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17 de dezembro de 2007

Fé e ciência II: A evolução é um fato?

Esta é a segunda parte da série Fé e Ciência, do podcast de Clark Carlton. A primeira parte está aqui.

Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra (Isaías 1:18-19).

Olá. E bem-vindos de volta ao programa Faith and Philosophy (Fé e Filosofia). O tema de hoje é Deus e Ciência, parte 2: “A evolução é um fato?”

O tema de hoje é uma continuação da semana passada, e admito, de saída, que é um tema polêmico. Eu não vou aqui examinar as evidências pró e contra a evolução. Ou seja, eu não estarei preocupado com a questão “A seleção natural explica de maneira satisfatória o surgimento da vida humana na terra?” A propósito, eu duvido que ela explique, mas não é disso que me ocuparei aqui.

A pergunta que quero responder é “A evolução é um fato?” A palavra-chave é fato. Acho essa questão importante porque é algo que a gente sempre ouve por aí. Nos debates públicos sobre Design Inteligente ou “ciência” criacionista – e eu já mostrei, na semana passada, que ciência criacionista não é ciência – ouvimos professores afirmando que “A evolução é um fato”. Quem quer que se atreva a negar isso será tachado de ignorante, de bronco anticientífico.

Às vezes, quando alguém sugere que há alguma coisa mal explicada na seleção natural, ouve-se a seguinte resposta: “Mesmo que não conheçamos o mecanismo por completo, mesmo assim, a evolução é um fato”.

Será? A resposta curta para essa pergunta é “não”. Na verdade, a afirmação de que a evolução é um fato oculta um desprezo gigantesco pela maneira correta de usar a palavra. E mais, o abuso de linguagem denuncia um comprometimento fundamental com o que chamamos, semana passada, de materialismo enquanto pressuposição metafísica.

Vocês se lembram que fiz uma distinção entre materialismo enquanto suposição metodológica e materialismo enquanto suposição metafísica. A ciência é materialista; ela estuda o mundo material à sua maneira e tenta, sempre que possível, fornecer explicações de âmbito material. Por outro lado, o materialismo metafísico é uma suposição a priori de que a matéria é tudo o que existe no mundo.

Também disse, semana passada, que a ciência, estando confinada ao mundo material, pode responder a pergunta “como?” mas não a pergunta “por que?”, em última instância. A pergunta “Por que estamos aqui?” situa-se fora do escopo da investigação científica. É uma pergunta que a ciência não deveria nem mesmo formular, muito menos responder.

No entanto, a questão se a vida na terra evoluiu de uma sopa primordial de elementos situa-se, sim, no escopo da ciência. É uma questão legítima. Mas o fato de ser legítima não significa que ela possa ser respondida definitivamente.

Vamos começar do começo. O elemento central de quase todas as definições da palavra “fato” é a inegabilidade. Um fato é algo que nenhuma pessoa sã pode negar.

Ora, imaginem que estejamos trabalhando numa escavação arqueológica e que descubramos alguns fósseis – vamos chamá-los de grupo fóssil A – numa determinada profundidade que chamaremos de camada 4. A descoberta do grupo A na camada 4 é um fato. É claro que alguém do outro lado do mundo poderia negar tal descoberta, mas, pelo menos para as pessoas que descobriram os fósseis, trata-se de um fato, não importa o que os outros pensem.

Imagine agora que encontramos outra série de fósseis – o grupo B – numa camada mais profunda, que chamaremos de camada 9. Isso também é um fato. Porém, nenhum desses fatos, em si e por si, são interessantes.

Todavia, com base no que sabemos sobre o solo e as camadas rochosas, concluímos que o grupo B é mais antigo que o grupo A, porque foi encontrado num nível mais profundo. Isto é um fato? Propriamente falando, não; é uma inferência. Mas poderia ser uma inferência tão bem embasada que nenhuma pessoa séria se atreveria a negá-la. Nesse caso, muitas pessoas concordariam em chamar tal inferência de “fato”.

Mas note que, nesse caso, estamos usando a palavra “fato” de maneira coloquial. Há uma grande diferença entre dizer “encontramos o grupo B na camada 9” e “o grupo B é mais antigo que o grupo A”. A primeira afirmação é confirmada pela observação direta; a segunda é produto de inferência, mesmo que seja bem embasada.

Sigamos em frente. Com base em evidências, podemos inferir uma relação entre o grupo B e o grupo A. Realmente, podemos concluir que o grupo A é resultado de um desenvolvimento evolucionário do animal cujos fósseis estão no grupo B. Além disso, posso imaginar uma situação na qual as evidências disso são tão abundantes que, novamente, nenhuma pessoa em sã consciência a negaria. Isso também seria chamado de “fato”, embora em sentido coloquial.

Mas a gente sabe que quando os cientistas aparecem na TV e proclamam que “a evolução é um fato”, eles não querem dizer que uma determinada espécie evoluiu uma determinada característica com o passar do tempo. Se fosse assim, até eu concordaria com o uso da palavra “fato”.

Mas não é isso que eles querem dizer. Eles querem dizer que toda vida na terra evoluiu até o presente estado a partir de formas simples de vida, e que tudo isso aconteceu por processos puramente naturalistas. Ora, isto pode ou não ser verdade, mas dificilmente poderíamos dizer que se trata de um fato inquestionável. Pelo contrário: trata-se de uma generalização indutiva que, em si, se baseia numa série de inferências que, em si, são derivadas de “fatos”. Em outras palavras, os cientistas concluíram que, para além da dúvida razoável, as espécies mudam com o passar do tempo e se adaptam a seus ambientes – seria absurdo negar isto – e, a partir daí, generalizaram, afirmando que o mesmo mecanismo se aplica a todas as vidas do planeta.

Ora, até mesmo quem acredita nisso deveria admitir que se trata de uma generalização bastante ambiciosa. Além do mais, pessoas razoáveis podem e, na verdade, discordam se tal generalização é um “fato”. A evolução, nesse sentido, simplesmente não pode ser chamada de fato por quem quer que entenda o que essa palavra realmente signifique.

Agora, preciso dizer algumas coisas sobre a “seleção natural”. Ela também não é um “fato”; é uma hipótese. A seleção natural seria o mecanismo pelo qual a evolução ocorreria. E, que fique claro, trata-se de uma hipótese bastante útil, que explica um grande número de “fatos” observados. Por outro lado, há outros fatos que não são facilmente explicados pela seleção natural.

Isto é importante porque para inferir que há uma relação evolucionária entre dois grupos fósseis, é necessário fornecer uma explicação plausível para que tal desenvolvimento tenha ocorrido. Ausente tal mecanismo, há pouca razão para inferirmos uma relação evolucionária.

É por isso que eu fico irritado quando ouço alguém dizendo: “Podemos não saber exatamente como a evolução ocorre, mas que ela ocorre é um fato”. Ora, isso é um absurdo. Explicar como as coisas acontecem é o papel da ciência. Insistir numa relação entre dois fatos, mesmo que não haja uma explicação materialista para como eles se relacionam, não é nada melhor do que invocar fadas e duendes para explicá-los. E nós é que somos acusados de usar “Deus” para preencher as falhas de nosso conhecimento.

Tudo isso nos leva de volta aonde começamos. Por que os cientistas que, afinal, são pessoas racionais, insistem em fazer afirmações absurdas? A resposta é que muitos deles estão comprometidos com o materialismo, não enquanto pressuposição metodológica, mas enquanto artigo de fé metafísico. Para muitos deles, o cientificismo, e seu dogma principal, o evolucionismo, é um culto religioso.

No final das contas, não faço a menor idéia se os humanos foram criados como são ou se são produto de desenvolvimento de formas pré-humanas. Mas o que eu sei é que as evidências para tal desenvolvimento estão muito longe de serem conclusivas. E sei também que aqueles que insistem nessa idéia estão partindo de pressuposições metafísicas que são totalmente diferentes das nossas, e que freqüentemente promovem visões políticas e sociais que também são totalmente diferentes da nossa visão ortodoxa.

A ciência não está em conflito com nossa fé ortodoxa. Não temos nada a temer da investigação científica honesta. O cientificismo, por outro lado, é uma religião competidora. E temos de estar alertas para isso.

E que nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, que criou o universo sem os palpites de Carl Sagan ou Stephen J. Gould, pelas intercessões de Santo Inocêncio do Alaska e do abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e conceda-nos uma entrada rica em Seu reino eterno.

Meu nome é Clark Carlton, falando para a Ancient Faith Radio.

4 de dezembro de 2007

Fé e ciência I: A ciência tem de ser materialista?

Creio que as grandes questões culturais e filosóficas de nosso tempo devam ser analisadas e entendidas a partir de uma mentalidade devidamente fundada na Tradição e na autoridade mística e dogmática dos Santos Padres. O podcast de Clark Carlton procura fazer exatamente isso, especialmente na série Faith and Science, já citada anteriormente, e cujas transcrições o autor gentilmente me encaminhou e que passo a publicá-las aqui.

Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra (Isaías 1:18-19).

Olá. Bem-vindos de volta ao programa Faith and Philosophy [Fé e Filosofia]. O assunto de hoje é Fé e Ciência.

Gostaria de novamente tocar num assunto do qual falei no começo deste ano, numa série sobre Ortodoxia e a cultura moderna. Já que a relação entre fé e ciência é um assunto sempre conflituoso neste país, achei que fosse uma boa idéia tentar dar meus pitacos a respeito.

Hoje, pretendo me focar especificamente na definição e no escopo da ciência, e, em particular, na sua relação com a doutrina filosófica do materialismo, que afirma que a matéria (acho que tenho que emendar essa fórmula um pouquinho, dizendo: matéria mais energia) é a única realidade.

Estou levantando essa questão porque uma das críticas mais comuns que os evangélicos fazem contra a ciência moderna é que ela é materialista. Isso parece ser algo ruim. Seria preciso uma abordagem científica que não estivesse comprometida com o materialismo. Uma que estivesse aberta a coisas como design e criação inteligentes.

Todavia, tais críticas, que encontramos nas obras de Philip Johnson, entre outros, tendem a fazer vista grossa a uma distinção crucial. Há uma diferença enorme entre materialismo enquanto pressuposição metodológica e materialismo enquanto pressuposição metafísica.

O que quero dizer é o seguinte: A ciência estuda o mundo material. Seu método básico é o da observação empírica. A razão e a matemática são invocadas para que tais observações façam sentido, mas isso não muda o fato de que a fundação de toda a ciência moderna é a observação. A ciência lida exclusivamente com o que pode ser experimentado e/ou medido.

Portanto, a ciência é metodologicamente materialista, pois lida exclusivamente com o mundo material. Quando um fato ou evento material é observado, os cientistas tentam encontrar uma causa para ele. É isso o que os cientistas fazem. Por isso, “ciência criacionista” é algo que não faz sentido. A ciência não tem como avaliar a afirmação de que algo na natureza (ou a natureza em si) foi causado por algo fora da natureza.

Nem mesmo a ciência do “design inteligente” faz sentido. Tudo bem, admito que certos aspectos do design inteligente tenham implicações filosóficas: por exemplo, o conceito de Michael Behe da complexidade irredutível. Contudo, mesmo isso não é ciência, pois se trata de uma crítica filosófica ao método científico em si. Ele diz que há certas coisas em nosso mundo que a seleção natural não é capaz de explicar. A propósito, eu concordo com essa idéia. Mas ela não fornece um modelo alternativo porque um Designer inteligente não é algo testável.

Mas e se não houver nenhuma resposta materialista a determinado problema? E daí? Bem, é neste ponto que a ciência pára de atuar. Pois a ciência é metodologicamente materialista e, portanto, por definição, limitada ao universo material. A ciência pode perguntar “Como?” no sentido de quais circunstância e ações materiais provocaram este evento em particular, mas ela não consegue perguntar “Por quê?”, filosoficamente falando.

Mas nós sabemos muito bem que os cientistas raramente se contentam com esse horizonte limitado. Para muitos, a ciência deve perguntar “Por quê?”. Porém, é neste ponto que cruzamos a fronteira da ciência genuína e entramos no cientificismo, e a demarcação entre uma coisa e outra é exatamente a adoção, por parte do cientificismo, do materialismo enquanto pressuposição metafísica.

Gente como Carl Sagan e Richard Dawkins podem ser considerados como expoentes desse tipo de raciocínio. Toda sua abordagem científica é marcada pela suposição metafísica de que o mundo material é tudo o que existe ou pode existir. Assim, a teoria da seleção natural, por exemplo, não apenas descreveria o processo mecânico pelo qual os organismos mudam e evoluem, mas é também a chave para entender o sentido de toda a existência biológica.

Ora, não há absolutamente nada científico nesse tipo de suposição. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein ensinava que se você desenhasse uma linha e dissesse “A realidade termina aqui”, você estaria fazendo uma afirmação metafísica, mesmo que dissesse que do outro lado dela não houvesse nada.

A ciência, enquanto ciência, deve ser agnóstica nessas questões porque estão além do seu escopo.

Deixe-me ilustrar isso melhor, citando Tomás de Aquino. Muitos aprenderam na faculdade as “Cinco Provas” de Tomás de Aquino para a existência de Deus. A essência de seu argumento é algo que mais tarde foi chamado de argumento cosmológico para a existência de Deus. Embora associemos este argumento com Tomás de Aquino, o grosso veio integralmente de Aristóteles.

Vou dar aqui uma versão “Reader´s Digest” da coisa. Sabemos que um corpo em repouso permanecerá em repouso até que uma força externa atue sobre ele. Portanto, se um objeto físico for movido, ele teve que ser movido por outro objeto ou força física. Pense num dominó, por exemplo. Se esse dominó cair, deve ter havido uma razão ou causa para isso. Uma rajada de vento, isto é, ar em movimento, deve ter atingido o dominó, ou um objeto caiu sobre ele (outro dominó, talvez). Mas o ponto é: o que quer que tenha movido o dominó também estava se movendo pois, do contrário, não teria movido o dominó.

Digamos que o dominó A tenha caído, ocasionando a queda subseqüente do dominó B. Mas eis a questão: O que fez o dominó A cair? Teoricamente, poderíamos prosseguir com essas perguntas para sempre, mas Aristóteles diz que não. Ele ensinava que o movimento teve que ter um início, para além do qual não poderíamos prosseguir. Mas o Primeiro Motor tinha que ter uma característica bastante particular. O Primeiro Motor não poderia ser movido, senão teríamos de perguntar o que o moveu. Portanto, o Primeiro Motor é um Motor Imóvel, e isto, Tomás de Aquino acrescenta, meio afoito para meu gosto, todo mundo sabe que é Deus.

O maior problema nessa história é que nem todo mundo concorda com Aristóteles, ou seja, nem todo mundo concorda que uma regressão infinita é impossível. Muitos cosmólogos modernos propõem um universo infinito, e isso não lhes dá nem um pouco de insônia.

Porém, este argumento nos ajudará a esclarecer o tópico aqui em discussão. A maioria das pessoas despreza o fato de que no contexto da disputa na qual as Cinco Provas se inserem o argumento cosmológico desempenha um papel importante. Tomás de Aquino está lidando com a objeção de que a existência de Deus seria desnecessária porque poderíamos explicar o mundo sem Deus. Se pensarmos a respeito, veremos que é exatamente o que muitos ateístas modernos e devotos do cientificismo dizem.

Ora, o ponto crucial do argumento de Tomás de Aquino é demonstrar que nenhum sistema é auto-explicativo. As leis da física explicam os movimentos no interior do cosmos, mas elas não podem explicar a existência do próprio cosmos. Em outras palavras, este argumento levanta a seguinte questão: Por que há algo ao invés do nada? O ponto crucial deste argumento é mostrar que a questão não pode ser respondida de dentro do próprio sistema.

Assim, chegamos a uma dicotomia cabal. Ou o mundo teve um Início, que situa-se fora do mundo e é completamente distinto de qualquer coisa do Cosmos (um Motor que move sem ser movido), ou o cosmos de uma forma ou de outra sempre existiu e sempre existe.

Se a primeira hipótese for a verdadeira, então temos de buscar um sentido para nossa existência fora da ciência; conforme notara Wittgenstein, se houver algum sentido no mundo, ele tem de estar fora do mundo. Por outro lado, se o mundo não teve começo então não pode ter sentido também. É simplesmente assim. A pergunta “Por quê?” seria não apenas irrelevante, mas sem sentido. Ela não pode nem mesmo ser perguntada.

Portanto, voltamos aonde começamos. A ciência pode responder à pergunta “Como?”. Como os furacões se formam? Como os organismos se adaptam ao meio-ambiente? etc. Mas a ciência não pode perguntar, muito menos responder, questões como: Por que há algo ao invés do nada? Qual o sentido da vida humana?

Mas sinto que estou indo longe demais, então vou continuar esse assunto na próxima semana, quando abordarei a questão da evolução.

E que nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que criou o universo sem a ajuda de cientistas ou pseudo-teólogos, pelas intercessões de Santo Inocêncio do Alaska e do abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e conceda-nos uma entrada rica em Seu reino eterno.

Meu nome é Clark Carlton, falando para a Ancient Faith Radio.

9 de novembro de 2007

Deus e a ciência

Clark Carlton, professor de Filosofia e autor de livros de apologética da Igreja Ortodoxa, explica neste podcast que a ciência empírica pode e deve ser metodologicamente materialista e agnóstica, pois lida sempre com experiências e medidas, mas que muitos cientistas modernos inadvertidamente estendem o escopo da ciência e procuram aplicar essa metodologia agnóstica também à metafísica. É justamente neste ponto que cessa a ciência genuína e se inicia algo maligno: o cientismo (ou cientificismo), categoria na qual se enquadram Carl Sagan, Richard Dawkins etc. Há uma clara distinção entre o escopo da ciência e o escopo da religião, que não devem jamais se confundir nem mesmo precisam se harmonizar.

Em suma: as ciências podem explicar somente como os furacões se formam, como as borboletas se reproduzem etc., mas é incapaz, em si e por si, de explicar a si própria. Por exemplo, as leis da Física são capazes de explicar os movimentos que ocorrem no inteiror do cosmos, mas são incapazes de explicar a origem do próprio cosmos, que deve ser necessariamente algo exterior a si próprio).

23 de julho de 2006

A abolição do Homem e o triunfo da Natureza

O escritor britânico C.S. Lewis (1898-1963), nascido na Irlanda do Norte, tornou-se relativamente conhecido no Brasil após o lançamento do filme As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Compondo uma série de sete excelentes histórias infantis, As Crônicas de Nárnia não representam, no entanto, o que há de melhor nos escritos de Lewis: seus livros de não-ficção.

Lewis foi ateu por muitos anos até que, em 1931, converteu-se ao Cristianismo, passando a freqüentar a Igreja Anglicana e a participar de seus ritos e cultos. Sua maior preocupação, porém, não era propagar especificamente a doutrina anglicana, mas explicar aos leitores os fundamentos do Cristianismo, fundamentos esses que Lewis entendia serem comuns a todas as denominações cristãs. Mas talvez ainda mais importante do que suas obras apologéticas sejam as contribuições de Lewis para refutar as bases do pensamento modernista, que se julga evoluído e mais inteligente em relação a seus antepassados atrasados, supersticiosos e burros.

The Abolition of Man (A Abolição do Homem) é, certamente, a obra de crítica ao modernismo mais conhecida de Lewis. Como o conservadorismo é, sob certos aspectos, uma reação ao modernismo e suas ideologias políticas - e sendo Lewis ele mesmo um conservador - espero, com este pequeno resumo, contribuir na formação do pensamento conservador brasileiro. Vou concentrar-me no argumento de Lewis, sendo que algumas questões paralelas por ele discutidas, embora pertinentes e importantes, serão desconsideradas, a título de brevidade.

* * *

C.S. Lewis inicia sua argumentação lançando uma crítica ao Livro Verde, escrito por Gaius e Titius. Trata-se de um livro de inglês, destinado a "meninos e meninas das últimas séries". Na verdade, tanto o nome do livro quanto dos autores são pseudônimos, uma vez que o propósito de Lewis é criticar as idéias ali contidas, e não propriamente os autores; Lewis não quer passar a impressão de que tem algo pessoal contra eles.

No segundo capítulo, Gaius e Titius citam a conhecida história de Coleridge na cachoeira. Havia dois turistas presentes: um a chamou de "sublime", e o outro, de "bonita". Dizem os autores: "Quando o homem disse Isto é sublime, ele parecia fazer um comentário sobre a cachoeira... Na verdade... ele não estava falando da cachoeira, mas dos seus próprios sentimentos. O que ele realmente disse foi Eu tenho um sentimento que minha mente associa à palavra 'Sublime'... Essa confusão está sempre presente na nossa linguagem. Aparentamos dizer algo muito importante sobre alguma coisa, e na verdade estamos apenas dizendo algo sobre nossos próprios sentimentos".

Lewis percebe nesse raciocínio, à primeira vista inofensivo, uma visão-de-mundo repulsiva. Dessa explicação de Gaius e Titius depreende-se que:

1) Todas as frases que contenham julgamentos de valor ('Isto é sublime' etc.) são, na verdade, expressões sobre o estado emocional de quem as emite.

2) Essas expressões não têm nenhuma importância.

Lewis critica duramente tais tentativas modernas de 'desmascarar' emoções, afirmando que (1) fazer crítica literária é difícil, já 'desmascarar' a emoção com base num lugar-comum racionalista está ao alcance de qualquer bocó e (2) a mente dos jovens, ao contrário do que se pensa, não precisa ser resguardada de supostos excessos de sensibilidade, mas, ao contrário, precisa ser "despertada do sono da fria vulgaridade".

Para entender a perversão empreendida por Gaius e Titius, Lewis explica que "Até bem recentemente, os homens em geral acreditavam que o universo tinha uma natureza tal que nossas reações emocionais poderiam tanto ser congruentes como incongruentes em relação a ele - acreditavam, na verdade, que os objetos não são meros receptores, mas podem merecer nossa aprovação ou desaprovação, nossa reverência ou nosso desprezo. O homem que chamou a queda-d'água de sublime não tinha simplesmente a intenção de descrever as suas próprias emoções: ele também afirmava que o objeto merecia tais emoções" (grifos do autor). A partir daí, Lewis cita uma série de autores antigos, desde Aristóteles e Platão até Santo Agostinho, lembrando que a educação tradicional por eles sugerida, ao contrário de 'desmascarar' emoções, era precisamente treinar o jovem a sentir prazer, repulsa e ódio em relação às coisas que realmente são prazerosas, repulsivas e odiáveis.

Em suma, há uma doutrina do valor objetivo, uma ordem objetiva, por assim dizer, ao qual todas as tradições, de uma maneira ou de outra, se referem a respeito do que é o universo e do que somos nós. Pois essa ordem objetiva é a responsável por gerar a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras e outras realmente falsas. A título de brevidade, já que as tradições dão diferentes nomes a essa ordem, Lewis a chamará sempre de Tao. "E, uma vez que nossas aprovações e desaprovações são assim reconhecimentos do valor objetivo ou respostas a uma ordem objetiva, os estados emocionais podem portanto estar em harmonia com a razão (quando sentimos afeição por aquilo que merece aprovação) ou em desarmonia com ela (quando percebemos que a afeição é merecida mas não conseguimos senti-la). Nenhuma emoção é, em si mesma, um julgamento...todas as emoções e sentimentos são alógicos. Mas eles podem ser razoáveis ou irrazoáveis na medida em que se conformam à Razão ou não conseguem conformar-se".

Os homens que estão fora do Tao podem, assim, adotar duas posturas: (1) como Gaius e Titius, devem se empenhar em remover os sentimentos da mente das novas gerações ou (2) encorajar sentimentos por razões que nada tenham a ver com "pertinência" ou "merecimento" intrínsecos.
A primeira opção, isto é, a mera tentativa de neutralizar ou reverter os sentimentos despertados perante objetos e situações, a título de tornar as pessoas "objetivas" ou "racionais" resultará no que Lewis chama de "homens sem peito". Essa expressão foi inspirada em Alanus ab Insulis, segundo o qual a cabeça domina o estômago por meio do peito - que é o trono das emoções transformadas em sentimentos estáveis pelo hábito treinado. A cabeça é a razão, o peito os sentimentos estáveis e o estômago as emoções viscerais, desmedidas, irrazoáveis. Não é sem espanto constatarmos que, atualmente, pessoas assim são chamadas de "intelectuais". Lewis afirma, com um leve toque irônico, que "Suas cabeças não são maiores que as comuns: é a atrofia do peito logo abaixo que faz com que pareçam assim".

Ora, se pensarmos de maneira mais detida sobre essa questão, em especial sobre os autores do Livro Verde, veremos que não é verdade que eles desejem criar "homens sem peito". Isso fica claro quando percebermos que o próprio Livro Verde, o próprio fato de ter sido escrito e publicado, é um desejo de incutir novos valores e sentimentos nos leitores. Parece que os autores desmascaram os sentimentos e valores, e efetivamente o fazem, mas não é verdade que desejem parar por aí, senão não teriam escrito o livro que, exatamente pelo fato de ser sido escrito, manifesta um propósito de propagar novos valores aos jovens.

Titius e Gaius, ou quaisquer Inovadores que, semelhantemente a eles, desejem posicionar-se fora do Tao mas, mesmo assim, encontrar bases "realísticas" para novos valores, podem adotar duas posturas:

1) A base realística do "verdadeiro valor" reside na utilidade da ação para a comunidade. Ou seja, bom é aquilo que é útil para a comunidade. Mas tal postura exige a solução de um dilema: se nem toda a comunidade pode morrer, pois nesse caso a comunidade se extinguiria, então alguns membros dela deverão se sacrificar para proteger toda ela, como soldados num país em guerra. Levanta-se aqui a razoabilíssima questão: "Por que logo eu deveria ser um dos que se arriscam?" No fim das contas, o Inovador terá de apelar, afirmando que "a sociedade tem de ser preservada" é uma proposição racional em si, e não meramente sentimental; mas isso equivaleria, precisamente, a retornar ao Tao!

2) A base realística do "verdadeiro valor" reside nos instintos. Ora, mas isso é uma grande bobagem: dizer que alguém deve agir em obediência ao instinto é apenas uma maneira elegante de dizer que não se sabe por que agir assim. Afinal, alguns instintos devem ser obedecidos, outros não. Mesmo os Inovadores mais empedernidos reconhecem isso. Todavia, voltamos à questão: quais as bases para se privilegiar um instinto e desprezar outro? No fim das contas, o Inovador terá de apelar a um critério de decisão sobreposto ao instinto, dando cabo da própria teoria dos instintos.

Percebemos então, em ambas as posturas acima, que os Inovadores atacam os valores tradicionais, o Tao, fazendo uso velado e deformado do próprio Tao. Lewis afirma que as ideologias surgem exatamente daí: "Tudo aquilo que se pretende ser um novo sistema ou (como se diz agora) uma 'ideologia' consiste em fragmentos do próprio Tao, arbitrariamente arrancados de seu contexto e então hipertrofiados até a loucura em seu isolamento, mas devendo ainda ao Tao, e somente a ele, a validade que possuem". E conclui: "A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova".

Ora, quando os homens optam por sair do Tao, qual sistema de valores passarão a adotar? Se você não se dispõe a obedecer ao Tao, tampouco a cometer o suicídio, a obediência aos impulsos e gostos imediatos é a única via possível. Quando todas as noções que dizem "isto é bom" são desmoralizadas, permanece a que diz "eu quero".

O homem moderno, os Inovadores e Manipuladores do nosso tempo, sem o Tao ou com um Tao brutalmente deturpado, passam a manipular a Natureza, a fim de satisfazer seus desejos imediatos. É a chamada "conquista da Natureza pelo Homem", um eufemismo para o progresso das ciências aplicadas.

Lewis mostra que essa conquista, além de falsa, é inversa: é a Natureza que está conquistando o Homem. Todas as invenções, todos os "avanços" e "progressos", não representam o poder do Homem sobre a Natureza, mas o poder de alguns homens sobre o resto dos homens com a Natureza como instrumento. Avião, rádio, internet: não se pode dizer que estamos conquistando a Natureza com eles. Afinal, o Homem é tanto sujeito quanto objeto de tal poder: aviões são bons, mas não quando nos jogam bombas na cabeça; o rádio é bom, mas não quando terroristas o usam para intercomunicarem-se; a internet é boa, mas não quando é usada por Manipuladores para vasculhar nossa intimidade.

O que se quer dizer com isso é que essas invenções, muito além de apenas nos trazerem confortos e divertimentos, trazem em si o acúmulo cada vez maior de poder nas mãos de alguns poucos homens, à medida que a modernidade "avança". Lewis nos propõe um exercício de imaginação: como será o século C d.C.? Como estaremos vivendo lá pelo ano 10.000 d.C.? Quanto mais o tempo passa, cada vez menos homens têm cada vez mais poder em suas mãos. "Os últimos homens, longe de serem os herdeiros do poder, serão os que mais estarão sujeitos à mão mortal dos grandes Planejadores e Manipuladores, e serão os menos capazes de exercer algum poder sobre o futuro. Cada novo poder conquistado pelo homem é da mesma forma um poder sobre o homem. Cada avanço o deixa mais fraco, ao mesmo tempo que mais forte. O último estágio virá quando, mediante a eugenia, a manipulação pré-natal e uma educação e propaganda baseadas numa perfeita psicologia aplicada, o Homem alcançar um completo domínio sobre si mesmo. A natureza humana será a última parte da Natureza a se render ante o Homem".

Estes homens do futuro não serão homens: serão artefatos. "A conquista final do homem mostrou-se a abolição do Homem". A raça humana estará sujeita a alguns poucos indivíduos que, por sua vez, estarão sujeitos àquilo que neles mesmos é puramente "natural" - aos seus impulsos irracionais. A Natureza controla os Manipuladores, vencendo-os, em vez deles a vencerem.

Todas as coisas estarão reduzidas à mera condição de Natureza com o propósito, vejam vocês, de "conquistá-las". Isso tudo porque, estando fora do Tao, nossos valores resumem-se a impulsos e gostos. Lewis nos explica que "quando compreendemos uma coisa analiticamente e a dominamos e usamos para a nossa própria conveniência, nós a reduzimos à condição de 'Natureza'...e a tratamos quantitativamente. Realiza-se a supressão de certos elementos, impedindo que tenhamos uma percepção completa do objeto. As estrelas perderam seu aspecto divino conforme a astronomia se desenvolveu, e o Deus Morto não tem nenhuma função na agricultura da era química. As grandes mentes sabem muito bem que o objeto, tratado dessa forma [analítica], não passa de uma abstração artificial, e que com esse processo algo da sua realidade foi perdido".

A esse processo no qual o Homem cede cada vez mais objetos e, finalmente, a si próprio, em busca de poder, Lewis chamada de "oferta de bruxo". Uma expressão certamente surpreendente, uma vez que a nós parece que ciência aplicada e bruxaria situam-se em pólos opostos. Lewis explica, porém, que "Existe algo que une a bruxaria e a ciência aplicada ao mesmo tempo que se separa da 'sabedoria' dos tempos antigos. Para os sábios da antiguidade, o problema principal era como conformar a alma à realidade, e a solução encontrada foi o conhecimento, a autodisciplina e a virtude. Tanto para a bruxaria quanto para a ciência aplicada, o problema é como subjugar a realidade aos desejos dos homens, e a solução encontrada foi uma técnica; e ambas, ao praticarem essa técnica, se põem a fazer coisas até então consideradas repulsivas e impiedosas - tais como desenterrar e retalhar cadáveres".

A solução para esse terrível problema? Lewis até mesmo imagina e cogita uma "ciência regenerada", uma ciência que, ao tentar explicar algo, não abolisse esse algo, adquirindo o conhecimento por um preço mais módico do que a vida. Mas a tarefa de efetivamente propor um plano que reverta ou neutralize a ciência moderna parece estar acima da capacidade de Lewis, que admite nem mesmo saber exatamente o quê está pedindo com essa "ciência regenerada".

14 de março de 2006

Verdade em religião


Em Truth in Religion, Mortimer J. Adler responde a uma pergunta fundamental: Como detectar o que é verdadeiro e falso nas diversas religiões? Originalmente feita em Six Great Ideas, a pergunta procura sondar se há elementos transculturais nas religiões, ou se elas não passam de questão de gosto, como é o caso da culinária, da moda etc.

A resposta, como veremos a seguir, não é de difícil compreensão. Em verdade, a resposta é uma análise das religiões cujos critérios podem ser resumidos no próprio subtítulo do livro -- The Plurality of Religions and The Unity of Truth (A Pluralidade das Religiões e a Unidade da Verdade) -- embora tal subtítulo não seja autoexplicativo, merecendo maiores elucidações. Adler, como sempre, é cuidadoso em preparar o terreno antes de embrenhar-se na resposta.

Mas antes de mergulharmos no raciocínio do autor, algumas considerações merecem ser citadas. Retirei deste estudo as ácidas críticas que Adler dedica a algns filósofos e teólogos (Wendy Doniger O´Flaherty, Joseph Campbell, Harvey Cox e Hans Küng) não porque não concorde com elas, mas porque elas pouco acrescentam ao estudo, servindo apenas para reforçar o argumento de Adler. Como fiz em Six Great Ideas, retirei também as considerações de Adler a respeito da Física Quântica e o princípio da incerteza de Heisenberg, por dois motivos: (1) O assunto merecerá de mim um estudo à parte, pois Adler versa sobre a questão em outras obras, sob diversos ângulos, e (2) o assunto é marginal ao tema aqui tratado.

Ao final, mesmo em posse de sólidos critérios para verificar se uma religião é verdadeira, Adler tece considerações a respeito das religiões do Extremo Oriente que são, no mínimo, polêmicas.

Mais uma vez, peço desculpas ao leitor pela brevidade e simplicidade do estudo. Nem preciso dizer que as palavras são minhas, não do autor, e qualquer barbeiragem nas explicações deve ser debitada em minha conta.

A lógica da verdade

(1) As diversas religiões se opõem principalmente em termos de contrariedade. Um exemplo de contrariedade é a afirmação segundo a qual Deus existe e a afirmação segundo a qual muitos deuses existem. Ambas afirmações não podem ser simultaneamente verdadeiras, mas ambas podem ser simultaneamente falsas. Afinal, um meio-termo entre as afirmações é possível como, por exemplo, a afirmação segundo a qual Deus nem deuses existem. Tal contrariedade é o que chamamos, em lógica, de disjunção fraca.

Raramente as religiões se opõem em termos de contradições. Isso quer dizer que raramente há um choque de afirmações a partir da qual somos obrigados a tomar um dos lados como verdadeiro e o outro como falso, isto é, ambos não poderiam ser simultaneamente verdadeiros nem ambos poderiam ser simultaneamente falsos. Esse tipo de disjunção, incomum às religiões, é o que chamamos em lógica de disjunção forte.

(2) As questões de verdade religiosas, ao contrário das ciências empíricas e racionais, estão além da prova, ou seja, qualquer proposição religiosa tida como correta ou incorreta não pode ser avaliada por pesquisas empíricas ou investigações racionais. Por exemplo, a crença em Deus, o Criador do Céu e da Terra, é um artigo de fé cristão, judaico e muçulmano. Os artigos de fé não podem ser provados ou refutados.

No entanto, mesmo sendo os artigos de fé irrefutáveis, isso não quer dizer que não contenham verdades em si. E se contêm verdades em si, então as crenças religiosas incompatíveis devem ser submetidas à lógica da verdade assim como qualquer proposição científico-empírica, isto é, ambas não podem ser simultaneamente verdadeiras.

(3) Que a verdade é a correspondência do que pensamos ou afirmamos com a realidade, já sabemos do estudo de Six Great Ideas. Mas como podemos determinar ou testar tal veracidade?

Para isso, Adler achou útil introduzir alguns conceitos do pragmatismo na busca da verdade. Em suma, se alegamos que algo seja verdadeiro, isto é, correspondente à realidade, então nossa ação baseada nessa proposição é um dos testes que permitirá julgarmos sua veracidade ou falsidade.

Isso serve apenas para lembrar que, caso sua veracidade seja confirmada, então nosso atual corpo de conhecimento deverá adaptar-se à entrada desta nova verdade, ganhando coerência com o todo.

Tal coerência foi introduzida na lógica da verdade por meio da controvérsia entre Santo Tomás e os defensores de Averróis. Segundo Averróis, há dois tipos distintos de verdade: as verdades da razão e as verdades da fé; sendo que as verdades da razão não entram em conflito com as verdades da fé e vice-versa, ou seja, algo que seja cientificamente ou filosoficamente verdadeiro poderia ser simultaneamente falso na fé religiosa.

Santo Tomás sustentava o contrário: ambas as verdades são do mesmo tipo, podendo entrar em conflito uma com a outra. Santo Tomás chamava de "averroísta" todo aquele que afirmava que as crenças religiosas e as proposições científicas não fazem parte do mesmo tipo de verdade. Ele ensinava que a verdade é um todo coerente e íntegro.

(4) Mas como os conflitos entre a religião e as outras partes da verdade devem ser resolvidos?

Adler conhece apenas uma maneira: o método de Santo Agostinho para interpretar as Escrituras Sagradas. Há duas regras, segundo Santo Agostinho, para interpretar as Escrituras Sagradas:
  1. Abrace as Escrituras Sagradas sem titubear, pois elas são a verdade revelada.
  2. Se uma dada interpretação das Escrituras Sagradas for provada falsa, abandone-a imediatamente.
E para provar se uma dada interpretação das Escrituras Sagradas é falsa, Adler apela para a doutrina da unidade da verdade de Santo Tomás, conforme descrita no item (3) acima. Por exemplo, se os especialistas em Inteligência Artificial lograrem êxito na construção de uma máquina indistingüível da inteligência humana, então a crença cristã na imortalidade da alma deverá imediatamente ser quesionada, uma vez que ela, por sua vez, está baseada na imaterialidade do intelecto humano.

Modernamente, julga-se conflitante a crença numa dimensão espiritual da realidade e as descobertas da física. Porém, o verdadeiro conflito não é com o conhecimento científico propriamente dito, mas com o materialismo dogmático dominante entre os cientistas. A existência dos anjos não é algo impossível. Uma proposição existencial pode ser provada, mas uma proposição existencial negativa não pode ser provada. Eis a fraqueza dos ateístas: tudo o que fazem é fornecer argumentos retóricos, não lógicos, cujo objetivo é desacreditar, e não refutar, a crença em Deus, anjos etc.

Mitologia e Religião

É necessário que estudemos alguns tópicos em religião, antes de concluirmos nosso raciocínio a respeito se há verdade nela, e como detectá-la.

(1) O que é religião? Segundo Adler, "Religião é uma forma organizada e institucionalizada de crença e conduta humanas que envolvem comunidades constituídas de tal maneira que um indivíduo e membro dela ou está fora dela, sendo que tal comunidade de membros consiste num número grande de pessoas". E eis as características que as religiões devem possuir:
  1. Alguma forma de adoração.
  2. Separação entre o que é sagrado do que é profano.
  3. Separação entre sacerdocidade e laicidade.
  4. Um código de leis, preceitos ou prescrições religiosas.
  5. Obrigação de seus membros afirmarem como verdadeira uma série de crenças explícitas, que constituem o credo.
(2) Como são classificadas as religiões? Elas são, grosso modo, classificadas da seguinte forma:
  1. Religiões que possuem uma ortodoxia, ou seja, credos explícitos na forma de artigos de fé dogmaticamente declarados vs. Religiões que possuem apenas uma ortopraxia, ou seja, prescrições explícitas e ortodoxia implícita.
  2. Religiões que afirmam uma ou mais divindades, chamadas de religiões teológicas monoteístas ou politeístas vs. Religiões que afirmam características espirituais do cosmos, chamadas de religiões cosmológicas.
  3. Religiões com pouco conteúdo mitológico vs. Religiões com muito conteúdo mitológico.
  4. Religiões que alegam base em Revelações, possuindo perfil mais religioso vs. Religiões que não alegam base em Revelações, possuindo perfil mais filosófico.
No quadro abaixo, preparado por Adler com o auxílio da Profª Wendy Doniger O´Flaherty, constam as grandes religiões e suas características aproximadas, segungo os critérios acima:
(3) Qual a relação entre mitologia e religião? Uma coisa é um mito quando ela é uma ficção, e não um fato. Todas as religiões devidamente institucionalizadas (especialmente as que possuem credos explícitos) são mitológicas.

As religiões contêm verdades poéticas, não verdades lógicas. Se forem tomadas como fatos, e não como ficção (um dos erros cometidos pelos cientistas e pelos religiosos fundamentalistas), todas as religiões seriam falsas. As religiões não são histórias propriamente ditas (embora contenham trechos eminentemente históricos, aos quais, sim, se apliocam os critérios das verdades lógicas), mas mitos, que formam a substância das verdades lógicas e factuais declaradas em suas doutrinas.

Mas o fato de serem mitos (verdades poéticas) não lhes subtrai seu significado. Pois algo pode ser perfeitamente significativo sem ser factualmente verdadeiro. É o caso, por exemplo, dos romances.

Não faz sentido tentar desmitificar trechos das Escrituras Sagradas quando eles não subtraem ou obscurecem as verdades lógicas e factuais da doutrina religiosa.

As estórias do Jardim do Éden, de Adão e Eva etc. são mitos, mas cheios de significados a serem extraídos por uma interpretação não-literal e não-narrativa.

A Verdade em Religião

(1) Adler afirma não ser permitido aplicar a lógica ocidental às culturas do Extremos Oriente porque lá ela não tem autoridade. O Extremo Oriente vive num estado psicologicamente esquizofrênico, aceitando de maneira latente, senão explicitamente, o averroísmo.

Em relação às religiões politeístas, dado que é possível provar a existência de Deus, criador do cosmos, tal prova acaba por refutá-las. Elas são incompatíveis com a teologia filosófica.

Em relação às religiões cosmológicas, dadas as verdades sobre o cosmos que as ciências naturais nos trazem, tudo aquilo que é incompatível com elas é falso. Elas são incompatíveis com a ciência empírica.

Como as religiões do Extremo Oriente são averroístas, tal incompatibilidade seguem olimpicamente ignoradas.

(2) Se esquecermos por um momento a ortodoxia das religiões e nos concentarmos em suas ortopraxias, veremos que elas aproximam-se em maior grau.

As doutrinas morais, em sua base, devem possuir uma filosofia moral consistente e sólida. As prescrições, para serem verdadeiras, têm de ser embasadas por verdades descritivas ou factuais. Por exemplo, a Regra de Ouro ("não fazer aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você") é afirmada por todos as grandes religiões, sejam ocidentais ou orientais. O pressuposto desta Regra é a verdade de que os homens diferem em tipo, não somente em grau, dos animais. Você não deve tratar os animais a partir do ensinamento desta Regra.

Mas esta observação é paralela, uma vez que o fato de as religiões compartilharem essas verdades filosóficas por meio de suas ortopraxias não tem a ver com uma igual equivalência entre suas crenças não-filosóficas.

Conclusão

A partir de tudo o que foi dito, Adler extrai dois princípios fundamentais a respeito da verdade em religião:

(a) Princípio da unidade da verdade. As diversas partes do todo da verdade devem ser mutuamente compatíveis, não importa de que maneira tais partes da verdade tenham sido extraídas ou recebidas.

(b) Princípio da transculturalidade. Num dado tempo qualquer, as verdades tecnológicas, matemáticas e das ciências naturais são transculturais; poranto, tudo aquilo que declare ser verdadeiro deve ser compatível com essas verdades científicas.

Se a religião e a filosofia são transculturais, suas verdades declaradas devem ser compatíveis com as verdades científicas. E, se for este o caso, então a teologia filosófica deverá ser adotada como critério para decidir o que é ou não é verdadeiro nas religiões.

É por isso que Adler não considera as religiões do Extremo Oriente como verdadeiras. Como não aceitam um Deus, mas muitos deuses independentes e des-hierarquizados, as religiões orientais politeístas vão de encontro à verdade do monoteísmo, provada pela teologia filosófica. Similarmente, as religiões orientais cosmológicas não aceitam (ou ignoram) as verdades sobre o cosmos provadas pela ciências naturais.

Adler conclui que apenas Judaísmo, Cristianismo e Islã podem ser consideradas religiões coerentes tanto com a teologia filosófica quanto com as ciências naturais.

Minha opinião é que Adler, embora correto ao delinear os princípios que ajudam a identificar religiões falsas ou incoerentes, está provavelmente errado ao condenar as religiões do Extremo Oriente segundo seus próprios critérios. Adler aparentemente aceita lugares-comuns ocidentais a respeito das religiões orientais ou simplesmente está mal informado. Talvez teria lhe feito bem tomar contato com os escritos perenialistas, como René Guénon, Fritjhof Schuon ou Ananda Coomaraswamy, o que provavelmente não lhe teria pedir muito, já que sua composição ideológica é essencialmente grega (Platão e Aristóteles) e cristã tradicional (Santo Agostinho e Santo Tomás).

Por exemplo, segundo informações de meu bom amigo Alexander Gieg, no Xintó "diz-se haver 8 milhões de divindades (kamis). Mas cuidado para não confundir: politeísmos "strictu sensu", isto é, onde os deuses são encarados como entes distintos e mutuamente independentes [justamente aquilo que Adler julga ser o Xintoísmo e demais religiões do Extremo Oriente], são religiões decaídas que perderam seu núcleo espiritual. Já os politeísmos tradicionais reconhecem que os deuses todos são na realidade expressões particulares de um princípio espiritual único, sendo no fundo, portanto, monoteístas".

22 de janeiro de 2006

O mistério das duas naturezas de Cristo

Recomendo a leitura do artigo The Mystery of the Two Natures, de James Cutsinger.

Em suma, Cutsinger conclui que a afirmação segundo a qual "Jesus é Deus" está correta, mas sob certo ponto de vista apenas. O erro, segundo ele, seria afirmar que Jesus é Deus e Deus é Jesus , ou seja, que em Jesus estavam presentes todos os atributos de Deus Pai.

Os Pais da Igreja repudiavam esse tipo de raciocínio, e até mesmo há, teologicamente, o nome das três heresias que se seguem a esse raciocínio:

1) A tradição ensina que foi o Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que encarnou-se em Jesus, não a Primeira Pessoa do Pai. Confundir as Pessoas ou, pior, igualá-las, constitui uma heresia chamada monarquianismo modalista.

2) Embora Cristo tenha participado integralmente em cada aspecto de nossa physis humana (exceto o pecado), ele não participava conosco de nossa personalidade humana. Ele era fisicamente homem pois sentia emoções, privações físicas (fome, sede etc.), mas era o Logos encarnado. Pensar que Jesus Cristo foi um "homem excepcional", sobre quem a divindade foi projetada, constitui uma heresia chamada monarquianismo dinamista.

3) As duas naturezas de Cristo estão hipostaticamente ligadas, de maneira que nenhuma eclipsa ou sufoca a outra, numa perfeita communicatio idiomatum. Supor o contrário, ou seja, que a humanidade de Jesus foi sobrepujada pela Divindade que nEle estava manifesta, constitui uma heresia chamada monofisitismo.

Cutsinger lembra que Jesus, embora tenha dito que Eu e meu Pai somos um, disse também Meu Pai é maior do que eu. Isso quer dizer que, embora Jesus seja Deus, ele é a Segunda Pessoa e apenas a Segunda Pessoa, permancendo Absoluto para as criaturas mas subordinado à Primeira Pessoa. É por isso que Jesus orava a Deus Pai. Se Jesus fosse Deus e Deus fosse Jesus, então para quê orar? Temos de admitir que a divindade de Jesus era derivativa, ou seja, Jesus não era a Essência Divina, mas a auto-determinação dessa Essência Divina ao nível do Ser. No entanto, como vimos, o argumento de Cutsinger é refutar a tese exclusivista segundo a qual Jesus = Deus. Dizer que Jesus é Deus está correto, mas a conexão verbal "é" não deve ser entendida como uma igualdade matemática ("Jesus é igual a Deus").

É aqui, nessa igualdade matemática, que muitos cristãos equivocadamente se apegam.

Cutsginer continua, raciocinando da seguinte forma: Ok, Jesus é o Filho de Deus, mas será Jesus o único Filho de Deus? Observem que o argumento do artigo refuta apenas a identidade exclusivista Filho = Pai, mas não o exclusivismo Jesus-único-Filho-de-Deus. Cutsinger afirma que os Pais da Igreja e as diversas fórmulas conciliares jamais deram a entender que Jesus fosse o único Filho de Deus mas admite que, dentro do "planeta" que cada religião representa (nas palavras de Schuon), é perfeitamente compreensível que se desenvolva um grau de egoísmo que contamine os dogmas exotéricos.

17 de janeiro de 2006

A Fé Explicada - O Credo

Em A Fé Explicada (The Faith Explained), cuja primeira edição data de 1959, o Pe. Leo J. Trese procura introduzir o catecismo católico explicando suas principais doutrinas e ensinamentos. O livro é excelente para aqueles que desejam conhecer a posição oficial da Igreja Católica a respeito dos dogmas centrais do Cristianismo mas não querem ainda tomar contato com opiniões e julgamentos alheios. Trese apega-se ao vocabulário utilizado no Catecismo Católico, o que permite ao leitor acostumar-se com ele desde já.

O ponto fraco do livro é que, por vezes, Trese acaba simplificando demais as explicações de certas questões, tornando inevitável o surgimento de dúvidas que só poderão ser sanadas em outras fontes.

O livro é constituído de três partes: (1) O Credo, (2) Os Mandamentos e (3) Os Sacramentos e a Oração. Neste post, resumirei apenas a primeira parte. Futuramente, as outras duas serão acrescentadas. Os nomes dos capítulos foram alterados para facilitar a consulta.

* * *

I - Por que estamos aqui? O que Deus quer de nós?

Por que nos fez Deus? Para participarmos de sua eterna felicidade no céu. A isso chamamos fruição do amor. (Vale lembrar que os momentos que experimentaremos no Céu - chamados de aevum pelos teólogos - não são ciclos temporais, cronometráveis). Essa fruição do amor no Céu exige um princípio de amor aqui na terra. E foi para isso que Deus nos colocou aqui: para que, amando-O, estabeleçamos os alicerces necessários para a nossa felicidade no Céu. O amor é como os olhos que nos permitem ver aqui na terra; o amor permitirá que "enxerguemos" a Deus no Céu.

E como sabemos se O amamos ou não? Simples: se fazemos o que Ele quer que façamos, então O amamos. É por isso que o amor a Deus reside na vontade, e não nos sentimentos. Não são os gemidos, choros ou gritos que dão testemunho de nosso amor a Deus. E quanto mais fizermos aqui por Deus, tanto maior será a nossa felicidade no Céu. Em conseqüência, uns terão maior capacidade de felicidade que outros.

P: Que devemos fazer para adquirir a felicidade no Céu? R: Devemos conhecer, amar e servir a Deus nesta vida.

Será que Deus nos deixa a sós na tarefa de conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo? Ou seja, será que Deus espera que nossas forças humanas sejam suficientes para cumprirmos essas tarefas? Não. Deus concede um poder sobrenatural aos bem-aventurados (já que a felicidade no Céu será sobrenatural, e não naturalmente humana como a da terra ou do limbo) chamado lumen glorie (luz de glória).

P: Quem nos ensina a conhecer, amar e servir a Deus? R: Jesus Cristo, o Filho de Deus, que nos ensina por meio da Igreja.

As principais verdades ensinadas por Cristo foram resumidas pela Igreja no Credo dos Apóstolos, o mesmo credo recitado pelos primeiros cristãos (Cornélio, Apolo, Áquila, Priscila e outros). E muitas das revelações divinas foram guardadas na Bíblia Sagrada. No entanto, muitos ensinamentos orais de Cristo e dos Apóstolos não foram registrados na Bíblia, sendo transmitidos de geração em geração por intermédio dos bispos. É o que chamamos de Tradição da Igreja, que, juntamente com a Bíblia, compõem a revelação divina completa, todas as verdades em que devemos crer.

II - Deus é um espírito infinitamente perfeito

Quem é Deus, afinal? Assim como os bebês bêm dos pais e as flores vêm das sementes, tem de haver alguém que não foi feito por outro, que tenha existido sempre, alguém que não teve começo. Segundo o catecismo, Deus é um espírito infinitamente perfeito; ou seja, é infinitamente bom; Seu conhecimento é infinito. Deus é onipresente e onipotente. Sua justiça é infinita, ou seja, é misericordioso para nos perdoar mas justo em não nos perdoar caso recusemo-nos a amá-Lo. Deus não é um tirano nem um velho bonzinho.

III - A Trindade

As verdades de fé como a da Santíssima Trindade chamamos de mistérios de fé. Isso quer dizer que Deus manifestou essa verdade, mas não por inteiro. Assim, temos de esperar chegarmos ao Céu para que Ele nos revele por inteiro.

A Trindade diz que há apenas uma natureza divina, mas três Pessoas divinas. Ao contrário dos homens, que possuem uma natureza e uma pessoa (por exemplo, numa sala de aula com quarenta alunos diremos que lá há quarenta pessoas), Deus possui três Pessoas.

1) Deus Pai. É Deus conhecendo-se (ou pensando) a Si mesmo. Como esse pensamento é perfeito, então deve incluir a existência, já que a existência é própria da natureza de Deus. Então...

2) Deus Filho. É a expressão do conhecimento (ou pensamento) de Deus sobre Si mesmo. A essa expressão viva chamamos Palavra ou Verbo Divino.

3) Deus Espírito Santo. É Deus enquanto resultado do amor por Si mesmo. O Pai e o Filho contemplam Sua natureza bela e boa, engendrando um amor em grau infinito. A esse amor vivo chamamos Amor Divino.

Nenhuma dessas pessoas é mais poderosa, mais sábia ou maior que as demais. Não há qualquer tipo de subordinação entre o Filho e o Pai, por exemplo.

IV - Os anjos e seu pecado original

As primeiras obras de criação divina são os anjos. Um anjo é um espírito, isto é, um ser com inteligência e vontade mas sem corpo. Eis a ordem ascendente dos anjos: anjos, arcanjos, principados, potestades, virtudes, dominações, tronos, querubins e serafins.

Deus fez os anjos com livre-arbítrio para que fossem capazes de fazer seu ato de amor a Deus. Mas Lúcifer, um dos anjos mais dotados, chefiou um rebelião de anjos, que se recusaram a servir a Deus. O terrível grito non serviam ("não servirei") percorreu os Céus. E assim começou o inferno. Ao contrário dos homens, as vontades dos anjos permanecem fixas contra Deus. Ao contrário dos homens, aos anjos não é possível o arrependimento. Fizeram a sua escolha por toda a eternidade. Neles arde um ódio eterno contra Deus e Suas obras. Eis então o objetivo do diabo: arrastar os homens ao mesmo caminho de rebelião contra Deus.

O diabo não é capaz de fazer-nos pecar. Quem peca somos nós. O diabo pode é nos tentar, mas vale lembrar que nem toda tentação vem do diabo. Elas podem vir do diabo, de paixões interiores e do mundo que nos rodeia.

Algumas considerações quanto às influências do diabo:

1) Possessão diabólica. Ela existe, conforme a Bíblia e a experiência da Igreja atestam. O diabo penetra no corpo de uma pessoa, controlando suas atividades físicas. Mas, mesmo na possessão, o diabo não controla a alma da pessoa.

2) Obsessão diabólica. É quando o diabo ataca de fora, derrubando a pessoa da cama, atormentando-a com ruídos horríveis etc.

O exorcismo é o rito religioso para expulsar o demônio de uma pessoa possessa ou obsessa. É quando a Igreja apena para sua própria Cabeça, o Cristo, para expulsar o demônio.

V - Os homens e seu pecado original

A alma do homem é espiritual como a dos anjos mas seu corpo é matéria como do animais. O homem tem, portanto, um pé na eternidade e outro no tempo. O corpo e a alma humanas se fundem, como o bronze, que não é nem cobre nem zinco, mas uma substância nova. Mas a parte mais importante da pessoa humana é a alma, pois ela é imortal, enquanto o corpo é mortal.

No início, Deus conferiu a Adão e Eva dons chamados preternaturais. Preternatural significa fora ou além do curso ordinário da natureza. Os principais dons preternaturais de Adão e Eva eram (1) uma sabedoria de ordem imensamente superior, um elevado conhecimento natural de Deus e do mundo, (2) uma elevada força de vontade e perfeito controle das paixões e dos sentidos e (3) ausência de dor e de morte. Quando tivessesem acabado seus anos de vida temporal, entrariam na vida eterna em corpo e alma, sem experimentar a terrível separação de alma e corpo a que chamamos morte.

Mas Deus também conferiu a Adão e Eva um dom sobrenatural. Sobrenatural significa algo que está totalmente sobre a natureza de toda e qualquer criatura. Esse dom sobrenatural que Deus conferiu a eles é o dom da graça santificante, que permite a participação na própria natureza divina.

Porém, ao desobedecerem a Deus e falharem na prova de amor a Ele, Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, que chamaos pecado original. Num instante, eles perderam todos os dons preternaturais e a graça santificante, reduzindo-se ao mínimo essencia que lhes pertencia pela sua natureza humana. Como todos nós estávamos potencialmente presentes naquele momento, todos sofremos esse pecado. É por isso que diz-se que nascemos em estado de pecado original.

É verdade que o Batismo nos devolve o dom sobrenatural da graça santificante, mas ele não restaura os dons preternaturais. De Adão para cá, um só ser humano (sem contar Cristo) possuiu uma natureza humana em perfeita ordem: a Santíssima Virgem Maria. Ela foi preservada desde o primeiro instante de sua existência da escuridão espiritual do pecado original. A este privilégio chamamos Imaculada Conceição de Maria.

VI - Os homens e seus pecados atuais; os sete pecados capitais

Além do pecado original, em cuja sombra nascemos, temos de enfrentar outro tipo de pecado: o que nós mesmos cometemos. É o pecado atual. O pecado atual pode ser venial ou mortal, segundo seu grau de malícia. O venial é o pecado de pequena gravidade. Um filho que desobedece os pais, ou conta uma mentirinha, comete um pecado venial, mas não por isso deixa de amar os pais. Mas um filho que desobedece os pais, ferindo-os ou afligindo-os intensamente, comete um pecado mortal, amando a si mesmo mais do que a eles. Vale lembrar que podemos pecar não só fazendo o que Deus proíbe (pecado de ação), como deixando de fazer o que Ele ordena (pecado de omissão).

Quanto aos pecados mortais, são necessárias três condições para cometê-lo:

(1) A matéria deve ser grave, seja por pensamento, palavras ou obras.
(2) Devemos saber que o que fazemos é grave, ou seja, não podemos pecar por ignorância.
(3) O pecado só é mortal se cometido de maneira resoluta, ou seja, se eu livremente resolver praticar determinada ação (ou omissão) que é contra a Vontade de Deus.

Quais a raiz do pecado? A raiz do pecado é a intenção na mente e na vontade da pessoa. Por esta razão, somos culpados de pecado no momento em que decido cometê-lo, mesmo que não tenha oportunidade de praticá-lo ou mesmo que depois mude de opinião. É claro que o ato exterior tem sua importância. Na verdade, realizar a má intenção e praticar o ato acrescenta gravidade ao pecado, intensifica a sua malícia.

Há sempre um defeito que se destaca em nós mais do que outros possíveis defeitos, um defeito que representa verdadeiro obstáculo para nosso crescimento espiritual. São as chamadas paixões dominantes. As virtudes, por outro lado, são os hábitos bons que praticamos com

Os sete principais defeitos, chamados de pecados capitais, são:

(1) Soberba: procura desordenada da nossa própria honra e excelência.
(2) Avareza: imoderado desejo de bens temporais.
(3) Luxúria: pecado contra a castidade.
(4) Ira: estado emocional desordenado que nos empurra a desforrar-nos dos outros, a opor-nos insensatamente a pessoas ou coisas.
(5) Gula: atração desordenada pela comida ou bebida.
(6) Inveja: tristeza causada pelo fato de outros estarem numa situação melhor que a nossa; sofrimento pela melhor sorte dos outros.
(7) Preguiça: desgosto e recusa ante o cumprimento de nossos deveres, especialmente de nossos deveres para com Deus, conformando-nos com a mediocridade espiritual.

VII - Maria e o Menino Jesus

Quando Deus criou a alma de Maria, eximiu-a do pecado original no mesmo instante em que a Virgem foi concebida no seio de Ana. Portanto, Maria recebeu a herança perdida por Adão: desde o início do seu ser, esteve unida a Deus.

A aparição do anjo ococrreu quando Maria ainda morava com seus pais. O pecado veio ao mundo por livre decisão de Adão; Deus quis que a livre decisão de Maria trouxesse ao mundo a salvação. (Por isso, Maria é chamada de corredentora dos homens). No exato instante em que aceitou, Deus Espírito Santo engendrou no ventre de Maria o corpo e a alma de uma criança, a quem Deus Filho se uniu no mesmo instante.

Quanto ao Menino Jesus, frequentemente se pergunta se Ele, ao crescer, teve que aprender as coisas como as demais crianças. Para tanto, temos de entender que Jesus possuía dois tipos de conhecimento:

(1) Conhecimento infinito, isto é, conhecimento de tudo que evidentemente Jesus, como Deus Filho, possuía.

(2) Conhecimento humano, que, por sua vez, se subdivide em três espécies: (a) conhecimento beatífico (conhecimento similar quando virmos Deus no céu), (b) ciência infusa (conhecimento completo das coisas criadas, semelhante aos anjos, que prescinde de raciocínios como os humanos) e (c) conhecimento experimental (que Jesus ia adquirindo à medida que crescia).

VIII - Redenção

Enquanto Jesus não morresse na Cruz, ninguém podia ver a Deus face a face. E, não obstante, haviam existido muitos homens que tinham crido em Deus e na sua misericórdia, e guardado suas leis. Como estas almas não haviam merecido o inferno, permaneciam num estado de felicidade puramente natural, sem visão direta de Deus. Eram muito felizes, mas com a felicidade que nós poderiamos alcançar na terra, se tudo nos corresse perfeitamente bem.

O estado de felicidade natural em que essas almas aguardavam chama-se limbo. A estas almas Jesus apareceu enquanto jazia na sepultura, para anunciar-lhes a boa nova da sua redenção; para, poderíamos dizer, acompanhá-las e apresentá-las pessoalmente a Deus Pai.

Segundo havia prometido, Jesus ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia, com um corpo glorificado, idêntico ao que será o nosso depois da nossa ressurreição, e decidiu permanecer quarenta dias na terra com a seguinte missão: completar a preparação e missão de seus doze Apóstolos. Na Última Ceia, na noite da Quinta-feira santa, tinha-os ordenado sacerdotes. Agora, na noite do Domingo de Páscoa, complementa-lhes o sacerdócio, dando-lhes o poder de perdoar os pecados. Em outra ocasião, cumpre a promessa feita a Pedro e o fz cabeça da sua Igreja. Explica-lhes o Espírito Santo. Instrui-os confiando-lhes as linhas gerais do seu ministério. E, finalmente, dá aos seus Apóstolos a missão final de ir e pregar ao mundo inteiro.

Depois da sua ascensão ao Pai, a próxima vez em que Cristo aparecerá à humanidade será no dia do fim do mundo, para julgar o mundo que seu Pai lhe deu.

IX - A graça santificante e como recuperá-la: orações, graças atuais, sacramentos e mérito

A graça é um dom de Deus, sobrenatural e interior, que nos é concedido pelos méritos de Jesus Cristo para nossa salvação. Esta graça não só nos torna capazes de ter uma união e comunicação com Deus nesta vida, como também prepara a alma para um outro dom que lhe acrescentará após a morte: o dom da visão sobrenatural, o poder de ver a Deus face a face. Chamamos isso de lumen glorie, ou luz de glória.

Resumindo: graça santificante = união com Deus nesta vida; lumen glorie = união com Deus após a morte.

Quanto à graça santificante, há três condições que os homens devem observar: (1) que a conservem até o fim, (2) que a recupere imediatamente após perdida em função de um pecado mortal cometido e (3) que procurem fazê-la crescer.

Mas os homens são incapazes de alcançar a graça por conta própria. Precisam da ajuda de Deus, que concede aos homens as graças atuais. Elas atuam na mente ou na vontade humanas, geralmente nas duas. Veja como atuam:

(1) Deus ilumina a mente do pecador para que veja o mal que cometeu. Se repele essa primeira graça, provavelmente não terá a segunda.

(2) Se o pecador aceita a primeira graça, então Deus fortalecerá sua vontade, que lhe permitirá um ato de contrição. Se a contrição do pecador for perfeita (se o seu motivo principal for o amor a Deus), a agraça santificante retornará imediatamente à sua alma.

(3) Se a contrição for imperfeita, baseada principalmente no temor à justiça divina, haverá um novo impulso da graça.

Se a graça concedida por Deus for forte o suficiente até mesmo para vencer nossas fraquezas e corações duros, chamamo-la de graça eficaz. No entanto, podemos fazer com que muitas graças se desperdicem. A nossa indiferença ou indolência ou, pior ainda, nossa resistência voluntária, podem frustrar a ação da graça divina em nossa alma.

É importante termos em mente que a graça santificante cresce na alma mediante a oração e os outros seis sacramentos.

P: O que é a oração? R: A oração é uma elevação da mente e do coração a Deus para adorá-lo, dar-lhe graças e pedir-lhe o que necessitamos.

Há dois tipos de oração:

(1) A oração se faz por meio de palavras, sejam as nossas sejam as escritas por outros, contanto que nos façamos entender por meio delas. É a oração vocal.

(2) A mente e o coração fazem todo o trabalho, sem recorrer a palavras. É a oração mental.Por exemplo, se eu vejo um crucifixo e me vem ao pensamento o muito que Jesus sofreu por mim, então fiz uma oração mental. Por sua vez, há dois tipos de oração mental: (a) a meditação, como a que exemplificamos e (b) a contemplação, uma tipo de oração mais elevada, em que a mente e o coração são elevados a Deus e nEle descansam.

Quando falamos de pecado mortal e perda de graça santificante, vem à mente o sacramento da Penitência. De fato o fim primário da Penitência é devolver a vida quando se perdeu a graça santificante pelo pecado mortal. Mas a Penitência também possui um fim secundário, que é revigorar a vida para a alma que já está em estado de graça. No entanto, o sacramento que é fonte de vida por excelência é o da Sagrada Eucaristia. Nela, Deus vem a nós como alimento e bebida sob as aparências do pão e do vinho. Na Missa, nossa alma se ergue até o seio da Santíssima Trindade. Na Consagração, por sua vez, tocamos a divindade, mas por um processo reverso: ao contrário da Missa, na Consagração Deus é que vem a nós.

Por último, há ainda a questão do mérito. O mérito é a propriedade de uma obra obra em habilitar, a quem a realiza, a receber uma recompensa. A recompensa será tripla: (1) aumento da graça santificante, (2) vida eterna e (3) maior glória no céu. Porém, só a alma que esté em graça santificante pode adquirir mérito por suas ações.

E não nos esqueçamos que, para alcançar a vida eterna, devemos é claro morrer em estado de graça. Esta vida - é só esta vida - é o tempo de prova, o tempo de merecer.

X - Virtudes sobrenaturais, dons do Espírito e frutos do Espírito

P: O que é virtude? R: Virtude é o hábito permanente da alma que lhe dá inclinação, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem e evitar o mal.

A virtude pode ser natural quando adquirida por nós mesmos, e sobrenatural quando infundida na alma diretamente por Deus.

As virtudes sobrenaturais são infundidas na alma no momento do Batismo, juntamente com a graça santificante. São elas:

(1) Virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Têm esse nome porque dizem respeito a Deus.
(2) Virtudes morais ou cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. têm esse nome porque dizem respeito indiretamente a Deus e diretamente às pessoas e coisas.

Fé é a virtude pela qual cremos firmemente em todas as verdades que Deus revelou, baseados na autoridade do próprio Deus, que não pode enganar-se nem enganar-nos.

Esperança é a virtude pela qual confiamos que Deus, que é todo-poderoso e fiel às suas promessas, nos concederá a vida eterna e os meios necessários para alcançá-la.

Caridade é a virtude pela qual amamos a Deus por si mesmo, sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos, por amor a Deus. A caridade é chamada a rainha das virtudes porque as outras, tanto as teologais quanto as morais, nos conduzem a Deus, mas a caridade é a que nos une a Deus.

Prudência é a faculdade de julgar retamente; ela aperfeiçoa a inteligência. Justiça é a faculdade que aperfeiçoa a nossa vontade, salvaguardando os direitos de nossos semelhantes à vida e à liberdade, à santidade do lar, ao bom nome e à honra, aos bens materiais. Fortaleza é a faculdade que nos inclina a fazer o bem apesar das dificuldades. Temperança é a faculdade que nos ajuda a dominar nossos desejos e, em especial, a usar dignamente das coisas que agradam aos sentidos.

Além da graça santificante e das virtudes, o Batismo também nos fornece os sete dons do Espírito Santo. Estes dons são qualidade que se comunicam à alma e que a tornam sensível aos movimentos da graça, facilitando-lhe a prática da virtude. São eles:

(1) Sabedoria, que nos dá o sentido da proporção para apreciarmos as coisas de Deus, dando ao bem e à virtude seu verdadeiro valor, para encaramos os bens do mundo como degraus para a santidade, não como fins em si.

(2) Entendimento, que nos dá a percepção espiritual necessária para entendermos as verdades da fé.

(3) Conselho, que aguça nosso juízo, nos ajudando a perceber e escolher a decisão que será par a maior glória de Deus.

(4) Ciência, que nos torna aptos para reconhecer o que é espiritualmente útil ou prejudicial.
Está intimamente ligado ao dom do conselho. O conselho nos move a escolher o útil e repelir o nocivo, mas, para escolher, devemos antes conhecer.

(5) Fortaleza, que robustece nossa debilidade humana.

(6) Piedade, que nos ajuda a manter uma atitude de confiante intimidade com Deus, como uma criança que respeita a seus pais: uma combinação de amor, confiaça e reverência.

(7) Temor de Deus, que equilibra o dom da piedade, nunca nos esquecendo que Ele é o Juiz da justiça infinita, diante de quem um dia teremos que responder pelas graças que nos concedeu.

O resultado de tudo isso, isto é, da graça, das virtudes e dos dons, são manifestos nos chamados doze frutos do Espírito, a saber:

(1) Caridade, pela qual vemos Cristo no seu próximo, e estamos sempre dispostos a ajudá-lo.

(2) Gozo, pelo qual somos alegres e otimistas.

(3) Paz, pela qual somos serenos e tranqüilos.

(4) Paciência, pela qual não nos irritamos facilmente, não guardamos rancor pelas ofensas, não nos perturbamos nem ficamos desapontados quando as coisas nos correrem mal ou as pessoas se comportarem mesquinhamente.

(5) Benignidade, pela qual somos amáveis.

(6) Bondade, pela qual defendemos com firmeza a verdade e o direito, mesmo que todos nos deixem só.

(7) Longanimidade, pela qual não nos revoltamos com o infortúnio e o fracasso, com a doença e a dor.

(8) Mansidão, pela qual somos delicados.

(9) , pela qual a religião é a coisa mais importante da vida.

(10) Modéstia, pela qual há uma decência no que fazemos, fortalecendo a virtude dos outros, nunca infraquecendo.

(11) Continência, pela qual mostramos domínio admirável de nós mesmos, quer na comida, na bebida, no trabalho ou na diversão.

(12) Castidade, pela qual sentimos uma grande reverência pela faculdade de procriar, vendo o sexo nunca como divertimento ou como fonte de prazer egoísta.

XI - A Igreja Católica: seus deveres, suas marcas, seus atributos e a comunhão dos santos

Por que Cristo instituiu uma Igreja na terra? Quais os deveres dessa Igreja? São três:

(1) Santificar. Cristo conhecia nossa necessidade de uma segurança visível. Então Ele preferiu canalizar as suas graças através de símbolos sensíveis: instituiu, pois, os sacramentos, para que pudéssemos saber quando, como e que espécie de graça recebemos. O agente que guarda e deistribui os sacramentos é a Igreja instituída pelo próprio Cristo.

(2) Ensinar. Jesus fundou a Sua Igreja parar ensinar aos homens as verdades que Ele ensinou, as verdades necesárias à salvação.

(3) Governar. Da mesma maneira que seria inútil a um país ter uma Constituição sem alguém que a interprete, a Igreja interpret a Revelação de maneira apropriada, decidindo, por exemplo, quem pode receber este ou aquele sacramento, que pode ser membro da Igreja, como permanecer nela etc.

P: O que é a Igreja? Igreja é a congregação de todos os batizados, unidos na mesma fé verdadeira, no mesmo sacrifício e nos mesmos sacramentos, sob a autoridade do Sumo Pontífice e dos bispos em comunhão com ele.

Esse tríplice dever - santificar, ensinar e governar - dos Apóstolos foi por eles transmitido a outros homens, os bispos. Os bispos atuais são, portanto, os sucessores dos Apóstolos. E o pode de Pedro, a quem Cristo constituiu cabeça de tudo, reside hoje no bispo de Roma, o Papa.

Eis, portanto, o Corpo da Igreja de Cristo: (1) no cume o Papa, (2) mais abaixo o Colégio Episcopal, (3) mais abaixo os sacerdotes e (4) o povo de Deus, todos os batizados.

Mas a Igreja é o próprio Corpo de Cristo: é o Corpo Místico de Cristo. Isso quer dizer que a Igreja não é apenas uma instituição jurídica, mas um organismo vivo, um Corpo que vive, cuja Cabeça é Cristo, cujos membros são os batizados e cuja alma é o Espírito Santo. É um Corpo em que cada membro se beneficia de cada Missa que se celebra, de cada oração que se oferece, de cada boa obra que se faz por cada um dos outros membros, em qualquer lugar do mundo. Assim, todos são chamados a ser apóstolos (com 'a' minúsculo), ou seja, todos têm a missão de ajudar o Corpo Místico de Cristo a crescer e a manter-se são.

Cristo, ao instituir a Sua Igrja, deixou nela estampada a sua marca. Podemos dizer que a marca da Igreja é um quadrado:

(1) Unidade. Os membros da Igreja devem manifestar unidade de credo. Uma fé, uma cabeça, um culto.

(2) Santidade. Segundo o Catecismo, a Igreja é santa "porque foi fundada por Jesus Cristo, que é saanto; porque ensina, segundo a vontade de Cristo, uma doutrina santa e oferece os meios para se levar uma vida santa, formando assim membros santos em todas as idades".

(3) Catolicidade. A Igreja Católica existiu todo o tempo desde Domingo de Pentecostes até os nossos dias, é a única que ensina todas as verdades e é também universal em extensão.

(4) Apostolicidade. A Igreja que pretenda ser de Cristo deve provar sua legítima descendência dos Apóstolos. A Igreja Católica tem a lista dos bispos de Roma, que se remete do Papa atual numa linha contínua até São Pedro.

Tais marcas, necessários à Igreja que que queira se dizer de Cristo, são acompanhadas, conseqüentemente, de três atributos ou qualidades, a saber:

(1) Autoridade. É o direito de falar em nome de Cristo e de ser escutada.

(2) Infalibilidade. É a certeza de estar livrer de erro quando proclama solenemente as verdades de Deus. O católico sabe que o Papa pode pecar e errar, como qualquer pessoa, e sabe que as opiniões do Papa têm a força que sua sabedoria humana lhes pode dar. Mas quando o Papa, solenemente, declara que certas verdades foram reveladas por Cristo, então ele não erra.

(3) Indefectibilidade. É a permanência da Igreja até o fim dos tempos como Jesus a fundou, que não é perecível, que continuará a existir enquanto houver almas a salvar.

Com comunhão dos santos devemos entender que existe uma união, uma comunicação entre as almas em que o Espírito Santo tem a sua morada. Há três "ramos", por assim dizer, da comunhão dos santos:

(1) Igreja militante, isto é, os santos aqui da terra que ainda militam (lutam) contra o pecado e o erro.

(2) Igreja padecente, isto é, as almas do purgatório que ainda não podem ver a Deus, mas o Espírito Santo está com elas.

(3) Igreja eterna, isto é, as almas dos bem-aventurados que se encontram no céu. É essa Igreja que absorverá tanto a militante quanto a padecente depois do Juízo Final.

Na prática, a comunhão dos santos significa que devemos ter consciência das necessidades dos outros. Os santos do céu oram pelas almas do purgatório e por nós. Nós, de nossa parte, devemos venerar e honrar os santos. Não só porque podem e querem interceder por nós, mas porque o nosso amor a Deus assim o exige. Nós devemos, ainda, orar pelas benditas almas do purgatório. É evidente que devemos, também, rezar uns pelos outros.

XII - O fim do mundo: morte, Juízo Particular, inferno, purgatório, ressurreição da carne e vida eterna

A morte é a separação da alma e do corpo. E o que acontece então? No exato momento em que a alma abandona o corpo, é julgada por Deus. Tal juízo individual da alma imediatamente após a morte chama-se Juízo Particular. O que ocorre é que a alma se vê como Deus a vê, em estado de graça ou em pecado e, consequentemente, sabe qual será o seu destino segundo a infinita justiça divina.

A alma que morre em pecado mortal está no inferno. Mas suponhamos que morremos confortados pelos últimos sacramentos e com uma indulgência plenária bem ganha no momento da morte. O juízo da alma será a imediata visão de Deus: a visão beatífica.

Mas o que acontecerá se, ao morrermos, o Juízo Particular não nos encontrar separads de Deus pelo pecado mortal mas também não com a perfeita purezaz de alma? É aqui que se põe de manifesto a doutrina do purgatório. Mesmo que esta doutrina não tivesse sido transmitida pela Tradição desde Cristo e os Apóstolos, a simples razão nos diria que deve haver um processo de purificação final que lave até a menor imperfeição que se inerponha entre a alma e Deus.

A grande diferença entre o sofrimento do inferno e o do purgatório é que no inferno há a certeza da separação eterna e no purgatório a certeza da libertação.

Quanto ao fim do mundo, não sabemos quando virá. O que sabemos é que quando o mundo acabar, os mortos ressuscitam, e depois vem o Juízo Final. O Juízo Final não oferecerá surpresas em relação ao nosso eterno destino. Já teremos passado pelo Juízo Particular; a nossa alma já estará no céu ou no inferno. A diferença é que a sentença que recebemos no Juízo Particular será agora confirmada publicamente.

27 de dezembro de 2005

Fulton J. Sheen e o problema da liberdade

Na esteira de Leo Trese, um amigo recomendou-me os livros do Arcebispo de Rochester (Nova York), Fulton J. Sheen (1895-1979). Famoso pelos seus programas de TV nos anos 50 e começo dos 60 (Life is Worth Living e The Fulton Sheen Program), Sheen foi também autor de 96 livros, quase todos apologéticos, além de artigos e colunas em jornais. Seus livros são facilmente encontráveis em sebos, inclusive alguns títulos em português e espanhol. Algumas prédicas também estão disponíveis aqui.

Encontrei O Problema da Liberdade, cujo título original é Freedom Under God. Publicado nos EUA em 1940, a tradução brasileira foi lançada em 1945 pela Editora Agir e contou com diversas edições. A que encontrei é a 5ª edição, de 1956.

O objetivo de Sheen é estabelecer a relação entre religião, liberdade e os sistemas políticos e econômicos modernos. Sheen condena ferozmente o comunismo e o nazismo, considendo-os ideologias semelhantes. Quanto ao liberalismo free market, Sheen também reserva críticas duras, mas para isso faz uso de velhos mitos socialistas como, por exemplo, a idéia de que sob o liberalismo econômico os pobres ficam mais pobres porque os ricos ficam mais ricos; no início da Revolução Industrial os trabalhadores foram vilmente explorados, salvos mais tarde por sindicatos e leis trabalhistas; os trabalhadores deveriam participar nos lucros das empresas, e negar-lhes isto representa grave exploração por parte do capital.

Esses mitos influenciam o raciocínio do autor de maneira tão profunda que, infelizmente, comprometem muitas de suas análises. É triste ver um homem consciente dos males do comunismo preso às próprias doutrinas comunistas quando tenta prescrever-lhes uma cura.

Quanto à estrutura geral do livro, a divisão é a seguinte: (1) Expulsão da religião do espaço público, (2) Falsas liberdades e verdadeira liberdade e (3) Aplicações da verdadeira liberdade na ordem econômica e política.
* * *
Sheen inicia sua digressão sobre a liberdade lembrando que é a religião quem dá ordem e virtude à sociedade. Baní-la do espaço público, reduzindo-a a práticas e doutrinas meramente privadas, acaba engendrando na sociedade um espírito arreligioso que, por fim, se transformará em um espírito anti-religioso. Se o homem deseja ser verdadeiramente livre, então precisará redescobrir o que Sheen chama de "os direitos de Deus e da religião sobre a ordem pública", provavelmente uma alusão à Era Cristã.

Expulsada a Igreja da praça pública, duas falsas liberdades vêm preencher o vácuo, (1) a liberdade de indiferença, na qual o indivíduo age e pensa como quiser, à exemplo do que ocorre no ceticismo, no relativismo e no liberalismo e (2) a liberdade de necessidade, na qual o indivíduo é obrigado a obedecer à autoridade, como no comunismo e no nazismo.

Porém, segundo Sheen, a verdadeira liberdade é fazer o que se deve fazer. E quem sabe o que devemos fazer é nosso Criador, que diz que devemos conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo. Em suma, o que teríamos de fazer para sermos verdadeiramente livres é desenvolver nossa personalidade a fim de sermos eternamente felizes com Deus, conhecendo-O, amando-O e servindo-O, e quem nos ensina o caminho das pedras de tal realização é o próprio Cristo, por meio de sua Igreja.

A partir desta premissa -- é Cristo, por meio da Igreja, quem ensina os homens como se organizarem política e economicamente de maneira agradável a Deus --, Sheen discorre sobre a liberdade e suas aplicações sociais, políticas e econômicas.

Assim como a base da liberdade interna do homem é a alma, externamente essa base é a propriedade privada. Isso ocorre porque não somos apenas feitos de espírito, mas também de corpo. Esse corpo precisa expressar-se no mundo em algo que lhe seja próprio: a propriedade privada. No entanto, engana-se quem pensa que, por isso, a Igreja defende o liberalismo econômico e político. Na verdade, a Igreja defende o que Sheen chama de difusão da propriedade, de maneira que os trabalhadores tenham participação nos lucros das empresas a fim de que desfrutem uma verdade propriedade. Ora, Sheen falha aqui ao não perceber que o salário já é a participação nos lucros desejada.

Sheen ensina que o trabalho está relacionado a 3 entidades, estabelecendo com elas uma relação:
  1. Deus. O homem reconduz a natureza a Ele, por meio da razão e da vontade. Por causa dessa relação, a Igreja defende um salário vital, para que a alma do homem esteja livre para atingir o fim que foi criada.
  2. Homens. O trabalho intensifica a solidariedade entre os homens. Por isso a Igreja não acredita na luta de classes.
  3. Natureza. O trabalho coopera com a natureza. Eis por que a Igreja é contra o desemprego, já que ele afasta o homem da natureza e, por conseguinte, da civilização, já que aquela é base desta.
No entanto, tanto comunismo quanto capitalismo concordam que o trabalho não passa de mercadoria, esvaziando-o do componente humano descrito nos três itens acima. Segundo Sheen, a diferença entre capitalismo e comunismo é apenas quem deverá ficar com o os lucros: o capital ou o trabalho. A Igreja rejeita tal dicotomia, afirmando que ambos devem deter os lucros. Para isso, a Igreja deseja modificar o sistema salarial, introduzindo-lhe componentes sociais, e não apenas individuais, da seguinte forma: (1) O trabalhador deve participar nos lucros, (2) O trabalhador deve participar na administração da empresa, por meio de conselhos que reúnam empregadores e empregados e (3) O trabalhador deve participar na propriedade.
E como o Estado deve atuar para a realização de tais metas? O homem é um ser pessoal e social, isto é, ao mesmo tempo dependente e independente da sociedade. O Estado, portanto, deve buscar o equilíbrio, promovendo o bem comum, seja de brancos, pretos, trabalhadores, empregadores etc. É o Estado refletindo o lado social do homem. No entanto, em casos extremos, o bem comum deve ser sacrificado em favor dos pobres e necessitados. É o Estado refletindo o lado pessoal do homem.
Como o Estado e a sociedade devem estar organizados? Segundo Sheen, a democracia, estruturalmente falando, é um mal. Sua tendência é transformar-se na tirania da maioria. É a república, por meio dos representantes que governam pelo povo (e não o governo direto do povo, como na democracia) com sistemas de pesos e contrapesos, que representa um sistema mais equilibrado e justo. A maioria não é fonte de direitos, por isso não pode exercer direitos sobre a minoria. A origem dos direitos é Deus e, só depois, os homens. O que a constituição americana faz é reafirmar essa doutrina, e não propriamente estabelecê-la. A tal reafirmação da origem divina dos direitos por parte da constituição Sheen atribui a essência do que chama de americanismo. Assim, o Estado não deve anular esses direitos, mas apenas reafirmá-los. Eis por que a educação religiosa (católica, protestante e judaica) é tão importante: a religião e os direitos humanos andam de mãos dadas.
Sheen ensina que a Revolução Francesa bem que tentou eliminar a desigualdade, procurando eliminar a desigualdade política por meio da abolição de privilégios hierárquicos. Como eliminar as hierarquias mostrou-se ineficaz na tentativa de eliminar as desigualdades, passsou-se à apologia da eliminação das desigualdades econômicas. Foi a Revolução Comunista. Sheen afirma que todas essas tentativas foram e são necessariamente infrutíferas porque a única igualdade possível é a espiritual, já que (1) todos são iguais substancialmente (todos têm alma e corpo, todos têm o mesmo fim que é a união com Deus, todos foram redimidos por Jesus Cristo etc.) e (2) todos são desiguais acidentalmente (todos têm inteligência, talento, saúde, caráter, virtude, força física etc. desiguais). A sociedade cristã terá, portanto, categorias e hierarquias, cada qual com sua função, a exemplo dos órgãos do corpo humano. Nem todas as desigualdades são más.
Finalmente, Sheen conclui sua obra identificando dois tipos de liberdade:
  1. Liberdade de escolha, que se refere a bens particulares como saúde, poder, sucesso etc.
  2. Liberdade de perfeição, que se refere ao último bem, isto é, adquirir a Verdade para o intelecto, Amor para nossa vontade e Vida para nossa existência.
Assim, a liberdade de escolha deve ser o meio para o fim, qual seja, a liberdade de perfeição. O liberalismo perverte a liberdade de escolha, entronizando-a como fim em si mesma. O comunismo e o nazismo destroem tanto a liberdade de escolha quanto a liberdade de perfeição, transformando a perfeição num ditador e obrigando a todos a adorá-lo e segui-lo.
A Igreja rejeita todas essas ideologias porque elas rejeitam aquilo que Deus uniu: a escolha e a perfeição. Não somos nós, no fim das contas, que devemos trazer a perfeição à Terra, mas, sim, nós é que devemos ascender, com liberdade de escolha, à perfeição. Não é Deus que deve descer até nós; nós é que devemos nos elevar até Ele.