

O Arcebispo Leôncio foi um defensor da verdade, levantando-se sem medo, em todos os seus desafios espirituais, contra qualquer manifestação de injustiça. No seu primeiro encontro com o Arcebispo João Maximovitch, em Paris, ele imediatamente o reconheceu como um santo vivo, exatamente como aqueles que haviam visto e com quem havia vivido na sofrida Rússia. Com coração amoroso, ele se curvou perante a autoridade espiritual do Abençoado João, auxiliando-o sempre que era difamado por aqueles a quem faltava a experiência do contato vivo com os genuínos santos de Deus. Quando esses difamadores se levantaram contra o Arcebispo João, processando-o em San Francisco nos anos 1960 por corrupção nas finanças da igreja, o Arcebispo Leôncio imediatamente foi até lá para defendê-lo, sentando-se a seu lado, juntamente com os Bispos Savva e Nectário, no banco dos acusados. Obviamente, o Arcebispo João foi declarado inocente, e o monumento de sua vitória está hoje simbolizado na magnífica catedral ortodoxa de San Francisco, sob a qual repousam as relíquias de São João.

Quando o Arcebispo Leôncio foi informado da súbita morte do Arcebispo João, ele, juntamente com outro justo e perseguido hierarca, Arcebispo Averky de Jordanville, dirigiram por todo os Estados Unidos para estarem presentes em seu funeral. Lá, ele derramou lágrimas amargas sobre o corpo do Arcebispo João, a quem ele tanto amava que seu desejo era estar próximo de seu túmulo, talvez como Arcebispo de San Francisco. Deus, porém, não lhe concedeu tal dádiva e, exatamente no quinto ano da morte do Arcebispo João, após ter rezado pelo repouso de sua alma na catedral de Buenos Aires, ele entregou sua alma a Deus, juntando-se a seu amado Abba.

A súbita morte do Arcebispo Leôncio, que estava se recuperando de uma doença cardíaca, provocou grande pesar em seu rebanho. Eles o enterraram no cemitério que ele mesmo fundou. A criança doente de uma mulher chilena foi colocada sobre seu túmulo, tendo sido miraculosamente curada. Houve outros casos de intervenções celestiais por meio das orações do Arcebispo Leôncio. Mas o relato mais tocante vem de um venerador de sua memória, a quem foi concedida uma série de visões, um trecho das quais apresentamos aqui:

"A visão se deu exatamente no dia de 1971 em que o Concílio de Bispos decidiu iniciar as preparações para a canonização dos Novos Mártires da Rússia. Era um domingo. Num sono rápido, meu pai espiritual (que ainda está vivo em Buenos Aires) apareceu a mim em espírito, me confessou e perdoou meus pecados.

“No começo deste sonho, vi a mim mesmo num gigantesco templo, que não era feito por mãos humanas. No kliros da direita, havia uma enorme multidão vestida de branco: não pude reconhecer seus rostos. Ao meu redor havia uma cantoria calma, tocante, embora eu não pudesse ver ninguém. Então, as duas portas laterais do altas se abriram e delas saíam santos hierarcas e monges, completamente vestidos de azul; entre eles, só pude reconhecer São Nicolau, o Taumaturgo, de Myra em Lycia. Da porta próxima a mim, entre os bispos que passavam, o Arcebispo Leôncio parou ao meu lado, e disse: ‘Você, irmão Basílio, foi chamado e veio. Você sabia que temos uma grande celebração hoje!’ ‘Que tipo de celebração, Vladika?’, perguntei. E ele disse: ‘A glorificação celestial do Tsar-mártir!’ E tendo feito uma leve reverência a mim, continuou no seu caminho à kathedra (no centro da igreja).

“Por fim, as portas reais se abriram, e delas saiu o Tsar-mártir, parecendo-se exatamente como era nos retratos oficiais, durante seus primeiros anos de reinado, ou seja, muito jovem. Ele estava vestido com o manto real do Tsar, como na sua coroação, e levava a coroa do imperador em sua cabeça. Em suas mãos, uma grande cruz, e em sua pálida face notei uma pequena ferida, seja de bala ou golpe. Ele passou por mim em passos uniformes, e quando seu pé tocou a kathedra, o volume ficou tão alto que parecia que o mundo inteiro estava cantando a uma só voz.

“Então eu acordei, estremecido, com uma pequena ferida no meu olho direito. Era aproximadamente quatro horas da madrugada. Por muito tempo, ficou em mim a impressão do que eu acabara de experimentar”.

O mesmo homem viu o Arcebispo Leôncio em sonho, logo antes do quadragésimo dia após seu repouso: “No 37º dia após o repouso do Arcebispo Çeôncio, tive uma visão em sonho. Vi-o em paramentos eclesiásticos e um indivíduo mitrado liderando o ritual solene na igreja. Quando me viu, imediatamente se levantou para me cumprimentar. Ele me abraçou e me beijou, dizendo: ‘Como estou feliz em te ver, irmão Basílio. Estou muito bem agora. Não sinto dor, e aqui sou muito feliz. Em poucos dias, receberei novos aposentos com todos os confortos, como dizem na terra; isso já me foi prometido’.

“Um mês depois, vi outro sonho, indicando-me que a ele foi concedido uma morada celestial. Ouvi belas canções e vi milhões de estrelas cintilantes, e eu já estava num barco que me levava à margem onde ele estava. Isto é o que Deus preparou para seus fiéis servos das catacumbas, e mais tarde à nossa Igreja no Exterior”. (Orthodox Life, 1971, Dezembro, pág 18-20).

Pelas orações do justo Arcebispo Leôncio, confessor da Ortodoxia do coração, que nosso Senhor tenha piedade de todos nós. Amém.

27 de novembro de 2007

Santo Eduardo, Rei e Mártir

"O Rei Eduardo foi um jovem de grande devoção e excelente conduta. Ele era totalmente ortodoxo, bom e de vida santa. Acima de tudo, ele amava o Cristo e a Igreja. Ela era generoso com os pobres, um campeão da fé cristã, um vaso cheio de toda graça virtuosa".

Theodorico Paulus

Quando o Rei Edgar, bisneto de Alfredo, o Grande, ascendeu ao trono inglês no ano 957, a situação do país estava melhorando. Um novo senso de unidade, organização e confiança acabara de ser forjado, resultado de 100 anos de esforços. É neste período que a figura de São Dunstan, Arcebispo de Canterbury e conselheiro do Rei Edgar, faz-se notar.

Abade do mosteiro de Glastonbury, São Dunstan foi o principal responsável pela renovação religiosa e cultural de seu tempo, elevando o nível espiritual da nação. Seu grande objeto de restauração foram os mosteiros, privilegiando neles a vida ascética e a oração interior. No entanto, essa postura engendrou a ira daqueles que usavam a Igreja como mero instrumento para angariar riqueza e poder.

Tal ira intensificou-se ainda mais quando Eduardo, o filho mais velho do Rei Edgar, ascendeu ao trono em 975, após a morte do pai, tornando-se historicamente o Rei Eduardo II. Então com apenas 15 anos de idade, o jovem monarca continuou as políticas de seu pai, confiando em São Dunstan como conselheiro e dando-lhe total apoio em seus esforços para restaurar os mosteiros ingleses e a vida religiosa do povo em geral.

Todavia, sua madrasta, Alfreda, desejosa de ver seu filho Ethelred assumir o trono inglês, forjou uma aliança com membros da nobreza contrários às reformas religiosas e monásticas de São Dunstan. Portanto, de um lado encontravam-se a ex-rainha e seus aliados e, do outro, Rei Eduardo e seus conselheiros, entre os quais não somente São Dunstan mas também Oswald, Arcebispo de York e Bryhnoth, um nobre de Essex.

No dia 18 de março de 979, os partidários do Príncipe Ethelred finalmente decidiram agir. Convidado para a residência oficial do castelo de Corfe, em Dorset, onde o Príncipe Ethelred e sua madrasta já se encontravam hospedados, o Rei Eduardo aproximou-se dos serviçais de Alfreda, que vieram recebê-lo. O que era para ser uma simples recepção de boas-vindas transformou-se num terrível complô regicida. Alguns serviçais sacaram suas armas e um deles enterrou uma adaga no peito de Eduardo. Caindo da sela de seu cavalo, mas com o pé ainda preso ao estribo, a cena que se seguiu foi horripilante: um cavalo assustado, galopando em direção à floresta do castelo, arrastando pelo chão um rei mortalmente ferido a sangrar pelo caminho. Quando os homens do Rei finalmente conseguiram parar o cavalo, Eduardo já estava morto.

Por insistência de Alfreda, o corpo do Rei Eduardo foi enterrado sem cerimônias no cemitério de uma igreja em Wareham, a alguns quilômetros de onde fora assassinado. Embora ninguém tenha sido declarado culpado pelo crime, o regicídio foi levado a público de uma maneira bem diferente. Pois naquele mesmo instante, os milagres começaram.

Já naquela noite, uma senhora cega em cuja cabana o corpo do Rei Eduardo fora temporariamente depositado até ser movido para Wareham, de repente passou a enxergar. Em seguida, uma fonte começou a jorrar no túmulo do Rei Eduardo em Wareham, e inúmeros relatos dão conta de pessoas que foram milagrosamente curadas quando ali rezaram e se banharam. Como a santidade de Eduardo estava se tornando cada vez mais evidente, seu corpo foi transladado para o convento de Shaftesbury em 981. As curas continuaram mesmo durante a procissão.

Nos 20 anos que se seguiram, o túmulo do Rei Eduardo foi objeto de intensas venerações e peregrinações. No dia 20 de junho de 1001, o Rei Ethelred, ordenou que o corpo de Eduardo fosse transferido para um santuário no Mosteiro de Shaftesbury. No ano 1008, Alphege, Arcebispo de Canterbury, canonizou oficialmente Santo Eduardo, Rei e Mártir. De toda a Inglaterra, e até mesmo de outros países da Europa, peregrinos vinham venerar as relíquias de Santo Eduardo. O Mosteiro de Shaftesbury passou a ser conhecido como Mosteiro de Santo Eduardo. A própria cidade de Shaftesbury foi chamada de "Edwardstowe" por muitos anos.

Quanto a São Dunstan, após o assassinato de Eduardo, ele se recusou a tomar parte do reinado de Ethelred, preferindo cuidar de seu rebanho espiritual. Ele morreu em 988, exatamente no ano em que, do outro lado da Europa, a Cristandade adentrava as terras de Rus, onde o Príncipe Vladimir de Kiev foi batizado. Enquanto um país cristão entrava em declínio, perdendo sua identidade face ao assassinato de seu piedoso Rei, um outro país abria-se voluntariamente para a Santa Igreja e seus Mistérios. Mas este mesmo país, que em 1918 assassinava seu piedoso Tsar, conheceu sorte semelhante à dos ingleses. A Rússia do século XX, a exemplo da Inglaterra do século X, também perdera sua identidade cristã.

Qual o significado disso tudo? Deus é que sabe. Mas o que sabemos ao certo é que tamanha brutalidade e impiedade nos assassinatos do Rei Eduardo II e do Tsar Nicolau II serviram para produzir dois santos-mártires a quem, agora, podemos pedir suas intercessões por nós junto ao Cristo. Todos os dias, mas sobretudo no dia 18 de março, rezemos com fervor para que Santo Eduardo, Rei e Mártir, nos ajude e oriente em nossas provações e tentações.

GLÓRIA A DEUS POR TUDO!

Santa Tatiana, Virgem e Mártir

Santa Tatiana, Virgem e Mártir, nasceu de uma ilustre família romana, sendo que seu pai foi eleito cônsul três vezes. Ele era cristão em segredo, e criou sua filha de maneira que ela devotasse sua vida a Deus e à Igreja. Quando alcançou a idade da maturidade, Tatiana decidiu permanecer virgem, tornando-se noiva do Cristo. Desprezando as riquezas mundanas, ela, ao invés disso, buscou as riquezas imperecíveis do Céu. Ela foi ordenada diaconisa em uma das igrejas romanas e serviu a Deus em jejum e oração, recebendo os doentes e ajudando os necessitados.

Quando Roma foi governada pelo imperador Alexandre Severus (de 222 a 235), então com apenas dezesseis anos de idade, todo poder estava concentrado nas mãos do regente Ulpiano, um feroz inimigo dos cristãos. Sangue cristão jorrou como água. Tatiana também foi presa, e levaram-na ao templo de Apolo, obrigando-a a oferecer sacrifícios a esse ídolo. A santa começou a rezar e, de repente, começou um terremoto. O ídolo foi feito em pedaços, e parte do templo caiu sobre os sacerdotes pagãos e sobre muitos outros pagãos. O demônio que habitava o ídolo fugiu aos berros daquele lugar. As pessoas que estavam ali presentes viram sua sombra voando pelos ares.

Então, eles rasgaram os olhos da virgem com ganchos, mas ela suportou a tudo com bravura, rezando por seus algozes para que o Senhor abrisse seus olhos espirituais. E o Senhor ouviu as orações de Sua serva. Os algozes viram quarto anjos ao redor da santa, que os golpeavam. Um voz dos céus foi ouvida falando com a santa virgem. Oito homens creram no Cristo e caíram de joelhos diante de Santa Tatiana, implorando aos anjos que perdoassem seus pecados contra ela. Por confessarem-se cristãos, eles foram torturados e executados, recebendo o Batismo por sangue.

No dia seguinte, Santa Tatiana foi levada perante um severo juiz. Vendo que ela estava completamente curada de suas feridas, eles a despiram e surraram, talhando seu corpo com navalhas. Foi então que uma maravilhosa fragrância tomou conta do local. Depois, jogaram-na ao chão e a violentaram por tanto tempo que os torturadores tiveram de ser substituídos diversas vezes. Eles ficaram exaustos, alegando que uma força invisível estava lhes batendo com varas de ferro. De fato, os anjos impedíam que os golpes a atingissem, voltando-os contra os torturadores, fazendo com que nove deles caíssem mortos. Eles então jogaram a santa na prisão, onde ela rezou por toda a noite, cantando louvores ao Senhor junto com os anjos.

Na manhã seguinte, levaram Santa Tatiana novamente ao tribunal. Os torturadores ficaram estupefatos ao constatarem que, após tantos tormentos, ela estava completamente sã e até mesmo mais radiante e bela do que antes. Eles então a obrigaram a oferecer sacrifícios à deusa Diana. A santa pareceu concordar, e levaram-na ao templo pagão. Santa Tatiana fez o sinal da Cruz e começou a rezar. De repente, ouviu-se um trovão ensurdecedor, e um raio atingiu o ídolo, as oferendas e os sacerdotes pagãos.

Novamente, a mártir foi duramente torturada. Ela foi pendurada e lixada com garras de ferro, e seus seios foram cortados. Naquela noite, anjos apareceram a ela na prisão, curando-a de suas feridas. No dia seguinte, levaram Santa Tatiana ao circo, soltando um leão faminto sobre ela. A besta não machucou a santa mas, ao invés disso, mansamente lambeu seus pés.

Quando estavam levando o leão de volta a sua jaula, ele matou um dos torturadores. Atiraram Tatiana no fogo, mas o fogo não feriu a mártir. Os pagãos, julgando ser ela uma feiticeira, cortaram seus cabelos a fim de tolher seus poderes mágicos, e trancaram-na no templo de Zeus.

No terceiro dia, sacerdotes pagãos adentraram o templo, a fim de oferecer sacrifícios a Zeus. Eles encontraram o ídolo no chão, quebrado em pedaços, e a Santa Mártir Tatiana louvando alegremente ao Senhor Jesus Cristo. O juiz então condenou a valente sofredora a ser decapitada com uma espada. Seu pai também foi executado com ela, porque ele a havia educado a amar o Cristo.