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16 de maio de 2008

Conservadores e liberais

Em sua imunda campanha, os opositores da renovação hesicasta estão tachando os defensores desta tradição de “conservadores”. Mas o que “conservador” significa no Ocidente? No Ocidente, um conservador é aquele que ainda identifica a Bíblia como sendo a revelação de Deus à humanidade e ao mundo, pois, nos velhos tempos, protestantes e católicos romanos acreditavam na inspiração literal das Sagradas Escrituras. Em outras palavras, eles acreditavam que o Cristo ditou a Bíblia palavra por palavra aos profetas e autores dos evangelhos por meio do Espírito Santo, ou seja, os autores da Bíblia eram como que escribas que registravam o que quer que ouvissem o Espírito Santo dizer.

Mas eis que surgiu a crítica bíblica e, no seu bojo, o descrédito à linha de pensamento vigente, dividindo o mundo protestante em duas facções: a conservadora e a liberal. Nos EUA há distintas igrejas luteranas: a liberal e a conservadora igreja do Sínodo de Missouri. A primeira não aceita a Bíblia enquanto revelação em termos absolutos, enquanto a segunda aceita. O mesmo fenômeno pode ser observado entre os batistas. Os batistas liberais não aceitam as Sagradas Escrituras enquanto revelação literalmente inspirada, enquanto os demais as aceitam enquanto revelação inspirada, palavra por palavra. A mesma divisão pode ser observada entre os metodistas. Na verdade, o racha entre liberais e conservadores pode ser observado em todas as denominações protestantes.

Ora, será que a mesma divisão se aplica à tradição ortodoxa? Será que há Santos Padres conservadores e Santos Padres liberais? Será que há um único Padre da Igreja que tenha ensinado a inspiração literal das Sagradas Escrituras? Será que há um único Padre da Igreja que tenha identificado as Sagradas Escrituras com a experiência da theosis? Não, não há, porque a revelação de Deus à humanidade é a própria experiência da theosis. Na verdade, como a revelação é a experiência da theosis – uma experiência que transcende toda expressão e conceito – a identificação das Sagradas Escrituras com a revelação é, em termos de teologia dogmática, pura heresia.

Pode alguém que aceita o ensinamento patrístico da theosis ser caracterizado como conservador, baseado no racha sobre as Escrituras do mundo protestante? Quando os protestantes liberais ouvem falar deste princípio patrístico, dizem: “Ah, sim, isso aí é liberalismo!”, enquanto os protestantes dizem: “Não, isso aí é heresia!” Em outras palavras, quando seguimos os Padres, nós, ortodoxos, somos heréticos do ponto de vista protestante conservador.

Afinal, quem são os ortodoxos liberais e quem são os ortodoxos conservadores? São aqueles que fazem teologia à moda dos teólogos protestantes liberais e conservadores. Eis a razão por que determinados teólogos gregos têm se dividido entre liberais e conservadores. Os liberais seguem os protestantes liberais enquanto os conservadores seguem os protestantes conservadores.

Porém, será que é correto classificarmos a tradição patrística nesses termos? É claro que não. Todavia, o teólogo hesicasta da Igreja Oriental será visto como um liberal no Ocidente, pois ele se recusará a identificar o texto bíblico, incluindo seus provérbios e conceitos, com a revelação.

Dado que a revelação é a própria experiência da theosis, então a revelação está além da compreensão, da expressão e da conceitualização. Isso significa dizer que os rótulos “conservador” e “liberal” não devem ser aplicados àqueles que aderem à tradição ortodoxa. Portanto, os Padres não são nem liberais, nem conservadores. Em outras palavras, há Padres da Igreja que são santos por terem atingido a iluminação e há santos da Igreja que são santos porque, além da iluminação, atingiram também a theosis e são mais gloriosos do que a primeira classe de santos.

Esta é, pois, a tradição patrística – ou você alcança a iluminação ou você alcança a theosis após ter passado pela iluminação. A tradição ortodoxa nada mais é do que esta terapia, na qual o nous é purificado, iluminado e, no final das contas, glorificado com todo o homem, se Deus assim quiser. Ora, será que existe isso de “iluminado liberal” ou “iluminado conservador”? É claro que não. Ou você está iluminado ou não está. Ou você alcançou a theosis ou não alcançou. Ou você se submeteu a esta terapia ou não se submeteu. Além destas distinções, não há outras.

15 de maio de 2008

Qual o núcleo da tradição ortodoxa?

Foi-nos confiado um grande tesouro: a teologia da tradição ortodoxa. A teologia ortodoxa é o produto de séculos de experiências que têm sido repetidas, renovadas e rememoradas por aqueles que experimentaram a theosis. Assim, temos as experiências dos patriarcas e profetas bem como as experiências posteriores dos apóstolos. Chamamos todas essas experiências de “glorificações”. Dizer que um profeta foi glorificado significa dizer que o profeta viu a glória de Deus. Dizer que um apóstolo foi glorificado significa dizer que o apóstolo viu a glória de Deus. Ao ver a glória do Cristo, o apóstolo certificou-se, pela sua experiência, que a glória do Cristo no Novo Testamento é a glória de Deus no Velho Testamento. Por conseguinte, Cristo é o Yahweh e o Elohim do Velho Testamento.

Embora não esteja claro, no Velho Testamento, quem é o Espírito Santo, os apóstolos descobriram quem Ele é por experiência. A experiência deles é uma repetição da experiência dos profetas, mas há uma diferença: os apóstolos foram glorificados após a Encarnação. O Yahweh do Velho Testamento tem, agora, a natureza humana do Cristo. Embora três apóstolos tivessem sido parcialmente glorificados durante a Transfiguração no Monte Tabor, todos os apóstolos foram plenamente glorificados no Pentecostes, durante o qual alcançaram o estado mais elevado de glorificação que qualquer ser humano pode alcançar nesta vida.

Em seguida à experiência dos apóstolos vieram as experiências dos demais glorificados: os Padres da Igreja e os santos que atingiram a theosis. E a experiência da theosis continua a se manifestar em cada geração, até hoje. [63] Esta experiência da theosis é o núcleo da tradição ortodoxa, o fundamento dos concílios locais e ecumênicos, e a base da lei canônica e da vida litúrgica da Igreja.

Se os teólogos ortodoxos contemporâneos desejam adquirir objetividade em seus estudos, eles devem confiar na experiência da theosis. Em outras palavras, podemos dizer que um estudante da tradição patrística só terá adquirido verdadeira objetividade em seu método teológico quando ele mesmo tenha passado pela purificação e pela iluminação, alcançado a theosis. É somente desta maneira que o pesquisador não apenas entenderá a tradição patrística, mas verificará, por si próprio, a verdade desta tradição por meio do Espírito Santo.

Nota:

[63] Durante as últimas décadas, muitos santos da Igreja que experimentaram a theosis se tornaram conhecidos, tais como Ancião Paísio, o Hagiorita, Ancião Sofrônio de Essex, Ancião Porfírio de Atenas, Ancião Iakovos de Evia, Ancião José, o Hesicasta e Ancião Efraim de Katounakia, entre muitos outros dentro e fora da Grécia.

9 de maio de 2008

O que é o noûs?

Eis o primeiro capítulo da recém-lançada tradução de Patristic Theology, do Pe. João Romanides.

* * *

O principal interesse da Igreja Ortodoxa é a cura da alma humana. A Igreja sempre considerou a alma como sendo a parte do ser humano que precisa de cura porque a Igreja tem observado, a partir da tradição hebraica, do próprio Cristo e dos Apóstolos, que na região física do coração opera algo que os Padres chamam de nous. Em outras palavras: os Padres usaram o termo tradicional nous, que significa tanto intelecto (dianoia) quanto palavra ou razão (logos), dando-lhe um significado diferente. Não sabemos quando esta alteração de significado ocorreu, pois há Padres que usam nous para se referir à razão assim como há Padres que usam nous para se referir a essa energia noética que descende e opera na região do coração.

Portanto, sob este ponto de vista, a atividade noética é uma atividade essencial à alma. Ela opera no cérebro enquanto razão e, simultaneamente, opera no coração enquanto nous. Em outras palavras, o mesmo órgão, o nous, reza incessantemente no coração enquanto, por exemplo, pensa em problemas matemáticos no cérebro.

É importante notar que há uma diferença terminológica entre São Paulo e os Padres. O que São Paulo chama de nous é o que os Padres chamam de dianoia. Quando o Apóstolo Paulo afirma Orarei com o espírito [1], ele quer dizer o mesmo que os Padres quando afirmam Orarei com o nous. E quando ele afirma Orarei com o nous, ele quer dizer Orarei com o intelecto (dianoia). Quando os Padres usam nous, o Apóstolo Paulo usa “espírito”. Quando ele afirma Orarei com o nous, orarei com o espírito ou quando afirma Cantarei com o nous, cantarei com o espírito, e quando afirma o Espírito de Deus testifica com nosso espírito [2], ele usa a palavra “espírito” para se referir àquilo que os Padres chamam de nous. E com a palavra nous, ele quer dizer intelecto ou razão.

Na frase o Espírito de Deus testifica com nosso espírito, São Paulo fala de dois espíritos: o Espírito de Deus e o espírito humano. Por uma estranha conjunção de circunstâncias, o que São Paulo quis dizer com espírito humano, mais tarde, durante os tempos de São Macário do Egito, reapareceu com o nome de nous, e somente as palavras logos e dianoia continuaram a significar a habilidade racional do homem. E foi assim que o nous passou a ser identificado com o espírito, isto é, com o coração, já que, de acordo com São Paulo, o coração é onde está situado o espírito do homem. [3]

Assim, segundo o Apóstolo Paulo, a adoração racional ou lógica ocorre por meio do nous (isto é, razão ou intelecto) enquanto a oração noética ocorre por meio do espírito, isto é, por meio da oração espiritual ou oração do coração. [4] Portanto, quando o Apóstolo Paulo afirma eu prefiro falar cinco palavras com meu nous, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras com minha língua, [5] ele quer dizer que prefere falar cinco palavras, ou seja, falar pouco, para que outros sejam instruídos, do que orar noeticamente. Alguns monges interpretam as cinco palavras de São Paulo como sendo a Oração de Jesus [6], mas, aqui, o Apóstolo está na verdade se referindo às palavras usadas para instruir os outros. [7] Ora, como é possível ocorrer catequese com orações noéticas, já que tais orações são interiores e ninguém ao redor conseguiria ouvi-las? Porém, a catequese é possível, sim, com ensinamentos e adorações convincentes e racionais. Ensinamos e falamos usando a razão, que é o método que as pessoas usam para se comunicarem umas com as outras. [8]

Porém, aqueles que têm oração noética em seus corações conseguem se comunicar uns com os outros. Em outras palavras, eles conseguem sentar no mesmo local e se comunicar noeticamente, sem falar. Ou seja, eles são capazes de se comunicar espiritualmente. É claro que tal comunicação também ocorre quando estão afastados uns dos outros. Eles também possuem dons de clarividência e presciência. Por meio da clarividência, eles são capazes de sentir os pensamentos (logismoi) e pecados dos outros, enquanto que por meio da presciência eles conseguem ver e falar sobre assuntos, ações e eventos futuros. Tais pessoas carismáticas realmente existem. Se você se confessar com uma delas, essa pessoa saberá tudo o que você fez em vida antes mesmo que você abra a boca.

Notas

1. I Coríntios 14:15.

2. Romanos 8:16.

3. Isto significa que o Espírito de Deus fala com nosso espírito. Em outras palavras: Deus fala em nossos corações pela graça do Espírito Santo. São Gregório Palamás nota, em seu segundo discurso Em defesa dos santos hesicastas, que “o coração governa sobre todo o organismo humano... Pois o nous e todos os pensamentos (logismoi) da alma estão localizados lá”. No contexto da oração cheia de graça, fica claro que o termo “coração” não se refere ao coração físico, mas ao coração profundo, enquanto o termo nous não se refere ao intelecto (dianoia), mas à energia/atividade do coração, a atividade noética que flui da essência do nous (isto é, do coração). Por esta razão, São Gregório acrescenta que é necessário aos hesicastas que “tragam seus nous de volta, confinando-os em seus corpos e, em particular, nas profundezas de seus corpos, naquilo que chamamos de coração”. O termo “espírito” também é idêntico ao termo nous e “coração”. Philokalia, vol. IV (Londres: Faber and Faber, 1995), pág. 334.

4. O Metropolita Hierotheos Vlachos nota: “O homem tem dois centros de conhecimento: o nous, que é o órgão apropriado para receber a revelação de Deus, mais tarde traduzida em palavras pela razão, e a razão, que conhece o mundo sensível ao nosso redor”. The Person in Orthodox Tradition, tradução de Effie Mavromichali (Levadia: Monastery of the Birth of the Theotokos, 1994), pág. 24.

5. I Coríntios 14:19.

6. Em grego, a Oração de Jesus consiste de exatamente cinco palavras, em sua forma mais simples. Em português, traduz-se como “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”.

7. “Portanto, conforme ensina São João Damasceno, somos conduzidos como em uma escada no pensar de bons pensamentos...São Paulo também indica isso quando afirma ‘Eu prefiro falar cinco palavras com meu nous...’” São Pedro Damasceno, The Third Stage of Contemplation, Philokalia, 3, pág. 42.

8. A este respeito, São Nikitas Stithatos ensina: “[…] Se, enquanto ora e reza salmos, você fala em sua língua a Deus, você edifica a si próprio, conforme São Paulo afirma... Se não é para edificar seu rebanho que o pastor pretende ser enriquecido com a graça do ensinamento e do conhecimento do Espírito, então a ele falta fervor em sua busca pelos dons de Deus. Apenas orando e rezando salmos interiormente com sua língua, isto é, rezando na alma, você será edificado, mas seu nous estará improdutivo [ver I Coríntios 14:14], pois você não profetizará na língua do santo ensinamento nem edificará a Igreja de Deus. Se Paulo, que de todos os homens era o mais unido a Deus por meio da oração, preferia falar cinco palavras com seu fértil nous na igreja, para instruir os outros, do que dez mil palavras de salmos em privado com sua língua [ver I Coríntios 14:19], decerto os responsáveis por instruírem os outros se desviaram do caminho do amor caso tenham se limitado a pastorear somente com salmos e leituras”. São Nikitas Stithatos, On Spiritual Knowledge, Philokalia, vol. 4, pág. 169-170.