27 de dezembro de 2017

A razão superior e a razão inferior





“Imagine um círculo de cujo centro partem vários raios. Quanto mais esses raios se afastam do centro tanto mais se afastam uns dos outros; e, ao contrário, quanto mais se aproximam do centro tanto mais se aproximam uns dos outros. Suponha agora que este círculo seja o mundo, que o centro do círculo seja Deus e que as linhas retas (os raios), que vão do centro à circunferência ou da circunferência ao centro do círculo, são os caminhos das vidas das pessoas. E aqui também os santos entram no círculo em direção a seu centro desejando aproximar-se de Deus; quanto mais se aproximam do centro mais se aproximam de Deus e uns dos outros. . . . O mesmo vale para o movimento de afastar-se do centro. Quanto mais as pessoas se afastam de Deus, na mesma medida elas se afastam mais umas das outras e, quanto mais se afastam umas das outras, mais se afastam de Deus. Eis a qualidade do amor: quando mais nos afastamos e não amamos a Deus, mais as pessoas se afastam de seu próximo. Mas se amamos a Deus, então nos aproximamos dEle com amor a Ele, e assim mais nos unimos aos nossos semelhantes; e quanto mais nos aproximamos e unimos a nossos semelhantes, tanto mais próximos e unidos estaremos a Deus”. Abba Doroteu (Philokalia 2:617)

Ao ponderarmos sobre o profundo sentido deste ensinamento, seria impossível não reconhecer que a revelação evangélica sobre a luz do Logos, sobre a “luz dos homens”, é aqui expressa em sua plenitude. Segundo o esquema apresentado por Abba Doroteu, o homem, quando impregnado de amor espiritual, o qual une os homens a Deus, vive na esfera do Logos, ou seja, na esfera do poder que, de acordo com o Evangelho, cria a “luz dos homens”. Este círculo místico de Abba Doroteu é o símbolo desta esfera superior. O homem, abrangendo esta esfera com todo o seu ser, começa assim a extirpar-se do círculo das ideias no qual antes era bem sucedido. Ele começa então a viver fora deste círculo, no centro do qual imaginava estar, contrapondo o mundo inteiro à sua própria consciência.

Esta mesma consciência, a qual lhe parecia ser a plenitude de tudo, ele agora a reconhece como algo que se desenvolveu sob as circunstâncias de um ponto vista incompleto. Ele agora vê que sua razão, que lhe parecia tão poderosa, fora treinada em uma esfera limitada e encontra-se agora anormalmente desenvolvida. Ocorre portanto que a pessoa volta agora toda a sua psique para a consciência de uma outra razão – a razão superior, iluminada pelo Logos. E esta razão, concebida nos raios da graça divina, irradiando do centro da vida do mundo – esta razão, que se desenvolve dentro da pessoa, torna-se como sua própria fonte – o Logos. E eis que o leitor, graças a este brilhante esquema que nos apresenta Abba Doroteu, é agora capaz de alguma maneira entender estas palavras do Santo Evangelho: Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

Ora, mesmo que a razão inferior tenha sido capaz de formular as leis exatas da matemática e de sua ciência-irmã, a astronomia; mesmo que às apalpadelas tenha deduzido, do ponto de vista formal, o conhecimento das leis físicas; mesmo que tenha aperfeiçoado a tecnologia e começado a dominar a natureza; ainda assim há uma distância enorme entre isso e o domínio da verdade em questões existenciais, em questões relativas à alma humana, as quais lhe serão sempre um mistério insolúvel. Nosso intelecto mostra-se impotente também para solucionar outras questões aparentadas à alma humana, quais sejam, as questões morais.

A razão inferior, em virtude de sua própria essência, por sua própria natureza, é incapaz por suas próprias forças de ganhar algum entendimento sobre essas questões. As qualidade que caracterizam a natureza da razão inferior podem ser estudadas ao analisarmos a própria essência da razão.

O intelecto humano, ao distinguir claramente entre o “eu” e o “não-eu”, concebe em plenitude apenas a si mesmo, e tudo o mais concebe como sendo fora e estranho a si. Essencialmente, a primeira e fundamental característica do intelecto é isolar-se do mundo exterior, isolando o sujeito do objeto.

Desta característica fundamental do intelecto nascem outros traços característicos: seu egocentrismo e seu egoísmo. O intelecto humano inclina-se a tomar em conta suas próprias habilidades e talentos de um ponto de vista unilateral, isto é, a partir do exercício de seu direito de influenciar o mundo exterior a si.

Em consequência disso, o homem que em si desenvolveu tal consciência, com suas observações e ambições egocêntricas, colide com alguém semelhante a si, alguém que bloqueia seu caminho, e eis que é perfeitamente natural que esteja inclinado a dizer a este: “Eu existo, não me aborreça. Você e sua existência interferem na minha vida; desapareça suma da minha frente”.

Na razão inferior desenvolve-se também a qualidade de não pensar em si de maneira desapaixonada, mas com certa autossatisfação provocada pelos resultados obtidos por meio do esforço, na consciência de seu próprio esforço, de seu próprio poder e superioridade. O espírito do orgulho auto-afirmado é um atributo deveras natural da razão inferior humana. A razão inferior torna-se inclinada a valorizar a verdade não enquanto tal, mas como sua própria criação, e eis porque na grande maioria dos casos ela perde o verdadeiro critério que distingue a verdade da ilusão.

Além disso, o intelecto humano é educado numa atmosfera muito distante daquela que no homem conduziria a uma especulação imparcial, inobscura. Esta atmosfera na qual as pessoas vivem, inclusive os filósofos, é uma atmosfera de presunção, e todos sabemos como é difícil e às vezes mesmo impossível de dissociar-se das sociedades presunçosas inerentes a esta ratio.

As pessoas se enganam redondamente ao supor que o intelecto humano tem a qualidade de sempre ser objetivo, que ele pode facilmente livrar-se das tais sociedades que mencionamos. Mesmo as mentes mais brilhantes não estão livres de erros pois consideram como livres decisões de suas consciências as conclusões a que chegam, as quais, na verdade, enraízam-se na sede do intelecto em glorificar-se a si mesmo e atribuir importância exagerada a seus próprios poderes.

Consideremos agora a razão superior. A verdade basilar, a que determina o sentido da vida, a que ilumina a consciência humana com sua luz, procede não do pensamento racional, mas do coração do homem (de sua esfera emocional). O coração apreende a verdade de uma maneira especialmente sua, por meio de um processo especialmente próprio de penetração, de intuição especial, a qual para nosso cérebro é algo elusivo e incompreensível. Este processo de penetração intuitiva – um processo cuja raiz (alimento) reside na esfera das emoções (das emoções superiores), um processo concebido no coração, impoluto pelas paixões malignas, mas sim combatendo-as – consiste a obra da razão superior, o germe da qual vive no coração de todos os homens. O germe da razão superior que vive no interior do coração pode ser desenvolvido pelo homem a ponto de atingir a consciência, isto é, a sensação do “eu” superior do homem, complemente independente do cérebro, na esfera de seu coração.

Durante a oração mental a pessoa que reza deve extinguir a consciência de sua razão inferior (consciência cerebral) e acender sua outra consciência – a consciência da vida do coração. Somente durante a oração, graças à influência da graça divina, a vida da razão superior pode manifestar-se de alguma forma sua plenitude e força. A percepção desta vida sob estas condições é tão intensa que o homem torna-se incônscio de sua consciência cerebral (ratio).

Em cada um de nós cintila o germe desta razão superior – razão que pode desenvolver-se nos sentimentos exaltados do coração – sentimentos de amor e unidade. Mas a consciência disto não é dada a todos, pois nossa vida passa-se inteiramente na esfera racional (na esfera mental), profundamente envenenada pelo egoísmo de cada um de nós. E a imensa maioria das pessoas vive semi-anestesiada deste “eu” superior, semi-anestesiada de sua razão superior. Mas se por algum motivo ou circunstância na vida do homem sua razão superior deixa sua condição letárgica, e por isso esta razão começa a crescer nele, então todo seu ser, todas as suas percepções acerca do mundo e seus arredores, toda sua sabedoria, transformam-se. O homem como que renasce. Aspirando em seu coração ao Logos, ele começa a entregar-se a um propósito grandioso, a um serviço grandioso.

Note-se que tal desenvolvimento da razão superior se dá de maneira totalmente independente ao desenvolvimento intelectual do homem.

Versemos sobre as principais qualidades características da razão superior.

Uma das características basilares é a capacidade de sentir e conhecer a Deus. Note-se que na grande maioria dos casos, o processo de perceber a Deus não é alcançado de maneira repentina, mas por meio de um desenvolvimento consistente e gradual. O germe da razão superior começa a crescer, aquecido pelos raios do poder super-universal chamado pelos teólogos cristãos de graça divina. E eis que se desenvolve a capacidade nesta razão de sentir a Divindade. Esta primeira e vaga sensação da Divindade transforma-se em uma poderosa emoção em direção a Deus.

A algumas pessoas especialmente dotadas que progridem em direção à perfeição por meio de empenhos sublimes (esforço espiritual) dentro dos quais pode se desenvolver uma faculdade especial da razão superior – a faculdade da “visão espiritual” penetrar no mundo espiritual superior, faculdade essa que chamo de super-consciência espiritual.

É precisamente na ação da graça divina em que consiste a diferença esta super-consciência e a super-consciência mental (natural), cujo órgão – o intelecto ou razão inferior – reside no cérebro. (É com esta super-consciência mental que um yogi se empenha em domar os poderes astrais e mentais, por meio de sua influência pessoal e por meio dos impulsos que brotam de si mesmo, do yogi, e não da graça divina que ofuscam o asceta cristão).

A faculdade da razão superior para a super-consciência espiritual pode engendrar ainda outras faculdades místicas – a faculdade da clarividência, das profecias, das visões espirituais, dos chamados milagres, e dos êxtases espirituais superiores. Estas faculdades muitas vezes são involuntárias e inesperadas. No entanto, os yogis (e os ocultistas) obtêm estas faculdades, conforme afirmado pelo asceta hindu Vivekananda, mediante exercícios cerebrais – são obtidos mediante uma ginástica dos poderes psíquicos, tendo como alvo levar a pessoa a uma percepção e influência ultrafísica pré-determinada.

Uma das qualidades mais refinadas e superiores da razão superior, a qual em nossa época tem sido especialmente sufocada, é a presença da consciência interior. Esta consciência interior é um sentimento especial de temor à repreensão interior. Em nossa época, esta consciência, este sentimento sublime do coração, é substituído na grande maioria dos casos por outra consciência, por outra sensação, característica da razão inferior, que é um temor não de repreensão interior, mas de repreensão exterior, ou seja, temor de um julgamento enunciado pelas pessoas ao redor, temor de sentir seu amor próprio e sua presunção feridos.

Outra qualidade característica da razão superior é sua inusitada simplicidade. Todos nós sabemos por experiência própria como é convoluto e excêntrico o raciocínio humano, e como adorna-se de inúmeras e complexas associações de ideias intrusas. Diametralmente oposta a esta complexidade, a razão superior possui a qualidade da simplicidade.

Interessante notar que uma das características da razão superior no que tange a relação com o mundo exterior, uma característica marcadamente distinta, é a ambição pelo sacrifício, pois esta razão é alimentada pelo amor divino, é alimentada por emoções sublimes, cuja natureza consiste em esquecer-se completamente em benefício do próximo. Enquanto isso, a natureza da razão inferior inclina-se, ao contrário, a revelar-se não em sacrifícios, mas em compreender, alcançar, dominar, em esforçar-se para a superioridade egocêntrica, em esforçar-se em conquistar poder e bens materiais.

Por fim, cabe lembrar que a razão superior, aliada a seu crescimento e desenvolvimento, também possui a qualidade de modificar a própria ratio, de convertê-la a si, de adaptar a razão inferior a seus propósitos superiores.

Fonte: Mitrofan Lodyzhensky, Light Invisible, Holy Trinity Publications, Jordanville, NY, EUA, 2011. Pág. xiii-xxvii. Trechos selecionados.

25 de dezembro de 2017

A psicoterapia de Albert Ellis























Fonte: Albert Ellis & Robert Harper, A Guide to Rational Living, 3a edição, 1997, Wilshire Book Co., Woodland Hills, CA, EUA.

20 de novembro de 2017

Breve introdução à fenomenologia


1.    O que Husserl entende por fenômeno? Antes de tudo, fenômeno não significa os estados mentais, esses estados reais que constituem meu psiquismo. Também não se trata de fenômenos no sentido de que sejam o aparente de uma coisa que está para além de sua própria aparência. Para Husserl, fenômeno é simplesmente o que é manifesto enquanto é manifesto. Em virtude disso, todo fenômeno envolve necessariamente aquele diante do qual é fenômeno; todo “manifestar-se” é necessariamente manifestar-se para alguém. Desde já é claro para Husserl que fenômeno e consciência são dois termos correlativos: toda consciência é consciência de algo, e este algo é o fenômeno que se dá naquela consciência. Pois bem: o ego, quando fica a sós consigo mesmo, reduz toda realidade à condição de fenômeno.

2.    Como se trata de uma redução de tudo a puro fenômeno, Husserl a chama de redução fenomenológica.

a.    A posição de Husserl é clara: a redução atua sobre a totalidade do mundo enquanto tal. Para o homem que vive em atitude natural, mundo é a totalidade das coisas reais dentro das quais eu mesmo me encontro como uma realidade entre elas. A vida natural, portanto, é suportada por uma “protocrença” na realidade de tudo; toda crença ulterior está montada sobre a protocrença. Pois bem: a redução opera sobre essa protocrença, quer dizer, sobre o mundo inteiro, e consiste em deixá-la em suspenso.

b.    Não se trata de abandonar pura e simplesmente esse mundo real – quer dizer, não se trata de crer que ele não tem existência. Trata-se, pelo contrário, de continuar a vivê-lo e a viver nele, mas de adotar, enquanto o vivo, uma atitude especial: pôr em suspenso a validez da crença em sua realidade. Não abandono, portanto, a vida real; permaneço nela, em toda a sua riqueza e detalhe, nas variedades de cada vivência. Mas sem crer em sua realidade. A redução consiste, portanto, em reduzir o mundo real inteiro a algo que não é a realidade; por essa operação, tenho um mundo reduzido. Não perco nada do que é real: perco apenas seu caráter de realidade. A que, então, o mundo fica reduzido? Justamente a ser apenas aquilo que aparece em minha consciência e enquanto me aparece – quer dizer, fica reduzido a puro fenômeno. A redução, portanto, é fenomenológica.

Essa redução tem duas dimensões. Em primeiro lugar, em vez do puro fato, temos o eîdos. Se neste vermelho de fato prescindo de que seja “de fato” vermelho, fico apenas com “o” vermelho. Este eîdos não é pura e simplesmente um “conceito” geral. Não entremos, neste momento, na exposição do que seja a concepção husserliana de eîdos e de sua visão. Basta o já dito para dar a entender que a redução fenomenológica é, antes de tudo e sobretudo, uma redução eidética – uma redução do fáctido ao eidético.

Mas não é só isso. O mais importante é que a realidade é reduzida em seu próprio caráter de realidade. Com isso, o mundo reduzido a fenômeno se mostra perfeitamente irreal. Mas irreal não significa fictício ou coisa parecida. Significa apenas que prescinde, por epoché, de toda alusão à realidade. Para Husserl, isso não é uma perda, e sim, como veremos a seguir, um conseguimento definitivo, porque sabendo o que é “o” vermelho em si mesmo, irrealmente, tenho com isso o “metro” segundo o qual são, não são ou são em parte vermelhas todas as coisas vermelhas que há ou pode haver no mundo. Nesta dimensão, a redução não é apenas eidética, mas é transcendental. E isso em duplo sentido.  Em primeiro lugar, aquele metro da realidade se manifesta apenas em e por uma consciência subjetiva. Enquanto é esta subjetividade o que constitui as condições das coisas, é uma subjetividade transcendental. Em segundo lugar, a redução é transcendental porque desde os tempos mais remotos se chama transcendental àquilo que constitui a “propriedade” em que tudo coincide pelo mero fato de ser. Pois bem: pela redução, tudo é e somente é fenômeno. Daí que a fenomenalidade seja o caráter transcendental supremo.

A metafísica clássica tinha falado até a exaustão de transcendência. Mas entendia que transcender é ir da realidade do mundo a uma causa transcendente que o explique. Pois bem: essa causa transcendente, se algo havemos de saber dela, precisaria se manifestar em uma consciência. E, ainda que fosse assim, a função da fenomenologia não consiste em “explicar” o mundo com essa causa, mas tão somente em “compreender” o que é. A fenomenologia não explica nada pela simples razão de que toda explicação é interna ao mundo, e a fenomenologia transcende o mundo inteiro não para sair dele, senão justamente o contrário, para permanecer nele, mas de outra maneira: vendo como ele se manifesta para nós.

A nova atitude que Husserl defende se traduz, portanto, em um único conceito: redução a fenômeno puro. Reduzido o mundo inteiro a mero fenômeno, qual é o campo de investigação filosófica que essa atitude nos abre, quer dizer, em que consiste mais precisamente o objeto da filosofia?

3.    Consideremos esta pasta verde. Naturalmente, sempre é discutível se esta pasta é verde ou até que ponto não é. Já não sabemos se a pasta é verde. Ficamos somente com o fenômeno “verde”. O que é que sabemos então? Não sabemos se a pasta é verde, mas sabemos o que é o verde, o que é ser verde. Pois bem: o que desde o tempo dos primeiros gregos até nossos dias constitui o “que” de algo é que se chamou de sua “essência”. E a essência é aquilo que uma coisa “é”. Essência é o ser das coisas. Por isso o resultado da redução fenomenológica é a descoberta da essência do ser. Em sua dupla dimensão eidética e transcendental, o fenômeno puro é essência, é ser: ser homem, ser pedra, ser cavalo, ser astro, ser verde, etc. Em troca de haver colocado entre parênteses a realidade das coisas sustentada pela crença fundamental, o que ganhamos é nada menos que o próprio ser das coisas: sua essência. E este é o objeto da filosofia.

O possível caráter alucinatório ou real do objeto da percepção é perfeitamente indiferente. O que “é” o verde é indiferente a que a coisa seja ou não realmente verde. A consciência em redução basta a si mesma; é o único ente que não precisa de nenhum outro para ser. É, portanto, o único ser absoluto.

Mas isto é ainda uma afirmação vaga. Ter descoberto esse objeto absoluto que é a essência ainda não é o mesmo que ter demonstrado como é possível um saber absoluto a respeito dela.

4.    Consequentemente, a primeira coisa que Husserl nos há dizer é o que ele entende por isso que chama de consciência.

Antes de tudo: não se trata da consciência no sentido da psicologia. Para a psicologia, a consciência é uma atividade mental que tem seus momentos e mecanismos próprios. A atividade mental quer, pensa, sente, recorda, percebe, tem paixões, emoções etc. Esses mecanismos envolvem também componentes somáticos da mais diversa ordem: receptores, como hoje diríamos, processos cerebrais etc. Tudo isso, com efeito, são os “mecanismos” da consciência, mas não a própria consciência. O que é a consciência que com esses mecanismos consegui ter é algo que a psicologia como ciência natural sempre eludiu. Pois bem: sejam quais forem os mecanismos psicofisiológicos que produzem a consciência, esta é, em sua pureza primária, um mero “dar-se conta”, precisamente enquanto puro dar-se conta de algo. Daí o erro fundamental que neste ponto Husserl reprocha ao psicologismo: a naturalização da consciência, o haver transformado o simples momento de me dar conta de algo em um sistema de mecanismos que no máximo poderão explicar como chego a me dar conta. Reduzida a atividade mental a esse momento de puro dar-me conta, encontro-me instalado na consciência pura.

5.    A consciência pura, a “consciência-de”, é algo que só é consciência enquanto o é “de” algo. Toda consciência está dirigida para algo. E esse “dirigir-se para algo” é o que desde tempos imemoriais se vinha chamando de intencionalidade.

a.    Antes de tudo, a intencionalidade é esse momento segundo o qual a consciência é algo que só o é “de” outro algo. Neste aspecto, a consciência é uma intentio, ou, como diz Husserl, é uma noese. Não se trata de que a consciência como intentio seja algo concluso como ato meu que é, e que depois se estabelecesse uma relação com algo que não é ela mesma, e que está para além dela, relação que se expressaria no “de”. Dito em outras palavras: o “de” não é uma relação da intentio ao objeto, mas a própria estrutura da intentio.

Mas, apesar de verdadeiro, isso não é suficiente para Husserl. Mais ainda (e isto é o essencial), a consciência é o que faz com que haja objeto intencional para ela; a consciência não só tem um objeto, mas faz com que haja objeto intencional para ela, e o faz a partir dela mesma. Não é que a intentio produza desde si mesma o conteúdo do objeto – seria um subjetivismo que Husserl rechaça energicamente. Mas o que a intentio, e só a intentio, faz é fundar a possibilidade da manifestação do objeto intencional tal como ele é em si mesmo. Esta é a criação de Husserl: a intencionalidade não é apenas “intrínseca” à consciência, mas um a priori com respeito a seu objeto, onde a priori significa que a consciência funda desde si mesma a manifestação de seu objeto. E este fenômeno de intencionalidade é o que tematicamente Husserl chama de vivência.

b.    Precisamente porque a consciência é intencionalidade, ela tem como termo seu um objeto que é seu intentum próprio, o que Husserl chama de noema. O noema não é “conteúdo”, mas mero “termo” intencional da consciência, algo que é manifesto nela, mas que não é ela mesma nem parte dela. Esse termo intencional tem três características. Antes de tudo, o que acabamos de dizer: é algo “independente” da consciência. Na consciência, seu noema se manifesta a nós tal como é em si mesmo, quer dizer, com plena objetividade. Objetividade não é realidade: toda realidade ficou entre parênteses em seu caráter de realidade, mas permaneceu intacta no que é em si mesma. Esse permanecer intacto é o que constitui a objetividade. Mas, em segundo lugar, o noema, objetivamente manifesto à noese da consciência, só pode dar-se nela. Posta a realidade entre parênteses, o fenômeno só pode ser o que é como termo objetivo da consciência. Finalmente, como dissemos antes, o noema não só se dá na minha consciência, mas se dá em virtude da própria consciência, fundado nela.

c.    Como não se dão um sem o outro, esses dois momentos de noese e noema têm uma unidade intrínseca peculiar. Precisamente porque a consciência é intentio, vai “dirigida” para seu noema, o que constitui, portanto, o “sentido” de tal intenção para mim. A unidade noético-noemática tem, assim, um caráter extremamente preciso: é unidade de “sentido”. A intentio é o que abre a área do sentido objetivo do noema, o qual é, então, o sentido objetivo da intentio. O sentido no noema não depende da consciência, mas do próprio noema. Mas que o objeto seja sentido noemático, isso se deve à consciência. A unidade de sentido objetivo do noema é justamente o que, segundo Husserl, é o “ser”. Ao dizermos que o que nos é manifesto é de uma maneira ou de outra, o que estamos dizendo é que esse e não outro é seu sentido objetivo. Ser é unidade de sentido objetivo. Vimos antes que o noema, o puro fenômeno, é ser como essência. Pois bem: a essência da essência é “ser” como sentido objetivo. Como tal, o ser se funda na própria consciência.

Essa é, delineada em traços gerais, a estrutura da consciência pura, segundo Husserl.

6.    Mas Husserl não pode por deter-se aqui: ele precisa buscar nessa consciência pura a possibilidade de um saber absoluto. Para isso, precisa entrar nos modos de consciência em que se pode constituir esse saber. Há intenções muito diferentes. Há intenções vazias, intenções em que seu objeto não está dado presentemente à consciência; por exemplo, o simples “mencionar” um objeto ou aludir a ele. Outras vezes, o objeto está presentemente dado à consciência, mas pode estar de diversas maneiras. Se reconheço um amigo em uma fotografia, tenho presentemente dado o amigo. Mas, neste caso, o termo do “de” é “mediato”: minha intenção vai in modo recto ao amigo, mas através da própria fotografia. Outras vezes, o objeto está “imediatamente” presente – por exemplo, quando recordo um objeto que vi antes. Mas essa imediatez não é o fundamental. Há vezes, de fato, em que o objeto está imediatamente dado, mas “originalmente”; é o objeto presente “em carne e osso” por assim dizer. Pois bem, a intenção de um objeto imediata e originalmente dado à consciência é o que Husserl chama de intuição.

Mas para Husserl não se trata da intuição como simpatia ou simbiose da consciência com as coisas. Para Husserl, essa intuição seria “mundanal”, porque é a simpatia real com objetos igualmente reais. Husserl pôs “entre parênteses” todo o mundo real. A intenção é então pura e simplesmente o ver o manifesto originalmente manifestado, e tão somente enquanto manifestado, quer dizer, como mero correlato intencional da consciência pura.

Como fato mundano, a visão de um amigo me dá apenas esse amigo. Mas, reduzida a fenômeno, essa visão me dá algo mais: dá-me a visão, por exemplo, do humano, assim como a visão desta cor vermelha, reduzida a fenômeno, me dá não apenas “este” vermelho, mas o vermelho, etc. É uma intuição “ideacional”, porque me dá o eîdos do objeto. Essa intuição é imediata. É verdade que para isso preciso também intuir “esta” cor vermelha, mas nela vejo não só “este” vermelho, mas também o vermelho.

Todas essas intenções não se encontram apenas justapostas. Pois as intenções que não são intuitivas podem, no entanto, ser preenchidas com uma intuição. É o ato que Husserl chama de “repleção”. Pois bem: a repleção de uma intenção intuitiva com a intuição correspondente é justamente a “evidência”. E, justamente por isso, o correlato intencional da evidência é a verdade: na intenção intuitivamente evidenciada, o ser e a intenção coincidem. A evidência não é para Husserl – como não tinha sido para o racionalismo – uma propriedade exclusiva dos atos “lógicos”; não é apenas a inclusão de um predicado em um sujeito. A evidência é a repleção de uma intenção em seu objeto intuitivamente dado. A evidência lógica é apenas um minúsculo caso particular da evidência intencional. Todo ato de consciência, da índole que seja, se está repleto por uma intuição, é evidente; há assim uma evidência dos valores, etc. A evidência é um momento estrutural da consciência e não apenas do pensamento lógico.

Suposto isto, Husserl já tem nas mãos todos os elementos de que necessita para chegar a uma ciência estrita e rigorosa da essência, isto é, do ser das coisas – essa ciência é o saber absoluto em que consiste a filosofia para Husserl.

7.    Pois bem, a filosofia não é uma intuição passiva do que tenho dado em um momento na consciência. Muito pelo contrário, é esforço ativíssimo. Precisamente porque a intuição recai sobre objetos não transcendentes, mas intencionalmente imanentes à consciência pura, “eu posso” sempre executar livremente sobre eles toda classe de atos; posso variá-los intencionalmente. Toda consciência, além de manifestar seu objeto, é um “eu posso” torná-lo mais manifesto. A consciência não apenas manifesta, mas faz manifestar-se o objeto. Esse “poder” é de índole intencional. Não é o poder ter intenções, mas o ter a intenção de poder tê-las. O “poder” intencional é essencial ao eu; todo eu é não apenas um “eu intuo”, mas um “eu posso intuir”. É que todo objeto, além de nos dar o que atualmente nos dá, é algo que por sua própria índole prefixa suas possíveis manifestações ulteriores. Dito em outras palavras: junto às intenções “atuais”, há as intenções “potenciais”, que prefixam os sentidos implícitos que competem a cada tipo de objeto determinado. A intenção potencial não é a possibilidade de uma intenção qualquer, mas a intenção de possibilidades determinadas pela índole do objeto. Cada intenção atual prefixa as intenções possíveis, e por sua vez cada intenção possível prefixa o curso de sua repleção em ulteriores intenções atuais. Dessa maneira, cada intenção e cada intuição é ao mesmo tempo o correlato de um “eu posso”. O correlato objetivo do “eu posso” é o que Husserl chama de horizonte. Todo objeto, além de nos dar o que nos dá em um momento, abre um horizonte próprio de possibilidades de manifestação. Com isso, abre-se diante de nossa consciência um campo infinito de investigação, de esforço intuitivo ativo. E, como, dentro desse horizonte, se prefixa o âmbito das ulteriores intenções atuais do próprio objeto, sucede que as intenções constituem um sistema e não um caos arbitrário. O caráter sistemático das vivências intencionais tem como correlato objetivo a estrutura sistemática do objeto e de sua conexão com outros objetos. E esse sistema objetivo é o que propriamente constitui a essência, o ser do objeto.

Dessa maneira, abre-se diante de mim um campo infinito de saber absoluto, em que vou adquirindo progressiva e dificultosamente a versão de toda intenção à sua forma intuitiva e ao enriquecimento da própria intuição. O conseguimento de evidências absolutas e cada vez mais adequadas é um esforço penoso. É uma verdadeira experiência: a experiência fenomenológica.

Nela consiste a filosofia. A filosofia não é um sistema racional e lógico de proposições e demonstrações: é evidenciação intuitiva, uma evidenciação que não se fundamenta em pontos de vista pessoais, mas em um apelo objetivo à intuição, no qual nosso saber encontra sua última e estrita verdade absoluta. Esta ciência absoluta dos fenômenos em seu sistema é a filosofia. A filosofia é sempre e apenas “fenomenologia transcendental”. Aí está o que Husserl buscava.

Fonte: Xavier Zubiri, Cinco Lições de Filosofia, É Realizações, São Paulo, 2012.pág. 213-230, trechos selecionados.

3 de novembro de 2017

Kant e o caráter ambivalente da metafísica

Para saber se uma série de saberes efetivamente empreendeu “a marcha segura…o real caminho de uma ciência”, basta prestar atenção a seu conteúdo e aos resultados alcançados. Será ciencia: 1°, se existe verdade nos resultados obtidos; 2°, se existem não apenas resultados verdadeiros, mas também, além disso, uma direção fixa, um método, na investigação da verdade; 3°, se cada verdade assim conquistada aumenta o saber anterior, e não simplesmente o destrói, isto é, se a marcha, de acordó com aquele método, é realmente progressiva. Certamente poderá haver oscilações, poderá haver saberes duvidosos, poderá haver retificações parciais, às vezes muito profundas; mas, definitivamente, tomada em seu conjunto, a ciencia vai se compondo de verdades já estabelecidas. Verdade, método e progresso firme: essas são as características daquilo que chamamos de ciêmcia.

A lógica entrou exemplarmente no real caminho da ciencia. Em segundo lugar, a matemática. Em linha reta, por assim dizer, de Galileu a Newton, a física se constitui em um corpo de doutrina sólidamente estabelecida e que progride com firmeza. Kant insinua que, em sua época, a mesma coisa começou a acontecer com a química graças a Stahl.

Apesar de toda sua apodêixis [argumentação, caráter demonstrativo], o que há na metafísica que não esteja submetido a discussão sem chegar nunca a clarezas últimas? Qual é o conjunto de conhecimentos do qual se pode dizer, com rigor, que se trata de algo já estabelecido, com respeito ao qual todos os filósofos estão de acordo? A metafísica ofrece o triste espetáculo de ainda não ter entrado no caminho seguro da ciência.

Compreende-se que, diante dessa situação, Kant nos diga que a filosofía não entrou ainda no caminho seguro da ciência. No entanto, diz-nos, “enquanto houver homens no mundo, haverá metafísica”, porque a metafísica é uma “disposição fundamental” da natureza humana.

Pois bem; um exame atento dos principios da metafísica nos mostra que todos eles são sintéticos. Assim, por exemplo, “tudo o que acontece tem uma causa” é um juízo sintético. Pois do conceito de uma “coisa” jamais sairá por análise o conceito de “outra” coisa que fosse sua causa. A verdade daquele juízo não se funda em evidencia. Também não se funda em um recurso aos objetos. A experiência, dizia Kant seguindo Hume, nos mostra que uma coisa vem depois de outra, mas não mostra jamais que o antecedente seja causa do consequente. No entanto, esse é um juízo que expressa uma necessidade absoluta com uma verdade independente de qualquer experiência. É, portanto, um juízo sintético a priori. Quer dizer, sua verdade se encontra fundada não no objeto nem na evidência, mas em um principio diferente.

Definitivamente, o emprego de ciências como a matemática e a física nos mostrou que o entendimento tem juízos sintéticos a priori. Isso quer dizer que nesses conhecimentos é o entendimento o que determina de antemão os objetos, por um principio que não é a evidência nem eperiência, mas um principio diferente. E a análise dos primeiros juízos metafísicos nos fez ver, igualmente, que sua verdade também está fundada no fato de que é o entendimento que determina, de uma forma ou de outra, o objeto. Este é o sentido da revolução copernicana de que Kant nos fala.

Esta fórmula significa simplesmente que o problema está em averiguar qual é e como é este principio cuja índole consiste não em que o entendimento gire em torno dos objetos adequando-se a eles, mas em que os objetos girem em torno do entendimento e que seja este o que os determine.

Trata-se de um movimento em dois tempos, por assim dizer. Primeiro, as categorias são descobertas por “regressão” desde o objeto até seus supostos últimos, isto é, até o “eu penso”. Depois, por “descida”, baixa-se do “eu penso” até a constituição do objeto enquanto tal. Este é  método que Kant chama de método transcedental.

Para Kant, é isso o que explica o caráter ambivalente do que é metafísico em orden ao conhecimento. Por um lado, não alcança as coisas tais como elas são; mas, por outro, é inevitável, porque da própria estrutura da experiência dos objetos parte o ímpeto pelo qual temos de forjar para nós uma Ideia da totalidade de objetos de toda possível experiência. E o polo, o farol que ilumina, orienta e dirige esse ímpeto, é a Ideia – Ideia do Mundo, da Alma, de Deus. Em contrapartida, pretender que essas Ideias sejam conceitos aplicáveis a algo dado, ou seja, pretender que elas sirvam para explicar, para entender como são as coisas em si mesmas, na medida em que constituem uma totalidade última, e além disso uma totalidade última causada por uma causa primeira, é a tentativa que só conduziu a antinomias, cuja raíz última está em considerar a totalidade dos objetos como se fosse mais um magno objeto, submetido, portanto, às condições de conhecimento dos objetos que fazem parte dessa totalidade. Certamente, eu posso pensar que a totalidade dos objetos consiste em ser sistemas de coisas em si, mas esse pensamento não é conhecimento, no sentido estrito que essa palabra tem para Kant.

Fonte: Xavier Zubiri, Cinco Lições de Filosofia, É Realizações, São Paulo, 2012.

20 de abril de 2017

Como aprender uma língua estrangeira


 Seguem as algumas notas a respeito do interessante método de aprendizado de línguas estrangeiras de Gabriel Wyner.

I. INTRODUÇÃO
 
PRINCÍPIO 1: MEMÓRIAS MEMORÁVEIS

O cérebro é um filtro sofisticado. Ele descarta informações irrelevantes e absorve informações significativas. As palavras estrangeiras tendem a cair na categoria “informação irrelevante” porque soam esquisitas, não parecem com nada que seja significativo para você e não apresentam nenhuma relação com suas experiências de vida.

Você pode escapar desse filtro e fazer com que as palavras estrangeiras sejam lembradas fazendo três coisas:

  • Aprender o sistema sonoro da língua
  • Associar esses sons a imagens
  •  Associar essas imagens com suas experiências pasadas

PRINCÍPIO 2: MAXIMIZANDO A PREGUIÇA

O processo de repetição é uma coisa chata, enfadonha. Ele simplesmente não funciona como processo de memorização de longo prazo.

Ao invés disso, vá pelo caminho da preguiça: estude o conceito até o ponto em que você seja capaz de repeti-lo sem olhar e então pare. Afinal, preguiça também é sinônimo de “eficiente”.

PRINCÍPIO 3: NÃO REVEJA. RECORDE.

O ato de recordação faz com que seja disparado uma espécie de “dança química” complexa no seu cérebro, o que faz com que a capacidade de retenção da memória seja intensificada.

Para maximizar essa eficiência, passe a maior parte do seu tempo recordando, e não revisando.

Você vai conseguir fazer isso criando flashcards que testem sua capacidade de recordar uma determinada palavra, pronúncia ou construção gramatical. Quando os associamos a imagens e conexões pessoais, esses flashcards vão formar os fundamentos de um poderoso sistema de memorização.

PRINCÍPIO 4: PERAÍ, PERAÍ! NÃO FALA!

Os testes de memória são mais eficientes quando são desafiadores. Quanto mais próximo você estiver de esquecer uma palavra, mais enraizada ela vai ficar quando você enfim conseguir se lembrar dela.

Se você conseguir se testar no momento exato antes de se esquecer, você vai conseguir dobrar a eficácia dos testes.

PRINCÍPIO 5: REESCREVENDO O PASSADO

Toda vez que você consegue recordar uma determinada memória, você volta a visitar e a reescrever as experiências anteriores, acrescentando pedaços do seu presente às suas memórias passadas.

A melhor maneira de praticar a recordação é tornar suas memórias cada vez mais memoráveis. Para fazer isso, você deve associar sons, imagens e conexões pessoais a todas as palavras que você quiser aprender.

Se acontecer de você esquecer, o feedback imediato vai trazer suas memórias esquecidas de volta.

TEMPO É TUDO: O FIM DO ESQUECIMENTO

Os sistemas de repetição espaçada (SRS) são como flashcards com esteroides. Eles superalimentam a memorização ao monitorar de maneira automática seu progresso e usando essa informação para desenvolver uma lista diária e personalizada de novas palavras para aprender e velhas palavras para revisar.

Recursos:

II. PRONÚNCIA


Seu cérebro foi interconectado de tal forma a ignorar as diferenças entre os sons estrangeiros. Para reconectá-lo você deve ouvir os pares mínimos da língua que deseja aprender – são as palavras com sons similares como niece e knees – e se autotestar até que seu cérebro se adapte a ouvir estes novos sons.

Ao praticar estes testes você estará se capacitando a reconhecer as palavras quando elas forem faladas além de facilitar sua memorização.

A impressão que passamos aos outros é importante, e seu sotaque é a primeira impressão que você passa. Um bom sotaque faz a diferença entre uma conversa que começa em francês e termina em inglês e outra que seja completamente em francês.

Melhore seu sotaque aprendendo os ingredientes básicos – língua, lábios e cordas vocais – de todos os sons que forem necessários. Essa informação você encontra no International Phonetic Alphabet.

Todo idioma possui um padrão que relaciona a ortografia com a pronúncia. Se você conseguir internalizar esse padrão e torná-lo automático você vai economizar muito tempo e esforço.

A melhor maneira de internalizar esse padrão é utilizar um SRS. Crie flashcards para memorizar todos os padrões de ortografia e pronúncia que precisar.

Recursos principais:

2)      Concentre-se nos símbolos do IPA do seu idioma para usar como “ponte” para o idioma que quer aprender: aqui, aqui e aqui. 
3)      Familiarizar-se com os símbolos IPA e sons mais difíceis do idioma que quer aprender: Latin American Spanish (aqui, aqui e aqui), Russian (aqui, aqui e aqui).
4)      Entender a pesquisa que fundamentou os Pronunciation Trainers:
5)      Entender como funcionam os Pronunciation Trainers.
6)      Praticar o Pronunciation Trainer do idioma que quer aprender: 

III. PALAVRAS BÁSICAS


Usamos algumas palavras muito mais do que outras. Aprenda essas antes de mais nada. Uma maneira de fazer isso é encontrar uma lista de frequência com aproximadamente 1000 palavras mais usadas do idioma que quer aprender e memorize-as com imagens, não com traduções. Este será o fundamento que posteriormente você utilizará para aprender palavras abstratas e gramática.

Há duas maneiras para tornar suas palavras mais memoráveis:

  • Pesquisando as estórias que elas contam
  • Conectando essas estórias com a sua vida

Ao criar seus flashcards use a melhor ferramenta do mundo para contar estórias: o GoogleImages. Em seguida, encontre uma conexão entre a palavra e sua própria experiência.

Há muitos idiomas que atribuem de maneira aleatória um gênero gramatical às suas palavras, o que causa muita confusão aos iniciantes. Neste caso, você pode memorizar facilmente esse gênero ao associá-lo a uma ação especialmente vívida e imaginar cada palavra desempenhando essa ação.

Ao criar os flashcards, adicione tanta informação pessoal quanto necessário para tornar aquela palavra mais vívida para você. Por exemplo, acrescente um áudio da pronúncia, e acrescente também palavras que associem a palavra que está aprendendo à sua vida pessoal.

Recursos principais:

  • Lista de frequência de Gabriel Wyner. As 625 palavras mais usadas, em ordemalfabética e por temas. Recomenda-se que encontre as traduções em phrase books ou em livros de gramática, mas nunca de sites de tradução tipo Google Translator.
  • TheMost Awesome Word Lists You Have Ever Seen. A mesma lista, mas com traduções profissionais e de forma a aumentar ainda mais a memorização.
  • Forvo.com, para as pronúncias.
  • Wiktionay, para as transcrições fonéticas.
  • Google Images, para as figuras (México, Rússia). 
  • Google Images versão básica, para contextualizar as palavras e suas traduções. (México e Rússia.
  • Livros:
1.       Dicionários de frequência: A Frequency Dictionary of Spanish, Mark Davies, Russian Learner’s Dictionary, Nicholas Brown.
2.       Vocabulário Temático: Mastering Spanish Vocabulary, Jose Maria Navarro et al., Russian Vocabulary, Eli Hinkel
3.       Livros de Frases (bons para vocabulário simples): Lonely Planet Latin American Spanish Phrasebook, Roberto Esposto, Lonely Planet Russian Phrasebook, James Jenkin et al.

IV. GRAMÁTICA


O aprendizado de línguas se torna mais rápido se você se aproveitar da sua máquina linguística, que é sua ferramenta mental que absorve os padrões que ensinam a gramática da sua língua materna. Essa máquina funciona a partir de dados de entrada compreensíveis, ou seja, de frases que sejam compreensíveis. Portanto, você deve encontrar uma boa fonte de frases simples e claras com traduções e explicações.

As primeiras frases devem vir de um livro de gramática. Essas frases lhe farão um duplo favor: ensinar todas as regras gramaticais conscientemente enquanto sua máquina linguística funciona ao fundo montando um entendimento intuitivo e automático dessa gramática, a qual lhe levará rapidamente à fluência.

Use seu livro de gramática como fonte de frases e diálogos simples. Escolha seus exemplos favoritos de cada regra gramatical. Então decomponha estes exemplos em palavras, formas vocabulares e ordem de palavras. No fim desse processo, você terá um conjunto de flashcards eficientes e fáceis de aprender.

Os idiomas estão cheios de regras complexas e difíceis de aprender. Você conseguirá aprender essas regras com facilidade ao embuti-las em estórias simples e compreensíveis. Quando encontrar uma tabela de declinações confusa em seu livro de gramática, pegue a frase-exemplo mais próxima e use-a para gerar estórias que cubram todas as novas regras que precisar. A ideia, portanto, é que você transforme essas estórias em flashcards ilustrados – os mesmos flashcards de palavras/formas vocabulares/ordem de palavras que versamos acima – e você vai usar esses flashcards para aprender as regras do idioma que está estudando.

Os idiomas quase sempre apresentam grupos de palavras “irregulares” que seguem regras similares. Embora você possa aprender facilmente cada uma dessas regras por meio de estórias ilustradas, você ainda vai precisar saber quais palavras seguem qual regra. Toda vez que você encontrar uma regra capciosa, escolha uma pessoa, ação ou objeto para lhe ajudar a lembrar. Para regras verbais, escolha uma pessoa ou objeto como mnemônico. Para regras ortográficas, escolha uma pessoa ou uma ação. Os adjetivos combinam bem com objetos, advérbios combinam bem com ações.

Use a escrita para testar seus conhecimentos e detectar seus pontos fracos. Use as frases-exemplo de seu livro de gramática como modelos e escreva sobre seus interesses. Envie o que escreveu a uma comunidade online. Transforme todas as correções que receber em flashcards. Fazendo isso você preencherá todas as falhas gramaticais e vocabulares que porventura possuir.

Recursos principais:

  • Lang-8.com
  • Italki.com
  • Livros de gramática:
1.       Practial Spanish Grammar, Marcial Prado
2.       The New Penguin Russian Course, Nicholas Brown

V. FLUÊNCIA


A maneira mais eficiente de aprender vocabulário é aprender as mil palavras mais usadas do idioma que deseja aprender. Se seu desejo é atingir um alto grau de fluência, prossiga até aprender as 1500 a 2000 palavras mais usadas. Uma vez que este fundamento esteja solidamente consolidado, escolha as palavras mais usadas do vocabulário específico que necessita. Faça uso dos livros com vocabulário temático e descubra as palavras mais usadas no contexto que desejar, seja música, negócios, viagens etc.

Faça uso do Google Images para encontrar frases e figuras de qualidade para suas palavras. É rápido, os exemplos são concisos, e as combinações de imagens e palavras são fáceis de memorizar. Se você tiver problemas, ou se estiver longe do computador, escreva suas próprias frases e definições de palavras. Mande-as para correção e use essas correções para aprender gramática e vocabulário. Uma vez que tenha bastante vocabulário memorizado, compre um dicionário monolíngue. Fazendo isso você vai conseguir aprender novas palavras na própria língua que está estudando e, de quebra, vai incrementar seu vocabulário passivo.

Ler sem a ajuda de dicionários é a maneira mais fácil para incrementar seu vocabulário passivo. Na média, um único livro lhe ensinará 300 a 500 palavras apenas pelo contexto. Ao ler um único livro no idioma que está estudando fará com que a leitura de mais livros fique cada vez mais fácil. Ler em conjunto com um audiobook vai lhe ajudar a seguir um texto longo além de lhe expor ao ritmo do idioma que está aprendendo. Isso vai melhorar sua pronúncia, sua capacidade de ouvir e entender, seu vocabulário, sua gramática, enfim, vai ‘bombar” todos os aspectos do seu idioma.

A capacidade de ouvir e entender é uma habilidade necessariamente rápida, o que pode tornar seu aprimoramento especialmente doloroso. Vá aos poucos, desafie-se aos poucos, até que seja capaz de ouvir as mídias mais difíceis e rápidas (rádio, podcasts, TV etc.). Comece com uma série de TV estrangeira interessante ou uma série de TV americana dublada e sem legenda. Para diminuir um pouco a dificuldade, leia os resumos dos episódios antes de assisti-los para se preparar para o vocabulário e para as mudanças repentinas do enredo. Conforme vá incrementando seu grau de entendimento, livre-se dos resumos e posteriormente avance para mídias mais difíceis.

Com o advento da internet e das conexões cada vez mais rápidas, aproveite para praticar a fala. No entanto, siga a regra de ouro do aprendizado de línguas: jamais fale inglês. Dessa forma você será capaz de desenvolver sua fluência com o vocabulário e a gramática que já conhece.

Recursos principais:

  • Lista de frequência.
  • Livros com audiobooks. Harry Potter, por exemplo.
  • Filmes e TV.
  • Verbling.com
  • Livemocha.com

Fonte: Gabriel Wyner, Fluent Forever, Harmony Books, Nova York, EUA, 2014.